24/02/2016

Journal of Sports Sciences: Science and Medicine in Football (Vol. 34/2016)

Nos agora saudosos tempos de faculdade tive, por diversas vezes, de me socorrer de artigos científicos internacionais e, na área das Ciências do Desporto, o Journal of Sports Sciences sempre foi uma referência, quase que obrigatória, para a maioria dos estudantes. Durante a licenciatura, por exemplo, de vez em quando aparecia uma cadeira que exigia pesquisas mais elaboradas e leituras mais demoradas e nem sempre cativantes. Alguns desses trabalhos, do tipo de revisão bibliográfica, aborreciam-me à data e o nome Journal of Sports Sciences era uma constante raramente bem apreciada. A esta distância consigo perceber que o grau de imaturidade académica ainda era elevado.

Figura 1. Capa do Journal of Sports Sciences.

Mais tarde, ao entrar no mercado de trabalho, começaram a surgir algumas questões práticas que queria poder responder, mas não sabia, ou tinha as minhas incertezas. Aquelas perguntas típicas dos 4/5 anos, contudo, aplicadas à vida adulta profissional: «porquê?», «onde?», «quando?» e «como?». Fui à descoberta de respostas no mestrado e a necessidade de investigar, saber mais, estar atualizado, tornou-se insaciável. Perguntas que pediam respostas e respostas que geraram novas questões sobre aquilo que mais gosto no desporto: o treino de futebol.

Em meados de 2014, as questões que traduziam as nossas dúvidas eram: (1) Se modificarmos o número e as dimensões dos alvos/balizas em jogos reduzidos, que implicações tem no desempenho defensivo de jovens praticantes de futebol; (2) Será que a manipulação dos alvos nos jogos reduzidos afeta do mesmo modo o desempenho de jovens praticantes com idades e níveis de experiência distintos? No final dessa época – 2013/2014 – fomos para o terreno recolher imagens com miúdos Sub-13 (Infantis) e Sub-15 (Iniciados). A partir de então, em conjunto com os professores Ricardo Duarte, Anna Volossovitch e António Paulo Ferreira (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa), não mais paramos até hoje: data de publicação do artigo «Scoring mode and age-related effects on youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games», no suplemento Science and Medicine in Football do famigerado Journal of Sports Sciences. Aqui vos deixo alguns detalhes sobre o artigo:

Figura 2. Codificação da performance defensiva através do software Match Vision Studio Premium.

Abstract
This study aimed to examine the scoring mode (line goal, double goal or central goal) and age-related effects on the defensive performance of youth soccer players during 4v4 small-sided games (SSGs). Altogether, 16 male players from 2 age groups (U13, n = 8, mean age: 12.61 ± 0.65 years; U15, n = 8, 14.86 ± 0.47 years) were selected as participants. In six independent sessions, participants performed the three SSGs each during 10-min periods. Teams’ defensive performance was analysed at every instant ball possession was regained through the variables: ball-recovery type, ball-recovery sector, configuration of play and defence state. Multinomial logistic regression analysis used in this study revealed the following significant main effects of scoring mode and age: (1) line goal (vs. central goal) increased the odds of regaining possession through tackle and in the defensive midfield sector, and decreased the odds of successful interceptions; (2) double goal (vs. central goal) decreased the odds of regaining possession through turnover won and with elongated playing shapes; (3) the probability of regaining possession through interception significantly decreased with age. Moreover, as youth players move forward in age groups, teams tend to structurally evolve from elongated playing shapes to flattened shapes and, at a behavioural level, from defending in depth to more risky flattened configurations. Overall, by manipulating the scoring mode in SSGs, coaches can promote functional and coadaptive behaviours between teams not only in terms of configurations of play, but also on the pitch locations that teams explore to regain possession.

Keywords: task constraints, performance analysis, configurations of play, collective behaviours, defensive behaviours.

Reference
Almeida, C. H., Duarte, R., Volossovitch, A., & Ferreira, A. P. (2016). Scoring mode and age-related effects of youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games. Journal of Sports Sciences. doi: 10.1080/02640414.2016.1150602 (link)

Pelo enorme trabalho de logística associado ao projeto, pelas frustrações e problemas que tivemos de superar, tanto nas sessões experimentais como nas submissões iniciais que não chegaram a bom porto, e pela fantástica cooperação e solidariedade existente entre todos, expresso os meus sinceros agradecimentos às inúmeras pessoas (jogadores, assistentes, colaboradores e dirigentes) e entidades envolvidas (Juventude Desportiva Monchiquense e Faculdade de Motricidade Humana) neste trabalho. Em especial, uma palavra de apreço para os professores (e coautores) Ricardo, Anna e António Paulo que, apesar de terem as suas agendas mais que preenchidas, nunca colocaram de parte a colaboração no estudo e, de forma abnegada, contribuíram com sugestões absolutamente decisivas para o produto final. É um orgulho poder partilhar esta ocasião convosco.

Espero que os leitores gostem. Para aqueles que têm um papel ativo na área do treino desportivo, em particular nos jogos desportivos coletivos, torço para que estas conclusões sejam úteis e, sobretudo, que estimulem a busca por novas respostas a outras tantas novas questões.

10/02/2016

A sombra do que fomos (2009)


«Luis Sepúlveda regressa aos romances com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores.»

O enredo de três sexagenários que esperam impacientes a chegada de um quarto homem que, na realidade, nunca chegará. Três antigos militantes de esquerda condenados ao exílio por diferenças políticas, mas que, ao contrário de outros, conseguiram sobreviver e, décadas depois, regressar ao seu próprio país.

Figura. Capa de «A sombra do que fomos» de Luis Sepúlveda.

A diferença que faz parte da condição humana, mas que essa condição não respeita e com a qual raramente convive. Censura, critica e absolve. A diferença: o nosso garante enquanto espécie. E a dor, o declínio e a compaixão retratados com mestria, como é apanágio de Luis Sepúlveda.

A foice e o martelo numa chávena de café. Uma sombra.