09/03/2010

Da Ginástica à Culinária em meio-tempo

A ginástica é uma matéria não muito apreciada pela maioria dos alunos de Educação Física, especialmente quando não apresentam determinadas competências básicas adquiridas. Nas turmas do 1º Ciclo que lecciono esse facto não se verifica. Os miúdos gostam mesmo de ginástica.

Numa aula recente de Actividade Física e Desportiva do 3º ano constavam as matérias de basquetebol e ginástica. Na instrução do circuito questionei os alunos sobre os elementos gímnicos que o compunham. Os alunos rapidamente identificaram os rolamentos à frente e à retaguarda, a roda, a ponte e o salto ao eixo, contudo instalou-se a dúvida sobre qual seria o último elemento abordado na aula anterior. Após um brevíssimo período de silêncio, uma aluna ergueu subitamente a voz:

- "Ahh, já me lembro!"

- "Ok, então qual é o elemento?"

Com o dedo indicador em riste, a aluna disparou triunfalmente: - "É a cambalhota salteada!"

Da ginástica havíamos passado para um restício de memória de um qualquer "salteado" perdido nos confins dos lobos temporais do seu cerébro. As crianças são mesmo assim: evocam aquilo que está "à mão de semear". Aos colegas passou-lhes completamente ao lado; nem uma ténue reacção. Provavelmente ainda não experienciaram nem ouviram falar de legumes salteados.

E assim continuámos num rol de cambalhotas para a frente, para a retaguarda e saltadas, "salteadas" num mundo ingénuo, onde só as crianças conseguem ser genuinamente engraçadas.

26/02/2010

O Cuidar de Ser ou Não Ser

Há tempos, um professor afirmou que todos os seres humanos têm um (ou mais) núcleo(s) de excelência (por exemplo, pintar, jogar andebol, tocar bateria, resolver problemas matemáticos, etc.), porém é frequente não serem desenvolvidos ou estimulados por este ou aquele constrangimento.

Já eu acredito que por muito bons que possamos e/ou pensamos ser numa determinada actividade (nem que seja a jogar berlinde no quintal do Tio Alfredo), há sempre por aí alguém melhor do que nós.

Andar com os pés bem assentes no chão, não deixa de ser uma medida bem prudente para evitar quedas desnecessárias.

12/02/2010

A paixão pelo jogo

Muitos são aqueles que gostam de futebol, mas poucos são os que verdadeiramente se apaixonam pelo jogo. A paixão pelo jogo traduz-se não apenas na forma de estar na modalidade, como também fora dela.

Exemplo disso, foi o que um aluno da Escola EB 2,3 de Monchique, também ele jogador da equipa Sub-13 do Juventude Desportiva Monchiquense, escreveu numa aula de Língua Portuguesa. Passo a citar:


VIVER O FUTEBOL

Nasci para a bolar jogar,
O Futebol é a minha vida!
Um lindo sonho sonhado
É um golo bem marcado.

Ouço o "mister" com atenção
Para na baliza acertar,
Bate forte o coração,
Tento um bom golo marcar.

Gooolo! Gooolo!
Que bela palavra mágica!
De feliz, fico tão tolo,
Que faço figura trágica!

E se o golo festejar,
Devo sempre recordar,
Que para bem saber jogar,
Tenho de me empenhar.

Para ser bom jogador,
Devo ter habilidade,
Mas para ser de valor,
Tenho de ter humildade.


Nota: Publicado com o consentimento do autor José Mário Nunes Conceição.

03/02/2010

"Carolice" ou "chulagem"?

O clube cá da terra - JD Monchiquense - vai, arrisco-me a dizer, de "vento em pompa" no que ao futebol diz respeito. Contrariando o despovoamento que o concelho de Monchique tem vindo a sofrer, a direcção do clube e os seus colaboradores (delegados, adjuntos e treinadores) conseguiram formar, na presente época 2009/2010, seis equipas competitivas (Escolas B/Sub-10, Escolas A/Sub-11, Infantis/Sub-13, Iniciados/Sub-15, Juvenis/Sub-17 (futsal) e Séniores) e uma equipas de veteranos.



Nunca na história do clube, fundado em 14-11-1963, houve tantas crianças, jovens e adultos envolvidos no fenómeno desportivo local. Porém, como em qualquer pequena terra que se preze, surgem sempre inúmeras más línguas. De entre os rumores e os boatos que se ouvem em surdina, tal não foi o meu espanto quando me contaram que se diz que os colaboradores só estão no clube porque recebem balúrdios (entenda-se por balúrdios mensalidades a rondar os 200 Euros).

Ora, qualquer pessoa mais atenta em Monchique sabe que, infelizmente, o JDM atravessa graves dificuldades financeiras. A política da actual direcção tem sido pautada por duas linhas orientadoras: (a) reduzir o passivo e (b) apostar nos escalões de formação. É natural que o pouco dinheiro que há seja canalizado para cumprir estes intentos, embora fiquem sempre outras despesas básicas por saldar. Face a esta conjectura, não só os colaboradores não recebem há algum tempo, como as respectivas remunerações nada têm a ver com os "balúrdios" acima mencionados.

A ilação que se pode tirar destas "bocas" infundadas é que a "carolice" e a boa vontade das pessoas têm um preço a pagar e esse, indubitavelmente, é nefasto para quem não quer mais senão contribuir para a formação cívica e o desenvolvimento desportivo de todos aqueles que aprendem, evoluem e jogam no "nosso" Monchiquense.

11/01/2010

Insólito (ou talvez não!)

A CAN Angola 2010 iniciou-se ontem com o jogo Angola 4 - 4 Mali. Por si só, o número de golos marcados na partida não é muito vulgar, porém a marcha do marcador foi ainda mais hilariante. A selecção da casa, orientada pelo português Manuel José, esteve a vencer (4-0) até ao minuto 79. Pois foi! Deixou-se empatar em pouco mais do que 11 minutos.


Esta enorme decepção para o povo angolano e para todos aqueles que, como eu, torcem por Angola nesta competição, levanta uma questão essencial: Quando em vantagem no marcador, qual a melhor forma de manter/segurar um resultado positivo?

Obviamente que não há receitas ou fórmulas mágicas. Depende de muitos factores (e.g., qualidade da equipa adversária, fadiga, capacidade de decisão e execução, controlo emocional dos jogadores, leitura do jogo, experiências passadas e pensamento do treinador, plano estratégico-táctico empregue, entre muitos outros). No entanto, em Portugal fomenta-se aquilo que eu designo de "mentalidade da retranca", isto é, quando em vantagem, tira-se um avançado e coloca-se um defesa central ou um médio de características mais defensivas, defende-se no sector mais recuado e concede-se toda a iniciativa de jogo à equipa contrária. Simplesmente, ao possibilitar que a formação adversária construa jogo e aumente o número de sequências ofensivas, está-se concomitantemente a aumentar a probabilidade de sofrer um golo.

Circula por aí uma "velha máxima" que reza que "a melhor defesa é o ataque". Eu reformularia e diria que "a melhor defesa é o ataque criteriosamente gerido", ou seja, que não implica apenas procurar desalmadamente o golo, mas que manifeste algumas cautelas com possíveis relançamentos do processo ofensivo oponente. O mister Manuel José no final do jogo mostrou-se profundamente desiludido porque pediu aos jogadores que trocassem a bola de pé para pé nos últimos minutos e estes não o conseguiram fazer. Pelo aquilo que me deu a perceber, não só não mantiveram a posse de bola, como não atacaram, como ainda não saíram do seu sector defensivo. Embora a intenção do treinador fosse a manutenção da posse de bola (só ao alcance de equipas de altíssimo nível competitivo), o comportamento colectivo da selecção angolana serviu os interesses da "mentalidade da retranca". Por vezes resulta; ontem não foi o caso.

Por isso, digo e afirmo: insólito, ou talvez não!