13/06/2010

Futebol 11: Um regresso ao passado

Na entrada do século XXI, a maioria das associações regionais de futebol adoptou o Futebol 7 como o contexto competitivo primordial para os escalões de formação de base. Tarde se percebeu que o Futebol 11 era uma situação competitiva que apresenta inúmeras desvantagens para a formação de crianças/jovens na modalidade: o número de vezes que os aprendizes intervêm sobre a bola é reduzido, o número de remates executados é irrisório, a construção de jogo fica extremamente dependente das capacidades físicas dos miúdos mais desenvolvidos, entre outras. Até na marcação de pontapés de canto é vulgar observar um jogador a levantar a bola para outro chutar para o interior da grande área.

A perspicácia e a sensatez de alguns ilustres e a força das conclusões de investigações no âmbito na análise do jogo nos jogos reduzidos, permitiu compreender que o Futebol 7 seria a condição de jogo mais favorável para a aquisição e o aperfeiçoamento de competências táctico-técnicas específicas na base da pirâmide evolutiva da formação. Esta forma competitiva possibilita que as crianças/jovens se relacionem mais com a bola em contexto de jogo, efectuem um maior número de acções de finalização e se envolvam com maior frequência em missões defensivas.

Foto da autoria de Pedro Inácio.

É, portanto, uma variante de jogo adaptada às características dos jovens praticantes e que augura um maior potencial formativo. A própria dinâmica do jogo é muito mais aproximada à observada no jogo de Futebol 11 dos adultos. Apesar disso, e negligenciando todas as evidências teóricas e empíricas existentes sobre a matéria, alguns técnicos e dirigentes pertencentes à Associação de Futebol do Algarve acharam "interessante" e "benéfico" voltar a propor o Futebol 11 aos clubes inscritos no escalão de Infantis (Sub-13). Segundo apurei, o pretexto na base da proposta relacionou-se com a "maior facilidade de adaptação dos jovens ao Futebol 11".

Na minha perspectiva, não é mais do que queimar etapas no processo de formação, fomentando a especialização precoce. É importante que se entenda que a formação não se faz no curto prazo; é preciso tempo para adquirir, desenvolver e consolidar competências. Do escalão de Infantis (Sub-13) até aos Juniores (Sub-19) é tempo mais do que suficiente para que os jovens se adaptem às exigências do Futebol 11. Felizmente, parece que a proposta preconiza a opção de continuar a competir no Futebol 7 para os clubes que assim o entendam. Haja alguma ponta de bom senso no meio deste retrocesso.

Do mal, o menos!

09/05/2010

RESERVADO para... 9 de Maio?

Não foi apenas no Marquês de Pombal (Lisboa) e na Avenida dos Aliados (Porto) que apareceram faixas "Reservado" colocadas pelos adeptos do Sport Lisboa e Benfica. Também em Monchique, no Largo dos Chorões, se fez valer a fé dos sócios e simpatizantes do clube na conquista da Liga Sagres - Época 2009/2010.

Figura: Local reservado pelos adeptos do SLB em Monchique (Largo dos Chorões).

É importante que esta ansiedade seja convenientemente gerida pelos jogadores e pela equipa técnica, porque se é bem verdade que o SLB tem todas as hipóteses para festejar, também são reais as possibilidades de desilusão. Apesar disso, eu creio que, no fundo, o que os adeptos do glorioso queriam mesmo era comemorar em força no dia 9 de Maio. Para a grande maioria é um dia como qualquer outro; para mim, tenho-o como um dia muito especial.

Será um enorme orgulho comemorar a conquista da Liga Sagres 2009/2010 no dia do meu 27º aniversário.

Força BENFICA!

08/05/2010

A chave para o sucesso do Barcelona

O futebol consiste numa dinâmica relacional assente na confluência de uma dimensão mais previsível (leis e princípios de jogo), com outra menos previsível (autonomia decisional dos jogadores) e que deve ser equacionada mediante a adversidade e a peculiaridade dos acontecimentos (Garganta, 2005).

A coesão do grupo de jogadores que constitui um plantel é um factor essencial para alcançar o sucesso desportivo. Nesse sentido, o modo como os jogadores cooperaram para atingir objectivos comuns é uma determinante do rendimento muito explorada pelos treinadores. Ora, actualmente, parece ser mais ou menos consensual que o Barcelona é a melhor equipa do mundo ou, pelo menos, pratica o melhor futebol do planeta. Porém, será que um bom conjunto de "craques" é suficiente para formar uma equipa extraordinária? Como se treina em Camp Nou? O que se incute?

Figura: Ibrahimovic e Piqué apanhados numa animada troca de carinhos.

As evidências sugerem que a essência dos desempenhos dos catalães reside na forma como os jogadores lidam uns com os outros e isso, de facto, transcende os limites do vulgar, do ortodoxo e da normalidade.

Acima de tudo, haja respeito!

Referência Bibliográfica: Garganta, J. (2005). Dos constrangimentos da acção à liberdade de (inter)acção, para um futebol com pés... e cabeça. In D. Araújo (Ed.), O contexto da decisão - A acção táctica no desporto (pp. 179-190). Lisboa: Visão e Contextos.

03/05/2010

3º Seminário de Futebol Infanto-Juvenil, 10-Jun-2010 (Porto)

Para quem se interessa pela formação de jovens desportivas, nomeadamente no futebol, eis uma boa oportunidade para aprender e discutir ideias com alguns profissionais conceituados nesta área.

Caso pretenda mais informações, clique aqui.

23/04/2010

Confusão conceptual: Estratégica vs Táctica

Qualquer adepto e telespectador de futebol encontra-se familiarizado com expressões do género: "o treinador deu a táctica", "é um jogo muito táctico" ou "as equipas estão encaixadas uma na outra". Na realidade, isto acaba por ser música para os nossos ouvidos e é, por isso mesmo, que comentadores como o Rui Santos são pagos para, supostamente, analisar o jogo.

É até demasiado frequente assistirmos à confusão conceptual que é o uso do termo "Táctica", quando, no fundo, se pretende aludir ao conceito de "Estratégia".

Passo a explicar, a táctica diz respeito, em última instância, às acções executadas pelos jogadores no intuito de solucionar problemas contextuais do jogo (por exemplo, a realização de uma cobertura defensiva a um colega de equipa a cumprir o princípio da contenção ou a execução de um passe de ruptura, aproveitando a desorganização da processo defensivo adversário). Antes da acção propriamente dita, pressupõe o funcionamento de mecanismos afectos à leitura do jogo e, eventualmente, à tomada de decisões.

Por sua vez, a estratégia está relacionada com a organização dos procedimentos subjacentes à preparação do jogo e que visa a obtenção de sucesso em competição. A estratégia é implementada pelo treinador, por forma a rentabilizar a performance dos jogadores e da equipa, neutralizando os pontos fortes do adversário e explorando as suas fraquezas. Numa dimensão temporal, a estratégia processa-se previamente ao jogo, enquanto a táctica emerge no decurso do mesmo.

Portanto, são conceitos distintos e facilmente identificáveis no fenómeno desportivo. O sistema de jogo de uma equipa (por exemplo, 1x4x4x2) não é mais do que parte da estratégia adoptada pelo treinador e partilhada com os jogadores; as opções tomadas em competição pelos jogadores são, por seu turno, aspectos tácticos do jogo e são fruto do contexto em que surgem.