25/12/2010

BOAS FESTAS!

Em nome do Linha de Passe, desejo a todos os leitores que amiúde passam por este pequeno espaço virtual um óptimo Natal e um ano de 2011 cheio de saúde e felicidade.

Por muito baixas que estejam as nossas expectativas em relação ao futuro próximo que se avizinha, devemos encará-lo de cabeça erguida e com a força e a determinação suficientes para contornar os problemas que nos assolam. Optimismo, confiança e esperança acima de tudo.

Um grande bem-haja,

Carlos Almeida

12/12/2010

Precariedade da Arbitragem na Formação de Jovens

Nos recentes jogos dos escalões de formação que tenho presenciado (leia-se, Benjamins, Infantis e Iniciados), a arbitragem tem constituído um factor nefasto para o bom desempenho dos jovens praticantes e para a sua respectiva formação.

Do mesmo modo que as competências de um treinador do futebol juvenil não devem ser necessariamente as mesmas do que um treinador do alto rendimento, também os árbitros não devem tratar miúdos de 10-15 anos como se tratassem de adultos. Atenção que não me refiro estritamente a competências técnicas na análise das situações de jogo, mas sim dos comportamentos e das atitudes tomadas perante cenários menos apropriados ou educados da parte dos jovens. Será que a mera exibição do cartão vermelho resolverá o problema? A qualidade do jogo com uma equipa em inferioridade numérica é indutora de uma melhor formação das crianças/jovens?


Entramos, obviamente, no âmbito da Pedagogia do Desporto. Salvo raras excepções, a nossa arbitragem é muito precária nesse sentido. Nos escalões etários referidos, o cumprimento das regras do jogo deve ser mediado pelo bom senso, pela tolerância e pelo exercício a priori do diálogo.

Na minha perspectiva, abolia convictamente a admoestação de cartões amarelos e vermelhos até aos Sub-17. Caso surgissem contextos de reincidência de comportamentos de indisciplina, julgo que os treinadores deveriam ser aconselhados a substituir o jogador em causa, em vez destes serem expulsos e/ou castigados por dois ou três desafios. Haveria lugar à intervenção de outro jovem no jogo, a qualidade da oposição seria, em princípio, mais relevante e o próprio infractor teria mais possibilidades para, em conjunto com a equipa técnica ou psicólogo, corrigir atitudes e comportamentos menos apropriados.

Porque se diz que os melhores treinadores deveriam servir nos escalões de formação de base, os melhores árbitros também deveriam ser nomeados para encontros destas categorias. O futebol português na sua generalidade teria muito a ganhar com isso, ainda que a norma tenda a privilegiar o inverso: pensar no produto, descurando o processo.

30/11/2010

Finalmente, terminada!



RESUMO
O objectivo deste estudo foi caracterizar as sequências ofensivas de grupos de jovens, distintos no nível de experiência no futebol, em duas variantes reduzidas do jogo (Futebol 4 e Futebol 7). Na investigação participaram 30 jovens (11.98 – 13.83 anos), distribuídos por dois grupos, de acordo com a experiência apresentada na prática formal da modalidade. O protocolo experimental foi constituído por três sessões intercaladas por uma semana de interregno. Em cada sessão, os grupos cumpriram 10 minutos de prática por variante de jogo, com 5 minutos de intervalo entre elas. A caracterização das sequências ofensivas foi efectuada através do Sistema de Caracterização das Sequências Ofensivas, composto por indicadores de performance previamente utilizados noutros estudos. Na totalidade dos jogos disputados e em cada variante de jogo, os resultados mostraram a existência de diferenças significativas entre os grupos no desenvolvimento das sequências ofensivas, o que demonstra que a “experiência formal” é um factor relevante na formação de competências específicas em jovens praticantes. Dentro dos grupos também se obtiveram diferenças significativas entre as variantes de jogo no desenvolvimento e na finalização das sequências ofensivas. As evidências validam a proficiência da operacionalização da Abordagem Baseada nos Constrangimentos na aquisição/desenvolvimento de acções específicas dos Jogos Desportivos.


Palavras-chave: análise do jogo, sequências ofensivas, futebol juvenil, experiência, jogos reduzidos, abordagem baseada nos constrangimentos.
Download (UTL Repositório): http://hdl.handle.net/10400.5/2827

09/11/2010

Espectáculo e Dimensão das Balizas no Futebol

Recentemente, o treinador principal do Vitória de Guimarães - Manuel Machado - propôs um aumento das dimensões das balizas no futebol, justificando que as dimensões actuais (7,32 x 2,44 metros) foram arquitectadas há cento e tal anos para homens que mediam 1,65/1,70 metros, enquanto que hoje os guarda-redes medem 1,90 ou 2 metros.

Não direi que se trata de uma proposta descabida, pois parece evidente que os métodos defensivos se vão tornando progressivamente mais eficazes face às ligeiras modificações que vão sendo introduzidas no processo ofensivo. Ainda assim, importa perceber quais as implicações que tal medida acarreteria em termos técnicos, tácticos e estratégicos. Empiricamente, somos induzidos a prever um aumento do número de acções de finalização e de golos, o que, logicamente, conduziria a um incremento na espectacularidade do jogo. Sendo o golo a última determinante do sucesso no futebol, até pode fazer algum sentido, no entanto, a dinâmica do jogo em si poderia sofrer uma revolução tremenda. Digo poderia porque nunca seria um dado líquido, tal como não é certo que o aumento das dimensões das balizas resulte num maior número de golos.
Num estudo realizado por Costa et al. (2010), comprovou-se, por exemplo, que os jovens jogadores foram mais objectivos no processo ofensivo (acções de penetração e remates à baliza) em circunstâncias de jogo com balizas mais pequenas (análise comparativa entre balizas de Futsal e de Futebol). Os autores sugerem que, pelo facto de defenderem balizas de menores dimensões, os jogadores arriscam mais no processo ofensivo, criando, consequentemente, um maior número de situações de finalização. Ora, os resultados deste estudo contrariam a reflexão empírica que tendemos a realizar acerca do aumento das dimensões das balizas.
Na minha perspectiva, os desafios do futuro nesta modalidade não passam por alterar as regras do jogo, mas sim estudar e propor novos métodos e paradigmas para inverter a tendência actual da redução do número de remates certeiros. A espectacularidade e a emoção do jogo podem ser preservadas, desde que as equipas reúnam competências para praticar um futebol interessante e que capte a atenção do espectador. Penso que o resto (i.e., golo) virá por acréscimo.
Referência bibliográfica
Costa, I., Garganta, J., Greco, P., Mesquita, I., Silva. B., Müller, E., Castelão, D., Rebelo, A., & Seabra, A. (2010). Analysis of tactical behaviours in small-sided soccer games: Comparative study between goalposts of society soccer and futsal. The Open Sports Sciences Journal, 3, 10-12.

14/10/2010

Processo de formação no futebol: A experiência de Xavi

Numa entrevista interessantíssima concedida à revista Champions, da qual podemos ler um excerto aqui, o médio Xavi do FC Barcelona partilha alguns pormenores da sua formação futebolística na academia do clube (La Masia). A minha admiração por este jogador não é recente. A inteligência que manifesta na ocupação do espaço, a leitura permanentemente eficaz do envolvimento e a execução precisa de habilidades como a recepção e o passe fazem dele um médio centro de características inigualáveis. Para além de revelar competências altamente refinadas no jogo, demonstra ainda possuir qualidades psicológicas que fazem dele uma pessoa sensata, altruísta e inteligente.

Passando à entrevista propriamente dita, retive cinco ideias-chave que não consegui deixar de reflectir e partilhar aqui no Linha de Passe. São aspectos que considero relevantes para a formação de jovens no futebol, ainda por cima sendo transmitidas por uma figura de proa da actual equipa campeã europeia e mundial.

1) Em primeiro lugar, Xavi salienta que aos 11 anos - idade em que começou a treinar no Barcelona - o que mais interessa é a "vontade de aprender" e não os resultados.

O crescimento enquanto jovem futebolista começa com o querer aprender e ir mais além. Tem a sua lógica, aqueles que mais querem evoluir têm muito mais possibilidades de chegar ao alto rendimento. Sabemos que ter talento, por si só, não basta. O resultado desportivo a ter que surgir, será sempre em função de uma primeira boa etapa de aprendizagem, na qual os jovens se tornam, progressivamente, mais competentes no jogo.

2) Segundo Xavi foram "ensinados a jogar em triângulos, e a ter a bola sempre em movimento. Criam-se bons hábitos, como aprender os pontos fortes dos nossos companheiros e jogar sempre de cabeça levantada."

Neste pequeno parágrafo saliento quatro tópicos essenciais: a) jogar em triângulos, b) ter bola sempre em movimento, c) aprender os pontos fortes dos nossos companheiros e d) jogar sempre de cabeça levantada.

De facto, o triângulo é a unidade estrutural funcional no futebol. A modalidade em si é um jogo de triângulos, pelo que esta simples forma geométrica é muito eficaz para se transmitir e compreender a essência das noções tácticas básicas, numa primeira instância, próximo da posição da bola (centro do jogo) e, posteriormente, em zonas mais afastadas do centro do jogo. O 3-versus-3 (3v3) é, portanto, o ponto de partida para a aquisição dos princípios específicos do jogo na sua plenitude ofensiva (penetração/progressão, cobertura ofensiva/apoio e mobilidade) e defensiva (contenção, cobertura defensiva e equilíbrio).

Quanto à bola estar sempre em movimento remete-nos para a dinâmica do jogo. Para que tal suceda, é absolutamente fulcral que os jogadores sejam dotados do ponto de vista técnico (recepção, drible, passe, etc.) e, sobretudo, do ponto de vista táctico, na medida em que precisam de dar constantemente opções de passe ao portador da bola, sendo, com isto, capazes de formar unidades efectivas de cooperação com os seus colegas de equipa.

Aprender a jogar em função dos pontos fortes dos colegas é uma virtude muitas vezes descurada, porque, supostamente, um bom jogador deve estar apto a executar tudo e mais alguma coisa com perfeição. Isso não acontece, nem no alto rendimento. Deste modo, o nível de identificação entre os jogadores da equipa potencia/enfraquece as unidades de cooperação, defensiva ou ofensiva, que se podem formar. Se um colega é fraco na contenção, a distância para a cobertura defensiva deverá ser menor e o jogador deverá estar mais atento às acções de drible do adversário portador da bola; se um colega remata melhor com o pé direito, o jogador procurará assistir para esse seu pé, pois a probabilidade da equipa concretizar golo será superior. Não é ser "facilitista", é ser inteligente.

Não menos importante será jogar sempre de cabeça levantada. De acordo com Williams - investigador na área da tomada de decisão nos Jogos Desportivos, mais concretamente no futebol - a capacidade de “ler o jogo” marca a distinção entre os jogadores peritos e os novatos. Saber “ler o jogo”, jogando de cabeça levantada, é o primeiro passo para que se possa ser inteligente no jogo e resolver os problemas situacionais com que os jogadores se deparam da melhor maneira possível.

Estas ideias, embora simples, senão mesmo básicas, fazem toda a diferença num jogo de futebol quando convenientemente trabalhadas no processo de formação de jovens praticantes. A elementaridade destes pormenores referidos por Xavi e preconizados nas linhas orientadoras de uma das melhores escolas de formação de futebol do mundo (La Masia – FC Barcelona), demonstram que o jogo, apesar de se constituir como um sistema complexo, deve ser ensinado explorando o lado mais primitivo e empírico da nossa existência: potenciar a qualidade de cooperação entre membros/seres de uma mesma equipa/espécie.