15/02/2011

Lucrar em Alta com um Povo em Baixa

Numa reportagem recente foram anunciados os lucros da GALP em 2010, lucros esses superiores 43% (!) em relação ao ano transacto. Um dos administradores da empresa esclareceu, sem rodeios, que tais resultados se devem ao aumento do preço dos combustíveis.

Ora, longe de ser um "expert" na matéria, facilmente constato que a diferença entre o preço de compra e o de venda pela empresa aumentou imenso. Como na sociedade contemporânea o carro representa para muitos um bem de primeira necessidade (para ir para o trabalho ou levar os filhos à escola, etc.), questiono até que ponto não deveria haver um controlo ou uma regulação dos exurbitantes preços praticados em Portugal? Faz sentido que empresas como a GALP, BP, Repsol e afins lucrem de maneira tão evidente com a desgraça de todos nós?

Fonte: http://raim.blogspot.com

Sempre que vou abastecer - em cada duas ou três semanas - fico estarrecido com o preço do gasóleo uns cêntimos mais caro, o que, portanto, reverte para a percentagem absurda de lucro das gasolineiras. Já que nenhuma autoridade competente mexe palha, porque parece que também lhes convém, vou deixar que a estação da chuva e do frio passe para mudar de meio de transporte.

O pior é, como diz o povo, que tempo é dinheiro e este, infelizmente, não estica nem dá para tudo. E voltamos nós para o automóvel.

08/02/2011

O Modelo LTAD, com especial referência aos Jogos Desportivos Colectivos


O modelo LTAD (Long-Term Athlete Development) foi proposto por Stafford (2005), baseando-se nos trabalhos de Balyi, e engloba as seguintes etapas: 1) fundamental, 2) aprender a treinar, 3) treinar para treinar, 4) treinar para competir, 5) treinar para ganhar e 6) retenção. É um modelo que não consagra somente etapas de formação do jovem atleta, mas para toda a vida. Os seus intentos primam por maximizar o potencial individual de cada atleta, como também, e para a maioria que não atinge níveis de elite, promover os benefícios de um envolvimento de longa duração no desporto (fig. 1).



Fig. 1. Etapas do Modelo LTAD (adaptado de Stafford, 2005)
Como podemos observar, a primeira etapa é a FUNdamental, cujos desígnios assentam na prescrição de exercícios e movimentos de cariz multilateral, divertidos e que promovam aprendizagem motora. Implica uma formação básica universal, de preferência praticando um vasto leque de actividades físicas e desportivas, podendo durar pelo menos dois anos. O autor faz a distinção entre rapazes (6-8 anos) e raparigas (6-9 anos). O elemento diversão (“fun”) é essencial nesta primeira etapa. A progressão de habilidades motoras básicas em actividades ou jogos divertidos e bem estruturados vão lançar as bases para que as subsequentes habilidades e competências específicas de um desporto sejam desenvolvidas.

Posteriormente, surge a etapa aprender a treinar. Stafford (2005) associa esta etapa às idades 8-11 anos (raparigas) e 9-12 anos (rapazes). É uma fase dominada pela aprendizagem de habilidades motoras específicas das modalidades – as acções técnicas nas modalidades individuais ou acções táctico-técnicas nos JDC (jogos reduzidos/condicionados, princípios específicos do jogo) – porém, de igual modo, componentes coordenativas multilaterais, de forma a aperfeiçoar os pré-requisitos do rendimento psico-cognitivo e neuromuscular. É nesta etapa que devem ser introduzidas as habilidades motoras e as capacidades inerentes à(s) actividade(s) preferida(s), sucedendo em ambientes de prática que suscitem prazer e fomentem a descoberta guiada. Deve ser encarada como a principal etapa de aprendizagem, na medida em que engloba fases sensíveis, críticas mesmo, na qual ocorre uma acelerada adaptação ao processo de treino. Está, portanto, inerente a aquisição de habilidades motoras básicas e comuns a diversos desportos, ainda que, de acordo com Stafford (2005), se verifique uma redução do número de actividades/desportos praticados, sendo recomendada a prática de três actividades distintas. A ênfase deve situar-se no aprender a treinar e a praticar e não no resultado do desempenho da criança, ainda que o elemento “competição” também deva ser introduzido (rácio treino-competição de 80:20).

Segundo Stafford (2005), a próxima etapa (aprender a treinar) sucede nos rapazes entre os 12 e os 16 anos e nas raparigas entre os 11 e os 15 anos. O autor alega que esta etapa cobre um período peculiarmente sensível para o desenvolvimento físico e de habilidades técnicas e tácticas. Para além disso, esta pode ser considerada a principal fase para o desenvolvimento da condição física, nomeadamente da resistência aeróbia e da força, sendo o Pico de Velocidade em Altura (PVA) um ponto de referência a tomar sempre em consideração. Nos JDC, é nesta etapa que o conteúdo do treino se centra no desenvolvimento e consolidação de acções técnicas ou habilidades específicas de um desporto, constituindo também a etapa inicial de preparação táctica, naturalmente, em níveis básicos e intermédios. Stafford (2005) admite que esta etapa possa durar entre três a cinco anos, ocorrendo um aumento progressivo do treino específico em relação ao treino geral e da importância relativa da competição no processo de formação da criança/jovem (rácio treino-competição de 60:40).

O modelo LTAD contempla, seguidamente, a etapa treinar para competir, envolvendo rapazes entre os 16 e os 18 anos e raparigas entre os 15 e os 17 anos de idade. Trata-se de uma etapa que deve fornecer aos potenciais atletas oportunidades de se prepararem conveniente para a situação de competição. A monitorização dos efeitos do treino e da competição afigura-se como indispensável, pois é determinante identificar qualidades e limitações individuais que proporcionam, em última instância, a optimização do desenvolvimento do atleta. No âmbito dos JDC, é incluída a preparação técnica, táctica e física específica do desporto, implicando a preparação táctica numa posição específica (especialização), a aplicação dos princípios específicos e gerais dos processos ofensivos e defensivos, o planeamento e avaliação da competição e a observação e adaptação às equipas adversárias. É nesta etapa que a competição começa a ganhar preponderância no processo de formação, com um rácio treino-competição de 40:60 (Stafford, 2005).

O modelo LTAD engloba ainda uma etapa final em relação à preparação de atleta com capacidade para atingir níveis elevados de rendimento: a etapa treinar para ganhar. Embora seja variável de modalidade para modalidade, Stafford (2005) sugere que ocorre a partir dos 18 anos para rapazes e a partir dos 17 anos para raparigas. No cômputo geral, procura-se maximizar a performance, “picos” de forma, assumindo que as capacidades relevantes para o desempenho já foram desenvolvidas. No que concerne aos JDC verifica-se, ao nível da táctica, um desenvolvimento efectivo de estratégias competitivas, o “jogar” em função dos pontos fortes e fracos do adversário, e a modelação dos aspectos de performance em situação de treino.

Por último, a etapa de retenção, cujo principal objectivo passa por reter atletas em fim de carreira na esfera desportiva, atribuindo-lhes papéis distintos (dirigentes, treinadores, funcionários, sócios, etc.). Apesar de todas as etapas que constituem o modelo LTAD serem relevantes, as três primeiras são de vital importância na globalidade do processo, daí serem consideradas como as etapas de formação de base.

Especialmente nos JDC, o desenvolvimento da tomada de decisão inerente ao acto táctico, ou seja, à resolução dos problemas situacionais do jogo, não pode ser deixado ao acaso. Pelo contrário, deve ser uma parte integrante e permanente de todo o processo de formação do jovem, sendo a parcela do treino da táctica, no tempo total de treino, determinada pela importância relativa desta componente na estrutura de rendimento do jogo. Importa ainda ressalvar que todos os programas de treino, competição e recuperação devem ser delineados em função do desenvolvimento individual e não, como é comum, relativamente à idade cronológica dos atletas (Stafford, 2005).

Referências:

Almeida, C. H. (2009). O microciclo padrão típico da periodização táctica no treino de jovens futebolistas do género masculino, dos escalões Escolas (Sub-11) e Infantis (Sub-13): Factores condicionantes e eventuais soluções. Trabalho não publicado de Planeamento do Treino do VI Mestrado em Treino do Jovem Atleta. Lisboa: Faculdade de Motricidade Humana.
Stafford, I. (2005). Coaching for long-term athlete development: To improve participation and performance in sport. Leeds: Sports Coach UK.

18/01/2011

Os Desperdícios na Formação

Logo para começar o dia, um título no SAPO desporto chamou-me a atenção. Parte do artigo expunha o seguinte:

"Os clubes da Liga portuguesa de futebol são os que menos jogadores aproveitam para as formações principais, segundo o «Estudo demográfico dos futebolistas na Europa». Esta investigação, do Observatório dos Jogadores Profissionais de Futebol (OJPF), a que a Agência Lusa teve acesso, conclui que a utilização de jogadores formados nos clubes lusos caiu 1,3 por cento, comparativamente a 2009. Apenas 6,4 por cento dos jogadores dos emblemas lusos alinharam nos respectivos clubes pelo menos três anos, entre os 15 e os 21 anos. Este é um valor muito abaixo da média europeia - quase um em cada quatro jogadores fizeram a formação no clube actual (23,33 por cento)."

Os restícios dos "desperdícios na formação" podem ser lidos aqui.

16/01/2011

A Crise

Não se fala ou escreve de outra coisa. A crise comanda as nossas vidas de uma forma tão profunda que nem tão cedo a esqueceremos. Os analistas, economistas e todos os demais funcionários do dinheiro afirmam que 2011 será um ano complicado para o povo português. Os políticos aproveitam e culpam-se uns aos outros pelo desemprego, pela falência das empresas e pela pobreza crescente.

Tenho imensas dúvidas de que a crise possa ser classificada de económico-financeira. Os dados são evidentes, porém não deixo de tentar perceber a origem desta catástrofe que tanto nos afecta e afectará nos tempos vindouros. A única conclusão a que chego é que a humanidade da nossa espécie desvanece-se ao longo do tempo numa função exponencial. Uns sempre tiveram mais do que outros. Uns sempre sofreram mais do que outros. Uns sempre ajudaram mais do que outros. Parece que o fosso entre uns e outros está a tornar-se intransponível e, enquanto uns comem caviar para o almoço, outros lutam desesperadamente para trincar um bocado de pão suficiente para cumprir as suas funções metabólicas inerentes à sobrevivência. Esta é a crise por que todos passamos. Não quero tapar o Sol como uma peneira; também sou responsável por ela. Talvez pudesse dar um pouco mais de mim para tornar tudo isto num mundo mais alegre. Mas vejo-nos a morrer. Lentamente!

Resta-nos a esperança de um dia esquecermos facções partidárias e puxarmos todos para o mesmo lado. Aí talvez risquemos a palavra crise do nosso dicionário. De vez.

30/12/2010

I Jornadas Jovens de Monchique (Balanço)

Ontem decorreram as I Jornadas Jovens de Monchique, organizadas pela Freguesia de Monchique. Devo confessar que fiquei extremamente satisfeito por ter tido a oportunidade de assistir às excelentes exposições que foram feitas. Para além disso, é muito aprazível perceber que as instituições autárquicas locais (Município e Freguesia de Monchique) se interessam e estão atentas ao trabalho académico e profissional dos jovens do nosso concelho.



A primeira apresentação foi realizada pelo amigo e Professor Doutor Bruno Medronho (Químico) que, animadamente, fez uma retrospectiva do seu percurso académico (de Monchique a Coimbra) e uma síntese do trabalho que actualmente desenvolve no âmbito de um pós-doutoramento. Segundo o que percebi, o Bruno investiga um dissolvente capaz de transformar celulose em fibras têxteis, o que contribui, em última instância, para a preservação ambiental do nosso planeta.

Seguidamente, o "nosso" advogado Jorge Sampaio dissecou um tema muito em voga actualmente: a revisão constitucional. Resumindo, falou-se da crise que o Estado Social atravessa em Portugal e abordou-se algumas propostas que foram efectuadas, no sentido de resolver algumas das questões mais prementes do nosso país. O Jorge também colocou em causa algumas dessas propostas por, supostamente, violarem direitos fundamentais presentes na Constituição.

A terceira exposição pertenceu a Ana Maria Pinto (Historiadora da Arte), com o tema "A paisagem histórico-artística de Monchique como contributo para o desenvolvimento sustentável do concelho". Pessoalmente, não a conhecia, mas a sua comunicação deixou bem claro que se trata de uma pessoa muito competente e com uma enorme estima por Monchique. Da sua intervenção, destaco a sua sensibilidade para a necessidade de preservar e potenciar o património histórico-social de Monchique, nomeadamente através da criação de roteiros turísticos. O estado do Convento de Nossa Senhora do Desterro, bem como a inacessibilidade às ruínas de uma fortaleza no Alferce e à fonte santa da Fornalha foram alvo de debate com a plateia, onde interveio também o presidente do Município de Monchique Dr. Rui André.

Mais tarde, foi a vez de Tiago Marques (Enfermeiro) e Patrícia Nunes (Estudante de Enfermagem) abordarem a temática: "Suporte básico de vida (adulto)". Como bem esclareceram, cada cidadão deve estar a par das linhas orientadoras para executar estas manobras. Elas podem valer uma vida. A apresentação teórica foi, posteriormente, muito bem complementada por uma demonstração prática, atentamente observada pelo público presente.

Por último, mas não menos importante, surgiu a temática "Iniciativa, Emprego e Empreendedorismo", devidamente comunicada pela Tânia Sousa (Gestora). Foram dados preciosos conselhos aos jovens para as primeiras incursões no mercado de trabalho. Desde como elaborar um curriculum, até ao modo como se comportar numa entrevista, nada passou despercebido. Em termos de empreendedorismo, a Tânia transmitiu ainda diversas formas de conseguir, por exemplo, crédito ou apoio para a criação de uma pequena ou micro empresa.

O nível geral destas I Jornadas Jovens superou as minhas melhores expectativas. A organização foi exemplar e os jovens conferencistas colocaram a fasquia bem alta para a próxima edição em 2011. Esta iniciativa merece o meu louvor e homenagem. Espero que constitua a rampa de lançamento para muitas mais.

A Freguesia de Monchique está de parabéns!