29/05/2011

A Final em Palestra

Disputar uma final é sempre especial. Na minha perspectiva, torna-se ainda mais especial quando o fazemos representando o "nosso" clube de sempre; aquele que nos ajudou a crescer, pessoal e desportivamente. Infelizmente, nunca tive oportunidade de o fazer enquanto jogador federado, porém ontem fi-lo enquanto treinador da equipa de Infantis (Sub-13) do Juventude Desportiva Monchiquense.

Por isso, e sabendo da importância das palavras que se transmitem antes do evento, preparei cuidadosamente a minha intervenção, na esperança que pudessem estimular as melhores atitudes e comportamentos dos jovens numa situação competitiva excepcionalmente emotiva. Acredito que o teor da palestra é um factor que qualquer treinador não deve negligenciar e, como tal, decidi partilhar a minha experiência neste espaço.

Habitualmente, preparo a palestra para um máximo de 15 minutos; mais do que isso, satura os miúdos e a mensagem final pouco é assimilada. Costumo ainda dividir a palestra inicial em três fases: introdutória, estratégico-táctica e motivacional. A fase introdutória (2-3 minutos) permite-me contextualizar a participação no jogo em causa, em função da actualidade desportiva e das competências trabalhadas e adquiridas ao longo da época. Na fase estratégico-táctica (7-8 minutos), enuncio o "sete" inicial, as missões tácticas dos jogadores e os métodos ofensivo e defensivo em diversas circunstâncias do jogo (processo ofensivo e defensivo, pontapés de canto, pontapés livres e lançamentos laterais). Por norma, focalizo sempre um ou dois aspectos da equipa adversária, caso tenha na minha posse alguma informação sobre a mesma. A fase motivacional (5 minutos) serve para despertar os jogadores e deve conter uma mensagem de optimismo e crença nas suas capacidades individuais e, fundamentalmente, na qualidade do colectivo. O apelo, por um lado, deve estimular o organismo para a acção sem, por outro lado, responsabilizar em excesso, pois pode gerar muita ansiedade. Terminar com simples expressões como um "divirtam-se no jogo" ou "sintam prazer naquilo que fazem" tem o condão de acalmar estados demasiado excitados.

Assim, deixo o exemplo da final do Torneio Complementar de Futebol 7, na qual os "nossos" infantis venceram a boa equipa do Clube de Futebol "Os Armacenenses" (crónica do jogo aqui):

Fase introdutória: "Hoje, dia 28 de Maio de 2011, vamos jogar esta final, precisamente no mesmo dia que o Barcelona e o Manchester United jogam a final da Liga dos Campeões. Portanto, é um dia tão especial para nós, como é para eles: é a nossa Liga dos Campeões! Apesar disso, e de se tratar de uma final, quero que percebam que a aprendizagem e a evolução que registaram ao longo da época já ninguém vos tira. E foi considerável! Não são a mesma equipa de Setembro passado; estão, globalmente, muito melhores e capazes para dar excelentes respostas em situações como esta". Os vossos desempenhos a partir da primeira volta da 1ª fase têm sido sempre em crescendo, exemplo disso são as prestações verificadas na 2ª fase, nos quartos de final e na meia-final. Acima de tudo, entendam que funcionam muito melhor colectivamente e isso só se obtém com muito empenho, espírito de sacrifício e solidariedade".

Fase estratégico-táctica: (por se tratar de aspectos muito específicos da nossa organização colectiva, julgo que não faz muito sentido aprofundar neste contexto).

Fase motivacional: "Qualquer desportista quando entra em competição quer vencer. É bem verdade que devemos saber ganhar e perder, mas não me digam que gostam de perder, porque isso é uma atitude totalmente anti-desportiva. Não, vocês, tal como a equipa técnica, querem vencer e vão entrar em campo com uma postura vencedora. No regulamento da Associação de Futebol do Algarve terminam com a seguinte referência «haverá troféu e medalhas para os vencedores» e, reparem, não contempla qualquer brinde para os derrotados. Pois é, jovens, aos 12/13 anos têm oportunidade de vencer um título distrital, coisa que o nosso clube já não conquista há mais do que uma década; imaginem quantas pessoas não gostariam de entrar naquele campo e dar o máximo para ficar na história do JDM e do concelho de Monchique? Se eu tivesse essa possibilidade, trocava agora com qualquer um de vocês: entrava a correr dentro do campo. Mas não o posso fazer, por isso é que acredito e tenho muita fé que vocês o vão fazer por mim e melhor do que eu faria na vossa idade. ACREDITEM em vós, ACREDITEM na equipa, joguem como se fossem só um e lembrem-se que uma situação desta, não raras vezes, só ocorre uma vez na vida. Antes de irmos aquecer, só vos peço que se divirtam, tenham prazer em jogar futebol e que lutem, durante os 60 minutos, pelo vosso sonho. Atitude, malta; força, JDM!"

18/05/2011

Linha de Passe de Parabéns!


O blog Linha de Passe comemora hoje cinco anos de existência. Após 231 "posts" e 32 658 visitas, posso congratular-me por ter aguentado este espaço virtual durante meia década. Nem sempre é fácil mantê-lo actualizado, mas vou-me esforçando para isso. A qualidade dos textos também é variável, em função da minha disponibilidade e inspiração. Há largos dias que simplesmente não sai nada de jeito.

Acima de tudo, agradeço a todos os leitores, assíduos ou apenas de passagem, pelo tempo dispendido a ler algo que, de alguma forma, me é significativo. Se para vós também o foi, embora concordem ou não com as ideias expostas, então julgo que o objectivo do Linha de Passe tem sido alcançado.

Muito obrigado pela vossa atenção!

28/04/2011

Pedra no Sapato de Mourinho

Como qualquer amante de futebol, assisti com particular atenção à primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, entre Real Madrid e Barcelona. Observar o Barcelona jogar é algo que me delicia, porém, por uma questão de patriotismo, torci pelo Real Madrid.

A estratégia de Mourinho foi idêntica à empregue na final da Taça do Rei: jogar com um bloco defensivo baixo, com todos os jogadores atrás da linha da bola e fazendo uma elevada pressão sobre os jogadores mais criativos do Barcelona; após recuperar a posse de bola, a equipa recorre predominantemente ao contra-ataque ou ao ataque rápido, na tentativa de explorar a velocidade de Di Maria e Cristiano Ronaldo. Resultou em pleno na Taça do Rei, mas ontem o Barcelona, mesmo sem Iniesta, foi uma equipa demasiado competente para o Real.



Embora possua jogadores fantásticos individualmente, são os comportamentos colectivos da equipa do Barcelona que a tornam como a melhor do mundo. Não sobressai somente a simplicidade de processos inerente à posse de bola (um estilo de jogo rápido, praticado a um ou dois toques e extraordinariamente eficaz na criação de espaços vazios), como também o fantástico posicionamento dos jogadores em processos ofensivo e defensivo, que permite uma ocupação constantemente equilibrada do espaço de jogo.

A questão "Como vencer o Barcelona?" é complexa e ocupou a equipa técnica madrilena com horas e horas de observação, estudo e discussão. A estratégia adoptada por Mourinho reconhece a superioridade dos catalães. Mourinho respeita e muito, se calhar até demasiado, o Barcelona e fá-lo porque os 5-0 em Camp Nou ainda estão presentes no seu consciente. Apesar disso, até o melhor do mundo não está imune a erros dos seus jogadores; ontem, Pepe errou ao abordar o lance com Dani Alves de forma impetuosa e foi bem expulso. Se contra onze, o Barcelona já detinha 71% (!) de posse de bola e quase o quádruplo de passes precisos que o Real Madrid, contra dez tornou-se uma equipa mais agressiva a explorar o espaço no meio-campo do Real Madrid e o um-contra-um no sector defensivo visitado. Nestas circunstâncias, o “colectivo” do Barcelona, em prol de um soberbo Messi, torna-se letal. Assim sucedeu!

Mas não existe outras alternativas para o Real Madrid? Sim, uma delas passaria por incluir jogadores mais acutilantes do ponto de vista ofensivo, mas com limitações no cumprimento de missões tácticas defensivas (por exemplo, Mesut Özil e Káká). Assumo que seria um modo de possuir mais qualidade na posse de bola, de criar mais situações de finalização e jogar olhos nos olhos com o adversário, ainda que com riscos elevados diante de uma formação tão forte colectivamente. Em desvantagem na eliminatória por 2-0, o caminho da formação de Mourinho passa, inevitavelmente, por ter de concretizar golos. Para mim, e porque julgo que nada está resolvido, deixa-me antever uma segunda mão muito mais interessante.

21/04/2011

Experienciar é Aprender

Enquanto o graúdo se preocupava em registar o acontecimento para a posterioridade, os poucos miúdos que se apresentaram para treinar, logo se atreveram a jogar "futebol no gelo"; uma novidade que raramente terão a oportunidade de vivenciar.



A motivação era evidente e, perante a elevada probabilidade do treino ser cancelado, deixei-os ficar entretidos. Afinal de contas, experienciar também é aprender.

Monchique, 21 de Abril de 2011


Foto: Parque Desportivo do JD Monchiquense coberto de granizo.