01/09/2011

Artigo: A Definição de "Centro do Jogo"


Introdução
O conceito de “centro do jogo” é vulgarmente encontrado na literatura didáctica e pedagógica do futebol. Castelo considera que o “centro do jogo” ou “unidade estrutural funcional” está em constante mutação no decurso de um jogo, sendo constituído “(...) momentaneamente pelo jogador de posse de bola e elementos pertencentes às duas equipas (...) até uma certa distância (não superior a 15 metros) (...).” (2004: 204). No entanto, até ao momento, nenhuma investigação científica foi realizada para delimitar e/ou validar este conceito. Será o “centro do jogo” a zona envolvente à bola, englobando jogadores que podem intervir directamente sobre a mesma? Será que a distância máxima de 15 metros em relação à bola, tal como enunciado por Castelo, é aceitável para circunscrever o “centro do jogo”? Desta forma, utilizando um breve questionário, inquirimos 39 treinadores de futebol com o objectivo de perceber o que pensam sobre o assunto.

Métodos

Aproximação experimental ao problema
Esta investigação utilizou um instrumento (questionário) constituído por 5 questões de resposta curta. Não podemos caracterizar este instrumento como puramente quantitativo ou qualitativo, pois tanto foi possível recolher dados para tratar e analisar mediante procedimentos estatísticos simples, como foi possível recolher múltiplas perspectivas sobre o “centro do jogo” e que nos auxiliaram na descrição e compreensão do conceito.

Participantes
Neste estudo participaram voluntariamente 39 treinadores, com idades médias de 32.59 ± 6.68 anos, com 4.62 ± 2.84 anos de experiência como treinador e dos quais 37 possuíam o I Nível, um o III Nível e outro o IV Nível de Treinador. Em termos dos escalões etários treinados na época imediatamente anterior (2008/2009), observou-se a distribuição apresentada no quadro 1.



Procedimentos
Inicialmente, após a elaboração do questionário, foi pedido a um grupo de 5 treinadores que o preenchessem e emitissem uma apreciação sobre o mesmo. As rectificações realizadas na sequência deste processo experimental foram ligeiras.
No dia da aplicação dos questionários foi feita uma introdução oral que contemplou algumas normas para o seu preenchimento e uma breve explicação acerca do seu enquadramento no âmbito das Ciências do Desporto. Os questionários foram preenchidos individualmente e em silêncio pelos participantes, não tendo surgido quaisquer dúvidas durante esse período. Os dados foram tratados recorrendo a procedimentos simples de estatística descritiva (frequências absolutas, frequências relativas, médias e desvios padrão) e de análise de conteúdo nas questões 3, 4 e 5, conforme o recomendado por Côté, Salmela, Baria and Russell (1993) e Culver, Gilbert and Trudel (2003). Deste modo, foram identificadas e etiquetadas unidades de texto relevantes sobre o “centro do jogo” que, posteriormente, foram organizadas em categorias com significado distinto.

Apresentação e Discussão dos Resultados
Na questão 1 – qual a distância máxima (metros) para um jogador atacante receber a bola em segurança quando está em deslocamento de apoio? – obtivemos um valor médio (± desvio padrão) de 6.26 ± 2.21 metros. No quadro 2 encontra-se a distribuição das respostas por escalão etário treinado na época anterior (2008/2009).



Como é possível observar, 66.67% dos treinadores participantes seleccionaram distâncias máximas entre os 4 e os 6 metros para que um jogador em situação ofensiva possa receber a bola em segurança, quando está em deslocamento de apoio. Se aumentarmos o intervalo anterior para entre os 4 e os 8 metros, verificamos uma percentagem de respostas extremamente elevada, isto é, 89.74%, não parecendo haver diferenciação face ao escalão treinado na época 2008/2009. Se confrontarmos os valores obtidos com os 15 metros sugeridos por Castelo (2004) para definir o “centro do jogo”, parece haver uma clara diminuição daquilo que é a distância segura de comunicação directa entre dois jogadores em situação de ataque, quando um deles se encontra em deslocamento de apoio (aproximação) em relação ao portador da bola.

No que diz respeito à questão 2 – qual a distância máxima (metros) para um jogador receber a bola em segurança quando está em desmarcação de ruptura? – obtivemos um valor médio (± desvio padrão) de 10.18 ± 5.70 metros. O quadro 3 expressa a distribuição das respostas por escalão etário treinado na época 2008/2009.



Cerca de 76.32% das opções dos participantes situaram-se entre os 6 e os 10 metros, correspondendo 21.05% a distâncias máximas entre os 12 e os 30 metros para que um atacante possa receber um passe em segurança quando está em deslocamento de ruptura, ou seja, num movimento de afastamento em relação ao portador da bola. Na sequência do que foi examinado para a questão 1, os dados obtidos na questão 2 também sugerem que a distância máxima de 15 metros indicada por Castelo (2004) para definir o “centro do jogo” possa ser excessiva para caracterizar as redes dinâmicas de comunicação e oposição que se estabelecem nas zonas próximas da bola. O factor segurança na recepção de um passe, embora seja influenciado por inúmeras variáveis (e.g., qualidade táctico-técnica dos atacantes e dos defensores, pressão dos defensores, missões tácticas dos jogadores, características do terreno de jogo, etc.), é fulcral para diferenciar as relações directas de comunicação ofensiva bem ou mal sucedidas. É num cenário de sucesso imediato das redes de comunicação (processo ofensivo) e contra-comunicação (processo defensivo) que devemos equacionar a definição de “centro do jogo”, pois só estas permitem conservar a posse de bola ou (re)conquistá-la.

A análise de conteúdo das respostas dos participantes permitiu-nos diferenciar três grandes categorias acerca da definição do “centro do jogo”: 1) Posição da bola no campo, englobando ou não jogadores; 2) Zona em torno da posição da bola onde os jogadores executam comportamentos táctico-técnicos para a conservar/conquistar; 3) Zona do campo que se mantém constante.



Como é possível apurar no quadro 4, a maioria dos treinadores não encara o “centro do jogo como a posição da bola ou uma zona específica e constante do terreno de jogo, mas sim como uma zona ao redor da bola onde se realizam comportamentos táctico-técnicos ofensivos e defensivos que permitem manter a posse de bola ou (re)conquistá-la. Esta definição de “centro de jogo” corrobora as que são aceites por outros autores, expressas na forma de sinónimos como “unidade estrutural funcional” (Castelo, 2004) ou “dimensão microtáctica do jogo” (Maçãs & Brito, 2004).

Para além disso, 82.05% dos participantes afirma utilizar o conceito de “centro do jogo” nas instruções que fornecem aos jogadores e os mesmos 82.05% confirmam socorrer-se deste conceito para preparar o processo de treino. A questão 4 – o conceito de “centro do jogo” encontra-se expresso nas instruções que dá aos jogadores? – permitiu-nos estabelecer, após análise do conteúdo das respostas positivas, as seguintes categorias sobre como os participantes exprimem essa ideia: 1) Orientação das acções táctico-técnicas dos jogadores que estão próximos da bola; 2) Referência espacial para a ocupação do terreno de jogo; 3) Meio para transmitir e avaliar o modelo de jogo/processos da equipa.



A distribuição das respostas pelas categorias permite observar uma predominância da orientação das acções táctico-técnicas dos jogadores que estão próximos da bola e que, por inerência, devem cumprir os princípios específicos do jogo, ou seja, aqueles que ocorrem no interior do “centro do jogo”. Por outro lado, os participantes confirmam recorrer à ideia de “centro do jogo” para preparar os seus treinos, enquadrando a sua perspectiva numa das seguintes categorias: 1) Elaboração de determinados exercícios e/ou sessões de treino; 2) Aprendizagem/aquisição dos princípios específicos do jogo; 3) Potenciação de comportamentos face ao modelo de jogo/processos da equipa.



Apesar de se constatar uma distribuição quase homogénea pelas categorias acima enunciadas, fica bem patente que o conceito de “centro do jogo” é importante no pensamento e na actividade quotidiana dos treinadores de futebol.

Conclusão
Os dados obtidos sugerem que o “centro do jogo” é um conceito importante no âmbito do processo de treino do futebol. A maior parte dos participantes define o “centro do jogo” como uma zona em redor da bola onde se realizam comportamentos táctico-técnicos ofensivos e defensivos que permitem manter a posse de bola ou (re)conquistá-la, corroborando alguns autores nacionais (Castelo, 2004; Maçãs & Brito, 2004). No entanto, a distância máxima em relação ao portador da bola proposta por Castelo (2004) para delimitar o “centro do jogo” (15 metros) não é partilhada pela maioria dos participantes no estudo. Estes apontam, predominantemente, distâncias máximas entre os 6 e os 10 metros para que um atacante possa receber a bola em segurança, quer esteja em deslocamento de apoio (aproximação) ou de ruptura (afastamento) face ao companheiro em posse de bola. Parece-nos evidente que são necessários mais estudos, qualitativos ou quantitativos, no intuito de prestar melhores esclarecimentos sobre o conceito de "centro do jogo" e a respectiva distância que o caracteriza enquanto unidade funcional do jogo de futebol.

Referências
Castelo, J. (2004). Futebol – Organização dinâmica do jogo. Lisboa: FMH Edições.
Côté, J., Salmela, J. H., Baria, A., & Russell, S. J. (1993). Organizing and interpreting unstructured qualitative data. The Sport Psychologist, 7, 127-137.
Culver, D. M., Gilbert, W. D., & Trudel, P. (2003). A decade of qualitative research in sport psychology journals: 1990-1999. The Sport Psychologist, 17, 1-15.
Maçãs, V., & Brito, J. J. (2004). Futebol: ensinar a decidir no jogo. Treino Desportivo, 25, 4-11.

28/08/2011

Aprender a rezar na Era da Técnica

"Aprender a rezar na Era da Técnica" é um romance de escritor português Gonçalo M. Tavares. É um dos designados livros de capa negra (tetralogia "O Reino") e venceu o prémio de melhor livro estrangeiro em França, no passado ano de 2010.

Lenz Buchmman é um cirurgião ambicioso e obcecado por manter a dignidade do apelido da sua família. Vive marcado por uma forte doutrina militar transmitida pelo seu pai Frederich e não tem desdém em esquecer os elos mais fracos da sua família; só os mais fortes - aqueles que se distinguem dos outros homens - interessam.

Da medicina, na qual a sua acção é de um-para-um no bloco operatório, passa para a política, onde tem a possibilidade de agir de um-para-muitos. Porém, a sua perversão leva-o, por vezes, a colocar a impulsividade emocional acima da racionalidade. A tragédia é inevitável.

O soberdo da escrita de Gonçalo M. Tavares é que muito do texto não é literal. As palavras adquirem significados que vão para além do seu sentido mais literal, quase como se fôssemos forçados a ler nas entrelinhas. A reflexão é uma constante.

Este é, sem dúvida, um livro que colocarei no espaço da "boa literatura" da minha (ainda) pequena biblioteca. Recomendo.

18/08/2011

Uma "Geração Coragem" de luva branca

A equipa nacional Sub-20 de Portugal está a disputar o Campeonato do Mundo da categoria, evento promovido pela FIFA, na Colômbia. Esta madrugada, os nossos compatriotas cometeram o feito de garantir o apuramento para a final da competição, em que irão defrontar o Brasil.

Aquela que o treinador Ilídio Vale já designou como a "Geração Coragem", longe de ser considerada como uma das favoritas no começo do certame, tem vindo a superar, jogo a jogo, as melhores expectativas dos mais optimistas.

Eu tenho acompanhado com especial atenção os desempenhos desta formação, desde o período preparatório para o mundial. Se nessa fase os resultados desportivos deixaram algo a desejar, a coesão do grupo e as competências demonstradas pelos jogadores denunciaram a forte possibilidade de, pelo menos, assegurarem a passagem aos oitavos-de-final da prova.

Na minha perspectiva, um dos factores que tem sido decisivo para o sucesso da selecção Sub-20 portuguesa na Colômbia é a excelente organização defensiva. Os jogadores estão permanentemente bem posicionados no terreno de jogo e apresentam uma atitude de entreajuda e cooperação fantástica. Podem não ter nomes sonantes como outras selecções, porém, como colectividade, têm superado todos os adversários com distinção e também patenteado, quer queiramos ou não, qualidade individual.

Independentemente da equipa das quinas Sub-20 ser ou não campeã mundial, esta geração já provou a muitos técnicos, dirigentes e administradores nacionais que o processo de formação desportiva (no caso, na modalidade futebol) desenvolvida no país - e não pretendo especificar clubes ou escolas de futebol - possui qualidade. Qualidade essa que, associada a procedimentos de prospecção de jovens talentos cada mais eficazes, aumenta bastante a probabilidade de se vir a obter jogadores mais competentes nas equipas seniores, tanto ao nível de clubes, como de selecções nacionais. Direi mesmo que se trata de uma "Geração Coragem" capaz de distribuir pelo país valentes chapadas de luva branca. Só não entende quem não quer.

Em vez de se passar, anualmente, atestados de incompetência aos treinadores e dirigentes que apostam na formação, contratando um elevado leque de jogadores sul-americanos ou de outros pontos do planeta a preços astronómicos, deveria-se observar com mais interesse os recursos humanos desenvolvidos no próprio clube. Quiçá não se encontra muito melhor, a custos mais controlados.

Esta geração já marcou uma posição essencial nos tempos que hoje correm. Por isso, merece todo o meu respeito e admiração. Força Portugal!


13/08/2011

Futebol: uma democracia empobrecida

Vivemos numa sociedade, tanto quanto sei, democrática. Cada um de nós tem direitos e deveres que deveriam ser invariáveis por cabeça. Parece, porém, que a democracia não é transversal a todos os sectores da nossa sociedade.

No desporto, particularmente no futebol, assiste-se frequentemente a uma tirania dos "maiores", sendo escassa a protecção dos "menores". Entenda-se que me refiro a clubes. Considerem o seguinte cenário meramente hipotético e, portanto, irreal, mas que é possível de ocorrer:

O Sebastião é um rapaz nascido em Monchique e aos 6 anos começou a praticar futebol no clube da sua terra: o Juventude Desportiva Monchiquense. Iniciou a sua formação no clube, completando uma época nos Petizes (Sub-7), duas nos Traquinas (Sub-9), uma como Benjamim B (Sub-10), uma nos Benjamins A (Sub-11) e duas nos Infantis (Sub-13). Como o Sebastião era um miúdo talentoso e que se destacava nos jogos da sua equipa, decidiu, conjuntamente com os seus pais, mudar para um clube com outra projecção e que lhe oferecia, supostamente, a possibilidade de competir num nível superior e evoluir mais favoravelmente na modalidade. Imagine-se, o Portimonense SC. Nesse seu novo clube, assina contrato de formação e cumpre duas épocas como Iniciado (Sub-15), duas nos Juvenis (Sub-17) e, finalmente, mais duas nos Juniores (Sub-19). Por acaso, no último ano de júnior, jogou alguns jogos pelos seniores na II Liga e despertou a cobiça de clubes estrangeiros. Os olheiros do Manchester United, sempre atentos, recomendaram-no a Sir Alex Ferguson, que decidiu pela sua contratação; pagou 5.000.000.000 Euros pelo rapaz.

Nesta situação, há direitos de formação envolvidos no negócio. No entanto, a lei portuguesa prevê que o primeiro clube do jovem, responsável por mais de 50% da sua formação, não receba qualquer contrapartida financeira. Já o outro clube, aquele com maior projecção, receberá não apenas uma soma avultada pela transferência, como ainda arrecadará na íntegra os direitos de formação do indivíduo. Soa a injusto, mas é a realidade que temos.

Numa assembleia da Associação de Futebol do Algarve, o JD Monchiquense tem direito a 7 votos; o Portimonense, por exemplo, tem direito a 77. Por esta ordem de ideias, eu deveria ter direito a um voto nas Legislativas, enquanto o senhor Pinto Balsemão, por ser um sujeito mais influente que eu no nosso país, deveria ter direito a 100 votos.

Os grandes "comem" os mais pequenos sem desdém, com a conivência da democracia, de direitos e deveres empobrecidos. A intenção de "tornar mais igual" converteu-se no inverso. Enquanto o mundo for movido a dinheiro e interesses, nunca haveremos de viver em democracia. A peneira continuará a tapar o Sol, mas jamais totalmente.