22/04/2012

Treino padronizado: que transfer para o jogo?

Atualmente, a investigação científica reconhece a teoria dos sistemas dinâmicos e a abordagem baseada nos constrangimentos como correntes teóricas profícuas para o estudo e desenvolvimento do futebol. De facto, o jogo pressupõe interações de cooperação e oposição complexas, por diversas vezes ocorrendo em contextos imprevisíveis, e cujo processo de treino deverá ser sempre equacionado em função da natureza do fenómeno competitivo.

Não é novidade nenhuma a enorme propensão de muitos dos nossos treinadores em elaborar situações de exercício padronizadas, portanto, implicando circulações táticas estanques, com oposição reduzida (um ou dois defensores + guarda-redes ou somente diante do guarda-redes), na esperança de que no jogo seguinte possam, no mínimo, concretizar-se numa ocasião.


Tome-se, por exemplo, a figura acima. O médio interior coloca a bola no extremo esquerdo, executa uma desmarcação nas costas do recetor para, posteriormente, cruzar para a grande área próximo da linha de fundo. Entretanto, o avançado entra ao primeiro poste, enquanto o extremo realiza uma diagonal para explorar o espaço à entrada da grande área ou na zona do segundo poste, tendo como opositores dois defensores e o guarda-redes (GR).

Eventualmente, cria-se uma variante do exercício como alternativa ao primeiro padrão.


O médio interior realiza passe vertical para o avançado que entretanto “baixou” para receber a bola. O avançado executa um passe diagonal de rotura para a subida do extremo no corredor lateral, no intuito de cruzar para o interior da área. O médio interior tem como objetivo procurar a finalização à entrada da área ou na zona do segundo poste, o avançado mantém o deslocamento ao primeiro poste, conservando-se a oposição de 2 defensores e o GR.

São formas jogadas que, a meu ver, condicionam as qualidades que melhor distinguem os grandes jogadores: leitura do jogo e criatividade. Estes dois aspetos conjugados determinam, de sobremaneira, a capacidade tática dos protagonistas, ou seja, a habilidade de solucionar eficazmente problemas que emergem de contextos situacionais do jogo. Contextos esses que, invariavelmente, são distintos e que, por isso, exigem soluções também elas distintas e que não se encontram no leque de alternativas proporcionadas pelos treinadores neste tipo de treino padronizado. A dinâmica do jogo, englobando relações de cooperação com os colegas de equipa e de oposição com os adversários, está em permanente mutação e este aspeto não pode nunca ser descurado, caso se pretenda melhorar efetivamente os desempenhos da equipa no global e dos jogadores individualmente.

Posto isto, parece-me que o jogo per se deve ser o núcleo de todo o processo treino e cuja diversidade de cenários criados resulte da manipulação de constrangimentos impostos aos praticantes. Além disso, as soluções para os problemas que decorrem dessas situações de treino devem, em primeira instância, ser resolvidos pelos jogadores, segundo uma metodologia oscilando entre aquilo que Duarte Araújo (citado por Fonseca & Garganta, 2006) diferencia como descoberta guiada (i.e., conduzir o jogador individualmente ou a equipa a atingir uma determinada referência) e ensino divergente (i.e., preparar um contexto para que o jogador ou a equipa alcancem os objetivos por meios que podem divergir das expectativas e dos conhecimentos iniciais do próprio treinador).  

Referência
Fonseca, H., & Garganta, J. (2006). Futebol de rua: um beco com saída. Do jogo espontâneo à prática deliberada. Lisboa: Visão e contextos.

02/04/2012

Um lateral esquerdo a equacionar...

Bruno Teles é o lateral esquerdo do Vitória de Guimarães. É brasileiro, vai fazer 26 anos em Maio e, a meu ver, apresenta uma margem de evolução considerável. Numa altura em que se fala de possíveis entradas e saídas no plantel do SL Benfica, estou em crer que Bruno Teles poderia ser um reforço com qualidade para o setor defensivo da equipa, particularmente no lado esquerdo.

Para além de o pé dominante ser o canhoto, o jogador integra bem os movimentos ofensivos da equipa, como se pode constatar pelos golos que costuma marcar (o último foi ontem diante do Paços de Ferreira; ver aqui), é relativamente rápido e competente a defender, ainda que deva melhorar em termos de cultura tática.

A crise que assola a Europa, e o nosso país, não permite que os clubes cometam grandes loucuras em termos de contratações. A qualidade da prospeção assume, assim, um fator de inegável valor no intuito de adquirir jogadores cuja relação preço/qualidade seja apetecível e que, posteriormente, possa ser potenciada no curto/médio prazo. O exemplo do SC Braga é paradigmático: é possível formar planteis competitivos e com orçamentos mais modestos comparativamente à concorrência (i.e., adversários diretos).

A este propósito, Bruno Teles parece-me ser uma opção muito interessante, face às carências da equipa profissional do SL Benfica e aos objetivos propostos no início da época. Mesmo que não se assumisse como titular indiscutível, o que não seria complicado de suceder perante as opções que Jesus atualmente possui, poderia ser sempre uma alternativa credível e com margem de progressão. É, portanto, um lateral esquerdo a equacionar para um futuro não muito distante.

20/03/2012

Traços de génio do menino Messi

Aos 10 anos, o melhor jogador do mundo pela FIFA da atualidade - Lionel Messi - jogava no Newell's Old Boys, já envergando a camisola 10. Recentemente, tive conhecimento que um vídeo do craque argentino, então com a idade acima referida, estava a circular na web. Uma relíquia, pensei. E as minhas expectativas não foram defraudadas. Ei-lo:

Como podemos constatar, em criança, Messi demarcava-se qualitativamente dos demais miúdos da sua idade. De entre a perceção de um talento habitualmente verbalizada mediante expressões como "tem jeito para coisa" ou "muito evoluído para a sua idade", consegue-se ainda vislumbrar pormenores altamente invulgares, não somente em miúdos de 10 anos, mas também em jovens adolescentes ou, até mesmo, em praticantes de futebol adultos. Confiram, por exemplo, a finalização aos 00:15, a receção, o drible e a finalização a partir dos 01:35, o pontapé livre direto aos 02:47, a assistência para golo aos 03:28 e a sua atitude a consolar um adversário desgostoso por ter perdido a final, a partir dos 04:43. Uma qualidade destas aos 10 anos? Impressionante!

Este vídeo teve o condão de me colocar a questionar a importância da predisposição genética e do treino desportivo na formação de um futebolista de elite. Afinal, um indivíduo nasce jogador ou forma-se jogador? O perfil de rendimento de um jogador de elite é produto de um fenómeno complexo. Decerto que uns dependem mais da predisposição genética, outros da capacidade de trabalho e motivação (i.e., características de personalidade) e outros ainda da qualidade do envolvimento (i.e., escolas de futebol, treinadores, métodos de treino, companheiros de equipa, amigos, etc.) para atingir patamares de rendimento superiores. No feliz caso de Messi, a predisposição genética, as características de personalidade e o carácter propiciador do envolvimento funcionaram, ao longo da sua formação, em consonância para que, nos dias que hoje correm, pudéssemos assistir às maravilhas deste pequeno génio.

À sua família, especialmente aos pais, aos seus treinadores, aos seus companheiros de equipa, aos seus amigos e, porventura, acima de tudo, ao FC Barcelona, os meus sinceros agradecimentos.

01/03/2012

Cultura tática: o exemplo de Paul Scholes

O médio inglês Paul Scholes é um ex-retirado do futebol. O sentimento de vazio provocado pela ausência da competição na sua vida, ditou o seu regresso em Janeiro passado. O erudito manager do Manchester United (Alex Ferguson), amplo conhecedor das características e capacidades de Scholes, não hesitou a aceder.

No passado domingo (26-Fev-2012), diante do Norwich City, o médio de 37 anos demonstrou, por diversas vezes, o quão importante é, para qualquer jogador, independentemente da sua posição, perceber o envolvimento e atuar em conformidade. Tomemos como exemplo a situação em que Paul Scholes inicia e finaliza o primeiro golo do United.

Na sequência de uma circulação de bola do Manchester, Scholes abriu, ao primeiro toque, para o companheiro solto no corredor direito. Até aqui, tudo bem; quero acreditar que boa parte dos jogadores profissionais, a atuar na função de médio centro, faria o mesmo. Contudo, o que me chamou a atenção foram os comportamentos subsequentes. Segundo me parece, o camisola 22 "red" identificou na perfeição a affordance (i.e., possibilidade de ação) e dirigiu-se para a área com a nítida intenção de finalizar o processo ofensivo. Primeiramente, sugere que o jogador está inteirado do modelo de jogo da sua equipa e das características dos colegas; ao tirar proveito disso, revela toda a sua inteligência. Posteriormente, permite-nos entender que possui notáveis capacidades de "leitura" de jogo e de transformação do potencial de conhecimento em ação, como se depreende pelo compasso de espera que efetua na zona da marca da grande penalidade para, finalmente, "atacar" a bola para golo, mediante o cabeceamento.

Na minha opinião, a cultura tática de um jogador emerge precisamente das capacidades de "ler" o jogo, identificando a informação relevante do envolvimento, e de executar em função daquela ou daquelas que é/são a(s) melhor(es) oportunidade(s) de ação. É, deste modo, que decorre o ato tático e a nossa interpretação da cultura tática manifestada por um indivíduo. Neste particular, o veterano Paul Scholes é excecional. Posto isto, julgo que não foi por acaso que integrou o departamento de futebol de formação do United no interregno da sua carreira como futebolista.

29/02/2012

Evolução do futebol português passa pelo feminino

Não é um contexto circunstancial, é mesmo uma realidade que parece ter sustentabilidade: cada vez há mais raparigas a procurar o futebol como modalidade desportiva a praticar. No clube em que exerço a atividade de treinador, por exemplo, o número de miúdas inscritas tem vindo a aumentar época após época. Este facto, conjuntamente, com a organização de torneios internacionais pela Federação Portuguesa de Futebol (e.g., Algarve Football Cup, que se encontra a decorrer), permite-me discernir que este é um caminho essencial a percorrer, caso a pretensão dos nossos dirigentes passe por desenvolver a modalidade no país.

Fonte: FPF (Francisco Paraíso)

No entanto, como no caso da profissionalização da arbitragem, não podem haver atalhos e as habituais "tolices", subjacentes a este tipo de decisões, devem ser evitadas. Em primeiro lugar, e na minha perspetiva, é incorreto que uma rapariga que termina o segundo ano de Infantil (Sub-13) não possa acompanhar a sua anterior equipa nos Iniciados (Sub-15). Isto significa que uma miúda, ao concluir o segundo ano de Infantil, tem quatro hipóteses: a) deixa de praticar futebol, b) apenas treina com os colegas, mas, por imposição federativa, não pode competir, c) integra uma das raríssimas equipas de futebol feminino do país, geralmente no escalão sénior ou d) dedica-se ao futsal que, como sabemos, apresenta particularidades muito distintas do futebol.

Infelizmente, a hipótese A é a mais recorrente, precisamente porque se anula o estímulo da competição. Os regulamentos "matam" a formação desportiva de uma jovem no futebol, relegando-a para outra modalidade ou para um estilo de vida sedentário. Quer-me parecer que a modalidade em si não lucra com isso, nem o próprio país em caso de abandono da prática desportiva regular.

Por isso, a política dos novos dirigentes federativos deve transcender a negociação de chorudos contratos publicitários e televisivos, para fazer mais e melhor pelo "nosso" futebol. Neste âmbito, urge repensar esta problemática do futebol feminino e, colocando preconceitos de parte, redefinir quadros competitivos e equacionar estas “nuances” formativas, no intuito de reforçar e credibilizar os inestimáveis contributos que Portugal tem concedido ao futebol europeu e mundial.