09/07/2012

Crescer, com talento, no futebol não é fácil…


(…) nos dias que hoje correm.


A este propósito, deixo-vos as sábias palavras do professor José Neto (2012, p. 36):

E isto é particularmente evidente quando observamos as exigências do tipo comercial (lei do mercado) que coisificam e degradam, até à condição de mera mercadoria, o agente desportivo de alto rendimento, designadamente no futebol. Mas é-o também e, aqui de forma deveras preocupante, no afã despótico de muitos pais e outros agentes que, ao detectarem numa criança sinais de talento, a fazem entrar à força numa espécie de forja de craques, sugando-lhe aquilo que, para ela, é mais importante: o espaço lúdico para crescer. Quando se quer, à viva força, enxertar no homem o craque, este, a acontecer, é à custa do homem que acontece – e, após a fulguração da estrela cadente, o vazio e a solidão. Mas há mais: pouco ou nada educativo é um desporto se este se exprimir exclusivamente nas suas componentes física, táctica, técnica e normativa.

Referência
Neto, J. (2012). Futebol de corpo inteiro. Lisboa: Prime Books.

23/06/2012

O (pequeno) grande João Moutinho

Não é de agora que nutro uma admiração especial pelas capacidades futebolísticas do médio português João Moutinho. Já nos seus tempos no Sporting Clube de Portugal se fazia notar uma competência de jogo, marcada pela cultura tática, qualidade técnica e disponibilidade física, muito acima da média. Neste particular, João Moutinho destoava dos seus companheiros de equipa, assumindo claramente a liderança dos processos no setor do meio-campo.
 

Com a saída para Futebol Clube do Porto, vendido a preço de “maçã podre” (uns meros 10 milhões de Euros), Moutinho melhorou bastante a competitividade, a intensidade de jogo e as demais competências que havia manifestado no seu clube de formação. Neste âmbito, julgo que o trabalho com André Villas-Boas possibilitou que o jogador alcançasse um nível de desempenho mais elevado.

O seu jogo transborda inteligência, não apenas quando a sua equipa detém a posse da bola, mas também quando se encontra em processo defensivo. Defensivamente, desempenha uma função fundamental no meio-campo da sua equipa. É muito forte e imediato na pressão sobre o portador da bola, forçando frequentemente o erro. É muito competitivo na disputa da bola, levando a que recupere muitas vezes a sua posse, através de desarme e, inclusivamente, em situações de jogo aéreo (cabeceamento). Um outro exemplo de que a estatura não é sinónimo de competência no futebol. Ocupa muito bem o espaço de jogo, contribuindo para a) “cortar” linhas de passe interiores, designadamente na direção do seu setor mais recuado, b) compensar a subida dos laterais, cobrindo/equilibrando o espaço na sua retaguarda e c) incrementar a eficácia do processo coletivo da equipa na pressão defensiva sobre o conjunto oponente.

Com a posse da bola, João Moutinho é uma “enciclopédia prática”. É fantástico a “ler” o jogo e consegue dar, quase sem exceção, boa sequência ao ataque da equipa, independentemente do método aplicado. Vemo-lo quer a “baixar” no terreno de jogo para transportar a bola na etapa de construção, quer a executar deslocamentos em profundidade no intuito de desequilibrar a organização defensiva adversária, tanto pelo corredor central, como pelos laterais. Por vezes, faz permutas com companheiros do setor avançado, assumindo sem desdém as respetivas funções. É exímio a marcar o ritmo de ataque da equipa e apresenta uma capacidade de passe excelente, rubricando assistências primorosas para golo. Não arrisca muitas vezes o remate e este é, a meu ver, um aspeto que poderia melhorar: aparecer mais vezes em zonas de finalização e trabalhar a eficácia da ação de remate.

Em seguida, deixo-vos um vídeo que elaborei, com um compacto das ações do João Moutinho no jogo contra a República Checa (21-junho-2012), e que demonstra o que mencionei anteriormente.


O jogador algarvio enche o campo e enche-me as medidas. É o 8 da nossa seleção, mas não revela características exclusivas de um “box-to-box”. Possui ainda qualidades bastante valorizadas em jogadores que atuam nas posições 6 e 10. Na minha perspetiva, vale todos os milhões de Euros da sua cláusula de rescisão. Sem desprimor para o grande clube que é o FC Porto, penso que está na altura de dar salto. Não me engano por muito se afirmar que os colossos europeus – Real Madrid, Barcelona, Bayern Munique, Manchester City, Manchester United, Juventus, AC Milão, Inter de Milão, etc. – não possuem nos seus planteis muitos jogadores como este, o melhor médio do futebol português na atualidade: o (pequeno) grande João Moutinho.

19/06/2012

Dualidade do jogo e os (inoportunos) momentos

O jogo de futebol engloba duas fases distintas: a ofensiva e a defensiva. É nesta dualidade que assenta os processos das equipas, obviamente inerentes à problemática de deter ou não a posse de bola. Creio que esta é a visão mais simples e crua daquilo que sobressai de um jogo: uma equipa ataca, outra defende.

Contudo, e nos anos mais recentes, instaurou-se um pouco por toda a comunidade do futebol a ideia dos momentos. Há quem apregoe à existência de quatro momentos – organização defensiva, organização ofensiva, transição defesa-ataque e transição ataque-defesa – e há quem considere a existência de cinco momentos ao acrescentar as situações de bola parada (i.e., esquemas táticos).

Na minha perspetiva, estas convenções pouco ou nada acrescentam ao que estava anteriormente delimitado tendo como base a dualidade do jogo. Tanto para o processo ofensivo, como para o processo defensivo, pode entender-se a existência de etapas e métodos (Castelo, 2004). As etapas do jogo ofensivo são: construção, criação da situação de finalização e finalização; no jogo defensivo, temos as etapas de equilíbrio defensivo, recuperação defensiva e defesa propriamente dita. Em termos de métodos ofensivos, são vulgarmente conhecidos o contra-ataque, o ataque rápido e o ataque posicional. Ataque rápido e contra-ataque distinguem-se, essencialmente, pelo facto da equipa oponente estar ou não organizada defensivamente. No processo defensivo podemos ter um método individual (marcação individual), à zona, misto ou zona pressionante.

Posto isto, o surgimento dos momentos deu-me uma certa volta à cabeça. O que é um “momento”? Porquê tanto destaque dado às transições, quando na realidade são meras etapas do ataque ou da defesa? Haveria alguma falha de maior para se desconsiderar as etapas e os métodos associados às duas fases antagónicas do jogo? Parece-me que não.
 
Segundo o dicionário de língua portuguesa, um “momento” é 1) breve período de tempo, instante; 2) pouca duração; 3) tempo ou ocasião em que alguma coisa se faz ou acontece; 4) circunstância, lance; etc. Por sua vez, uma “transição” poderá ser 1) ato ou efeito de passar de um lugar, de um estado ou de um assunto para outro; 2) passagem que comporta uma transformação progressiva; etc. Tendo, por exemplo, o momento da transição ataque-defesa percebe-se que é o período de tempo em que uma equipa passa de um estado para o outro, no caso desde o instante da perda da posse de bola até à organização defensiva. Então, porque é que se refere que esta ou aquela equipa é “de transição”? No decurso do jogo as mudanças de estado não são constantes? Todas as equipas experienciam essas transições, embora umas privilegiem a organização, enquanto outras explorem mais as ditas "transições". É aqui que, na minha opinião, esta teoria dos “momentos” peca, tornando-se mais insidiosa do que a anterior. Os momentos confundem-se com os métodos.
 
Tomemos como exemplo os dois golos de Cristiano Ronaldo, diante da Holanda, no passado domingo.


Métodos distintos apoiados na capacidade coletiva da equipa em jogar consoante as circunstâncias do jogo. Se os espaços estão fechados, então circula-se a bola no intuito de criar desequilíbrios que possam ser aproveitados. Se, ao invés, o contexto é propício para o contra-ataque, a equipa deve estar preparada para saber/conseguir tirar proveito rapidamente do desequilíbrio defensivo contrário. É assim que funcionam as equipa de topo e para as quais jamais deveriam ser colados rótulos derivados de designações inoportunas de momentos do jogo.
 
Referências
Castelo, J. (2004). Futebol – A organização dinâmica do jogo. Lisboa: FMH Edições.
Porto Editora, LTA. (2003). Dicionário da língua portuguesa. Porto: Porto Editora.

03/06/2012

Radamel Falcao: a classe em modo “ponta de lança”

O colombiano Radamel Falcao (26 anos), atualmente ligado ao Atlético de Madrid, após passagens bem-sucedidas por River Plate e FC Porto, é um jogador que dispensa apresentações. Despoletou a atenção do velho continente com duas épocas de luxo no FC Porto (51 jogos, 41 golos) e por Espanha continuou a brilhar ao serviço do Atlético, onde viria recentemente a conquistar a segunda UEFA Europe League consecutiva.


Na minha perspetiva, Falcao é tudo o que um “ponta de lança” deve ser e sabe fazê-lo com classe. Para muitos o "ponta de lança" é a referência no ataque de uma formação, posicionando-se, geralmente, entre os centrais adversários e assumindo-se como o principal responsável pelas ações de finalização da equipa. Julgo que é uma conceção vulgarmente aceite pela maior parte da comunidade adepta de futebol. Eu discordo. O futebol moderno exige que o "ponta de lança" transcenda os habituais “jogar entre os centrais” e “marcar golos”.

Acima de tudo, é um jogador que deve provocar o desequilíbrio da organização defensiva adversária e, por isso, deve ser dotado de alguma mobilidade. Mesmo que não seja um jogador capaz de romper por meio da qualidade técnica e da velocidade, deve ser suficientemente ativo e móvel para apoiar companheiros de equipa para, dessa forma, criar os tais desequilíbrios defensivos da equipa oponente, através de combinações táticas. 

Voltemos a Falcao. Primeiro, destaco o sentido posicional altamente apurado, o que está subjacente à inteligência a ler o jogo e que, por sua vez, permite que antecipe ações de companheiros e adversários. Segundo, é exímio a finalizar, seja a cabecear, com o pé direito, com o esquerdo, à meia volta, de bicicleta, colocando a bola em arco, etc. Terceiro, é um jogador dotado de uma mobilidade excelente. “Baixa” para combinar com os parceiros, cai facilmente nos corredores laterais para procurar o espaço vazio e, se tiver que partir para o 1x1 (um-contra-um), possui argumentos técnicos e velocidade para o executar com êxito. Quarto e, sublinho, não menos importante: não tem qualquer problema, nem dificuldade, a assistir um companheiro melhor posicionado para fazer golo.


A frequente ideia de que o “ponta de lança” está lá para “fazer golos” e que, portanto, “é quem assume a finalização”, a meu ver, não pega. O “ponta de lança” é, como qualquer outro jogador, um elemento que contribui para o sucesso do coletivo. Neste particular, assistir um companheiro melhor colocado para finalizar não só é sinónimo de inteligência, como também é sinónimo de qualidade e competência. Radamel Falcao, como referi, é tudo o que um “ponta de lança” deve ser. Permitam-me o atrevimento de acrescentar que Falcao não é um “ponta de lança” é o “ponta de lança”. É classe!

Pergunto-me porque é que em Portugal, com todas as qualidades que são reconhecidas aos técnicos, às academias e aos respetivos prospetores, não surge um “ponta de lança”. Podia ser um meio Falcao, decerto que estaríamos, por agora, muito melhor servidos.

21/05/2012

O Paradigma dos "Extremos Invertidos"

Parece ser cada vez mais usual observar treinadores de futebol de elite a fazer uso de extremos ou médios-ala (caso joguem mais recuados) invertidos. Por extremos (ou médios-ala) invertidos entende-se a opção de colocar jogadores destros de cariz ofensivo a atuar no corredor esquerdo e, inversamente, jogadores canhotos no corredor direito.

Não pretendo fazer uma resenha histórica sobre o assunto, remontando à primeira vez que um treinador se lembrou de quebrar a vulgaridade de canhotos para a esquerda e destros para a direita, contudo, face ao número crescente de casos no futebol de alto rendimento, creio que estamos diante de um novo paradigma: a utilização de “extremos invertidos”.

No Barcelona, em tempos, Guardiola fê-lo com Henry/Messi, mais tarde com Villa/Messi, Pedro/Messi, entre outros. No Real Madrid, José Mourinho fê-lo, durante a presente época, com Ronaldo/Di Maria ou Ronaldo/Özil. Também em 2011/2012, vimos o Bayern Munique de Jupp Heynckes com Ribéry/Robben, o FC Porto de Vítor Pereira com Varela/Hulk, embora Villas-Boas (2010/2011) tivesse recorrido mais à dupla em causa, e o SL Benfica de Jorge Jesus com Nolito/Gaitán ou Nolito/Bruno César. Viajando um pouco mais além, podemos ainda vislumbrar o Shakhtar Donetsk de Mircea Lucesco com William/Douglas Costa. Decerto que outros haverá, mas que aqui não foram mencionados.   


Há quem critique as nuances comportamentais que decorrem desta opção estratégica, alegando que “afunilar” o jogo para o corredor central é benéfico para a formação que defende e que, para além disso, condiciona em demasia as valências de determinados avançados, nomeadamente os “homens de área” ou, conforme célebre tirada do treinador português Paulo Sérgio (recém vencedor da Taça da Escócia), os “pinheiros”.

Esta opção estratégico-tática depende não somente das características dos jogadores que um treinador possui, mas sobretudo da ideia de jogo do próprio treinador. Se há quem prefira ter “pinheiros”, sem mobilidade, para meter bolas no fundo da rede, de facto, os “extremos invertidos” podem não ser a solução mais viável. No cômputo geral, perante aquilo que são as exigências da competição ao mais alto nível, parece-me que traz mais benefícios do que malefícios para a dinâmica ofensiva da equipa.

As diagonais efetuadas pelos extremos fomentam uma série de situações que suplantam a mais que previsível jogada de “ir à linha de fundo para cruzar”. Por exemplo: (i) progredir para o espaço interior (corredor central) em condução ou drible, criando situação propícia para rematar à baliza; (ii) executar diagonal com bola, solicitando o apoio e posterior combinação tática (direta ou indireta) com o avançado ou médio interior, no intuito de desequilibrar a organização defensiva adversária; (iii) diagonal para o espaço interior, em progressão, permitindo a entrada no corredor de origem do lateral ou do médio interior; (iv) diagonal sem bola para a zona de finalização, surgindo, a meu ver, maior possibilidade de obtenção de sucesso na ação de remate, devido a melhor enquadramento do atacante para recorrer ao seu membro inferior dominante.   

Discordo também que tal não possa ser aplicado a equipas que não lutem por títulos. É uma circunstância estratégica treinável, como tantas outras, embora requeira maior cultura tática dos seus protagonistas, desde o avançado, que deve ser dotado de inteligência e mobilidade, passando pelos médios interiores e de cobertura, aos laterais. Não implica apenas progressão vertical, como se os extremos fizessem uso de palas, é um processo muito mais refinado e exigente.

Apesar disso, e a avaliar pelas evidências mais recentes no continente europeu, em que as melhores equipas (realço o Barcelona, o Real Madrid e o Bayern Munique) não descuram o fenómeno, merece toda a nossa reflexão. O paradigma vai sendo outro.