19/08/2012

O meu ídolo? Só um: João Vieira Pinto.

Foi outrora, e durante o período da minha infância, a única personalidade que me levou a colar posters nas estantes do meu quarto. João Vieira Pinto: o menino de ouro na altura, ou o pequeno génio como também era chamado. Um jogador cheio de talento, que muito deu ao Sport Lisboa e Benfica e acabou escorraçado por um senhor ainda a contas com a justiça portuguesa: Vale e Azevedo.

Foto: João Vieira Pinto (fonte: http://epluribusunum1904.blogspot.com).

Para além do Benfica, representou o Boavista, Atlético de Madrid, Sporting e Sporting de Braga. Venceu títulos em todos eles. Na seleção nacional Sub-20 foi bicampeão mundial (1989 e 1991) e na seleção A foi internacional 81 vezes, rubricando exibições de luxo e apontando um total de 23 golos, alguns deles espetaculares.

Atualmente é dirigente na Federação Portuguesa de Futebol. No dia de hoje – 19 de agosto de 2012 – celebra o seu 41º aniversário. Em jeito de homenagem a este enorme talento do futebol português deixo-vos as incidências da partida que mais vividamente brota da minha memória e na qual, claro está, João Vieira Pinto brilhou (Sporting 3 - 6 SL Benfica; campeonato nacional, época 1993/1994).
 

Parabéns e o meu muito obrigado pelo encanto que era ver-te jogar.

13/08/2012

De Londres 2012 para o Desporto em Portugal

A festa dos Jogos Olímpicos terminou ontem em Londres e somente voltaremos a presenciar, direta ou indiretamente, o certame em 2016, a ocorrer na cidade brasileira do Rio de Janeiro.


No rescaldo da participação portuguesa, Vicente Moura (presidente do Comité Olímpico Português) e Mário Santos (Chefe da Missão Olímpica portuguesa) classificaram os resultados obtidos como positivos, estabelecendo uma relação inequívoca com a precariedade que é o desporto em Portugal. Uma medalha de prata e nove diplomas olímpicos não é mau, porém, arrisco-me a afirmar, poderia ser muito melhor.

O investimento no desporto é escasso, a educação física (EF) e o desporto escolar são permanentemente marginalizados comparativamente a outras disciplinas escolares, depois o povo quer medalhas? Exige-se à Telma Monteiro o ouro, quando a judoca americana que a derrotou na 1ª ronda, não possuindo o mesmo talento, dispôs certamente de melhores condições para alcançar êxito na competição. Na maior parte das vezes, o talento por si só não chega; é fundamental oferecer as condições devidas de preparação para que o nível de excelência possa ser alcançado. Neste particular, comparar um atleta português a outro americano é, no mínimo, perverso. Ainda assim, às vezes lá os enganamos.

Parece ser consensual que a formação desportiva de base deve ser repensada e, acima de tudo, incentivada pelo Estado. A EF e o desporto escolar deveriam desempenhar um papel fulcral neste processo, ao invés é melhor reduzir o tempo destinado à prática de atividade física e desportiva nas escolas; é mais correto que o aproveitamento na EF não conte para a média no ensino secundário, como quem diz: “vão lá às aulas, mas não se esforcem muito para não desgastar o raciocínio para a matemática”. Aqui, apraz-me ridicularizar a situação: se um jovem apresenta um aproveitamento insuficiente na matemática, os pais não se importam de colocar o educando na explicação, muitas vezes paga a peso de ouro. De modo análogo, se um jovem não cumpre os objetivos definidos nas diversas matérias da EF, os pais, conscientemente, deveriam incentivar à prática de um qualquer desporto (natação, ginástica, andebol, karaté, dança, etc.), diminuindo o “analfabetismo motor” do seu rebento. Mas não! O melhor mesmo é não contar para a média do secundário.

Por sinal, ainda recentemente saiu uma notícia no jornal O Público (ver aqui), em que dá para perceber, através de uma pesquisa longitudinal efetuada por uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa (FMH-UTL), que a) os jovens com aptidão cardiorrespiratória saudável tiveram um maior somatório das classificações de português, matemática, ciências e inglês, b) os alunos insuficientemente ativos, ou seja, que não cumprem as recomendações de atividade física diária (pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada e vigorosa), têm maior probabilidade de serem pré-obesos ou obesos, c) o exercício promove a formação de novos neurónios e uma maior interação entre estas células nervosas, que, por sua vez, promovem maior sensibilidade e desenvolvimento cognitivo.

Estas, entre muitas outras, seriam razões mais que suficientes para incentivar à prática desportiva regular desde as idades mais tenras. Como reforça Luís Sardinha (diretor do Laboratório de Exercício e Saúde da FMH), o ideal seria que, por altura do término do 12º ano, os alunos fossem “consumidores educados de exercício físico”, muitos deles, acrescento eu, talvez desportistas nas mais distintas modalidades, porém é algo que se encontra muito longe da realidade em que vivemos.

Portugal só teria a ganhar com mais e melhor desporto: saúde, autoestima, felicidade, produtividade e, lá está, as tão proclamadas medalhas olímpicas. Porque o olimpismo consagra os principais vetores para uma vida sã em sociedade: equilíbrio das qualidades do corpo, da vontade e do espírito; desenvolvimento harmonioso do Homem; ação concertada, organizada, universal e permanente de todos os indivíduos e entidades participantes; entendimento mútuo, amizade, solidariedade e fair play; repúdio pela discriminação independentemente de raça, religião, política ou género sexual.

Urge repensar estratégias; urge valorizar o desporto no nosso país. Todos nós!

29/07/2012

Breve revisão: A grande penalidade no futebol

A marcação de uma grande penalidade é uma circunstância peculiar no decurso de um jogo de futebol. Pode resultar de uma falta ocorrida no interior da grande área ou, como último recurso, determinar o desfecho de um jogo através de uma série de penáltis para cada equipa. Por este motivo, são episódios que assumem proporções altamente mediáticas. Ainda recentemente, o Campeonato Africano das Nações (CAN, 2012), a Liga dos Campeões da UEFA (2011/2012) e uma das meias-finais do EURO 2012 foram precisamente decididos através da marcação de grandes penalidades.

Foto: O penálti de Bruno Alves no duelo das meias-finais do EURO 2012 diante da Espanha (fonte: REUTERS).

Portanto, a grande penalidade não deveria ser um evento a negligenciar na preparação das equipas para a competição, embora muitos treinadores e equipas técnicas descurem esta categoria de bola parada no seu planeamento de sessões e microciclos, lembrando-se esporadicamente de “afinar a pontaria” dos 11 metros quando a ocasião assim o exige, por exemplo, na sessão prévia a jogos da Taça. Do mesmo modo que sempre me disseram que não se deve estudar apenas no dia anterior a um teste, estou ciente de que “bater” penáltis um ou dois dias antes de um jogo a eliminar é manifestamente escasso para melhorar a competência dos atacantes e dos guarda-redes (GRs) nestas situações específicas.

Parece ser consentâneo que a execução e o resultado de uma grande penalidade dependem de estados de equilíbrio/desequilíbrio entre o jogador que remata a bola e o GR, constituindo, por isso, uma interação dinâmica de um contra um (Lopes, Araújo, Peres, Davids, & Barreiros, 2008; Palao, López-Montero, & López-Botella, 2010). Além disso, são inúmeras as variáveis que condicionam a prestação dos dois intervenientes. O conhecimento anterior (observação e análise do adversário), os estados emocionais, a lateralidade do atacante (destro ou canhoto), a localização da partida (em casa ou fora), o resultado corrente do jogo (a vencer, empatado ou a perder), entre outros, são fatores que permanecem em jogo, senão mesmo de forma mais determinante, no curto período em que decorre a grande penalidade. A investigação científica tem procurado algumas respostas, porém a maioria das pesquisas peca por o concretizar fora do contexto ecológico em que a díade atacante vs. GR emerge (Lopes et al., 2008).

Na revisão efetuada por Lopes et al. (2008) sobre esta temática, foi possível sintetizar um conjunto de conclusões comuns a diversas investigações consultadas: (i) as coxas e a perna de apoio do atacante parecem ser fontes de informação relevantes para antecipar a direção do remate por parte dos GRs; (ii) os atacantes não podem alterar a direção do remate, sem prejuízo da performance, quando os GRs se movem entre os 400 e os 300 ms antes do contacto do atacante com a bola; (iii) os GRs que obtêm mais êxito aguardam mais tempo para iniciar a ação de defesa; (iv) os GRs podem influenciar a perceção prévia do atacante para uma determinada zona da baliza e, assim, condicionar a direção do remate; (v) há uma associação forte entre a importância da grande penalidade e a efetividade do desempenho; (vi) há uma associação entre instruções negativas proferidas pelo treinador e a performance do atacante na marcação da grande penalidade.

Segundo estas evidências, a típica desvantagem atribuída aos GRs nestas situações poderá ser atenuada com o treino de um vasto leque de habilidades percetivas, para além da hipersolicitada componente motora. Neste particular, a tomada de decisão do GR pode ser potenciada caso assente num processo permanente e ativo de exploração e seleção de informação relevante que suporte a decisão (Lopes et al., 2008). Do lado do atacante, podem surgir duas estratégias para marcar o penálti: (i) a independente do GR, na qual o jogador parte para a bola com a decisão tomada em relação ao lado para onde irá rematar, focando-se na precisão e potência da ação ou (ii) a dependente do GR, em que o jogador explora e analisa, em frações de segundo, as ações do GR no sentido de decidir o lado para o qual irá rematar e obter sucesso (Lopes et al., 2008; Palao et al., 2010).

Transpondo os factos para o treino desportivo, é importante que o desenvolvimento de habilidades subjacentes à marcação de grandes penalidades não seja colocado de parte no alto rendimento e, sobretudo, nas diversas etapas de formação na modalidade. No cômputo geral, é uma tarefa bastante aprazível desde as idades mais jovens, nas quais a aquisição de habilidades percetivas, cognitivas e motoras assumem especial significado. Em ambos os estudos mencionados, os autores indicaram algumas dicas para explorar na prática. Assim, o treinador deverá: (i) melhorar a tolerância dos jogadores (atacante e GR) à pressão das grandes penalidades, mediante a oposição a adversários com diferentes estratégias; (ii) manipular constrangimentos da tarefa (distância da bola, tamanho da bola, tamanho da baliza, etc.) e constrangimentos do praticante (e.g., aumentar a pressão imposta numa decisão por grandes penalidades, criar rankings de sucesso para todos os jogadores, etc.); (iii) conceder instruções aos GRs para 1) se moverem ao longo da linha de golo, 2) permanecerem estáticos o máximo possível ou 3) definir uma posição inicial ligeiramente para a esquerda ou para a direita e, posteriormente, tentar defender o penálti; para os atacantes 1) assumir diferentes ângulos de aproximação à bola, 2) variar a distância inicial entre o próprio e a bola, 3) rematar com o pé dominante e com o não dominante.

No essencial, o treinador deve propiciar a exploração de diversas estratégias, constrangendo a tarefa e o praticante, a fim de que o mesmo possa estar suficientemente “afinado” para lidar com circunstâncias inesperadas na marcação de uma grande penalidade. A aferição dos resultados pode ser alcançada com a elaboração de uma simples grelha de avaliação com critérios pré-definidos. Eis um exemplo relativo à eficácia: (i) para os atacantes: 8 ou mais golos, em 10 tentativas, é definido como “muito bom”, entre 5 e 7 “médio” e menos de 5 “insuficiente”; (ii) para os GR: 3 ou mais defesas, em 10 remates, é definido como “muito bom”, 2 em 10 “médio” e uma ou zero “insuficiente”.

Referências
Lopes, J. E., Araújo, D., Peres, R., Davids, K., & Barreiros, J. (2008). The dynamics of decision making in penalty kick situations in association football. The Open Sports Sciences Journal, 1, 24-30. (pdf)
Palao, J. M., López-Montero, M., & López-Botella, M. (2010). Relación entre eficacia, lateralidad y zona de lanzamiento del penalti en función del nivel de competición en fútbol. Revista Internacional de Ciencias del Deporte, 4(19), 154-165. (pdf)

09/07/2012

Crescer, com talento, no futebol não é fácil…


(…) nos dias que hoje correm.


A este propósito, deixo-vos as sábias palavras do professor José Neto (2012, p. 36):

E isto é particularmente evidente quando observamos as exigências do tipo comercial (lei do mercado) que coisificam e degradam, até à condição de mera mercadoria, o agente desportivo de alto rendimento, designadamente no futebol. Mas é-o também e, aqui de forma deveras preocupante, no afã despótico de muitos pais e outros agentes que, ao detectarem numa criança sinais de talento, a fazem entrar à força numa espécie de forja de craques, sugando-lhe aquilo que, para ela, é mais importante: o espaço lúdico para crescer. Quando se quer, à viva força, enxertar no homem o craque, este, a acontecer, é à custa do homem que acontece – e, após a fulguração da estrela cadente, o vazio e a solidão. Mas há mais: pouco ou nada educativo é um desporto se este se exprimir exclusivamente nas suas componentes física, táctica, técnica e normativa.

Referência
Neto, J. (2012). Futebol de corpo inteiro. Lisboa: Prime Books.

23/06/2012

O (pequeno) grande João Moutinho

Não é de agora que nutro uma admiração especial pelas capacidades futebolísticas do médio português João Moutinho. Já nos seus tempos no Sporting Clube de Portugal se fazia notar uma competência de jogo, marcada pela cultura tática, qualidade técnica e disponibilidade física, muito acima da média. Neste particular, João Moutinho destoava dos seus companheiros de equipa, assumindo claramente a liderança dos processos no setor do meio-campo.
 

Com a saída para Futebol Clube do Porto, vendido a preço de “maçã podre” (uns meros 10 milhões de Euros), Moutinho melhorou bastante a competitividade, a intensidade de jogo e as demais competências que havia manifestado no seu clube de formação. Neste âmbito, julgo que o trabalho com André Villas-Boas possibilitou que o jogador alcançasse um nível de desempenho mais elevado.

O seu jogo transborda inteligência, não apenas quando a sua equipa detém a posse da bola, mas também quando se encontra em processo defensivo. Defensivamente, desempenha uma função fundamental no meio-campo da sua equipa. É muito forte e imediato na pressão sobre o portador da bola, forçando frequentemente o erro. É muito competitivo na disputa da bola, levando a que recupere muitas vezes a sua posse, através de desarme e, inclusivamente, em situações de jogo aéreo (cabeceamento). Um outro exemplo de que a estatura não é sinónimo de competência no futebol. Ocupa muito bem o espaço de jogo, contribuindo para a) “cortar” linhas de passe interiores, designadamente na direção do seu setor mais recuado, b) compensar a subida dos laterais, cobrindo/equilibrando o espaço na sua retaguarda e c) incrementar a eficácia do processo coletivo da equipa na pressão defensiva sobre o conjunto oponente.

Com a posse da bola, João Moutinho é uma “enciclopédia prática”. É fantástico a “ler” o jogo e consegue dar, quase sem exceção, boa sequência ao ataque da equipa, independentemente do método aplicado. Vemo-lo quer a “baixar” no terreno de jogo para transportar a bola na etapa de construção, quer a executar deslocamentos em profundidade no intuito de desequilibrar a organização defensiva adversária, tanto pelo corredor central, como pelos laterais. Por vezes, faz permutas com companheiros do setor avançado, assumindo sem desdém as respetivas funções. É exímio a marcar o ritmo de ataque da equipa e apresenta uma capacidade de passe excelente, rubricando assistências primorosas para golo. Não arrisca muitas vezes o remate e este é, a meu ver, um aspeto que poderia melhorar: aparecer mais vezes em zonas de finalização e trabalhar a eficácia da ação de remate.

Em seguida, deixo-vos um vídeo que elaborei, com um compacto das ações do João Moutinho no jogo contra a República Checa (21-junho-2012), e que demonstra o que mencionei anteriormente.


O jogador algarvio enche o campo e enche-me as medidas. É o 8 da nossa seleção, mas não revela características exclusivas de um “box-to-box”. Possui ainda qualidades bastante valorizadas em jogadores que atuam nas posições 6 e 10. Na minha perspetiva, vale todos os milhões de Euros da sua cláusula de rescisão. Sem desprimor para o grande clube que é o FC Porto, penso que está na altura de dar salto. Não me engano por muito se afirmar que os colossos europeus – Real Madrid, Barcelona, Bayern Munique, Manchester City, Manchester United, Juventus, AC Milão, Inter de Milão, etc. – não possuem nos seus planteis muitos jogadores como este, o melhor médio do futebol português na atualidade: o (pequeno) grande João Moutinho.