02/09/2012

Ensinar a jogar futebol dos 6 aos 10 anos de idade: Uma tarefa “sensível” para o treinador

NOTA PRÉVIA: O texto presente neste "post" foi publicado no número mais recente da Revista AF Algarve (n.º 69, Junho / Julho 2012).
 
Figura: Capa da Revista AF Algarve, n.º 69 Junho / Julho 2012 (Download pdf aqui).
 
Introdução
A iniciação na modalidade desportiva preferida, aquela em que se ocupa grande parte dos tempos livres a praticar com os amigos, é sempre um período marcante na formação do jovem atleta. Nos dias que hoje correm, este processo de iniciação é tudo menos tardio. No futebol, por exemplo, assistiu-se recentemente a uma reorganização dos escalões etários com o surgimento dos Traquinas (Sub-9) e dos Petizes (Sub-7). A resposta por parte de entidades desportivas, como clubes e escolas de futebol, não se fez esperar e a abertura de tais classes tornou a iniciação à prática formal de futebol mais precoce. É indiscutível: as crianças começam a treinar e a competir progressivamente mais cedo, adquirindo certas competências específicas e gerais em idades mais jovens. Quase escusado será referir que o treinador assume um papel relevante neste processo, constituindo, antes de mais, uma referência de inestimável valor aos olhos dos mais pequenos. Posto isto, o objetivo deste breve artigo é discutir o modus operandi do treinador no ensino do jogo a crianças entre os 6 e os 10 anos idades.
 
Treinador: o propiciador!
É muito comum o pensamento de que um treinador nestes escalões etários se deve limitar a ensinar/treinar habilidades técnicas e breves aspetos táticos e a desenvolver capacidades coordenativas e condicionais. A meu ver, esta abordagem é redutora, pois as preocupações do treinador devem ir muito além do mero ensino do passe, da receção, da contenção, do apoio ou do drible do Zidane; o treinador deve, antes, propiciar condições para que as habilidades se manifestem. Por exemplo, num jogo reduzido de 3x3 (três contra três) com miúdos de 7 anos, é frequente observarmos o chamado “jogo nuvem”, isto é, a aglomeração das crianças ao redor da bola. O comportamento mais habitual do treinador é parar a situação de jogo, explicar que assim não conseguem jogar futebol e que se devem afastar (aclaramento). Discordo totalmente! É precisamente nestes contextos que o “artista do grupo” vai executar um ou dois dribles, passar pela equipa adversária e marcar golo. Portanto, o treinador estará a propiciar que o potencial do miúdo se manifeste e que as outras crianças percebam como alcançar o êxito, o que não impede que sejam transmitidas algumas “dicas” pontualmente.
 
Adequar o conteúdo à aptidão da criança
Outra questão fundamental é a adequabilidade do conteúdo a lecionar às aptidões das crianças. De acordo com a Teoria Cognitiva de Jean Piaget, entre os 7 e os 11 anos, o ser humano experiencia o estágio operatório concreto, sendo capaz de lidar com conceitos, números e relações concretas, mas ainda não possui aptidão para efetuar raciocínios lógico-dedutivos. Daí que a explicação de “aclarar em relação à bola, porque assim se jogar melhor futebol” possa, de facto, não ser entendida. Neste sentido, o recurso a analogias concretas tende a ser mais eficaz. Por exemplo: a bola é o sol e os jogadores as nuvens; o que nós (treinadores) queremos é que não haja tantas nuvens à volta do sol para que ele (a bola) possa brilhar. Este tipo de “feedbacks” não deve, no entanto, sobrepor-se ao caráter propiciador do treinador; deve somente constituir um simples complemento.
 
Conclusão
O treinador é um elemento fulcral no processo de formação desportiva. No período entre os 6 e os 10 anos de idade, as crianças apresentam uma grande plasticidade para a aprendizagem, como se fossem autênticas esponjas (absorvem tudo); o treinador deve, todavia, ser suficientemente sensível para, por um lado, não castrar a manifestação do potencial do miúdo na sua relação com a bola e, por outro lado, compreender que existem particularidades no desenvolvimento humano que constrangem a aquisição de competências do jogo. Por isso, o modo como o treinador propicia contextos de aprendizagem e os adequa às aptidões do praticante determina o êxito de uma tarefa altamente complexa: ensinar a jogar futebol.

Referência
Almeida, C.H. (2012). Ensinar a jogar futebol dos 6 aos 10 anos de idade: Uma tarefa "sensível" para o treinador. Revista AFAlgarve, 69, 24-25.

25/08/2012

"Decisão técnica" de Jesus numa lição a jornalistas

Jorge Jesus veio hoje, em conferência de imprensa de antevisão do jogo do SL Benfica no reduto do Vitória de Setúbal, dar uma "lição" - qual professor catedrático (!) - a todos os jornalistas presentes. Eis o momento que registei com enorme curiosidade:
 

  
O homem tem alguma razão naquilo que refere relativamente ao jogador Melgarejo, porém o ato tático não se pode restringir somente ao posicionamento do paraguaio. Melgarejo falhou, é ponto assente. Agora falhar na "decisão técnica"? Provavelmente, o que Jorge Jesus quereria manifestar é que o seu pupilo não executou da melhor forma a ação motora (i.e., a ação técnica). Se partirmos, como ele fez, para o plano decisional entramos inapelavelmente na dimensão tática do jogo.
 
 
Para catedrático e/ou mestre da tática, o mister Jesus deveria ter noção destes conceitos básicos. Escusava de se armar novamente em "artolas" e meter os pés pelas mãos.

23/08/2012

O talento de Messi numa só jogada



Messi, o talento argentino do FC Barcelona. Nunca escondi a profunda admiração que nutro pelo futebolista. Contra o Bayer Leverkusen, na edição transata (2011/2012) da Liga dos Campeões, embora não tenha concretizado golo, demonstrou todo o seu génio numa só jogada. Criatividade, iniciativa, capacidade técnica e velocidade ao serviço do futebol. Desde o compasso de espera à "picadinha" por cima do guarda-redes alemão, passando pela aceleração e pelo drible, tudo parece simples; tudo é anedoticamente fantástico!
 
Definitivamente, Cristiano Ronaldo seria o melhor jogador do mundo, se não houvesse neste mesmo período da história da modalidade um senhor chamado Lionel Messi.

19/08/2012

O meu ídolo? Só um: João Vieira Pinto.

Foi outrora, e durante o período da minha infância, a única personalidade que me levou a colar posters nas estantes do meu quarto. João Vieira Pinto: o menino de ouro na altura, ou o pequeno génio como também era chamado. Um jogador cheio de talento, que muito deu ao Sport Lisboa e Benfica e acabou escorraçado por um senhor ainda a contas com a justiça portuguesa: Vale e Azevedo.

Foto: João Vieira Pinto (fonte: http://epluribusunum1904.blogspot.com).

Para além do Benfica, representou o Boavista, Atlético de Madrid, Sporting e Sporting de Braga. Venceu títulos em todos eles. Na seleção nacional Sub-20 foi bicampeão mundial (1989 e 1991) e na seleção A foi internacional 81 vezes, rubricando exibições de luxo e apontando um total de 23 golos, alguns deles espetaculares.

Atualmente é dirigente na Federação Portuguesa de Futebol. No dia de hoje – 19 de agosto de 2012 – celebra o seu 41º aniversário. Em jeito de homenagem a este enorme talento do futebol português deixo-vos as incidências da partida que mais vividamente brota da minha memória e na qual, claro está, João Vieira Pinto brilhou (Sporting 3 - 6 SL Benfica; campeonato nacional, época 1993/1994).
 

Parabéns e o meu muito obrigado pelo encanto que era ver-te jogar.

13/08/2012

De Londres 2012 para o Desporto em Portugal

A festa dos Jogos Olímpicos terminou ontem em Londres e somente voltaremos a presenciar, direta ou indiretamente, o certame em 2016, a ocorrer na cidade brasileira do Rio de Janeiro.


No rescaldo da participação portuguesa, Vicente Moura (presidente do Comité Olímpico Português) e Mário Santos (Chefe da Missão Olímpica portuguesa) classificaram os resultados obtidos como positivos, estabelecendo uma relação inequívoca com a precariedade que é o desporto em Portugal. Uma medalha de prata e nove diplomas olímpicos não é mau, porém, arrisco-me a afirmar, poderia ser muito melhor.

O investimento no desporto é escasso, a educação física (EF) e o desporto escolar são permanentemente marginalizados comparativamente a outras disciplinas escolares, depois o povo quer medalhas? Exige-se à Telma Monteiro o ouro, quando a judoca americana que a derrotou na 1ª ronda, não possuindo o mesmo talento, dispôs certamente de melhores condições para alcançar êxito na competição. Na maior parte das vezes, o talento por si só não chega; é fundamental oferecer as condições devidas de preparação para que o nível de excelência possa ser alcançado. Neste particular, comparar um atleta português a outro americano é, no mínimo, perverso. Ainda assim, às vezes lá os enganamos.

Parece ser consensual que a formação desportiva de base deve ser repensada e, acima de tudo, incentivada pelo Estado. A EF e o desporto escolar deveriam desempenhar um papel fulcral neste processo, ao invés é melhor reduzir o tempo destinado à prática de atividade física e desportiva nas escolas; é mais correto que o aproveitamento na EF não conte para a média no ensino secundário, como quem diz: “vão lá às aulas, mas não se esforcem muito para não desgastar o raciocínio para a matemática”. Aqui, apraz-me ridicularizar a situação: se um jovem apresenta um aproveitamento insuficiente na matemática, os pais não se importam de colocar o educando na explicação, muitas vezes paga a peso de ouro. De modo análogo, se um jovem não cumpre os objetivos definidos nas diversas matérias da EF, os pais, conscientemente, deveriam incentivar à prática de um qualquer desporto (natação, ginástica, andebol, karaté, dança, etc.), diminuindo o “analfabetismo motor” do seu rebento. Mas não! O melhor mesmo é não contar para a média do secundário.

Por sinal, ainda recentemente saiu uma notícia no jornal O Público (ver aqui), em que dá para perceber, através de uma pesquisa longitudinal efetuada por uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa (FMH-UTL), que a) os jovens com aptidão cardiorrespiratória saudável tiveram um maior somatório das classificações de português, matemática, ciências e inglês, b) os alunos insuficientemente ativos, ou seja, que não cumprem as recomendações de atividade física diária (pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada e vigorosa), têm maior probabilidade de serem pré-obesos ou obesos, c) o exercício promove a formação de novos neurónios e uma maior interação entre estas células nervosas, que, por sua vez, promovem maior sensibilidade e desenvolvimento cognitivo.

Estas, entre muitas outras, seriam razões mais que suficientes para incentivar à prática desportiva regular desde as idades mais tenras. Como reforça Luís Sardinha (diretor do Laboratório de Exercício e Saúde da FMH), o ideal seria que, por altura do término do 12º ano, os alunos fossem “consumidores educados de exercício físico”, muitos deles, acrescento eu, talvez desportistas nas mais distintas modalidades, porém é algo que se encontra muito longe da realidade em que vivemos.

Portugal só teria a ganhar com mais e melhor desporto: saúde, autoestima, felicidade, produtividade e, lá está, as tão proclamadas medalhas olímpicas. Porque o olimpismo consagra os principais vetores para uma vida sã em sociedade: equilíbrio das qualidades do corpo, da vontade e do espírito; desenvolvimento harmonioso do Homem; ação concertada, organizada, universal e permanente de todos os indivíduos e entidades participantes; entendimento mútuo, amizade, solidariedade e fair play; repúdio pela discriminação independentemente de raça, religião, política ou género sexual.

Urge repensar estratégias; urge valorizar o desporto no nosso país. Todos nós!