27/03/2013

A síndrome de Osgood-Schlatter no jovem atleta

Os benefícios decorrentes da prática de atividade desportiva desde idades jovens são bem conhecidos. Associado à atividade regular de uma dada modalidade desportiva, há, porém, um risco aumentado de lesão. Nos últimos três/quatro anos, enquanto treinador de futebol, tenho-me deparado com um número crescente de casos de jovens pré-adolescentes e adolescentes com fortes dores no(s) joelho(s) que, frequentemente, causam incapacidade e forçam os miúdos a parar.

O diagnóstico é quase sempre o mesmo: síndrome de Osgood-Schlatter. Trata-se de uma doença osteomuscular (e extra-articular) comum em adolescentes, predominantemente do género masculino, entre os 10 e os 15 anos. Embora a incidência seja menor, nas raparigas os casos tendem a suceder entre os 8 e os 13 anos e é crível que as diferenças para o género masculino diminuam à medida que aumenta o envolvimento das raparigas no desporto. De acordo com o recente artigo de revisão de Domingues (2013), este tipo de lesão afeta 1 em cada 5 adolescentes.
 
Basicamente, esta síndrome é caraterizada pela existência de uma espécie de nódulos dolorosos imediatamente abaixo do joelho, mais propriamente na inserção do tendão patelar (ou rotuliano), isto é, na tuberosidade anterior da tíbia. O stress mecânico provocado pelo tendão patelar, resultante da atividade contrátil do quadricípite, promove a separação parcial de fragmentos ósseos da tuberosidade anterior da tíbia e, consequentemente, ossículos dolorosos.
 
Imagem: Radiografia de um caso de Osgood-Schlatter (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Osgood-Schlatter).

Não é por acaso que a síndrome de Osgood-Schlatter acontece no período da vida acima mencionado. Durante a fase de desenvolvimento músculo-esquelético, as cartilagens de crescimento do osso – placas epifisárias – são muito mais vulneráveis à tensão mecânica induzida pela atividade contrátil dos músculos. Daí que, por exemplo, o treino regular de alta intensidade (corrida, saltos e outras ações dos membros inferiores) e o excesso de peso constituam fatores de risco inerentes ao surgimento da lesão. O futebol, o basquetebol, o voleibol e o atletismo são algumas das modalidades desportivas em que incidência de Osgood-Schlatter é mais referenciada (Domingues, 2013).

No cômputo geral, a dor no joelho cessa no final do período abrupto de crescimento (dura, aproximadamente, 2 anos) e as consequências de longo-prazo tendem a ser otimistas para a maioria dos jovens. A síndrome de Osgood-Schlatter é, portanto, temporalmente limitada e é expectável que ocorra uma recuperação completa com o “fechar” da placa de crescimento tibial. O tratamento deve incluir exercícios de terapia funcional com a expansão da musculatura isquiotibial, que é preferível relativamente à imobilização da articulação. Segundo Domingues (2013), esta medida é recomendada mesmo que ocorra a formação de ossículos que, no entanto, apenas se observam em 20-25% de todos os casos de Osgood-Schlatter. Em última instância, a cirurgia para remover os nódulos ósseos pode ser uma opção, mas apenas quando as medidas terapêuticas convencionais não são suficientes.
 
Os treinadores desportivos podem tomar algumas precauções para prevenir ou condicionar o aparecimento da lesão. A literatura é consensual acerca da prescrição regular de exercícios de alongamento muscular. Um bom aquecimento prévio da musculatura da coxa (quadricípites e isquiotibiais) e da articulação do joelho pode, também, minimizar os efeitos das ações locomotoras e específicas da modalidade desportiva na placa epifisária da tíbia. Crianças/jovens com excesso de peso devem ser encorajados a perder massa corporal e, por último, os jovens devem evitar realizar atividades/exercícios com cargas exageradas e que proporcionem um stress excessivo no tendão patelar (Domingues, 2013).

Referências
Domingues, M. (2013). Osgood Schlatter’s disease - A burst in young football players. Montenegrin Journal of Sports Sciences and Medicine, 2(1), 23-27.
Wikipédia (n. d.). Síndrome de Osgood-Schlatter. Retrieved March 27, 2013, from http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Osgood-Schlatter

19/03/2013

Science and Football VII

O livro Science and Football VII: The Proceedings of the Seventh World Congress on Science and Football está prestes a ser publicado pela editora Routlegde, do grupo Taylor & Francis. O lançamento está previsto para o próximo dia 29 de março.
 
 
Basicamente, é uma obra com enfoque na mais recente investigação científica numa variedade de desportos associados ao termo “football” (i.e. futebol), incluindo o futebol, o futebol americano, o futebol australiano, o futebol gaélico e o râguebi. Com o objetivo de estreitar a brecha entre a teoria e a prática, o livro contém uma série de artigos anteriormente apresentados no sétimo Congresso Mundial de Ciência e Futebol, realizado em maio de 2011, em Nagoya, Japão. É, portanto, uma ferramenta importante para todos os investigadores de ciências do desporto, treinadores, professores, psicólogos e outros profissionais que trabalham nestes códigos do futebol.
 
A título pessoal, é mais um volume que irei adicionar à minha biblioteca. Não apenas pela sua relevância científica e formativa, mas também porque, pela primeira vez, incluirá um capítulo em que sou coautor. Na sétima parte do livro – Training Science, Coaching and Psychology – podemos encontrar o capítulo 64: Offensive sequences in youth soccer: Experience and small-sided games effects. Este artigo resulta da minha tese de mestrado e é, neste âmbito, publicado com o precioso contributo dos professores António Paulo Ferreira, Anna Volossovitch e Ricardo Duarte, da Faculdade de Motricidade Humana, Universidade Técnica de Lisboa.
 
Referência
Almeida, C. H., Ferreira, A. P., Volossovitch, A., & Duarte, R. (2013). Offensive sequences in youth soccer: Experience and small-sided games effects. In H. Nunome, B. Drust, & B. Dawson (Eds.), Science and football VII: The proceedings of the seventh world congress on science and football (pp. 403-408). London: Routledge, Taylor & Francis Group.
Link

17/02/2013

Futebol no World Press Photo 2013


Football in Guinea-Bissau
 
 
Foto: Daniel Rodrigues (fonte: http://www.worldpressphoto.org)

Daniel Rodrigues é português, desempregado e venceu recentemente o prémio da World Press Photo 2013, na categoria "Vida Quotidiana". De acordo com a descrição, a fotografia foi captada num "campo de futebol" improvisado num terreno que, no tempo colonial, foi ocupado pelo exército português.

Homens, mulheres, crianças e a bola, no meio do pó. Jogar faz parte da nossa condição humana e o potencial formativo de qualquer jogo desportivo coletivo é imenso. Para quem o futebol não passa de "vinte e dois malucos a correr atrás de uma bola", eis uma imagem da paixão que desperta um pouco por todo mundo. É universal. Um subterfúgio da guerra, da fome e da doença. Um meio privilegiado para educar os mais pequenos, para mediar conflitos e aglutinar multidões para as causas mais nobres. Tudo em torno de uma bola. Porque embora não esteja desprovido dos seus podres (violência, doping, adulteração de resultados, etc.), é muito mais aquilo que o futebol unifica do que separa.

15/02/2013

A insustentável leveza do ser

Após largas semanas em cima da mesa-de-cabeceira, terminei a leitura da obra “A insustentável leveza do ser”. Trata-se de um clássico da literatura europeia de Milan Kundera, um checoslovaco exilado político na sequência da invasão comunista dos russos ao seu país, em 1968. Um suposto romance sobre esses tempos de censura e opressão, que mais parece um ensaio filosófico sobre as dicotomias do universo, como especifica Joana Varela no Posfácio, “necessidade e contingência, fidelidade e traição, realidade e sonho, corpo e alma, peso e leveza, uno e múltiplo, força e fraqueza” (p. 362).


Para vossa reflexão, deixo um breve trecho do livro que comprova a inteligência do autor no emprego das palavras, com sentido crítico, ironia e boa dose de humorismo, acerca de uma temática tão controversa e, por vezes, confusa, como é a relação entre as condições humana e divina, entre o Homem e o seu Deus criador:
 
Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes, e o gado. É claro que o Génesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa que a humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas.
 
É um direito que só nos parece natural porque quem está no topo da hierarquia somos nós. Bastava que entrasse mais outro parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito «Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas», para que toda a evidência do Génesis ficasse logo posta em questão. Talvez depois de um marciano o ter atrelado a uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via Láctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela que costuma comer e apresentasse (tarde demais) as suas desculpas à vaca.
 
Kundera (2005, p. 326)
 
Referência
Kundera, M. (2005). A insustentável leveza do ser (27ª ed.). Lisboa: Publicações Dom Quixote.

10/02/2013

Análise do jogo "in loco" pelo treinador: O caso Toni


O português Toni, desde que emigrou para o Irão para treinar os vice-campeões do Tractor, tem tido uns comportamentos, no mínimo, bizarros. Não sei se é do ambiente que por lá se vive, se a derrota é punida com pena de morte, mas não me lembro de tais descontrolos emocionais em Portugal.
 
Há uns meses perdeu as estribeiras numa conferência de imprensa. Há dois dias atirou-se literalmente para o tartan, no decurso de um jogo em que estava a vencer por 1-0, e na sequência do que aparenta ser uma péssima decisão de um dos seus jogadores (para ver o vídeo, clique aqui).
 
Foto: Toni foi ao tartan num jogo do Tractor. (fonte: www.abola.pt).

Não é por acaso que se costuma referir que a emoção é a inimiga da razão. Qualquer ser humano não está imune a descontrolos emocionais e temos diversos exemplos do português mais conceituado José Mourinho. Contudo, a questão que se coloca é: não será a vivência dos jogos, com os “nervos à flor da pele”, um fator negativo para a observação, a análise e a resposta do treinador em pleno jogo?
 
Quem assume ou já se assumiu as funções de treinador em situação de competição sabe que é bem possível que isso seja prejudicial para os seus próprios julgamentos, tomadas de decisão e feedbacks. Do mesmo modo que o treinador, no pós-jogo imediato, esquece inúmeros acontecimentos relevantes que ocorrem numa partida, também há muitos detalhes que passam impercetíveis quando se deixa governar pela emoção. Naturalmente, a informação disponível para formular decisões não é tão precisa, o que condiciona negativamente a resposta, seja de que índole for (feedback, substituição de jogadores, alteração estratégico-tática, etc.).
 
Daí que seja conveniente ter sempre por perto e comunicar com um ou mais elementos (normalmente, treinadores adjuntos) capazes de efetuar uma análise do jogo “in loco” assente na razão e, portanto, estando libertos da parcialidade e do foco de distração que é o funcionamento exacerbado dos centros emocionais. O alto rendimento assim o exige e, mesmo perante a existência de planos de jogo em que sejam equacionados e previstos determinados episódios no desafio, o treinador terá, em última instância, de selecionar aquela que pensa ser a melhor resposta para concretizar os objetivos da equipa.
 
Atirar-se para o chão, vociferar impropérios, gesticular desalmadamente e rogar pragas aos sete ventos não é solução.

Calma, Toni!