28/05/2013

Maria dos Canos Serrados

Um romance de Ricardo Adolfo, autor que desconhecia. Uma oferta muito bem-vinda, por sinal, de um amigo que detém o dom da palavra. Julgo que a velocidade com que se devora um livro é diretamente proporcional à sua qualidade. Pois bem, este “marchou” em escassos dias.
 
Imagem: Capa do livro "Maria dos Canos Serrados" (Ricardo Adolfo).
 
O enredo remete-nos para os subúrbios de Lisboa, sendo a personagem principal “uma moça de má rês que se torna pior ainda”. Maria relata a sua história, na primeira pessoa, ao seu amado, um gigolô negro que ganha a vida a fazer turistas em Armação de Pera. O consumo de droga, os tempos de crise, de despedimentos e a iniciação ao crime são abordados de uma forma escorreita, crua e absolutamente desprovida de tabus. Trata-se, assim, de “uma reflexão sobre a nova mulher, que não precisa de Clyde para ser Bonnie”.
 
Consagrados da literatura portuguesa, como António Lobo Antunes e Valter Hugo Mãe, aplaudem. Longe de ser um especialista, recomendo vivamente.
 
Eis um breve capítulo do livro que, para além de estar sublimemente redigido, me permitiu lançar uma boa gargalhada:
 
“Frouxo.
 
A primeira coisa que fizemos assim que chegámos ao local de desemprego foi googlar se a falta prolongada de orgasmos pode ter efeitos nocivos. A lista de maleitas é infinita. Isto está a tornar-se um caso clínico crónico. Tem de haver uma droga legal para este tipo de doença. Se não há, o que é que as farmacêuticas andam a investigar? Imagina tomares uma pastilha e a seguir começares a orgasmar. É a ideia do milénio, só pode.
 
Devíamos ter ido para Farmácia, devíamos não ter chumbado a Físico-Química por faltas, devíamos ter sido avisadas de que quem se balda à escola ou vai para ministro ou então está fodido.”

09/05/2013

30 + (1983 - 1773) = 240

Quis a batuta do destino que a minha entrada na terceira década coincidisse com o feriado municipal de Monchique. De 1983 para 1773 (promoção de Monchique a vila) vão 210 anos; somando-se os ditos 30, temos 240. Tudo números redondos, tudo meras coincidências numa vida pautada por uma estreita relação com a terra natal.
 
E quando, por vezes, rogo pragas inúteis por isto ou por aqueloutro, abrem-se, subitamente, as portas do meu exilo para o mundo:
 
 Foto: vista panorâmica da vila de Monchique (9 de maio de 2013).
 
Nesse mesmo instante, tudo muda.

02/05/2013

A criança, a atividade/exercício físico e o progresso da nação: Evidências e utopias

Vivemos tempos de austeridade e, portanto, de cortes – muitas vezes indiscriminados – na saúde e na educação. No que apraz à Educação Física (EF), ao exercício físico e ao desporto, os meus principais pilares de intervenção na sociedade, há muito que o descrédito é grande, apesar de as evidências científicas indicarem precisamente o inverso. Menos aulas de EF, possibilidade de terminar com a Atividade de Enriquecimento Curricular no 1º Ciclo e menor investimento público no exercício físico e no desporto constituem uma mescla de rumores e certezas que, de quando em vez, emerge nos órgãos de comunicação social. 

O parágrafo anterior traça o cenário vigente em Portugal. A importância da atividade física, nas suas diversas manifestações, é amplamente negligenciada pelos nossos políticos. Porém, se tivessem vontade de realizar uma breve pesquisa, verificariam que existem inúmeros factos científicos cujos benefícios até lhes poderiam convir no médio ou longo prazo. Adiante, e para que a leitura não tome muito do tempo dedicado pelos nossos governantes à economia, às finanças e às “troikas” deste mundo, recomendaria apenas a leitura de um artigo de revisão. Eis a referência e o respetivo link: 

Haapala, E. A. (2013). Cardiorespiratory fitness and motor skills in relation to cognition and academic performance – A review. Journal of Human Kinetics, 36, 55-68. (pdf) 

Ainda assim, não vá o inglês servir de empecilho para alguns “ditos que não ditos” desejáveis, presto-me a efetuar um breve resumo da informação relevante: 

1)   Níveis mais elevados de condição cardiorrespiratória e de habilidades motoras estão associados a capacidades cognitivas aumentadas. 

Diversos estudos científicos demonstraram que os níveis de fitness cardiorrespiratório estão, essencialmente, associados a melhores performances (i) em tarefas que requerem a alocação da atenção e (ii) em testes de memória que envolvem processos de codificação por parte do hipocampo. Na sua revisão, Haapala (2013) cita autores que sugerem um efeito positivo da atividade física nas funções cognitivas, parcialmente causadas por modificações fisiológicas no organismo. Supostamente, tais modificações implicam o aumento de concentrações de fatores neurotróficos cerebrais que facilitam a aprendizagem e preservam as funções cognitivas, através da melhoria da plasticidade sináptica e da sua atuação enquanto agente neuroprotetor. O incremento da circulação sanguínea no cérebro e a melhoria da funcionalidade neuroelétrica também são processos inerentes ao desenvolvimento cognitivo por meio da atividade física regular. Para além disso, sabe-se, de experiências com animais, que exercícios de resistência promovem a angiogénese (i.e., aumento da densidade capilar), enquanto que exercícios de cariz motor propiciam a sinaptogénese (i.e., aumento do número de ligações sinápticas). A melhoria da condição cardiorrespiratória também foi associada a incrementos ao nível da memória relacional. 

Foto: A atividade física nunca é demais durante a infância.

2)   Crianças/jovens (até aos 13 anos) com melhores índices de condição física e de habilidade motora obtêm melhor aproveitamento em testes académicos do que crianças que apresentam índices inferiores.  

Aparecem documentados resultados relativos a tarefas para avaliar o quociente de inteligência (QI), a atenção, o controlo inibitório, a memória de curto prazo e o desempenho académico. O controlo inibitório é o núcleo das mais altas funções cognitivas, designadas de controlo executivo. Entre as crianças, está demonstrado que o controlo inibitório é um preditor relevante do desempenho académico, embora também esteja relacionado com a saúde física e mental em adultos, sendo, por isso, uma componente vital do desenvolvimento cognitivo durante a infância. Sinteticamente, crianças com melhor condição física têm melhor controlo inibitório comparativamente a outras crianças com níveis mais reduzidos. Através de imagens de ressonância magnética, alguns estudos evidenciaram que crianças com níveis de fitness superiores exibem padrões de ativação neural (córtices pré frontal e parietal) e de adaptação cognitiva mais eficientes que crianças com menor condição física. Em termos percetivo-motores, é evidenciado que crianças com habilidades mais refinadas tendem a ter classificações médias mais elevadas. Estudos de intervenção confirmaram uma conexão positiva, embora fraca, entre o treino de habilidades motoras e o incremento da performance académica e da capacidade de leitura em crianças em idade escolar.  

3)   A relação negativa entre a adiposidade e as funções cognitivas podem ser parcialmente explicadas pelo fraco desenvolvimento da condição cardiorrespiratória e da habilidade motora, devido à falta de atividades físicas e mentais desafiantes. 

Nos dias que hoje correm, o flagelo da obesidade infantil tem-se alastrado um pouco por todo o mundo. As crianças estão progressivamente a tornar-se mais sedentárias e mais obesas, uma vez que não atingem os níveis mínimos de condição físico-motora inerentes ao desenvolvimento cognitivo e à preservação da saúde cerebral. Posto isto, é crível que a atividade física, incluindo exercícios aeróbios moderados a vigorosos e tarefas motoras exigentes, constitua um estímulo de treino efetivo para melhorar o funcionamento cognitivo, a performance académica e a saúde cerebral em crianças com excesso de peso. Assim, para além dos benefícios cardiovasculares e metabólicos sobejamente conhecidos, a prescrição adequada de atividade física pode incrementar a saúde e as funções cerebrais. 

Em suma, o caminho a adotar deve privilegiar a promoção da atividade física, do exercício físico e do desporto. Faz todo o sentido aumentar a carga horária de EF e não extinguir a Atividade de Enriquecimento Curricular no 1º Ciclo que, não sendo obrigatória, ainda vai equilibrando a balança no que ao dispêndio energético das nossas crianças diz respeito. No longo prazo, a lógica parece assumir contornos simples. A mais e melhor atividade física, exercício físico e desporto corresponderá uma população mais saudável e cognitivamente mais capaz. A produtividade e a competitividade da nossa indústria e dos nossos serviços aumentarão, o que concorrerá para o tão ambicionado crescimento económico. Talvez tudo se resuma a um pensamento utópico da minha parte. Contudo, ignorarmos todo o corpo de evidências que se vão acumulando, não nos trará quaisquer dividendos no futuro. Antes pelo contrário! 

PS – Grande parte das considerações acima referidas têm por base o artigo de revisão do Haapala (2013). Caso queiram aprofundar o vosso conhecimento sobre o tema e estar a par das referências mais importantes, sugiro que leiam atentamente o artigo.

04/04/2013

O microciclo padrão no escalão de Infantis (Sub-13): Uma proposta metodológica


NOTA PRÉVIA: O presente texto foi publicado no número mais recente da Revista AF Algarve (n.º 72, Fevereiro / Março 2013).

Imagem: Capa da Revista AF Algarve, n.º 72, Fevereiro / Março 2013 (download pdf aqui). 
 
A Relevância do Microciclo nos Modelos de Periodização Atuais no Futebol
Nos jogos desportivos coletivos, onde se inclui o futebol, o tipo de periodização do treino não é idêntico ao comummente observado nos desportos individuais. Há algumas décadas atrás, era vulgar projetar e implementar estruturas de planeamento fortemente assentes no desenvolvimento das capacidades condicionais (i.e., força, velocidade, resistência e flexibilidade) no treino de modalidades coletivas. Tratando-se de desportos com estruturas de rendimento complexas, acabou por se perceber que os modelos de periodização clássicos eram bastante limitados. Por isso, a teoria e a metodologia do treino têm vindo a evoluir no sentido de dar resposta às necessidades, cada vez mais específicas e exigentes, desta tipologia de desportos, designadamente no que concerne ao alto rendimento. 

Particularmente no futebol, a lógica de ajustar a periodização ao calendário competitivo enfatizou o microciclo como estrutura fundamental de planeamento ao longo da época desportiva (Seirul-lo Vargas, 2001). A sua definição surge em função da distribuição cíclica dos jogos (competição), permitindo organizar e assegurar a coerência dos processos/conteúdos de treino numa determinada sequência de sessões, embora corresponda normalmente a uma semana de preparação. Nos modelos de periodização mais recentes, com destaque para a Periodização Tática, o desenvolvimento do “jogar” é concretizado mediante o estabelecimento de um microciclo padrão. Esta microestrutura é padronizada, contudo, os seus conteúdos não são estanques, nem tão pouco devem ser repetidos de forma rotineira. Segundo Guilherme Oliveira, citado por Silva (2008), o padrão semanal é basilar para a organização do processo, porém, após o jogo, é feita uma análise e elaborado um conjunto de objetivos a atingir na semana seguinte (dinâmica aquisitiva do “jogar”), pelo que os conteúdos e os meios de treino podem ser muito diversificados. A competição assume um papel determinante na configuração do padrão semanal, na medida em que se constitui como o meio mais fidedigno de identificar se o que o treinador pretende está ou não a ser conseguido, se as ideias estão ou não a ser transmitidas corretamente. 

Periodizar o Treino de Crianças/Jovens: Algumas Considerações
Não é novidade que o treino de jovens não se pauta pelos mesmos critérios da prática desportiva adulta. Apesar disso, a realidade mostra-nos um elevado grau de generalização dos modelos de periodização nos diferentes níveis de rendimento, inclusivamente nas diversas etapas de formação no futebol. Por exemplo, a Periodização Tática, que tem vindo a ganhar imensos seguidores na modalidade, tem sido aplicada indiscriminadamente tanto a equipas de elite, como a nível sénior no distrital e, disparatadamente, no treino com crianças/jovens com menos de 13 anos de idade.  

Vítor Frade, conhecido como o mentor da Periodização Tática, admite que este modelo de periodização deve ser introduzido somente a partir da fase de especialização, ou seja, do escalão de Iniciados (Sub-15) (Fonseca & Garganta, 2006). Esta ideia adquire significado uma vez que este modelo de periodização apresenta uma orientação conceptual e metodológica no sentido do alto rendimento. Portanto, não é o processo de formação de jovens na modalidade que está em causa, mas sim a organização da forma desportiva dos jogadores (o individual) e da equipa (o coletivo), no quadro de ações e comportamentos inerentes ao modelo de jogo pretendido pelo treinador. 

Treinar com intensidades elevadas desde o período preparatório da época não faz muito sentido no treino com crianças/jovens. Nos escalões de formação de base, a aprendizagem nas dimensões técnica e tática não é um processo imediato, requerendo mais o volume que a intensidade, no intuito de aperfeiçoar ações técnicas, desenvolver a capacidade de raciocínio tático, evitando, por outro lado, o insucesso que conduz à saturação, desistência e abandono do processo de treino e competição (Stafford, 2005). Outra questão essencial na formação do jovem praticamente é a relação estabelecida entre os princípios da multilateralidade e da especificidade. Ambos são importantes, porém, a sua importância relativa varia ao longo do processo; o treinador deve procurar consagrar cumulativamente o papel destes dois princípios no decurso de cada etapa de formação. Adotando a Periodização Tática, toma-se a especificidade como princípio orientador do treino, havendo pouco tempo para o trabalho de caráter geral ou multilateral. O treino em especificidade, que não é o “sempre em contacto com a bola”, como erradamente alguns treinadores referem, pode não ser uma condição exclusiva nos escalões de formação de base. O jogo deve ser o principal meio para promover a aprendizagem da modalidade, no entanto, o trabalho de cariz multilateral, ainda que reduzido ou moderado, pode ser benéfico a longo prazo ao pressupor um desenvolvimento equilibrado das capacidades condicionais e coordenativas nas designadas fases sensíveis ou intervalos ótimos de treinabilidade (Stafford, 2005; Martin et al., 2008).  

Por sua vez, é fulcral adequar os conteúdos a transmitir às características das crianças/jovens. A aprendizagem na dimensão tática é especialmente constrangida pelo desenvolvimento cognitivo e percetivo-motor dos jovens, devendo cingir-se, até ao escalão de Infantis (Sub-13), a pouco mais que aos princípios específicos (ofensivos e defensivos) e à noção estratégico-tática de jogar em triângulos, operacionalizados através de jogos reduzidos e/ou condicionados e formas jogadas. Importa dotar os mais jovens de simples regras de ação para solucionar problemas resultantes do contexto situacional do jogo e não propiciar, como na Periodização Tática, uma aquisição progressiva de princípios e subprincípios, conducentes a uma dinâmica organizada do “jogar” da equipa, em pleno respeito pelo modelo de jogo. Pretende-se que os jovens aprendam a pensar e a tomar decisões de forma autónoma, libertos de fatores extrínsecos que condicionem a manifestação do seu potencial individual, sejam eles o modelo de jogo a cumprir ou a obediência de instruções provenientes do treinador. 

Proposta Metodológica para o Escalão de Infantis (Sub-13)
Conforme visto anteriormente, a adoção de um modelo de periodização nos escalões de formação de base deve reger-se por pressupostos distintos dos que norteiam a prática adulta amadora ou de alto rendimento. Ainda assim, é possível encontrar ideias suscetíveis de serem adaptadas na periodização do treino com crianças/jovens. A figura 1 exibe uma proposta de microciclo padrão, estruturalmente baseado no paradigma da Periodização Tática, mas com conteúdos e respetiva organização adaptados ao escalão de Infantis (12-13 anos).

Figura 1. Proposta de microciclo padrão para o escalão de Infantis (Sub-13) com três treinos semanais (p.f., clique em cima da figura para ampliar). 
  
Esta proposta engloba três sessões semanais, cada uma com uma duração total entre os 75 e os 90 minutos. O domingo, a terça e a sexta-feira não constam na figura, sendo considerados dias de recuperação passiva, embora esta configuração possa, naturalmente, ser ajustada. De acordo com Rowland (2005), as crianças e os jovens pré-adolescentes tendem a recuperar mais rapidamente que os adultos, tanto em exercícios de intensidade elevada, como noutros de menor intensidade, devido a diferenças observadas nalguns parâmetros fisiológicos, o que leva a supor que os dias de repouso permitem a recuperação praticamente total para o treino ou competição seguinte.  

Relativamente às dimensões do treino, a sua importância relativa (%) procura dar resposta às necessidades básicas de treino multilateral e específico nestas idades. Ainda que Stafford (2005) proponha uma relação de 40/60, o microciclo proposto privilegia mais o princípio da especificidade, sendo a proporção igual ou superior a 35/65. Este escalão etário constitui uma etapa fundamental para a aprendizagem, pelo que na dimensão tático-técnica o treinador deve estimular a autonomia decisional dos jovens praticantes, sem grandes restrições estratégico-táticas, mediante duas abordagens: a descoberta guiada e a resolução de problemas contextuais do jogo. Adaptando os procedimentos da Periodização Tática, a evolução semanal nesta dimensão comporta três níveis:  

·      Dia 1 (fração intermédia do “aprender a jogar”): espaço e número de jogadores reduzidos; condicionantes/constrangimentos ao nível do número de passes, toques sobre a bola ou circulação da mesma por determinados corredores; diversidade de alvos; superioridade/inferioridade numérica (Gr+2v4+Gr); paragens pontuais para instruções/feedbacks sobre conceitos táticos simples; privilegiar a manutenção da posse de bola; princípios específicos do jogo ofensivo.

·      Dia 2 (grande fração do “aprender a jogar”): espaço e número de jogadores pouco reduzidos; igualdade numérica (Gr+5v5+Gr); condicionantes ligeiras ou inexistentes; poucas paragens; resolução de problemas de situações similares à competição; enfoque na organização setorial; referência aos princípios específicos do jogo defensivo.

·      Dia 3 (pequena fração do “aprender a jogar”): jogos mais reduzidos (3v3; Gr+2v2+Gr); condicionantes inexistentes, para libertar a criança/jovem de restrições tático-técnicas na sessão anterior ao jogo; elevada velocidade de decisão e execução; situações muito descontínuas; incidir prioridade na finalização; proporcionar combinações táticas; promover a aprendizagem de situações de bola parada (pontapés de canto, pontapés livres e lançamentos laterais); focalizar um ou outro princípio específico. 

No que concerne às capacidades condicionais e coordenativas, no Dia 1 a maior importância relativa é atribuída à força (geral e/ou específica), através de jogos lúdicos (“carrinho de mão”, “tração à corda”, “cavalitas”), estafetas (“pé coxinho”, “saltos a pés juntos”, “condução de bola com tração”, etc.) e circuitos (incluir exercícios com o próprio peso corporal, saltar barreiras/à corda) e, posteriormente, à flexibilidade (exercícios dinâmicos na fase preparatória). No Dia 2 o enfoque é dado à resistência e, em menor grau, à coordenação motora, promovendo-se o trabalho de habilidades motoras gerais e específicas em situações de jogo lúdico (apanhada), jogo pré-desportivo ou circuitos multiatividades. Por último, no Dia 3 privilegia-se o treino das diversas formas de manifestação da velocidade (geral e específica, cíclica e acíclica), por estarmos já no que Stafford (2005) menciona como intervalo ótimo de treinabilidade.  

Muito mais haveria para escrever sobre esta proposta. Outras decerto terão o seu mérito. É importante que reflitamos sobre a temática e que se partilhem experiências. Como avançar no sentido de definir modelos de organização do treino conducentes a um desenvolvimento mais equilibrado e efetivo dos jovens e que garantam níveis de rendimento cada vez mais elevados no futuro? E mesmo que poucos atinjam o alto rendimento, não é admissível negligenciarmos procedimentos que, a longo prazo, funcionem como elementos estruturantes da formação desportiva e cívica daqueles que, futebol à parte, constituirão o futuro da nossa sociedade: as crianças e os jovens. 

Referências
Fonseca, H., & Garganta, J. (2006). Futebol de rua: Um beco com saída. Do jogo espontâneo à prática deliberada. Lisboa: Visão e Contextos.
Martin, D., Carl, K., & Lehnertz, K. (2008). Manual de teoria do treinamento esportivo. São Paulo: Phorte Editora.
Rowland, T. W. (2005). Children’s exercise physiology (2nd Edition). Champaign, IL: Human Kinetics.
Seirul-lo Vargas, F. (2001). Nuestra entrevista del mes: entrevista de metodologia y planificación. Revista Training Fútbol, 65, I-XI.
Silva, M. (2008). O desenvolvimento do jogar, segundo a Periodização Táctica. Pontevedra: MCSports. 
Stafford, I. (2005). Coaching for long-term athlete development: To improve participation and performance in sport. Leeds: Sports Coach UK.

29/03/2013

Journal of Human Kinetics (Vol. 36)

Algures entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, o professor João Barreiros teve o condão de despertar a minha curiosidade para a investigação. Nas suas aulas de Metodologia de Investigação Científica, frisou que fazer um estudo para permanecer na biblioteca da faculdade, junto a tantas outras teses de mestrado e doutoramento, seria um investimento desperdiçado, em termos de recursos temporais, financeiros e humanos. O garante de qualidade e o respetivo retorno viriam com a publicação numa revista científica nacional ou, se possível, internacional. Naquele momento, das palavras do professor depreendeu-se um desafio a todos os alunos. Um bom desafio, pensei. 

Por ser a primeiro trabalho do género, demorou imenso a concluí-lo. Longe de ser um mar de rosas, fomos superando as sucessivas adversidades com que nos deparámos. Refiro-me na primeira pessoa do plural, porque foi um processo coletivo; estou certo que sozinho não teria sido possível. Entre submissões fracassadas, revisões, críticas, por vezes injustas, sugestões e reformulações, o conteúdo foi progressivamente melhorando. Fomos colhendo alguns frutos pelo caminho: um poster no World Congress on Science and Football (Japão, 2011), dois resumos nos Books of Abstracts do World Congress on Science and Football (2011) e do 16th Annual Congress of the European College of Sport Science (Liverpool, 2011) e um capítulo no livro Science and Football VII (2013). 

Agora, finalmente, é publicado o artigo integral no Journal of Human Kinetics. A cereja no topo do bolo, presente no volume 36 (março de 2013), secção III – “Sports Training”, deste periódico. Um paper que partilho com os coautores António Paulo Ferreira e Anna Volossovitch, professores da Faculdade de Motricidade Humana – Universidade Técnica de Lisboa, e cujo contributo foi inexcedível e precioso, durante mais de três anos. Como vem sendo habitual, assinalo a ocasião no Linha de Passe, deixando-vos o resumo (abstract) do artigo "Offensive sequences in youth soccer: Effects of experience and small-sided games" e o link através do qual poderão aceder, gratuitamente, à versão oficial da revista (ver referência).
 

Abstract 
The present study aimed to analyze the interaction and main effects of deliberate practice experience and small-sided game format (3 vs. 3 and 6 vs. 6 plus goalkeepers) on the offensive performance of young soccer players. Twenty-eight U-15 male players were divided into 2 groups according to their deliberate practice experience in soccer (i.e., years of experience in federation soccer): Non-Experienced (age: 12.84 ± 0.63 years) and Experienced (age: 12.91 ± 0.59 years; experience: 3.93 ± 1.00 years). The experimental protocol consisted of 3 independent sessions separated by one-week intervals. In each session both groups performed each small-sided game during 10 minutes interspersed with 5 minutes of passive recovery. To characterize the recorded offensive sequences we used the Offensive Sequences Characterization System, which includes performance indicators previous applied in other studies. No interaction effects on the offensive performance were found between both factors. Non-parametric MANOVA revealed that the factor “experience level” had a significant effect (p<0.05) on performance indicators that characterize the development of offensive sequences, especially in 6 vs. 6 + GKs. While experienced players produced longer offensive sequences with greater ball circulation between them, the non-experienced participants performed faster offensive sequences with a predominance of individual actions. Furthermore, significant differences were observed (p<0.05) in the development and finalization of offensive sequences within each group, when comparing small-sided game formats. Evidence supports that small-sided games can serve several purposes as specific means of training. However, the manipulation of game format should always consider the players’ individual constraints.

Key words: association football, constraints-led approach, performance, skill acquisition. 

Reference 
Almeida, C. H., Ferreira, A. P., & Volossovitch, A. (2013). Offensive sequences in youth soccer: Effects of experience and small-sided games. Journal of Human Kinetics, 36, 97-106. (pdf) 

Não podia deixar de endereçar a minha profunda gratidão aos professores, colaboradores, participantes, revisores, responsáveis pelas entidades envolvidas (Juventude Desportiva Monchiquense e Escola Básica 2,3 de Monchique) por, direta ou indiretamente, contribuírem para o produto final. 
 
Custou, durou, porém, a persistência e o esforço prevaleceram.