22/07/2013

Combinações táticas diretas no futebol: A base da progressão coletiva no espaço de jogo

No futebol, a relação individual com a bola é importante e deve ser estimulada desde tenra idade. Contudo, as ações técnicas só adquirem expressão quando integradas no contexto de cooperação e oposição que o jogo oferece.
 
A criança/jovem deve, por isso, desenvolver competências táticas simples que lhe permitam resolver, em conjunto com os elementos da sua equipa, problemas contextuais do jogo. Neste particular, as combinações ofensivas a dois jogadores, habitualmente designadas de combinações táticas diretas, constituem a base da progressão coletiva no espaço de jogo e devem ser especialmente ponderadas, propiciadas e reforçadas no treino desta modalidade, sobretudo a partir do momento em que os miúdos começam a competir.
  
Apesar de cada vez se começar a competir mais cedo, não é um aspeto que devamos impingir nos exercícios ou nos jogos. Na minha perspetiva, deve ocorrer espontaneamente, traduzindo o conhecimento do jogador relativo às vantagens que decorrem da cooperação com os companheiros de equipa. Há crianças/jovens que começam a executar intuitivamente e outras que incorrem no erro de tentar solucionar, sistematicamente, problemas situacionais do jogo de forma individual e muitas das vezes com taxas de sucesso reduzidas. Tal como os processos de crescimento e maturação, a aprendizagem também se realiza a ritmos muito diversos, variando de sujeito para sujeito. Portanto, a paciência é um predicado essencial para o treinador.
 
Os casos de combinações táticas diretas mais vulgarmente observados são a “tabelinha” ou “um, dois” (i.e., passar a bola ao companheiro e recebê-la mais à frente, ultrapassando o adversário direto; fig. 1a) e o “overlap” ou “dá-e-passa-nas-costas” (i.e., passar a bola ao companheiro e efetuar uma desmarcação semicircular, contornando-o pela sua retaguarda, para receber a bola em zona mais avançada; fig. 1b). A aprendizagem pode ser efetivada através de formas jogadas e jogos reduzidos e/ou condicionados, inicialmente com superioridade numérica atacante (2v1, Gr+3v2+Gr ou Gr+5v3+Gr) e, posteriormente, progredindo para situações mais complexas em igualdade numérica (2v2, 3v3 ou Gr+5v5+Gr).
 
  Figura 1. Ilustrações das combinações táticas diretas "tabelinha" e "overlap".
(p.f. clique na imagem para ampliar)
 
Para concluir, deixo-vos as imagens de um golo recente da equipa principal do SL Benfica e que demonstra todo o potencial ofensivo da combinação tática direta no futebol, inclusivamente ao nível do alto rendimento.
 
  
Três combinações táticas diretas consecutivas que implicaram a progressão no terreno de jogo, a criação da situação de finalização e, em última instância, determinaram a obtenção do golo. Elucidativo!

02/07/2013

O Aço Mudou de Têmpera

Manuel do Nascimento (1912 – 1966) foi um escritor monchiquense que publicou um punhado de boas obras literárias em meados do século XX. Num concelho onde o ditado popular “santos da casa não fazem milagres” é milimetricamente preciso, os seus livros e o seu nome ficaram sentenciados ao infortúnio do esquecimento durante longas décadas. Contudo, recentemente, houve a preocupação de um grupo restrito de pessoas de relembrar a obra e a qualidade literária deste nosso conterrâneo da vila de Monchique.

Após o relançamento de “O último espetáculo” (livro de contos), a Junta de Freguesia de Monchique, em parceria com os descendentes do autor, lançou no ano passado (2012), e no âmbito das comemorações do 100º aniversário do nascimento do autor, a segunda edição de “O aço mudou de têmpera”, um romance cuja primeira publicação ocorreu em 1946. Um livro que nos retrata a agrura da vida rural numa aldeia da Beira e que, por um breve período de tempo, foi completamente transformada num espaço de exploração de minério (volfrâmio), na sequência do despoletar da segunda guerra mundial.
 
Figura: Capa do livro "O Aço Mudou de Têmpera" de Manuel do Nascimento.

Para muitos a vida mudou para melhor, mas como tudo na vida é efémero, há quem suba e desça logo em seguida; há quem suba e nunca mais desça; e há, também, quem nunca realmente experiencie um trajeto ascendente. A minha curiosidade ficou aguçada com as descrições físicas dos locais. Nunca se referindo a qualquer região no texto, poderia apostar que muitas daquelas paisagens foram inspiradas na nossa terra natal. Além disso, há excertos que demonstram toda a competência de Manuel do Nascimento no domínio da língua portuguesa. Ei-los:

Maria Antónia, da Quinta do Milheiro, a filha – cento e oitenta e dois escudos. Era dinheiro perdido. Mandou uma vez chamar a mãe para que a obrigasse a pagar mas a mãe veio unicamente para lhe dizer que a filha não lhe devia nada, que estava tudo pago e muito bem pago. «Uma cadela» - resmungou. Entristeceu e repetiu mentalmente a conta. «Ca-de-la. (…)». (p. 132).

Nem ele, nem os outros homens de aldeia, podem passar sem esquecer a vida e quando deviam ter sempre os olhos postos na realidade têm de desertar porque a vida é má… E bebem. Desaparecem todas as lutas, são fortes e não têm fome. E não sonham sequer que existe outro meio… (p. 144).

O minério já não era mais do que simples pedra negra, retinta e fechada como a vida dos homens. Foi preciso tapar, às enxadadas, as covas de tantos sonhos… (p. 232).

Segundo consta, já foi proposto a atribuição do nome do escritor à Escola Básica 2,3 de Monchique, escola que, só por acaso, frequentei durante cinco anos. E voltasse eu aos belos tempos da meninice em Monchique, teria ficado muito mais orgulhoso e gabar-me-ia com outra ênfase se pudesse atirar à boca cheia: “Eu estudei na Escola Básica Manuel do Nascimento”.

17/06/2013

São detalhes destes que me deslumbram no futebol

Este “pormenor” de Francesc Fàbregas na assistência para Soldado.

  Vídeo: Golo de Soldado (32'), no jogo entre Espanha e Uruguai, para a Taça das Confederações 2013.

Explorou o espaço vazio no meio-campo ofensivo e recebeu a bola. Progrediu no terreno com critério, lendo permanentemente o jogo. Em drible, muda de direção e acelera a progressão. Depois vem a simulação, atraindo somente (!) os dois centrais uruguaios, e executa o magnífico passe de rutura para o seu avançado. Não precisou de “olhar”, mas sabia que Soldado estava lá… e em jogo. Deliciosamente genial.
 
Gracias Fàbregas!

10/06/2013

Aprendizagem de bolas paradas no futebol juvenil: O caso dos pontapés de canto

As situações de bola parada, também designadas de situações fixas ou estáticas do jogo, são determinantes para o desfecho final de inúmeras partidas. Este é um facto que parece ser unânime entre treinadores, jogadores e investigadores da modalidade. Por exemplo, Yiannakos e Armatas (2006) comprovaram que 35.6% dos golos marcados no Euro 2004, que decorreu em Portugal, resultaram de bolas paradas (pontapés de canto, pontapés livres, grandes penalidades e lançamentos laterais). Da totalidade dos golos obtidos de bola parada, a maior percentagem (40%) foi concretizada através de pontapés de canto. Deste modo, estas situações fixas do jogo, neste texto com especial referência aos pontapés de canto, não devem ser negligenciadas no processo ensino-aprendizagem da modalidade de futebol junto dos mais jovens.

Não é invulgar o debate entre treinadores acerca de como ensinar as crianças/jovens a lidar, ofensiva e defensivamente, com os eventos de bola parada. Há quem treine, repetida e exclusivamente, bolas ao segundo poste, com a “entrada” do melhor cabeceador nessa zona; há quem refira que o melhor é “sair a jogar curto”, cabendo depois a decisão ao portador da bola de dar sequência à jogada; há quem treine n “sinais” que desencadeiam situações padronizadas com vista à obtenção do golo. Pessoalmente, não sigo estritamente nenhuma das opções anteriores, mas dou azo a que aconteça um pouco de todas, através da descoberta guiada.

O exercício é simples: formar duas equipas e conceder três pontapés de canto, de cada lado, a cada uma delas. Seis situações ofensivas e seis situações defensivas. Antes do “jogo do canto”, deixo as equipas reunirem para, entre os seus elementos, decidirem como defender (zona, individual ou mista) e como atacar (com ou sem sinais, bola longa, bola curta, jogada combinada, etc.). No final do exercício tiramos em conjunto as devidas ilações, no sentido de potenciar os aspetos positivos e corrigir os negativos. As crianças/jovens são induzidas a aprender aspetos estratégicos do jogo, ao mesmo tempo que estimulam a sua criatividade e lidam com circunstâncias contextuais imprevistas. Posteriormente, o treinador tem a missão de resumir toda a informação num quadro de ações coletivas (abertas ou fechadas), passíveis de representarem a sua filosofia do jogo e as convicções dos seus jovens praticantes.

Há sensivelmente dois anos, no dia 12 de junho de 2011, os miúdos que treinava no JD Monchiquense colocaram em prática as nossas ideias. Houve sinal, houve “bola curta” e, ao primeiro minuto de jogo, passaríamos a vencer a final de um torneio infantil de futebol 7. Mais importante do que o resultado da partida, foi demonstrarem todo o seu entendimento do jogo num contexto de elevada tensão. Eis a memória em vídeo e esquematizada:

 
Esquema: Sequencialização dos comportamentos coletivos que determinaram o golo de pontapé de canto na final do Torneio Infantil das Eiras, em junho de 2011 (p. f., clique na imagem para ampliar).

Começou com uma sinalética para chamar o jogador situado ao primeiro poste (10). O jogador 10 poderia “rodar” sobre o adversário direto, guardar a bola ou devolver ao jogador 4. Decidiu devolver ao marcador do canto que, após a combinação tática direta, poderia cruzar, rematar de pronto ou driblar para dentro para enquadrar com a baliza e obter melhor ângulo de remate. Tomou a última opção e fê-lo com sucesso. Entretanto, os jogadores no interior da área optaram por abrir linhas de passe ao jogador 4, fora da grande área. A meu ver, um erro. Um dos dois deveria ter ficado no interior da área e procurado a recarga, caso o guarda-redes defendesse de forma incompleta.

É neste âmbito que eu entendo a descoberta guiada como um meio muito enriquecedor para o ensino/aprendizagem do jogo, incluindo as bolas paradas e, em particular, os pontapés de canto. Certamente que não é exclusivo no que implica à obtenção de êxito (formativo), nem o único digno de referência, mas é muito oportuno, sobretudo nos escalões de formação de base.

Referência
Yiannakos, A., & Armatas, V. (2006). Evaluation of the goal scoring patterns in European Championship in Portugal 2004. International Journal of Performance Analysis in Sport, 6(1), 178-188.

28/05/2013

Maria dos Canos Serrados

Um romance de Ricardo Adolfo, autor que desconhecia. Uma oferta muito bem-vinda, por sinal, de um amigo que detém o dom da palavra. Julgo que a velocidade com que se devora um livro é diretamente proporcional à sua qualidade. Pois bem, este “marchou” em escassos dias.
 
Imagem: Capa do livro "Maria dos Canos Serrados" (Ricardo Adolfo).
 
O enredo remete-nos para os subúrbios de Lisboa, sendo a personagem principal “uma moça de má rês que se torna pior ainda”. Maria relata a sua história, na primeira pessoa, ao seu amado, um gigolô negro que ganha a vida a fazer turistas em Armação de Pera. O consumo de droga, os tempos de crise, de despedimentos e a iniciação ao crime são abordados de uma forma escorreita, crua e absolutamente desprovida de tabus. Trata-se, assim, de “uma reflexão sobre a nova mulher, que não precisa de Clyde para ser Bonnie”.
 
Consagrados da literatura portuguesa, como António Lobo Antunes e Valter Hugo Mãe, aplaudem. Longe de ser um especialista, recomendo vivamente.
 
Eis um breve capítulo do livro que, para além de estar sublimemente redigido, me permitiu lançar uma boa gargalhada:
 
“Frouxo.
 
A primeira coisa que fizemos assim que chegámos ao local de desemprego foi googlar se a falta prolongada de orgasmos pode ter efeitos nocivos. A lista de maleitas é infinita. Isto está a tornar-se um caso clínico crónico. Tem de haver uma droga legal para este tipo de doença. Se não há, o que é que as farmacêuticas andam a investigar? Imagina tomares uma pastilha e a seguir começares a orgasmar. É a ideia do milénio, só pode.
 
Devíamos ter ido para Farmácia, devíamos não ter chumbado a Físico-Química por faltas, devíamos ter sido avisadas de que quem se balda à escola ou vai para ministro ou então está fodido.”