20/11/2013

Uma mera crónica sobre Portugal no Mundial 2014

No cenário de crise, descontentamento e tristeza em que estamos inseridos, julgo que Portugal acordou hoje, pelo menos, um bom bocado mais alegre que ontem. A nossa seleção apurou-se para o Mundial 2014 no Brasil. Estamos lá!

Imagem: Festa portuguesa em Solna (fonte: Getty Images).

O playoff com a Suécia
Dois jogos em que a seleção portuguesa foi claramente superior. Estou convicto que a equipa poderia ter ido a Solna mais descansada, pois fez por merecer o 2-0 no Estádio da Luz. A vantagem de 1-0 não era negativa, porém também não dava a tranquilidade que o mister Paulo Bento tanto aprecia. Aliás, este apuramento foi tudo menos tranquilo. À boa maneira “tuga”, não se previne, remedeia-se, desenrasca-se. Ontem, desenrascou-se o apuramento, não sem a dose de sofrimento do costume. Se os jogadores interpretaram convenientemente o que a equipa técnica solicitou, então devo enaltecer os dois planos de jogo (planos estratégico-táticos) elaborados para a eliminatória. Neste particular, o líder Paulo Bento e os seus pares foram competentes, embora continue a achar que poderiam ter sido tomadas outras opções na pretérita fase de grupos.

Cristiano Ronaldo, a Ballon d’Or e os outros
Não sou hipócrita. Em ocasiões anteriores, critiquei Cristiano Ronaldo e defendi a eleição de Messi como o melhor jogador do mundo. Critiquei algumas atitudes do capitão português, sobretudo no Mundial 2010 e, de facto, insurgi-me perante a contestação de alguns portugueses acerca de Ronaldo merecer a Bola de Ouro da FIFA. Hoje, no ano de 2013, estou rendido e lamento não o ter suportado mais anteriormente. Depois de ver Joseph Blatter ridicularizar o nosso capitão, quer queiramos ou não um símbolo de Portugal, depois de ver Ronaldo, consistentemente, a somar dois ou três golos por jogo e a ser por demais decisivo no seu clube e na seleção, só posso ficar rendido às evidências: FIFA Ballon d’Or 2013!

Quem alega que Ronaldo não ganhou nada a época transata, então que se relembre que esta distinção é individual e não coletiva. Franck Ribéry não é evidentemente o melhor do mundo, mas esteve integrado num super Bayern Munique que venceu tudo o que havia para vencer em 2013. No caso de Lionel Messi, coloco em causa a sua regularidade. Este último semestre do ano tem sido fatídico para o argentino. A mudança de treinador e de filosofia de jogo no Barcelona não têm potenciado os seus desempenhos e as sucessivas lesões também não têm contribuído. Por tudo isto, 2013 é ano para Ronaldo. Até a FIFA alargou, em duas semanas, o prazo de votação para o melhor jogador do mundo. Na realidade, seria altamente inteligente permitir que se votasse num jogador sem saber quais as seleções apuradas para o Mundial…

Esta parece ser uma opinião que transcende sentimentos patrióticos exacerbados. Senão, vejamos as palavras do internacional inglês Rio Ferdinand:

Ronaldo acabou hoje com a discussão sobre a Bola de Ouro… Se não ganhar é porque o Blatter fez o ranking.
(19-nov-2013, via Twitter)

Ponto!

A classe de João Moutinho
Se Cristiano Ronaldo é, por agora, o maior, então o João Moutinho vem logo a seguir. Um médio de classe mundial. Ora, sobre Moutinho já havia escrito um texto no Linha de Passe (recordar aqui).

Imagem: O comandante Ronaldo e o maestro Moutinho a caminho do Brasil 2014 (fonte: sportsworldreport.com).

A meu ver, é um jogador importantíssimo na equipa nacional. É a formiga incansável a trabalhar defensivamente (n.º 6), é o grande maestro que serve Ronaldo e os outros atacantes na perfeição (n.º 10) e é o “box-to-box” que, simplesmente, está sempre dentro dos processos coletivos da equipa e a cumprir com critério (n.º 8). Só lamento que atue num clube que não esteja nas competições europeias e que não compita numa liga de topo. Espero que tenha a felicidade de um dia poder jogar num clube europeu tão grande como ele.

E no Brasil?
Certamente que Portugal não irá para sambar. A seleção irá para competir e confio numa boa prestação. Ainda falta muito tempo para o certame e, por isso, apenas refiro as minhas preferências (por ordem decrescente em cada pote) para o sorteio dos grupos do Campeonato Mundial 2014, que se realizará no próximo dia 6 de dezembro:

Pote 1: Suíça, Uruguai, Colômbia, Bélgica, Argentina, Espanha, Brasil e Alemanha.
Pote 2: Honduras, Irão, Costa Rica, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos da América e México.
Pote 3: Argélia, Camarões, Gana, Equador, Nigéria, Costa do Marfim, Chile e França.
Pote 4: pote de Portugal (Holanda, Itália, Inglaterra, PORTUGAL, Grécia, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Rússia).

Teoricamente, o grupo mais acessível para Portugal seria com a Suíça (de Joseph Blatter), as Honduras e a Argélia. Ao invés, um grupo complicado seria, por exemplo, com o Brasil, o México e a França. Deixemos agora que o destino faça a sua parte. Venha quem vier, é bola para a frente.

Força, PORTUGAL!

13/11/2013

Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade (2013)

Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade é um livro de contos do escritor, meu conterrâneo, António Manuel Venda. Foi recentemente reeditado (3ª edição) pela JustMedia, após ter sido lançado inicialmente pela editora Pergaminho, em 1996. Nesta nova edição, o autor contou com a colaboração de entidades autárquicas do concelho de Monchique, em especial da Junta de Freguesia de Monchique, que teve um papel ativo na promoção e na apresentação do livro junto da população local.

Imagem: Capa de "Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade" de António Manuel Venda (fonte: planetalgarve.com).

Pessoalmente, enfatizo a criatividade das histórias e a qualidade de expressão escrita do autor. Alguns contos são surreais, mas de uma imaginação soberba. O real funde-se com a fantasia, resultando numa sátira evidente à sociedade contemporânea, mesmo tendo os contos sido escritos há um bom par de décadas. Não deixa de ser irónico em tempos de crise.

A maioria dos contos tem por sede geográfica o concelho de Monchique e, como massa humana, as suas gentes, com destaque para algumas personagens reais.

Ao Zé das Cabras muita gente gritava «Ó das cabras!», e ele respondia sempre «Ó dos cabrões!».
(p.87 in Crónica de Badajoz)

Um simples excerto que me fez regressar, como que por magia, à minha infância e recordar as partes do malogrado Zé das Cabras. Era no Largo dos Chorões, era no Largo de São Sebastião, era na Rua do Porto Fundo, havia sempre um «Ó das cabras!» e o correspondente «Ó dos cabrões», vulgarmente condimentado por outra meia dúzia de palavrões que não vale a pena aqui especificar. Depois, era a risada geral.

Ao acabar de ler um livro, gosto de refletir sobre o que li. Desta feita, por o achar particularmente interessante e muito bem conseguido, foquei-me no título. E se o nosso presidente da república viesse mesmo a Monchique por mera curiosidade?

“Algo quase improvável”, pensei. O prof. Aníbal Cavaco Silva não tem agenda para meras curiosidades. Quiçá estimulado pelo imaginário de António Manuel Venda, talvez cá viesse se ocorresse um evento de proporções calamitosas como, por exemplo, a erupção do tão famigerado vulcão que a Picota encerra (diz-se que foi um vulcão, diz-se que está extinto, mas que eu saiba ninguém comprovou a sua existência). Aí, talvez o presidente da república tirasse um tempo para visitar Monchique; não seria era por mera curiosidade, mas sim por mera formalidade.

Num contexto de normalidade, sem cenários catastróficos, também o imaginei a discursar num palanque colocado no Mirante e a elogiar a magnificência da vila e da serra. A referir Monchique como “uma linda vila verdejante do interior alentejano”. Sim, imaginei a “gaffe” e a sua visão “macro”, não de “macroscópica”, mas de “macroeconómica”, porque o presidente é um homem de dinheiros. Quando se perceciona o mundo de uma lente angular “macro”, qualquer terra do interior, ainda para mais num dos extremos do país, não assume qualquer significado ou ponto de interesse. Algarve ou Alentejo? Dá no mesmo.

Para concluir, endereço os meus sinceros parabéns às freguesias do concelho (Alferce, Marmelete e Monchique) por apoiarem António Manuel Venda a reeditar este seu livro. Monchique, o seu património cultural e o seu potencial humano merecem ser devidamente valorizados. Contudo, como “santos da casa não fazem milagres”, é pena que as pessoas tenham, primariamente, de fugir de cá para verem os seus méritos e o seu talento reconhecidos.

03/11/2013

Viver na (in)certeza

Sorris. Faz-me crer que estás feliz. Escondes-te na intensa luminosidade do dia solarengo e passeias-te anónima, e menos insegura, por entre o denso nevoeiro. Deixas-te perder na angústia dos teus pensamento e, sobretudo, na incerteza voraz que caminha a passos largos na tua direção. Faço de conta que não sei, que não é nada comigo. No fundo, sei: receias e entristeces.

As certezas são escassas e com prazo de validade. Curto, por sinal. Já as incertezas parecem más de contabilizar. São inúmeras, muitas e não estão rotuladas de prazos. A realidade é esta: vivemos numa paisagem de incertezas, querendo assentar pé apenas nas certezas. Contudo, as certezas não dão para todos, somos muitos e nem sempre calham aos mesmos.

No final de contas (“at the end of the day”, como dizem os britânicos), tudo se resume a uma simples questão: Que piada teria a vida se nos baseássemos somente em certezas?

Imagem: Painting journey "(...) walking a path of uncertainty" (fonte: maryecarlisle.wordpress.com). 

26/10/2013

Fundamentos e aplicações em análise do jogo (2013)

Os professores Anna Volossovitch e António Paulo Ferreira (Faculdade de Motricidade Humana – Universidade de Lisboa) publicaram, em abril deste ano, o livro Fundamentos e aplicações em análise do jogo, através da Edições FMH.

Imagem: Capa do livro "Fundamentos e aplicações em análise do jogo" (2013). 

Trata-se de uma coletânea de artigos/capítulos científicos originais e/ou de revisão, elaborados por um conjunto de autores conceituados no âmbito da análise da performance nos Jogos Desportivos (JD). Desde a influência de fatores situacionais do jogo (e.g., local do jogo – casa vs. fora; resultado corrente do jogo – vantagem vs. empate vs. desvantagem; qualidade da oposição – forte vs. fraca) no rendimento das equipas à coordenação interpessoal (cooperação vs. oposição) inerente ao entendimento do ato tático, são abordados inúmeros temas extremamente interessantes e essenciais para o corpo de conhecimentos que qualquer treinador, investigador e estudante deve possuir nesta área das ciências do desporto.

Tenho tido a felicidade de trabalhar de perto com os dois editores, pelos quais nutro uma especial consideração. Pela sua competência pedagógica e técnica, pelo seu sentido crítico e construtivo da investigação produzida na análise do JD, não estaria à espera de outra coisa que não fosse algo de completo, de atual e de qualidade. Devo também destacar a excelência dos contributos dos outros autores para a obra em questão.

Para quem trabalha ou investiga nesta área das ciências do desporto ou, simplesmente, é um curioso pela ciência em torno da análise da performance nos desportos coletivos, vale a pena ler!

13/10/2013

O que é treinar em especificidade no futebol?


“Aqui só se treina em especificidade. É tudo com bola.”

Nos meandros do treino desportivo, em concreto na modalidade de futebol, ainda subsiste a crença, ou o mito, de que qualquer exercício que contenha a bola é específico. A classificação que é feita dos exercícios baseia-se, fundamental, na premissa: tem bola é específico; não tem bola é geral. Como é evidente, esta é uma visão extremamente redutora e limitada do treino e condiciona, de sobremaneira, o processo de preparação de qualquer equipa para a competição.

Imagem: Treinar com bola não significa treinar em especificidade (fonte: hulmefooty.blogspot.com).

Treinar em especificidade implica trabalhar num contexto que replique, o mais aproximadamente possível, a realidade que se irá encontrar na competição, quer seja a um nível mais macroscópico (e.g., organização defensiva), ou mais microscópico (e.g., pontapés de canto defensivos). A bola é essencial, mas não é determinante para o exercício apresentar um caráter específico. Para isso, terá de se acrescentar companheiros de equipa, adversários, objetivos definidos em função da filosofia da equipa técnica e, também, controlar algumas variáveis do foro contextual que possam ser antecipadas, relativamente ao que é expectável ocorrer no compromisso competitivo seguinte (dimensões do espaço, características do terreno, temperatura, qualidade do árbitro, ruído do público, etc.).

No fundo, treinar em especificidade é jogar com propósitos bem definidos. Para o treinador, significará propor situações de jogo, mais ou menos reduzidas (mais ou menos microscópicas), que pressuponham uma interação permanente entre os jogadores (cooperação e oposição) e o seu envolvimento, equacionando inúmeras variáveis passíveis de afetar momentaneamente a organização das ações dos indivíduos e o plano estratégico-tático da equipa. Por exemplo, uma equipa a jogar com menos um jogador, por motivo de expulsão ou lesão, conduz a um reajustamento das missões e das ações táticas dos outros elementos da equipa. Segundo esta lógica, a noção de oposição avançada por Gréhaigne e colaboradores (1997) constitui um ponto central na forma como o jogo e o treino (em especificidade) devem ser perspetivados (figura 1).

Figura 1. Conceitos relacionados com a noção de oposição (adaptado de Gréhaigne et al., 1997).

Contudo, como referem Mesquita e Marcelino, “(…) a capacidade de aplicação no jogo das estratégias e táticas treinadas é limitada, na medida em que apenas se pode prever, e não predizer, a evolução das configurações ofensivas e defensivas, reiterando esta evidência a necessidade de recurso a abordagens heurísticas, capazes de considerar a complexidade da natureza do fenómeno (…).” (2013: 137).

Cada jogo engloba um acrescento de novidade (algo original e único) que, consequentemente, reduz a eficiência dos comportamentos técnico-táticos dos jogadores e das soluções estratégicas da equipa (Gréhaigne et al., 1997). Deste modo, a capacidade de gestão da desordem assume um papel determinante e isso somente se trabalha, melhora, aperfeiçoa e consolida no treino em especificidade, ou seja, através do próprio jogo.

Referências
Gréhaigne, J. F., Bouthier, D., & David, B. (1997). Dynamic-system analysis of opponent relationship in collective actions in soccer. Journal of Sports Sciences, 15, 137-149.
Mesquita, I., & Marcelino, R. (2013). O efeito da qualidade da oposição e do match status no rendimento das equipas. In A. Volossovitch e A. P. Ferreira (Eds.), Fundamentos e aplicações em análise de jogo (pp. 133-152). Cruz Quebrada: Edições FMH.