10/12/2013

Afinal, qual é o “grupo da morte” do Mundial 2014?

Sempre que ocorre uma competição internacional de futebol, tanto quanto sei, tem sido vaticinada a existência de um grupo peculiar de equipas designado “grupo da morte”. Usualmente, é o grupo mais equilibrado em termos de desempenho competitivo e, por inerência, aquele que, em teoria, é de desfecho mais imprevisível.

No que diz respeito ao próximo Campeonato do Mundo de 2014, no Brasil, as opiniões dos selecionadores, dos jornalistas e do público em geral não são consensuais. Uns alegam que o grupo da Espanha é o mais forte, outros que é o grupo da Inglaterra e, outros ainda, que é o grupo da Alemanha e de… Portugal.

Figura: Grupos do Mundial 2014, no Brasil (fonte: www.fifa.com).

Ora, a fim de esclarecer qual é, de facto, o “grupo da morte” do próximo Mundial 2014, resolvi fazer um exercício breve e simples: somar os pontos do ranking FIFA (atualização de 28-novembro-2013) das seleções que compõem os 8 grupos do certame. Este ranking tem em consideração as performances recentes das seleções, extensíveis ao período anterior de 4 anos (ver mais especificações aqui). Eis os resultados obtidos:

- Grupo G: Alemanha (1318), PORTUGAL (1172), Gana (849) e E.U.A. (1019) = 4358
- Grupo B: Espanha (1507), Holanda (1106), Chile (1014) e Austrália (564) = 4191
3º - Grupo D: Uruguai (1132), Costa Rica (738), Inglaterra (1041) e Itália (1120) = 4031
- Grupo C: Colômbia (1200), Grécia (1055), Costa do Marfim (918) e Japão (638) = 3811
- Grupo A: Brasil (1102), Croácia (971), México (892) e Camarões (612) = 3577
- Grupo E: Suíça (1113), Equador (852), França (893) e Honduras (688) = 3546
- Grupo F: Argentina (1251), Bósnia-Herzegovina (886), Irão (650) e Nigéria (710) = 3497
- Grupo H: Bélgica (1098), Argélia (800), Rússia (870) e Coreia do Sul (577) = 3345

Portanto, o “grupo da morte” do Mundial 2014 é, de acordo com o ranking atual da FIFA, o grupo G, ou seja, o de Portugal. A meu ver, talvez até seja bom para a nossa seleção. Por sua vez, o grupo teoricamente mais acessível é o grupo H, embora o grupo E – o da França – não tenha assim tantos pontos a mais. Na sequência da subversão das regras do sorteio, com a consequente passagem da Itália para o Pote 2 por troca com a França, calculo que o presidente da UEFA – monsieur Michel Platini – deva ter ficado radiante.

09/12/2013

A estrada da felicidade

«Se és Ernesto, não podes ser honesto».

Ernesto estava farto daquele dizer. O que tinha o seu nome a ver com honestidade ou falta dela? Desde que nascera, tinham-lhe cravado o cunho. Maldito nome! Ao contrário de qualquer ser humano, Ernesto não podia errar, sob pena de se confirmar a sua desonestidade. Aí, o povo venceria; aliás, o mundo venceria e Ernesto não estava disposto a dar razão a quem não tinha ou não lhe fazia uso.

Que se soubesse, ninguém apresentara razão de queixa de sua pessoa. Era pacato, humilde e demasiado trabalhador. Era daqueles que o bom patrão gostava de ter a seu mandato: fizesse o que fizesse, era bem feito! Pelo menos, até ao dia em que desapareceram dinheiros e ferramentas e surgiu a inevitável suspeita. Nenhuma vivalma o vira a roubar, mas como era Ernesto… apontaram-lhe o dedo.

Esmoreceu-lhe a paciência e quis abalar para longe dali. Na vila, dizia-se que havia gentes a partir para trabalhar numas terras férteis das planícies alentejanas. Pagavam bem e davam teto para dormir. Ernesto não era ladrão, nunca o fora, mas, como uma mentira contada mil vezes, torna-se verdade, decidiu-se logo a apanhar a dita camioneta. Os outros, na esperança de melhores dias, comentavam que iriam pela estrada da felicidade. «Encontrá-la-iam?», perguntava-se Ernesto.

Numa bela manhã de novembro, os primeiros raios de sol abrilhantavam a despedida. Por estes dias, a geada andava de mão dada com a madrugada e tudo parecia cristalino. As pessoas, essas, aglomeravam-se no largo da carreira. Estavam sorridentes, porém batiam o dente. Ernesto não sabia se era do frio ou se do nervoso miudinho provindo do desconhecido, da lonjura ou da própria esperança. Então, no outro lado do largo, lá apareceu a viatura, meticulosamente a tempo e horas. «Assim se faz. Tudo em ordem!», alguém soltou evidentemente satisfeito.

O chauffeur, um homem para meia-idade, apresentou-se como Salvador e solicitou aos passageiros que se identificassem. Trinta e três era o número de dissidentes, de foragidos da agrura da serra e da sua pobreza mercante. Abraços, beijos e lágrimas condimentaram a hora do «adeus, até breve!». Ernesto não deixava ninguém de especial, apenas a desonestidade apregoada desde o dia do seu batismo. Para ele, não havia lágrimas, restavam-lhe as memórias, fossem elas boas ou más. E, assim, tomaram a estrada rumo ao que diziam ser a felicidade.

O branco caiado da serra ia ficando cada vez mais minúsculo à medida que se afastavam. Ernesto sorria, contemplando a beleza outonal das suas origens. O verde mesclado com o castanho e o cinzento do asfalto salpicado pelo desfolhar dos plátanos. Do rádio escutava-se o «1, 2, 3, vou nascer outra vez» dos Ritual Tejo; nem a música podia ser mais apropriada. Preocupava-o, contudo, a velocidade com que tudo ficava para trás e o trajeto não era exatamente retilíneo. Os passageiros conversam animadamente, bem agarrados aos pertences que não depositaram na bagageira. A bordo iam vidas, orgânicas e inorgânicas, literalmente. Talvez por isso, e pela velocidade, a camioneta balouçasse nas curvas.

Mais adiante, algures ainda pela serra, o piso atraiçoou a confiança do Salvador e a camioneta não balançou, deslizou para a berma e precipitou-se por um barranco abaixo. Os gritos, os galhos a quebrar, o rodopio, culminado pelo estrondo do embate final, deram lugar ao silêncio e ao vazio. Momentos… Ernesto flutuava, invadido por uma sensação de paz inexplicável. Uma luz – quiçá salvadora – tomou-lhe o destino. E, enquanto outros jaziam a contorcer-se de dor, Ernesto havia encontrado, inadvertidamente, o seu intento… a mais pura das felicidades.

Imagem: A estrada e a beleza outonal da serra de Monchique (6-dez-2013).

20/11/2013

Uma mera crónica sobre Portugal no Mundial 2014

No cenário de crise, descontentamento e tristeza em que estamos inseridos, julgo que Portugal acordou hoje, pelo menos, um bom bocado mais alegre que ontem. A nossa seleção apurou-se para o Mundial 2014 no Brasil. Estamos lá!

Imagem: Festa portuguesa em Solna (fonte: Getty Images).

O playoff com a Suécia
Dois jogos em que a seleção portuguesa foi claramente superior. Estou convicto que a equipa poderia ter ido a Solna mais descansada, pois fez por merecer o 2-0 no Estádio da Luz. A vantagem de 1-0 não era negativa, porém também não dava a tranquilidade que o mister Paulo Bento tanto aprecia. Aliás, este apuramento foi tudo menos tranquilo. À boa maneira “tuga”, não se previne, remedeia-se, desenrasca-se. Ontem, desenrascou-se o apuramento, não sem a dose de sofrimento do costume. Se os jogadores interpretaram convenientemente o que a equipa técnica solicitou, então devo enaltecer os dois planos de jogo (planos estratégico-táticos) elaborados para a eliminatória. Neste particular, o líder Paulo Bento e os seus pares foram competentes, embora continue a achar que poderiam ter sido tomadas outras opções na pretérita fase de grupos.

Cristiano Ronaldo, a Ballon d’Or e os outros
Não sou hipócrita. Em ocasiões anteriores, critiquei Cristiano Ronaldo e defendi a eleição de Messi como o melhor jogador do mundo. Critiquei algumas atitudes do capitão português, sobretudo no Mundial 2010 e, de facto, insurgi-me perante a contestação de alguns portugueses acerca de Ronaldo merecer a Bola de Ouro da FIFA. Hoje, no ano de 2013, estou rendido e lamento não o ter suportado mais anteriormente. Depois de ver Joseph Blatter ridicularizar o nosso capitão, quer queiramos ou não um símbolo de Portugal, depois de ver Ronaldo, consistentemente, a somar dois ou três golos por jogo e a ser por demais decisivo no seu clube e na seleção, só posso ficar rendido às evidências: FIFA Ballon d’Or 2013!

Quem alega que Ronaldo não ganhou nada a época transata, então que se relembre que esta distinção é individual e não coletiva. Franck Ribéry não é evidentemente o melhor do mundo, mas esteve integrado num super Bayern Munique que venceu tudo o que havia para vencer em 2013. No caso de Lionel Messi, coloco em causa a sua regularidade. Este último semestre do ano tem sido fatídico para o argentino. A mudança de treinador e de filosofia de jogo no Barcelona não têm potenciado os seus desempenhos e as sucessivas lesões também não têm contribuído. Por tudo isto, 2013 é ano para Ronaldo. Até a FIFA alargou, em duas semanas, o prazo de votação para o melhor jogador do mundo. Na realidade, seria altamente inteligente permitir que se votasse num jogador sem saber quais as seleções apuradas para o Mundial…

Esta parece ser uma opinião que transcende sentimentos patrióticos exacerbados. Senão, vejamos as palavras do internacional inglês Rio Ferdinand:

Ronaldo acabou hoje com a discussão sobre a Bola de Ouro… Se não ganhar é porque o Blatter fez o ranking.
(19-nov-2013, via Twitter)

Ponto!

A classe de João Moutinho
Se Cristiano Ronaldo é, por agora, o maior, então o João Moutinho vem logo a seguir. Um médio de classe mundial. Ora, sobre Moutinho já havia escrito um texto no Linha de Passe (recordar aqui).

Imagem: O comandante Ronaldo e o maestro Moutinho a caminho do Brasil 2014 (fonte: sportsworldreport.com).

A meu ver, é um jogador importantíssimo na equipa nacional. É a formiga incansável a trabalhar defensivamente (n.º 6), é o grande maestro que serve Ronaldo e os outros atacantes na perfeição (n.º 10) e é o “box-to-box” que, simplesmente, está sempre dentro dos processos coletivos da equipa e a cumprir com critério (n.º 8). Só lamento que atue num clube que não esteja nas competições europeias e que não compita numa liga de topo. Espero que tenha a felicidade de um dia poder jogar num clube europeu tão grande como ele.

E no Brasil?
Certamente que Portugal não irá para sambar. A seleção irá para competir e confio numa boa prestação. Ainda falta muito tempo para o certame e, por isso, apenas refiro as minhas preferências (por ordem decrescente em cada pote) para o sorteio dos grupos do Campeonato Mundial 2014, que se realizará no próximo dia 6 de dezembro:

Pote 1: Suíça, Uruguai, Colômbia, Bélgica, Argentina, Espanha, Brasil e Alemanha.
Pote 2: Honduras, Irão, Costa Rica, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos da América e México.
Pote 3: Argélia, Camarões, Gana, Equador, Nigéria, Costa do Marfim, Chile e França.
Pote 4: pote de Portugal (Holanda, Itália, Inglaterra, PORTUGAL, Grécia, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Rússia).

Teoricamente, o grupo mais acessível para Portugal seria com a Suíça (de Joseph Blatter), as Honduras e a Argélia. Ao invés, um grupo complicado seria, por exemplo, com o Brasil, o México e a França. Deixemos agora que o destino faça a sua parte. Venha quem vier, é bola para a frente.

Força, PORTUGAL!

13/11/2013

Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade (2013)

Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade é um livro de contos do escritor, meu conterrâneo, António Manuel Venda. Foi recentemente reeditado (3ª edição) pela JustMedia, após ter sido lançado inicialmente pela editora Pergaminho, em 1996. Nesta nova edição, o autor contou com a colaboração de entidades autárquicas do concelho de Monchique, em especial da Junta de Freguesia de Monchique, que teve um papel ativo na promoção e na apresentação do livro junto da população local.

Imagem: Capa de "Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade" de António Manuel Venda (fonte: planetalgarve.com).

Pessoalmente, enfatizo a criatividade das histórias e a qualidade de expressão escrita do autor. Alguns contos são surreais, mas de uma imaginação soberba. O real funde-se com a fantasia, resultando numa sátira evidente à sociedade contemporânea, mesmo tendo os contos sido escritos há um bom par de décadas. Não deixa de ser irónico em tempos de crise.

A maioria dos contos tem por sede geográfica o concelho de Monchique e, como massa humana, as suas gentes, com destaque para algumas personagens reais.

Ao Zé das Cabras muita gente gritava «Ó das cabras!», e ele respondia sempre «Ó dos cabrões!».
(p.87 in Crónica de Badajoz)

Um simples excerto que me fez regressar, como que por magia, à minha infância e recordar as partes do malogrado Zé das Cabras. Era no Largo dos Chorões, era no Largo de São Sebastião, era na Rua do Porto Fundo, havia sempre um «Ó das cabras!» e o correspondente «Ó dos cabrões», vulgarmente condimentado por outra meia dúzia de palavrões que não vale a pena aqui especificar. Depois, era a risada geral.

Ao acabar de ler um livro, gosto de refletir sobre o que li. Desta feita, por o achar particularmente interessante e muito bem conseguido, foquei-me no título. E se o nosso presidente da república viesse mesmo a Monchique por mera curiosidade?

“Algo quase improvável”, pensei. O prof. Aníbal Cavaco Silva não tem agenda para meras curiosidades. Quiçá estimulado pelo imaginário de António Manuel Venda, talvez cá viesse se ocorresse um evento de proporções calamitosas como, por exemplo, a erupção do tão famigerado vulcão que a Picota encerra (diz-se que foi um vulcão, diz-se que está extinto, mas que eu saiba ninguém comprovou a sua existência). Aí, talvez o presidente da república tirasse um tempo para visitar Monchique; não seria era por mera curiosidade, mas sim por mera formalidade.

Num contexto de normalidade, sem cenários catastróficos, também o imaginei a discursar num palanque colocado no Mirante e a elogiar a magnificência da vila e da serra. A referir Monchique como “uma linda vila verdejante do interior alentejano”. Sim, imaginei a “gaffe” e a sua visão “macro”, não de “macroscópica”, mas de “macroeconómica”, porque o presidente é um homem de dinheiros. Quando se perceciona o mundo de uma lente angular “macro”, qualquer terra do interior, ainda para mais num dos extremos do país, não assume qualquer significado ou ponto de interesse. Algarve ou Alentejo? Dá no mesmo.

Para concluir, endereço os meus sinceros parabéns às freguesias do concelho (Alferce, Marmelete e Monchique) por apoiarem António Manuel Venda a reeditar este seu livro. Monchique, o seu património cultural e o seu potencial humano merecem ser devidamente valorizados. Contudo, como “santos da casa não fazem milagres”, é pena que as pessoas tenham, primariamente, de fugir de cá para verem os seus méritos e o seu talento reconhecidos.

03/11/2013

Viver na (in)certeza

Sorris. Faz-me crer que estás feliz. Escondes-te na intensa luminosidade do dia solarengo e passeias-te anónima, e menos insegura, por entre o denso nevoeiro. Deixas-te perder na angústia dos teus pensamento e, sobretudo, na incerteza voraz que caminha a passos largos na tua direção. Faço de conta que não sei, que não é nada comigo. No fundo, sei: receias e entristeces.

As certezas são escassas e com prazo de validade. Curto, por sinal. Já as incertezas parecem más de contabilizar. São inúmeras, muitas e não estão rotuladas de prazos. A realidade é esta: vivemos numa paisagem de incertezas, querendo assentar pé apenas nas certezas. Contudo, as certezas não dão para todos, somos muitos e nem sempre calham aos mesmos.

No final de contas (“at the end of the day”, como dizem os britânicos), tudo se resume a uma simples questão: Que piada teria a vida se nos baseássemos somente em certezas?

Imagem: Painting journey "(...) walking a path of uncertainty" (fonte: maryecarlisle.wordpress.com).