28/12/2013

Periodização do treino de jovens no futebol: O indivíduo para além do processo


NOTA PRÉVIA: O presente texto foi publicado no número mais recente da Revista AF Algarve (n.º 75, Outubro / Novembro 2013).

Imagem: Capa da Revista AF Algarve, n.º 75, Outubro / Novembro 2013 (download pdf aqui).


No futebol de formação, a aprendizagem do jogo, nas suas dimensões técnica, tática e estratégica, não é um processo de curto prazo. A aquisição e o aperfeiçoamento das ações técnicas, o desenvolvimento do raciocínio tático e a vivência dos condicionalismos estratégicos devem ocorrer por etapas, evitando as mais que habituais pressões exteriores de “executar rápido, bem, aqui e agora”. A crença no imediatismo gera usualmente insucesso; o insucesso conduz à saturação; a saturação culmina na desistência e no abandono precoces do processo de treino e competição (Stafford, 2005).

Uma vez que o jogo de futebol tem por base uma estrutura de rendimento complexa, é natural que as crianças/jovens sejam submetidos a situações de jogo ou competição exigentes dos pontos de vista físico, cognitivo e emocional. Contudo, as exigências que são colocadas aos miúdos devem ser muito bem equacionadas e geridas pelos treinadores. Um contexto de pouca exigência não estimula o desenvolvimento das competências dos jovens praticantes; por outro lado, um contexto de elevada exigência, sempre no limite, tende a desrespeitar os processos biológicos de crescimento e maturação dos indivíduos, levando à inevitável saturação. Deste modo, uma conveniente periodização do treino por parte do treinador pode acautelar situações de desistência e potenciar os efeitos formativos decorrentes da prática numa perspetiva a médio/longo prazo.

Neste âmbito, é consensual entre especialistas a existência de alguns cuidados a ter na seleção do padrão de periodização a adotar no treino de crianças/jovens. Tomemos em consideração os seguintes:

· O modelo de periodização deve ser adaptado à vida escolar (Matveiev, 1982, Tschiene, 1983, citados por Mota, 1988; Stafford, 2005), bem como à vida familiar da criança/jovem (Stafford, 2005). A grande maioria dos jovens praticantes de futebol no nosso país não está inserida em academias profissionais de futebol. Para além disso, a percentagem de jogadores que atingem o alto rendimento é irrisória. Enquanto agentes formadores de cidadãos, os treinadores não devem ignorar esta realidade;

· O que está em causa não é propriamente o rendimento, mas sim a criação dos pressupostos desse rendimento (Mota, 1988; Stafford, 2005; Martin et al., 2008); logo, a criança/jovem não precisa, ao longo do ciclo anual, de atingir picos ou níveis otimizados de forma desportiva (Tschiene, 1983, Weineck, 1983 e Carvalho, 1985, citados por Mota, 1988);

· No período preparatório (pré-época), o objetivo do treino não é tentar o desenvolvimento da forma desportiva que serve para vencer o campeonato, porque o preço a pagar será uma perda de motivação por parte do jovem praticante (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Seirul-lo, 1998);

· A alta intensidade associada a exercícios específicos e/ou gerais, por motivos biológicos, pode ser nefasta nos níveis base de formação, visto o fator técnica ainda se apresentar pouco consolidado, surgindo a possibilidade de reter o erro. Nestes escalões, a base de um nível futuro elevado de rendimento deve ser lançada através da dominância do incremento do volume (tempo de treino), não por intermédio do aumento da intensidade (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Stafford, 2005; Martin et al., 2008);

· O macrociclo anual (época desportiva) pode ser subdivido numa periodização tripla (três períodos), uma vez que oferece possibilidades de organização favoráveis para um processamento variado do ciclo anual, o que vem ao encontro dos interesses escolares das crianças/jovens (Lewin, 1978, Barbanti, 1979, Raposo, 1979, Berger, 1981 e Freitag, 1982, citados por Mota, 1988);

· É benéfico alterar o tipo ou algumas particularidades da periodização de época para época, de modo a fomentar a adaptação a novas estruturas de treino e a estímulos diversificados, em consonância com as exigências e as necessidades próprias de cada praticante e da competição (Stafford, 2005);

· Nos períodos de férias escolares, deve-se propiciar intervalos profiláticos, que providenciem a recuperação e a regeneração necessárias a jovens praticantes em desenvolvimento (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Stafford, 2005). Posto isto, será a frequência regular dos habituais torneios de Natal, Carnaval e Páscoa realmente benéfica para o desenvolvimento integral das crianças/jovens? Não serão estes torneios suplementares um fator de saturação para os jovens e para as respetivas famílias?

Um modelo de periodização assente nestas recomendações está especialmente ajustado às culturas ocidentais, até pela sua adequação à realidade no que diz respeito à matriz de estrutura social vigente. Em síntese, um modelo que se enquadre nos estilos de vida das crianças/jovens e das respetivas famílias é um modelo mais centrado e adaptado ao praticante, o que, em última instância, concorre para uma rentabilização e otimização do processo de formação desportiva e cívica através desta nossa modalidade: o futebol.

Referências
Martin, D., Carl, K. & Lehnertz, K. (2008). Manual de teoria do treinamento esportivo. São Paulo: Phorte Editora.
Mota, J. (1988). A periodização do treino com jovens. Horizonte, 4(23): 163-167.
Seirul-lo Vargas, F. (1998). Planificación a largo plazo en los deportes colectivos. Apuntes del curso de Entrenamiento Deportivo. Canarias: Escuela Canaria del Deporte.
Stafford, I. (2005). Coaching for long-term athlete development: To improve participation and performance in sport. Leeds: Sports Coach UK.

15/12/2013

O peso da vitória

As medalhas. Pareciam chocalhos pendurados ao pescoço a tinir a presunção de vitória. O peso encurvara-lhe o dorso e um dia, devido à ação contínua da gravidade, teria de rastejar. E quando rastejasse, olharia para cima para todas as pessoas vulgares; cumprimentá-las-ia, falando para cima, submisso. Não se importava. Viveria assim o resto da sua vida, só para poder dizer que outrora fora campeão.

Imagem: O peso da vitória (fonte: www.cartoonstock.com).

10/12/2013

Afinal, qual é o “grupo da morte” do Mundial 2014?

Sempre que ocorre uma competição internacional de futebol, tanto quanto sei, tem sido vaticinada a existência de um grupo peculiar de equipas designado “grupo da morte”. Usualmente, é o grupo mais equilibrado em termos de desempenho competitivo e, por inerência, aquele que, em teoria, é de desfecho mais imprevisível.

No que diz respeito ao próximo Campeonato do Mundo de 2014, no Brasil, as opiniões dos selecionadores, dos jornalistas e do público em geral não são consensuais. Uns alegam que o grupo da Espanha é o mais forte, outros que é o grupo da Inglaterra e, outros ainda, que é o grupo da Alemanha e de… Portugal.

Figura: Grupos do Mundial 2014, no Brasil (fonte: www.fifa.com).

Ora, a fim de esclarecer qual é, de facto, o “grupo da morte” do próximo Mundial 2014, resolvi fazer um exercício breve e simples: somar os pontos do ranking FIFA (atualização de 28-novembro-2013) das seleções que compõem os 8 grupos do certame. Este ranking tem em consideração as performances recentes das seleções, extensíveis ao período anterior de 4 anos (ver mais especificações aqui). Eis os resultados obtidos:

- Grupo G: Alemanha (1318), PORTUGAL (1172), Gana (849) e E.U.A. (1019) = 4358
- Grupo B: Espanha (1507), Holanda (1106), Chile (1014) e Austrália (564) = 4191
3º - Grupo D: Uruguai (1132), Costa Rica (738), Inglaterra (1041) e Itália (1120) = 4031
- Grupo C: Colômbia (1200), Grécia (1055), Costa do Marfim (918) e Japão (638) = 3811
- Grupo A: Brasil (1102), Croácia (971), México (892) e Camarões (612) = 3577
- Grupo E: Suíça (1113), Equador (852), França (893) e Honduras (688) = 3546
- Grupo F: Argentina (1251), Bósnia-Herzegovina (886), Irão (650) e Nigéria (710) = 3497
- Grupo H: Bélgica (1098), Argélia (800), Rússia (870) e Coreia do Sul (577) = 3345

Portanto, o “grupo da morte” do Mundial 2014 é, de acordo com o ranking atual da FIFA, o grupo G, ou seja, o de Portugal. A meu ver, talvez até seja bom para a nossa seleção. Por sua vez, o grupo teoricamente mais acessível é o grupo H, embora o grupo E – o da França – não tenha assim tantos pontos a mais. Na sequência da subversão das regras do sorteio, com a consequente passagem da Itália para o Pote 2 por troca com a França, calculo que o presidente da UEFA – monsieur Michel Platini – deva ter ficado radiante.

09/12/2013

A estrada da felicidade

«Se és Ernesto, não podes ser honesto».

Ernesto estava farto daquele dizer. O que tinha o seu nome a ver com honestidade ou falta dela? Desde que nascera, tinham-lhe cravado o cunho. Maldito nome! Ao contrário de qualquer ser humano, Ernesto não podia errar, sob pena de se confirmar a sua desonestidade. Aí, o povo venceria; aliás, o mundo venceria e Ernesto não estava disposto a dar razão a quem não tinha ou não lhe fazia uso.

Que se soubesse, ninguém apresentara razão de queixa de sua pessoa. Era pacato, humilde e demasiado trabalhador. Era daqueles que o bom patrão gostava de ter a seu mandato: fizesse o que fizesse, era bem feito! Pelo menos, até ao dia em que desapareceram dinheiros e ferramentas e surgiu a inevitável suspeita. Nenhuma vivalma o vira a roubar, mas como era Ernesto… apontaram-lhe o dedo.

Esmoreceu-lhe a paciência e quis abalar para longe dali. Na vila, dizia-se que havia gentes a partir para trabalhar numas terras férteis das planícies alentejanas. Pagavam bem e davam teto para dormir. Ernesto não era ladrão, nunca o fora, mas, como uma mentira contada mil vezes, torna-se verdade, decidiu-se logo a apanhar a dita camioneta. Os outros, na esperança de melhores dias, comentavam que iriam pela estrada da felicidade. «Encontrá-la-iam?», perguntava-se Ernesto.

Numa bela manhã de novembro, os primeiros raios de sol abrilhantavam a despedida. Por estes dias, a geada andava de mão dada com a madrugada e tudo parecia cristalino. As pessoas, essas, aglomeravam-se no largo da carreira. Estavam sorridentes, porém batiam o dente. Ernesto não sabia se era do frio ou se do nervoso miudinho provindo do desconhecido, da lonjura ou da própria esperança. Então, no outro lado do largo, lá apareceu a viatura, meticulosamente a tempo e horas. «Assim se faz. Tudo em ordem!», alguém soltou evidentemente satisfeito.

O chauffeur, um homem para meia-idade, apresentou-se como Salvador e solicitou aos passageiros que se identificassem. Trinta e três era o número de dissidentes, de foragidos da agrura da serra e da sua pobreza mercante. Abraços, beijos e lágrimas condimentaram a hora do «adeus, até breve!». Ernesto não deixava ninguém de especial, apenas a desonestidade apregoada desde o dia do seu batismo. Para ele, não havia lágrimas, restavam-lhe as memórias, fossem elas boas ou más. E, assim, tomaram a estrada rumo ao que diziam ser a felicidade.

O branco caiado da serra ia ficando cada vez mais minúsculo à medida que se afastavam. Ernesto sorria, contemplando a beleza outonal das suas origens. O verde mesclado com o castanho e o cinzento do asfalto salpicado pelo desfolhar dos plátanos. Do rádio escutava-se o «1, 2, 3, vou nascer outra vez» dos Ritual Tejo; nem a música podia ser mais apropriada. Preocupava-o, contudo, a velocidade com que tudo ficava para trás e o trajeto não era exatamente retilíneo. Os passageiros conversam animadamente, bem agarrados aos pertences que não depositaram na bagageira. A bordo iam vidas, orgânicas e inorgânicas, literalmente. Talvez por isso, e pela velocidade, a camioneta balouçasse nas curvas.

Mais adiante, algures ainda pela serra, o piso atraiçoou a confiança do Salvador e a camioneta não balançou, deslizou para a berma e precipitou-se por um barranco abaixo. Os gritos, os galhos a quebrar, o rodopio, culminado pelo estrondo do embate final, deram lugar ao silêncio e ao vazio. Momentos… Ernesto flutuava, invadido por uma sensação de paz inexplicável. Uma luz – quiçá salvadora – tomou-lhe o destino. E, enquanto outros jaziam a contorcer-se de dor, Ernesto havia encontrado, inadvertidamente, o seu intento… a mais pura das felicidades.

Imagem: A estrada e a beleza outonal da serra de Monchique (6-dez-2013).

20/11/2013

Uma mera crónica sobre Portugal no Mundial 2014

No cenário de crise, descontentamento e tristeza em que estamos inseridos, julgo que Portugal acordou hoje, pelo menos, um bom bocado mais alegre que ontem. A nossa seleção apurou-se para o Mundial 2014 no Brasil. Estamos lá!

Imagem: Festa portuguesa em Solna (fonte: Getty Images).

O playoff com a Suécia
Dois jogos em que a seleção portuguesa foi claramente superior. Estou convicto que a equipa poderia ter ido a Solna mais descansada, pois fez por merecer o 2-0 no Estádio da Luz. A vantagem de 1-0 não era negativa, porém também não dava a tranquilidade que o mister Paulo Bento tanto aprecia. Aliás, este apuramento foi tudo menos tranquilo. À boa maneira “tuga”, não se previne, remedeia-se, desenrasca-se. Ontem, desenrascou-se o apuramento, não sem a dose de sofrimento do costume. Se os jogadores interpretaram convenientemente o que a equipa técnica solicitou, então devo enaltecer os dois planos de jogo (planos estratégico-táticos) elaborados para a eliminatória. Neste particular, o líder Paulo Bento e os seus pares foram competentes, embora continue a achar que poderiam ter sido tomadas outras opções na pretérita fase de grupos.

Cristiano Ronaldo, a Ballon d’Or e os outros
Não sou hipócrita. Em ocasiões anteriores, critiquei Cristiano Ronaldo e defendi a eleição de Messi como o melhor jogador do mundo. Critiquei algumas atitudes do capitão português, sobretudo no Mundial 2010 e, de facto, insurgi-me perante a contestação de alguns portugueses acerca de Ronaldo merecer a Bola de Ouro da FIFA. Hoje, no ano de 2013, estou rendido e lamento não o ter suportado mais anteriormente. Depois de ver Joseph Blatter ridicularizar o nosso capitão, quer queiramos ou não um símbolo de Portugal, depois de ver Ronaldo, consistentemente, a somar dois ou três golos por jogo e a ser por demais decisivo no seu clube e na seleção, só posso ficar rendido às evidências: FIFA Ballon d’Or 2013!

Quem alega que Ronaldo não ganhou nada a época transata, então que se relembre que esta distinção é individual e não coletiva. Franck Ribéry não é evidentemente o melhor do mundo, mas esteve integrado num super Bayern Munique que venceu tudo o que havia para vencer em 2013. No caso de Lionel Messi, coloco em causa a sua regularidade. Este último semestre do ano tem sido fatídico para o argentino. A mudança de treinador e de filosofia de jogo no Barcelona não têm potenciado os seus desempenhos e as sucessivas lesões também não têm contribuído. Por tudo isto, 2013 é ano para Ronaldo. Até a FIFA alargou, em duas semanas, o prazo de votação para o melhor jogador do mundo. Na realidade, seria altamente inteligente permitir que se votasse num jogador sem saber quais as seleções apuradas para o Mundial…

Esta parece ser uma opinião que transcende sentimentos patrióticos exacerbados. Senão, vejamos as palavras do internacional inglês Rio Ferdinand:

Ronaldo acabou hoje com a discussão sobre a Bola de Ouro… Se não ganhar é porque o Blatter fez o ranking.
(19-nov-2013, via Twitter)

Ponto!

A classe de João Moutinho
Se Cristiano Ronaldo é, por agora, o maior, então o João Moutinho vem logo a seguir. Um médio de classe mundial. Ora, sobre Moutinho já havia escrito um texto no Linha de Passe (recordar aqui).

Imagem: O comandante Ronaldo e o maestro Moutinho a caminho do Brasil 2014 (fonte: sportsworldreport.com).

A meu ver, é um jogador importantíssimo na equipa nacional. É a formiga incansável a trabalhar defensivamente (n.º 6), é o grande maestro que serve Ronaldo e os outros atacantes na perfeição (n.º 10) e é o “box-to-box” que, simplesmente, está sempre dentro dos processos coletivos da equipa e a cumprir com critério (n.º 8). Só lamento que atue num clube que não esteja nas competições europeias e que não compita numa liga de topo. Espero que tenha a felicidade de um dia poder jogar num clube europeu tão grande como ele.

E no Brasil?
Certamente que Portugal não irá para sambar. A seleção irá para competir e confio numa boa prestação. Ainda falta muito tempo para o certame e, por isso, apenas refiro as minhas preferências (por ordem decrescente em cada pote) para o sorteio dos grupos do Campeonato Mundial 2014, que se realizará no próximo dia 6 de dezembro:

Pote 1: Suíça, Uruguai, Colômbia, Bélgica, Argentina, Espanha, Brasil e Alemanha.
Pote 2: Honduras, Irão, Costa Rica, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos da América e México.
Pote 3: Argélia, Camarões, Gana, Equador, Nigéria, Costa do Marfim, Chile e França.
Pote 4: pote de Portugal (Holanda, Itália, Inglaterra, PORTUGAL, Grécia, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Rússia).

Teoricamente, o grupo mais acessível para Portugal seria com a Suíça (de Joseph Blatter), as Honduras e a Argélia. Ao invés, um grupo complicado seria, por exemplo, com o Brasil, o México e a França. Deixemos agora que o destino faça a sua parte. Venha quem vier, é bola para a frente.

Força, PORTUGAL!