13/01/2014

Cristiano Ronaldo: O primeiro «bis» português na Bola de Ouro da FIFA

Oito dias após o falecimento de uma figura de proa do futebol português – o «pantera negra» Eusébio da Silva Ferreira – temos o primeiro craque deste país à beira-mar plantado a ser consagrado, pela segunda vez, com a distinção FIFA Ballon d’Or (Bola de Ouro da FIFA). Ele é Cristiano Ronaldo, ele é o FIFA World Player of the 2013, isto depois de já ter recebido o troféu homólogo em 2008.

Imagem: Cristiano Ronaldo, o Ballon d'Or de 2013 (fonte: showdebola.pt).

O “rei” Eusébio venceu em 1965, o “génio” Figo em 2000 e o “comandante” Cristiano Ronaldo inaugura o “bis” na bola de ouro para Portugal. Superou a concorrência do argentino Lionel Messi e do francês Franck Ribéry porque, de facto, foi o melhor jogador no ano transato. Se a campanha do Real Madrid esteve longe de satisfazer as expectativas dos adeptos, Cristiano Ronaldo mostrou que, mesmo num coletivo “frouxo”, consegue destacar-se e alcançar números impressionantes. Porém, nem só de golos vive o atacante português.

É um jogador talhado para desequilibrar o processo defensivo adversário. Quantos jogadores têm a sua velocidade (com e sem bola)? Quantos jogadores tratam a bola (dimensão técnica) como Cristiano Ronaldo? Nos tempos mais recentes, ao que não estará alheio o trabalho com José Mourinho e Carlo Ancelotti, tornou-se um jogador mais imprevisível, pois tanto pode servir o “coletivo”, como, individualmente, resolver os problemas contextuais do jogo. Os resumos mostram-nos os golos, mas Cristiano melhorou imenso a sua competência tática. Defensivamente, isso também foi e é evidente.

Esta evolução na dimensão tática aliada ao seu estrondoso potencial atlético, ao seu brilhantismo técnico e à sua enorme capacidade de finalização, faz de Cristiano Ronaldo um jogador altamente decisivo entre a elite do futebol mundial. Os contextos podem ser distintos, mas ele adapta-se, aparece e resolve. No ano de 2013 houve muito de fantástico de Cristiano Ronaldo. Mil e um vídeos poderiam ilustrar a sua qualidade; eu escolhi deixar-vos um pormenor delicioso do atual “melhor do mundo”:


No próximo mês fará 29 anos e tem francas possibilidades de ir ainda mais além. Apesar disso, não posso deixar de me questionar: daqui a quantos anos teremos outro jogador português a vencer duas vezes a Bola de Ouro da FIFA?

09/01/2014

O tempo adicional no futebol

O tempo adicional, tempo de descontos ou tempo de compensação (estas últimas expressões são frequentemente relatadas nos meandros do futebol) consiste no tempo que é concedido pelo árbitro principal da partida, no final do tempo regulamentar (45 ou 90 minutos), a fim de contrabalançar os períodos nos quais o jogo esteve efetivamente interrompido (lesões, substituições, atrasos nas reposições da bola em jogo, etc.).

Imagem: Tempo adicional no futebol (fonte: refnews.wordpress.com).

Para quem se encontra em vantagem, o tempo adicional dado pelo árbitro é usualmente um exagero; ao invés, para quem se encontra a perder, a compensação tende a ser curta. Os interesses e as necessidades dos indivíduos condicionam bastante a perceção subjetiva do tempo que deve constar na placa. A meu ver, isso parece-me perfeitamente natural. Já o mesmo não pode ser afirmado relativamente ao elemento que deveria ser o mais imparcial do encontro: o árbitro. Será que o tempo adicional concedido pelo árbitro é correto? Se não, tenderão estes a pecar por excesso ou por defeito?

Estas foram as questões colocadas pelos investigadores alemães Malte Siegler e René Prüßner, da Universidade Técnica de Munique e cujos resultados foram publicados, no passado mês de dezembro, no International Journal of Performance Analysis in Sport. De resto, estes autores analisaram o tempo adicional concedido pelos árbitros no final de todos jogos (n = 31) que ocorreram no Campeonato Europeu de seleções, em 2012, na Polónia e na Ucrânia. Para o efeito, criaram um sistema de observação com o propósito de registar a duração e o número de ocorrências do que designaram ser as «interrupções relevantes do jogo». 

Foram registadas 196 interrupções relevantes com uma duração média de 261.3 s (± 86.5) por jogo (i.e., cerca de 4 minutos e 21 segundos). O tempo adicional médio por jogo foi de 218.1 s (± 50.0), ou seja, 3 minutos e 38 segundos. Os investigadores revelaram que, em 51% dos jogos da amostra, o tempo adicional foi demasiado curto, embora o resultado da partida não tenha sido significativamente influenciado pelo fenómeno.

Imagem: O tempo adicional e a controvérsia que gera (fonte: miltonribeirocoach.blogspot.pt).

Portanto, os resultados deste estudo são conclusivos: beneficia-se quem está em vantagem ou quem se encontra mais satisfeito com o marcador e que, por norma, tende a “queimar” tempo e a adotar um estilo de jogo mais defensivo. A bem do espetáculo que é (ou deveria ser) o futebol, é de todo recomendado que as altas instâncias da modalidade (FIFA, UEFA, etc.) e os árbitros pensem em melhorar os métodos de cálculo da quantidade de tempo que deve ser adicionada, findo o tempo regulamentar do jogo.

Referência
Siegle, M. & Prüßner, R. (2013). Additional time in soccer. International Journal of Performance Analysis in Sport, 13(3), 716-723.

05/01/2014

Eusébio partiu, mas o seu legado perdurará

O primeiro texto de 2014 é uma curta homenagem a Eusébio. O dia 5 de janeiro de 2014 é marcado pelo seu falecimento, porém, o legado que deixa no futebol português perdurará por longas décadas. O seu contributo foi fundamental para que o nome do Sport Lisboa e Benfica se erguesse no panorama europeu e para que Portugal constasse no mapa do futebol mundial. No que diz respeito a esta modalidade desportiva, o que o «pantera negra» fez está apenas ao alcance de predestinados, de génios.

Imagem: A estátua de Eusébio por Vasco Duarte (fonte: olhares.sapo.pt).

Não tive oportunidade de o ver jogar (ao vivo), mas fica para a posterioridade alguns dos seus números:

· 638 golos em 614 jogos oficiais (média de 1,04 golos/jogo);
· Ganhou 11 Campeonatos Nacionais (1960-61, 1962-63, 1963-64, 1964-65, 1966-67, 1967-68, 1968-69, 1970-71, 1971-72, 1972-73 e 1974-75);
· Conquistou 5 Taças de Portugal (1961-62, 1963-64, 1968-69, 1969-70 e 1971-72);
· Venceu 1 Taça dos Campeões Europeus (1961-62);
· 3 vezes finalista vencido na Taça dos Campeões Europeus (1962-63, 1964-65 e 1967-68);
· 3 vezes melhor marcador da Taça dos Campeões Europeus (1965, 1966 e 1968);
· 7 Bolas de Prata (record nacional) em 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973;
· 2 Botas de Ouro (1968 e 1973);
· 1 Bola de Ouro (1965).

Tão impressionante como observar algumas das suas jogadas e os seus golos:


Até sempre, Eusébio!

30/12/2013

Um feito em 31

Faz hoje 31 anos que nasceu.
 
Lembro-me de nós, em crianças, a correr atrás da bola e a andar de bicicleta na pista do cerro do alto de São Roque. Recordo-me, mais que tudo, das aventuras. A vida, por essa altura, era uma aventura… feliz! Passados que estão 20 anos, somos tudo e não somos nada. Eu, por exemplo, gosto de jogar futebol, mas jamais entrarei num estádio repleto de adeptos entusiastas para me ver jogar; gosto de treinar jovens, mas estou a milhentas léguas de possuir a competência e o conhecimento de José Mourinho; gosto de “arranhar” na guitarra, mas fascina-me quem sabe “solar” de cima a baixo, e de forma melódica, nas cordas do instrumento. Ele não, tem jeito para a escrita; aliás, muito jeito para a escrita. Talento puro. Todos veem isso, mas ninguém se parece importar muito. Os «muito bons» comentados no facebook, as palmadinhas nas costas acompanhadas de singelos «escreves bem, pá!», são simpáticos, porém, manifestamente insuficientes.
 
Tenho para mim que uma arte somente adquire expressão quando é mostrada ao mundo, quando é exposta para todos podermos apreciar. Que beleza teria o Mosteiro dos Jerónimos envolto em tecido negro? O que falta é isso mesmo: mostrar ao mundo, sob a forma de obra. Um livro publicado far-lhe-ia alguma justiça, mas não toda. Infelizmente, é muito mais fácil criticar e/ou subestimar; é mais cómodo. É precisamente por esse motivo que as pessoas são melhores depois de mortas; dão menos trabalho.
 
Revolta-me poder fazer pouco. Talvez o pouco de alguns, um dia, possa ser suficiente para lhe prestar o devido reconhecimento, colocando à margem os incautos egocentristas que não veem, ou fazem, maliciosamente, de conta que não veem. Provas? Têm-nas no blogue Terra Ruim, em prosa ou em poesia; é à vontade do freguês.
 
Um dia, digo eu.
 
E porque a vida é um caminho, que se faz caminhando, espero que bem aprecie esta “aventura” escrita:
 
Imagem: Capa de Patagónia Express de Luis Sepúlveda (Porto Editora, 2011).

Parabéns, amigo Eduardo Duarte!

28/12/2013

Periodização do treino de jovens no futebol: O indivíduo para além do processo


NOTA PRÉVIA: O presente texto foi publicado no número mais recente da Revista AF Algarve (n.º 75, Outubro / Novembro 2013).

Imagem: Capa da Revista AF Algarve, n.º 75, Outubro / Novembro 2013 (download pdf aqui).


No futebol de formação, a aprendizagem do jogo, nas suas dimensões técnica, tática e estratégica, não é um processo de curto prazo. A aquisição e o aperfeiçoamento das ações técnicas, o desenvolvimento do raciocínio tático e a vivência dos condicionalismos estratégicos devem ocorrer por etapas, evitando as mais que habituais pressões exteriores de “executar rápido, bem, aqui e agora”. A crença no imediatismo gera usualmente insucesso; o insucesso conduz à saturação; a saturação culmina na desistência e no abandono precoces do processo de treino e competição (Stafford, 2005).

Uma vez que o jogo de futebol tem por base uma estrutura de rendimento complexa, é natural que as crianças/jovens sejam submetidos a situações de jogo ou competição exigentes dos pontos de vista físico, cognitivo e emocional. Contudo, as exigências que são colocadas aos miúdos devem ser muito bem equacionadas e geridas pelos treinadores. Um contexto de pouca exigência não estimula o desenvolvimento das competências dos jovens praticantes; por outro lado, um contexto de elevada exigência, sempre no limite, tende a desrespeitar os processos biológicos de crescimento e maturação dos indivíduos, levando à inevitável saturação. Deste modo, uma conveniente periodização do treino por parte do treinador pode acautelar situações de desistência e potenciar os efeitos formativos decorrentes da prática numa perspetiva a médio/longo prazo.

Neste âmbito, é consensual entre especialistas a existência de alguns cuidados a ter na seleção do padrão de periodização a adotar no treino de crianças/jovens. Tomemos em consideração os seguintes:

· O modelo de periodização deve ser adaptado à vida escolar (Matveiev, 1982, Tschiene, 1983, citados por Mota, 1988; Stafford, 2005), bem como à vida familiar da criança/jovem (Stafford, 2005). A grande maioria dos jovens praticantes de futebol no nosso país não está inserida em academias profissionais de futebol. Para além disso, a percentagem de jogadores que atingem o alto rendimento é irrisória. Enquanto agentes formadores de cidadãos, os treinadores não devem ignorar esta realidade;

· O que está em causa não é propriamente o rendimento, mas sim a criação dos pressupostos desse rendimento (Mota, 1988; Stafford, 2005; Martin et al., 2008); logo, a criança/jovem não precisa, ao longo do ciclo anual, de atingir picos ou níveis otimizados de forma desportiva (Tschiene, 1983, Weineck, 1983 e Carvalho, 1985, citados por Mota, 1988);

· No período preparatório (pré-época), o objetivo do treino não é tentar o desenvolvimento da forma desportiva que serve para vencer o campeonato, porque o preço a pagar será uma perda de motivação por parte do jovem praticante (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Seirul-lo, 1998);

· A alta intensidade associada a exercícios específicos e/ou gerais, por motivos biológicos, pode ser nefasta nos níveis base de formação, visto o fator técnica ainda se apresentar pouco consolidado, surgindo a possibilidade de reter o erro. Nestes escalões, a base de um nível futuro elevado de rendimento deve ser lançada através da dominância do incremento do volume (tempo de treino), não por intermédio do aumento da intensidade (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Stafford, 2005; Martin et al., 2008);

· O macrociclo anual (época desportiva) pode ser subdivido numa periodização tripla (três períodos), uma vez que oferece possibilidades de organização favoráveis para um processamento variado do ciclo anual, o que vem ao encontro dos interesses escolares das crianças/jovens (Lewin, 1978, Barbanti, 1979, Raposo, 1979, Berger, 1981 e Freitag, 1982, citados por Mota, 1988);

· É benéfico alterar o tipo ou algumas particularidades da periodização de época para época, de modo a fomentar a adaptação a novas estruturas de treino e a estímulos diversificados, em consonância com as exigências e as necessidades próprias de cada praticante e da competição (Stafford, 2005);

· Nos períodos de férias escolares, deve-se propiciar intervalos profiláticos, que providenciem a recuperação e a regeneração necessárias a jovens praticantes em desenvolvimento (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Stafford, 2005). Posto isto, será a frequência regular dos habituais torneios de Natal, Carnaval e Páscoa realmente benéfica para o desenvolvimento integral das crianças/jovens? Não serão estes torneios suplementares um fator de saturação para os jovens e para as respetivas famílias?

Um modelo de periodização assente nestas recomendações está especialmente ajustado às culturas ocidentais, até pela sua adequação à realidade no que diz respeito à matriz de estrutura social vigente. Em síntese, um modelo que se enquadre nos estilos de vida das crianças/jovens e das respetivas famílias é um modelo mais centrado e adaptado ao praticante, o que, em última instância, concorre para uma rentabilização e otimização do processo de formação desportiva e cívica através desta nossa modalidade: o futebol.

Referências
Martin, D., Carl, K. & Lehnertz, K. (2008). Manual de teoria do treinamento esportivo. São Paulo: Phorte Editora.
Mota, J. (1988). A periodização do treino com jovens. Horizonte, 4(23): 163-167.
Seirul-lo Vargas, F. (1998). Planificación a largo plazo en los deportes colectivos. Apuntes del curso de Entrenamiento Deportivo. Canarias: Escuela Canaria del Deporte.
Stafford, I. (2005). Coaching for long-term athlete development: To improve participation and performance in sport. Leeds: Sports Coach UK.