Hoje acordei com uma
dúvida imensa. Talvez por sonhar não saber do que se trata a experiência, na
sua verdadeira essência, decidi visitar o meu dicionário de Língua Portuguesa.
As diversas possibilidades não me satisfizeram e, deste modo, tentei a minha
sorte na web. Após longos minutos de
busca, deparei-me com as palavras eruditas de um mestre.
- O que é isso «experiência»?
- indagava ele com a sua posse emproada, só ao alcance de escassos seres
humanos abençoados pelo dom da sabedoria.
Depois desta explicação,
não mais voltarei a confiar o meu conhecimento à extensa lista de termos portugueses
que consta num qualquer dicionário.
Longe vão os tempos das
míticas subidas ao alto da Foia, quando a Volta ainda era a de Portugal. A
multidão aglomerava-se à beira da estrada para ver passar o pelotão e
incentivar os seus preferidos. Eu, então miúdo, o que queria era as garrafas
dos ciclistas; descer os cerros e meter-me pelas silvas adentro era, portanto,
uma aventura com propósito bem definido.
Ontem, cruzei-me com a
Volta – a do Algarve – e registei o momento.
Imagem: Chegada a Monchique na 2ª etapa da 40ª Volta ao Algarve.
Para a história fica a
pedalada do português Rui Costa e o seu 2º lugar na etapa «Lagoa – Monchique»,
a escassos metros do polaco que triunfou.
E o aparato? Fugaz, mas
como há muito não se via pela vila…
Para o escritor chileno
Luis Sepúlveda – um dos meus escritores preferidos – o «sul do mundo» fica na
Patagónia. As suas viagens a este canto do globo deram origem a crónicas; da
gaveta, as crónicas fizeram-se em livro, pelo menos, assim é narrado no Patagónia Express (Porto Editora, 2011).
No meio do nada, ou no centro de tudo, «uma pessoa é de onde melhor se sente».
Imagem: A Patagónia na América do Sul (fonte: www.snegaiv.com).
Os livros, as crónicas, as dissertações de Luis Sepúlveda fazem-me sentir melhor. Sejam as palavras humor,
saudade, política, cultura, tragédia ou felicidade, emanam o elevado sentido de
humanidade do autor. Se bem escrever é sinónimo de saber colocar em texto as
histórias, os segredos, as experiências, as valências e os defeitos que nos
caracterizam enquanto seres humanos, então Luis Sepúlveda fá-lo com uma clareza
notável:
– Boa tarde – cumprimentei.
– Isso é indiscutível. O que deseja, mister?
– Preciso de voar para Coca. Pode dizer-me o que tenho de
fazer?
– Com certeza. Para voar basta agitar os braços, correr
para ganhar balanço e encolher as patas. Mais alguma coisa?
Oito dias após o
falecimento de uma figura de proa do futebol português – o «pantera negra» Eusébio da Silva Ferreira – temos o
primeiro craque deste país à beira-mar plantado a ser consagrado, pela segunda
vez, com a distinção FIFA Ballon d’Or
(Bola de Ouro da FIFA). Ele é Cristiano
Ronaldo, ele é o FIFA World Player of
the 2013, isto depois de já ter recebido o troféu homólogo em 2008.
Imagem: Cristiano Ronaldo, o Ballon d'Or de 2013 (fonte: showdebola.pt).
O “rei” Eusébio venceu
em 1965, o “génio” Figo em 2000 e o “comandante” Cristiano Ronaldo inaugura o
“bis” na bola de ouro para Portugal. Superou a concorrência do argentino Lionel
Messi e do francês Franck Ribéry porque, de facto, foi o melhor jogador no ano
transato. Se a campanha do Real Madrid esteve longe de satisfazer as
expectativas dos adeptos, Cristiano Ronaldo mostrou que, mesmo num coletivo
“frouxo”, consegue destacar-se e alcançar números impressionantes. Porém, nem só
de golos vive o atacante português.
É um jogador talhado
para desequilibrar o processo defensivo adversário. Quantos jogadores têm a sua
velocidade (com e sem bola)? Quantos jogadores tratam a bola (dimensão técnica)
como Cristiano Ronaldo? Nos tempos mais recentes, ao que não estará alheio o
trabalho com José Mourinho e Carlo Ancelotti, tornou-se um jogador mais
imprevisível, pois tanto pode servir o “coletivo”, como, individualmente,
resolver os problemas contextuais do jogo. Os resumos mostram-nos os golos, mas
Cristiano melhorou imenso a sua competência tática. Defensivamente, isso também
foi e é evidente.
Esta evolução na
dimensão tática aliada ao seu estrondoso potencial atlético, ao seu
brilhantismo técnico e à sua enorme capacidade de finalização, faz de Cristiano
Ronaldo um jogador altamente decisivo entre a elite do futebol mundial. Os
contextos podem ser distintos, mas ele adapta-se, aparece e resolve. No ano de 2013 houve
muito de fantástico de Cristiano Ronaldo. Mil e um vídeos poderiam ilustrar a
sua qualidade; eu escolhi deixar-vos um pormenor delicioso do atual “melhor do
mundo”:
No próximo mês fará 29
anos e tem francas possibilidades de ir ainda mais além. Apesar disso, não
posso deixar de me questionar: daqui a quantos anos teremos outro jogador português
a vencer duas vezes a Bola de Ouro da FIFA?