Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.
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Autores: Morganti,
G., Kelly, A. L., Tufo, F., Ungureanu, A. N., Lupo, C., Li Volsi, D., Ruscello,
B., McAuley, A. B. T., Verbeek, J., & Brustio, P. R.
País: Itália
Data de
publicação: 6-fevereiro-2026
Título: Footedness in male international football: Its
association with selection and progression
Referência: Morganti, G., Kelly, A. L., Tufo, F., Ungureanu, A.
N., Lupo, C., Li Volsi, D., Ruscello, B., McAuley, A. B. T., Verbeek, J., &
Brustio, P. R. (2026). Footedness in male international football: Its
association with selection and progression. International Journal of Sports
Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261418576
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 74 – fevereiro
de 2026.
Apresentação do problema
A lateralidade traduz a preferência humana pelo uso de um dos lados do corpo na execução de ações específicas, sendo a preferência de pé (footedness) um dos seus principais indicadores comportamentais (Grouios et al., 2002). Embora a maioria da população tenha sido descrita como destra em termos podais, com apenas 14,4–17,7% de indivíduos esquerdinos (Packheiser et al., 2020), o futebol tem apresentado um padrão distinto. Estudos realizados em competições internacionais e ligas profissionais revelaram uma sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos, com valores entre 22% e 23,5% ao mais alto nível competitivo (Carey et al., 2001, 2009; Marcori et al., 2021). Em contextos de seleção nacional jovem, a proporção de esquerdinos atingiu 28–32%, o que sugere maior probabilidade de acesso ao percurso de alto rendimento (Verbeek et al., 2017). Evidência adicional indicou ainda que jogadores esquerdinos auferiram, em média, salários superiores nas principais ligas europeias, o que apontou para uma possível associação entre lateralidade e sucesso desportivo (Bryson et al., 2013).
Investigações realizadas no futebol evidenciaram uma acentuada assimetria funcional no jogo, com predomínio claro do pé preferido e diferenças de desempenho entre o uso do pé dominante e não dominante (Carey et al., 2001, 2009; Marcori et al., 2021; Stöckel & Carey, 2016). Neste contexto, as exigências tático-técnicas e a pressão espaciotemporal do jogo podem favorecer vantagens específicas associadas à lateralidade, sobretudo em posições que requerem orientação corporal e execução com um determinado pé (Verbeek et al., 2017; Kelly et al., 2024; Akpınar & Bicer, 2014). A ocupação de zonas específicas do campo, como os corredores laterais defensivos ou ofensivos, tende assim a corresponder ao pé preferido, podendo a presença de jogadores esquerdinos responder a necessidades táticas particulares, como no caso de defesas centrais ou laterais do lado esquerdo (Kelly et al., 2024; Akpınar & Bicer, 2014). Neste sentido, a lateralidade pode influenciar não apenas a disposição tática e a tomada de decisão em jogo, mas também as experiências de desenvolvimento dos jogadores e a sua especialização posicional ao longo do percurso formativo (Kelly et al., 2024).
Figura 2. A lateralidade no futebol: Lionel Messi como exemplo de
excelência (fonte: www.cfclassics.co; imagem não publicada pelos autores).
A identificação e o desenvolvimento de talento no futebol assentam em múltiplos critérios, incluindo o desempenho atual, frequentemente utilizado como indicador do potencial futuro, bem como atitudes, dedicação e adequação às exigências e à filosofia das organizações (Ford et al., 2020; Champ et al., 2018; Hem et al., 2022; Barraclough et al., 2024; Reeves & Roberts, 2019; Bergkamp et al., 2024). Estudos longitudinais demonstraram ainda que apenas uma reduzida proporção de jogadores jovens alcança o futebol profissional de elite ou o nível internacional sénior, o que evidencia a existência de taxas de transição particularmente baixas ao longo do percurso formativo (Boccia et al., 2023; Brustio et al., 2023, 2024). Estes dados suportam a necessidade de compreender que características individuais podem influenciar de forma sistemática a progressão no sistema de formação. Além disso, perspetivas teóricas recentes sugerem que a seleção desportiva pode favorecer jogadores com desempenho superior ou com atributos raros que respondam a expectativas e necessidades específicas de treinadores e organizações (Schorer et al., 2016; Baker et al., 2022).
Posto isto, a menor prevalência de jogadores esquerdinos
na população geral pode traduzir-se em vantagens de seleção e progressão no
futebol de formação e alto rendimento (Packheiser et al., 2020; Verbeek et al.,
2017; Kelly et al., 2024). A raridade relativa desta característica pode
conferir benefícios associados ao desempenho em zonas específicas do campo e às
exigências tático-técnicas das equipas e pode representar uma vantagem de “sobrevivência”
e de “atração” no processo seletivo (Baker et al., 2022). Torna-se, assim,
pertinente analisar de que forma a preferência de pé se relaciona com o acesso
aos percursos nacionais de talento, a especialização posicional e a progressão
até ao nível sénior nas principais academias europeias. Importa, ainda,
clarificar o papel potencial da lateralidade nas trajetórias de desenvolvimento
e no sucesso desportivo.
Métodos
·
Recolha de dados
Foram analisados dados de futebolistas convocados para as seleções nacionais jovens (Sub-17, Sub-19 e Sub-21) e seniores de Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, entre 2002 e 2022. A informação foi recolhida a partir da base de dados pública Transfermarkt (https://www.transfermarkt.com) Foram incluídos apenas jogadores com participação em pelo menos um jogo oficial pela respetiva seleção, tendo os guarda-redes sido excluídos por não apresentarem constrangimentos posicionais relevantes associados à preferência de pé.
Para cada jogador,
recolheram-se dados relativos à posição em campo e à lateralidade, sendo os
atletas classificados como defesas, médios ou avançados. Cada jogador foi
contabilizado apenas uma vez por escalão etário, embora pudesse surgir em
diferentes escalões ao longo do tempo. A preferência de pé foi categorizada
como destro, esquerdino ou ambidestro; contudo, apenas destros e esquerdinos
foram considerados nas análises principais, excluindo-se os ambidestros. A
amostra final integrou 7507 jogadores.
· Procedimentos e análise estatística: Parte 1 – lateralidade
podal e posição de jogo
A distribuição observada da lateralidade em cada escalão etário foi comparada com a distribuição esperada na população geral (85% destros; 15% esquerdinos), através de testes do qui-quadrado (χ²) de ajustamento. Aplicaram-se ainda testes do qui-quadrado de independência para examinar a associação entre lateralidade e posição. Para interpretar a magnitude e a direção das associações significativas, calcularam-se o tamanho do efeito (Cramer’s V) e os rácios de probabilidade (odds ratio – OR), com intervalos de confiança a 95%. O Cramer’s V foi interpretado como fraco (<0,14), moderado (0,15–0,24) ou forte (>0,25). Os ORs cujos intervalos de confiança incluíram 1 foram considerados indicativos de ausência de associação.
As análises foram
realizadas separadamente por escalão etário, o que garantiu a independência
dentro de cada teste. A comparação entre escalões exige, contudo, cautela, uma
vez que alguns jogadores puderam integrar mais do que uma categoria ao longo do
período analisado.
· Procedimentos e análise estatística: Parte 2 – transição
do futebol juvenil para o escalão sénior e preferência podal dos jogadores
A Parte 2 analisou as taxas de transição e de não transição do percurso jovem para o escalão sénior, com base numa subamostra de 2975 jogadores nascidos entre 1985 e 1998. Este intervalo foi definido para garantir cobertura completa dos percursos Sub-17, Sub-19 e Sub-21 no período 2002–2022 e tempo suficiente para eventual transição ao nível sénior. O termo “não transição” refere-se exclusivamente à ausência de convocatória para a seleção sénior.
As taxas foram calculadas de forma prospetiva (proporção de jogadores jovens que alcançaram ou não a seleção sénior) e retrospetiva (percurso jovem dos jogadores que alcançaram ou não o nível sénior). As análises consideraram diferentes trajetórias de desenvolvimento: percursos simples (apenas Sub-17, Sub-19 ou Sub-21), percursos combinados envolvendo 2 escalões e percursos completos (Sub-17, Sub-19 e Sub-21), bem como casos de acesso direto à seleção sénior.
Além disso, as taxas foram estimadas
para o total da amostra e separadamente por preferência de pé, incluindo
estratificação por posição (defesas, médios e avançados). Calcularam-se os ORs
com intervalos de confiança a 95%, comparando esquerdinos (grupo de referência)
e destros. Aplicou-se correção de continuidade quando necessário. O nível de
significância foi fixado em α = 0,05.
Principais resultados
Esta secção apresenta os
resultados organizados de acordo com os principais eixos de análise do estudo.
Em seguida, sintetizam-se os dados mais relevantes relativos à distribuição da
lateralidade, à sua relação com a posição em campo e às taxas de transição do
percurso jovem para o nível sénior.
Parte 1 – Lateralidade e
posição em campo
·
Sobrerrepresentação
de jogadores esquerdinos
Em todos os escalões
(Sub-17, Sub-19, Sub-21 e Sénior), a proporção de esquerdinos (26,6–29,7%) foi
significativamente superior à esperada na população geral (~15%). A
probabilidade de seleção para competições internacionais foi cerca de duas
vezes superior para esquerdinos (OR = 2,06–2,41).
·
Associação entre
lateralidade e posição
Verificou-se associação
estatisticamente significativa entre preferência de pé e posição em todos os
escalões (efeitos fracos a moderados).
·
Maior presença de
esquerdinos na defesa
Jogadores esquerdinos
foram recrutados com maior frequência como defesas (OR = 1,70–1,98).
·
Menor presença de
esquerdinos no meio-campo e ataque
Esquerdinos surgiram com
menor probabilidade como médios (OR = 0,56–0,62) e avançados (OR = 0,71–0,91).
Parte 2 – Transição futebol
juvenil para futebol sénior e lateralidade
·
Baixas taxas globais
de transição
Apenas uma fração limitada
dos jogadores das seleções jovens atingiu a seleção sénior. Nos percursos
diretos, as taxas de transição variaram entre 0% e cerca de 26%, enquanto nos
percursos combinados se situaram, em geral, abaixo dos 15%, podendo aproximar-se
dos 26% em alguns casos específicos. As probabilidades de transição aumentaram
com a idade e foram mais elevadas a partir do escalão Sub-21.
·
Elevadas taxas de não
transição
Independentemente do
percurso (simples ou combinado), a maioria dos jogadores não atingiu o nível
sénior.
·
Sem vantagem
sistemática associada à lateralidade
Independentemente do tipo
de percurso formativo, a maioria dos jogadores não alcançou a seleção sénior.
As taxas de não transição oscilaram, de forma geral, entre cerca de 40% e 80%,
com valores mais elevados nos percursos iniciados em escalões mais jovens.
·
Acesso direto à
seleção sénior
Uma proporção relevante de
jogadores integrou a seleção sénior sem percurso prévio nas seleções jovens
(16,8% destros; 21,3% esquerdinos).
·
Consistência entre
análises prospetiva e retrospetiva
Ambas confirmaram que
apenas uma minoria atinge o nível sénior e que a preferência de pé não confere
vantagem clara na transição (figura 3).
Figura 3. Probabilidades de transição para a seleção sénior
(taxas de transição/não transição) para cada combinação possível de percurso,
comparando jogadores destros e esquerdinos. (Morganti et al., 2026).
Aplicações práticas
Os resultados indicam que
a lateralidade influencia os processos iniciais de seleção e a distribuição
posicional dos jogadores, mas não determina a progressão até ao nível sénior. Os
dados oferecem orientações relevantes para a gestão do talento no futebol de
formação e de alto rendimento. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas
para enquadramento técnico e estratégico:
1. Integrar a lateralidade na definição de perfis posicionais e no recrutamento inicial: a sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos e a sua maior presença em funções defensivas indicam que a lateralidade responde a exigências tático-posicionais concretas. A identificação de jogadores em função da sua lateralidade deve apoiar a construção equilibrada do plantel e responder às necessidades funcionais de cada posição.
2. Estimular a competência bilateral sem ignorar a especialização funcional: apesar do predomínio do pé preferido no jogo, a melhoria do pé não dominante pode ampliar opções táticas e reduzir a previsibilidade. O treino deve promover a versatilidade técnica e tática, de forma a potenciar soluções de jogo complementares à lateralidade dominante.
3. Evitar a sobrevalorização da lateralidade na progressão a longo prazo: ainda que possa favorecer a entrada no sistema de seleção, a preferência podal não aumentou a probabilidade de transição para a seleção sénior. As decisões de progressão devem assentar no desempenho sustentado e no desenvolvimento global do jogador, não apenas na raridade ou prevalência do pé dominante.
4. Valorizar percursos formativos consistentes e
prolongados: a maioria dos jogadores não alcança o nível sénior, sendo as
transições mais prováveis em indivíduos que entram mais tarde (Sub-21) ou que
mantêm desempenho elevado ao longo de vários escalões. A gestão do talento deve
privilegiar a continuidade do desenvolvimento e a monitorização longitudinal, de
maneira a prevenir decisões precipitadas em fases precoces do percurso
formativo.
Conclusão
Este estudo evidenciou uma sobrerrepresentação de
jogadores esquerdinos no futebol internacional europeu, tanto nos escalões
jovens como no nível sénior, bem como diferenças na sua distribuição
posicional: destros mais frequentes no meio-campo e ataque, esquerdinos mais
presentes na defesa. Contudo, após a entrada no sistema de seleções jovens, a
lateralidade não influenciou de forma significativa a probabilidade de
transição para a seleção sénior. As taxas de progressão revelaram-se
globalmente reduzidas, ainda que aumentassem com a idade e com a entrada em
fases mais tardias do percurso internacional, sobretudo ao nível dos Sub-21. Os
resultados demonstram que o desempenho em escalões jovens, por si só, não
garante a chegada ao nível sénior e que a progressão no futebol de alto
rendimento depende de múltiplos fatores para além da preferência podal. A
lateralidade pode influenciar a seleção inicial e a especialização posicional,
mas não determina o sucesso a longo prazo.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.
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