Nota prévia: O artigo
científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes
critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com
revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3)
associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do
Desporto.
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Autores: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K.
País: Inglaterra
Data de
publicação: 27-maio-2026
Título: Game models in football coaching: an ecological
dynamics perspective
Referência: Jones,
G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K. (2026). Game models in football coaching: an ecological
dynamics perspective. International Journal of Performance Analysis in Sport,
1–18. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24748668.2026.2679371
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 78 – junho de
2026.
Apresentação do problema
No futebol, o Modelo de Jogo é habitualmente entendido como uma estrutura que sustenta a forma de jogar de uma equipa e integra a filosofia do treinador, as características dos jogadores, os princípios táticos, a metodologia de treino e a identidade do clube (Plakias, 2023). Historicamente, tem servido para formalizar padrões de jogo, definir estruturas posicionais e orientar comportamentos em posse de bola, sem posse de bola e nas transições (Costa et al., 2011; Garganta, 1997; Guilherme, 2004).
Apesar da sua utilidade, os Modelos de Jogo tradicionais podem assumir uma natureza excessivamente prescritiva. Quando reduzem o jogo a comportamentos previamente definidos, correm o risco de limitar a adaptação dos jogadores à variabilidade do contexto competitivo (Araújo & Davids, 2016; Ribeiro et al., 2019; Wellock, 2026). Práticas muito centradas na repetição de padrões podem diminuir a exposição à complexidade informacional do jogo e comprometer o desenvolvimento de decisões flexíveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2015; Davids et al., 2022).
A dinâmica ecológica oferece uma alternativa conceptual, ao compreender o rendimento como resultado da interação entre jogador e ambiente. Nesta perspetiva, os princípios táticos não funcionam como instruções rígidas, mas como convites funcionais para a ação (Ribeiro et al., 2019). Os jogadores devem aprender a reconhecer affordances, isto é, oportunidades de ação que emergem em função das capacidades do jogador, dos colegas de equipa, dos adversários, do espaço e das condições do jogo (Silva et al., 2014; Travassos et al., 2013; Vilar et al., 2012).
À luz desta perspetiva, o Modelo de Jogo pode ser repensado como uma estrutura flexível de suporte, e não como um guião determinista. Em vez de prescrever sequências fixas, deve ajudar os jogadores a adaptar-se a constrangimentos dinâmicos e a informação em mudança, de maneira a favorecer a autonomia, a flexibilidade tática e a capacidade de resposta (Goes et al., 2019; He et al., 2023; Jordet et al., 2020). Esta visão deve ainda considerar os constrangimentos socioculturais do clube, incluindo valores, tradições e identidade coletiva (O’Sullivan et al., 2025; Woods et al., 2020).
Assim, o artigo propõe uma perspetiva ecológica dos
Modelos de Jogo como estrutura conceptual para orientar a conceção da prática.
O objetivo não é abandonar a ideia de Modelo de Jogo, mas torná-lo mais
funcional, representativo e adaptativo, no intuito de potenciar a relação
perceção-ação, a auto-organização coletiva e a aprendizagem dos jogadores em
contextos próximos da competição.
Repensar os modelos de
jogo tradicionais: para uma abordagem adaptativa do jogo
A crescente complexidade
do rendimento no futebol conduziu ao desenvolvimento dos Modelos de Jogo como
forma de estruturar o jogo em princípios, fases e momentos que orientam a forma
de jogar das equipas (Ribeiro et al., 2019). Apesar da sua ampla utilização, o
conceito permanece pouco consensual na literatura e é frequentemente confundido
com outros, como “estilo de jogo” (Game Style ou Playing Style),
o que pode originar interpretações e aplicações inconsistentes na prática
(Hewitt et al., 2016; Plakias, 2023). Acresce que a adoção de modelos assentes
em tradições históricas ou identidades pouco definidas pode comprometer a sua
adequação às características dos jogadores e às exigências contemporâneas da
competição. A este propósito, o antigo treinador da Premier League inglesa, Sam
Allardyce, recordou a sua passagem pelo West Ham United F.C.:
Assim que fui nomeado treinador, em 2011, instalou-se de
imediato o grande debate sobre se iria seguir a “forma de jogar do West Ham”,
algo que ninguém conseguia definir. Ainda assim, fosse ela qual fosse, diziam
que eu não a praticava. Os adeptos estavam a ser levados a acreditar que,
historicamente, o clube tinha um estilo de jogo muito próprio, semelhante ao do
Barcelona, o que era um completo disparate.
(The Guardian, 2015)
A experiência relatada por
Sam Allardyce evidencia o risco de adotar filosofias de jogo assentes em
tradições ou identidades históricas pouco definidas. O problema não reside na
existência de um Modelo de Jogo, mas na sua eventual desadequação às características
dos jogadores e às exigências competitivas do momento (Tamarit, 2015; Tee et
al., 2018). Nesta perspetiva, a dinâmica ecológica não rejeita a identidade ou
a filosofia de jogo, mas defende que estas devem evoluir em função do contexto
e das necessidades da equipa (Davids et al., 2013; He et al., 2023). Assim, o
Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto rígido de comportamentos
pré-definidos para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a
adaptação contínua dos jogadores e da equipa.
Fundações teóricas
A dinâmica ecológica
assenta em conceitos como os constrangimentos (constraints), as affordances
e o desenho representativo da prática (Representative Learning Design),
que permitem compreender o rendimento no futebol como um fenómeno dinâmico e
auto-organizado, resultante da interação contínua entre jogadores e ambiente
(Araújo & Davids, 2016; Davids et al., 2008; Newell, 1986).
· Compreendendo os constrangimentos
Na perspetiva da dinâmica ecológica, o comportamento dos jogadores emerge da interação entre constrangimentos individuais, da tarefa e do ambiente (Newell, 1986; Davids et al., 2008). Em vez de prescrever soluções táticas, o treinador manipula estes constrangimentos para criar contextos de prática que favoreçam a exploração, a adaptação e a emergência de comportamentos funcionais (Chow et al., 2015; Renshaw & Chow, 2019).
No futebol, esta abordagem
permite compreender o Modelo de Jogo como uma estrutura flexível e dinâmica. A
manipulação de princípios táticos, responsabilidades posicionais, condições de
jogo ou características dos jogadores proporciona a emergência de oportunidades
de ação representativas da competição (Araújo et al., 2022; Pinder et al.,
2011).
· Affordances e comportamento adaptativo
Na perspetiva da dinâmica
ecológica, as affordances correspondem às oportunidades de ação que
emergem da interação entre o jogador e o ambiente e variam em função dos
constrangimentos da tarefa (Araújo & Davids, 2009; Gibson, 1979). Neste
enquadramento, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto de instruções
rígidas para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação
dos jogadores às exigências do jogo, sem deixar de respeitar princípios táticos
comuns. A tomada de decisão passa a assentar na perceção da informação
relevante em cada momento, com base em relações entre perceção e ação que
facilitam a transferência comportamental do treino para a competição (Araújo
& Davids, 2016; Araújo et al., 2017; Button et al., 2021; Jordet et al.,
2020).
·
Desenho
representativo da prática
Na perspetiva da dinâmica
ecológica, o treino deve privilegiar a adaptação às exigências do jogo, em
detrimento da repetição de soluções técnicas ou táticas previamente definidas
(Davids, 2024). Neste âmbito, o Modelo de Jogo orienta a conceção da prática e
as intenções dos jogadores, sem prescrever comportamentos fixos. Por exemplo, um
treino mais direcionado após transições ofensivas não deve assentar apenas na
repetição de contra-ataques previamente ensaiados, mas na criação de tarefas
representativas que desafiem os jogadores a reconhecer e explorar oportunidades
de ação em função do espaço, do tempo e da oposição (Duarte et al., 2012;
Seifert et al., 2014).
·
O feedback do
treinador como desafio à aprendizagem
O feedback do treinador
deve orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante do jogo, em
vez de prescrever soluções ou corrigir erros de forma isolada (Davids et al.,
2008; Correia et al., 2019). Através de questões, desafios ou pistas, o treinador
promove a exploração de diferentes soluções e reforça a capacidade de resolução
de problemas em contextos representativos da competição (Juarrero, 2023; Otte
et al., 2020). Conforme ilustrado na tabela 1, esta abordagem transforma o
feedback num instrumento pedagógico que apoia a aprendizagem e concretiza o
Modelo de Jogo sem limitar a autonomia dos jogadores (Woods et al., 2020).
Tabela 1. Fase de organização ofensiva (construção e finalização):
princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de
Jones et al., 2026).
·
Uma perspetiva
ecológica da análise do desempenho
Tradicionalmente, a análise do desempenho no futebol tem privilegiado indicadores isolados, como a posse de bola, a eficácia de passe ou o número de remates. Embora úteis, estas métricas nem sempre captam a natureza dinâmica e relacional do jogo (Bradley et al., 2014; Sarmento et al., 2022). A perspetiva da dinâmica ecológica propõe uma análise centrada nas interações entre jogadores e contexto, o que permite compreender de que forma os comportamentos táticos emergem durante a competição (Araújo et al., 2022; O'Sullivan et al., 2026).
Desta maneira, indicadores
coletivos como a ocupação do espaço, a sincronia entre jogadores ou a posição
do centroide da equipa podem oferecer informação mais representativa sobre a
coordenação coletiva e apoiar o aperfeiçoamento contínuo do Modelo de Jogo
(Folgado et al., 2014; Frencken et al., 2011).
Para um novo Modelo de Jogo
Com base nos princípios da
dinâmica ecológica, os autores propõem um novo enquadramento conceptual para o
Modelo de Jogo, entendido como um sistema dinâmico de affordances que
emergem da interação contínua entre jogadores, constrangimentos e contexto
competitivo (Araújo et al., 2007; Chow et al., 2015; Renshaw et al., 2019). A
Figura 2 representa o jogo como um fluxo contínuo de momentos interdependentes,
afastando-se da visão tradicional que divide o jogo em fases discretas e
sequenciais.
Figura 2. Representação conceptual do Modelo de Jogo proposto
pelos autores, assente nos princípios da dinâmica ecológica (adaptado de
Wellock et al., 2026).
Neste modelo, os momentos ofensivos, defensivos, de transição e de bola parada encontram-se permanentemente interligados. As transições assumem um papel central, não apenas como mudanças de posse de bola, mas como momentos privilegiados para reorganização coletiva, adaptação comportamental e exploração de novas oportunidades de ação. Os autores designam este espaço central por “Transition Nexus”, definido como um ponto de reajustamento percetivo e atencional perante alterações nas condições do jogo (Correia et al., 2019; Rietveld & Kiverstein, 2014).
O modelo atribui igualmente relevância às intervenções externas, como o feedback do treinador, as decisões da equipa de arbitragem ou as interrupções do jogo, que podem desencadear novos processos de adaptação. Assim, os princípios táticos deixam de constituir comportamentos rígidos previamente definidos para assumirem o papel de constrangimentos facilitadores, capazes de orientar a coordenação coletiva sem comprometer a autonomia dos jogadores (Araújo et al., 2022; Button et al., 2020).
Em síntese, os autores
defendem que o Modelo de Jogo deve evoluir de um conjunto de padrões táticos
prescritos para uma estrutura dinâmica, flexível e adaptativa, capaz de
orientar a perceção, a tomada de decisão e a ação dos jogadores em função das
exigências emergentes da competição. A aprendizagem passa a assentar na criação
de contextos representativos que favoreçam a adaptação contínua dos jogadores
às constantes mudanças do jogo (Araújo et al., 2022; Dann et al., 2024; Morris
et al., 2022).
Conceção de ambientes de
treino representativos para um desempenho adaptativo
Depois de apresentado o enquadramento conceptual, foi proposto um conjunto de orientações práticas para operacionalizar um Modelo de Jogo baseado na dinâmica ecológica. Em termos aplicados, são sugeridas 3 estratégias fundamentais:
1. Conceber tarefas que preservem os principais constrangimentos da competição: os exercícios devem reproduzir os principais problemas que os jogadores enfrentam em competição, por forma a preservar as interações entre jogadores, espaço, tempo e objetivos do jogo (Davids et al., 2017; Duarte et al., 2012; Gray, 2021). Em vez de simplificar excessivamente a tarefa, importa criar contextos que obriguem os jogadores a percecionar informação relevante e a ajustar continuamente o comportamento. Quanto maior for a representatividade da tarefa, maior tenderá a ser a transferência da aprendizagem para a competição.
2. Relacionar os princípios táticos com situações reais de jogo, em vez de sequências previamente definidas: os princípios táticos devem funcionar como referências para orientar o comportamento individual e coletivo, e não como movimentos obrigatórios ou previamente coreografados. O treino deve expor os jogadores a diferentes problemas do jogo para potenciar a descoberta de soluções adaptadas ao contexto. Promove-se, então, a flexibilidade tática, a autonomia na tomada de decisão e a capacidade de resposta perante situações imprevisíveis.
3. Utilizar o feedback para orientar a atenção dos
jogadores para a informação relevante e para as oportunidades de ação, sem
prescrever soluções (Pimenta, 2014): o feedback do treinador deve recorrer
preferencialmente a perguntas, pistas ou desafios que orientem a atenção dos
jogadores para a informação mais relevante da situação de jogo ou da tarefa
(tabela 2). Em vez de indicar exatamente o que fazer, importa ajudar os
jogadores a identificar as oportunidades de ação disponíveis e a compreender as
consequências das suas decisões. Esta estratégia pedagógica fomenta a
aprendizagem, a autonomia e contribui para desenvolver jogadores mais
adaptáveis às exigências da competição (Davids et al., 2022; Jones et al.,
2021).
Tabela 2. Momento de transição defensiva: princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).
Conclusão
O presente artigo propõe uma nova forma de compreender o
Modelo de Jogo no futebol; concebe-o como uma estrutura flexível que orienta a
ação coletiva sem limitar a capacidade de adaptação dos jogadores às exigências
da competição. Segundo a proposta, os princípios táticos deixam de corresponder
a comportamentos rígidos e passam a funcionar como referências comuns para a
tomada de decisão individual e coletiva. Consequentemente, o papel do treinador
também evolui. Para além de definir uma identidade coletiva, importa conceber
ambientes de treino representativos, manipular constrangimentos, orientar a
atenção dos jogadores através do feedback e criar condições que proporcionem a
descoberta de soluções adequadas ao contexto do jogo. Mais do que substituir
modelos tradicionais, esta perspetiva encoraja os treinadores e os clubes a
repensar o Modelo de Jogo como um instrumento ao serviço da aprendizagem, da
adaptação e do rendimento, sem perder a identidade que caracteriza cada equipa.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista International Journal of Performance Analysis
in Sport.
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