29/10/2026

Artigo do mês #82 – outubro 2026 | A utilização dos meios-espaços nas sequências de golo no futebol europeu de elite: uma análise espacial em diversas ligas

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Büyükçelebi, H. & Düz, S.

País: Turquia

Data de publicação: 24-setembro-2026

Título: Half-space involvement in goal-scoring sequences in elite European football: a multi-league spatial analysis

Referência: Büyükçelebi, H. & Düz, S. (2026). Half-space involvement in goal-scoring sequences in elite European football: a multi-league spatial analysis. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, 1–17. Advance online publication. https://doi.org/10.1186/s13102-026-02102-z

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 82 – outubro de 2026.

 

Apresentação do problema

A organização espacial e a ocupação dos diferentes corredores do campo assumem particular importância na análise do futebol de elite. Entre estas zonas, destacam-se os corredores interiores, também designados por meios-espaços (half-spaces), situados entre o corredor central e os corredores laterais, pela sua possível relevância na organização ofensiva e na criação de oportunidades de golo (Bradley et al., 2013; Gonçalves et al., 2017). 

Tradicionalmente, a Zona 14, localizada na região central à entrada da área de grande penalidade, tem sido identificada como uma das zonas mais relevantes para a criação de golos (Taylor et al., 2004). Contudo, os meios-espaços também podem favorecer combinações entre jogadores, incluindo movimentos de terceiro homem, e criar dificuldades à organização defensiva adversária (Rein & Memmert, 2016). A sua ocupação constitui, por isso, um elemento relevante nos modelos de jogo que valorizam o posicionamento e a criação de vantagens espaciais. 

Apesar da investigação existente sobre zonas de finalização, padrões de passe e comportamentos ofensivos, a participação dos corredores interiores nas sequências que resultam em golo permanece pouco esclarecida, sobretudo quando se comparam diferentes ligas europeias. As diferenças entre os estudos, nomeadamente na definição das zonas espaciais e nos procedimentos metodológicos, dificultam a identificação de padrões comuns. 

Neste contexto, o estudo procurou analisar a participação dos meios-espaços nas sequências ofensivas que terminaram em golo, nas 5 principais ligas europeias. A investigação foi orientada por 3 questões: 

1. Distribuição espacial: como se distribuem os golos e as assistências pelos meios-espaços, corredor central e corredores laterais, após considerar as diferenças no número de subcorredores que constituem cada categoria?

2. Relações tático-técnicas: como se relacionam a zona de origem da assistência, o local do golo, o tipo de passe, a técnica de finalização e o contexto tático?

3. Diferenças entre ligas: em que medida variam as distribuições espaciais dos golos e das assistências entre as 5 principais ligas europeias?

 

Métodos

 

·     Amostra e recolha de dados

O estudo adotou um desenho quantitativo, observacional e retrospetivo, de natureza exploratória e descritiva, para analisar a participação dos meios-espaços nas sequências ofensivas que resultaram em golo. A amostra compreendeu 1 826 jogos e 4 647 golos, referentes à época 2021/2022 das 5 principais ligas europeias: Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1. A seleção destas competições teve por base a sua relevância competitiva, económica e internacional, considerando os rankings da UEFA e os valores de mercado disponibilizados pelo Transfermarkt. 

Os vídeos dos jogos e os respetivos dados de eventos foram obtidos através das plataformas InStat Scout e PFSA. As situações de golo e assistência foram posteriormente revistas em vídeo, cabendo à equipa de investigação a classificação espacial e tática de cada ocorrência, de acordo com o sistema de zonas definido para o estudo.

 

·     Variáveis e procedimentos

O campo foi dividido digitalmente em 5 corredores longitudinais, com base nas dimensões regulamentares da UEFA: 2 laterais, 2 interiores (meios-espaços) e 1 central. Os corredores interiores foram definidos como as zonas intermédias entre o corredor central e os laterais, com particular atenção ao terço ofensivo (Rein & Memmert, 2016). Para uma análise espacial mais detalhada, foram ainda delimitadas zonas de assistência e de finalização, incluindo a denominada golden zone, associada à criação e concretização de oportunidades de golo (Figura 2).

 

Figura 2. Divisão longitudinal de um campo de futebol regulamentar, com identificação das zonas táticas.

 

Cada sequência que resultou em golo foi classificada segundo a zona de origem da assistência, a zona de finalização, o tipo de passe (aéreo ou à altura da cintura ou abaixo), o contexto tático (bola corrida ou bola parada) e o número de toques antes da finalização (1, 2 ou 3 ou mais). As situações de bola parada incluíram cantos, livres, penáltis e lançamentos laterais. Quando a equipa atacante recuperou claramente a posse após a ação inicial de bola parada, a sequência foi classificada como bola corrida. 

Para comparar a participação dos diferentes corredores, os autores ajustaram as frequências dos corredores interiores e laterais ao número de corredores que constituíam cada categoria (2), mantendo os valores do corredor central (1). Este ajustamento permitiu uma comparação descritiva, sem representar uma medida de eficiência espacial. Nas análises mais detalhadas, as zonas de assistência e de finalização foram agrupadas em 4 categorias distintas para cada variável, conforme o diagrama apresentado (Figura 2).

 

·     Fiabilidade

Antes da recolha de dados, os 2 observadores realizaram uma fase de treino com uma amostra-piloto de jogos, apoiada por um manual de codificação com definições operacionais e exemplos de classificação. Para avaliar a fiabilidade interobservador, 10% da amostra foi codificada de forma independente por ambos os investigadores. As divergências identificadas foram posteriormente discutidas até se alcançar um consenso. A concordância interobservador foi avaliada através do coeficiente kappa de Cohen, com valores entre 0,79 e 0,95, indicativos de uma concordância substancial a quase perfeita. Estes resultados demonstraram uma elevada consistência na aplicação dos critérios de codificação espacial e tática definidos para o estudo.

 

·     Análise estatística

A análise estatística foi realizada no programa IBM SPSS (versão 23.0). A distribuição dos golos e das assistências pelas diferentes zonas do campo foi descrita através de frequências e percentagens, com ajustamentos ao número de corredores de cada categoria para facilitar a comparação. As relações entre variáveis categóricas foram examinadas através do teste do qui-quadrado de independência, com a magnitude das associações avaliada pelo V de Cramér. 

A análise dos resíduos padronizados ajustados permitiu identificar combinações de categorias com frequências significativamente superiores ou inferiores às esperadas, considerando valores superiores a +1,96 ou inferiores a −1,96, respetivamente. Adotou-se um nível de significância de p < 0,05. Dada a possível dependência entre acontecimentos da mesma equipa, jogo ou competição, os resultados foram interpretados sobretudo numa perspetiva descritiva, sem estabelecer relações causais.

 

Principais resultados

A análise incidiu sobre 4 647 golos registados em 1 826 jogos das 5 principais ligas europeias, na época 2021/2022. Os resultados permitiram identificar padrões espaciais e associações entre as zonas de assistência e finalização, os comportamentos tático-técnicos e o contexto competitivo.

 

·     Distribuição dos golos e das assistências por zona do campo

A distribuição espacial revelou diferenças na frequência de golos e assistências entre os meios-espaços, o corredor central e os corredores laterais. Em termos agregados, os corredores interiores apresentaram a maior proporção de golos entre as 3 categorias representadas, enquanto as assistências tiveram maior expressão nos corredores laterais e central. Contudo, após o ajustamento ao número de corredores de cada categoria, o corredor central apresentou a maior participação relativa, tanto nos golos como nas assistências (Figura 3).


Figura 3. Distribuição dos golos e das assistências pelos corredores interiores, central e laterais, com valores agregados e ajustados ao número de corredores (Büyükçelebi & Düz, 2026). Nota: as percentagens dos golos foram normalizadas apenas para as 3 categorias representadas, não correspondendo à totalidade dos golos analisados.

 

·     Relação entre a zona de assistência e a zona de finalização

Verificou-se uma associação estatisticamente significativa, de magnitude moderada, entre a zona de origem da assistência e a zona de finalização. Destacaram-se duas combinações com frequências superiores às esperadas: assistências da Zona 3 associadas a golos na Zona 3 e assistências provenientes de fora dos meios-espaços para finalizações nesses corredores. Por sua vez, as combinações entre a Zona de Assistência 3 e os meios-espaços, bem como entre zonas exteriores aos meios-espaços e a Zona de Finalização 3, apresentaram frequências inferiores às esperadas (Figura 4).

 

Figura 4. Mapa de calor das frequências observadas face às esperadas nas combinações entre zonas de assistência e finalização (Büyükçelebi & Düz, 2026). Nota: o verde indica frequências superiores às esperadas, o vermelho frequências inferiores e o amarelo valores próximos dos esperados.

 

·     Técnica de finalização e zonas táticas

A técnica de finalização apresentou associações significativas, de magnitude moderada, tanto com a zona de assistência como com a zona de finalização. As finalizações ao primeiro toque foram menos frequentes do que o esperado após assistências provenientes das Zonas 2 e 3, mas mais frequentes após assistências provenientes das zonas exteriores aos meios-espaços. Adicionalmente, as finalizações com 3 ou mais toques destacaram-se após assistências da Zona 3. Relativamente ao local de finalização, as ações ao primeiro toque estiveram sobrerrepresentadas nos meios-espaços, enquanto as finalizações com 3 ou mais toques se destacaram na Zona 3.

 

·     Tipo de passe e zonas táticas

O tipo de passe apresentou uma associação significativa, de magnitude elevada, com a zona de assistência, e moderada com a zona de finalização. Os passes aéreos estiveram sobrerrepresentados nas assistências provenientes de fora dos meios-espaços, enquanto os passes à altura da cintura ou abaixo se destacaram nas Zonas de Assistência 2 e 3. Quanto ao local de finalização, os passes aéreos estiveram associados a uma frequência de golos nos meios-espaços superior à esperada, enquanto os passes à altura da cintura ou abaixo se destacaram na Zona de Finalização 3.

 

·     Contexto tático, técnica de finalização e tipo de passe

Foram identificadas associações significativas, de magnitude elevada, entre o contexto tático e a técnica de finalização, bem como entre o contexto tático e o tipo de passe. As situações de bola parada apresentaram maior representação de finalizações ao primeiro toque e assistências através de passes aéreos. Pelo contrário, nas situações de bola corrida destacaram-se as finalizações com 3 ou mais toques e os passes à altura da cintura ou abaixo.

 

·     Diferenças entre as cinco principais ligas europeias

A distribuição das zonas de finalização não apresentou diferenças estatisticamente significativas entre as 5 ligas analisadas. A distribuição das zonas de assistência revelou uma associação significativa com a competição, embora de magnitude muito reduzida. As diferenças concentraram-se na La Liga, onde as assistências da Zona 1 estiveram sobrerrepresentadas e as da Zona 2 sub-representadas. Globalmente, os resultados não sustentaram a existência de distribuições espaciais claramente distintas entre as ligas, nem permitiram inferir identidades estratégico-táticas específicas de cada competição.

 

Aplicações práticas

Embora o estudo tenha analisado exclusivamente sequências ofensivas que resultaram em golo, as associações identificadas sugerem possíveis implicações para a análise do jogo e para a organização do treino. Sem estabelecer relações causais ou demonstrar a superioridade de determinadas soluções ofensivas, destacam-se 4 aplicações práticas. 

1. Diversificar as ligações entre zonas de assistência e finalização: os resultados evidenciaram diferentes associações espaciais entre a origem do último passe e o local de finalização. No treino, importa proporcionar situações que permitam explorar combinações entre corredores, incluindo os meios-espaços, e diferentes trajetórias de passe. O objetivo não será reproduzir padrões fixos, mas ampliar as soluções ofensivas disponíveis em função da organização adversária. 

2. Contextualizar a técnica de finalização e o tipo de passe: as associações observadas entre zonas do campo, modalidades de passe e número de toques sugerem a importância de diversificar as condições de finalização. As tarefas de treino deverão contemplar diferentes origens de assistência, tipos de passe, posicionamentos e níveis de oposição, de modo a favorecer decisões ajustadas às possibilidades de ação que emergem em cada situação. 

3. Diferenciar as exigências da bola corrida e da bola parada: os resultados revelaram diferenças nas características técnicas das sequências de golo entre os 2 contextos, nomeadamente na maior representação de passes aéreos e finalizações ao primeiro toque nas situações de bola parada. No treino, estas diferenças podem orientar a criação de tarefas específicas, sem limitar as opções dos jogadores a soluções predefinidas. Importa preservar a variabilidade e a necessidade de adaptação às circunstâncias do jogo. 

4. Integrar a análise espacial na avaliação do desempenho ofensivo: a identificação das zonas de assistência e finalização, complementada pelo tipo de passe, técnica de finalização e contexto tático, pode contribuir para compreender os padrões ofensivos das equipas. A utilização de mapas de calor e matrizes de associação constitui uma ferramenta útil para a análise pós-jogo. Contudo, a avaliação da eficácia das diferentes soluções exige considerar também as sequências que não resultaram em golo, evitando conclusões baseadas exclusivamente nas ações bem-sucedidas.

 

Conclusão

O estudo identificou associações entre as zonas de assistência e finalização, o tipo de passe, a técnica de finalização e o contexto tático nas sequências ofensivas que resultaram em golo nas 5 principais ligas europeias. Após o ajustamento ao número de corredores, o corredor central apresentou maior participação relativa do que cada meio-espaço considerado individualmente. Contudo, os resultados devem ser interpretados com prudência, uma vez que a análise incluiu apenas sequências que terminaram em golo, sem considerar as oportunidades de utilização de cada zona. Assim, não é possível concluir que os meios-espaços sejam intrinsecamente mais eficazes. Investigações futuras deverão incluir sequências ofensivas sem sucesso, dados de rastreamento e diferentes contextos competitivos, para aprofundar a compreensão das relações espaciais e tático-técnicas observadas.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation.

30/09/2026

Artigo do mês #81 – setembro 2026 | Tendências temporais do efeito da idade relativa nas 5 principais ligas europeias de futebol masculino, 2000–2025

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Torrent, J. & Rossier, L.

País: Suíça

Data de publicação: 2-setembro-2026

Título: Temporal trends in the relative age effect in five major European men’s football leagues, 2000–2025

Referência: Torrent, J. & Rossier, L. (2026). Temporal trends in the relative age effect in five major European men’s football leagues, 2000–2025. Science and Medicine in Football, 1–17. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24733938.2026.2728065

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 81 – setembro de 2026.

 

Apresentação do problema

 

·     O efeito da idade relativa: conceito e mecanismos explicativos

O efeito da idade relativa (EIR) traduz a sobrerrepresentação, num mesmo escalão etário, de jogadores nascidos nos primeiros meses do período anual de seleção, fenómeno particularmente evidente no futebol (Musch & Grondin, 2001; Cobley et al., 2009). Entre os 10 e os 16 anos, uma diferença cronológica que pode atingir 12 meses associa-se a vantagens ao nível do crescimento, das capacidades físicas e da maturidade psicossocial, por vezes interpretadas como maior talento. Esta vantagem inicial pode reforçar-se através da seleção e permanência em contextos estruturados de treino e de maior atenção dos treinadores, enquanto os jogadores relativamente mais jovens apresentam maior risco de abandono (Cobley et al., 2009; Delorme et al., 2010). Contudo, o EIR resulta da interação entre idade biológica e pressões contextuais de seleção e não constitui uma característica universal do desporto de elite, pelo que deve ser interpretado à luz da estrutura institucional e formativa específica do futebol masculino europeu (Wattie et al., 2015).

 

·     O EIR no futebol profissional de elite: persistência sem atenuação

Embora fosse expectável que o EIR diminuísse no futebol profissional, uma vez ultrapassadas as diferenças maturacionais próprias da formação, a evidência mostra que este permanece entre jogadores de elite (Smith et al., 2018; Dixon et al., 2020). Uma possível explicação reside na filtragem cumulativa ao longo do percurso formativo: os jogadores que chegam ao nível profissional representam os sobreviventes de sucessivos processos de seleção, nos quais a idade relativa pode ter condicionado as oportunidades de progressão (figura 2). Assim, o EIR observado na idade adulta pode traduzir a marca residual dessas etapas de seleção, mais do que diferenças maturacionais atuais (Morgans et al., 2024). Também foram identificadas diferenças segundo a posição de jogo: Salinero et al. (2013) observaram assimetrias na distribuição dos quartis de nascimento entre posições nas 5 principais ligas europeias, enquanto Yagüe et al. (2018) reportaram um EIR comparativamente mais pronunciado entre os médios das ligas europeias mais bem classificadas.

 

Figura 2. Representação ilustrativa da filtragem cumulativa associada ao efeito da idade relativa ao longo do percurso formativo no futebol (imagem não publicada pelos autores).

 

·     A questão temporal: a maior consciencialização produziu mudanças?

Apesar da crescente atenção científica e prática dedicada ao EIR, permanece por esclarecer se esta maior consciencialização resultou numa redução do fenómeno no futebol profissional. Helsen et al. (2012), ao compararem 10 ligas europeias entre 2000/2001 e 2010/2011, não identificaram alterações sistemáticas, com o EIR a manter uma magnitude semelhante ao longo da década. Desde então, o futebol europeu conheceu mudanças relevantes nos processos de formação, entre as quais a criação da UEFA Youth League, a expansão dos sistemas de licenciamento das academias e uma maior divulgação de estratégias como o bio-banding (Cumming et al., 2017). Contudo, permanece por determinar se estas mudanças alteraram a distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento nas principais ligas europeias após 2010/2011.

 

·     O presente estudo

O estudo analisou a evolução do EIR nas 5 principais ligas europeias de futebol masculino ao longo de 25 épocas, entre 2000/2001 e 2024/2025. A amostra incluiu 60 078 registos jogador-época, correspondentes a 14 173 jogadores, e permitiu examinar a magnitude e a evolução temporal do EIR, bem como possíveis diferenças entre ligas, posições e níveis de participação. Os autores procuraram ainda verificar a robustez dos resultados através de diferentes critérios e unidades de análise. Com base na evidência anterior, formularam duas hipóteses: (1) os jogadores nascidos no primeiro trimestre do ano estariam sobrerrepresentados e os do quarto trimestre sub-representados; e (2) o EIR permaneceria observável após 2010/2011, sem evoluir para uma distribuição uniforme dos nascimentos. A forma exata da evolução temporal foi mantida como questão de investigação, sem uma hipótese direcional específica.

 

Métodos

 

·     Fonte de dados e amostra

Os dados foram obtidos através da FBref (www.fbref.com), a partir dos registos públicos de participação em jogos das 5 principais ligas europeias: Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1. Foram analisadas todas as épocas completas entre 2000/2001 e 2024/2025. Em cada época, incluíram-se os jogadores que acumularam pelo menos 90 minutos de utilização na respetiva liga, assegurando uma participação documentada na equipa principal, sem pressupor uma utilização regular. A principal unidade de análise foi o registo jogador-época, pelo que um mesmo jogador poderia contribuir com várias épocas. Numa análise complementar por jogador único, considerou-se apenas a primeira época elegível. Após a limpeza dos dados, a amostra final compreendeu 60 078 registos jogador-época, correspondentes a 14 173 jogadores.

 

·     Extração, tratamento e controlo da qualidade dos dados

Para cada registo jogador-época, foram extraídas informações relativas ao jogador, clube, liga, nacionalidade, época, data e ano de nascimento, posição de jogo, jogos disputados, titularidades e minutos de utilização. Os endereços individuais da FBref permitiram identificar os jogadores ao longo das diferentes épocas. Após a integração dos dados numa única base longitudinal, foram eliminados registos duplicados e uniformizadas as principais variáveis. A partir da data de nascimento determinaram-se o mês e o trimestre de nascimento. As posições de jogo foram agrupadas em 4 categorias: guarda-redes, defesas, médios e avançados. Quando um jogador apresentava mais do que uma posição, considerou-se a primeira como posição principal. Os registos sem posição definida foram excluídos apenas das análises por posição.

 

·     Obtenção e validação das datas de nascimento

As datas de nascimento foram obtidas e validadas através de um procedimento faseado, com recurso a fontes públicas. Numa primeira etapa, os dados em falta foram pesquisados na Wikidata, através dos identificadores individuais da FBref. Nos casos não resolvidos, efetuou-se posteriormente uma pesquisa na Wikidata e na Wikipedia pelo nome do jogador, com verificação do ano de nascimento, profissão e, quando disponível, nacionalidade. A data de nascimento apenas foi aceite quando correspondia a um único resultado compatível, para reduzir o risco de erros na classificação do mês e trimestre de nascimento. A análise final incluiu apenas registos com datas de nascimento válidas e trimestre identificável. Importa salientar que este processo recorreu a bases de dados públicas e não a registos oficiais das federações.

 

·     Classificação da idade relativa

Os jogadores foram distribuídos por trimestres de nascimento, com base na data de corte anual de 1 de janeiro, habitualmente utilizada nos contextos UEFA: Q1 = janeiro–março, Q2 = abril–junho, Q3 = julho–setembro e Q4 = outubro–dezembro. Como alguns jogadores podem ter realizado a formação em países com diferentes datas de corte, foi efetuada uma análise exploratória com base na nacionalidade. Os jogadores associados a contextos com corte a 1 de janeiro (44 091 registos jogador-época) e os restantes (15 987) apresentaram distribuições muito semelhantes (Q1: 30,3% vs. 30,6%; Q4: 20,1% vs. 20,2%). O padrão global não parece, portanto, resultar da inclusão de jogadores provenientes de contextos com outras datas de corte. Contudo, a nacionalidade não permite determinar o percurso formativo nem a data de corte efetivamente aplicada a cada jogador.

 

·     Dimensão da amostra e abordagem analítica

O estudo incluiu todos os registos jogador-época disponíveis que cumpriam os critérios de inclusão, pelo que não foi realizado um cálculo prévio de potência estatística. Face à elevada dimensão amostral, a significância estatística foi interpretada em conjunto com a magnitude dos efeitos, os intervalos de confiança e as análises de sensibilidade, para avaliar também a relevância prática dos resultados.

 

·     Estratégias de análise

As análises examinaram a distribuição dos jogadores por trimestre e mês de nascimento, globalmente e por época, liga e posição. As frequências observadas foram comparadas com distribuições uniformes esperadas (25% por trimestre e 8,33% por mês), através de testes do qui-quadrado, e a magnitude do EIR foi quantificada pelo V de Cramer. Os valores de p foram ajustados para comparações múltiplas pelo método de Benjamini-Hochberg (Benjamini & Hochberg, 1995). 

A evolução temporal do EIR ao longo das 25 épocas foi analisada através de modelos de regressão, com análises de sensibilidade destinadas a testar a robustez dos resultados. Foram ainda examinadas diferenças entre ligas e posições, diferentes limiares de minutos de utilização e o efeito das observações repetidas dos mesmos jogadores. Uma análise exploratória comparou os resultados com dados de natalidade dos 5 países disponibilizados pelo Eurostat. Todas as análises foram realizadas em Python.

 

Principais resultados

Os resultados confirmaram a presença do EIR nas cinco principais ligas europeias, com diferenças ao longo do tempo, entre ligas e posições de jogo, conforme detalhado nas subsecções seguintes.

 

·     Distribuição por trimestre e mês de nascimento

No conjunto dos 60 078 registos jogador-época, os jogadores nascidos no primeiro trimestre (Q1) representaram 30,4% da amostra, enquanto os nascidos no último trimestre (Q4) corresponderam a apenas 20,1%, uma diferença estatisticamente significativa, embora de pequena magnitude. Assim, os jogadores do Q1 estiveram representados cerca de 1,5 vezes mais do que os do Q4. A análise dos 14 173 jogadores únicos apresentou praticamente o mesmo padrão (30,6% vs. 20,5%), o que reforçou a robustez do resultado. A distribuição mensal confirmou esta tendência: janeiro foi o mês mais representado (11,0%) e dezembro o menos representado (6,4%) (Figura 3).

 

Figura 3. Distribuição dos registos jogador-época por trimestre de nascimento nas cinco principais ligas europeias (Torrent & Rossier, 2026).

 

·     Evolução do EIR ao longo das 25 épocas

O EIR aumentou sobretudo durante a primeira parte do período analisado e estabilizou posteriormente. Até 2010 verificou-se uma tendência crescente estatisticamente significativa, enquanto após 2010 não se observou uma alteração significativa. Em termos descritivos, a representação do Q1 passou de 26,4% em 2000/2001 para valores superiores a 30% em várias épocas posteriores, enquanto o Q4 desceu de aproximadamente 24–25% para cerca de 18–20%. Nas épocas mais recentes, a diferença entre os 2 grupos voltou a estreitar-se, o que reforçou a ideia de estabilização, em vez de um aumento contínuo do EIR (Figura 4).

 

Figura 4. Evolução da magnitude do efeito da idade relativa nas cinco principais ligas europeias entre 2000/2001 e 2024/2025 (Torrent & Rossier, 2026).

 

·     Diferenças entre ligas

O EIR foi identificado nas 5 ligas analisadas, ainda que com magnitudes distintas. A Serie A e a La Liga apresentaram os efeitos mais pronunciados, seguidas da Ligue 1 e da Bundesliga, enquanto a Premier League apresentou o efeito de menor magnitude. A evolução temporal também diferiu entre competições: La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1 apresentaram tendências crescentes significativas, ao contrário da Premier League, onde não se verificou uma tendência temporal significativa.

 

·     Diferenças segundo a posição de jogo

O EIR foi estatisticamente significativo nas 4 posições de jogo, mas a sua magnitude variou. O efeito foi mais pronunciado entre os médios, nos quais 32,3% dos registos pertenciam ao Q1 e 19,1% ao Q4, seguidos dos guarda-redes. Defesas e avançados apresentaram efeitos de menor magnitude, embora a sobrerrepresentação dos jogadores nascidos no início do ano também estivesse presente (Figura 5).

 

Figura 5. Distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento segundo a posição de jogo (Torrent & Rossier, 2026).

 

Aplicações práticas

Embora o estudo analise jogadores profissionais e não permita identificar diretamente os mecanismos que originam o EIR, os resultados sugerem implicações relevantes para os processos de identificação, seleção e desenvolvimento de jovens jogadores. Destacam-se 4 aplicações práticas. 

1. Considere a idade relativa nos processos de identificação e seleção: a persistência do EIR no futebol profissional sugere que as assimetrias associadas ao trimestre de nascimento podem acompanhar os jogadores muito para além das etapas de formação. Nos escalões jovens, treinadores e responsáveis pelo recrutamento devem conhecer a idade relativa de cada jogador e evitar interpretar vantagens temporárias de crescimento, maturação ou desempenho como indicadores inequívocos de maior potencial. A data de nascimento não deve determinar a decisão, mas deve fazer parte do contexto em que essa decisão é tomada. 

2. Monitorize o EIR ao longo do percurso formativo, em vez de assumir que o fenómeno se atenua naturalmente: os resultados mostraram um aumento inicial seguido de estabilização, sem evidência de desaparecimento do EIR nas épocas mais recentes. Os clubes, as academias e as escolas de futebol podem acompanhar periodicamente a distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento ao longo das diferentes etapas de formação e nos processos de entrada, permanência e saída do sistema. Esta monitorização pode ajudar a identificar desequilíbrios persistentes e os momentos do percurso em que estes se tornam mais pronunciados. 

3. Evite soluções universais e analise o contexto específico de seleção: a magnitude e a evolução do EIR diferiram entre as 5 ligas analisadas, o que desaconselha a aplicação automática das mesmas interpretações ou medidas em todos os contextos. Os clubes, as academias, as associações e as federações devem começar por caracterizar os seus próprios padrões, tendo em conta o escalão, o modelo competitivo e os processos de recrutamento e seleção, antes de definir eventuais estratégias de intervenção. As diferenças entre ligas não demonstram, por si só, que determinados sistemas formativos sejam mais ou menos enviesados. 

4. Inclua a posição de jogo na monitorização dos processos de seleção: ainda que o EIR esteja presente em todas as posições, foi mais pronunciado entre os médios e os guarda-redes. A distribuição por idade relativa deve, por isso, ser analisada também por posição, sobretudo nas etapas em que ocorre maior especialização funcional. Uma concentração de jogadores relativamente mais velhos numa determinada posição não prova a existência de decisões de seleção enviesadas, mas pode constituir um sinal para rever os critérios utilizados e verificar se características associadas à maturação estão a adquirir peso excessivo.

 

Conclusão

O estudo confirmou que o EIR permanece evidente no futebol profissional europeu, com sobrerrepresentação dos jogadores nascidos no primeiro trimestre do ano. Contudo, a sua evolução ao longo de 25 épocas não revelou um aumento contínuo: o fenómeno intensificou-se sobretudo nos primeiros anos e estabilizou posteriormente, com diferenças relevantes entre ligas e posições de jogo. A persistência deste efeito no nível profissional sugere que as assimetrias associadas à idade relativa podem prolongar-se para além das etapas de formação. Ainda assim, os dados não permitem determinar como ou em que momentos do percurso formativo se estabeleceram estas assimetrias. Investigações futuras deverão acompanhar os jogadores desde a formação até ao futebol profissional, de modo a compreender melhor o contributo dos processos de seleção, recrutamento e desenvolvimento para a persistência do EIR.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.