28/08/2026

Artigo do mês #80 – agosto 2026 | Para além do plano de sessão: planeamento adaptativo nas academias de futebol juvenil

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: McGuire, R., Kilduff, L., Waldron, M., Mcnarry, M., Drawer, S., Buchanan, N., Cropley, B., & Metcalfe, R. S.

País: Reino Unido

Data de publicação: 1-agosto-2026

Título: Beyond the session plan: Adaptive planning in youth football academies

Referência: McGuire, R., Kilduff, L., Waldron, M., Mcnarry, M., Drawer, S., Buchanan, N., Cropley, B., & Metcalfe, R. S. (2026). Beyond the session plan: Adaptive planning in youth football academies. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261470313

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 80 – agosto de 2026.

 

Apresentação do problema

Nas academias de futebol do Reino Unido, os treinadores são responsáveis não apenas pela condução das sessões, mas também pelo planeamento das estruturas de treino e dos programas de desenvolvimento a diferentes escalas temporais. Contudo, a investigação tem incidido sobretudo no conteúdo e na pedagogia das sessões individuais, com menor atenção à forma como os treinadores conceptualizam, organizam e sequenciam o processo de treino a médio e longo prazo (Hornig et al., 2019; O’Connor et al., 2018; Partington & Cushion, 2013). Esta questão assume particular relevância perante a complexidade e a natureza individual do percurso formativo dos jogadores. Perspetivas como a pedagogia não linear, a dinâmica ecológica e a abordagem baseada nos constrangimentos defendem ambientes de aprendizagem representativos, adaptáveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2016; Davids et al., 2008; Renshaw et al., 2019). Estas abordagens pressupõem um planeamento flexível, capaz de responder às necessidades dos jogadores e à informação contextual, embora a sua aplicação prática permaneça variável (Pinder et al., 2011; Renshaw & Chow, 2019). 

Nas academias de futebol, o planeamento procura conciliar as necessidades individuais de desenvolvimento, os programas de formação dos diferentes escalões, os objetivos a longo prazo, a filosofia do clube e as exigências de desempenho (Ford et al., 2011; Williams & Hodges, 2023). Este contexto distingue-se do futebol sénior, onde tendem a prevalecer objetivos estratégico-táticos e de resultado a curto prazo (Cushion et al., 2003; Kinnerk et al., 2023). O desenvolvimento de jovens jogadores exige, por isso, maior flexibilidade na organização do processo. Apesar disso, permanece pouco estudada a forma como esta flexibilidade se concretiza na prática (O’Gorman et al., 2021). 

Os modelos de planeamento descritos na literatura organizam-se habitualmente em ciclos macro (época/clube), meso (bloco/fase) e micro (sessão/escalão). Contudo, esta estrutura hierárquica nem sempre reflete a realidade das academias de futebol, onde os planos devem responder a exigências políticas, organizacionais e interpessoais (Taylor & Garratt, 2010). A investigação neste âmbito demonstra que as orientações previamente estabelecidas não são aplicadas de forma uniforme, mas antes interpretadas, negociadas e adaptadas às características específicas de cada organização (O’Gorman et al., 2021) (Figura 2).

 

Figura 2. Articulação entre teoria e prática no planeamento em academias de futebol (imagem não publicada pelos autores).

 

Não obstante o seu valor teórico, os modelos existentes oferecem orientações limitadas sobre a forma de planear a aprendizagem no quotidiano das academias, onde as prioridades podem alterar-se em função das circunstâncias. Neste contexto, o planeamento adaptativo tem sido proposto como uma abordagem mais funcional, capaz de responder às necessidades emergentes e às particularidades da prática (Abraham & Collins, 2011; Collins & Collins, 2021). Permanece, contudo, pouco claro até que ponto os treinadores adotam estes princípios, de forma consciente ou implícita, e como os operacionalizam. Torna-se, assim, relevante compreender como os próprios treinadores conceptualizam e concretizam o planeamento, quais os fatores que sustentam as suas decisões e de que modo conciliam diferentes exigências ao longo do tempo. 

Face ao exposto, o estudo procurou compreender como treinadores e outros responsáveis técnicos de academias de futebol de formação planeiam o desenvolvimento dos jogadores em diferentes escalas temporais. A análise incidiu sobre a forma como este processo é conceptualizado, estruturado e adaptado nas sessões de treino, em blocos de trabalho e numa perspetiva de desenvolvimento a longo prazo. Através de uma abordagem exploratória centrada na prática, os autores analisaram ainda os principais fatores que orientam as decisões dos treinadores no contexto das academias.

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

O estudo adotou uma abordagem qualitativa, de orientação pragmática, com o propósito de compreender como as decisões relativas ao planeamento e à conceção das sessões são tomadas em contextos reais de treino (Morgan, 2007). Para explorar as experiências e perspetivas dos participantes, realizaram-se entrevistas semiestruturadas, posteriormente examinadas através de análise temática, de modo a identificar e organizar padrões relevantes nos dados (Braun & Clarke, 2006). Esta abordagem privilegiou a obtenção de conhecimento prático e contextualizado sobre a realidade das academias de futebol.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 10 profissionais de academias de futebol juvenil do Reino Unido, selecionados intencionalmente por possuírem responsabilidades diretas no planeamento das sessões ou dos programas de formação. Todos trabalhavam em academias de Categoria 1 ou 2, segundo a classificação do Elite Player Performance Plan (EPPP) da Premier League, ou em estruturas equivalentes, e possuíam, pelo menos, 3 anos de experiência. A amostra incluiu treinadores e responsáveis por diferentes áreas e etapas da formação, com uma experiência média de 12,9 ± 8,7 anos. Esta diversidade permitiu analisar o planeamento tanto ao nível estratégico e organizacional, como na sua aplicação quotidiana no treino.

 

·     Entrevistas

O guião das entrevistas foi desenvolvido com base nos objetivos do estudo e na literatura sobre planeamento, conceção das sessões e desenvolvimento dos jogadores, tendo sido posteriormente testado e ajustado através de uma entrevista-piloto. As entrevistas, de natureza semiestruturada, abordaram 4 áreas: (1) percurso e influências dos treinadores; (2) planeamento das sessões e comportamentos de treino; (3) planeamento em diferentes escalas temporais; e (4) conceção das tarefas segundo o Four Corner Model, que contempla as dimensões tático-técnica, física, psicológica e social do desenvolvimento dos jogadores. As questões abertas permitiram explorar exemplos concretos de adaptação, colaboração e dificuldades no processo de planeamento. Todas as entrevistas foram realizadas através da plataforma Zoom.

 

·     Análise dos dados

Os dados foram examinados através de análise temática, segundo o processo de 6 fases proposto por Braun e Clarke (2006). Adotou-se uma abordagem predominantemente indutiva, na qual os códigos foram identificados a partir dos discursos dos participantes e posteriormente agrupados e refinados em subtemas e temas de ordem superior (Braun & Clarke, 2006, 2021). A análise privilegiou o significado explícito das experiências relatadas, ainda que tenha recorrido a interpretações mais profundas quando necessário. O rigor metodológico foi reforçado através do registo sistemático das decisões analíticas, da reflexão crítica e da discussão das interpretações com especialistas, com o propósito de assegurar a sua coerência e sustentação nos dados (Korstjens & Moser, 2017).

 

Principais resultados

Os resultados foram organizados em 3 temas principais e 6 subtemas, que representam diferentes níveis do processo de planeamento nas academias: (1) planeamento de ordem superior; (2) processo de planeamento; e (3) processo de implementação. No seu conjunto, descrevem como as intenções de desenvolvimento a longo prazo se traduzem em programas estruturados, orientam a conceção das sessões e são posteriormente adaptadas durante a sua aplicação prática.

 

Tema 1 – Planeamento de ordem superior

 

·     Fundamentos e estrutura dos programas de formação

As academias partiram, geralmente, de uma filosofia de jogo comum a todo o clube, posteriormente traduzida em princípios de jogo, modelos de jogo e conteúdos tático-técnicos que orientaram o planeamento a longo prazo e as sessões de treino. Estes conteúdos foram habitualmente organizados em blocos (mesociclos) de 3 a 8 semanas, subdivididos em objetivos semanais. Apesar de esta estrutura fornecer uma orientação comum, coube aos treinadores interpretar e adaptar os princípios às necessidades dos jogadores e ao contexto de treino. Alguns participantes mostraram-se, contudo, críticos perante tarefas excessivamente prescritivas, sobretudo quando estas privilegiaram exercícios analíticos, pouco desafiantes e baseados na repetição. Eis o exemplo de um treinador participante:

 

Quando trabalhava a tempo parcial... tínhamos uma coisa chamada circuito de Anderlecht, que consistia em repetição sem oposição. Era uma m***a. E, se os elementos da equipa técnica a tempo inteiro não estivessem presentes, nós não o fazíamos. Fazíamos algo que permitisse obter os mesmos resultados técnicos, mas com vários outros resultados e com uma melhor conceção da tarefa.

 (Participante 3)

 

·     Processo multidisciplinar

O planeamento do desenvolvimento dos jogadores assumiu um caráter multidisciplinar, com contributos de treinadores, especialistas das ciências do desporto, psicólogos, equipa médica e outros profissionais das academias. Esta colaboração ocorreu sobretudo nos níveis meso e micro, com particular incidência na conceção das sessões e no apoio à competição. Os participantes destacaram a necessidade de articular os objetivos de aprendizagem com aspetos como a carga física, as restrições médicas e as necessidades específicas dos jogadores.

 

·     Foco no desenvolvimento individual

Não obstante o contexto coletivo, os participantes atribuíram grande importância à individualização do desenvolvimento. Os Planos Individuais de Desenvolvimento (PIDs) constituíram a principal ferramenta para articular as necessidades de cada jogador com os objetivos das sessões. Esta integração representou, contudo, um desafio, pelo que os treinadores concentraram habitualmente a intervenção individualizada em 1 a 4 jogadores por sessão. Como explicou um dos participantes:

 

Trata-se de tentar alinhar o desenvolvimento previsto nos PIDs dos jogadores com os objetivos coletivos. É encontrar uma forma de integrar o maior número possível de PIDs sem comprometer o equilíbrio daquilo que se pretende fazer com a equipa.

(Participante 1)

 

Tema 2 – Processo de planeamento

 

·     Elementos de conceção das sessões

Os participantes recorreram a diferentes formas de planeamento formal, desde simples notas ou esquemas até planos digitais, mantendo algum tipo de documento como referência durante as sessões. A conceção das tarefas articulou diversos elementos, como a manipulação do espaço e do número de jogadores, a progressão através dos constrangimentos da tarefa, os objetivos do mesociclo e as necessidades individuais previstas nos PIDs. Os treinadores procuraram ainda equilibrar a representatividade das tarefas com a repetição necessária dos comportamentos pretendidos.

 

·     Four Corner Model (Modelo dos Quatro Cantos da FA Premier League)

O Four Corner Model contempla 4 dimensões do desenvolvimento dos jogadores: tático-técnica, física, psicológica e social. Contudo, os participantes reconheceram que as duas primeiras concentraram a maior parte da atenção no planeamento, enquanto as dimensões psicológica e social tenderam a assumir um papel secundário. A dimensão psicológica nem sempre foi integrada no treino de forma explícita, apesar da importância que os próprios treinadores lhe atribuíram para a progressão dos jogadores. A dimensão social revelou ainda alguma indefinição quanto ao seu propósito e conteúdo, por vezes confundida com aspetos psicológicos ou reduzida à integração e coesão da equipa. Como reconheceu um dos participantes:

 

Um aspeto que eu e outros treinadores deste clube sentimos é que as dimensões social e psicológica são, de certa forma, negligenciadas e provavelmente pensamos nelas em último lugar. Como podemos inverter este modelo de alguma forma? Para ser sincero, não creio que alguma vez consigamos inverter este modelo.

(Participante 10)

 

Tema 3 – Implementação do processo

 

·     Tomada de decisão durante a sessão

Os participantes salientaram a necessidade de conciliar um planeamento detalhado com a capacidade de adaptar a sessão em função do que ocorre no momento. A observação dos comportamentos dos jogadores e das oportunidades de aprendizagem que emergiram orientou estas decisões: quando os objetivos foram alcançados mais cedo do que o previsto, os treinadores tenderam a modificar ou fazer progredir a tarefa; quando as respostas pretendidas não surgiram, mostraram maior propensão para manter a estrutura planeada. Deste modo, o plano funcionou como uma referência, mas não como uma estrutura rígida. Os participantes entenderam a adaptação como parte integrante do próprio processo de planeamento e como uma competência fundamental do treinador. Como explicou um dos participantes:

 

Mais uma vez, tendo sido professor anteriormente, percebi que não devemos, nem podemos, seguir o plano da sessão como se fosse um evangelho. É necessário adaptar, e essa é, em última análise, a competência de um treinador: a forma como nos adaptamos no momento.

(Participante 1)

 

Aplicações práticas

Com base nas experiências e opiniões dos profissionais participantes no estudo, identificámos 4 aplicações práticas relevantes para o planeamento do treino em academias de futebol. No seu conjunto, salientam a importância de conciliar estrutura, individualização e capacidade de adaptação no desenvolvimento dos jovens jogadores. 

1. Utilize os planos como referências, não como guiões rígidos: o planeamento deve estabelecer objetivos, conteúdos e uma estrutura coerente com a filosofia e os princípios de jogo do clube, sem limitar a capacidade de resposta do treinador. Durante a sessão, a observação dos jogadores deve orientar eventuais adaptações às tarefas, sem perder de vista os objetivos definidos. Adaptar não significa abandonar o plano, mas ajustá-lo perante aquilo que emerge no treino. 

2. Reavalie programas excessivamente lineares e tarefas demasiado prescritivas: a organização dos conteúdos em blocos pode conferir estrutura ao desenvolvimento a longo prazo, mas não implica que determinado conteúdo fique concluído após um único período de trabalho. Uma abordagem em espiral, que revisite conteúdos em diferentes momentos e com maior complexidade ou em novos contextos, pode constituir uma alternativa. Embora o trabalho analítico e a repetição técnica possam manter o seu espaço no processo de treino, não deverão assumir maior relevância do que tarefas mais desafiantes, dotadas de maior variabilidade e representativas das exigências da competição. 

3. Integre explicitamente as dimensões psicológica e social no planeamento: se bem que os treinadores tenham valorizado estas componentes, atribuíram-lhes menor atenção formal do que às dimensões tático-técnica e física. Aspetos psicológicos e sociais não devem constituir elementos adicionais ou isolados do treino, mas estar incorporados nas próprias tarefas e nos objetivos de desenvolvimento. Maior clareza sobre o que desenvolver e como operacionalizar estas dimensões poderá reforçar a sua presença no quotidiano. 

4. Desenvolva a capacidade de observar, interpretar e decidir durante a sessão: a adaptabilidade deve ser entendida como uma competência do treinador e não como simples reação ao imprevisto. O planeamento pode antecipar possibilidades de progressão ou ajustamento das tarefas, mas a decisão final deve atender às respostas dos jogadores e às oportunidades de aprendizagem que surgem no contexto. A formação de treinadores deverá, por isso, valorizar não apenas a capacidade de planear, mas também o julgamento situacional e a reflexão durante a ação.

 

Conclusão

O presente estudo evidencia que o planeamento nas academias de futebol constitui um processo dinâmico e organizado em diferentes níveis, no qual as orientações de longo prazo, a estrutura formal das sessões e as decisões tomadas durante o treino se encontram interligadas. Longe de constituir uma hierarquia rígida, este processo combina a filosofia e os programas de formação do clube com as necessidades individuais dos jogadores, o contributo de diferentes áreas profissionais e as exigências que surgem na prática. Os resultados reforçam, assim, a importância de conciliar estrutura e adaptabilidade: os planos estabelecem objetivos e orientam a intervenção, mas devem permitir ajustes perante as respostas dos jogadores e as oportunidades de aprendizagem que aparecem durante as sessões. Por isso, o planeamento não deve ser entendido como mero cumprimento de programas previamente definidos, mas como uma competência dinâmica que exige coordenação, reflexão, julgamento situacional e capacidade de adaptação ao contexto.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

09/08/2026

Motricidade (2026) | Padrões de atividade e exigências físicas de árbitros de futebol portugueses: Um estudo de caso

É com satisfação que partilho mais uma publicação científica para a qual tive a oportunidade de dar um singelo contributo. O artigo “Physical demands and patterns of Portuguese football referees: a case study” foi recentemente publicado online na revista científica Motricidade (Q4; Impact Factor 2024: 0,41; CiteScore 2025: 0,7; Figura 1), embora a respetiva versão final se encontre ainda em produção, estando atualmente disponível apenas o draft do artigo.

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista Motricidade.

 

O trabalho é da autoria de Pedro Miguel (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona), Vítor Carvalho (Universidade Lusófona), Carlos H. Almeida (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona; CIDEFES), Alberto Pompeo (CIDEFES), Marcos Prandi (Universidade Lusófona), Pedro Viana (Universidade Lusófona), Paulo Paixão (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona; Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Beja; SPRINT) e Filipe Casanova (CIDEFES). 

Este trabalho nasceu de um projeto iniciado em setembro de 2024, sob a liderança do Prof. Doutor Filipe Casanova, no âmbito de uma colaboração entre a Universidade Lusófona e a Associação de Futebol de Aveiro, com o propósito de aprofundar o conhecimento sobre as exigências físicas e fisiológicas associadas à arbitragem no futebol português. 

Ainda que o meu envolvimento tenha sido mais limitado do que o de alguns dos restantes coautores, é estimulante ver o trabalho colaborativo desenvolvido ao longo dos últimos 2 anos materializar-se numa publicação científica com potencial para contribuir para um melhor conhecimento das exigências e da preparação física dos árbitros de futebol. 

O estudo procurou caracterizar as exigências físicas externas e internas e os padrões de atividade de árbitros principais e árbitros assistentes, bem como compreender de que forma estas exigências variam em função do papel desempenhado em campo e da categoria competitiva. Para o efeito, foram monitorizados 8 árbitros principais e 7 árbitros assistentes, num total de 98 observações em jogos oficiais, com recurso a dispositivos GPS, monitorização da frequência cardíaca e perceção subjetiva de esforço. 

Os resultados evidenciaram perfis de exigência distintos entre as duas funções. Os árbitros principais percorreram maiores distâncias totais e relativas e acumularam maior distância em corrida de média velocidade, enquanto os árbitros assistentes atingiram velocidades máximas superiores e realizaram mais esforços de corrida a alta velocidade e um maior número de desacelerações. Estes últimos apresentaram também valores superiores de perceção subjetiva de esforço, variável que revelou associações positivas fortes com o número de acelerações e desacelerações. 

Estes resultados reforçam a importância de adequar a preparação física às exigências específicas de cada função. Os árbitros principais necessitam de sustentar maiores volumes de deslocamento em todo o terreno de jogo. Já a preparação dos árbitros assistentes deverá conferir particular atenção aos esforços curtos de alta velocidade e às acelerações e desacelerações frequentes. A conjugação de indicadores de carga externa e interna poderá ainda contribuir para uma melhor individualização do treino, monitorização da carga e gestão dos processos de recuperação. 

Concluo, deixando-vos o resumo original e a referência do trabalho. Espero que vos seja útil:

Abstract

This study quantified the match-related external and internal physical demands and activity patterns of Portuguese Football field referees (FRs) and assistant referees (ARs) across different categories. A total of 8 FRs and 7 ARs were monitored during 98 official competitions using GPS with embedded heart rate sensors, and post-match rate of perceived exertion (RPE) was collected. Descriptive statistics and between-group comparisons were applied to examine differences between roles, and the interrelationship between external and internal loads was explored using Pearson’s correlation. FRs covered substantially more total distance and distance per minute than ARs (7.49 ± 2.47 vs 5.64 ± 1.25 km; 78.68 ± 14.56 vs 55.88 ± 7.78 m·min¹; both p < .001), and accumulated more medium-velocity running, whereas ARs reached higher maximal speeds and performed more high-speed running bouts and decelerations (p ≤ .031). ARs also reported higher perceived exertion than FRs (6.80 ± 0.68 vs 4.23 ± 1.65, p < .001), and RPE showed strong positive correlations with accelerations (r = 0.674, p < .001) and decelerations (r = 0.686, p < .001). Heart rate data from FRs showed most match time spent in low-to-moderate intensity zones, with minimal exposure to very high intensities. The referees were exposed to substantial, role-dependent external and internal loads even in a non-professional regional setting. The distinct demands of FRs and ARs support the need for role- and category-specific conditioning, monitoring and recovery strategies. These findings provide practical benchmarks to inform training prescription, load management and development pathways for football referees.

 

Keywords: Referee role; External load; GPS; Internal load; Rating of perceived exertion.

 

Reference

Miguel, P., Carvalho, V., Almeida, C. H., Pompeo, A., Prandi, M., Viana, P., Paixão, P., & Casanova, F. (2026). Physical demands and patterns of Portuguese football referees: a case study. Motricidade, 22, e40534. https://doi.org/10.6063/motricidade.40534

31/07/2026

Artigo do mês #79 – julho 2026 | Restrições ao número de toques e ao número de jogadores em jogos reduzidos de jovens futebolistas: efeitos nos indicadores físicos e técnicos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 79 -

Autores: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-junho-2026

Título: Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth soccer players: Effects on physical and technical parameters

Referência: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M. (2026). Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth soccer players: Effects on physical and technical parameters. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–14. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261450910

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 79 – julho de 2026.

 

Apresentação do problema

Os jogos reduzidos (JRs) representam uma estratégia amplamente utilizada no treino de futebol, pois permitem desenvolver adaptações fisiológicas, físicas, técnicas e táticas em contextos representativos da competição (Davids et al., 2013; Hill-Haas et al., 2011). A manipulação dos constrangimentos da tarefa, como o número de jogadores ou o número de toques na bola, influencia as oportunidades de ação disponíveis e proporciona diferentes respostas motoras e tático-técnicas (Borges et al., 2022; Renshaw & Chow, 2018). 

O número de jogadores constitui um dos constrangimentos mais estudados nos JRs, uma vez que influencia simultaneamente as exigências físicas e o envolvimento técnico dos praticantes (Clemente & Sarmento, 2020). Quando a área relativa por jogador se mantém constante, os formatos com mais jogadores tendem a aumentar a distância percorrida e as ações de alta intensidade, mas reduzem a frequência de acelerações e desacelerações (Clemente et al., 2025; Hill-Haas et al., 2009). Em contrapartida, formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento individual, o número de contactos com a bola e as oportunidades de decisão, embora também possam elevar a frequência de erros devido à maior pressão temporal e à maior densidade de ações (Clemente et al., 2025; Clemente et al., 2021). Em comparação com os formatos mais amplos, as situações de 2v2 e 3v3 tendem a espoletar mais receções, recuperações, ações ofensivas, passes e posses individuais de bola. 

A limitação do número de toques na bola constitui outro constrangimento frequentemente utilizado nos JRs. Ao reduzir o tempo disponível para decidir e executar, esta condicionante incentiva os jogadores a explorar melhor o espaço, a identificar informação relevante e a adaptar o seu comportamento às exigências do jogo (Coutinho et al., 2022; Rumpf et al., 2025). Em termos ofensivos, a condição de 1 toque (1T) proporciona uma circulação de bola mais rápida, acelera a criação de oportunidades de finalização e modifica os comportamentos táticos das equipas (Carling, 2011; Brito e Sousa et al., 2019). Por este motivo, esta regra constitui um dos constrangimentos mais utilizados nos JRs, com impacto demonstrado nas respostas físicas, técnicas e táticas dos jogadores (Lauria et al., 2024; Rumpf et al., 2025). 

O impacto da manipulação do número de toques parece, contudo, depender do nível dos jogadores. Em jovens futebolistas, o jogo livre (free play – FP) tende a promover maior envolvimento físico, enquanto a restrição de toques aumenta as exigências técnicas sem benefícios consistentes nas ações de alta intensidade (Coutinho et al., 2022). Em jogadores profissionais, estas restrições associam-se frequentemente a maiores distâncias percorridas e a uma maior intensidade de jogo (Lauria et al., 2024; Dellal et al., 2011). Do ponto de vista técnico, limitar o número de toques aumenta a frequência de passes e influencia os padrões de circulação da bola, embora possa reduzir a precisão da execução, sobretudo em jovens futebolistas (Coutinho et al., 2022; Rosten et al., 2025). Em comparação com o jogo livre, jogar a 2 toques (2T) conduz ainda a sequências de posse mais curtas, com maior número de passes e maior participação dos jogadores em cada posse de bola (Almeida et al., 2012). 

Apesar da vasta investigação sobre os efeitos isolados do número de jogadores e da limitação do número de toques, o conhecimento sobre a interação entre os 2 constrangimentos permanece limitado, sobretudo no futebol de formação (Clemente et al., 2025; Lauria et al., 2024). Esta lacuna assume particular relevância, uma vez que estas duas variáveis constituem algumas das estratégias mais utilizadas pelos treinadores para modular simultaneamente a carga de treino e os comportamentos tático-técnicos. Assim, o presente estudo analisou o efeito combinado de diferentes formatos de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e de 3 condições relativas ao número de toques (1T, 2T e FP) nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas.

 

Métodos

 

·     Estudo-piloto e estimativa do tamanho da amostra

Antes da recolha principal dos dados, realizou-se um estudo-piloto com o mesmo protocolo experimental, no qual todos os jogadores realizaram duas repetições de cada combinação entre formato de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e condição relativa ao número de toques (FP, 1T e 2T). A ordem das condições foi aleatória e equilibrada entre sessões. Os dados obtidos permitiram estimar os tamanhos do efeito e a variabilidade das medidas através de modelos lineares generalizados mistos, utilizando a condição 7v7 em jogo livre como referência. 

Com base nos resultados do estudo-piloto, realizou-se uma análise a priori do poder estatístico através de simulações de Monte Carlo (1000 iterações). Os resultados indicaram que uma amostra mínima de 16 jogadores seria suficiente para detetar os efeitos de interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques (poder estatístico = 0,82). O nível de significância foi ajustado através da correção de Bonferroni.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 16 futebolistas masculinos do escalão Sub-15 pertencentes a uma academia alemã de elevado nível competitivo, cuja equipa sénior disputava a 2. Bundesliga. De acordo com a classificação de McKay et al. (2022), os jogadores enquadravam-se no nível “highly trained/national level” (Tier 3). Durante o período de observação, realizaram 4 sessões de treino semanais (90–120 minutos) e disputaram um jogo oficial por semana. Apenas participaram jogadores de campo sem lesões nos 3 meses anteriores ao estudo, tendo sido excluídos os guarda-redes devido às especificidades inerentes à posição.

 

·     Procedimentos

A recolha de dados decorreu ao longo de 6 semanas, durante o período competitivo, com duas sessões semanais separadas por 48 horas de recuperação. Foi utilizado um desenho experimental cruzado (crossover), no qual todos os jogadores participaram em 3 formatos de JRs (3v3, 5v5 e 7v7; Figura 2), combinados com 3 condições relativas ao número de toques na bola: FP, 1T e 2T. A ordem das condições foi randomizada e equilibrada entre sessões, de modo a assegurar que todos os participantes fossem expostos a todas as combinações experimentais.

 

Figura 2. Formatos de JRs utilizados no estudo: a) 3v3; b) 5v5; c) 7v7 (Jäger et al., 2026).

 

Antes de cada sessão, os jogadores realizaram um aquecimento padronizado. Cada formato de jogo compreendeu 4 séries de 3 minutos, intercaladas por 3 minutos de recuperação passiva. Os jogos decorreram em campos com dimensões ajustadas para manter uma área relativa por jogador semelhante entre formatos (215–216 m2/jogador), recorrendo a balizas regulamentares e a regras idênticas às da competição oficial.

 

·     Instrumentação, variáveis físicas e técnica

As respostas físicas e técnicas foram monitorizadas através de unidades de medição inercial (inertial measurement units – IMUs), colocadas nas chuteiras de todos os jogadores durante os JRs. A partir destes dispositivos foram obtidos indicadores físicos como a distância total percorrida, a distância percorrida em alta intensidade, a distância em sprint, a velocidade máxima, o número de sprints, as acelerações e as desacelerações. Do ponto de vista técnico, registaram-se o número de contactos com a bola, ações de distribuição/finalização com bola (passes, cruzamentos ou remates), ações executadas ao primeiro toque e posses individuais de bola. A seleção destas variáveis baseou-se em estudos anteriores realizados com jovens futebolistas (Bergstra et al., 2024; Rumpf et al., 2024).

 

·     Análise estatística

Os resultados foram descritos através de estatística descritiva (média ± desvio-padrão). Para comparar os efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos, os autores recorreram a modelos lineares generalizados mistos, adequados à análise de medidas repetidas (Bates et al., 2015). Sempre que se verificaram diferenças estatisticamente significativas, efetuaram-se comparações post hoc com correção de Bonferroni. Para além da significância estatística (p < 0,05), foi ainda avaliada a relevância prática dos resultados através do tamanho do efeito e de testes de equivalência (Lakens et al., 2018).

 

Principais resultados

Esta secção sintetiza os principais resultados do estudo relativos aos efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas na prática de JRs (Figura 3).

 

·     Interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques

Os resultados demonstraram que o efeito do número de jogadores variou, em algumas variáveis, em função da condição relativa ao número de toques na bola. Esta interação revelou-se significativa na distância percorrida em alta intensidade, na distância percorrida em sprint, no número de sprints, nas desacelerações, nos contactos com a bola e nas ações de libertação da bola.

 

·     Respostas físicas

Os formatos com menos jogadores favoreceram, de forma geral, um maior número de desacelerações, sobretudo nas condições 2T e FP. Em contrapartida, o número de sprints e a distância percorrida em sprint tenderam a aumentar nos formatos com mais jogadores, particularmente na comparação entre 3v3 e 7v7, independentemente da condição relativa ao número de toques. A distância percorrida em alta intensidade apresentou diferenças menos consistentes, destacando-se apenas valores superiores no 5v5 relativamente ao 7v7, na condição 2T.

 

·     Respostas técnicas

Os formatos com menos jogadores proporcionaram um maior número de contactos com a bola em todas as condições relativas ao número de toques. A condição 2T promoveu igualmente mais ações de distribuição da bola e finalização, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos. Por sua vez, o número de posses individuais de bola e as ações executadas ao primeiro toque mantiveram-se relativamente estáveis entre os diferentes formatos e condições experimentais.

 

Figura 3. Síntese gráfica dos principais resultados obtidos por Jäger et al. (2026).

 

Aplicações práticas

As aplicações práticas apresentadas de seguida decorrem diretamente dos resultados obtidos no estudo e podem auxiliar os treinadores na manipulação dos constrangimentos da tarefa em situações de JR. Ei-las:

 

1. A manipulação simultânea dos constrangimentos produz efeitos distintos: o efeito do número de jogadores depende, em várias variáveis, da limitação do número de toques. Por isso, estas duas variáveis não devem ser planeadas de forma isolada, mas sim em conjunto, de acordo com o objetivo específico da sessão de treino. 

2. Utilize formatos reduzidos para aumentar o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares: os formatos com menos jogadores (3v3) proporcionam maior participação individual no jogo, traduzindo-se num maior número de contactos com a bola. Adicionalmente, tendem a aumentar as ações de aceleração e desaceleração, o que aumenta as exigências neuromusculares específicas da modalidade. Sempre que o objetivo passe por potenciar o envolvimento técnico e estimular ações associadas à força específica do futebol, os formatos reduzidos parecem constituir uma opção mais adequada. 

3. Recorra a formatos mais amplos para estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade: os formatos com mais jogadores (7v7) tendem a aumentar o número de sprints e a distância percorrida em sprint. Além disso, em determinadas condições, observaram-se maiores distâncias percorridas em alta intensidade. Assim, quando o objetivo consiste em estimular ações locomotoras de elevada velocidade em contexto representativo, os formatos mais amplos parecem constituir uma opção adequada. 

4. A limitação a 2 toques pode acelerar a circulação da bola: a condição 2T esteve associada a um maior número de ações de libertação da bola, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos de jogo. Esta regra poderá, por isso, constituir uma estratégia útil para promover uma circulação de bola mais rápida e reduzir o tempo disponível para a tomada de decisão, sobretudo quando combinada com formatos de jogo criteriosamente definidos.

 

Conclusão

O presente estudo demonstra que a combinação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques constitui uma estratégia eficaz para ajustar as exigências físicas e técnicas dos JRs em jovens futebolistas. Os formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares, enquanto os formatos mais amplos tendem a estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade. A regra dos 2T pode ainda potenciar as ações de libertação da bola, embora o seu efeito dependa do formato de jogo utilizado. Estes resultados reforçam a importância de planear os JRs de forma integrada, considerando simultaneamente os diferentes constrangimentos da tarefa. Mais do que opções metodológicas isoladas, o número de jogadores e a limitação do número de toques constituem ferramentas complementares que permitem aos treinadores adequar o treino aos objetivos específicos de cada sessão.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.