29/03/2026

Artigo do mês #75 – março 2026 | Para onde direcionar o penálti no futebol? Equilíbrio entre estratégia e execução

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B.

País: Dinamarca

Data de publicação: 10-março-2026

Título: Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution

Referência: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B. (2026). Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution. Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology, 1–6. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/1754337126142456

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 75 – março de 2026.

 

Apresentação do problema

Os pontapés de penálti – remates diretos a partir da marca dos 11 metros, apenas com o guarda-redes pela frente – constituem momentos decisivos no futebol e apresentam taxas de conversão elevadas: cerca de 78% em jogo corrido e entre 69% e 77% em desempates por grandes penalidades (Pipke, 2025; Van Hemert & Van Der Kamp, 2025). Apesar da sua aparente simplicidade, o seu sucesso depende de múltiplos fatores. 

A atenção visual e o foco no guarda-redes influenciam o resultado, podendo aumentar a probabilidade de defesa por parte do guarda-redes (Furley et al., 2017). O stress associado ao momento afeta a execução e o controlo motor (Jordet & Elferink-Gemser, 2012). Ao nível estratégico, as abordagens dependente e independente do guarda-redes apresentam eficácia semelhante (Noël et al., 2015). Fatores contextuais, como a experiência do jogador, o estado do jogo e o momento da partida, também condicionam o desempenho, com melhores resultados em jogadores experientes e em situações de jogo equilibrado (Jamil et al., 2020). No conjunto, o sucesso nos penáltis resulta da interação entre fatores cognitivos, emocionais, estratégicos e contextuais. 

As taxas de sucesso variam em função da zona da baliza visada, com remates colocados em zonas altas e afastadas do guarda-redes a apresentarem maior probabilidade de golo (figura 2), dada a dificuldade destes em alcançar essas zonas (Almeida et al., 2016; Almeida & Vossovitch, 2023). Por oposição, remates ao centro comportam maior risco quando o guarda-redes antecipa corretamente a trajetória (Bar-Eli & Azar, 2009). Contudo, a aplicação prática destas probabilidades não é direta, uma vez que a colocação real da bola nem sempre corresponde ao alvo pretendido (Hunter et al., 2018). Esta variabilidade introduz incerteza e coloca em causa decisões baseadas exclusivamente na zona ideal de finalização (Hunter et al., 2022).



 Figura 2. Os cantos superiores da baliza têm sido frequentemente referidos como zonas ótimas de remate na conversão de grandes penalidades (fonte: www.vsports.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

No futebol jovem, importa considerar as características específicas dos jogadores. Embora a precisão de remate se mantenha relativamente estável entre escalões, a velocidade de remate aumenta com a idade (Vieira et al., 2018; Hunter et al., 2022). Em simultâneo, o alcance dos guarda-redes também aumenta, o que eleva as exigências de colocação em idades mais avançadas. Neste contexto, torna-se pertinente compreender qual a zona ótima de remate em função da variabilidade da execução. O presente estudo procurou articular probabilidades de sucesso com a dispersão do remate, com o objetivo de fornecer orientações mais ajustadas à realidade do jogo.

 

Métodos

 

·     Visão conceptual

O estudo combinou dados observacionais e laboratoriais para estimar a probabilidade de golo em função da zona de remate. Primeiro, determinaram-se probabilidades de golo por zona da baliza com base em dados reais. Em seguida, modelou-se a variabilidade da colocação do remate em torno de um ponto-alvo. Por fim, integraram-se ambas as componentes para simular a probabilidade de sucesso em diferentes zonas da baliza e sob diferentes níveis de variabilidade.

 

·     Taxa de conversão por zonas da baliza

Foram analisados 4299 penáltis em competições jovens dinamarquesas, com registo da localização do remate e do seu resultado (Noe & Porse, 2024). A baliza foi dividida em 15 zonas e os remates de jogadores esquerdinos foram espelhados (Pereira & Patching, 2021). Os resultados, apresentados na Figura 3, evidenciaram maior eficácia nos cantos superiores e menor nas zonas centrais (80,3%), com uma taxa global de conversão de 76,8%.

 

Figura 3. Percentagens de golo em diferentes zonas da baliza, calculadas a partir de 4299 penáltis observados (adaptado de Noe & Porse, 2024, excluindo remates que não atingiram a baliza). A baliza é apresentada na perspetiva do marcador do penálti (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Distribuição bivariada dos remates

Foram avaliados 53 jogadores de uma academia de elite (Sub-15 a Sub-19), em contexto laboratorial, com consentimento informado e aprovação ética. A velocidade máxima da bola foi medida em remates a 11 m com radar Doppler. A precisão foi analisada apenas com o pé dominante, através de 20 remates por jogador, realizados em 2 dias, com a bola em movimento e a uma intensidade mínima de 75% da velocidade máxima (Radman et al., 2016). A localização dos remates foi registada com um sistema de duas câmaras em relação a um alvo fixo. 

Com base nestes dados, foi calculada uma distribuição bivariada da colocação do remate, representada por uma elipse de confiança de 95%. Os remates de esquerdinos foram espelhados (Hunter et al., 2018). A variabilidade foi analisada para o conjunto total de jogadores, bem como para subgrupos com menor e maior dispersão dos remates.

 

·     Taxa de conversão em função da direção do remate

A probabilidade de golo foi estimada com recurso a simulação de Monte Carlo (Press, 1992), com base na distribuição bivariada da precisão do remate. Foram simulados 10000 remates para cada ponto da baliza (200 x 50). A eficácia de cada ponto de remate resultou da média das probabilidades de sucesso dos remates simulados, tendo em conta se a bola entrou ou não na baliza e a respetiva zona de finalização. Um exemplo de simulação é apresentado na Figura 4.

  

Figura 4. Exemplo de 1000 remates simulados dirigidos junto ao canto superior esquerdo da baliza. Os remates foram gerados com base na distribuição bivariada obtida nos testes laboratoriais. A baliza é representada por linhas pretas (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Variação do ângulo da elipse

A orientação da elipse da distribuição bivariada varia em função dos padrões individuais de remate. Para simular diferentes perfis de execução, o ângulo da elipse foi ajustado entre 0º (horizontal) e 90º (vertical). Para cada configuração, foi calculada a taxa de conversão na baliza com base no procedimento descrito anteriormente.

 

Principais resultados

Esta secção apresenta os principais resultados do estudo, com foco na identificação das zonas ótimas de remate em grandes penalidades. Em particular, sintetizam-se os dados relativos à probabilidade de golo em função da localização do remate, da variabilidade da execução e da orientação da dispersão dos remates.

 

·     Taxa máxima de conversão (variação média)

A probabilidade máxima de golo foi de 78,4%, obtida com remates direcionados para uma zona lateral intermédia da baliza, a cerca de 2,26 m do centro e 1,22 m de altura (Figura 5).

 

Figura 5. Taxas de conversão de golo na baliza, representada por linhas pretas. A taxa máxima está assinalada e marcada com um círculo. As linhas, bem como as respetivas percentagens, correspondem a isolinhas. Esta distribuição baseia-se na média de todos os jogadores (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Influência da precisão do remate

Jogadores com menor variabilidade (maior precisão) devem visar zonas mais afastadas do guarda-redes e ligeiramente mais altas, atingindo taxas de conversão até 86,2%. Jogadores com maior variabilidade beneficiam de alvos mais próximos do guarda-redes e mais baixos, com uma taxa máxima de 75,3%.

 

·     Efeito da orientação da variabilidade

A localização ótima do remate varia com a orientação da dispersão dos remates: (i) distribuição horizontal: alvo ótimo mais elevado e central; (ii) distribuição vertical: alvo ótimo mais baixo e lateral.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam que a eficácia nos pontapés de penálti depende da interação entre a zona visada e a capacidade individual de execução. Esta relação tem implicações diretas para o treino e para a definição de estratégias de finalização. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas técnicas:

 

1. Ajustar a zona de remate ao perfil individual de precisão: o local ótimo de finalização não é universal. Jogadores mais precisos beneficiam de alvos mais afastados e elevados (zonas de maior rendimento), enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados ao visar zonas mais centrais e seguras. A definição da estratégia deve considerar o perfil de consistência de cada jogador. 

2. Integrar a variabilidade de execução na decisão do remate: a escolha da zona de remate deve equilibrar probabilidade teórica de sucesso e capacidade real de execução. Estratégias baseadas apenas em zonas “ótimas” ignoram a dispersão do remate. A decisão deve refletir a probabilidade de acertar no alvo pretendido, e não apenas a eficácia dessa zona. 

3. Caracterizar padrões individuais de dispersão do remate: a orientação da variabilidade (horizontal ou vertical) influencia a zona mais eficaz de finalização. Fatores técnicos e biomecânicos moldam estes padrões, pelo que a sua análise permite identificar tendências individuais e informar a definição da estratégia de remate. 

4. Estruturar o treino de penáltis em contexto específico e representativo: a prática regular de grandes penalidades é essencial para consolidar estratégias eficazes de execução. O treino deve incluir diferentes zonas de remate, variações de colocação e manipulação de constrangimentos técnicos (p. ex., posicionamento do corpo e apoio), de forma a estabilizar a dispersão do remate e melhorar a tomada de decisão em contexto competitivo.

 

Conclusão

A estratégia ótima de penálti não depende apenas das zonas com maior probabilidade de golo, mas sobretudo da variabilidade individual de execução. Jogadores mais regulares beneficiam de alvos mais arriscados, enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados em zonas centrais. A orientação da dispersão do remate também influencia o ponto ótimo de finalização. Estes resultados sustentam a necessidade de individualizar a estratégia e o treino de penáltis em função das características de cada jogador.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology.

27/02/2026

Artigo do mês #74 – fevereiro 2026 | Lateralidade podal no futebol internacional masculino: a sua associação com a seleção e a progressão

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Morganti, G., Kelly, A. L., Tufo, F., Ungureanu, A. N., Lupo, C., Li Volsi, D., Ruscello, B., McAuley, A. B. T., Verbeek, J., & Brustio, P. R.

País: Itália

Data de publicação: 6-fevereiro-2026

Título: Footedness in male international football: Its association with selection and progression

Referência: Morganti, G., Kelly, A. L., Tufo, F., Ungureanu, A. N., Lupo, C., Li Volsi, D., Ruscello, B., McAuley, A. B. T., Verbeek, J., & Brustio, P. R. (2026). Footedness in male international football: Its association with selection and progression. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261418576

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 74 – fevereiro de 2026.

 

Apresentação do problema

A lateralidade traduz a preferência humana pelo uso de um dos lados do corpo na execução de ações específicas, sendo a preferência de pé (footedness) um dos seus principais indicadores comportamentais (Grouios et al., 2002). Embora a maioria da população tenha sido descrita como destra em termos podais, com apenas 14,4–17,7% de indivíduos esquerdinos (Packheiser et al., 2020), o futebol tem apresentado um padrão distinto. Estudos realizados em competições internacionais e ligas profissionais revelaram uma sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos, com valores entre 22% e 23,5% ao mais alto nível competitivo (Carey et al., 2001, 2009; Marcori et al., 2021). Em contextos de seleção nacional jovem, a proporção de esquerdinos atingiu 28–32%, o que sugere maior probabilidade de acesso ao percurso de alto rendimento (Verbeek et al., 2017). Evidência adicional indicou ainda que jogadores esquerdinos auferiram, em média, salários superiores nas principais ligas europeias, o que apontou para uma possível associação entre lateralidade e sucesso desportivo (Bryson et al., 2013). 

Investigações realizadas no futebol evidenciaram uma acentuada assimetria funcional no jogo, com predomínio claro do pé preferido e diferenças de desempenho entre o uso do pé dominante e não dominante (Carey et al., 2001, 2009; Marcori et al., 2021; Stöckel & Carey, 2016). Neste contexto, as exigências tático-técnicas e a pressão espaciotemporal do jogo podem favorecer vantagens específicas associadas à lateralidade, sobretudo em posições que requerem orientação corporal e execução com um determinado pé (Verbeek et al., 2017; Kelly et al., 2024; Akpınar & Bicer, 2014). A ocupação de zonas específicas do campo, como os corredores laterais defensivos ou ofensivos, tende assim a corresponder ao pé preferido, podendo a presença de jogadores esquerdinos responder a necessidades táticas particulares, como no caso de defesas centrais ou laterais do lado esquerdo (Kelly et al., 2024; Akpınar & Bicer, 2014). Neste sentido, a lateralidade pode influenciar não apenas a disposição tática e a tomada de decisão em jogo, mas também as experiências de desenvolvimento dos jogadores e a sua especialização posicional ao longo do percurso formativo (Kelly et al., 2024).

 

Figura 2. A lateralidade no futebol: Lionel Messi como exemplo de excelência (fonte: www.cfclassics.co; imagem não publicada pelos autores).

 

A identificação e o desenvolvimento de talento no futebol assentam em múltiplos critérios, incluindo o desempenho atual, frequentemente utilizado como indicador do potencial futuro, bem como atitudes, dedicação e adequação às exigências e à filosofia das organizações (Ford et al., 2020; Champ et al., 2018; Hem et al., 2022; Barraclough et al., 2024; Reeves & Roberts, 2019; Bergkamp et al., 2024). Estudos longitudinais demonstraram ainda que apenas uma reduzida proporção de jogadores jovens alcança o futebol profissional de elite ou o nível internacional sénior, o que evidencia a existência de taxas de transição particularmente baixas ao longo do percurso formativo (Boccia et al., 2023; Brustio et al., 2023, 2024). Estes dados suportam a necessidade de compreender que características individuais podem influenciar de forma sistemática a progressão no sistema de formação. Além disso, perspetivas teóricas recentes sugerem que a seleção desportiva pode favorecer jogadores com desempenho superior ou com atributos raros que respondam a expectativas e necessidades específicas de treinadores e organizações (Schorer et al., 2016; Baker et al., 2022). 

Posto isto, a menor prevalência de jogadores esquerdinos na população geral pode traduzir-se em vantagens de seleção e progressão no futebol de formação e alto rendimento (Packheiser et al., 2020; Verbeek et al., 2017; Kelly et al., 2024). A raridade relativa desta característica pode conferir benefícios associados ao desempenho em zonas específicas do campo e às exigências tático-técnicas das equipas e pode representar uma vantagem de “sobrevivência” e de “atração” no processo seletivo (Baker et al., 2022). Torna-se, assim, pertinente analisar de que forma a preferência de pé se relaciona com o acesso aos percursos nacionais de talento, a especialização posicional e a progressão até ao nível sénior nas principais academias europeias. Importa, ainda, clarificar o papel potencial da lateralidade nas trajetórias de desenvolvimento e no sucesso desportivo.

 

Métodos

 

·     Recolha de dados

Foram analisados dados de futebolistas convocados para as seleções nacionais jovens (Sub-17, Sub-19 e Sub-21) e seniores de Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, entre 2002 e 2022. A informação foi recolhida a partir da base de dados pública Transfermarkt (https://www.transfermarkt.com) Foram incluídos apenas jogadores com participação em pelo menos um jogo oficial pela respetiva seleção, tendo os guarda-redes sido excluídos por não apresentarem constrangimentos posicionais relevantes associados à preferência de pé. 

Para cada jogador, recolheram-se dados relativos à posição em campo e à lateralidade, sendo os atletas classificados como defesas, médios ou avançados. Cada jogador foi contabilizado apenas uma vez por escalão etário, embora pudesse surgir em diferentes escalões ao longo do tempo. A preferência de pé foi categorizada como destro, esquerdino ou ambidestro; contudo, apenas destros e esquerdinos foram considerados nas análises principais, excluindo-se os ambidestros. A amostra final integrou 7507 jogadores.

 

·     Procedimentos e análise estatística: Parte 1 – lateralidade podal e posição de jogo

A distribuição observada da lateralidade em cada escalão etário foi comparada com a distribuição esperada na população geral (85% destros; 15% esquerdinos), através de testes do qui-quadrado (χ²) de ajustamento. Aplicaram-se ainda testes do qui-quadrado de independência para examinar a associação entre lateralidade e posição. Para interpretar a magnitude e a direção das associações significativas, calcularam-se o tamanho do efeito (Cramer’s V) e os rácios de probabilidade (odds ratio – OR), com intervalos de confiança a 95%. O Cramer’s V foi interpretado como fraco (<0,14), moderado (0,15–0,24) ou forte (>0,25). Os ORs cujos intervalos de confiança incluíram 1 foram considerados indicativos de ausência de associação. 

As análises foram realizadas separadamente por escalão etário, o que garantiu a independência dentro de cada teste. A comparação entre escalões exige, contudo, cautela, uma vez que alguns jogadores puderam integrar mais do que uma categoria ao longo do período analisado.

 

·     Procedimentos e análise estatística: Parte 2 – transição do futebol juvenil para o escalão sénior e preferência podal dos jogadores

A Parte 2 analisou as taxas de transição e de não transição do percurso jovem para o escalão sénior, com base numa subamostra de 2975 jogadores nascidos entre 1985 e 1998. Este intervalo foi definido para garantir cobertura completa dos percursos Sub-17, Sub-19 e Sub-21 no período 2002–2022 e tempo suficiente para eventual transição ao nível sénior. O termo “não transição” refere-se exclusivamente à ausência de convocatória para a seleção sénior. 

As taxas foram calculadas de forma prospetiva (proporção de jogadores jovens que alcançaram ou não a seleção sénior) e retrospetiva (percurso jovem dos jogadores que alcançaram ou não o nível sénior). As análises consideraram diferentes trajetórias de desenvolvimento: percursos simples (apenas Sub-17, Sub-19 ou Sub-21), percursos combinados envolvendo 2 escalões e percursos completos (Sub-17, Sub-19 e Sub-21), bem como casos de acesso direto à seleção sénior. 

Além disso, as taxas foram estimadas para o total da amostra e separadamente por preferência de pé, incluindo estratificação por posição (defesas, médios e avançados). Calcularam-se os ORs com intervalos de confiança a 95%, comparando esquerdinos (grupo de referência) e destros. Aplicou-se correção de continuidade quando necessário. O nível de significância foi fixado em α = 0,05.

 

Principais resultados

Esta secção apresenta os resultados organizados de acordo com os principais eixos de análise do estudo. Em seguida, sintetizam-se os dados mais relevantes relativos à distribuição da lateralidade, à sua relação com a posição em campo e às taxas de transição do percurso jovem para o nível sénior.

 

Parte 1 – Lateralidade e posição em campo

 

·     Sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos

Em todos os escalões (Sub-17, Sub-19, Sub-21 e Sénior), a proporção de esquerdinos (26,6–29,7%) foi significativamente superior à esperada na população geral (~15%). A probabilidade de seleção para competições internacionais foi cerca de duas vezes superior para esquerdinos (OR = 2,06–2,41).

 

·     Associação entre lateralidade e posição

Verificou-se associação estatisticamente significativa entre preferência de pé e posição em todos os escalões (efeitos fracos a moderados).

 

·     Maior presença de esquerdinos na defesa

Jogadores esquerdinos foram recrutados com maior frequência como defesas (OR = 1,70–1,98).

 

·     Menor presença de esquerdinos no meio-campo e ataque

Esquerdinos surgiram com menor probabilidade como médios (OR = 0,56–0,62) e avançados (OR = 0,71–0,91).

 

Parte 2 – Transição futebol juvenil para futebol sénior e lateralidade

 

·     Baixas taxas globais de transição

Apenas uma fração limitada dos jogadores das seleções jovens atingiu a seleção sénior. Nos percursos diretos, as taxas de transição variaram entre 0% e cerca de 26%, enquanto nos percursos combinados se situaram, em geral, abaixo dos 15%, podendo aproximar-se dos 26% em alguns casos específicos. As probabilidades de transição aumentaram com a idade e foram mais elevadas a partir do escalão Sub-21.

 

·     Elevadas taxas de não transição

Independentemente do percurso (simples ou combinado), a maioria dos jogadores não atingiu o nível sénior.

 

·     Sem vantagem sistemática associada à lateralidade

Independentemente do tipo de percurso formativo, a maioria dos jogadores não alcançou a seleção sénior. As taxas de não transição oscilaram, de forma geral, entre cerca de 40% e 80%, com valores mais elevados nos percursos iniciados em escalões mais jovens.

 

·     Acesso direto à seleção sénior

Uma proporção relevante de jogadores integrou a seleção sénior sem percurso prévio nas seleções jovens (16,8% destros; 21,3% esquerdinos).

 

·     Consistência entre análises prospetiva e retrospetiva

Ambas confirmaram que apenas uma minoria atinge o nível sénior e que a preferência de pé não confere vantagem clara na transição (figura 3).

 

Figura 3. Probabilidades de transição para a seleção sénior (taxas de transição/não transição) para cada combinação possível de percurso, comparando jogadores destros e esquerdinos. (Morganti et al., 2026).

 

Aplicações práticas

Os resultados indicam que a lateralidade influencia os processos iniciais de seleção e a distribuição posicional dos jogadores, mas não determina a progressão até ao nível sénior. Os dados oferecem orientações relevantes para a gestão do talento no futebol de formação e de alto rendimento. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas para enquadramento técnico e estratégico:

 

1. Integrar a lateralidade na definição de perfis posicionais e no recrutamento inicial: a sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos e a sua maior presença em funções defensivas indicam que a lateralidade responde a exigências tático-posicionais concretas. A identificação de jogadores em função da sua lateralidade deve apoiar a construção equilibrada do plantel e responder às necessidades funcionais de cada posição. 

2. Estimular a competência bilateral sem ignorar a especialização funcional: apesar do predomínio do pé preferido no jogo, a melhoria do pé não dominante pode ampliar opções táticas e reduzir a previsibilidade. O treino deve promover a versatilidade técnica e tática, de forma a potenciar soluções de jogo complementares à lateralidade dominante. 

3. Evitar a sobrevalorização da lateralidade na progressão a longo prazo: ainda que possa favorecer a entrada no sistema de seleção, a preferência podal não aumentou a probabilidade de transição para a seleção sénior. As decisões de progressão devem assentar no desempenho sustentado e no desenvolvimento global do jogador, não apenas na raridade ou prevalência do pé dominante. 

4. Valorizar percursos formativos consistentes e prolongados: a maioria dos jogadores não alcança o nível sénior, sendo as transições mais prováveis em indivíduos que entram mais tarde (Sub-21) ou que mantêm desempenho elevado ao longo de vários escalões. A gestão do talento deve privilegiar a continuidade do desenvolvimento e a monitorização longitudinal, de maneira a prevenir decisões precipitadas em fases precoces do percurso formativo.

 

Conclusão

Este estudo evidenciou uma sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos no futebol internacional europeu, tanto nos escalões jovens como no nível sénior, bem como diferenças na sua distribuição posicional: destros mais frequentes no meio-campo e ataque, esquerdinos mais presentes na defesa. Contudo, após a entrada no sistema de seleções jovens, a lateralidade não influenciou de forma significativa a probabilidade de transição para a seleção sénior. As taxas de progressão revelaram-se globalmente reduzidas, ainda que aumentassem com a idade e com a entrada em fases mais tardias do percurso internacional, sobretudo ao nível dos Sub-21. Os resultados demonstram que o desempenho em escalões jovens, por si só, não garante a chegada ao nível sénior e que a progressão no futebol de alto rendimento depende de múltiplos fatores para além da preferência podal. A lateralidade pode influenciar a seleção inicial e a especialização posicional, mas não determina o sucesso a longo prazo.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

29/01/2026

Artigo do mês #73 – janeiro 2026 | Jogadores rápidos mantêm-se rápidos e jogadores lentos mantêm-se lentos? Evolução da velocidade máxima de sprint dos Sub-12 aos Sub-19

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S.

País: Alemanha

Data de publicação: 7-janeiro-2026

Título: “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period

Referência: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S. (2026). “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–10. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541251410449

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 73 – janeiro de 2026.

 

Apresentação do problema

O futebol é uma modalidade altamente exigente, na qual ações de elevada intensidade, como o sprint, são determinantes para o desempenho competitivo (Haugen et al., 2014). O sprint linear assume particular relevância em episódios decisivos do jogo, nomeadamente em situações de finalização (Faude et al., 2012). Por essa razão, a avaliação do desempenho em sprint constitui uma prática consolidada em contextos de alto rendimento, permitindo distinguir componentes-chave como a aceleração e a velocidade máxima de sprint (maximal sprinting speed – MSS) (Haugen & Buchheit, 2016; Altmann et al., 2019). Nos últimos anos, a MSS afirmou-se como uma das métricas centrais na investigação aplicada ao futebol (Thron et al., 2024). 

Este protagonismo decorre, em grande parte, da facilidade com que a MSS pode ser avaliada em contexto de treino, viabilizada pelos avanços tecnológicos associados aos sistemas de navegação global por satélite (Altmann et al., 2024). Ao contrário das velocidades observadas em competição, frequentemente condicionadas por fatores estratégico-táticos, o treino oferece condições mais controladas para a expressão de velocidades máximas, favorecendo a monitorização regular do desenvolvimento da velocidade (Al Haddad et al., 2015). Acresce que a MSS apresenta menor suscetibilidade a erros de medição do que indicadores baseados em tempos parciais muito curtos, o que reforça a sua robustez para fins científicos e práticos (Altmann et al., 2018). 

No futebol jovem, a MSS é amplamente valorizada pela sua associação a ações decisivas, como duelos em sprint e corridas em profundidade, refletindo-se nos processos de identificação e seleção de talento, onde o desempenho em sprint assume um papel central (Williams et al., 2020; Altmann et al., 2024). Embora a evidência direta que relacione a MSS com o desempenho competitivo em jovens seja ainda limitada, têm sido reportadas associações moderadas com o desempenho físico em jogo (Buchheit et al., 2010). De forma consistente com esta valorização prática, técnicos de academias de elite identificaram a velocidade como o principal fator para o desenvolvimento e seleção de jogadores (Kite et al., 2022; Altmann et al., 2024). 

Neste contexto, torna-se essencial distinguir entre desempenho atual e potencial de desenvolvimento, uma questão particularmente sensível no futebol jovem (Williams et al., 2020). Apesar de a MSS ser frequentemente descrita como uma capacidade fortemente influenciada por fatores genéticos, existe evidência clara de melhorias relevantes ao longo da adolescência (figura 2), bem como de estabilidade limitada do desempenho em sprint durante este período (Murtagh et al., 2023; Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013; Morris et al., 2018). Deste modo, importa questionar se o posicionamento relativo dos jogadores em MSS face a pares da mesma idade se mantém estável ou se sofre flutuações significativas, colocando em causa decisões de seleção assentes na premissa de que “os rápidos se mantêm rápidos enquanto os mais lentos permanecem lentos” (Leyhr et al., 2018; Saward et al., 2020).

 

Figura 2. O desempenho de sprint pode modificar-se ao longo da adolescência (fonte: amaven.co.uk; imagem não publicada pelos autores).

 

Durante a adolescência, o desempenho em sprint tende a melhorar, mas segundo trajetórias não lineares, resultantes da interação entre crescimento, maturação biológica e treino (Ruf et al., 2024; Morris et al., 2018). Estas trajetórias variam substancialmente entre jogadores, uma vez que o momento e o ritmo de maturação diferem de forma marcada entre indivíduos, o que se traduz numa elevada variabilidade do desempenho relativo dentro do mesmo escalão etário (Philippaerts et al., 2006; Williams et al., 2011).

Apesar da relevância amplamente reconhecida do desempenho em sprint para o rendimento e para os processos de seleção no futebol infantojuvenil, a investigação disponível baseia-se maioritariamente em desenhos transversais, incapazes de captar trajetórias individuais de desenvolvimento ou de esclarecer a estabilidade dos rankings de desempenho ao longo do tempo (Williams et al., 2020). Até ao momento, apenas um estudo analisou o desenvolvimento relativo a longo prazo da MSS e identificou flutuações consideráveis nos rankings entre os Sub-12 e os Sub-18 (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013). No entanto, o reduzido tamanho amostral limitou a generalização desses resultados e justificou a realização de estudos adicionais com amostras mais alargadas. 

Face a estas lacunas, o presente estudo analisou o desenvolvimento da MSS em jovens futebolistas altamente treinados, descrevendo os valores absolutos por escalão etário, as alterações no posicionamento relativo entre escalões consecutivos e a estabilidade a longo prazo da MSS ao longo de vários anos. A compreensão destas dinâmicas é determinante para interpretar o desempenho atual e o potencial futuro dos jogadores e para sustentar práticas de identificação e seleção de talento baseadas em evidência.

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

O estudo adotou um desenho retrospetivo, longitudinal misto, com base em dados de MSS de jovens futebolistas altamente treinados. A MSS foi avaliada através de um sprint linear de 30 m, realizado duas vezes por época no âmbito de uma bateria padronizada de testes físicos. Em cada época, foi considerada a melhor tentativa por jogador, resultando em 1 a 7 pontos de dados por jovem jogador (2,2 ± 1,4). A maioria dos jogadores apresentou entre 1 e 3 avaliações ao longo do período de observação.

 

·     Participantes

A amostra integrou 475 jogadores masculinos de futebol de formação (11–19 anos), com 1042 avaliações de MSS recolhidas entre 2016 e 2024, nos escalões Sub-12 a Sub-19 de uma academia de elite de um clube profissional da Bundesliga alemã. Os jovens foram classificados como altamente treinados (nível 3) segundo o Participant Classification Framework (McKay et al., 2022). O volume semanal variou entre 3 e 5 sessões de treino e 1 jogo, consoante o escalão etário. Os dados resultaram de procedimentos regulares de monitorização, com aprovação ética institucional e consentimento informado dos participantes e respetivos encarregados de educação.

 

·     Procedimentos

Após um aquecimento padronizado de 15 minutos, os jogadores realizaram 3 sprints lineares de 30 m, com 60 s a 3 min de recuperação. Os tempos foram registados aos 5, 10, 20 e 30 m, e a MSS foi calculada a partir da velocidade média no segmento entre os 20 e os 30 m, de acordo com procedimentos validados (Thron et al., 2024; Zabaloy et al., 2024). A avaliação recorreu a células fotoelétricas de feixe duplo (Sportronic; 0,01 s), posicionadas a 0,95 m de altura, com partida a 0,30 m da primeira célula. Os testes decorreram em recinto coberto, sobre relva sintética, no período da tarde, e a melhor tentativa por época foi utilizada para análise. Este método apresenta elevada fiabilidade em futebolistas jovens (ICC = 0,92–0,97; CV = 1,1–1,9%) (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013).

 

·     Análise estatística

Foi utilizada a melhor MSS de cada jogador em cada escalão etário. As MSS foram convertidas em percentis dentro de cada escalão, com base nos quais se definiram 6 grupos de desempenho: mais lentos (≥0.º a <10.º percentil), lentos (≥10.º a <25.º percentil), lento-médio (≥25.º a <50.º percentil), médio-rápido (≥50.º a <75.º percentil), rápidos (≥75.º a <90.º percentil) e mais rápidos (≥90.º a ≤100.º percentil). Para jogadores com dados em escalões consecutivos, quantificaram-se as transições entre grupos (subida, descida ou manutenção), em valores absolutos e percentuais, com uma abordagem descritiva. A estabilidade a longo prazo dos percentis foi avaliada através de coeficientes de correlação intraclasse (ICC 3,1), com intervalos de confiança a 95%, considerando todos os escalões e escalões consecutivos. Apenas jogadores com pelo menos 4 medições (n = 86) foram incluídos nesta análise. A interpretação dos ICC seguiu critérios convencionais de qualidade. Para ilustrar trajetórias individuais distintas, apresentaram-se estudos de caso de 3 jogadores entre os Sub-12 e os Sub-17. As análises foram replicadas para os tempos parciais aos 10 m, cujos resultados detalhados constam do material suplementar, mantendo-se a MSS como variável principal do estudo.

 

Principais resultados

Esta secção organiza os resultados de acordo com os principais tópicos abordados pelos autores e destaca os factos mais relevantes da investigação.

 

·     Desenvolvimento absoluto da velocidade máxima de sprint

A MSS aumentou de forma consistente com a idade em todos os escalões, o que se traduz num desenvolvimento absoluto positivo ao longo da adolescência.

 

·     Transições entre grupos de desempenho

Entre escalões etários consecutivos, as transições descendentes (para grupos mais lentos) ocorreram com maior frequência (41%) do que a permanência no mesmo grupo (35%) ou as transições ascendentes, isto é, para grupos de maior velocidade relativa (24%). Nos grupos de desempenho mais elevados, os jogadores desceram de grupo mais vezes do que subiram, enquanto nos grupos mais baixos surgiu maior probabilidade de progressão.

 

·     Padrões por escalão etário

Os padrões de transição mantiveram-se relativamente consistentes entre escalões. As descidas representaram a maior proporção de mudanças (35–51%), ao passo que as subidas ocorreram com menor frequência (16–29%). As taxas mais elevadas de progressão verificaram-se entre os Sub-17 e os Sub-19, enquanto as maiores descidas ocorreram entre os Sub-13 e os Sub-14.

 

·     Estabilidade relativa a longo prazo

A estabilidade dos percentis de MSS ao longo de todos os escalões revelou-se moderada (ICC = 0,65). Entre escalões consecutivos, a estabilidade variou entre moderada e boa (ICC = 0,61–0,79), o que indica flutuações relevantes no posicionamento relativo dos jogadores ao longo do percurso formativo.

 

·     Estudos de caso

A figura 3 ilustra 3 trajetórias individuais distintas de desenvolvimento da MSS entre os Sub-12 e os Sub-17 e evidencia padrões de estabilidade relativa, progressão sustentada e declínio relativo. Estes casos demonstram a elevada variabilidade interindividual e sustentam que melhorias absolutas da MSS nem sempre se traduzem na manutenção do posicionamento relativo dentro do grupo etário.

 

Figura 3. Estudos de caso longitudinais que ilustram a velocidade máxima de sprint (MSS) individual de 3 jogadores, bem como os respetivos valores absolutos de MSS e percentis, em relação aos grupos de desempenho representados por cores em cada escalão etário. Note-se que nenhum dos 3 jogadores integrou o escalão Sub-19 (Ruf et al., 2026).

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo mostram que a MSS melhora com a idade, mas que o estatuto relativo dos jogadores é instável ao longo do percurso formativo. Esta dinâmica tem implicações diretas para os processos de avaliação e seleção no futebol infantojuvenil. Em seguida, apresentam-se 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas técnicas:

 

1. Monitorizar a MSS numa lógica longitudinal, não classificatória: a estabilidade relativa da MSS é apenas moderada e as transições descendentes são frequentes, sobretudo em jogadores rápidos. A monitorização contínua deve servir para compreender trajetórias individuais ao longo do tempo, e não para rotular precocemente jogadores com base em rankings momentâneos. 

2. Interpretar com cautela as quedas relativas de desempenho, sobretudo nos escalões intermédios: o declínio relativo da MSS ocorre em grande parte dos jogadores ao longo da adolescência e não indica, por si só, regressão física. Em muitos casos, reflete efeitos combinados de maturação, seleção interna e entrada de novos jogadores mais velozes. 

3. Tratar o período entre os Sub-14 e os Sub-16 como uma fase crítica de avaliação: este intervalo etário concentra as maiores melhorias absolutas da MSS e a maior variabilidade interindividual, associada ao pico de crescimento. As decisões de seleção nesta fase devem ser particularmente cautelosas, por forma a evitar penalizar jogadores em estágios maturacionais mais tardios. 

4. Evitar decisões precoces de exclusão com base exclusiva na velocidade: embora a velocidade seja um critério central nos processos de seleção, ser rápido nos escalões iniciais não garante manutenção do estatuto relativo ao longo da adolescência. Do mesmo modo, a progressão tardia é rara, mas possível em jogadores com características específicas. A retenção estratégica de alguns perfis tardios pode reduzir o risco de perda de talento.

 

Conclusão

A estabilidade a longo prazo do desempenho relativo da MSS revelou-se moderada, com transições frequentes entre grupos de desempenho ao longo da adolescência. Cerca de um terço dos jogadores manteve o mesmo posicionamento relativo, enquanto a maioria transitou mais frequentemente para grupos mais lentos do que para grupos mais rápidos. As descidas ocorreram sobretudo entre jogadores de melhor desempenho, ao passo que as subidas foram mais comuns nos grupos de desempenho inferior, um padrão que se manteve entre os diferentes escalões etários. Estes resultados, apoiados por estudos de caso, desafiam a ideia de que jogadores rápidos se mantêm sempre rápidos ao longo da adolescência e providenciam orientações relevantes para a interpretação do desempenho e do potencial futuro em processos de avaliação e seleção de talento.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.