28/05/2026

Artigo do mês #77 – maio 2026 | Jogos de grandes dimensões não replicam os cenários de maior exigência física, específicos por posição, dos jogos oficiais de futebol profissional

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Herzig, L., Stöckert, J., Lochmann, M., & Rumpf, M. C.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-abril-2026

Título: Large-sided games do not replicate the positional worst-case scenarios of official matches in professional football

Referência: Herzig, L., Stöckert, J., Lochmann, M., & Rumpf, M. C. (2026). Large-sided games do not replicate the positional worst-case scenarios of official matches in professional football. Frontiers in Sports and Active Living, 8, 1797322. https://doi.org/10.3389/fspor.2026.1797322

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 77 – maio de 2026.

 

Apresentação do problema

No futebol, preparar os jogadores para as exigências físicas do jogo oficial implica ir além dos valores médios registados ao longo dos 90 minutos. Devido à natureza intermitente da modalidade, os momentos de maior intensidade podem ficar diluídos quando se analisam apenas médias por minuto. Por este motivo, a investigação tem valorizado o conceito de Worst-Case Scenario (“cenário de maior exigência física”), entendido como o período mais intenso de jogo dentro de uma determinada janela temporal (Lobo-Triviño et al., 2025; Oliva-Lozano et al., 2020). Estas janelas temporais variam frequentemente entre 1, 3 e 5 minutos, sendo comum observar valores físicos mais elevados nas durações mais curtas (Rico-González et al., 2022). 

A relevância dos cenários de maior exigência física não se limita à identificação dos picos de intensidade. Estudos prévios indicaram que, após estes períodos, o desempenho físico dos jogadores pode diminuir, sobretudo em variáveis locomotoras como a corrida de alta velocidade (Fang et al., 2024; Ju et al., 2022; Schimpchen et al., 2020). Esta quebra pode comprometer ações decisivas, como recuperações defensivas, pressões sobre o portador da bola, coberturas ou movimentos de apoio ofensivo (Ju et al., 2022). Assim, atenuar o impacto da fadiga após momentos de elevada exigência torna-se essencial para otimizar o rendimento físico e tático dos jogadores (Díez et al., 2025; Douchet et al., 2025; de Dios-Álvarez et al., 2023). 

Do ponto de vista prático, jogos de pequena, média e grande dimensão têm sido amplamente utilizados no treino, por permitirem integrar exigências físicas, técnicas e táticas em tarefas próximas do jogo (Chena et al., 2022; Hill-Haas et al., 2011; Sydney et al., 2022). Um fator decisivo nestas tarefas é a área relativa por jogador, uma vez que o aumento do espaço tende a elevar a exigência física, sobretudo nas variáveis locomotoras (Rumpf et al., 2025). Em particular, os maiores formatos de jogo parecem mais adequados para estimular deslocamentos a velocidades elevadas, desde que a área relativa por jogador se aproxime da observada no formato oficial (Lacome et al., 2018; Riboli et al., 2020, 2023a, 2023b).



 Figura 2. Exemplos de jogos de pequena, média e grande dimensão e respetiva área relativa por jogador (Lacome et al., 2018; Riboli et al., 2020, 2023a, 2023b; imagem não publicada pelos autores).

 

Apesar destes avanços, permanece por esclarecer se os jogos de grande dimensão conseguem reproduzir os cenários de maior exigência física do jogo oficial, em diferentes durações e de acordo com as exigências específicas de cada posição. Assim, o presente estudo procurou analisar se os cenários de maior exigência física de 1, 3 e 5 minutos observados em jogos oficiais podem ser replicados em jogos ampliados, com área relativa por jogador semelhante à observada em competição, considerando as exigências locomotoras e mecânicas específicas de cada posição.

 

Métodos

 

·     Participantes

Participaram no estudo 21 jogadores masculinos de futebol pertencentes à equipa secundária de um clube alemão da 2. Bundesliga. A equipa competia na quarta divisão alemã e realizava 5 sessões de treino semanais, além de um jogo oficial por semana. Apenas jogadores de campo sem lesões nos 6 meses anteriores e com participação mínima de 80% nos treinos foram incluídos na análise. Nos jogos oficiais, apenas foram considerados os jogadores titulares que completaram os 90 minutos. Os jogadores foram agrupados por posição específica: defesas centrais, laterais, médios-centro, médios-ala e avançados. Os guarda-redes foram excluídos devido às exigências específicas da posição. Todos os participantes deram consentimento informado, e os dados foram anonimizados antes da análise.

 

·     Amostra

O estudo decorreu durante 19 semanas da segunda metade da época 2024/2025. Todas as sessões realizaram-se em relva natural, sempre no mesmo período do dia e a 3 dias do jogo oficial (MD-3), de acordo com estratégias habituais de periodização no futebol (Buchheit et al., 2021; Morgans et al., 2023). Foram analisados 17 jogos oficiais e 2 formatos de jogos de grande dimensão: 9v9 e 10v10, ambos com área relativa por jogador semelhante à competição oficial (≈320 m2). 

Os jogos foram organizados em 2 a 4 séries, com duração média aproximada de 15 minutos e pausas passivas de 2 a 5 minutos entre séries. No total, registaram-se 698 observações individuais (126 em jogos oficiais e 570 em jogos de grande dimensão), distribuídas por diferentes posições específicas (defesas centrais, laterais, médios-centro, médios-ala e avançados). 

Os jogos seguiram as regras formais do futebol, incluindo a lei do fora de jogo. Para aumentar a continuidade do exercício, as interrupções foram retomadas rapidamente e colocaram-se bolas suplementares ao redor do campo. A equipa de investigação forneceu encorajamento verbal durante os exercícios para manter elevada intensidade de participação (de Dios-Álvarez et al., 2024).

 

·     Recolha de dados

As exigências físicas dos jogos de treino e oficiais foram monitorizadas através de dispositivos GPS de 10 Hz, utilizados individualmente por cada jogador para reduzir diferenças entre unidades (Riboli et al., 2020). Os dados foram posteriormente analisados através de software específico, tendo estes sistemas demonstrado elevada validade e fiabilidade para variáveis locomotoras e mecânicas (Cormier et al., 2023; Crang et al., 2024; Mackay et al., 2025). 

As variáveis analisadas incluíram distância total percorrida, corrida de velocidade moderada (14,4–19,7 km/h), corrida de alta velocidade (19,8–25,1 km/h), sprint (>25,2 km/h), acelerações e desacelerações de baixa, moderada e elevada intensidade (Cotteret et al., 2025). Para identificar os cenários de maior exigência física, os autores utilizaram o método de médias móveis (rolling average) em períodos de 1, 3 e 5 minutos, tanto nos jogos oficiais como nos jogos de grande dimensão (Lacome et al., 2018; Martin-Garcia et al., 2019; Rico-González et al., 2022).

 

·     Análise estatística

Os dados foram analisados no software R, com apresentação de estatísticas descritivas (média ± desvio-padrão). Para comparar jogos de grande dimensão e jogos oficiais nos diferentes cenários de maior exigência física (1, 3 e 5 minutos), os autores recorreram a modelos lineares mistos, adequados para dados repetidos e desequilibrados (Bates et al., 2015; Winter, 2013). As análises consideraram o formato de jogo e a posição dos jogadores, com correção de Bonferroni para comparações múltiplas. A magnitude das diferenças foi interpretada através do tamanho do efeito de Cohen’s d: trivial (<0,10), pequeno (0,10– 0,29), moderado (0,30–0,49), grande (0,50–0,69) e muito grande (>0,70) (Cohen, 1988).

 

Principais resultados

Esta secção sintetiza os principais resultados do estudo relativos às exigências locomotoras e mecânicas observadas nos cenários de maior exigência física em jogos oficiais e jogos de grande dimensão.

 

·     Variáveis locomotoras nos cenários de maior exigência física

As exigências locomotoras revelaram-se sistematicamente inferiores nos jogos de grande dimensão quando comparadas com os jogos oficiais, independentemente da posição dos jogadores e da duração analisada (1, 3 ou 5 minutos). Variáveis como a distância total percorrida, a corrida de velocidade moderada, a corrida de alta velocidade e o sprint apresentaram reduções consistentes nos jogos de treino.

 

·     Variáveis mecânicas nos cenários de maior exigência física

As exigências mecânicas também foram inferiores nos jogos de grande dimensão, sobretudo nas acelerações e desacelerações de intensidade moderada e elevada. As maiores discrepâncias verificaram-se nos períodos de 1 minuto e em posições como defesas centrais, médios-centro e médios-ala. Em contraste, os laterais apresentaram resultados menos consistentes em algumas variáveis.

 

·     Influência da posição específica e da duração dos períodos analisados

As diferenças entre jogos oficiais e jogos de grande dimensão variaram em função da posição específica e da duração dos cenários analisados. Os períodos mais curtos concentraram maiores exigências físicas e evidenciaram discrepâncias mais acentuadas entre treino e competição. Além disso, posições com maior envolvimento em ações intensas de aceleração, desaceleração e corrida de alta velocidade apresentaram diferenças mais pronunciadas.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam limitações dos jogos de grande dimensão na reprodução dos cenários de maior exigência física observados na competição oficial. De seguida, expõem-se 4 aplicações práticas relevantes para o treino no futebol:

 

1. Complementar os jogos de grande dimensão com exercícios específicos de corrida: apesar da elevada especificidade tática dos jogos mais amplos, estes formatos revelaram limitações na reprodução das exigências locomotoras máximas do jogo oficial, sobretudo em corrida de alta velocidade e sprint. A inclusão de exercícios específicos de corrida pode contribuir para submeter os jogadores a estímulos mais próximos dos cenários competitivos. 

2. Utilizar jogos de pequena e média dimensão para promover acelerações e desacelerações intensas: formatos com menor número de jogadores tendem a aumentar a frequência de ações explosivas, como acelerações e desacelerações de elevada intensidade. Estes exercícios podem constituir uma estratégia mais eficaz para replicar exigências mecânicas máximas observadas na competição. 

3. Individualizar os estímulos de treino em função da posição específica: as exigências locomotoras e mecânicas variaram de acordo com a posição dos jogadores e com a duração dos períodos analisados. O treino deve considerar estas diferenças, ajustando volumes, intensidades e tipos de exercício às exigências específicas de cada função em jogo. 

4. Ajustar o formato e a área relativa por jogador em função do objetivo do exercício: aumentar apenas a área relativa por jogador pode não ser suficiente para reproduzir os cenários mais exigentes da competição. A seleção do formato de jogo deve considerar simultaneamente o número de jogadores, o espaço disponível, a duração das séries e o tipo de exigência física que se pretende desenvolver.

 

Conclusão

Os resultados do estudo demonstraram que jogos de grande dimensão em formatos 9v9 e 10v10, mesmo com área relativa por jogador semelhante à competição oficial, revelaram capacidade limitada para reproduzir os cenários de maior exigência física observados em jogos oficiais Os valores das variáveis locomotoras permaneceram inferiores nos períodos de 1, 3 e 5 minutos, sobretudo nas ações de corrida de alta velocidade e sprint. Também as exigências mecânicas associadas a acelerações e desacelerações intensas tenderam a ser inferiores nos jogos de treino, embora com algumas variações em função da posição específica e da duração analisada. As evidências reiteram a necessidade de complementar os jogos de grande dimensão com estratégias de treino ajustadas às exigências da competição oficial.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Frontiers in Sports and Active Living.

30/04/2026

Artigo do mês #76 – abril 2026 | Tendências contemporâneas dos dispositivos táticos e do sucesso das equipas nas principais ligas europeias de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Tokul, E., Özçillingir, Ö. M., Kaya, K., Yilmaz, E. A., Saray, D., Agascioglu, E. A., Demirli, A., & Erdem, K.

País: Turquia

Data de publicação: 27-março-2026

Título: Contemporary trends in tactical formations and team success in Europe’s top-tier football leagues: a comparative analysis

Referência: Tokul, E., Özçillingir, Ö. M., Kaya, K., Yilmaz, E. A., Saray, D., Agascioglu, E. A., Demirli, A., & Erdem, K. (2026). Contemporary trends in tactical formations and team success in Europe’s top-tier football leagues: a comparative analysis. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. Advance online publication. https://doi.org/10.1186/s13102-026-01657-1

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 76 – abril de 2026.

 

Apresentação do problema

Os dispositivos táticos no futebol constituem elementos estruturais que influenciam a organização espacial das equipas, a ocupação do campo e a dinâmica do jogo. Para além de definirem o posicionamento inicial dos jogadores, condicionam a dinâmica ofensiva e defensiva e refletem a estratégia global da equipa (Rein & Memmert, 2016; Plakias et al., 2023). Neste sentido, assumem um papel central na forma como o jogo é construído e interpretado. 

Nos últimos anos, a evolução tecnológica tem permitido analisar estas estruturas de forma mais objetiva. O recurso a sistemas de rastreamento, análise posicional e inteligência artificial tem ampliado a capacidade de quantificar padrões táticos e relacioná-los com o desempenho competitivo (Plakias et al., 2023; Mesoudi, 2019). Apesar destes avanços, continuam a ser escassos os estudos que comparam, de forma sistemática, as preferências estratégico-táticas entre as principais ligas europeias e a sua associação com o sucesso desportivo (Lago-Peñas et al., 2023). 

A análise do rendimento no futebol assenta na observação sistemática dos comportamentos que emergem durante o jogo, permitindo compreender a interação entre indicadores individuais e a organização coletiva (Sarmento et al., 2014). Aspetos como a pressão alta, a construção desde o setor defensivo ou a eficácia nos duelos integram a matriz funcional das equipas e articulam-se com o dispositivo tático adotado. Estas estruturas táticas de base não só definem funções posicionais, como traduzem a identidade de jogo das equipas e das próprias ligas (Memmert et al., 2021; Forcher et al., 2022). 

O contexto atual do futebol, marcado por um ritmo de jogo mais elevado, calendários congestionados e maior diversidade de adversários, tem incentivado a adaptação e a variação dos dispositivos táticos ao longo da época (Yi et al., 2020; Guedea-Delgado et al., 2019). Embora estruturas clássicas como o 4-3-3, 4-2-3-1 e 4-4-2 se mantenham predominantes (Figura 2), a sua utilização apresenta oscilações em função das dinâmicas competitivas de cada liga (Sarmento et al., 2014).

 

Figura 2. Exemplos de dispositivos táticos predominantes no futebol contemporâneo (fonte: www.whoscored.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Posto isto, compreender de que forma os dispositivos táticos se relacionam com o sucesso competitivo assume particular relevância. O presente estudo procurou (i) identificar os dispositivos táticos utilizados na época 2023/2024 nas principais ligas europeias, (ii) analisar a sua relação com a classificação das equipas e (iii) comparar padrões entre ligas. As evidências reunidas permitem extrair implicações práticas relevantes para treinadores e investigadores (Lago-Peñas et al., 2023).

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

Estudo descritivo retrospetivo que analisou os dispositivos táticos nas principais ligas europeias sob 3 perspetivas: (i) identificação dos dispositivos utilizados, (ii) relação entre dispositivos e classificação final das equipas e (iii) comparação entre ligas (Rein & Memmert, 2016).

 

·     Amostra

Foram analisados dados da época 2023/2024 em 6 ligas europeias (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França, Itália e Turquia), num total de 2132 jogos. Cada equipa foi considerada como unidade de análise, resultando em 4038 observações após inclusão de alterações táticas durante os jogos. Foram excluídas situações com inferioridade numérica prolongada (>45 min) e dispositivos utilizados por menos de 15 minutos. Os guarda-redes não foram considerados na análise. 

Para analisar a relação entre dispositivos táticos e sucesso competitivo, as equipas foram agrupadas em 4 níveis de desempenho, definidos com base na classificação final e nos critérios de qualificação para competições da UEFA (Bradley et al., 2013): (i) qualificação para a Liga dos Campeões, (ii) qualificação para Liga Europa/Conference League, (iii) meio da tabela e (iv) despromoção. Os intervalos de classificação variaram ligeiramente entre ligas, de acordo com a sua estrutura competitiva.

 

·     Recolha de dados

Os dados sobre dispositivos táticos foram obtidos a partir da OPTA Sportsdata e validados com a plataforma fbref.com. Foram identificados 18 dispositivos utilizados na época 2023/2024, depois agrupados em 8 categorias principais com base em semelhanças estruturais. Esta classificação contou com o contributo de treinadores certificados (UEFA A e B), reforçando a validade técnica da categorização. As classificações finais das ligas foram recolhidas nos websites oficiais das federações.

 

·     Análise estatística

A análise estatística foi realizada com recurso ao SPSS (versão 25) e Excel. A normalidade dos dados foi verificada através do teste de Kolmogorov–Smirnov. Para comparar médias de pontos por jogo entre ligas e dispositivos táticos, utilizou-se uma ANOVA. As diferenças na distribuição dos dispositivos entre as ligas foram analisadas com o teste do qui-quadrado. O nível de significância foi definido em p < 0.05.

 

Principais resultados

Apresentam-se, de seguida, os principais resultados do estudo, organizados em função da distribuição dos dispositivos táticos, das variações entre ligas e da sua relação com o sucesso competitivo.

 

·     Distribuição e eficácia dos dispositivos táticos

O 4-2-3-1 foi o dispositivo mais utilizado no conjunto das 6 ligas europeias, o que evidencia uma forte predominância no futebol atual. No entanto, o dispositivo 3-4-3 apresentou o melhor rendimento médio em termos de pontos por jogo, destacando-se como o mais eficaz entre as estruturas analisadas (Figura 3). Em contraste, dispositivos mais conservadores, como o 5-4-1, associaram-se a menor rendimento competitivo. Ainda assim, as diferenças globais entre dispositivos táticos revelaram-se relativamente reduzidas, o que sugere um impacto limitado da estrutura tática isolada no desempenho.

 

Figura 3. Frequência de utilização (MAÇ) e pontos médios por jogo (OP) dos dispositivos táticos nas principais ligas europeias (2023/2024). Cada gráfico corresponde a uma liga: Itália (Serie A), Turquia (Super League), Inglaterra (Premier League), Espanha (La Liga), Alemanha (Bundesliga) e França (Ligue 1) (adaptado de Tökul et al., 2026).

 

·     Diferenças entre ligas nas preferências de estruturas táticas de base

As preferências por dispositivos táticos variaram de forma clara entre ligas. O 4-2-3-1 destacou-se como o sistema mais utilizado em todas as competições, com especial incidência na liga turca. O 3-4-3 apresentou maior expressão na Bundesliga e na Serie A, enquanto o 4-4-2 foi mais frequente na La Liga. Também se observaram variações em dispositivos menos utilizados, como o 5-3-2, mais presente em Itália. Estas diferenças demonstram identidades estratégico-táticas distintas entre as ligas.

 

·     Relação entre dispositivos táticos e sucesso competitivo

A associação entre o dispositivo tático utilizado e o nível de sucesso das equipas revelou-se reduzida. Embora algumas tendências tenham sido identificadas – como a maior utilização do 3-4-3 em equipas despromovidas e menor presença em equipas qualificadas para competições europeias – não se verificou um padrão consistente. As diferenças de rendimento entre dispositivos táticos foram pouco expressivas, e a respetiva influência mostrou-se limitada quando considerada de forma isolada face a outros fatores contextuais que influenciam o desempenho competitivo.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam que a escolha do dispositivo tático, por si só, não determina o sucesso competitivo e deve ser enquadrada nas características dos jogadores, no contexto competitivo e nas exigências do modelo de jogo. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas para enquadramento técnico e estratégico: 

1. Adequar o dispositivo tático ao perfil e às exigências do plantel: estruturas como o 3-5-2 ou o 3-4-3 podem associar-se a bons indicadores de rendimento, mas exigem perfis específicos, em particular médios-ala capazes de responder às exigências ofensivas e defensivas. A sua implementação requer também elevados níveis de condição física, leitura de jogo e flexibilidade posicional. A eficácia destes dispositivos depende da qualidade e da adequação do plantel. 

2. Privilegiar dispositivos equilibrados e adaptáveis ao contexto competitivo: estruturas como o 4-2-3-1, 4-3-3 e 4-4-2 mantêm-se amplamente utilizadas devido ao seu equilíbrio entre organização defensiva e capacidade ofensiva. A sua utilização consistente sugere que a estabilidade estrutural e a versatilidade funcional constituem fatores relevantes na adaptação a diferentes contextos competitivos. 

3. Introduzir variabilidade estratégica no uso dos dispositivos táticos: a alternância entre diferentes estruturas táticas ao longo do jogo ou ao longo da época pode aumentar a imprevisibilidade da equipa e dificultar a adaptação do adversário. A capacidade de ajustar o dispositivo tático em função do contexto competitivo, do adversário ou da fase do jogo constitui um recurso estratégico relevante no futebol contemporâneo. 

4. Utilizar estruturas mais defensivas de forma contextual e estratégica: dispositivos com linhas defensivas mais densas, como o 5-3-2 e o 5-4-1, tendem a associar-se a menor rendimento ofensivo. A sua utilização deve responder a necessidades específicas do jogo, como controlo defensivo ou gestão de resultado, e não constituir uma opção estrutural dominante ao longo da época.

 

Conclusão

Os resultados indicam que os dispositivos táticos se associam ao sucesso competitivo, embora essa relação dependa do contexto competitivo, do perfil dos jogadores e das dinâmicas específicas de cada liga. Estruturas táticas equilibradas e adaptáveis, como o 4-2-3-1, mantiveram uma elevada utilização e um bom rendimento, o que evidencia a importância do equilíbrio entre organização defensiva e capacidade ofensiva no futebol contemporâneo. Por outro lado, estruturas mais ofensivas, como o 3-4-3, apresentaram indicadores de eficácia elevados, ainda que com menor consistência de utilização entre ligas. Por sua vez, estruturas mais defensivas apresentaram menor expressão e eficácia. A eficácia de um dispositivo tático resulta da sua adequação ao contexto e da qualidade da sua implementação, e não apenas das suas características estruturais.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation.

29/03/2026

Artigo do mês #75 – março 2026 | Para onde direcionar o penálti no futebol? Equilíbrio entre estratégia e execução

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

- 75 -

Autores: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B.

País: Dinamarca

Data de publicação: 10-março-2026

Título: Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution

Referência: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B. (2026). Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution. Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology, 1–6. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/1754337126142456

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 75 – março de 2026.

 

Apresentação do problema

Os pontapés de penálti – remates diretos a partir da marca dos 11 metros, apenas com o guarda-redes pela frente – constituem momentos decisivos no futebol e apresentam taxas de conversão elevadas: cerca de 78% em jogo corrido e entre 69% e 77% em desempates por grandes penalidades (Pipke, 2025; Van Hemert & Van Der Kamp, 2025). Apesar da sua aparente simplicidade, o seu sucesso depende de múltiplos fatores. 

A atenção visual e o foco no guarda-redes influenciam o resultado, podendo aumentar a probabilidade de defesa por parte do guarda-redes (Furley et al., 2017). O stress associado ao momento afeta a execução e o controlo motor (Jordet & Elferink-Gemser, 2012). Ao nível estratégico, as abordagens dependente e independente do guarda-redes apresentam eficácia semelhante (Noël et al., 2015). Fatores contextuais, como a experiência do jogador, o estado do jogo e o momento da partida, também condicionam o desempenho, com melhores resultados em jogadores experientes e em situações de jogo equilibrado (Jamil et al., 2020). No conjunto, o sucesso nos penáltis resulta da interação entre fatores cognitivos, emocionais, estratégicos e contextuais. 

As taxas de sucesso variam em função da zona da baliza visada, com remates colocados em zonas altas e afastadas do guarda-redes a apresentarem maior probabilidade de golo (figura 2), dada a dificuldade destes em alcançar essas zonas (Almeida et al., 2016; Almeida & Vossovitch, 2023). Por oposição, remates ao centro comportam maior risco quando o guarda-redes antecipa corretamente a trajetória (Bar-Eli & Azar, 2009). Contudo, a aplicação prática destas probabilidades não é direta, uma vez que a colocação real da bola nem sempre corresponde ao alvo pretendido (Hunter et al., 2018). Esta variabilidade introduz incerteza e coloca em causa decisões baseadas exclusivamente na zona ideal de finalização (Hunter et al., 2022).



 Figura 2. Os cantos superiores da baliza têm sido frequentemente referidos como zonas ótimas de remate na conversão de grandes penalidades (fonte: www.vsports.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

No futebol jovem, importa considerar as características específicas dos jogadores. Embora a precisão de remate se mantenha relativamente estável entre escalões, a velocidade de remate aumenta com a idade (Vieira et al., 2018; Hunter et al., 2022). Em simultâneo, o alcance dos guarda-redes também aumenta, o que eleva as exigências de colocação em idades mais avançadas. Neste contexto, torna-se pertinente compreender qual a zona ótima de remate em função da variabilidade da execução. O presente estudo procurou articular probabilidades de sucesso com a dispersão do remate, com o objetivo de fornecer orientações mais ajustadas à realidade do jogo.

 

Métodos

 

·     Visão conceptual

O estudo combinou dados observacionais e laboratoriais para estimar a probabilidade de golo em função da zona de remate. Primeiro, determinaram-se probabilidades de golo por zona da baliza com base em dados reais. Em seguida, modelou-se a variabilidade da colocação do remate em torno de um ponto-alvo. Por fim, integraram-se ambas as componentes para simular a probabilidade de sucesso em diferentes zonas da baliza e sob diferentes níveis de variabilidade.

 

·     Taxa de conversão por zonas da baliza

Foram analisados 4299 penáltis em competições jovens dinamarquesas, com registo da localização do remate e do seu resultado (Noe & Porse, 2024). A baliza foi dividida em 15 zonas e os remates de jogadores esquerdinos foram espelhados (Pereira & Patching, 2021). Os resultados, apresentados na Figura 3, evidenciaram maior eficácia nos cantos superiores e menor nas zonas centrais (80,3%), com uma taxa global de conversão de 76,8%.

 

Figura 3. Percentagens de golo em diferentes zonas da baliza, calculadas a partir de 4299 penáltis observados (adaptado de Noe & Porse, 2024, excluindo remates que não atingiram a baliza). A baliza é apresentada na perspetiva do marcador do penálti (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Distribuição bivariada dos remates

Foram avaliados 53 jogadores de uma academia de elite (Sub-15 a Sub-19), em contexto laboratorial, com consentimento informado e aprovação ética. A velocidade máxima da bola foi medida em remates a 11 m com radar Doppler. A precisão foi analisada apenas com o pé dominante, através de 20 remates por jogador, realizados em 2 dias, com a bola em movimento e a uma intensidade mínima de 75% da velocidade máxima (Radman et al., 2016). A localização dos remates foi registada com um sistema de duas câmaras em relação a um alvo fixo. 

Com base nestes dados, foi calculada uma distribuição bivariada da colocação do remate, representada por uma elipse de confiança de 95%. Os remates de esquerdinos foram espelhados (Hunter et al., 2018). A variabilidade foi analisada para o conjunto total de jogadores, bem como para subgrupos com menor e maior dispersão dos remates.

 

·     Taxa de conversão em função da direção do remate

A probabilidade de golo foi estimada com recurso a simulação de Monte Carlo (Press, 1992), com base na distribuição bivariada da precisão do remate. Foram simulados 10000 remates para cada ponto da baliza (200 x 50). A eficácia de cada ponto de remate resultou da média das probabilidades de sucesso dos remates simulados, tendo em conta se a bola entrou ou não na baliza e a respetiva zona de finalização. Um exemplo de simulação é apresentado na Figura 4.

  

Figura 4. Exemplo de 1000 remates simulados dirigidos junto ao canto superior esquerdo da baliza. Os remates foram gerados com base na distribuição bivariada obtida nos testes laboratoriais. A baliza é representada por linhas pretas (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Variação do ângulo da elipse

A orientação da elipse da distribuição bivariada varia em função dos padrões individuais de remate. Para simular diferentes perfis de execução, o ângulo da elipse foi ajustado entre 0º (horizontal) e 90º (vertical). Para cada configuração, foi calculada a taxa de conversão na baliza com base no procedimento descrito anteriormente.

 

Principais resultados

Esta secção apresenta os principais resultados do estudo, com foco na identificação das zonas ótimas de remate em grandes penalidades. Em particular, sintetizam-se os dados relativos à probabilidade de golo em função da localização do remate, da variabilidade da execução e da orientação da dispersão dos remates.

 

·     Taxa máxima de conversão (variação média)

A probabilidade máxima de golo foi de 78,4%, obtida com remates direcionados para uma zona lateral intermédia da baliza, a cerca de 2,26 m do centro e 1,22 m de altura (Figura 5).

 

Figura 5. Taxas de conversão de golo na baliza, representada por linhas pretas. A taxa máxima está assinalada e marcada com um círculo. As linhas, bem como as respetivas percentagens, correspondem a isolinhas. Esta distribuição baseia-se na média de todos os jogadores (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Influência da precisão do remate

Jogadores com menor variabilidade (maior precisão) devem visar zonas mais afastadas do guarda-redes e ligeiramente mais altas, atingindo taxas de conversão até 86,2%. Jogadores com maior variabilidade beneficiam de alvos mais próximos do guarda-redes e mais baixos, com uma taxa máxima de 75,3%.

 

·     Efeito da orientação da variabilidade

A localização ótima do remate varia com a orientação da dispersão dos remates: (i) distribuição horizontal: alvo ótimo mais elevado e central; (ii) distribuição vertical: alvo ótimo mais baixo e lateral.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam que a eficácia nos pontapés de penálti depende da interação entre a zona visada e a capacidade individual de execução. Esta relação tem implicações diretas para o treino e para a definição de estratégias de finalização. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas técnicas:

 

1. Ajustar a zona de remate ao perfil individual de precisão: o local ótimo de finalização não é universal. Jogadores mais precisos beneficiam de alvos mais afastados e elevados (zonas de maior rendimento), enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados ao visar zonas mais centrais e seguras. A definição da estratégia deve considerar o perfil de consistência de cada jogador. 

2. Integrar a variabilidade de execução na decisão do remate: a escolha da zona de remate deve equilibrar probabilidade teórica de sucesso e capacidade real de execução. Estratégias baseadas apenas em zonas “ótimas” ignoram a dispersão do remate. A decisão deve refletir a probabilidade de acertar no alvo pretendido, e não apenas a eficácia dessa zona. 

3. Caracterizar padrões individuais de dispersão do remate: a orientação da variabilidade (horizontal ou vertical) influencia a zona mais eficaz de finalização. Fatores técnicos e biomecânicos moldam estes padrões, pelo que a sua análise permite identificar tendências individuais e informar a definição da estratégia de remate. 

4. Estruturar o treino de penáltis em contexto específico e representativo: a prática regular de grandes penalidades é essencial para consolidar estratégias eficazes de execução. O treino deve incluir diferentes zonas de remate, variações de colocação e manipulação de constrangimentos técnicos (p. ex., posicionamento do corpo e apoio), de forma a estabilizar a dispersão do remate e melhorar a tomada de decisão em contexto competitivo.

 

Conclusão

A estratégia ótima de penálti não depende apenas das zonas com maior probabilidade de golo, mas sobretudo da variabilidade individual de execução. Jogadores mais regulares beneficiam de alvos mais arriscados, enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados em zonas centrais. A orientação da dispersão do remate também influencia o ponto ótimo de finalização. Estes resultados sustentam a necessidade de individualizar a estratégia e o treino de penáltis em função das características de cada jogador.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology.