Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.
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Autores: Herzig, L., Stöckert, J., Lochmann, M., & Rumpf,
M. C.
País: Alemanha
Data de
publicação: 2-abril-2026
Título: Large-sided games do not replicate the positional
worst-case scenarios of official matches in professional football
Referência: Herzig, L., Stöckert, J., Lochmann, M., & Rumpf,
M. C. (2026). Large-sided games do not replicate the positional worst-case
scenarios of official matches in professional football. Frontiers in Sports
and Active Living, 8, 1797322. https://doi.org/10.3389/fspor.2026.1797322
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 77 – maio de 2026.
Apresentação do problema
No futebol, preparar os jogadores para as exigências físicas do jogo oficial implica ir além dos valores médios registados ao longo dos 90 minutos. Devido à natureza intermitente da modalidade, os momentos de maior intensidade podem ficar diluídos quando se analisam apenas médias por minuto. Por este motivo, a investigação tem valorizado o conceito de Worst-Case Scenario (“cenário de maior exigência física”), entendido como o período mais intenso de jogo dentro de uma determinada janela temporal (Lobo-Triviño et al., 2025; Oliva-Lozano et al., 2020). Estas janelas temporais variam frequentemente entre 1, 3 e 5 minutos, sendo comum observar valores físicos mais elevados nas durações mais curtas (Rico-González et al., 2022).
A relevância dos cenários de maior exigência física não se limita à identificação dos picos de intensidade. Estudos prévios indicaram que, após estes períodos, o desempenho físico dos jogadores pode diminuir, sobretudo em variáveis locomotoras como a corrida de alta velocidade (Fang et al., 2024; Ju et al., 2022; Schimpchen et al., 2020). Esta quebra pode comprometer ações decisivas, como recuperações defensivas, pressões sobre o portador da bola, coberturas ou movimentos de apoio ofensivo (Ju et al., 2022). Assim, atenuar o impacto da fadiga após momentos de elevada exigência torna-se essencial para otimizar o rendimento físico e tático dos jogadores (Díez et al., 2025; Douchet et al., 2025; de Dios-Álvarez et al., 2023).
Do ponto de vista prático, jogos de pequena, média e grande dimensão têm sido amplamente utilizados no treino, por permitirem integrar exigências físicas, técnicas e táticas em tarefas próximas do jogo (Chena et al., 2022; Hill-Haas et al., 2011; Sydney et al., 2022). Um fator decisivo nestas tarefas é a área relativa por jogador, uma vez que o aumento do espaço tende a elevar a exigência física, sobretudo nas variáveis locomotoras (Rumpf et al., 2025). Em particular, os maiores formatos de jogo parecem mais adequados para estimular deslocamentos a velocidades elevadas, desde que a área relativa por jogador se aproxime da observada no formato oficial (Lacome et al., 2018; Riboli et al., 2020, 2023a, 2023b).
Figura 2. Exemplos de jogos de pequena, média e grande dimensão e respetiva área relativa por jogador (Lacome et al., 2018; Riboli et al., 2020, 2023a, 2023b; imagem não publicada pelos autores).
Apesar destes avanços, permanece por esclarecer se os
jogos de grande dimensão conseguem reproduzir os cenários de maior exigência
física do jogo oficial, em diferentes durações e de acordo com as exigências
específicas de cada posição. Assim, o presente estudo procurou analisar se os cenários
de maior exigência física de 1, 3 e 5 minutos observados em jogos oficiais
podem ser replicados em jogos ampliados, com área relativa por jogador
semelhante à observada em competição, considerando as exigências locomotoras e
mecânicas específicas de cada posição.
Métodos
·
Participantes
Participaram no estudo 21
jogadores masculinos de futebol pertencentes à equipa secundária de um clube
alemão da 2. Bundesliga. A equipa competia na quarta divisão alemã e realizava
5 sessões de treino semanais, além de um jogo oficial por semana. Apenas
jogadores de campo sem lesões nos 6 meses anteriores e com participação mínima
de 80% nos treinos foram incluídos na análise. Nos jogos oficiais, apenas foram
considerados os jogadores titulares que completaram os 90 minutos. Os jogadores
foram agrupados por posição específica: defesas centrais, laterais, médios-centro,
médios-ala e avançados. Os guarda-redes foram excluídos devido às exigências
específicas da posição. Todos os participantes deram consentimento informado, e
os dados foram anonimizados antes da análise.
· Amostra
O estudo decorreu durante 19 semanas da segunda metade da época 2024/2025. Todas as sessões realizaram-se em relva natural, sempre no mesmo período do dia e a 3 dias do jogo oficial (MD-3), de acordo com estratégias habituais de periodização no futebol (Buchheit et al., 2021; Morgans et al., 2023). Foram analisados 17 jogos oficiais e 2 formatos de jogos de grande dimensão: 9v9 e 10v10, ambos com área relativa por jogador semelhante à competição oficial (≈320 m2).
Os jogos foram organizados em 2 a 4 séries, com duração média aproximada de 15 minutos e pausas passivas de 2 a 5 minutos entre séries. No total, registaram-se 698 observações individuais (126 em jogos oficiais e 570 em jogos de grande dimensão), distribuídas por diferentes posições específicas (defesas centrais, laterais, médios-centro, médios-ala e avançados).
Os jogos seguiram as
regras formais do futebol, incluindo a lei do fora de jogo. Para aumentar a
continuidade do exercício, as interrupções foram retomadas rapidamente e
colocaram-se bolas suplementares ao redor do campo. A equipa de investigação
forneceu encorajamento verbal durante os exercícios para manter elevada
intensidade de participação (de Dios-Álvarez et al., 2024).
·
Recolha de dados
As exigências físicas dos jogos de treino e oficiais foram monitorizadas através de dispositivos GPS de 10 Hz, utilizados individualmente por cada jogador para reduzir diferenças entre unidades (Riboli et al., 2020). Os dados foram posteriormente analisados através de software específico, tendo estes sistemas demonstrado elevada validade e fiabilidade para variáveis locomotoras e mecânicas (Cormier et al., 2023; Crang et al., 2024; Mackay et al., 2025).
As variáveis analisadas
incluíram distância total percorrida, corrida de velocidade moderada (14,4–19,7
km/h), corrida de alta velocidade (19,8–25,1 km/h), sprint (>25,2 km/h),
acelerações e desacelerações de baixa, moderada e elevada intensidade (Cotteret
et al., 2025). Para identificar os cenários de maior exigência física, os
autores utilizaram o método de médias móveis (rolling average) em
períodos de 1, 3 e 5 minutos, tanto nos jogos oficiais como nos jogos de grande
dimensão (Lacome et al., 2018; Martin-Garcia et al., 2019; Rico-González et
al., 2022).
·
Análise estatística
Os dados foram analisados
no software R, com apresentação de estatísticas descritivas (média ±
desvio-padrão). Para comparar jogos de grande dimensão e jogos oficiais nos
diferentes cenários de maior exigência física (1, 3 e 5 minutos), os autores
recorreram a modelos lineares mistos, adequados para dados repetidos e
desequilibrados (Bates et al., 2015; Winter, 2013). As análises consideraram o
formato de jogo e a posição dos jogadores, com correção de Bonferroni para
comparações múltiplas. A magnitude das diferenças foi interpretada através do
tamanho do efeito de Cohen’s d: trivial (<0,10), pequeno (0,10– 0,29),
moderado (0,30–0,49), grande (0,50–0,69) e muito grande (>0,70) (Cohen, 1988).
Principais resultados
Esta secção sintetiza os
principais resultados do estudo relativos às exigências locomotoras e mecânicas
observadas nos cenários de maior exigência física em jogos oficiais e jogos de
grande dimensão.
·
Variáveis locomotoras
nos cenários de maior exigência física
As exigências locomotoras
revelaram-se sistematicamente inferiores nos jogos de grande dimensão quando
comparadas com os jogos oficiais, independentemente da posição dos jogadores e
da duração analisada (1, 3 ou 5 minutos). Variáveis como a distância total
percorrida, a corrida de velocidade moderada, a corrida de alta velocidade e o sprint
apresentaram reduções consistentes nos jogos de treino.
·
Variáveis mecânicas
nos cenários de maior exigência física
As exigências mecânicas
também foram inferiores nos jogos de grande dimensão, sobretudo nas acelerações
e desacelerações de intensidade moderada e elevada. As maiores discrepâncias
verificaram-se nos períodos de 1 minuto e em posições como defesas centrais,
médios-centro e médios-ala. Em contraste, os laterais apresentaram resultados
menos consistentes em algumas variáveis.
·
Influência da posição
específica e da duração dos períodos analisados
As diferenças entre jogos
oficiais e jogos de grande dimensão variaram em função da posição específica e
da duração dos cenários analisados. Os períodos mais curtos concentraram
maiores exigências físicas e evidenciaram discrepâncias mais acentuadas entre
treino e competição. Além disso, posições com maior envolvimento em ações
intensas de aceleração, desaceleração e corrida de alta velocidade apresentaram
diferenças mais pronunciadas.
Aplicações práticas
Os resultados do estudo
evidenciam limitações dos jogos de grande dimensão na reprodução dos cenários
de maior exigência física observados na competição oficial. De seguida, expõem-se
4 aplicações práticas relevantes para o treino no futebol:
1. Complementar os jogos de grande dimensão com exercícios específicos de corrida: apesar da elevada especificidade tática dos jogos mais amplos, estes formatos revelaram limitações na reprodução das exigências locomotoras máximas do jogo oficial, sobretudo em corrida de alta velocidade e sprint. A inclusão de exercícios específicos de corrida pode contribuir para submeter os jogadores a estímulos mais próximos dos cenários competitivos.
2. Utilizar jogos de pequena e média dimensão para promover acelerações e desacelerações intensas: formatos com menor número de jogadores tendem a aumentar a frequência de ações explosivas, como acelerações e desacelerações de elevada intensidade. Estes exercícios podem constituir uma estratégia mais eficaz para replicar exigências mecânicas máximas observadas na competição.
3. Individualizar os estímulos de treino em função da posição específica: as exigências locomotoras e mecânicas variaram de acordo com a posição dos jogadores e com a duração dos períodos analisados. O treino deve considerar estas diferenças, ajustando volumes, intensidades e tipos de exercício às exigências específicas de cada função em jogo.
4. Ajustar o formato e a área relativa por jogador em
função do objetivo do exercício: aumentar apenas a área relativa por
jogador pode não ser suficiente para reproduzir os cenários mais exigentes da
competição. A seleção do formato de jogo deve considerar simultaneamente o
número de jogadores, o espaço disponível, a duração das séries e o tipo de
exigência física que se pretende desenvolver.
Conclusão
Os resultados do estudo demonstraram que jogos de grande
dimensão em formatos 9v9 e 10v10, mesmo com área relativa por jogador
semelhante à competição oficial, revelaram capacidade limitada para reproduzir
os cenários de maior exigência física observados em jogos oficiais Os valores das
variáveis locomotoras permaneceram inferiores nos períodos de 1, 3 e 5 minutos,
sobretudo nas ações de corrida de alta velocidade e sprint. Também as
exigências mecânicas associadas a acelerações e desacelerações intensas
tenderam a ser inferiores nos jogos de treino, embora com algumas variações em
função da posição específica e da duração analisada. As evidências reiteram a
necessidade de complementar os jogos de grande dimensão com estratégias de
treino ajustadas às exigências da competição oficial.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista Frontiers in Sports and Active Living.
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