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21/05/2024

Curiosidades da Bola #2 – Os golos na Liga Portugal Betclic 2023/24

No passado dia 18 de maio, o blogue Linha de Passe celebrou a sua maioridade, completando 18 anos. Apesar de não ter assinalado a data no blogue e nas redes sociais, não me esqueci desta ocasião especial, pelo menos para mim. Como forma de comemorar a longevidade de um projeto que, por vezes, esteve moribundo, lanço a segunda edição da rubrica “Curiosidades da bola”, 21 meses após a publicação da primeira. 

Tal como no tema inaugural da rubrica, a Liga Portugal, agora patrocinada pela Betclic e conhecida entre os adeptos de futebol como “Tugão”, surge novamente no foco da análise, juntamente com o golo: a última determinante do sucesso na modalidade e que a torna tão apaixonante e popular. As curiosidades a seguir apresentadas tratam precisamente dos golos concretizados na recém-concluída edição da Liga Portugal Betclic 2023/24.

 

1) Recorde da média de golos por jogo das últimas 30 épocas (1994/95–2023/24)

Na época ora finda, a média de golos por jogo na Primeira Liga foi a mais elevada das últimas 3 décadas (figura 1).

 

Figura 1. Evolução da média de golos marcados por jogo na Primeira Liga portuguesa, entre 1994/95 e 2023/24.

 

Conforme podemos observar, marcou-se uma média de 2,87 golos/jogo em 2023/24, resultado de 877 golos em 306 partidas. De resto, este valor está significativamente acima da média de 2,52 golos/jogo, calculada para o período entre 1994/95 e 2023/24 (t = -11,775; p < 0,001; d = 2,15). A título de curiosidade, o segundo registo mais elevado (2,78) foi obtido na época 2012/13, enquanto o valor mais baixo (2,23) ocorreu em 2005/06. 

Também foi executada uma análise de correlação de Spearman para avaliar a relação entre a variável “Época” e a “média de golos por jogo na Primeira Liga”. Os resultados indicaram uma correlação positiva fraca, não significativa, entre as duas variáveis (rs = 0,224; p = 0,233; n = 30). Este resultado sugere que, ao longo das últimas 30 épocas, não há evidência estatística suficiente para afirmar que houve uma tendência significativa de aumento da média de golos por jogo na Primeira Liga.

 

2) Tipos de golos marcados na edição 2023/24 da Primeira Liga

A figura 2 exibe a distribuição do modo como os golos foram marcados na mais recente edição da principal divisão portuguesa.

  

Figura 2. Distribuição do modo como os golos foram marcados na mais recente edição da Primeira Liga.

 

Sem surpresa, cerca de 70% dos golos foram obtidos através de jogada corrida. Dos 30% de golos marcados através de esquema tático (bola parada), a maior porção derivou de pontapés de canto (n = 110; 12,5%), seguido de grandes penalidades (n = 75; 8,6%). O tipo de bola parada que originou o menor número de golos foi o lançamento lateral (n = 20; 2,3%), embora os pontapés livres diretos tenham tido uma frequência idêntica (n = 21; 2,4%). Volto a insistir: se os esquemas táticos produzem praticamente um terço dos golos marcados, quanto tempo deve ser despendido no microciclo semanal para a prática destas situações específicas do jogo?

 

3) Os penáltis foram menos importantes na obtenção do golo do que nas últimas épocas

Em 2023/24, foram assinaladas 98 grandes penalidades e marcaram-se 75 golos, sendo 70 deles de forma direta e 5 após recarga, o que corresponde a 8,55% da totalidade de golos concretizados. Esta é a percentagem mais baixa de golos marcados através de penálti das últimas 11 épocas, i.e., desde 2013/2014. O jogador mais concretizador da marca dos 11 metros foi o Héctor Hernández (GD Chaves), com 5 golos. Por outro lado, os guarda-redes mais bem-sucedidos foram Anatoliy Trubin (SL Benfica) e Luiz Júnior (FC Famalicão), com 3 defesas cada.

 

Figura 3. Luiz Júnior (FC Famalicão) a defender a grande penalidade executada pelo avançado Adrián Butzke (Vitória SC), aos 90’+2, na jornada 25 (fonte: vsports.pt).

 

4) Os autogolos não são assim tão irrelevantes quanto se possa pensar…

Vinte e seis golos, portanto, aproximadamente 3% dos golos marcados em 2023/24, foram “infortúnios” da equipa defensora, ou seja, autogolos. É interessante constatar que se marcaram mais autogolos que golos através de pontapés livres diretos ou na sequência de lançamentos laterais. Neste particular, é comum atribuir-se a justificativa da aleatoriedade, da chance: “foi infeliz”, “teve azar”, “tem de ir à bruxa”. O que é certo é que, destes 26 autogolos, 16 (61,5%) derivaram de erros na ação defensiva executada (interceção, alívio ou defesa do guarda-redes), ficando a restante parcela destinada a eventos realmente associados ao acaso. O rei dos autogolos foi o defensor Filipe Relvas (Portimonense SC), com 3 ações malsucedidas a desfavor da formação alvinegra. Vejamos abaixo o exemplo de uma delas, em Vizela, à sétima jornada.

  


Parece-me perfeitamente possível preparar os jogadores para evitarem alguns dos erros defensivos ou ofensivos inerentes à marcação de autogolos. Enquanto se adjudicar estas situações de jogo à sorte ou ao azar, jamais poderemos refletir sobre eventuais práticas para reduzir a respetiva incidência em competição. O trabalho individual é altamente recomendado para o efeito; a simples correção da colocação dos apoios pode contribuir bastante para que o erro não surja.

 

Nota final

Assim, fechamos a segunda edição das “Curiosidades da bola”, onde procurámos demonstrar que o conhecimento pode revelar aspetos do jogo que não são imediatamente visíveis. As tendências que identificámos ao longo do tempo resultam frequentemente de uma variabilidade difícil de prever ou quantificar. O futebol não é uma ciência exata e nunca será. No entanto, a arte do treino pode beneficiar substancialmente se estivermos atentos às tendências e padrões que o jogo apresenta em diferentes circunstâncias. 

Esperamos que esta análise inspire treinadores e entusiastas a refletirem sobre a importância de situações estratégico-táticas específicas, incorporando-as no treino diário. Com um entendimento mais profundo de estatísticas, padrões ou tendências, podemos continuar a evoluir na nossa abordagem ao futebol, tornando o jogo ainda mais apaixonante e competitivo.

12/08/2022

Curiosidades da bola #1 – Jornada 1 da Liga Portugal Bwin 2022/2023

Ainda no rescaldo da primeira jornada da Liga Portugal Bwin 2022/2023, foram assinaladas duas grandes penalidades pelas equipas de arbitragem, em dois jogos distintos: GD Estoril Praia 2 x 0 FC Famalicão e CD Santa Clara 0 x 0 Casa Pia AC. 

Sobre este par de eventos de jogo decorreram as seguintes curiosidades: (1) ambos os penáltis foram executados para a mesma zona (zona 4; figura 1) e defendidos pelos guarda-redes; (2) os dois jogadores que marcaram o penálti eram estreantes na Liga Portugal Bwin (Álex Millán, 22 anos, ponta de lança do FC Famalicão; Leonardo Lelo, 22 anos, defesa/ala esquerdo do Casa Pia AC); (3) os dois marcadores eram mais jovens (e inexperientes) que os guarda-redes opositores (Daniel Figueira, 24 anos, 74 jogos na Liga Portugal Bwin; Marco Pereira, 35 anos, 130 jogos na Liga Portugal Bwin).

 

Figura 1. Definição de zonas para análise da performance em grandes penalidades no futebol (Almeida et al., 2016; Almeida & Volossovitch, 2022).

 

Por força destas curiosidades que ocorrem de forma inusitada, os aficionados do futebol criam ocasionalmente noções imprecisas sobre o desempenho dos jogadores. Em seguida iremos desmistificar algumas perceções erradas acerca da marcação de grandes penalidades em contexto de jogo.

 

1) A experiência de jogadores e guarda-redes é determinante para o resultado do penálti.

Não, não é. É sabido que a experiência acumulada pelos jogadores pode auxiliar na identificação de informação relevante para a ação subsequente, porém, os estudos científicos não mostraram qualquer relação entre o diferencial de idade (e experiência) entre o executante da grande penalidade e o guarda-redes em 536 penáltis na UEFA Champions League (Almeida et al., 2016) e em 833 episódios registados na I Liga Portuguesa, entre 2013/2014 e 2020/2021 (Almeida & Volossovitch, 2022). Inclusive, estudos prévios sugeriram que os jogadores mais jovens tendem a ser mais eficazes, por estarem menos suscetíveis ao stress e terem menos experiências negativas próprias, ou decorrentes da observação de falhanços de companheiros ou adversários (Jordet et al., 2007; Lopes et al., 2012).

 

2) Os destros são mais eficazes a bater penáltis do que os esquerdinos.

Errado. As evidências são, no máximo, inconclusivas (figura 2). Em nenhum dos estudos consultados houve diferenças significativas entre destros e esquerdinos no que concerne com o resultado do penálti (Almeida et al., 2016; Almeida & Volossovitch, 2022; Horn et al., 2021; López-Botella & Palao, 2007). À exceção da investigação realizada por López-Botella e Palao (2007), nos outros três estudos os destros foram ligeiramente – não significativamente – mais eficazes que os canhotos (Almeida et al., 2016: 77.4 vs. 70.1%; Almeida & Volossovitch, 2022: 80.3% vs. 73.4%; Horn et al., 2021: 78.7% vs. 75.1%).

 

Figura 2. Marco Pereira (CD Santa Clara) a defender a grande penalidade executada pelo jovem canhoto Leonardo Lelo (Casa Pia AC) (fonte: vsports.pt).

 

3) Os avançados são mais eficazes que os jogadores de posições mais recuadas (médios e defesas).

Os jogadores chamados a bater uma grande penalidade tendem a ser especialistas dentro do plantel. É normal que os avançados sejam selecionados mais vezes para assumir esta responsabilidade, pois são normalmente mais eficazes nas ações de finalização, ou seja, têm mais apetência para o golo (figura 3). Contudo, quando são médios ou defesas a executar, as percentagens de golo, defesa do guarda-redes e falha (bola no poste/trave ou fora) são idênticas. Estes factos não suportam a ideia de que jogadores com missões mais ofensivas e mais competentes na finalização sejam mais bem-sucedidos da marca dos 11 metros (Jordet et al., 2007).

 

Figura 3. Daniel Figueira (GD Estoril Praia) a defender a grande penalidade executada pelo estreante avançado espanhol Álex Millán (FC Famalicão) (fonte: vsports.pt).

 

4) É para os cantos inferiores da baliza que se deve executar o remate nas situações de grande penalidade.

Não. Se há facto que tem sido sucessivamente comprovado é que a probabilidade de marcar golo ao rematar para as zonas inferiores da baliza, mesmo para os cantos, é inferior à probabilidade de marcar golo nas zonas altas da baliza, sobretudo quando o alvo é um dos cantos superiores. Por outras palavras, a probabilidade de a bola ser defendida pelo guarda-redes nas zonas baixas é superior à probabilidade de falhar a baliza quando o remate é direcionado para as zonas superiores (Almeida et al., 2016; Almeida & Volossovitch, 2022; López-Botella & Palao, 2007; Palao et al., 2010).


Este tipo de evidências é útil não apenas para aprimorar no treino as ações e as estratégias adotadas nas grandes penalidades, quer pelos jogadores, quer pelos guarda-redes, mas também para conhecer algumas tendências que vão emergindo em contextos específicos de desempenho (i.e., localização do jogo, resultado corrente, período do jogo, qualidade das equipas, nível competitivo, tipo de competição, etc.). Em última instância, o conhecimento dá-nos um empurrão(zinho) extra na direção do êxito, prevenindo que certas crenças comuns e infundadas adquiram o desígnio de verdades absolutas.

 

Referências

Almeida, C. H., & Volossovitch, A. (2022). Multifactorial analysis of football penalty kicks in the Portuguese First League: A replication study. International Journal of Sports Science & Coaching. https://doi.org/10.1177/17479541221075722

Almeida, C. H., Volossovitch, A., & Duarte, R. (2016). Penalty kick outcomes in UEFA club competitions (2010-2015): The roles of situational, individual and performance factors. International Journal of Performance Analysis in Sport, 16(2), 508–522. https://doi.org/10.1080/24748668.2016.11868905

Horn, M., de Waal, S., & Kraak, W. (2021). In-match penalty kick analysis of the 2009/10 to 2018/19 English Premier League competition. International Journal of Performance Analysis in Sport, 21(1), 139–155. https://doi.org/10.1080/24748668.2020.1855052

Jordet, G., Hartman, E., Visscher, C., & Lemmink, K. (2007). Kicks from the penalty mark in soccer: the roles of stress, skill, and fatigue for kick outcomes. Journal of Sports Sciences, 25(2), 121–129. https://doi.org/10.1080/02640410600624020

Lopes, J. E., Araújo, D., Duarte, R., Davids, K. and Fernandes, O. (2012). Instructional constraints on movement and performance of players in the penalty kick. International Journal of Performance Analysis in Sport, 12(2), 311–345. https://doi.org/10.1080/24748668.2012.11868602

López-Botella, M., & Palao, J. M. (2007). Relationship between laterality of foot strike and shot zone on penalty efficacy in specialist penalty takers. International Journal of Performance Analysis in Sport, 7(3), 26–36. https://doi.org/10.1080/24748668.2007.11868407

Palao, J. M., López-Montero, M., & López-Botella, M. (2010). Relationship between efficacy, laterality of foot strike, and shot zone of the penalty in relation to competition level in soccer. International Journal of Sport Science, 6(19), 154–165.