A obra selecionada para o encontro do mês de julho
de 2020 do Clube de Leitura de Monchique foi “O último cabalista de Lisboa”,
cuja primeira edição data de 1996. Desconhecendo por completo Richard Zimler,
este foi o primeiro livro que li do autor. Trata-se de um romance histórico
baseado em factos reais, em que Berequias Zarco, o narrador e protagonista, discursa quase em regime autobiográfico (figura 1).
Figura 1. Capa
do livro “O último cabalista de Lisboa”, do autor Richard Zimler.
A trama gira em torno do assassinato do líder e
mestre espiritual Abraão Zarco e da incompatibilidade entre duas religiões
distintas – a judaica, sendo que muitos judeus foram convertidos em
cristãos-novos, e a cristã, cujos crentes eram os cristãos-velhos. O clima de
crispação vigente determinou o massacre de judeus no Rossio na Páscoa de 1506,
a designada matança da Páscoa de 1506. Para os cristãos-velhos, incitados
por frades dominicanos, os judeus eram os culpados da seca, da fome e da peste
negra, devido ao seu pacto, alegadamente secreto, com o diabo. Não
deixa de ser um tema forte na atualidade, na medida em que os deuses de uns são
o diabo para os outros e, por isso, se têm matado milhões de pessoas ao longo
da história da humanidade, pela intolerância à diferença associada ao fanatismo
religioso.
Além da busca incessante de
Berequias Zarco, acompanhado pelo seu fiel amigo e primo Farid, pelo assassino
do tio Abraão, há inúmeras passagens desta época de ouro dos descobrimentos
portugueses que me impressionaram:
· Os tumultos ocorreram na
ausência do rei que, devido à peste negra, se havia retirado para Abrantes (muito embora fosse uma prática
comum na altura, não se coaduna com a máxima que postula que os
bons exemplos devem vir de cima);
· Os escravos africanos que
morriam, muitos deles a trabalhar na construção do Mosteiro dos Jerónimos,
eram atirados para montes de esterco nos arredores de Lisboa (a dignidade da
vida humana rebaixada à condição de esterco);
· Berequias assistiu à
execução de judeus no Rossio, contudo, quando estava a ser perseguido por
cristãos-velhos, foi salvo por uma família muçulmana (a intolerância não
depende estritamente das diferenças entre religiões, mas na maldade das pessoas
que se servem da religião para atingir determinados fins);
· A cinco séculos de
distância, confesso que a citação seguinte foi extremamente dolorosa de ler:
(…)
Sentado numa pá, via-se um recém-nascido desconhecido a quem tinham arrancado a
cabeça.
Face
ao impensável, que assim tomara forma, nenhum de nós ousara falar.
Alguém
pode imaginar o que significa ver uma criança decapitada sentada numa pá? É
como se todas as línguas do mundo ficassem esquecidas, como se todos os livros
escritos se tivessem reduzido a pó. E como se alguém pudesse ficar feliz com
tal coisa; por pessoas como nós não terem direito a falar ou escrever ou deixar
qualquer traço na História (p.103).
· Depois há uma observação muito interessante sobre o povo
português e que julgo que perdurou ao longo de todo este tempo até aos dias de
hoje:
Enquanto caminhamos, observamos a atitude
respeitosa do povo da cidade, o mesmo povo que um dia ou dois antes era capaz
de exigir a cabeça do rei. «Esta passividade está profundamente entranhada nas
almas dos cristãos portugueses», penso. «Nunca nenhuma revolta há de aqui ter
sucesso» (p. 272). A passividade é um traço característico do povo
português ainda visível nos tempos correntes, mas houve algumas revoltas nos
últimos 500 anos e, talvez por isso, ainda possamos dizer que somos portugueses
e usufruir de direitos como a liberdade de expressão.
· A definição cabalística do
mal é, na minha opinião, um eufemismo, mas que, de certo modo, nos indica que o
ser humano quando nasce é bom: “o bem que se afastou do seu justo lugar” (p.
350).
· Para concluir, o aviso
premonitório de Berequias Zarco – o Mardoqueu na iluminura do mestre Abraão
Zarco –, o herói do povo judeu: “A matança mal começou. (…) Mais tarde ou mais
cedo, neste século ou daqui a cinco séculos, hão de vir procurar-vos ou aos
vossos descendentes” (p. 351). Teriam os seus ensinamentos cabalísticos
permitido que vislumbrasse o que viria ser o holocausto?
Um livro muito bem escrito, com um enredo exemplarmente
estruturado pelo autor, baseado nos três manuscritos originais de Berequias
Zarco e que nos relata acontecimentos que não constam propriamente nos manuais
da História de Portugal.