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06/08/2022

Fora da caixa

Podia dizer alguma coisa, mas prefiro o silêncio (figura 1). Um nada que para muitos nada é; para alguns, é pouco; para poucos, é muito; para muito poucos, raros, é tudo.

 

Figura 1. “Silêncio”, pintura de Wadim Chugriev (fonte: artmajeur.com).


Silêncio! A ausência de som aguça os sentidos e estimula o pensamento, a reflexão. Não tenho dúvidas que se encontra subvalorizado. O ser humano comum prefere o ruído, a azáfama e a excitação. Desde quando o comando da vida deixou de ter a opção “mute”? 

Cinco ou dez minutos de silêncio pode ser suficiente. É pedir muito? O dia tem mil quatrocentos e quarenta minutos. É reconfortante como nos podemos encontrar quando estamos calados. Quiçá, até, adquirir um novo rumo. Consoante o estado das ideias, elas propagam, fluem ou circulam com outra destreza e versatilidade. Tenho para mim, embora possa estar enganado – obviamente –, que as grandes descobertas da humanidade ocorreram na quietude. 

Para e escuta. Os sons da serra, da floresta, da cidade, da aldeia, da praia, do rio, do lago; os sons da Natureza. Permite-te romper o casulo mordaz que é o quotidiano. Projeta-te para fora da caixa e sintoniza-te com o mundo que te rodeia. Criar sinergias através da paz, do silêncio, do nada que pode ser tudo? Parece descabido de tão simples que é. 

Busco o silêncio cegamente como nunca o fiz, na esperança de que me possa cultivar fora da caixa.

18/05/2022

O 16.º aniversário do blogue Linha de Passe

O blogue Linha de Passe celebra hoje 16 anos de existência (figura 1).

 

Figura 1. O 16.º aniversário do Linha de Passe (18-maio-2022).

 

Por razões que mencionei outrora (link), é um dia duplamente especial para mim. Sem me querer alongar em celebrações, até porque se trata somente de uma data que, por coincidência, me recorda decisões felizes que tomei na minha vida, finalizo com três lições que tenho vindo a assimilar, de há 16 anos a esta parte, com as reflexões e os textos que amiúde por aqui vou escrevendo:

 

1) Opiniões e convicções há muitas, mas se não forem devidamente informadas e fundamentadas, ou são falíveis ou depressa passam à história; 

2) Vivemos na era da (des)informação, confirmar a veracidade dos factos e dos dados é absolutamente crucial e marca a diferença entre a credibilidade e a inutilidade; 

3) Não se altera a essência do ser, porém, as nossas perspetivas, crenças e ideias são moldadas pela idade e pela experiência – o que fazemos ou acreditamos no presente pode não se repercutir no futuro, seja a curto, médio ou longo prazo.

 

Parabéns ao blogue de Linha de Passe!

(https://www.facebook.com/blogueLinhaDePasse)

15/10/2021

Conto "Além do horizonte" na coletânea Liberdade (2020)

Corria o mês de fevereiro de 2020 quando o Município de Monchique lançou a primeira edição do Prémio Artístico e Literário de Monchique. De entre as cinco categorias de participação possíveis, e julgando estarem asseguradas condições legais para concorrer, submeti o conto “Além do horizonte” na categoria “prosa”. 

Independentemente do resultado do concurso, do qual fui excluído pelo júri e que, em sede própria e a quem de direito, tive oportunidade de manifestar a minha discordância, o conto recebeu uma menção honrosa, com direito a publicação na coletânea Liberdade (1.ª edição, 2020; figura 1), que reúne alguns dos trabalhos que participaram nas diversas categorias: prosa, escultura, fotografia e pintura (poesia não teve trabalhos a concurso).

 

Figura 1. Capa e contracapa da coletânea Liberdade (2020), edição do Município de Monchique.

 

Pessoalmente, deu-me um gozo enorme escrever este conto, não apenas por abordar a liberdade em tempos de confinamento, mas, essencialmente, porque me permitiu conjeturar algumas particularidades e tradições de Monchique em tempos que não tive ocasião de vivenciar. Também não podia deixar de parte a componente filosófica que preenche os entretantos da nossa existência. Aqui, no Linha de Passe, transcrevo o primeiro parágrafo da prosa:

 

Poderia escrever que esta é a história do senhor Jerónimo, mas isso seria mais um dos incontáveis lugares-comuns que encontramos entranhados no quotidiano: os dias repetidos à exaustão, com contornos mais ou menos retos, mais ou menos monótonos. O assunto que vos trago não deveria ser corriqueiro ou desprezível para a tão aclamada humanidade, embora o que reste dela seja apenas alguns espasmos esporádicos que ocorrem sem aviso prévio. A maioria de nós goza o «dado como adquirido» sem esforço, dor, paixão ou memória; um conjunto de intenções, ações e conquistas rebaixado ao valor da indiferença. Porém, as forças que nos impulsionaram para o que somos, ou que nos impelem para o que seremos, nada têm de trivial.

 

Se, por obra do acaso ou da intenção, o livro vos for parar às mãos, espero que o emaranhado de palavras que escrevi vos faça sentido e que a imaginação vos leve “além do horizonte”. 

Expresso os meus sinceros parabéns a todos os participantes e, em especial, aos vencedores do prémio. Faço ainda votos para que o Município de Monchique continue a incentivar a produção cultural local, com esta ou outras iniciativas do género.

31/12/2020

Dois mil e vinte

Desde que a memória me assiste, dois e mil e vinte (figura 1) foi, sem margem para dúvidas, o ano mais estranho que vivenciei. Não me parece que seja um sentimento estritamente pessoal, na medida em que diversas cabeças, por este mundo fora, têm prestado a mesma sentença. Pode ter havido conquistas, mas as perdas ultrapassam substancialmente o que, avulso, possamos ter conseguido ou adquirido. 

 

Figura 1. Um 2020 que ficará para a posterioridade pelos piores motivos (fonte: depositphotos.com).

 

Dois mil e vinte foi o ano pandémico, o ano da COVID-19, o ano das palavras “confinamento”, “isolamento”, “máscara” ou “desinfetante”. Singelas palavras que tiveram o condão de alterar por completo as nossas rotinas do quotidiano e, se me permitem o atrevimento, as relações humanas. As repercussões da (potencial) infeção pelo novo Coronavírus vão muito além das consequências fisiológicas e epidemiológicas. Longe de ser uma mera “gripe”, como muitos incautos nos quiseram fazer crer nos meios mais frequentados (porém, menos fidedignos) que utilizamos para nos conectar – as redes sociais –, a pandemia nunca se cingirá às largas dezenas de milhões de casos detetados no mundo e aos quase dois milhões de mortes que causou, ou ajudou a causar. 

Por um lado, será que a humanidade manterá a sua relação despótica com a natureza? Chegamos a um ponto da nossa evolução em que almejamos ditar as leis da natureza. Voluntária ou involuntariamente, de modo mais ou menos consciente, não é isso que importa agora esmiuçar, foi o ser humano que dispôs as condições para que este vírus proliferasse. Numa cambalhota quase “cármica”, a natureza logrou colocar-nos no devido lugar, acautelando-nos que as nossas ações, enquanto espécie, têm limites e produzem consequências. Talvez a pandemia deva ser interpretada como uma lição para o futuro. 

Por outro lado, se é verdade que vida que se perde jamais se recupera, ninguém deveria ser prescindível ou entrar em sistemas de prioridades, o que aconteceu por falta de capacidade de resposta de uma civilização que, em pleno séc. XXI, tomávamos como evoluída. As limitações dos sistemas sociais contemporâneos chegaram ao cúmulo de termos de escolher quem vive e quem morre numa era marcada pela (alta) tecnologia e pela abrangência das redes comunicação. Questionemos o que sentem, por exemplo, as pessoas que perderam familiares (pais, avós, irmãos, tios, etc.) por não haver ventiladores suficientes. Mais, nesta era também governada pelas vicissitudes das economias, quantas vidas estão ou ficarão comprometidas pela pandemia? E os efeitos colaterais do isolamento social? Foram ou são contabilizadas as pessoas que, não falecendo de COVID-19, partiram de outras maleitas potenciadas pela ausência de afeto e de carinho? Infelizmente, não. Na minha família, isso aconteceu duas vezes no período de uma semana, em julho. 

Não sou, de modo algum, contra as medidas que foram implementadas pelas autoridades competentes, nem tampouco invejo os representantes que têm de tomar decisões dificílimas nesta fase crítica, ou os profissionais de saúde que estão na linha da frente a fazer o que podem, e o que não podem, para dar a melhor resposta possível à população, salvando vidas. Tiro-lhes o chapéu! Sinceramente, não sei o que poderia ter sido feito de diferente para atenuar os efeitos adversos do dito isolamento social, reduzindo, em simultâneo, o risco de contágio. Há variáveis que, simplesmente, não conseguimos controlar. 

Ignoro o que futuro nos reserva, se anos mais felizes ou mais experiências do género, contudo, acredito que cada um de nós, individualmente, pode fazer algo pelo todo. Se o “algo” individual for positivo, então o todo (humanidade) viverá, seguramente, anos menos conturbados e mais felizes. Ao menos, que a esperança nos guie para que o planeta e os nossos descendentes possam coexistir em harmonia. Porque enquanto houver vida, perdura a esperança (figura 2). 

 

Figura 2. Vidas que redobram a esperança num próspero 2021.

 

Que dois mil e vinte e um nos faça virar a página para melhor. Sem exceções: votos de saúde!

31/07/2020

O último cabalista de Lisboa (1996), de Richard Zimler

A obra selecionada para o encontro do mês de julho de 2020 do Clube de Leitura de Monchique foi “O último cabalista de Lisboa”, cuja primeira edição data de 1996. Desconhecendo por completo Richard Zimler, este foi o primeiro livro que li do autor. Trata-se de um romance histórico baseado em factos reais, em que Berequias Zarco, o narrador e protagonista, discursa quase em regime autobiográfico (figura 1). 

 

Figura 1. Capa do livro “O último cabalista de Lisboa”, do autor Richard Zimler.

 

A trama gira em torno do assassinato do líder e mestre espiritual Abraão Zarco e da incompatibilidade entre duas religiões distintas – a judaica, sendo que muitos judeus foram convertidos em cristãos-novos, e a cristã, cujos crentes eram os cristãos-velhos. O clima de crispação vigente determinou o massacre de judeus no Rossio na Páscoa de 1506, a designada matança da Páscoa de 1506. Para os cristãos-velhos, incitados por frades dominicanos, os judeus eram os culpados da seca, da fome e da peste negra, devido ao seu pacto, alegadamente secreto, com o diabo. Não deixa de ser um tema forte na atualidade, na medida em que os deuses de uns são o diabo para os outros e, por isso, se têm matado milhões de pessoas ao longo da história da humanidade, pela intolerância à diferença associada ao fanatismo religioso.

Além da busca incessante de Berequias Zarco, acompanhado pelo seu fiel amigo e primo Farid, pelo assassino do tio Abraão, há inúmeras passagens desta época de ouro dos descobrimentos portugueses que me impressionaram:

 

· Os tumultos ocorreram na ausência do rei que, devido à peste negra, se havia retirado para Abrantes (muito embora fosse uma prática comum na altura, não se coaduna com a máxima que postula que os bons exemplos devem vir de cima);

 

· Os escravos africanos que morriam, muitos deles a trabalhar na construção do Mosteiro dos Jerónimos, eram atirados para montes de esterco nos arredores de Lisboa (a dignidade da vida humana rebaixada à condição de esterco);

 

· Berequias assistiu à execução de judeus no Rossio, contudo, quando estava a ser perseguido por cristãos-velhos, foi salvo por uma família muçulmana (a intolerância não depende estritamente das diferenças entre religiões, mas na maldade das pessoas que se servem da religião para atingir determinados fins);

 

· A cinco séculos de distância, confesso que a citação seguinte foi extremamente dolorosa de ler:

(…) Sentado numa pá, via-se um recém-nascido desconhecido a quem tinham arrancado a cabeça.

Face ao impensável, que assim tomara forma, nenhum de nós ousara falar.

Alguém pode imaginar o que significa ver uma criança decapitada sentada numa pá? É como se todas as línguas do mundo ficassem esquecidas, como se todos os livros escritos se tivessem reduzido a pó. E como se alguém pudesse ficar feliz com tal coisa; por pessoas como nós não terem direito a falar ou escrever ou deixar qualquer traço na História (p.103).

 

· Depois há uma observação muito interessante sobre o povo português e que julgo que perdurou ao longo de todo este tempo até aos dias de hoje:

Enquanto caminhamos, observamos a atitude respeitosa do povo da cidade, o mesmo povo que um dia ou dois antes era capaz de exigir a cabeça do rei. «Esta passividade está profundamente entranhada nas almas dos cristãos portugueses», penso. «Nunca nenhuma revolta há de aqui ter sucesso» (p. 272). A passividade é um traço característico do povo português ainda visível nos tempos correntes, mas houve algumas revoltas nos últimos 500 anos e, talvez por isso, ainda possamos dizer que somos portugueses e usufruir de direitos como a liberdade de expressão.

 

· A definição cabalística do mal é, na minha opinião, um eufemismo, mas que, de certo modo, nos indica que o ser humano quando nasce é bom: “o bem que se afastou do seu justo lugar” (p. 350).

 

· Para concluir, o aviso premonitório de Berequias Zarco – o Mardoqueu na iluminura do mestre Abraão Zarco –, o herói do povo judeu: “A matança mal começou. (…) Mais tarde ou mais cedo, neste século ou daqui a cinco séculos, hão de vir procurar-vos ou aos vossos descendentes” (p. 351). Teriam os seus ensinamentos cabalísticos permitido que vislumbrasse o que viria ser o holocausto?

 

Um livro muito bem escrito, com um enredo exemplarmente estruturado pelo autor, baseado nos três manuscritos originais de Berequias Zarco e que nos relata acontecimentos que não constam propriamente nos manuais da História de Portugal.

23/05/2020

Crónica de uma morte anunciada (1981), de Gabriel García Márquez

Esta foi a primeira obra que li de Gabriel García Márquez, prémio Nobel da Literatura em 1982. Na contracapa do livro, ou pelo menos naquela da 18.ª edição publicada pela D. Quixote (figura 1), a citação do autor colombiano é extremamente interessante: classifica o romance como o melhor, não por ser o último, mas aquele em que conseguiu fazer exatamente o que queria. Sinceramente, não me recordo de ter lido outro livro em que, à partida, sabemos qual é o final da história, só não sabemos o que levou ao fatídico desenlace. Esse aspeto, longe de tornar o livro desinteressante, ainda reforçou mais a minha curiosidade e a leitura acabou por ser muito agradável e fluente.

Figura 1. Capa do livro “Crónica de uma morte anunciada”, publicado pela D. Quixote.

Na minha perspetiva, há duas palavras em torno das quais gira o enredo: honra e moral. A honra é o aspeto nuclear do romance, na medida em que é a desonra de Angela Vicario, manifestada na sua noite de núpcias, que determina que os irmãos (gémeos) Pedro e Pablo Vicario assassinem Santiago Nasar. Matam-no por uma questão de honra da família.

Ela demorou tão-só o tempo necessário para dizer o nome. Procurou-o nas trevas, encontrou-o à primeira vista entre tantos e tantos nomes confundíveis deste mundo e do outro, e deixou-o espetado na parede com o seu dardo certeiro, como a uma borboleta sem vontade própria cuja sentença estava escrita desde sempre.
(p. 46)

Daqui resulta a importância da moralidade ou falta dela. Angela Vicario personifica a desonra e a imoralidade, pois condenou Santiago à morte, quando tudo indica que não foi ele que lhe retirou a virgindade e, para além disso, ela nunca se predispôs a levantar o véu em relação ao mistério. Angela narrava a história da sua noite de núpcias a quem quisesse ouvi-la até ao pormenor, menos aquele que nunca haveria de ser declarado: quem foi, como e quando, o verdadeiro causador da sua desonra – as amigas contavam “disse-nos o milagre mas não o santo.” (p. 90) –, pois ninguém acreditou que tivesse sido realmente Santiago. Segundo o narrador e amigo do protagonista, “Nunca ninguém os viu juntos, e muito menos sozinhos. Santiago Nasar era orgulhoso de mais para reparar nela.” (p. 81)

Os gémeos encarnam a imoralidade do homicídio premeditado e a todos anunciado. Passado pouco tempo, ao morrer o pai Poncio Vicario, o narrador explica que “levou-o a dor moral.”, quiçá provocada pelas malfeitorias dos descendentes. O resto da imoralidade é partilhado pelas gentes da vila:

Mas a maioria das pessoas que teriam podido fazer alguma coisa para impedir o crime e no entanto não fizeram, consolaram-se com o pretexto de que os assuntos de honra são arquivos sagrados a que só têm acesso os donos do drama.
(p. 87-88)

Muitos sabiam que iria haver crime, poucos o tentaram evitar, mas, quando o juiz de instrução foi apurar os factos, havia uma multidão para fazer declarações sem ser convocada. A hipocrisia e o preconceito emergem como qualidades daquilo que não é moral. Reparem que, por exemplo, o presidente da câmara – o coronel Lázaro Aponte –, preocupou-se muito com os boatos acerca dos árabes, a propósito de uma presumível retaliação pela morte de Santiago, “mas nenhum alimentava propósitos de vingança.” (p. 75) Aliás, para o jovem juiz, tal como para os amigos, o comportamento de Santiago Nasar nas últimas horas de vida era a prova cabal da sua inocência. Numa nota relevante do processo de instrução, o juiz faz uma alusão tácita à questão do preconceito: “Dai-me um preconceito e moverei o mundo.” (p. 90)

A imoralidade comunitária, se assim pode ser mencionada, aparece bem destacada pelo narrador na página 105, ao expor que os criminosos Pedro e Pablo Vicacio “não ouviram os gritos da vila inteira espantada com o seu próprio crime.” Portanto, o delito não se circunscreveu àqueles que explicitamente o executaram.

Vale bem a pena a leitura!

25/04/2020

Ensaio sobre a cegueira (1995), de José Saramago


Em palavras ao alcance de toda a gente, do que se tratava era de pôr de quarentena todas aquelas pessoas, segundo a antiga prática, herdada dos tempos da cólera e da febre-amarela, quando os barcos contaminados ou só suspeitos de infeção tinham de permanecer ao largo durante quarenta dias, até ver. Estas mesmas palavras, Até ver, intencionais pelo tom, mas sibilinas por lhe faltarem outras, foram pronunciadas pelo ministro, que mais tarde precisou o seu pensamento, Queria dizer que tanto poderão ser quarenta dias como quarenta semanas, ou quarenta meses ou quarenta anos, o que é preciso é que não saiam de lá.
(p. 47-48)

A obra Ensaio sobre a cegueira, do “nosso” nobel José Saramago (figura 1), é uma narrativa que vem a propósito dos tempos pandémicos que vivemos. Não é que a enfermidade seja a mesma, pois 99,9% das pessoas ficar cega sem explicação aparente é um cenário bem mais gravoso, se a desfaçatez de comparar ficção (“mal-branco”) e realidade (COVID-19) me é permitida.

Figura 1. Capa de “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago (24.ª edição, Porto Editora, 2019).

Após as habituais dedicatórias, Saramago expôs no início do livro uma citação, tão curta como eloquente, do Livro dos Conselhos: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Estava dado o mote para um ensaio verdadeiramente brilhante sobre um fenómeno bastante improvável, ainda que possível. E se de repente a cegueira nos apanhasse a todos desprevenidos? Não escrevo sobre a cegueira que nos remete para a escuridão das trevas, mas para uma brancura permanente, o designado “mal-branco”. Como seria o mundo dos humanos? Caótico e, em certa conta, desprezível.

Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais (…).
(p. 129)

Porém, a personagem principal é imune e vivencia a catástrofe com uma visão inversa ao ditado “em terra de cegos, quem tem olho é rei”. Fosse ela outra e, seguramente, teria aproveitado a deixa. Optou pela conduta menos convencional, mais difícil e digna no auxílio ao seu semelhante.

(…) E as pessoas, como vão, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vão como fantasmas, ser fantasma deve ser isto, ter a certeza que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver (…).
(p. 257)

Este excerto estabelece uma relação implícita entre grau de humanidade e perceção, não estritamente sensorial, do envolvimento. À medida que aumentamos a perceção do nosso ambiente, maior será a humanização do nosso comportamento. Isto porque a cegueira tem algo (ou tudo) de irracional. Mesmo aqueles que fazem uso da visão, por vezes, olham, mas não veem; outros veem, mas não reparam. E passeamo-nos como espectros.

E como poderá uma sociedade de cegos organizar-se para que viva, Organizando-se, organizar-se já é, de uma certa maneira, começar a ter olhos (…).
(p. 312)

Certamente um dos melhores livros, se não mesmo o melhor, que li nos últimos anos. Recomendo fortemente! Obrigado, mestre Saramago.

05/02/2020

As velas ardem até ao fim (1942)

Foi o primeiro livro que li do autor húngaro Sándor Márai (1900-1989). Primeiro, achei que a obra, no seu todo, fazia jus a um autêntico ensaio filosófico sobre a amizade. Numa instância posterior, e com uma reflexão mais cuidada, refiz a minha ideia inicial para algo menos redutor: é um autêntico ensaio filosófico sobre a vida (figura 1).

Figura 1. Capa do livro "As velas ardem até ao fim", publicado em Portugal pela editora Dom Quixote.

“Não é verdade que o destino entre cego na nossa vida, não. O destino entra pela porta que nós mesmos abrimos, convidando-o a passar.” (p. 125)

“Acontece que o momento traz consigo uma possibilidade e isso tem um tempo exacto – e se o momento passou, de repente já não podes fazer nada.” (p. 144)

Qualquer semelhança com as incidências de um jogo desportivo coletivo será pura coincidência? A vida não é mais que uma questão de linhas de passe.

27/12/2019

"O teu umbigo é menor do que o meu"

Estamos a fechar a década de 2010. Uma década marcada pelo egocentrismo escarpado, crescendo numa proporcionalidade inversa ao esgotar do período temporal em questão. Julgo poder afirmar, com maior ou menor direito a generalização, que “o teu umbigo é menor do que o meu” (figura 1).

Figura 1. Umbigos (fonte: DeviantArt.com).

Olho primeiro para o teu, porque para o meu já olhei diversas vezes, ou talvez até nem me lembre de qual foi a última vez. Aliás, será que já perdi algum tempo a olhá-lo como deve de ser? Nem sei… mesmo assim, “o teu umbigo é menor do que o meu”.

Vivemos na era da superioridade moral, intelectual, racial e, porque não, ideológica. A diferença na perspetiva de quem ajuíza é sinónimo de inferioridade, de menosprezo. As teorias, os factos, as evidências ou as meras suposições alheias são, à partida, refutadas pelo grau (subjetivo) de aversão à diferença ou, se preferirem, pelo estatuto inato de superioridade, seja ela de que tipo for. Há uns de primeira e outros de terceira categoria/classe, como os lugares nos aviões. “O teu umbigo até pode ter o seu quê de interessante, mas é menor do que o meu”.

E isto é tão, mas tão notório que, para a próxima década, peço apenas que disseminem a cura para a cegueira, a pior doença do século XXI. Não é aquela que nos apaga a luz do mundo para sempre, essa também é horrenda e não se deseja a ninguém. É aquela que, ainda que tenhamos toda a perceção sensorial, nos tolda intrinsecamente a razão e, por inerência, as virtudes da natureza humana. Uma praga com um poder de contágio sem paralelo.

Que 2020 nos traga a lucidez para uma mudança comportamental pois, como escreveu o meu amigo Eduardo Jorge Duarte, em Uma Coruja nas Ruínas (2018), “a cegueira maior é não saber olhar para dentro”.

Afinal, parece que o meu umbigo é um pouco disforme.

Boas saídas e melhores entradas!

21/08/2019

Amazónia em chamas

Sobre os incêndios que lavram há 17 dias na densa floresta da Amazónia – o designado “pulmão da Terra”, alegadamente responsável pela produção de 20% do oxigénio que respiramos e que não passa de um mero mito. Há espécies a desaparecer todos os anos. O declínio da sustentabilidade do nosso habitat natural é progressivo. O mais importante de tudo continua a ser a economia, o crescimento, o deficit, a greve, o ter mais do que o vizinho.

Figura 1. Amazónia fustigada por incêndios dantescos (fonte: visao.sapo.pt).

Apregoamos a plenos pulmões que somos a espécie mais inteligente, mas temos as prioridades totalmente invertidas. Pelos erros de uma espécie, pagam todas as outras e sem direito a segundas oportunidades. Não há descontos, só liquidação total.

08/05/2019

Science and Medicine in Football (Vol. 3/2019) | Comparação das sequências ofensivas bem-sucedidas na fase de grupos do Campeonato do Mundo de 2018: equipas eliminadas vs. qualificadas

Cá na terra, o sobejamente conhecido Ti Toino Jorge contornou habilmente as escassas probabilidades de longevidade que, face às vicissitudes da sua vida, sempre lhe foram atribuídas. Na minha humilde perspetiva é, aos 91 anos de idade, um ancião dos tempos modernos, um catedrático da universidade da vida. Certo dia teve a subtileza de admitir que o segredo, se assim se pode designar, para a sua longevidade foi o desafio constante. Dizia que “temos de nos desafiar” porque “parar é morrer”. Serviu de mote para esta nova publicação: o resultado de um desafio a mim mesmo.

O desafio consubstanciou três vertentes fundamentais: (1) envolver uma amostra da principal competição desportiva do mundo, excetuando os Jogos Olímpicos: o Campeonato Mundial de Futebol da FIFA; (2) publicar numa revista internacional com revisão de pares; (3) efetuar sozinho todos os procedimentos desde o projeto de investigação até à revisão das provas, caso fosse aceite para publicação. Tudo isto resumiu-se numa simples questão: “serei capaz?”. No passado dia 6 de maio de 2019, a publicação online na revista britânica Science and Medicine in Football confirmou que sim (figura 1).

Figura 1. Capa oficial da revista "Science and Medicine in Football".
(fonte: Routledge - Taylor & Francis Group)

Nem tudo foi um mar de rosas. Por exemplo, na primeira opção de submissão não passou do editor, por considerar que a amostra de sequências ofensivas não permitia a generalização dos dados. Depois de 6 ou 7 meses de trabalho termos um produto final que, à partida, é barrado pelo editor de uma revista, sem sequer ser alvo de revisão por pares, é inglório e demasiado frustrante. Perseverança, resiliência e determinação. O próximo passo foi ainda mais desafiante, pois subi a fasquia. Felizmente, foi bem acolhido por ambos os revisores, a quem devo uma palavra de agradecimento pela pertinência das correções/sugestões propostas. Os agradecimentos são extensíveis ao amigo Tiago Salvador, sempre disponível para recolher dados e/ou aferir as fiabilidades intra e interoperador. Fiz questão de deixar esta gratidão patente no artigo final, tal como uma dedicatória a um (pequeno) ser humano que mudou a minha visão do mundo para melhor: o meu filho Carlos Jorge de Almeida.

A investigação em si permitiu identificar algumas tendências ofensivas do futebol moderno, em particular de equipas de elite bem-sucedidas. A capacidade de impor ritmos mais elevados de circulação de bola e de envolvimento coletivo parece ser determinante para romper organizações defensivas cada vez mais sofisticadas. A mera percentagem de posse de bola, carente de objetividade ou propósito, não aparenta estar relacionada com o sucesso numa competição como o Mundial da FIFA. A posse de qualidade, cujo objetivo é criar condições mais propícias para finalizar em golo, sobressaiu como uma tendência relevante das equipas que seguiram para os oitavos-de-final da prova. A variabilidade de soluções táticas ofensivas e a importância dos esquemas táticos, ainda que estes últimos não tenham diferenciado equipas eliminadas de equipa apuradas para a fase seguinte da competição (figura 2), foram também alvo de discussão.

Figura 2. Inferência Baseada na Magnitude para os indicadores de performance estudados (nota: para valores mais afastados da origem - 0 - maiores as diferenças entre equipas eliminadas e qualificadas).

De seguida, apresento-vos o “abstract” (resumo) do artigo que foi produzido sob a chancela do Centro de Investigação em Desporto e Educação Física (CIDEF) do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT), em Portimão.

Abstract
This study aimed to compare the offensive sequences that resulted in goals in the group stage of the 2018 FIFA World Cup according to teams’ status: eliminated versus qualified for the knockout phase. Successful offensive sequences performed in the group stage by eliminated (n = 39) and qualified teams (n = 83) were notated post-event using an adapted version of the Offensive Sequences Characterisation System, which includes simple and composite performance indicators. Magnitude-based inferences revealed that performances indicators Passes/Duration, Passes/Ball touches, Players/Duration and Passes/Players were key to differentiate eliminated and qualified teams. Performance profiles emerging from qualified teams suggest the ability to impose a faster game pace (of ball passing and collective involvement) is more relevant to offensive effectiveness in elite football than the mere amount of sport-specific actions performed. Although offensive sequences with more passes, ball touches and duration had a possible positive effect on reaching the knockout phase, the offensive behaviours of qualified teams highlighted the importance of ‘quality possession’. Indeed, offensive sequences involving more players (teamwork) and favouring ball passing instead of individual ball retention seem to facilitate the emergence of goal-scoring events. Considering these findings, professional coaches are encouraged to design playing-form activities aiming to promote team-based offensive strategies, including task constraints to increase the game pace and the frequency of ‘penetrating passes’ into vital playing areas.

Keywords: football, notational analysis, team performance, technical component, contextual variables

Reference
Almeida, C. H. (2019). Comparison of successful offensive sequences in the group stage of 2018 FIFA World Cup: eliminated vs. qualified teams. Science and Medicine in Football. doi: 10.1080/24733938.2019.1613557 (free eprint here)

Como tudo encerra uma lição de vida, estes cerca de 11 meses mostraram-me que, embora seja crucial desafiarmos e superarmos as nossas dúvidas ou barreiras pessoais, o trabalho de equipa é altamente recomendado. Se é verdade que sozinhos podemos chegar mais depressa, acompanhados chegaremos provavelmente mais longe.

Torço para que seja uma leitura aprazível para o leitor ou, para todos os que fazem do futebol e/ou do desporto um modo de vida, que inclua informação útil para a sua atividade profissional.

Até breve!

01/05/2019

Iker Casillas e a vulnerabilidade humana

O futebolista Iker Casillas (na fotografia), profissional do FC Porto, sofreu esta tarde um enfarte agudo do miocárdio na sessão de treino da sua equipa, segundo veiculam os meios de comunicação social portugueses.

Fotografia. Iker Casillas em ação no FC Porto (fonte: bbc.co.uk).

O guarda-redes espanhol, campeão mundial e europeu pela sua seleção, entre inúmeros títulos conquistados pelo Real Madrid CF e pelo FC Porto, não aparenta exibir um dos quaisquer famigerados fatores de risco cardiovascular. Ao nível que compete – elite –, os jogadores são monitorizados diariamente nas unidades de treino e muitas vezes fora dos horários de trabalho, incluindo os períodos de sono. Além disso, são submetidos a exames medico desportivos regularmente e decerto com uma minúcia pouco acessível à população em geral.

Então, indago: como é que raio isto aconteceu? Stress competitivo, sobressolicitação, sobretreino? Esqueçamos clubismos, competitividades exacerbadas e despropositadas. A linha que separa a vida da morte é muito mais ténue do que se imagina; foquemo-nos no que realmente importa na vida.

Votos de rápidas melhoras, campeão!

14/08/2017

Leituras de verão

Ler e escrever. Escrever e ler. Hoje em dia são ações contra um tempo que cavalga feroz para lugar nenhum. O Sol traz consigo a praia e a praia, por sua vez, os livros não técnicos, os livros que me desenjoam das rotinas quotidianas. Ao velho – e quase esquecido – blogue Linha de Passe trago-lhe duas excelentes leituras recentes: As Rosas de Atacama (2011) do inevitável Luis Sepúlveda e Mendel dos Livros (2014) do, para mim, totalmente desconhecido Stefan Zweig.

Estes são autores de épocas distintas, naturais de partes distantes do globo, mas com o condão de enaltecer o pior e o melhor da espécie humana. Se ainda podemos celebrar tempos de paz e harmonia perto de nós, talvez o futuro se encarregue de nos relembrar que nunca estaremos a salvo da humanidade.

As Rosas de Atacama

Imagem: Capa do livro «As Rosas de Atacama» (Porto Editora).

Vi a obra de muitos pintores – e desculpem – desconheço até agora o abalo emocional que – para além de O Grito de Munch – uma pintura pode causar. Estive também diante de inúmeras esculturas e só nas de Agustín Ibarrola encontrei a paixão e a ternura expressas numa linguagem que as palavras nunca atingirão. Suponho que terei lido uns mil livros, mas nunca um texto me pareceu tão duro, tão enigmático, tão belo e ao mesmo tempo tão dilacerante como aquele escrito sobre uma pedra. (p. 7)

Eu estive aqui e ninguém contará a minha história.
(campo de concentração Bergen Belsen, Alemanha)

A cobiça será sempre como uma agulha de gelo nas pupilas. (p. 30)

A história d’ O Pirata de Elba, segundo Luis Sepúlveda: Os meus filhos gostam desta história, e espero ainda contá-la um dia aos meus netos, porque, se é certo que a vida é breve e frágil, também é verdade que a dignidade e a coragem conferem vitalidade que nos faz suportar os seus enganos e desditas. (p. 37)

No capítulo «Baleias no Mediterrâneo»: Sou um grande pessimista quando se trata de comover os ociosos endinheirados, mas, por uma questão de fé na espécie humana, quero crer que, num futuro não muito distante, um industrial qualquer, ou um banqueiro, em vez de oferecer ao filho adolescente uma moto de água, irá convidá-lo para o mesmo lugar do Norte da Sardenha donde eu avistei as baleias; e ali, juntamente com os filhos dos pescadores, esse rapaz ficará maravilhado com o espetáculo dos cetáceos movendo-se no seu espaço natural e protegido, porque a vida é e será sempre a mais digna e prometedora das dádivas. (p. 59-60)

«As Rosas Brancas de Estalinegrado»: Nunca vim a saber se Moscovo é uma cidade bela, porque a beleza das cidades só existe refletida nos olhos dos seus habitantes, e os moscovitas olham insistentemente para o chão, como se procurassem uma terra inútil perdida debaixo dos pés. (p. 95)

A história de duas compatriotas chilenas, vítimas do sequestro e da violência do regime ditatorial. «A morena e a loira»: A morena e a loira. Carmen e Marcia. Lá vão no seu andar seguro e com o orgulho das que jogaram tudo. Aqueles corpos falam de amor, guardam o amor de todos os caídos. (…) Minissaias em flor dos anos setenta, revoltosas de lições e de costumes, subversivas do amor e das ideias, companheiras da alma e da esperança, com que orgulho as contemplo, às minhas eternas raparigas! (p. 141-142)

Mendel dos Livros

Imagem: Capa do livro «Mendel dos Livros» (Assírio & Alvim).

Novela escrita em 1929 e que constitui a antecipação em mais de uma década do definhamento do próprio autor, vítima da barbárie nacional-socialista. Um autor e um personagem que perderam tudo: o país, a língua, os leitores e o sentido da vida. A conclusão é brilhante, a narrativa prévia não lhe fica atrás: Pois ela, mulher sem estudos ao menos guardara um livro para se recordar melhor dele, mas eu, tinha-me esquecido durante anos de Mendel dos livros, precisamente eu que tinha a obrigação de saber que os livros só se criam com o fim de unir as pessoas para além da sua própria existência e, assim, de se defender do inexorável oponente de tudo o que vive: fugacidade e o esquecimento. (p. 86-87)

27/09/2016

Para onde vão os guarda-chuvas (2015)

A obra «Para onde vão os guarda-chuvas» foi concebida por Afonso Cruz, não um mero escritor português, mas um ser das artes: cineasta, ilustrador e músico. Vive no campo e gosta de cerveja. Diria que fugiu da confusão que nos tolda o juízo e a criatividade. A arte implica tempo e espaço, daqueles que pouco se têm no frenesim da grande cidade.

Figura. Capa do livro «Para onde vão os guarda-chuvas», de Afonso Cruz.
(fonte: www.wook.pt)

Adiante, um livro sobre o oriente, sobre uma outra cultura ou culturas distantes da nossa. Desde os rituais muçulmanos à religião hindu, Afonso Cruz cria um enredo que quase leva os mais descrentes a Alá. É fantástico o modo como capta e nos transmite tanta singularidade quotidiana num romance só. Não contem comigo para ser spoiler. Comprem o livro, peçam-no emprestado, mas leiam-no. Depois, para além da trama que o autor criou, a obra está repleta de autênticas pérolas filosóficas ou, pelo menos, daquelas que me fazem parar, pensar, ler outra vez e pensar um pouco mais. A título de exemplo:

Mas, num desses dias, apesar da felicidade que andava a sentir, voltaram-lhe os pensamentos que costumava ter, pensamentos de arrastar pelo chão: Esta felicidade só pode trazer uma tragédia, tenho muito medo do destino, tenho a sensação de que o nosso riso atrai a desgraça. (p. 56)

A vida e a morte, a felicidade e a tragédia. No fundo, a dualidade no caminho do ser humano. É uma constante.

A criação foi feita através de uma pergunta e não de uma resposta. Se fosse uma resposta, uma certeza, estaríamos todos parados, ancorados na verdade, nos factos. Mas, se evoluímos, é porque andamos a erguer um ponto de interrogação como estandarte. O ponto de interrogação é a verdadeira bandeira do homem. É preciso esquecer os países, as fronteiras, as certezas. O futuro é uma pergunta. (p. 328)

Uma prosa poética de tão bela. Não poderia concordar mais: o futuro é uma pergunta, o mistério a fonte de inspiração para evoluirmos.

A melhor maneira de fazer uma pessoa cair é levá-la para um lugar alto, o universo sabe fazer isso muito bem, sabe levar-nos para cima das coisas para melhor nos empurrar. Não se empurra uma pessoa que está no chão, é preciso ampará-la primeiro, é preciso fazê-la subir umas escadas. É preciso que a pessoa sinta vertigens. É preciso que caia de muito alto. É assim que o universo ri. (p. 506)

Alguns dirão que é o «karma», o destino. Como refere o autor é um equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado. O universo não faz somente cair, faz cair com estrondo. Antes, porém, ampara-nos, faz-nos subir. Um excerto que deveria ser uma enorme lição de humildade para todos nós.

Para onde vão os guarda-chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda-chuvas? (…). (p. 530)

Para onde vai a vida? Suponho que seja uma pergunta de um milhão de euros. Alguém sabe a resposta? Não sabemos por agora, talvez um dia, mas podemos sempre imaginar. E imaginar pela positiva dá outro brilho ao que por cá andamos a fazer.

De resto, do apêndice de Fragmentos Persas (Anónimo, século I depois de Hégira) do livro, destaco o número 363: Criámos os caracóis para fazer o mundo mais lento. (p. 666) Quem me ofereceu o livro sabe que o mundo se tornou mais lento, quiçá eterno, no dia em que os seus caracóis tomaram conta do (meu) universo.

Referência
Cruz, A. (2015). Para onde vão os guarda-chuvas (4ª ed.). Lisboa: Companhia das Letras.