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28/08/2026

Artigo do mês #80 – agosto 2026 | Para além do plano de sessão: planeamento adaptativo nas academias de futebol juvenil

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

- 80 -

Autores: McGuire, R., Kilduff, L., Waldron, M., Mcnarry, M., Drawer, S., Buchanan, N., Cropley, B., & Metcalfe, R. S.

País: Reino Unido

Data de publicação: 1-agosto-2026

Título: Beyond the session plan: Adaptive planning in youth football academies

Referência: McGuire, R., Kilduff, L., Waldron, M., Mcnarry, M., Drawer, S., Buchanan, N., Cropley, B., & Metcalfe, R. S. (2026). Beyond the session plan: Adaptive planning in youth football academies. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261470313

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 80 – agosto de 2026.

 

Apresentação do problema

Nas academias de futebol do Reino Unido, os treinadores são responsáveis não apenas pela condução das sessões, mas também pelo planeamento das estruturas de treino e dos programas de desenvolvimento a diferentes escalas temporais. Contudo, a investigação tem incidido sobretudo no conteúdo e na pedagogia das sessões individuais, com menor atenção à forma como os treinadores conceptualizam, organizam e sequenciam o processo de treino a médio e longo prazo (Hornig et al., 2019; O’Connor et al., 2018; Partington & Cushion, 2013). Esta questão assume particular relevância perante a complexidade e a natureza individual do percurso formativo dos jogadores. Perspetivas como a pedagogia não linear, a dinâmica ecológica e a abordagem baseada nos constrangimentos defendem ambientes de aprendizagem representativos, adaptáveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2016; Davids et al., 2008; Renshaw et al., 2019). Estas abordagens pressupõem um planeamento flexível, capaz de responder às necessidades dos jogadores e à informação contextual, embora a sua aplicação prática permaneça variável (Pinder et al., 2011; Renshaw & Chow, 2019). 

Nas academias de futebol, o planeamento procura conciliar as necessidades individuais de desenvolvimento, os programas de formação dos diferentes escalões, os objetivos a longo prazo, a filosofia do clube e as exigências de desempenho (Ford et al., 2011; Williams & Hodges, 2023). Este contexto distingue-se do futebol sénior, onde tendem a prevalecer objetivos estratégico-táticos e de resultado a curto prazo (Cushion et al., 2003; Kinnerk et al., 2023). O desenvolvimento de jovens jogadores exige, por isso, maior flexibilidade na organização do processo. Apesar disso, permanece pouco estudada a forma como esta flexibilidade se concretiza na prática (O’Gorman et al., 2021). 

Os modelos de planeamento descritos na literatura organizam-se habitualmente em ciclos macro (época/clube), meso (bloco/fase) e micro (sessão/escalão). Contudo, esta estrutura hierárquica nem sempre reflete a realidade das academias de futebol, onde os planos devem responder a exigências políticas, organizacionais e interpessoais (Taylor & Garratt, 2010). A investigação neste âmbito demonstra que as orientações previamente estabelecidas não são aplicadas de forma uniforme, mas antes interpretadas, negociadas e adaptadas às características específicas de cada organização (O’Gorman et al., 2021) (Figura 2).

 

Figura 2. Articulação entre teoria e prática no planeamento em academias de futebol (imagem não publicada pelos autores).

 

Não obstante o seu valor teórico, os modelos existentes oferecem orientações limitadas sobre a forma de planear a aprendizagem no quotidiano das academias, onde as prioridades podem alterar-se em função das circunstâncias. Neste contexto, o planeamento adaptativo tem sido proposto como uma abordagem mais funcional, capaz de responder às necessidades emergentes e às particularidades da prática (Abraham & Collins, 2011; Collins & Collins, 2021). Permanece, contudo, pouco claro até que ponto os treinadores adotam estes princípios, de forma consciente ou implícita, e como os operacionalizam. Torna-se, assim, relevante compreender como os próprios treinadores conceptualizam e concretizam o planeamento, quais os fatores que sustentam as suas decisões e de que modo conciliam diferentes exigências ao longo do tempo. 

Face ao exposto, o estudo procurou compreender como treinadores e outros responsáveis técnicos de academias de futebol de formação planeiam o desenvolvimento dos jogadores em diferentes escalas temporais. A análise incidiu sobre a forma como este processo é conceptualizado, estruturado e adaptado nas sessões de treino, em blocos de trabalho e numa perspetiva de desenvolvimento a longo prazo. Através de uma abordagem exploratória centrada na prática, os autores analisaram ainda os principais fatores que orientam as decisões dos treinadores no contexto das academias.

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

O estudo adotou uma abordagem qualitativa, de orientação pragmática, com o propósito de compreender como as decisões relativas ao planeamento e à conceção das sessões são tomadas em contextos reais de treino (Morgan, 2007). Para explorar as experiências e perspetivas dos participantes, realizaram-se entrevistas semiestruturadas, posteriormente examinadas através de análise temática, de modo a identificar e organizar padrões relevantes nos dados (Braun & Clarke, 2006). Esta abordagem privilegiou a obtenção de conhecimento prático e contextualizado sobre a realidade das academias de futebol.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 10 profissionais de academias de futebol juvenil do Reino Unido, selecionados intencionalmente por possuírem responsabilidades diretas no planeamento das sessões ou dos programas de formação. Todos trabalhavam em academias de Categoria 1 ou 2, segundo a classificação do Elite Player Performance Plan (EPPP) da Premier League, ou em estruturas equivalentes, e possuíam, pelo menos, 3 anos de experiência. A amostra incluiu treinadores e responsáveis por diferentes áreas e etapas da formação, com uma experiência média de 12,9 ± 8,7 anos. Esta diversidade permitiu analisar o planeamento tanto ao nível estratégico e organizacional, como na sua aplicação quotidiana no treino.

 

·     Entrevistas

O guião das entrevistas foi desenvolvido com base nos objetivos do estudo e na literatura sobre planeamento, conceção das sessões e desenvolvimento dos jogadores, tendo sido posteriormente testado e ajustado através de uma entrevista-piloto. As entrevistas, de natureza semiestruturada, abordaram 4 áreas: (1) percurso e influências dos treinadores; (2) planeamento das sessões e comportamentos de treino; (3) planeamento em diferentes escalas temporais; e (4) conceção das tarefas segundo o Four Corner Model, que contempla as dimensões tático-técnica, física, psicológica e social do desenvolvimento dos jogadores. As questões abertas permitiram explorar exemplos concretos de adaptação, colaboração e dificuldades no processo de planeamento. Todas as entrevistas foram realizadas através da plataforma Zoom.

 

·     Análise dos dados

Os dados foram examinados através de análise temática, segundo o processo de 6 fases proposto por Braun e Clarke (2006). Adotou-se uma abordagem predominantemente indutiva, na qual os códigos foram identificados a partir dos discursos dos participantes e posteriormente agrupados e refinados em subtemas e temas de ordem superior (Braun & Clarke, 2006, 2021). A análise privilegiou o significado explícito das experiências relatadas, ainda que tenha recorrido a interpretações mais profundas quando necessário. O rigor metodológico foi reforçado através do registo sistemático das decisões analíticas, da reflexão crítica e da discussão das interpretações com especialistas, com o propósito de assegurar a sua coerência e sustentação nos dados (Korstjens & Moser, 2017).

 

Principais resultados

Os resultados foram organizados em 3 temas principais e 6 subtemas, que representam diferentes níveis do processo de planeamento nas academias: (1) planeamento de ordem superior; (2) processo de planeamento; e (3) processo de implementação. No seu conjunto, descrevem como as intenções de desenvolvimento a longo prazo se traduzem em programas estruturados, orientam a conceção das sessões e são posteriormente adaptadas durante a sua aplicação prática.

 

Tema 1 – Planeamento de ordem superior

 

·     Fundamentos e estrutura dos programas de formação

As academias partiram, geralmente, de uma filosofia de jogo comum a todo o clube, posteriormente traduzida em princípios de jogo, modelos de jogo e conteúdos tático-técnicos que orientaram o planeamento a longo prazo e as sessões de treino. Estes conteúdos foram habitualmente organizados em blocos (mesociclos) de 3 a 8 semanas, subdivididos em objetivos semanais. Apesar de esta estrutura fornecer uma orientação comum, coube aos treinadores interpretar e adaptar os princípios às necessidades dos jogadores e ao contexto de treino. Alguns participantes mostraram-se, contudo, críticos perante tarefas excessivamente prescritivas, sobretudo quando estas privilegiaram exercícios analíticos, pouco desafiantes e baseados na repetição. Eis o exemplo de um treinador participante:

 

Quando trabalhava a tempo parcial... tínhamos uma coisa chamada circuito de Anderlecht, que consistia em repetição sem oposição. Era uma m***a. E, se os elementos da equipa técnica a tempo inteiro não estivessem presentes, nós não o fazíamos. Fazíamos algo que permitisse obter os mesmos resultados técnicos, mas com vários outros resultados e com uma melhor conceção da tarefa.

 (Participante 3)

 

·     Processo multidisciplinar

O planeamento do desenvolvimento dos jogadores assumiu um caráter multidisciplinar, com contributos de treinadores, especialistas das ciências do desporto, psicólogos, equipa médica e outros profissionais das academias. Esta colaboração ocorreu sobretudo nos níveis meso e micro, com particular incidência na conceção das sessões e no apoio à competição. Os participantes destacaram a necessidade de articular os objetivos de aprendizagem com aspetos como a carga física, as restrições médicas e as necessidades específicas dos jogadores.

 

·     Foco no desenvolvimento individual

Não obstante o contexto coletivo, os participantes atribuíram grande importância à individualização do desenvolvimento. Os Planos Individuais de Desenvolvimento (PIDs) constituíram a principal ferramenta para articular as necessidades de cada jogador com os objetivos das sessões. Esta integração representou, contudo, um desafio, pelo que os treinadores concentraram habitualmente a intervenção individualizada em 1 a 4 jogadores por sessão. Como explicou um dos participantes:

 

Trata-se de tentar alinhar o desenvolvimento previsto nos PIDs dos jogadores com os objetivos coletivos. É encontrar uma forma de integrar o maior número possível de PIDs sem comprometer o equilíbrio daquilo que se pretende fazer com a equipa.

(Participante 1)

 

Tema 2 – Processo de planeamento

 

·     Elementos de conceção das sessões

Os participantes recorreram a diferentes formas de planeamento formal, desde simples notas ou esquemas até planos digitais, mantendo algum tipo de documento como referência durante as sessões. A conceção das tarefas articulou diversos elementos, como a manipulação do espaço e do número de jogadores, a progressão através dos constrangimentos da tarefa, os objetivos do mesociclo e as necessidades individuais previstas nos PIDs. Os treinadores procuraram ainda equilibrar a representatividade das tarefas com a repetição necessária dos comportamentos pretendidos.

 

·     Four Corner Model (Modelo dos Quatro Cantos da FA Premier League)

O Four Corner Model contempla 4 dimensões do desenvolvimento dos jogadores: tático-técnica, física, psicológica e social. Contudo, os participantes reconheceram que as duas primeiras concentraram a maior parte da atenção no planeamento, enquanto as dimensões psicológica e social tenderam a assumir um papel secundário. A dimensão psicológica nem sempre foi integrada no treino de forma explícita, apesar da importância que os próprios treinadores lhe atribuíram para a progressão dos jogadores. A dimensão social revelou ainda alguma indefinição quanto ao seu propósito e conteúdo, por vezes confundida com aspetos psicológicos ou reduzida à integração e coesão da equipa. Como reconheceu um dos participantes:

 

Um aspeto que eu e outros treinadores deste clube sentimos é que as dimensões social e psicológica são, de certa forma, negligenciadas e provavelmente pensamos nelas em último lugar. Como podemos inverter este modelo de alguma forma? Para ser sincero, não creio que alguma vez consigamos inverter este modelo.

(Participante 10)

 

Tema 3 – Implementação do processo

 

·     Tomada de decisão durante a sessão

Os participantes salientaram a necessidade de conciliar um planeamento detalhado com a capacidade de adaptar a sessão em função do que ocorre no momento. A observação dos comportamentos dos jogadores e das oportunidades de aprendizagem que emergiram orientou estas decisões: quando os objetivos foram alcançados mais cedo do que o previsto, os treinadores tenderam a modificar ou fazer progredir a tarefa; quando as respostas pretendidas não surgiram, mostraram maior propensão para manter a estrutura planeada. Deste modo, o plano funcionou como uma referência, mas não como uma estrutura rígida. Os participantes entenderam a adaptação como parte integrante do próprio processo de planeamento e como uma competência fundamental do treinador. Como explicou um dos participantes:

 

Mais uma vez, tendo sido professor anteriormente, percebi que não devemos, nem podemos, seguir o plano da sessão como se fosse um evangelho. É necessário adaptar, e essa é, em última análise, a competência de um treinador: a forma como nos adaptamos no momento.

(Participante 1)

 

Aplicações práticas

Com base nas experiências e opiniões dos profissionais participantes no estudo, identificámos 4 aplicações práticas relevantes para o planeamento do treino em academias de futebol. No seu conjunto, salientam a importância de conciliar estrutura, individualização e capacidade de adaptação no desenvolvimento dos jovens jogadores. 

1. Utilize os planos como referências, não como guiões rígidos: o planeamento deve estabelecer objetivos, conteúdos e uma estrutura coerente com a filosofia e os princípios de jogo do clube, sem limitar a capacidade de resposta do treinador. Durante a sessão, a observação dos jogadores deve orientar eventuais adaptações às tarefas, sem perder de vista os objetivos definidos. Adaptar não significa abandonar o plano, mas ajustá-lo perante aquilo que emerge no treino. 

2. Reavalie programas excessivamente lineares e tarefas demasiado prescritivas: a organização dos conteúdos em blocos pode conferir estrutura ao desenvolvimento a longo prazo, mas não implica que determinado conteúdo fique concluído após um único período de trabalho. Uma abordagem em espiral, que revisite conteúdos em diferentes momentos e com maior complexidade ou em novos contextos, pode constituir uma alternativa. Embora o trabalho analítico e a repetição técnica possam manter o seu espaço no processo de treino, não deverão assumir maior relevância do que tarefas mais desafiantes, dotadas de maior variabilidade e representativas das exigências da competição. 

3. Integre explicitamente as dimensões psicológica e social no planeamento: se bem que os treinadores tenham valorizado estas componentes, atribuíram-lhes menor atenção formal do que às dimensões tático-técnica e física. Aspetos psicológicos e sociais não devem constituir elementos adicionais ou isolados do treino, mas estar incorporados nas próprias tarefas e nos objetivos de desenvolvimento. Maior clareza sobre o que desenvolver e como operacionalizar estas dimensões poderá reforçar a sua presença no quotidiano. 

4. Desenvolva a capacidade de observar, interpretar e decidir durante a sessão: a adaptabilidade deve ser entendida como uma competência do treinador e não como simples reação ao imprevisto. O planeamento pode antecipar possibilidades de progressão ou ajustamento das tarefas, mas a decisão final deve atender às respostas dos jogadores e às oportunidades de aprendizagem que surgem no contexto. A formação de treinadores deverá, por isso, valorizar não apenas a capacidade de planear, mas também o julgamento situacional e a reflexão durante a ação.

 

Conclusão

O presente estudo evidencia que o planeamento nas academias de futebol constitui um processo dinâmico e organizado em diferentes níveis, no qual as orientações de longo prazo, a estrutura formal das sessões e as decisões tomadas durante o treino se encontram interligadas. Longe de constituir uma hierarquia rígida, este processo combina a filosofia e os programas de formação do clube com as necessidades individuais dos jogadores, o contributo de diferentes áreas profissionais e as exigências que surgem na prática. Os resultados reforçam, assim, a importância de conciliar estrutura e adaptabilidade: os planos estabelecem objetivos e orientam a intervenção, mas devem permitir ajustes perante as respostas dos jogadores e as oportunidades de aprendizagem que aparecem durante as sessões. Por isso, o planeamento não deve ser entendido como mero cumprimento de programas previamente definidos, mas como uma competência dinâmica que exige coordenação, reflexão, julgamento situacional e capacidade de adaptação ao contexto.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

29/01/2026

Artigo do mês #73 – janeiro 2026 | Jogadores rápidos mantêm-se rápidos e jogadores lentos mantêm-se lentos? Evolução da velocidade máxima de sprint dos Sub-12 aos Sub-19

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 73 -

Autores: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S.

País: Alemanha

Data de publicação: 7-janeiro-2026

Título: “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period

Referência: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S. (2026). “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–10. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541251410449

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 73 – janeiro de 2026.

 

Apresentação do problema

O futebol é uma modalidade altamente exigente, na qual ações de elevada intensidade, como o sprint, são determinantes para o desempenho competitivo (Haugen et al., 2014). O sprint linear assume particular relevância em episódios decisivos do jogo, nomeadamente em situações de finalização (Faude et al., 2012). Por essa razão, a avaliação do desempenho em sprint constitui uma prática consolidada em contextos de alto rendimento, permitindo distinguir componentes-chave como a aceleração e a velocidade máxima de sprint (maximal sprinting speed – MSS) (Haugen & Buchheit, 2016; Altmann et al., 2019). Nos últimos anos, a MSS afirmou-se como uma das métricas centrais na investigação aplicada ao futebol (Thron et al., 2024). 

Este protagonismo decorre, em grande parte, da facilidade com que a MSS pode ser avaliada em contexto de treino, viabilizada pelos avanços tecnológicos associados aos sistemas de navegação global por satélite (Altmann et al., 2024). Ao contrário das velocidades observadas em competição, frequentemente condicionadas por fatores estratégico-táticos, o treino oferece condições mais controladas para a expressão de velocidades máximas, favorecendo a monitorização regular do desenvolvimento da velocidade (Al Haddad et al., 2015). Acresce que a MSS apresenta menor suscetibilidade a erros de medição do que indicadores baseados em tempos parciais muito curtos, o que reforça a sua robustez para fins científicos e práticos (Altmann et al., 2018). 

No futebol jovem, a MSS é amplamente valorizada pela sua associação a ações decisivas, como duelos em sprint e corridas em profundidade, refletindo-se nos processos de identificação e seleção de talento, onde o desempenho em sprint assume um papel central (Williams et al., 2020; Altmann et al., 2024). Embora a evidência direta que relacione a MSS com o desempenho competitivo em jovens seja ainda limitada, têm sido reportadas associações moderadas com o desempenho físico em jogo (Buchheit et al., 2010). De forma consistente com esta valorização prática, técnicos de academias de elite identificaram a velocidade como o principal fator para o desenvolvimento e seleção de jogadores (Kite et al., 2022; Altmann et al., 2024). 

Neste contexto, torna-se essencial distinguir entre desempenho atual e potencial de desenvolvimento, uma questão particularmente sensível no futebol jovem (Williams et al., 2020). Apesar de a MSS ser frequentemente descrita como uma capacidade fortemente influenciada por fatores genéticos, existe evidência clara de melhorias relevantes ao longo da adolescência (figura 2), bem como de estabilidade limitada do desempenho em sprint durante este período (Murtagh et al., 2023; Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013; Morris et al., 2018). Deste modo, importa questionar se o posicionamento relativo dos jogadores em MSS face a pares da mesma idade se mantém estável ou se sofre flutuações significativas, colocando em causa decisões de seleção assentes na premissa de que “os rápidos se mantêm rápidos enquanto os mais lentos permanecem lentos” (Leyhr et al., 2018; Saward et al., 2020).

 

Figura 2. O desempenho de sprint pode modificar-se ao longo da adolescência (fonte: amaven.co.uk; imagem não publicada pelos autores).

 

Durante a adolescência, o desempenho em sprint tende a melhorar, mas segundo trajetórias não lineares, resultantes da interação entre crescimento, maturação biológica e treino (Ruf et al., 2024; Morris et al., 2018). Estas trajetórias variam substancialmente entre jogadores, uma vez que o momento e o ritmo de maturação diferem de forma marcada entre indivíduos, o que se traduz numa elevada variabilidade do desempenho relativo dentro do mesmo escalão etário (Philippaerts et al., 2006; Williams et al., 2011).

Apesar da relevância amplamente reconhecida do desempenho em sprint para o rendimento e para os processos de seleção no futebol infantojuvenil, a investigação disponível baseia-se maioritariamente em desenhos transversais, incapazes de captar trajetórias individuais de desenvolvimento ou de esclarecer a estabilidade dos rankings de desempenho ao longo do tempo (Williams et al., 2020). Até ao momento, apenas um estudo analisou o desenvolvimento relativo a longo prazo da MSS e identificou flutuações consideráveis nos rankings entre os Sub-12 e os Sub-18 (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013). No entanto, o reduzido tamanho amostral limitou a generalização desses resultados e justificou a realização de estudos adicionais com amostras mais alargadas. 

Face a estas lacunas, o presente estudo analisou o desenvolvimento da MSS em jovens futebolistas altamente treinados, descrevendo os valores absolutos por escalão etário, as alterações no posicionamento relativo entre escalões consecutivos e a estabilidade a longo prazo da MSS ao longo de vários anos. A compreensão destas dinâmicas é determinante para interpretar o desempenho atual e o potencial futuro dos jogadores e para sustentar práticas de identificação e seleção de talento baseadas em evidência.

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

O estudo adotou um desenho retrospetivo, longitudinal misto, com base em dados de MSS de jovens futebolistas altamente treinados. A MSS foi avaliada através de um sprint linear de 30 m, realizado duas vezes por época no âmbito de uma bateria padronizada de testes físicos. Em cada época, foi considerada a melhor tentativa por jogador, resultando em 1 a 7 pontos de dados por jovem jogador (2,2 ± 1,4). A maioria dos jogadores apresentou entre 1 e 3 avaliações ao longo do período de observação.

 

·     Participantes

A amostra integrou 475 jogadores masculinos de futebol de formação (11–19 anos), com 1042 avaliações de MSS recolhidas entre 2016 e 2024, nos escalões Sub-12 a Sub-19 de uma academia de elite de um clube profissional da Bundesliga alemã. Os jovens foram classificados como altamente treinados (nível 3) segundo o Participant Classification Framework (McKay et al., 2022). O volume semanal variou entre 3 e 5 sessões de treino e 1 jogo, consoante o escalão etário. Os dados resultaram de procedimentos regulares de monitorização, com aprovação ética institucional e consentimento informado dos participantes e respetivos encarregados de educação.

 

·     Procedimentos

Após um aquecimento padronizado de 15 minutos, os jogadores realizaram 3 sprints lineares de 30 m, com 60 s a 3 min de recuperação. Os tempos foram registados aos 5, 10, 20 e 30 m, e a MSS foi calculada a partir da velocidade média no segmento entre os 20 e os 30 m, de acordo com procedimentos validados (Thron et al., 2024; Zabaloy et al., 2024). A avaliação recorreu a células fotoelétricas de feixe duplo (Sportronic; 0,01 s), posicionadas a 0,95 m de altura, com partida a 0,30 m da primeira célula. Os testes decorreram em recinto coberto, sobre relva sintética, no período da tarde, e a melhor tentativa por época foi utilizada para análise. Este método apresenta elevada fiabilidade em futebolistas jovens (ICC = 0,92–0,97; CV = 1,1–1,9%) (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013).

 

·     Análise estatística

Foi utilizada a melhor MSS de cada jogador em cada escalão etário. As MSS foram convertidas em percentis dentro de cada escalão, com base nos quais se definiram 6 grupos de desempenho: mais lentos (≥0.º a <10.º percentil), lentos (≥10.º a <25.º percentil), lento-médio (≥25.º a <50.º percentil), médio-rápido (≥50.º a <75.º percentil), rápidos (≥75.º a <90.º percentil) e mais rápidos (≥90.º a ≤100.º percentil). Para jogadores com dados em escalões consecutivos, quantificaram-se as transições entre grupos (subida, descida ou manutenção), em valores absolutos e percentuais, com uma abordagem descritiva. A estabilidade a longo prazo dos percentis foi avaliada através de coeficientes de correlação intraclasse (ICC 3,1), com intervalos de confiança a 95%, considerando todos os escalões e escalões consecutivos. Apenas jogadores com pelo menos 4 medições (n = 86) foram incluídos nesta análise. A interpretação dos ICC seguiu critérios convencionais de qualidade. Para ilustrar trajetórias individuais distintas, apresentaram-se estudos de caso de 3 jogadores entre os Sub-12 e os Sub-17. As análises foram replicadas para os tempos parciais aos 10 m, cujos resultados detalhados constam do material suplementar, mantendo-se a MSS como variável principal do estudo.

 

Principais resultados

Esta secção organiza os resultados de acordo com os principais tópicos abordados pelos autores e destaca os factos mais relevantes da investigação.

 

·     Desenvolvimento absoluto da velocidade máxima de sprint

A MSS aumentou de forma consistente com a idade em todos os escalões, o que se traduz num desenvolvimento absoluto positivo ao longo da adolescência.

 

·     Transições entre grupos de desempenho

Entre escalões etários consecutivos, as transições descendentes (para grupos mais lentos) ocorreram com maior frequência (41%) do que a permanência no mesmo grupo (35%) ou as transições ascendentes, isto é, para grupos de maior velocidade relativa (24%). Nos grupos de desempenho mais elevados, os jogadores desceram de grupo mais vezes do que subiram, enquanto nos grupos mais baixos surgiu maior probabilidade de progressão.

 

·     Padrões por escalão etário

Os padrões de transição mantiveram-se relativamente consistentes entre escalões. As descidas representaram a maior proporção de mudanças (35–51%), ao passo que as subidas ocorreram com menor frequência (16–29%). As taxas mais elevadas de progressão verificaram-se entre os Sub-17 e os Sub-19, enquanto as maiores descidas ocorreram entre os Sub-13 e os Sub-14.

 

·     Estabilidade relativa a longo prazo

A estabilidade dos percentis de MSS ao longo de todos os escalões revelou-se moderada (ICC = 0,65). Entre escalões consecutivos, a estabilidade variou entre moderada e boa (ICC = 0,61–0,79), o que indica flutuações relevantes no posicionamento relativo dos jogadores ao longo do percurso formativo.

 

·     Estudos de caso

A figura 3 ilustra 3 trajetórias individuais distintas de desenvolvimento da MSS entre os Sub-12 e os Sub-17 e evidencia padrões de estabilidade relativa, progressão sustentada e declínio relativo. Estes casos demonstram a elevada variabilidade interindividual e sustentam que melhorias absolutas da MSS nem sempre se traduzem na manutenção do posicionamento relativo dentro do grupo etário.

 

Figura 3. Estudos de caso longitudinais que ilustram a velocidade máxima de sprint (MSS) individual de 3 jogadores, bem como os respetivos valores absolutos de MSS e percentis, em relação aos grupos de desempenho representados por cores em cada escalão etário. Note-se que nenhum dos 3 jogadores integrou o escalão Sub-19 (Ruf et al., 2026).

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo mostram que a MSS melhora com a idade, mas que o estatuto relativo dos jogadores é instável ao longo do percurso formativo. Esta dinâmica tem implicações diretas para os processos de avaliação e seleção no futebol infantojuvenil. Em seguida, apresentam-se 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas técnicas:

 

1. Monitorizar a MSS numa lógica longitudinal, não classificatória: a estabilidade relativa da MSS é apenas moderada e as transições descendentes são frequentes, sobretudo em jogadores rápidos. A monitorização contínua deve servir para compreender trajetórias individuais ao longo do tempo, e não para rotular precocemente jogadores com base em rankings momentâneos. 

2. Interpretar com cautela as quedas relativas de desempenho, sobretudo nos escalões intermédios: o declínio relativo da MSS ocorre em grande parte dos jogadores ao longo da adolescência e não indica, por si só, regressão física. Em muitos casos, reflete efeitos combinados de maturação, seleção interna e entrada de novos jogadores mais velozes. 

3. Tratar o período entre os Sub-14 e os Sub-16 como uma fase crítica de avaliação: este intervalo etário concentra as maiores melhorias absolutas da MSS e a maior variabilidade interindividual, associada ao pico de crescimento. As decisões de seleção nesta fase devem ser particularmente cautelosas, por forma a evitar penalizar jogadores em estágios maturacionais mais tardios. 

4. Evitar decisões precoces de exclusão com base exclusiva na velocidade: embora a velocidade seja um critério central nos processos de seleção, ser rápido nos escalões iniciais não garante manutenção do estatuto relativo ao longo da adolescência. Do mesmo modo, a progressão tardia é rara, mas possível em jogadores com características específicas. A retenção estratégica de alguns perfis tardios pode reduzir o risco de perda de talento.

 

Conclusão

A estabilidade a longo prazo do desempenho relativo da MSS revelou-se moderada, com transições frequentes entre grupos de desempenho ao longo da adolescência. Cerca de um terço dos jogadores manteve o mesmo posicionamento relativo, enquanto a maioria transitou mais frequentemente para grupos mais lentos do que para grupos mais rápidos. As descidas ocorreram sobretudo entre jogadores de melhor desempenho, ao passo que as subidas foram mais comuns nos grupos de desempenho inferior, um padrão que se manteve entre os diferentes escalões etários. Estes resultados, apoiados por estudos de caso, desafiam a ideia de que jogadores rápidos se mantêm sempre rápidos ao longo da adolescência e providenciam orientações relevantes para a interpretação do desempenho e do potencial futuro em processos de avaliação e seleção de talento.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

30/09/2025

Artigo do mês #69 – setembro 2025 | Influência da presença do treinador e da estimulação verbal na intensidade do exercício e na performance tático-técnica no treino de futebol de formação

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.


- 69 -

Autores: Jiménez, P. P., García-Aliaga, A., Vivar, G. M., & Sillero-Quintana, M.

País: Espanha

Data de publicação: 29-agosto-2025

Título: Influence of coach presence and verbal stimulation on exercise intensity and technical-tactical performance during soccer-specific training in youth players

Referência: Jiménez, P. P., García-Aliaga, A., Vivar, G. M., & Sillero-Quintana, M. (2025). Influence of coach presence and verbal stimulation on exercise intensity and technical-tactical performance during soccer-specific training in youth players. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–11. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541251366278

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 69 – setembro de 2025.

 

Apresentação do problema

O futebol é um desporto sociomotor, dinâmico e imprevisível, com ações tático-técnicas acíclicas e intermitentes (Castellano, 2000; Oyón et al., 2016). As exigências variam conforme o nível competitivo, o modelo de jogo e a posição dos jogadores (Varley et al., 2018). Fisiologicamente, predomina o metabolismo aeróbio, embora os momentos decisivos dependam de esforços anaeróbios (Bangsbo, 2014; Mohr et al., 2003). Durante os jogos, os jogadores percorrem entre 10 e 13 km, com diferentes intensidades consoante a posição em campo. Os médios cobrem maior distância total, enquanto avançados e extremos acumulam mais ações em alta velocidade (Vigne et al., 2010; Andrzejewski et al., 2013). 

Para treinar estas exigências, os treinadores recorrem a jogos reduzidos (JRs), que recriam situações de jogo em espaços menores e com regras ajustadas. Estas tarefas promovem decisões rápidas, competências técnicas e adaptação a estímulos físicos e cognitivos variados (Fernández-Espínola et al., 2020; Alcalá et al., 2020; Ferreira-Ruiz et al., 2022). Os JRs são modelados por constrangimentos que influenciam a resposta dos jogadores e a eficácia do treino (Newell, 1986). Os principais fatores incluem:

 

·  Número de jogadores: menos jogadores aumentam a carga interna e favorecem ações individuais; mais jogadores promovem interações coletivas (Fernández-Espínola et al., 2020).

·    Dimensões do campo: espaços reduzidos geram maior densidade e transições rápidas; campos maiores permitem posses mais longas e corridas em alta velocidade (Ometto et al., 2018).

· Balizas e guarda-redes: a ausência de guarda-redes ou a utilização de balizas pequenas intensifica a resposta fisiológica e aumenta as ações ofensivas. Várias balizas em campo modificam o comportamento tático (Ferreira-Ruiz et al., 2022).

·  Regras do jogo: restrições como limite de toques ou número mínimo de passes elevam a carga cognitiva e induzem adaptações tático-técnicas específicas (Sarmento et al., 2018).

·  Regime de treino: a manipulação da duração, da recuperação e do tipo de esforço modula a carga fisiológica. A alternância entre métodos contínuos e intermitentes pode favorecer a adaptação ao esforço competitivo (Hill-Haas et al., 2009).

 

No seu conjunto, os JRs geram uma carga composta por exigências externas (locomotoras, mecânicas e metabólicas) e internas (psicofisiológicas) (Bourdon et al., 2017). A carga externa refere-se às exigências mecânicas e locomotoras do treino, como distância percorrida, sprints, acelerações e velocidade máxima, sendo atualmente monitorizada com fiabilidade através de sistemas GPS (Swinnen, 2016; Akenhead et al., 2016). A carga interna corresponde à resposta fisiológica e psicológica à carga externa, podendo variar mesmo perante estímulos idênticos, influenciada por fatores como o estado emocional (Impellizzeri et al., 2005; Bourdon et al., 2017). Para a medir, usam-se indicadores como a frequência cardíaca, a perceção subjetiva de esforço (PSE) e a concentração de lactato (Rampinini et al., 2007).

A intervenção verbal do treinador, ainda pouco estudada, pode influenciar a carga interna e externa no decurso de JRs (Falces-Prieto et al., 2015). Essa comunicação pode assumir várias formas, como instruções técnicas, reforço positivo sem correção ou orientações organizacionais (Díaz-García et al., 2021). A estimulação verbal, enquanto reforço positivo, revela-se especialmente eficaz para potenciar a aprendizagem tática e o envolvimento dos jogadores, sobretudo em contextos de alta intensidade (Hill-Haas et al., 2009; Sahli et al., 2022). 

O encorajamento verbal do treinador pode melhorar a motivação, a confiança e a atenção dos jogadores, promovendo uma maior ativação fisiológica associada ao desempenho motor (Khayati et al., 2024; Krahenbuhl, 1975). Também se associa a maior prazer e bem-estar durante a tarefa, possivelmente mediado pela libertação de oxitocina, hormona ligada ao compromisso e à motivação (Selmi et al., 2017; Pepping & Timmermans, 2012). A estimulação verbal revela-se, por isso, uma ferramenta eficaz para potenciar a carga interna, com efeitos positivos na execução técnica e na precisão das ações (Batista et al., 2019; Hammami et al., 2023). Contudo, não há estudos que tenham avaliado o impacto da presença do treinador e dos diferentes tipos de reforço verbal na intensidade e na performance tático-técnica durante JRs.

Este estudo visou analisar essa influência em jovens jogadores de futebol, considerando estímulos verbais centrados no encorajamento e em instruções táticas. Partiu-se da hipótese de que a presença do treinador e o seu apoio verbal aumentam a intensidade do exercício e o desempenho, através de maior motivação e compromisso com a tarefa (Hill-Haas et al., 2009; Sahli et al., 2022).

 

Métodos

 

·     Participantes

O cálculo amostral (G*Power v.3.0.10) indicou 20 participantes. Foram recrutados 20 jogadores Sub-16 da Primeira Divisão Regional de Madrid, excluindo 2 guarda-redes. Por lesão, a amostra final integrou 16 jogadores de campo (15,28 ± 0,48 anos; 175,13 ± 5,02 cm; 61,5 ± 5,93 kg), com 2 treinos semanais de 90 minutos e um jogo oficial. Os critérios de inclusão exigiram ≥4 anos de prática federada e ausência de lesões recentes. Todos entregaram consentimento informado dos encarregados de educação. O estudo foi aprovado pelo Comité de Ética da Universidade Politécnica de Madrid, conforme a Declaração de Helsínquia (2013).

 

·     Materiais

Foram utilizados dispositivos GPS Catapult Vector S7 (10 Hz; acelerómetro a 400 Hz) para medir as exigências físicas, validados para desportos coletivos (Johnston et al., 2014). Os dados foram extraídos via Openfield Field Console 3.9 e Openfield Cloud 4.7 (Catapult Sports, Austrália). As sessões foram filmadas com uma câmara digital COOAU SPC 06 (4K/30FPS; Guangdong, China) para análise técnico-tática.

 

·     Procedimentos

O estudo decorreu durante 4 sessões de treino (terças e quintas às 18h00), em ambiente controlado, para evitar variações circadianas (Drust et al., 2005). Nas duas primeiras sessões, além de informações sobre objetivos e procedimentos metodológicos, promoveu-se a familiarização com os materiais e as tarefas 4v4. 

No terceiro momento de treino, os 16 jogadores foram distribuídos aleatoriamente em 4 equipas, realizando 2 jogos sob 3 condições: ausência de treinador (Absence of a Coach – AC), presença do treinador (Presence of a Coach – PC) e estimulação verbal (verbal stimulation of the coach – VS). A ordem e composição das equipas foram aleatórias para evitar efeitos de aprendizagem. Todos os jogos duraram 3 minutos, com 3 minutos de pausa entre eles. 

Na quarta sessão, os jogadores foram divididos aleatoriamente em grupo controlo e grupo experimental. Testaram-se duas novas condições: estimulação verbal ofensiva (verbal stimulation with tactical-technical offensive instructions – VS_OF) e estimulação verbal defensiva (verbal stimulation with tactical-technical defensive instructions – VS_DF), com contrabalanço da ordem de aplicação (ver figura 2).

 

Figura 2. Desenho do protocolo. Notas: ausência de treinador (Absence of a Coach – AC), presença de treinador (Presence of a Coach – PC), estimulação verbal (Verbal Stimulation – VS), estimulação verbal ofensiva (Verbal Stimulation with tactical-technical offensive instructions – VS_OF), estimulação verbal com instruções técnico-táticas defensivas (Verbal Stimulation with tactical-technical defensive instructions – VS_DF) (Jiménez et al., 2025).

 

Todos os jogos foram filmados e analisados com notação manual (Kelly & Drust, 2009). As ações foram classificadas em 4 categorias (passes, remates, duelos defensivos, interceções) e avaliadas quanto à eficácia (sucesso/insucesso). As fiabilidades intra e interobservador foram verificadas por nova análise independente realizada após 3 meses.

 

·     Protocolo da prática

Os JRs seguiram o formato 4v4 sem guarda-redes, com duas balizas centrais e campo de 36x23 m (103,5 m2/jogador). Aplicaram-se todas as regras do futebol, exceto o fora de jogo. Dez bolas foram distribuídas ao redor do campo para maximizar o tempo útil (Casamichana & Castellano, 2015). A câmara foi colocada na metade oposta para captar todas as ações. Os GPS foram colocados 15 minutos antes da recolha, inseridos em coletes com bolso dorsal. Os dados foram exportados via software Catapult.

 

·     Variáveis

As variáveis independentes corresponderam às diferentes condições sob as quais decorreram os JRs, centradas na presença do treinador e no tipo de estimulação verbal. As variáveis dependentes incluíram indicadores de desempenho físico e tático-técnico. As Tabelas 1 e 2 apresentam as definições operacionais utilizadas neste estudo, de acordo com a literatura de referência.

 

Tabela 1. Variáveis independentes (condições experimentais) do estudo (adaptado de Jiménez et al., 2025).


Tabela 2. Variáveis dependentes (indicadores de desempenho) do estudo (adaptado de Jiménez et al., 2025).

·     Análise estatística

A análise foi realizada no SPSS 19.0. As fiabilidades intra e interobservador foram avaliadas com o coeficiente Kappa de Cohen (1988), enquadrado de acordo com os critérios de Landis e Koch (1977). Como os dados não apresentaram distribuição normal (teste de Shapiro-Wilk) nem esfericidade (teste de Mauchly), recorreu-se a testes não paramétricos. No primeiro caso experimental (AC, PC, VS), aplicaram-se os testes de Friedman e de Wilcoxon para comparações entre condições. No segundo caso (VS_OF vs. controlo; VS_DF vs. controlo), usou-se o teste de Mann-Whitney U. O tamanho do efeito foi calculado com o Hedges’ g (Hedges, 1981), interpretado como pequeno (0,2), médio (0,5) ou grande (≥ 0,8) (Cohen, 1988).

 

Principais resultados

Esta secção apresenta os principais efeitos das diferentes condições experimentais sobre o desempenho físico e tático-técnico dos jogadores durante os JRs. Os resultados estão organizados em 3 subsecções: desempenho físico, desempenho tático-tático e comparações entre as condições com estimulação verbal e o grupo de controlo.

 

·     Desempenho físico

A presença do treinador, sobretudo com encorajamento verbal (VS), influenciou de forma positiva a PSE, que foi significativamente mais elevada face à condição sem treinador (AC). Nas restantes variáveis físicas, observaram-se tendências favoráveis nas condições com estimulação verbal (VS_OF e VS_DF), com destaque para o aumento da distância total percorrida e das ações em alta velocidade na condição defensiva (VS_DF), ainda que nem todos os efeitos tenham sido estatisticamente significativos.

 

·     Desempenho tático-técnico

A estimulação verbal demonstrou efeitos positivos na qualidade e frequência das ações tático-técnicas. A condição defensiva (VS_DF) originou melhorias no número total de passes e de passes bem-sucedidos, sem comprometer o equilíbrio defensivo. Por sua vez, a condição ofensiva (VS_OF) gerou ligeiras melhorias na eficácia dos passes, embora com menor impacto global nas restantes variáveis táticas.

 

·     Comparações com o grupo de controlo

Tanto a estimulação verbal ofensiva como a defensiva mostraram efeitos superiores ao grupo de controlo em diversas variáveis técnicas, com a condição defensiva (VS_DF) a apresentar ganhos mais robustos e consistentes. Os efeitos positivos da condição ofensiva (VS_OF) foram mais moderados e, em alguns indicadores físicos, inferiores aos do grupo de controlo.

 

Aplicações práticas

A análise dos efeitos da presença e da estimulação verbal do treinador em contextos de treino com JRs permite retirar 4 implicações práticas com relevância direta para o planeamento, gestão da carga e otimização do desempenho de jovens futebolistas:

 

1. Valorizar a presença do treinador como fator de mobilização do empenho: a simples perceção de que o treinador observa pode aumentar o esforço percebido pelos jogadores, mesmo sem alterações objetivas na carga externa. Este efeito sugere que a localização e visibilidade do treinador devem ser ponderadas no desenho das tarefas, sobretudo quando se pretende reforçar a implicação cognitiva e emocional das crianças e dos jovens. 

2. Aplicar instruções defensivas para intensificar a carga física: a estimulação verbal com foco defensivo gerou aumentos significativos na distância percorrida e nas exigências externas, constituindo uma estratégia eficaz quando o objetivo passa pelo desenvolvimento da condição física. Indicações como “pressionar alto” ou “fechar linhas de passe” promovem deslocamentos amplos e uma maior ocupação do espaço de jogo – comportamentos associados a tarefas de elevada intensidade. 

3. Reconhecer os efeitos colaterais positivos das instruções tático-técnicas: embora a estimulação verbal ofensiva vise a eficácia atacante, o foco defensivo proporcionou melhorias mais evidentes no número e na eficácia dos passes. Este efeito pode resultar de um estado de alerta superior, induzido pelas exigências defensivas. Assim, as instruções táticas não afetam apenas os comportamentos diretamente visados, mas também influenciam ações ofensivas decorrentes da resposta à pressão adversária. 

4. Equilibrar a estimulação verbal com a autonomia decisional dos jogadores: ainda que as instruções tático-técnicas produzam ganhos físicos e tático-técnicos, uma verbalização excessiva pode comprometer a tomada de decisão em idades críticas para o desenvolvimento tático. Deve existir espaço para a leitura do contexto, para a iniciativa e para o erro. Caso contrário, o treino corre o risco de restringir competências decisórias que urge estimular.

 

Conclusão

A presença do treinador, mesmo sem intervenção verbal, aumenta significativamente o esforço percebido pelos jogadores em JRs 4v4. Já a estimulação verbal focada no desempenho defensivo melhora não só a carga externa, mas também a eficácia ofensiva na ação de passe. Por fim, instruções ofensivas promovem ligeiras melhorias na fluidez ofensiva, sobretudo no número total de passes realizados.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.