31/07/2026

Artigo do mês #79 – julho 2026 | Restrições ao número de toques e ao número de jogadores em jogos reduzidos de jovens futebolistas: efeitos nos indicadores físicos e técnicos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-junho-2026

Título: Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth

soccer players: Effects on physical and technical parameters

Referência: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M. (2026). Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth soccer players: Effects on physical and technical parameters. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–14. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261450910

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 79 – julho de 2026.

 

Apresentação do problema

Os jogos reduzidos (JRs) representam uma estratégia amplamente utilizada no treino de futebol, pois permitem desenvolver adaptações fisiológicas, físicas, técnicas e táticas em contextos representativos da competição (Davids et al., 2013; Hill-Haas et al., 2011). A manipulação dos constrangimentos da tarefa, como o número de jogadores ou o número de toques na bola, influencia as oportunidades de ação disponíveis e proporciona diferentes respostas motoras e tático-técnicas (Borges et al., 2022; Renshaw & Chow, 2018). 

O número de jogadores constitui um dos constrangimentos mais estudados nos JRs, uma vez que influencia simultaneamente as exigências físicas e o envolvimento técnico dos praticantes (Clemente & Sarmento, 2020). Quando a área relativa por jogador se mantém constante, os formatos com mais jogadores tendem a aumentar a distância percorrida e as ações de alta intensidade, mas reduzem a frequência de acelerações e desacelerações (Clemente et al., 2025; Hill-Haas et al., 2009). Em contrapartida, formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento individual, o número de contactos com a bola e as oportunidades de decisão, embora também possam elevar a frequência de erros devido à maior pressão temporal e à maior densidade de ações (Clemente et al., 2025; Clemente et al., 2021). Em comparação com os formatos mais amplos, as situações de 2v2 e 3v3 tendem a espoletar mais receções, recuperações, ações ofensivas, passes e posses individuais de bola. 

A limitação do número de toques na bola constitui outro constrangimento frequentemente utilizado nos JRs. Ao reduzir o tempo disponível para decidir e executar, esta condicionante incentiva os jogadores a explorar melhor o espaço, a identificar informação relevante e a adaptar o seu comportamento às exigências do jogo (Coutinho et al., 2022; Rumpf et al., 2025). Em termos ofensivos, a condição de 1 toque (1T) proporciona uma circulação de bola mais rápida, acelera a criação de oportunidades de finalização e modifica os comportamentos táticos das equipas (Carling, 2011; Brito e Sousa et al., 2019). Por este motivo, esta regra constitui um dos constrangimentos mais utilizados nos JRs, com impacto demonstrado nas respostas físicas, técnicas e táticas dos jogadores (Lauria et al., 2024; Rumpf et al., 2025). 

O impacto da manipulação do número de toques parece, contudo, depender do nível dos jogadores. Em jovens futebolistas, o jogo livre (free play – FP) tende a promover maior envolvimento físico, enquanto a restrição de toques aumenta as exigências técnicas sem benefícios consistentes nas ações de alta intensidade (Coutinho et al., 2022). Em jogadores profissionais, estas restrições associam-se frequentemente a maiores distâncias percorridas e a uma maior intensidade de jogo (Lauria et al., 2024; Dellal et al., 2011). Do ponto de vista técnico, limitar o número de toques aumenta a frequência de passes e influencia os padrões de circulação da bola, embora possa reduzir a precisão da execução, sobretudo em jovens futebolistas (Coutinho et al., 2022; Rosten et al., 2025). Em comparação com o jogo livre, jogar a 2 toques (2T) conduz ainda a sequências de posse mais curtas, com maior número de passes e maior participação dos jogadores em cada posse de bola (Almeida et al., 2012). 

Apesar da vasta investigação sobre os efeitos isolados do número de jogadores e da limitação do número de toques, o conhecimento sobre a interação entre os 2 constrangimentos permanece limitado, sobretudo no futebol de formação (Clemente et al., 2025; Lauria et al., 2024). Esta lacuna assume particular relevância, uma vez que estas duas variáveis constituem algumas das estratégias mais utilizadas pelos treinadores para modular simultaneamente a carga de treino e os comportamentos tático-técnicos. Assim, o presente estudo analisou o efeito combinado de diferentes formatos de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e de 3 condições relativas ao número de toques (1T, 2T e FP) nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas.

 

Métodos

 

·     Estudo-piloto e estimativa do tamanho da amostra

Antes da recolha principal dos dados, realizou-se um estudo-piloto com o mesmo protocolo experimental, no qual todos os jogadores realizaram duas repetições de cada combinação entre formato de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e condição relativa ao número de toques (FP, 1T e 2T). A ordem das condições foi aleatória e equilibrada entre sessões. Os dados obtidos permitiram estimar os tamanhos do efeito e a variabilidade das medidas através de modelos lineares generalizados mistos, utilizando a condição 7v7 em jogo livre como referência. 

Com base nos resultados do estudo-piloto, realizou-se uma análise a priori do poder estatístico através de simulações de Monte Carlo (1000 iterações). Os resultados indicaram que uma amostra mínima de 16 jogadores seria suficiente para detetar os efeitos de interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques (poder estatístico = 0,82). O nível de significância foi ajustado através da correção de Bonferroni.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 16 futebolistas masculinos do escalão Sub-15 pertencentes a uma academia alemã de elevado nível competitivo, cuja equipa sénior disputava a 2. Bundesliga. De acordo com a classificação de McKay et al. (2022), os jogadores enquadravam-se no nível “highly trained/national level” (Tier 3). Durante o período de observação, realizaram 4 sessões de treino semanais (90–120 minutos) e disputaram um jogo oficial por semana. Apenas participaram jogadores de campo sem lesões nos 3 meses anteriores ao estudo, tendo sido excluídos os guarda-redes devido às especificidades inerentes à posição.

 

·     Procedimentos

A recolha de dados decorreu ao longo de 6 semanas, durante o período competitivo, com duas sessões semanais separadas por 48 horas de recuperação. Foi utilizado um desenho experimental cruzado (crossover), no qual todos os jogadores participaram em 3 formatos de JRs (3v3, 5v5 e 7v7; Figura 2), combinados com 3 condições relativas ao número de toques na bola: FP, 1T e 2T. A ordem das condições foi randomizada e equilibrada entre sessões, de modo a assegurar que todos os participantes fossem expostos a todas as combinações experimentais.

 

Figura 2. Formatos de JRs utilizados no estudo: a) 3v3; b) 5v5; c) 7v7 (Jäger et al., 2026).

 

Antes de cada sessão, os jogadores realizaram um aquecimento padronizado. Cada formato de jogo compreendeu 4 séries de 3 minutos, intercaladas por 3 minutos de recuperação passiva. Os jogos decorreram em campos com dimensões ajustadas para manter uma área relativa por jogador semelhante entre formatos (215–216 m2/jogador), recorrendo a balizas regulamentares e a regras idênticas às da competição oficial.

 

·     Instrumentação, variáveis físicas e técnica

As respostas físicas e técnicas foram monitorizadas através de unidades de medição inercial (inertial measurement units – IMUs), colocadas nas chuteiras de todos os jogadores durante os JRs. A partir destes dispositivos foram obtidos indicadores físicos como a distância total percorrida, a distância percorrida em alta intensidade, a distância em sprint, a velocidade máxima, o número de sprints, as acelerações e as desacelerações. Do ponto de vista técnico, registaram-se o número de contactos com a bola, ações de distribuição/finalização com bola (passes, cruzamentos ou remates), ações executadas ao primeiro toque e posses individuais de bola. A seleção destas variáveis baseou-se em estudos anteriores realizados com jovens futebolistas (Bergstra et al., 2024; Rumpf et al., 2024).

 

·     Análise estatística

Os resultados foram descritos através de estatística descritiva (média ± desvio-padrão). Para comparar os efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos, os autores recorreram a modelos lineares generalizados mistos, adequados à análise de medidas repetidas (Bates et al., 2015). Sempre que se verificaram diferenças estatisticamente significativas, efetuaram-se comparações post hoc com correção de Bonferroni. Para além da significância estatística (p < 0,05), foi ainda avaliada a relevância prática dos resultados através do tamanho do efeito e de testes de equivalência (Lakens et al., 2018).

 

Principais resultados

Esta secção sintetiza os principais resultados do estudo relativos aos efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas na prática de JRs (Figura 3).

 

·     Interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques

Os resultados demonstraram que o efeito do número de jogadores variou, em algumas variáveis, em função da condição relativa ao número de toques na bola. Esta interação revelou-se significativa na distância percorrida em alta intensidade, na distância percorrida em sprint, no número de sprints, nas desacelerações, nos contactos com a bola e nas ações de libertação da bola.

 

·     Respostas físicas

Os formatos com menos jogadores favoreceram, de forma geral, um maior número de desacelerações, sobretudo nas condições 2T e FP. Em contrapartida, o número de sprints e a distância percorrida em sprint tenderam a aumentar nos formatos com mais jogadores, particularmente na comparação entre 3v3 e 7v7, independentemente da condição relativa ao número de toques. A distância percorrida em alta intensidade apresentou diferenças menos consistentes, destacando-se apenas valores superiores no 5v5 relativamente ao 7v7, na condição 2T.

 

·     Respostas técnicas

Os formatos com menos jogadores proporcionaram um maior número de contactos com a bola em todas as condições relativas ao número de toques. A condição 2T promoveu igualmente mais ações de distribuição da bola e finalização, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos. Por sua vez, o número de posses individuais de bola e as ações executadas ao primeiro toque mantiveram-se relativamente estáveis entre os diferentes formatos e condições experimentais.

 

Figura 3. Síntese gráfica dos principais resultados obtidos por Jäger et al. (2026).

 

Aplicações práticas

As aplicações práticas apresentadas de seguida decorrem diretamente dos resultados obtidos no estudo e podem auxiliar os treinadores na manipulação dos constrangimentos da tarefa em situações de JR. Ei-las:

 

1. A manipulação simultânea dos constrangimentos produz efeitos distintos: o efeito do número de jogadores depende, em várias variáveis, da limitação do número de toques. Por isso, estas duas variáveis não devem ser planeadas de forma isolada, mas sim em conjunto, de acordo com o objetivo específico da sessão de treino. 

2. Utilize formatos reduzidos para aumentar o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares: os formatos com menos jogadores (3v3) proporcionam maior participação individual no jogo, traduzindo-se num maior número de contactos com a bola. Adicionalmente, tendem a aumentar as ações de aceleração e desaceleração, o que aumenta as exigências neuromusculares específicas da modalidade. Sempre que o objetivo passe por potenciar o envolvimento técnico e estimular ações associadas à força específica do futebol, os formatos reduzidos parecem constituir uma opção mais adequada. 

3. Recorra a formatos mais amplos para estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade: os formatos com mais jogadores (7v7) tendem a aumentar o número de sprints e a distância percorrida em sprint. Além disso, em determinadas condições, observaram-se maiores distâncias percorridas em alta intensidade. Assim, quando o objetivo consiste em estimular ações locomotoras de elevada velocidade em contexto representativo, os formatos mais amplos parecem constituir uma opção adequada. 

4. A limitação a 2 toques pode acelerar a circulação da bola: a condição 2T esteve associada a um maior número de ações de libertação da bola, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos de jogo. Esta regra poderá, por isso, constituir uma estratégia útil para promover uma circulação de bola mais rápida e reduzir o tempo disponível para a tomada de decisão, sobretudo quando combinada com formatos de jogo criteriosamente definidos.

 

Conclusão

O presente estudo demonstra que a combinação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques constitui uma estratégia eficaz para ajustar as exigências físicas e técnicas dos JRs em jovens futebolistas. Os formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares, enquanto os formatos mais amplos tendem a estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade. A regra dos 2T pode ainda potenciar as ações de libertação da bola, embora o seu efeito dependa do formato de jogo utilizado. Estes resultados reforçam a importância de planear os JRs de forma integrada, considerando simultaneamente os diferentes constrangimentos da tarefa. Mais do que opções metodológicas isoladas, o número de jogadores e a limitação do número de toques constituem ferramentas complementares que permitem aos treinadores adequar o treino aos objetivos específicos de cada sessão.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

14/07/2026

International Journal of Sports Medicine (2026) | Impacto da COVID-19 na saúde dos jogadores de futebol: Revisão sistemática e meta-análise

Há projetos científicos que nascem de uma curiosidade pessoal. Outros surgem de uma conversa entre colegas. E há aqueles, muito mais raros, que começam com um e-mail inesperado.

No dia 4 de setembro de 2024 recebi um convite do Prof. Ricardo da Costa, editor da International Journal of Sports Medicine, para liderar um artigo de revisão sobre um tema muito específico: a COVID-19 e o futebol. Confesso que a primeira reação foi de hesitação. Depois de refletir sobre o convite, percebi que só faria sentido aceitá-lo se conseguisse reunir uma equipa com experiência e competências complementares. 

Reunido o grupo, composto por mim (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Rui Freitas (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, Portugal), José Afonso (Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal), Pedro Vargas (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; Escola Superior de Saúde Jean Piaget Algarve, Portugal), Alberto Pompeo (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Everton Cirillo (Universidade Estadual de Londrina, Brasil), Rodrigo Ramírez-Campillo (Universidad Andrés Bello, Chile) e Filipe Casanova (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), chegou o momento de definir o rumo do projeto. Numa primeira fase, equacionámos a realização de uma revisão de escopo. Contudo, essa hipótese não reuniu o consenso da revista, que manifestou preferência por uma revisão narrativa ou, idealmente, por uma revisão sistemática. Depois de uma boa dose de ponderação, optámos pelo percurso metodologicamente mais exigente: uma revisão sistemática com meta-análise. Sabíamos que essa decisão implicaria um investimento muito superior em termos de tempo e rigor metodológico, mas também que resultaria numa síntese científica substancialmente mais robusta. 

Nunca tinha coordenado uma revisão sistemática com meta-análise enquanto primeiro autor. Além disso, apesar de já ter publicado alguns trabalhos relacionados com a pandemia no futebol, esta investigação inseria-se muito mais no domínio da Medicina do Desporto do que nas minhas linhas habituais de investigação, centradas na análise do jogo e no desempenho em futebol. Naquela altura encontrava-me também envolvido em vários projetos científicos, conciliando-os com a atividade profissional e a vida familiar. Pouco depois, surgiram ainda os problemas de saúde do meu pai, que tornaram este período particularmente difícil. Aceitar este convite significava assumir um compromisso de grande responsabilidade, sem qualquer garantia de publicação. 

Seguiram-se meses de leitura e análise de centenas de artigos científicos, aplicação rigorosa das recomendações PRISMA 2020, avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos e realização daquela que foi a primeira meta-análise que tive a oportunidade de liderar como autor principal. O produto deste esforço acaba de ser publicado na InternationalJournal of Sports Medicine, uma revista científica internacional alemã de referência na área da Medicina do Desporto (Q1; Impact Factor: 2.3; CiteScore 2025: 4.5; Figura 1).

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista International Journal of Sports Medicine.

 

Mais do que estudar os efeitos da infeção por SARS-CoV-2, procurámos distinguir as alterações provocadas pela própria doença daquelas decorrentes das restrições impostas durante a pandemia, como as interrupções competitivas, as alterações nos treinos e as profundas mudanças na preparação dos jogadores. Para o efeito, analisámos 9 estudos, abrangendo mais de 1500 futebolistas de diferentes níveis competitivos. Esta revisão sintetiza, pela primeira vez, a evidência disponível sobre os efeitos fisiológicos da COVID-19 no futebol. Os resultados sugerem que, apesar de terem sido observadas alterações transitórias, sobretudo ao nível respiratório, a maioria dos indicadores fisiológicos permaneceu dentro de valores clinicamente normais. Ainda assim, a reduzida qualidade da evidência atualmente disponível recomenda prudência na interpretação destes resultados. 

Este foi, muito provavelmente, o projeto científico mais exigente em que estive envolvido até hoje. Não apenas pela complexidade metodológica, mas também porque me obrigou a sair da minha zona de conforto e a aprofundar conhecimentos numa área científica diferente daquelas em que habitualmente desenvolvo investigação. No final, fica a satisfação de termos correspondido ao desafio lançado pela própria revista e de contribuir com uma síntese que poderá servir de referência para futuras investigações e para a preparação de eventuais situações semelhantes.

O resumo e as palavras-chave constam na Figura 2.

  

Figura 2. Abstract do estudo publicado na revista International Journal of Sports Medicine (clique para ampliar).

 

Reference

Almeida, C. H., Freitas, R., Afonso, J., Vargas, P., Pompeo, A., Cirillo, E., Ramirez-Campillo, R., & Casanova, F. (2026). The impact of COVID-19 on soccer players’ health: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Sports Medicine. Advance online publication. https://doi.org/10.1055/a-2896-9130

08/07/2026

Pai: o meu super-herói

Pai, a dor e o sofrimento acabaram.

Nos últimos dois anos foste um exemplo de força de vontade, determinação e resistência. Lutaste até ao limite, como sempre lutaste pelas tuas convicções, tantas vezes colocando em segundo plano aquilo que seria melhor para ti e para os teus.

Um osso duro de roer. O “homem das sete vidas”, como te apelidaram no hospital. A música Invincible dos Tool fala de um guerreiro que luta para permanecer consequente: “Warrior struggling to remain consequential...”. Não há verso que melhor te descreva. Foste um exemplo de coragem, resiliência e tenacidade.

No hospital, quando perguntava como te sentias, respondias: "Bem!", fechando os olhos para não veres as nossas expressões de comiseração. Lutavas contra a doença e lutavas para não mostrar fraqueza. Sempre foste forte, pai.

Tivemos as nossas divergências. Não tanto no que pensávamos, mas na forma como o exprimíamos. Ainda assim, nunca tive dúvidas de que os valores que nos transmitiste eram os certos. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sempre!

Entre tantas memórias, recordo com nostalgia o dia em que me ensinaste a andar de bicicleta no campo pelado do Juventude Desportiva Monchiquense; as motas que me desenhavas com perfeição quando te pedia; as nossas partidas de raquetes e os remates na praia; o dia em que me foste buscar quando o barquinho de borracha foi levado pela corrente na Praia da Luz, enquanto me gritavas para não saltar para a água; a firmeza com que recusaste que comprasse uma mota – “és muito maluco para isso” – e os raspanetes que levava quando fazia das minhas.


Mais recentemente, dizias, em jeito de brincadeira, que iria pagar, com os meus filhos, todas as traquinices que tinha feito na infância. Tinhas razão, pai.

Os meus filhos recordarão o avô Carlos pelo homem que foi: um homem de ação, prático e de convicções fortes. Porque as palavras leva-as o vento.

Como fazem os super-heróis.

A luta acabou, pai.

Descansa em paz e olha por nós.

28/06/2026

Artigo do mês #78 – junho 2026 | Modelos de jogo no treino de futebol: uma perspetiva da dinâmica ecológica

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 78 -

Autores: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K.

País: Inglaterra

Data de publicação: 27-maio-2026

Título: Game models in football coaching: an ecological dynamics perspective

Referência: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K. (2026). Game models in football coaching: an ecological dynamics perspective. International Journal of Performance Analysis in Sport, 1–18. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24748668.2026.2679371

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 78 – junho de 2026.

 

Apresentação do problema

No futebol, o Modelo de Jogo é habitualmente entendido como uma estrutura que sustenta a forma de jogar de uma equipa e integra a filosofia do treinador, as características dos jogadores, os princípios táticos, a metodologia de treino e a identidade do clube (Plakias, 2023). Historicamente, tem servido para formalizar padrões de jogo, definir estruturas posicionais e orientar comportamentos em posse de bola, sem posse de bola e nas transições (Costa et al., 2011; Garganta, 1997; Guilherme, 2004). 

Apesar da sua utilidade, os Modelos de Jogo tradicionais podem assumir uma natureza excessivamente prescritiva. Quando reduzem o jogo a comportamentos previamente definidos, correm o risco de limitar a adaptação dos jogadores à variabilidade do contexto competitivo (Araújo & Davids, 2016; Ribeiro et al., 2019; Wellock, 2026). Práticas muito centradas na repetição de padrões podem diminuir a exposição à complexidade informacional do jogo e comprometer o desenvolvimento de decisões flexíveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2015; Davids et al., 2022). 

A dinâmica ecológica oferece uma alternativa conceptual, ao compreender o rendimento como resultado da interação entre jogador e ambiente. Nesta perspetiva, os princípios táticos não funcionam como instruções rígidas, mas como convites funcionais para a ação (Ribeiro et al., 2019). Os jogadores devem aprender a reconhecer affordances, isto é, oportunidades de ação que emergem em função das capacidades do jogador, dos colegas de equipa, dos adversários, do espaço e das condições do jogo (Silva et al., 2014; Travassos et al., 2013; Vilar et al., 2012). 

À luz desta perspetiva, o Modelo de Jogo pode ser repensado como uma estrutura flexível de suporte, e não como um guião determinista. Em vez de prescrever sequências fixas, deve ajudar os jogadores a adaptar-se a constrangimentos dinâmicos e a informação em mudança, de maneira a favorecer a autonomia, a flexibilidade tática e a capacidade de resposta (Goes et al., 2019; He et al., 2023; Jordet et al., 2020). Esta visão deve ainda considerar os constrangimentos socioculturais do clube, incluindo valores, tradições e identidade coletiva (O’Sullivan et al., 2025; Woods et al., 2020). 

Assim, o artigo propõe uma perspetiva ecológica dos Modelos de Jogo como estrutura conceptual para orientar a conceção da prática. O objetivo não é abandonar a ideia de Modelo de Jogo, mas torná-lo mais funcional, representativo e adaptativo, no intuito de potenciar a relação perceção-ação, a auto-organização coletiva e a aprendizagem dos jogadores em contextos próximos da competição.

 

Repensar os modelos de jogo tradicionais: para uma abordagem adaptativa do jogo

A crescente complexidade do rendimento no futebol conduziu ao desenvolvimento dos Modelos de Jogo como forma de estruturar o jogo em princípios, fases e momentos que orientam a forma de jogar das equipas (Ribeiro et al., 2019). Apesar da sua ampla utilização, o conceito permanece pouco consensual na literatura e é frequentemente confundido com outros, como “estilo de jogo” (Game Style ou Playing Style), o que pode originar interpretações e aplicações inconsistentes na prática (Hewitt et al., 2016; Plakias, 2023). Acresce que a adoção de modelos assentes em tradições históricas ou identidades pouco definidas pode comprometer a sua adequação às características dos jogadores e às exigências contemporâneas da competição. A este propósito, o antigo treinador da Premier League inglesa, Sam Allardyce, recordou a sua passagem pelo West Ham United F.C.:

 

Assim que fui nomeado treinador, em 2011, instalou-se de imediato o grande debate sobre se iria seguir a “forma de jogar do West Ham”, algo que ninguém conseguia definir. Ainda assim, fosse ela qual fosse, diziam que eu não a praticava. Os adeptos estavam a ser levados a acreditar que, historicamente, o clube tinha um estilo de jogo muito próprio, semelhante ao do Barcelona, o que era um completo disparate.

(The Guardian, 2015)

 

A experiência relatada por Sam Allardyce evidencia o risco de adotar filosofias de jogo assentes em tradições ou identidades históricas pouco definidas. O problema não reside na existência de um Modelo de Jogo, mas na sua eventual desadequação às características dos jogadores e às exigências competitivas do momento (Tamarit, 2015; Tee et al., 2018). Nesta perspetiva, a dinâmica ecológica não rejeita a identidade ou a filosofia de jogo, mas defende que estas devem evoluir em função do contexto e das necessidades da equipa (Davids et al., 2013; He et al., 2023). Assim, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto rígido de comportamentos pré-definidos para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação contínua dos jogadores e da equipa.

 

Fundações teóricas

A dinâmica ecológica assenta em conceitos como os constrangimentos (constraints), as affordances e o desenho representativo da prática (Representative Learning Design), que permitem compreender o rendimento no futebol como um fenómeno dinâmico e auto-organizado, resultante da interação contínua entre jogadores e ambiente (Araújo & Davids, 2016; Davids et al., 2008; Newell, 1986).

 

·     Compreendendo os constrangimentos

Na perspetiva da dinâmica ecológica, o comportamento dos jogadores emerge da interação entre constrangimentos individuais, da tarefa e do ambiente (Newell, 1986; Davids et al., 2008). Em vez de prescrever soluções táticas, o treinador manipula estes constrangimentos para criar contextos de prática que favoreçam a exploração, a adaptação e a emergência de comportamentos funcionais (Chow et al., 2015; Renshaw & Chow, 2019). 

No futebol, esta abordagem permite compreender o Modelo de Jogo como uma estrutura flexível e dinâmica. A manipulação de princípios táticos, responsabilidades posicionais, condições de jogo ou características dos jogadores proporciona a emergência de oportunidades de ação representativas da competição (Araújo et al., 2022; Pinder et al., 2011).

 

·     Affordances e comportamento adaptativo

Na perspetiva da dinâmica ecológica, as affordances correspondem às oportunidades de ação que emergem da interação entre o jogador e o ambiente e variam em função dos constrangimentos da tarefa (Araújo & Davids, 2009; Gibson, 1979). Neste enquadramento, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto de instruções rígidas para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação dos jogadores às exigências do jogo, sem deixar de respeitar princípios táticos comuns. A tomada de decisão passa a assentar na perceção da informação relevante em cada momento, com base em relações entre perceção e ação que facilitam a transferência comportamental do treino para a competição (Araújo & Davids, 2016; Araújo et al., 2017; Button et al., 2021; Jordet et al., 2020).

 

·     Desenho representativo da prática

Na perspetiva da dinâmica ecológica, o treino deve privilegiar a adaptação às exigências do jogo, em detrimento da repetição de soluções técnicas ou táticas previamente definidas (Davids, 2024). Neste âmbito, o Modelo de Jogo orienta a conceção da prática e as intenções dos jogadores, sem prescrever comportamentos fixos. Por exemplo, um treino mais direcionado após transições ofensivas não deve assentar apenas na repetição de contra-ataques previamente ensaiados, mas na criação de tarefas representativas que desafiem os jogadores a reconhecer e explorar oportunidades de ação em função do espaço, do tempo e da oposição (Duarte et al., 2012; Seifert et al., 2014).

 

·     O feedback do treinador como desafio à aprendizagem

O feedback do treinador deve orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante do jogo, em vez de prescrever soluções ou corrigir erros de forma isolada (Davids et al., 2008; Correia et al., 2019). Através de questões, desafios ou pistas, o treinador promove a exploração de diferentes soluções e reforça a capacidade de resolução de problemas em contextos representativos da competição (Juarrero, 2023; Otte et al., 2020). Conforme ilustrado na tabela 1, esta abordagem transforma o feedback num instrumento pedagógico que apoia a aprendizagem e concretiza o Modelo de Jogo sem limitar a autonomia dos jogadores (Woods et al., 2020).

 

Tabela 1. Fase de organização ofensiva (construção e finalização): princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).

 

·     Uma perspetiva ecológica da análise do desempenho

Tradicionalmente, a análise do desempenho no futebol tem privilegiado indicadores isolados, como a posse de bola, a eficácia de passe ou o número de remates. Embora úteis, estas métricas nem sempre captam a natureza dinâmica e relacional do jogo (Bradley et al., 2014; Sarmento et al., 2022). A perspetiva da dinâmica ecológica propõe uma análise centrada nas interações entre jogadores e contexto, o que permite compreender de que forma os comportamentos táticos emergem durante a competição (Araújo et al., 2022; O'Sullivan et al., 2026). 

Desta maneira, indicadores coletivos como a ocupação do espaço, a sincronia entre jogadores ou a posição do centroide da equipa podem oferecer informação mais representativa sobre a coordenação coletiva e apoiar o aperfeiçoamento contínuo do Modelo de Jogo (Folgado et al., 2014; Frencken et al., 2011).

 

Para um novo Modelo de Jogo

Com base nos princípios da dinâmica ecológica, os autores propõem um novo enquadramento conceptual para o Modelo de Jogo, entendido como um sistema dinâmico de affordances que emergem da interação contínua entre jogadores, constrangimentos e contexto competitivo (Araújo et al., 2007; Chow et al., 2015; Renshaw et al., 2019). A Figura 2 representa o jogo como um fluxo contínuo de momentos interdependentes, afastando-se da visão tradicional que divide o jogo em fases discretas e sequenciais.

  

Figura 2. Representação conceptual do Modelo de Jogo proposto pelos autores, assente nos princípios da dinâmica ecológica (adaptado de Wellock et al., 2026).

 

Neste modelo, os momentos ofensivos, defensivos, de transição e de bola parada encontram-se permanentemente interligados. As transições assumem um papel central, não apenas como mudanças de posse de bola, mas como momentos privilegiados para reorganização coletiva, adaptação comportamental e exploração de novas oportunidades de ação. Os autores designam este espaço central por “Transition Nexus”, definido como um ponto de reajustamento percetivo e atencional perante alterações nas condições do jogo (Correia et al., 2019; Rietveld & Kiverstein, 2014). 

O modelo atribui igualmente relevância às intervenções externas, como o feedback do treinador, as decisões da equipa de arbitragem ou as interrupções do jogo, que podem desencadear novos processos de adaptação. Assim, os princípios táticos deixam de constituir comportamentos rígidos previamente definidos para assumirem o papel de constrangimentos facilitadores, capazes de orientar a coordenação coletiva sem comprometer a autonomia dos jogadores (Araújo et al., 2022; Button et al., 2020). 

Em síntese, os autores defendem que o Modelo de Jogo deve evoluir de um conjunto de padrões táticos prescritos para uma estrutura dinâmica, flexível e adaptativa, capaz de orientar a perceção, a tomada de decisão e a ação dos jogadores em função das exigências emergentes da competição. A aprendizagem passa a assentar na criação de contextos representativos que favoreçam a adaptação contínua dos jogadores às constantes mudanças do jogo (Araújo et al., 2022; Dann et al., 2024; Morris et al., 2022).

 

Conceção de ambientes de treino representativos para um desempenho adaptativo

Depois de apresentado o enquadramento conceptual, foi proposto um conjunto de orientações práticas para operacionalizar um Modelo de Jogo baseado na dinâmica ecológica. Em termos aplicados, são sugeridas 3 estratégias fundamentais: 

1. Conceber tarefas que preservem os principais constrangimentos da competição: os exercícios devem reproduzir os principais problemas que os jogadores enfrentam em competição, por forma a preservar as interações entre jogadores, espaço, tempo e objetivos do jogo (Davids et al., 2017; Duarte et al., 2012; Gray, 2021). Em vez de simplificar excessivamente a tarefa, importa criar contextos que obriguem os jogadores a percecionar informação relevante e a ajustar continuamente o comportamento. Quanto maior for a representatividade da tarefa, maior tenderá a ser a transferência da aprendizagem para a competição. 

2. Relacionar os princípios táticos com situações reais de jogo, em vez de sequências previamente definidas: os princípios táticos devem funcionar como referências para orientar o comportamento individual e coletivo, e não como movimentos obrigatórios ou previamente coreografados. O treino deve expor os jogadores a diferentes problemas do jogo para potenciar a descoberta de soluções adaptadas ao contexto. Promove-se, então, a flexibilidade tática, a autonomia na tomada de decisão e a capacidade de resposta perante situações imprevisíveis. 

3. Utilizar o feedback para orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante e para as oportunidades de ação, sem prescrever soluções (Pimenta, 2014): o feedback do treinador deve recorrer preferencialmente a perguntas, pistas ou desafios que orientem a atenção dos jogadores para a informação mais relevante da situação de jogo ou da tarefa (tabela 2). Em vez de indicar exatamente o que fazer, importa ajudar os jogadores a identificar as oportunidades de ação disponíveis e a compreender as consequências das suas decisões. Esta estratégia pedagógica fomenta a aprendizagem, a autonomia e contribui para desenvolver jogadores mais adaptáveis às exigências da competição (Davids et al., 2022; Jones et al., 2021).

 

Tabela 2. Momento de transição defensiva: princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).

 

Conclusão

O presente artigo propõe uma nova forma de compreender o Modelo de Jogo no futebol; concebe-o como uma estrutura flexível que orienta a ação coletiva sem limitar a capacidade de adaptação dos jogadores às exigências da competição. Segundo a proposta, os princípios táticos deixam de corresponder a comportamentos rígidos e passam a funcionar como referências comuns para a tomada de decisão individual e coletiva. Consequentemente, o papel do treinador também evolui. Para além de definir uma identidade coletiva, importa conceber ambientes de treino representativos, manipular constrangimentos, orientar a atenção dos jogadores através do feedback e criar condições que proporcionem a descoberta de soluções adequadas ao contexto do jogo. Mais do que substituir modelos tradicionais, esta perspetiva encoraja os treinadores e os clubes a repensar o Modelo de Jogo como um instrumento ao serviço da aprendizagem, da adaptação e do rendimento, sem perder a identidade que caracteriza cada equipa.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Performance Analysis in Sport.