30/09/2026

Artigo do mês #81 – setembro 2026 | Tendências temporais do efeito da idade relativa nas 5 principais ligas europeias de futebol masculino, 2000–2025

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Torrent, J. & Rossier, L.

País: Suíça

Data de publicação: 2-setembro-2026

Título: Temporal trends in the relative age effect in five major European men’s football leagues, 2000–2025

Referência: Torrent, J. & Rossier, L. (2026). Temporal trends in the relative age effect in five major European men’s football leagues, 2000–2025. Science and Medicine in Football, 1–17. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24733938.2026.2728065

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 81 – setembro de 2026.

 

Apresentação do problema

 

·     O efeito da idade relativa: conceito e mecanismos explicativos

O efeito da idade relativa (EIR) traduz a sobrerrepresentação, num mesmo escalão etário, de jogadores nascidos nos primeiros meses do período anual de seleção, fenómeno particularmente evidente no futebol (Musch & Grondin, 2001; Cobley et al., 2009). Entre os 10 e os 16 anos, uma diferença cronológica que pode atingir 12 meses associa-se a vantagens ao nível do crescimento, das capacidades físicas e da maturidade psicossocial, por vezes interpretadas como maior talento. Esta vantagem inicial pode reforçar-se através da seleção e permanência em contextos estruturados de treino e de maior atenção dos treinadores, enquanto os jogadores relativamente mais jovens apresentam maior risco de abandono (Cobley et al., 2009; Delorme et al., 2010). Contudo, o EIR resulta da interação entre idade biológica e pressões contextuais de seleção e não constitui uma característica universal do desporto de elite, pelo que deve ser interpretado à luz da estrutura institucional e formativa específica do futebol masculino europeu (Wattie et al., 2015).

 

·     O EIR no futebol profissional de elite: persistência sem atenuação

Embora fosse expectável que o EIR diminuísse no futebol profissional, uma vez ultrapassadas as diferenças maturacionais próprias da formação, a evidência mostra que este permanece entre jogadores de elite (Smith et al., 2018; Dixon et al., 2020). Uma possível explicação reside na filtragem cumulativa ao longo do percurso formativo: os jogadores que chegam ao nível profissional representam os sobreviventes de sucessivos processos de seleção, nos quais a idade relativa pode ter condicionado as oportunidades de progressão (figura 2). Assim, o EIR observado na idade adulta pode traduzir a marca residual dessas etapas de seleção, mais do que diferenças maturacionais atuais (Morgans et al., 2024). Também foram identificadas diferenças segundo a posição de jogo: Salinero et al. (2013) observaram assimetrias na distribuição dos quartis de nascimento entre posições nas 5 principais ligas europeias, enquanto Yagüe et al. (2018) reportaram um EIR comparativamente mais pronunciado entre os médios das ligas europeias mais bem classificadas.

 

Figura 2. Representação ilustrativa da filtragem cumulativa associada ao efeito da idade relativa ao longo do percurso formativo no futebol (imagem não publicada pelos autores).

 

·     A questão temporal: a maior consciencialização produziu mudanças?

Apesar da crescente atenção científica e prática dedicada ao EIR, permanece por esclarecer se esta maior consciencialização resultou numa redução do fenómeno no futebol profissional. Helsen et al. (2012), ao compararem 10 ligas europeias entre 2000/2001 e 2010/2011, não identificaram alterações sistemáticas, com o EIR a manter uma magnitude semelhante ao longo da década. Desde então, o futebol europeu conheceu mudanças relevantes nos processos de formação, entre as quais a criação da UEFA Youth League, a expansão dos sistemas de licenciamento das academias e uma maior divulgação de estratégias como o bio-banding (Cumming et al., 2017). Contudo, permanece por determinar se estas mudanças alteraram a distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento nas principais ligas europeias após 2010/2011.

 

·     O presente estudo

O estudo analisou a evolução do EIR nas 5 principais ligas europeias de futebol masculino ao longo de 25 épocas, entre 2000/2001 e 2024/2025. A amostra incluiu 60 078 registos jogador-época, correspondentes a 14 173 jogadores, e permitiu examinar a magnitude e a evolução temporal do EIR, bem como possíveis diferenças entre ligas, posições e níveis de participação. Os autores procuraram ainda verificar a robustez dos resultados através de diferentes critérios e unidades de análise. Com base na evidência anterior, formularam duas hipóteses: (1) os jogadores nascidos no primeiro trimestre do ano estariam sobrerrepresentados e os do quarto trimestre sub-representados; e (2) o EIR permaneceria observável após 2010/2011, sem evoluir para uma distribuição uniforme dos nascimentos. A forma exata da evolução temporal foi mantida como questão de investigação, sem uma hipótese direcional específica.

 

Métodos

 

·     Fonte de dados e amostra

Os dados foram obtidos através da FBref (www.fbref.com), a partir dos registos públicos de participação em jogos das 5 principais ligas europeias: Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1. Foram analisadas todas as épocas completas entre 2000/2001 e 2024/2025. Em cada época, incluíram-se os jogadores que acumularam pelo menos 90 minutos de utilização na respetiva liga, assegurando uma participação documentada na equipa principal, sem pressupor uma utilização regular. A principal unidade de análise foi o registo jogador-época, pelo que um mesmo jogador poderia contribuir com várias épocas. Numa análise complementar por jogador único, considerou-se apenas a primeira época elegível. Após a limpeza dos dados, a amostra final compreendeu 60 078 registos jogador-época, correspondentes a 14 173 jogadores.

 

·     Extração, tratamento e controlo da qualidade dos dados

Para cada registo jogador-época, foram extraídas informações relativas ao jogador, clube, liga, nacionalidade, época, data e ano de nascimento, posição de jogo, jogos disputados, titularidades e minutos de utilização. Os endereços individuais da FBref permitiram identificar os jogadores ao longo das diferentes épocas. Após a integração dos dados numa única base longitudinal, foram eliminados registos duplicados e uniformizadas as principais variáveis. A partir da data de nascimento determinaram-se o mês e o trimestre de nascimento. As posições de jogo foram agrupadas em 4 categorias: guarda-redes, defesas, médios e avançados. Quando um jogador apresentava mais do que uma posição, considerou-se a primeira como posição principal. Os registos sem posição definida foram excluídos apenas das análises por posição.

 

·     Obtenção e validação das datas de nascimento

As datas de nascimento foram obtidas e validadas através de um procedimento faseado, com recurso a fontes públicas. Numa primeira etapa, os dados em falta foram pesquisados na Wikidata, através dos identificadores individuais da FBref. Nos casos não resolvidos, efetuou-se posteriormente uma pesquisa na Wikidata e na Wikipedia pelo nome do jogador, com verificação do ano de nascimento, profissão e, quando disponível, nacionalidade. A data de nascimento apenas foi aceite quando correspondia a um único resultado compatível, para reduzir o risco de erros na classificação do mês e trimestre de nascimento. A análise final incluiu apenas registos com datas de nascimento válidas e trimestre identificável. Importa salientar que este processo recorreu a bases de dados públicas e não a registos oficiais das federações.

 

·     Classificação da idade relativa

Os jogadores foram distribuídos por trimestres de nascimento, com base na data de corte anual de 1 de janeiro, habitualmente utilizada nos contextos UEFA: Q1 = janeiro–março, Q2 = abril–junho, Q3 = julho–setembro e Q4 = outubro–dezembro. Como alguns jogadores podem ter realizado a formação em países com diferentes datas de corte, foi efetuada uma análise exploratória com base na nacionalidade. Os jogadores associados a contextos com corte a 1 de janeiro (44 091 registos jogador-época) e os restantes (15 987) apresentaram distribuições muito semelhantes (Q1: 30,3% vs. 30,6%; Q4: 20,1% vs. 20,2%). O padrão global não parece, portanto, resultar da inclusão de jogadores provenientes de contextos com outras datas de corte. Contudo, a nacionalidade não permite determinar o percurso formativo nem a data de corte efetivamente aplicada a cada jogador.

 

·     Dimensão da amostra e abordagem analítica

O estudo incluiu todos os registos jogador-época disponíveis que cumpriam os critérios de inclusão, pelo que não foi realizado um cálculo prévio de potência estatística. Face à elevada dimensão amostral, a significância estatística foi interpretada em conjunto com a magnitude dos efeitos, os intervalos de confiança e as análises de sensibilidade, para avaliar também a relevância prática dos resultados.

 

·     Estratégias de análise

As análises examinaram a distribuição dos jogadores por trimestre e mês de nascimento, globalmente e por época, liga e posição. As frequências observadas foram comparadas com distribuições uniformes esperadas (25% por trimestre e 8,33% por mês), através de testes do qui-quadrado, e a magnitude do EIR foi quantificada pelo V de Cramer. Os valores de p foram ajustados para comparações múltiplas pelo método de Benjamini-Hochberg (Benjamini & Hochberg, 1995). 

A evolução temporal do EIR ao longo das 25 épocas foi analisada através de modelos de regressão, com análises de sensibilidade destinadas a testar a robustez dos resultados. Foram ainda examinadas diferenças entre ligas e posições, diferentes limiares de minutos de utilização e o efeito das observações repetidas dos mesmos jogadores. Uma análise exploratória comparou os resultados com dados de natalidade dos 5 países disponibilizados pelo Eurostat. Todas as análises foram realizadas em Python.

 

Principais resultados

Os resultados confirmaram a presença do EIR nas cinco principais ligas europeias, com diferenças ao longo do tempo, entre ligas e posições de jogo, conforme detalhado nas subsecções seguintes.

 

·     Distribuição por trimestre e mês de nascimento

No conjunto dos 60 078 registos jogador-época, os jogadores nascidos no primeiro trimestre (Q1) representaram 30,4% da amostra, enquanto os nascidos no último trimestre (Q4) corresponderam a apenas 20,1%, uma diferença estatisticamente significativa, embora de pequena magnitude. Assim, os jogadores do Q1 estiveram representados cerca de 1,5 vezes mais do que os do Q4. A análise dos 14 173 jogadores únicos apresentou praticamente o mesmo padrão (30,6% vs. 20,5%), o que reforçou a robustez do resultado. A distribuição mensal confirmou esta tendência: janeiro foi o mês mais representado (11,0%) e dezembro o menos representado (6,4%) (Figura 3).

 

Figura 3. Distribuição dos registos jogador-época por trimestre de nascimento nas cinco principais ligas europeias (Torrent & Rossier, 2026).

 

·     Evolução do EIR ao longo das 25 épocas

O EIR aumentou sobretudo durante a primeira parte do período analisado e estabilizou posteriormente. Até 2010 verificou-se uma tendência crescente estatisticamente significativa, enquanto após 2010 não se observou uma alteração significativa. Em termos descritivos, a representação do Q1 passou de 26,4% em 2000/2001 para valores superiores a 30% em várias épocas posteriores, enquanto o Q4 desceu de aproximadamente 24–25% para cerca de 18–20%. Nas épocas mais recentes, a diferença entre os 2 grupos voltou a estreitar-se, o que reforçou a ideia de estabilização, em vez de um aumento contínuo do EIR (Figura 4).

 

Figura 4. Evolução da magnitude do efeito da idade relativa nas cinco principais ligas europeias entre 2000/2001 e 2024/2025 (Torrent & Rossier, 2026).

 

·     Diferenças entre ligas

O EIR foi identificado nas 5 ligas analisadas, ainda que com magnitudes distintas. A Serie A e a La Liga apresentaram os efeitos mais pronunciados, seguidas da Ligue 1 e da Bundesliga, enquanto a Premier League apresentou o efeito de menor magnitude. A evolução temporal também diferiu entre competições: La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1 apresentaram tendências crescentes significativas, ao contrário da Premier League, onde não se verificou uma tendência temporal significativa.

 

·     Diferenças segundo a posição de jogo

O EIR foi estatisticamente significativo nas 4 posições de jogo, mas a sua magnitude variou. O efeito foi mais pronunciado entre os médios, nos quais 32,3% dos registos pertenciam ao Q1 e 19,1% ao Q4, seguidos dos guarda-redes. Defesas e avançados apresentaram efeitos de menor magnitude, embora a sobrerrepresentação dos jogadores nascidos no início do ano também estivesse presente (Figura 5).

 

Figura 5. Distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento segundo a posição de jogo (Torrent & Rossier, 2026).

 

Aplicações práticas

Embora o estudo analise jogadores profissionais e não permita identificar diretamente os mecanismos que originam o EIR, os resultados sugerem implicações relevantes para os processos de identificação, seleção e desenvolvimento de jovens jogadores. Destacam-se 4 aplicações práticas. 

1. Considere a idade relativa nos processos de identificação e seleção: a persistência do EIR no futebol profissional sugere que as assimetrias associadas ao trimestre de nascimento podem acompanhar os jogadores muito para além das etapas de formação. Nos escalões jovens, treinadores e responsáveis pelo recrutamento devem conhecer a idade relativa de cada jogador e evitar interpretar vantagens temporárias de crescimento, maturação ou desempenho como indicadores inequívocos de maior potencial. A data de nascimento não deve determinar a decisão, mas deve fazer parte do contexto em que essa decisão é tomada. 

2. Monitorize o EIR ao longo do percurso formativo, em vez de assumir que o fenómeno se atenua naturalmente: os resultados mostraram um aumento inicial seguido de estabilização, sem evidência de desaparecimento do EIR nas épocas mais recentes. Os clubes, as academias e as escolas de futebol podem acompanhar periodicamente a distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento ao longo das diferentes etapas de formação e nos processos de entrada, permanência e saída do sistema. Esta monitorização pode ajudar a identificar desequilíbrios persistentes e os momentos do percurso em que estes se tornam mais pronunciados. 

3. Evite soluções universais e analise o contexto específico de seleção: a magnitude e a evolução do EIR diferiram entre as 5 ligas analisadas, o que desaconselha a aplicação automática das mesmas interpretações ou medidas em todos os contextos. Os clubes, as academias, as associações e as federações devem começar por caracterizar os seus próprios padrões, tendo em conta o escalão, o modelo competitivo e os processos de recrutamento e seleção, antes de definir eventuais estratégias de intervenção. As diferenças entre ligas não demonstram, por si só, que determinados sistemas formativos sejam mais ou menos enviesados. 

4. Inclua a posição de jogo na monitorização dos processos de seleção: ainda que o EIR esteja presente em todas as posições, foi mais pronunciado entre os médios e os guarda-redes. A distribuição por idade relativa deve, por isso, ser analisada também por posição, sobretudo nas etapas em que ocorre maior especialização funcional. Uma concentração de jogadores relativamente mais velhos numa determinada posição não prova a existência de decisões de seleção enviesadas, mas pode constituir um sinal para rever os critérios utilizados e verificar se características associadas à maturação estão a adquirir peso excessivo.

 

Conclusão

O estudo confirmou que o EIR permanece evidente no futebol profissional europeu, com sobrerrepresentação dos jogadores nascidos no primeiro trimestre do ano. Contudo, a sua evolução ao longo de 25 épocas não revelou um aumento contínuo: o fenómeno intensificou-se sobretudo nos primeiros anos e estabilizou posteriormente, com diferenças relevantes entre ligas e posições de jogo. A persistência deste efeito no nível profissional sugere que as assimetrias associadas à idade relativa podem prolongar-se para além das etapas de formação. Ainda assim, os dados não permitem determinar como ou em que momentos do percurso formativo se estabeleceram estas assimetrias. Investigações futuras deverão acompanhar os jogadores desde a formação até ao futebol profissional, de modo a compreender melhor o contributo dos processos de seleção, recrutamento e desenvolvimento para a persistência do EIR.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.