Mostrar mensagens com a etiqueta Futebol Juvenil. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Futebol Juvenil. Mostrar todas as mensagens

31/07/2026

Artigo do mês #79 – julho 2026 | Restrições ao número de toques e ao número de jogadores em jogos reduzidos de jovens futebolistas: efeitos nos indicadores físicos e técnicos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 79 -

Autores: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-junho-2026

Título: Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth

soccer players: Effects on physical and technical parameters

Referência: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M. (2026). Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth soccer players: Effects on physical and technical parameters. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–14. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261450910

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 79 – julho de 2026.

 

Apresentação do problema

Os jogos reduzidos (JRs) representam uma estratégia amplamente utilizada no treino de futebol, pois permitem desenvolver adaptações fisiológicas, físicas, técnicas e táticas em contextos representativos da competição (Davids et al., 2013; Hill-Haas et al., 2011). A manipulação dos constrangimentos da tarefa, como o número de jogadores ou o número de toques na bola, influencia as oportunidades de ação disponíveis e proporciona diferentes respostas motoras e tático-técnicas (Borges et al., 2022; Renshaw & Chow, 2018). 

O número de jogadores constitui um dos constrangimentos mais estudados nos JRs, uma vez que influencia simultaneamente as exigências físicas e o envolvimento técnico dos praticantes (Clemente & Sarmento, 2020). Quando a área relativa por jogador se mantém constante, os formatos com mais jogadores tendem a aumentar a distância percorrida e as ações de alta intensidade, mas reduzem a frequência de acelerações e desacelerações (Clemente et al., 2025; Hill-Haas et al., 2009). Em contrapartida, formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento individual, o número de contactos com a bola e as oportunidades de decisão, embora também possam elevar a frequência de erros devido à maior pressão temporal e à maior densidade de ações (Clemente et al., 2025; Clemente et al., 2021). Em comparação com os formatos mais amplos, as situações de 2v2 e 3v3 tendem a espoletar mais receções, recuperações, ações ofensivas, passes e posses individuais de bola. 

A limitação do número de toques na bola constitui outro constrangimento frequentemente utilizado nos JRs. Ao reduzir o tempo disponível para decidir e executar, esta condicionante incentiva os jogadores a explorar melhor o espaço, a identificar informação relevante e a adaptar o seu comportamento às exigências do jogo (Coutinho et al., 2022; Rumpf et al., 2025). Em termos ofensivos, a condição de 1 toque (1T) proporciona uma circulação de bola mais rápida, acelera a criação de oportunidades de finalização e modifica os comportamentos táticos das equipas (Carling, 2011; Brito e Sousa et al., 2019). Por este motivo, esta regra constitui um dos constrangimentos mais utilizados nos JRs, com impacto demonstrado nas respostas físicas, técnicas e táticas dos jogadores (Lauria et al., 2024; Rumpf et al., 2025). 

O impacto da manipulação do número de toques parece, contudo, depender do nível dos jogadores. Em jovens futebolistas, o jogo livre (free play – FP) tende a promover maior envolvimento físico, enquanto a restrição de toques aumenta as exigências técnicas sem benefícios consistentes nas ações de alta intensidade (Coutinho et al., 2022). Em jogadores profissionais, estas restrições associam-se frequentemente a maiores distâncias percorridas e a uma maior intensidade de jogo (Lauria et al., 2024; Dellal et al., 2011). Do ponto de vista técnico, limitar o número de toques aumenta a frequência de passes e influencia os padrões de circulação da bola, embora possa reduzir a precisão da execução, sobretudo em jovens futebolistas (Coutinho et al., 2022; Rosten et al., 2025). Em comparação com o jogo livre, jogar a 2 toques (2T) conduz ainda a sequências de posse mais curtas, com maior número de passes e maior participação dos jogadores em cada posse de bola (Almeida et al., 2012). 

Apesar da vasta investigação sobre os efeitos isolados do número de jogadores e da limitação do número de toques, o conhecimento sobre a interação entre os 2 constrangimentos permanece limitado, sobretudo no futebol de formação (Clemente et al., 2025; Lauria et al., 2024). Esta lacuna assume particular relevância, uma vez que estas duas variáveis constituem algumas das estratégias mais utilizadas pelos treinadores para modular simultaneamente a carga de treino e os comportamentos tático-técnicos. Assim, o presente estudo analisou o efeito combinado de diferentes formatos de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e de 3 condições relativas ao número de toques (1T, 2T e FP) nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas.

 

Métodos

 

·     Estudo-piloto e estimativa do tamanho da amostra

Antes da recolha principal dos dados, realizou-se um estudo-piloto com o mesmo protocolo experimental, no qual todos os jogadores realizaram duas repetições de cada combinação entre formato de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e condição relativa ao número de toques (FP, 1T e 2T). A ordem das condições foi aleatória e equilibrada entre sessões. Os dados obtidos permitiram estimar os tamanhos do efeito e a variabilidade das medidas através de modelos lineares generalizados mistos, utilizando a condição 7v7 em jogo livre como referência. 

Com base nos resultados do estudo-piloto, realizou-se uma análise a priori do poder estatístico através de simulações de Monte Carlo (1000 iterações). Os resultados indicaram que uma amostra mínima de 16 jogadores seria suficiente para detetar os efeitos de interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques (poder estatístico = 0,82). O nível de significância foi ajustado através da correção de Bonferroni.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 16 futebolistas masculinos do escalão Sub-15 pertencentes a uma academia alemã de elevado nível competitivo, cuja equipa sénior disputava a 2. Bundesliga. De acordo com a classificação de McKay et al. (2022), os jogadores enquadravam-se no nível “highly trained/national level” (Tier 3). Durante o período de observação, realizaram 4 sessões de treino semanais (90–120 minutos) e disputaram um jogo oficial por semana. Apenas participaram jogadores de campo sem lesões nos 3 meses anteriores ao estudo, tendo sido excluídos os guarda-redes devido às especificidades inerentes à posição.

 

·     Procedimentos

A recolha de dados decorreu ao longo de 6 semanas, durante o período competitivo, com duas sessões semanais separadas por 48 horas de recuperação. Foi utilizado um desenho experimental cruzado (crossover), no qual todos os jogadores participaram em 3 formatos de JRs (3v3, 5v5 e 7v7; Figura 2), combinados com 3 condições relativas ao número de toques na bola: FP, 1T e 2T. A ordem das condições foi randomizada e equilibrada entre sessões, de modo a assegurar que todos os participantes fossem expostos a todas as combinações experimentais.

 

Figura 2. Formatos de JRs utilizados no estudo: a) 3v3; b) 5v5; c) 7v7 (Jäger et al., 2026).

 

Antes de cada sessão, os jogadores realizaram um aquecimento padronizado. Cada formato de jogo compreendeu 4 séries de 3 minutos, intercaladas por 3 minutos de recuperação passiva. Os jogos decorreram em campos com dimensões ajustadas para manter uma área relativa por jogador semelhante entre formatos (215–216 m2/jogador), recorrendo a balizas regulamentares e a regras idênticas às da competição oficial.

 

·     Instrumentação, variáveis físicas e técnica

As respostas físicas e técnicas foram monitorizadas através de unidades de medição inercial (inertial measurement units – IMUs), colocadas nas chuteiras de todos os jogadores durante os JRs. A partir destes dispositivos foram obtidos indicadores físicos como a distância total percorrida, a distância percorrida em alta intensidade, a distância em sprint, a velocidade máxima, o número de sprints, as acelerações e as desacelerações. Do ponto de vista técnico, registaram-se o número de contactos com a bola, ações de distribuição/finalização com bola (passes, cruzamentos ou remates), ações executadas ao primeiro toque e posses individuais de bola. A seleção destas variáveis baseou-se em estudos anteriores realizados com jovens futebolistas (Bergstra et al., 2024; Rumpf et al., 2024).

 

·     Análise estatística

Os resultados foram descritos através de estatística descritiva (média ± desvio-padrão). Para comparar os efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos, os autores recorreram a modelos lineares generalizados mistos, adequados à análise de medidas repetidas (Bates et al., 2015). Sempre que se verificaram diferenças estatisticamente significativas, efetuaram-se comparações post hoc com correção de Bonferroni. Para além da significância estatística (p < 0,05), foi ainda avaliada a relevância prática dos resultados através do tamanho do efeito e de testes de equivalência (Lakens et al., 2018).

 

Principais resultados

Esta secção sintetiza os principais resultados do estudo relativos aos efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas na prática de JRs (Figura 3).

 

·     Interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques

Os resultados demonstraram que o efeito do número de jogadores variou, em algumas variáveis, em função da condição relativa ao número de toques na bola. Esta interação revelou-se significativa na distância percorrida em alta intensidade, na distância percorrida em sprint, no número de sprints, nas desacelerações, nos contactos com a bola e nas ações de libertação da bola.

 

·     Respostas físicas

Os formatos com menos jogadores favoreceram, de forma geral, um maior número de desacelerações, sobretudo nas condições 2T e FP. Em contrapartida, o número de sprints e a distância percorrida em sprint tenderam a aumentar nos formatos com mais jogadores, particularmente na comparação entre 3v3 e 7v7, independentemente da condição relativa ao número de toques. A distância percorrida em alta intensidade apresentou diferenças menos consistentes, destacando-se apenas valores superiores no 5v5 relativamente ao 7v7, na condição 2T.

 

·     Respostas técnicas

Os formatos com menos jogadores proporcionaram um maior número de contactos com a bola em todas as condições relativas ao número de toques. A condição 2T promoveu igualmente mais ações de distribuição da bola e finalização, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos. Por sua vez, o número de posses individuais de bola e as ações executadas ao primeiro toque mantiveram-se relativamente estáveis entre os diferentes formatos e condições experimentais.

 

Figura 3. Síntese gráfica dos principais resultados obtidos por Jäger et al. (2026).

 

Aplicações práticas

As aplicações práticas apresentadas de seguida decorrem diretamente dos resultados obtidos no estudo e podem auxiliar os treinadores na manipulação dos constrangimentos da tarefa em situações de JR. Ei-las:

 

1. A manipulação simultânea dos constrangimentos produz efeitos distintos: o efeito do número de jogadores depende, em várias variáveis, da limitação do número de toques. Por isso, estas duas variáveis não devem ser planeadas de forma isolada, mas sim em conjunto, de acordo com o objetivo específico da sessão de treino. 

2. Utilize formatos reduzidos para aumentar o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares: os formatos com menos jogadores (3v3) proporcionam maior participação individual no jogo, traduzindo-se num maior número de contactos com a bola. Adicionalmente, tendem a aumentar as ações de aceleração e desaceleração, o que aumenta as exigências neuromusculares específicas da modalidade. Sempre que o objetivo passe por potenciar o envolvimento técnico e estimular ações associadas à força específica do futebol, os formatos reduzidos parecem constituir uma opção mais adequada. 

3. Recorra a formatos mais amplos para estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade: os formatos com mais jogadores (7v7) tendem a aumentar o número de sprints e a distância percorrida em sprint. Além disso, em determinadas condições, observaram-se maiores distâncias percorridas em alta intensidade. Assim, quando o objetivo consiste em estimular ações locomotoras de elevada velocidade em contexto representativo, os formatos mais amplos parecem constituir uma opção adequada. 

4. A limitação a 2 toques pode acelerar a circulação da bola: a condição 2T esteve associada a um maior número de ações de libertação da bola, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos de jogo. Esta regra poderá, por isso, constituir uma estratégia útil para promover uma circulação de bola mais rápida e reduzir o tempo disponível para a tomada de decisão, sobretudo quando combinada com formatos de jogo criteriosamente definidos.

 

Conclusão

O presente estudo demonstra que a combinação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques constitui uma estratégia eficaz para ajustar as exigências físicas e técnicas dos JRs em jovens futebolistas. Os formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares, enquanto os formatos mais amplos tendem a estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade. A regra dos 2T pode ainda potenciar as ações de libertação da bola, embora o seu efeito dependa do formato de jogo utilizado. Estes resultados reforçam a importância de planear os JRs de forma integrada, considerando simultaneamente os diferentes constrangimentos da tarefa. Mais do que opções metodológicas isoladas, o número de jogadores e a limitação do número de toques constituem ferramentas complementares que permitem aos treinadores adequar o treino aos objetivos específicos de cada sessão.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

29/03/2026

Artigo do mês #75 – março 2026 | Para onde direcionar o penálti no futebol? Equilíbrio entre estratégia e execução

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

- 75 -

Autores: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B.

País: Dinamarca

Data de publicação: 10-março-2026

Título: Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution

Referência: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B. (2026). Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution. Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology, 1–6. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/1754337126142456

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 75 – março de 2026.

 

Apresentação do problema

Os pontapés de penálti – remates diretos a partir da marca dos 11 metros, apenas com o guarda-redes pela frente – constituem momentos decisivos no futebol e apresentam taxas de conversão elevadas: cerca de 78% em jogo corrido e entre 69% e 77% em desempates por grandes penalidades (Pipke, 2025; Van Hemert & Van Der Kamp, 2025). Apesar da sua aparente simplicidade, o seu sucesso depende de múltiplos fatores. 

A atenção visual e o foco no guarda-redes influenciam o resultado, podendo aumentar a probabilidade de defesa por parte do guarda-redes (Furley et al., 2017). O stress associado ao momento afeta a execução e o controlo motor (Jordet & Elferink-Gemser, 2012). Ao nível estratégico, as abordagens dependente e independente do guarda-redes apresentam eficácia semelhante (Noël et al., 2015). Fatores contextuais, como a experiência do jogador, o estado do jogo e o momento da partida, também condicionam o desempenho, com melhores resultados em jogadores experientes e em situações de jogo equilibrado (Jamil et al., 2020). No conjunto, o sucesso nos penáltis resulta da interação entre fatores cognitivos, emocionais, estratégicos e contextuais. 

As taxas de sucesso variam em função da zona da baliza visada, com remates colocados em zonas altas e afastadas do guarda-redes a apresentarem maior probabilidade de golo (figura 2), dada a dificuldade destes em alcançar essas zonas (Almeida et al., 2016; Almeida & Vossovitch, 2023). Por oposição, remates ao centro comportam maior risco quando o guarda-redes antecipa corretamente a trajetória (Bar-Eli & Azar, 2009). Contudo, a aplicação prática destas probabilidades não é direta, uma vez que a colocação real da bola nem sempre corresponde ao alvo pretendido (Hunter et al., 2018). Esta variabilidade introduz incerteza e coloca em causa decisões baseadas exclusivamente na zona ideal de finalização (Hunter et al., 2022).



 Figura 2. Os cantos superiores da baliza têm sido frequentemente referidos como zonas ótimas de remate na conversão de grandes penalidades (fonte: www.vsports.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

No futebol jovem, importa considerar as características específicas dos jogadores. Embora a precisão de remate se mantenha relativamente estável entre escalões, a velocidade de remate aumenta com a idade (Vieira et al., 2018; Hunter et al., 2022). Em simultâneo, o alcance dos guarda-redes também aumenta, o que eleva as exigências de colocação em idades mais avançadas. Neste contexto, torna-se pertinente compreender qual a zona ótima de remate em função da variabilidade da execução. O presente estudo procurou articular probabilidades de sucesso com a dispersão do remate, com o objetivo de fornecer orientações mais ajustadas à realidade do jogo.

 

Métodos

 

·     Visão conceptual

O estudo combinou dados observacionais e laboratoriais para estimar a probabilidade de golo em função da zona de remate. Primeiro, determinaram-se probabilidades de golo por zona da baliza com base em dados reais. Em seguida, modelou-se a variabilidade da colocação do remate em torno de um ponto-alvo. Por fim, integraram-se ambas as componentes para simular a probabilidade de sucesso em diferentes zonas da baliza e sob diferentes níveis de variabilidade.

 

·     Taxa de conversão por zonas da baliza

Foram analisados 4299 penáltis em competições jovens dinamarquesas, com registo da localização do remate e do seu resultado (Noe & Porse, 2024). A baliza foi dividida em 15 zonas e os remates de jogadores esquerdinos foram espelhados (Pereira & Patching, 2021). Os resultados, apresentados na Figura 3, evidenciaram maior eficácia nos cantos superiores e menor nas zonas centrais (80,3%), com uma taxa global de conversão de 76,8%.

 

Figura 3. Percentagens de golo em diferentes zonas da baliza, calculadas a partir de 4299 penáltis observados (adaptado de Noe & Porse, 2024, excluindo remates que não atingiram a baliza). A baliza é apresentada na perspetiva do marcador do penálti (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Distribuição bivariada dos remates

Foram avaliados 53 jogadores de uma academia de elite (Sub-15 a Sub-19), em contexto laboratorial, com consentimento informado e aprovação ética. A velocidade máxima da bola foi medida em remates a 11 m com radar Doppler. A precisão foi analisada apenas com o pé dominante, através de 20 remates por jogador, realizados em 2 dias, com a bola em movimento e a uma intensidade mínima de 75% da velocidade máxima (Radman et al., 2016). A localização dos remates foi registada com um sistema de duas câmaras em relação a um alvo fixo. 

Com base nestes dados, foi calculada uma distribuição bivariada da colocação do remate, representada por uma elipse de confiança de 95%. Os remates de esquerdinos foram espelhados (Hunter et al., 2018). A variabilidade foi analisada para o conjunto total de jogadores, bem como para subgrupos com menor e maior dispersão dos remates.

 

·     Taxa de conversão em função da direção do remate

A probabilidade de golo foi estimada com recurso a simulação de Monte Carlo (Press, 1992), com base na distribuição bivariada da precisão do remate. Foram simulados 10000 remates para cada ponto da baliza (200 x 50). A eficácia de cada ponto de remate resultou da média das probabilidades de sucesso dos remates simulados, tendo em conta se a bola entrou ou não na baliza e a respetiva zona de finalização. Um exemplo de simulação é apresentado na Figura 4.

  

Figura 4. Exemplo de 1000 remates simulados dirigidos junto ao canto superior esquerdo da baliza. Os remates foram gerados com base na distribuição bivariada obtida nos testes laboratoriais. A baliza é representada por linhas pretas (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Variação do ângulo da elipse

A orientação da elipse da distribuição bivariada varia em função dos padrões individuais de remate. Para simular diferentes perfis de execução, o ângulo da elipse foi ajustado entre 0º (horizontal) e 90º (vertical). Para cada configuração, foi calculada a taxa de conversão na baliza com base no procedimento descrito anteriormente.

 

Principais resultados

Esta secção apresenta os principais resultados do estudo, com foco na identificação das zonas ótimas de remate em grandes penalidades. Em particular, sintetizam-se os dados relativos à probabilidade de golo em função da localização do remate, da variabilidade da execução e da orientação da dispersão dos remates.

 

·     Taxa máxima de conversão (variação média)

A probabilidade máxima de golo foi de 78,4%, obtida com remates direcionados para uma zona lateral intermédia da baliza, a cerca de 2,26 m do centro e 1,22 m de altura (Figura 5).

 

Figura 5. Taxas de conversão de golo na baliza, representada por linhas pretas. A taxa máxima está assinalada e marcada com um círculo. As linhas, bem como as respetivas percentagens, correspondem a isolinhas. Esta distribuição baseia-se na média de todos os jogadores (Andersen & Carstensen, 2026).

 

·     Influência da precisão do remate

Jogadores com menor variabilidade (maior precisão) devem visar zonas mais afastadas do guarda-redes e ligeiramente mais altas, atingindo taxas de conversão até 86,2%. Jogadores com maior variabilidade beneficiam de alvos mais próximos do guarda-redes e mais baixos, com uma taxa máxima de 75,3%.

 

·     Efeito da orientação da variabilidade

A localização ótima do remate varia com a orientação da dispersão dos remates: (i) distribuição horizontal: alvo ótimo mais elevado e central; (ii) distribuição vertical: alvo ótimo mais baixo e lateral.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam que a eficácia nos pontapés de penálti depende da interação entre a zona visada e a capacidade individual de execução. Esta relação tem implicações diretas para o treino e para a definição de estratégias de finalização. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas técnicas:

 

1. Ajustar a zona de remate ao perfil individual de precisão: o local ótimo de finalização não é universal. Jogadores mais precisos beneficiam de alvos mais afastados e elevados (zonas de maior rendimento), enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados ao visar zonas mais centrais e seguras. A definição da estratégia deve considerar o perfil de consistência de cada jogador. 

2. Integrar a variabilidade de execução na decisão do remate: a escolha da zona de remate deve equilibrar probabilidade teórica de sucesso e capacidade real de execução. Estratégias baseadas apenas em zonas “ótimas” ignoram a dispersão do remate. A decisão deve refletir a probabilidade de acertar no alvo pretendido, e não apenas a eficácia dessa zona. 

3. Caracterizar padrões individuais de dispersão do remate: a orientação da variabilidade (horizontal ou vertical) influencia a zona mais eficaz de finalização. Fatores técnicos e biomecânicos moldam estes padrões, pelo que a sua análise permite identificar tendências individuais e informar a definição da estratégia de remate. 

4. Estruturar o treino de penáltis em contexto específico e representativo: a prática regular de grandes penalidades é essencial para consolidar estratégias eficazes de execução. O treino deve incluir diferentes zonas de remate, variações de colocação e manipulação de constrangimentos técnicos (p. ex., posicionamento do corpo e apoio), de forma a estabilizar a dispersão do remate e melhorar a tomada de decisão em contexto competitivo.

 

Conclusão

A estratégia ótima de penálti não depende apenas das zonas com maior probabilidade de golo, mas sobretudo da variabilidade individual de execução. Jogadores mais regulares beneficiam de alvos mais arriscados, enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados em zonas centrais. A orientação da dispersão do remate também influencia o ponto ótimo de finalização. Estes resultados sustentam a necessidade de individualizar a estratégia e o treino de penáltis em função das características de cada jogador.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology.

27/02/2026

Artigo do mês #74 – fevereiro 2026 | Lateralidade podal no futebol internacional masculino: a sua associação com a seleção e a progressão

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 74 -

Autores: Morganti, G., Kelly, A. L., Tufo, F., Ungureanu, A. N., Lupo, C., Li Volsi, D., Ruscello, B., McAuley, A. B. T., Verbeek, J., & Brustio, P. R.

País: Itália

Data de publicação: 6-fevereiro-2026

Título: Footedness in male international football: Its association with selection and progression

Referência: Morganti, G., Kelly, A. L., Tufo, F., Ungureanu, A. N., Lupo, C., Li Volsi, D., Ruscello, B., McAuley, A. B. T., Verbeek, J., & Brustio, P. R. (2026). Footedness in male international football: Its association with selection and progression. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261418576

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 74 – fevereiro de 2026.

 

Apresentação do problema

A lateralidade traduz a preferência humana pelo uso de um dos lados do corpo na execução de ações específicas, sendo a preferência de pé (footedness) um dos seus principais indicadores comportamentais (Grouios et al., 2002). Embora a maioria da população tenha sido descrita como destra em termos podais, com apenas 14,4–17,7% de indivíduos esquerdinos (Packheiser et al., 2020), o futebol tem apresentado um padrão distinto. Estudos realizados em competições internacionais e ligas profissionais revelaram uma sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos, com valores entre 22% e 23,5% ao mais alto nível competitivo (Carey et al., 2001, 2009; Marcori et al., 2021). Em contextos de seleção nacional jovem, a proporção de esquerdinos atingiu 28–32%, o que sugere maior probabilidade de acesso ao percurso de alto rendimento (Verbeek et al., 2017). Evidência adicional indicou ainda que jogadores esquerdinos auferiram, em média, salários superiores nas principais ligas europeias, o que apontou para uma possível associação entre lateralidade e sucesso desportivo (Bryson et al., 2013). 

Investigações realizadas no futebol evidenciaram uma acentuada assimetria funcional no jogo, com predomínio claro do pé preferido e diferenças de desempenho entre o uso do pé dominante e não dominante (Carey et al., 2001, 2009; Marcori et al., 2021; Stöckel & Carey, 2016). Neste contexto, as exigências tático-técnicas e a pressão espaciotemporal do jogo podem favorecer vantagens específicas associadas à lateralidade, sobretudo em posições que requerem orientação corporal e execução com um determinado pé (Verbeek et al., 2017; Kelly et al., 2024; Akpınar & Bicer, 2014). A ocupação de zonas específicas do campo, como os corredores laterais defensivos ou ofensivos, tende assim a corresponder ao pé preferido, podendo a presença de jogadores esquerdinos responder a necessidades táticas particulares, como no caso de defesas centrais ou laterais do lado esquerdo (Kelly et al., 2024; Akpınar & Bicer, 2014). Neste sentido, a lateralidade pode influenciar não apenas a disposição tática e a tomada de decisão em jogo, mas também as experiências de desenvolvimento dos jogadores e a sua especialização posicional ao longo do percurso formativo (Kelly et al., 2024).

 

Figura 2. A lateralidade no futebol: Lionel Messi como exemplo de excelência (fonte: www.cfclassics.co; imagem não publicada pelos autores).

 

A identificação e o desenvolvimento de talento no futebol assentam em múltiplos critérios, incluindo o desempenho atual, frequentemente utilizado como indicador do potencial futuro, bem como atitudes, dedicação e adequação às exigências e à filosofia das organizações (Ford et al., 2020; Champ et al., 2018; Hem et al., 2022; Barraclough et al., 2024; Reeves & Roberts, 2019; Bergkamp et al., 2024). Estudos longitudinais demonstraram ainda que apenas uma reduzida proporção de jogadores jovens alcança o futebol profissional de elite ou o nível internacional sénior, o que evidencia a existência de taxas de transição particularmente baixas ao longo do percurso formativo (Boccia et al., 2023; Brustio et al., 2023, 2024). Estes dados suportam a necessidade de compreender que características individuais podem influenciar de forma sistemática a progressão no sistema de formação. Além disso, perspetivas teóricas recentes sugerem que a seleção desportiva pode favorecer jogadores com desempenho superior ou com atributos raros que respondam a expectativas e necessidades específicas de treinadores e organizações (Schorer et al., 2016; Baker et al., 2022). 

Posto isto, a menor prevalência de jogadores esquerdinos na população geral pode traduzir-se em vantagens de seleção e progressão no futebol de formação e alto rendimento (Packheiser et al., 2020; Verbeek et al., 2017; Kelly et al., 2024). A raridade relativa desta característica pode conferir benefícios associados ao desempenho em zonas específicas do campo e às exigências tático-técnicas das equipas e pode representar uma vantagem de “sobrevivência” e de “atração” no processo seletivo (Baker et al., 2022). Torna-se, assim, pertinente analisar de que forma a preferência de pé se relaciona com o acesso aos percursos nacionais de talento, a especialização posicional e a progressão até ao nível sénior nas principais academias europeias. Importa, ainda, clarificar o papel potencial da lateralidade nas trajetórias de desenvolvimento e no sucesso desportivo.

 

Métodos

 

·     Recolha de dados

Foram analisados dados de futebolistas convocados para as seleções nacionais jovens (Sub-17, Sub-19 e Sub-21) e seniores de Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, entre 2002 e 2022. A informação foi recolhida a partir da base de dados pública Transfermarkt (https://www.transfermarkt.com) Foram incluídos apenas jogadores com participação em pelo menos um jogo oficial pela respetiva seleção, tendo os guarda-redes sido excluídos por não apresentarem constrangimentos posicionais relevantes associados à preferência de pé. 

Para cada jogador, recolheram-se dados relativos à posição em campo e à lateralidade, sendo os atletas classificados como defesas, médios ou avançados. Cada jogador foi contabilizado apenas uma vez por escalão etário, embora pudesse surgir em diferentes escalões ao longo do tempo. A preferência de pé foi categorizada como destro, esquerdino ou ambidestro; contudo, apenas destros e esquerdinos foram considerados nas análises principais, excluindo-se os ambidestros. A amostra final integrou 7507 jogadores.

 

·     Procedimentos e análise estatística: Parte 1 – lateralidade podal e posição de jogo

A distribuição observada da lateralidade em cada escalão etário foi comparada com a distribuição esperada na população geral (85% destros; 15% esquerdinos), através de testes do qui-quadrado (χ²) de ajustamento. Aplicaram-se ainda testes do qui-quadrado de independência para examinar a associação entre lateralidade e posição. Para interpretar a magnitude e a direção das associações significativas, calcularam-se o tamanho do efeito (Cramer’s V) e os rácios de probabilidade (odds ratio – OR), com intervalos de confiança a 95%. O Cramer’s V foi interpretado como fraco (<0,14), moderado (0,15–0,24) ou forte (>0,25). Os ORs cujos intervalos de confiança incluíram 1 foram considerados indicativos de ausência de associação. 

As análises foram realizadas separadamente por escalão etário, o que garantiu a independência dentro de cada teste. A comparação entre escalões exige, contudo, cautela, uma vez que alguns jogadores puderam integrar mais do que uma categoria ao longo do período analisado.

 

·     Procedimentos e análise estatística: Parte 2 – transição do futebol juvenil para o escalão sénior e preferência podal dos jogadores

A Parte 2 analisou as taxas de transição e de não transição do percurso jovem para o escalão sénior, com base numa subamostra de 2975 jogadores nascidos entre 1985 e 1998. Este intervalo foi definido para garantir cobertura completa dos percursos Sub-17, Sub-19 e Sub-21 no período 2002–2022 e tempo suficiente para eventual transição ao nível sénior. O termo “não transição” refere-se exclusivamente à ausência de convocatória para a seleção sénior. 

As taxas foram calculadas de forma prospetiva (proporção de jogadores jovens que alcançaram ou não a seleção sénior) e retrospetiva (percurso jovem dos jogadores que alcançaram ou não o nível sénior). As análises consideraram diferentes trajetórias de desenvolvimento: percursos simples (apenas Sub-17, Sub-19 ou Sub-21), percursos combinados envolvendo 2 escalões e percursos completos (Sub-17, Sub-19 e Sub-21), bem como casos de acesso direto à seleção sénior. 

Além disso, as taxas foram estimadas para o total da amostra e separadamente por preferência de pé, incluindo estratificação por posição (defesas, médios e avançados). Calcularam-se os ORs com intervalos de confiança a 95%, comparando esquerdinos (grupo de referência) e destros. Aplicou-se correção de continuidade quando necessário. O nível de significância foi fixado em α = 0,05.

 

Principais resultados

Esta secção apresenta os resultados organizados de acordo com os principais eixos de análise do estudo. Em seguida, sintetizam-se os dados mais relevantes relativos à distribuição da lateralidade, à sua relação com a posição em campo e às taxas de transição do percurso jovem para o nível sénior.

 

Parte 1 – Lateralidade e posição em campo

 

·     Sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos

Em todos os escalões (Sub-17, Sub-19, Sub-21 e Sénior), a proporção de esquerdinos (26,6–29,7%) foi significativamente superior à esperada na população geral (~15%). A probabilidade de seleção para competições internacionais foi cerca de duas vezes superior para esquerdinos (OR = 2,06–2,41).

 

·     Associação entre lateralidade e posição

Verificou-se associação estatisticamente significativa entre preferência de pé e posição em todos os escalões (efeitos fracos a moderados).

 

·     Maior presença de esquerdinos na defesa

Jogadores esquerdinos foram recrutados com maior frequência como defesas (OR = 1,70–1,98).

 

·     Menor presença de esquerdinos no meio-campo e ataque

Esquerdinos surgiram com menor probabilidade como médios (OR = 0,56–0,62) e avançados (OR = 0,71–0,91).

 

Parte 2 – Transição futebol juvenil para futebol sénior e lateralidade

 

·     Baixas taxas globais de transição

Apenas uma fração limitada dos jogadores das seleções jovens atingiu a seleção sénior. Nos percursos diretos, as taxas de transição variaram entre 0% e cerca de 26%, enquanto nos percursos combinados se situaram, em geral, abaixo dos 15%, podendo aproximar-se dos 26% em alguns casos específicos. As probabilidades de transição aumentaram com a idade e foram mais elevadas a partir do escalão Sub-21.

 

·     Elevadas taxas de não transição

Independentemente do percurso (simples ou combinado), a maioria dos jogadores não atingiu o nível sénior.

 

·     Sem vantagem sistemática associada à lateralidade

Independentemente do tipo de percurso formativo, a maioria dos jogadores não alcançou a seleção sénior. As taxas de não transição oscilaram, de forma geral, entre cerca de 40% e 80%, com valores mais elevados nos percursos iniciados em escalões mais jovens.

 

·     Acesso direto à seleção sénior

Uma proporção relevante de jogadores integrou a seleção sénior sem percurso prévio nas seleções jovens (16,8% destros; 21,3% esquerdinos).

 

·     Consistência entre análises prospetiva e retrospetiva

Ambas confirmaram que apenas uma minoria atinge o nível sénior e que a preferência de pé não confere vantagem clara na transição (figura 3).

 

Figura 3. Probabilidades de transição para a seleção sénior (taxas de transição/não transição) para cada combinação possível de percurso, comparando jogadores destros e esquerdinos. (Morganti et al., 2026).

 

Aplicações práticas

Os resultados indicam que a lateralidade influencia os processos iniciais de seleção e a distribuição posicional dos jogadores, mas não determina a progressão até ao nível sénior. Os dados oferecem orientações relevantes para a gestão do talento no futebol de formação e de alto rendimento. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas para enquadramento técnico e estratégico:

 

1. Integrar a lateralidade na definição de perfis posicionais e no recrutamento inicial: a sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos e a sua maior presença em funções defensivas indicam que a lateralidade responde a exigências tático-posicionais concretas. A identificação de jogadores em função da sua lateralidade deve apoiar a construção equilibrada do plantel e responder às necessidades funcionais de cada posição. 

2. Estimular a competência bilateral sem ignorar a especialização funcional: apesar do predomínio do pé preferido no jogo, a melhoria do pé não dominante pode ampliar opções táticas e reduzir a previsibilidade. O treino deve promover a versatilidade técnica e tática, de forma a potenciar soluções de jogo complementares à lateralidade dominante. 

3. Evitar a sobrevalorização da lateralidade na progressão a longo prazo: ainda que possa favorecer a entrada no sistema de seleção, a preferência podal não aumentou a probabilidade de transição para a seleção sénior. As decisões de progressão devem assentar no desempenho sustentado e no desenvolvimento global do jogador, não apenas na raridade ou prevalência do pé dominante. 

4. Valorizar percursos formativos consistentes e prolongados: a maioria dos jogadores não alcança o nível sénior, sendo as transições mais prováveis em indivíduos que entram mais tarde (Sub-21) ou que mantêm desempenho elevado ao longo de vários escalões. A gestão do talento deve privilegiar a continuidade do desenvolvimento e a monitorização longitudinal, de maneira a prevenir decisões precipitadas em fases precoces do percurso formativo.

 

Conclusão

Este estudo evidenciou uma sobrerrepresentação de jogadores esquerdinos no futebol internacional europeu, tanto nos escalões jovens como no nível sénior, bem como diferenças na sua distribuição posicional: destros mais frequentes no meio-campo e ataque, esquerdinos mais presentes na defesa. Contudo, após a entrada no sistema de seleções jovens, a lateralidade não influenciou de forma significativa a probabilidade de transição para a seleção sénior. As taxas de progressão revelaram-se globalmente reduzidas, ainda que aumentassem com a idade e com a entrada em fases mais tardias do percurso internacional, sobretudo ao nível dos Sub-21. Os resultados demonstram que o desempenho em escalões jovens, por si só, não garante a chegada ao nível sénior e que a progressão no futebol de alto rendimento depende de múltiplos fatores para além da preferência podal. A lateralidade pode influenciar a seleção inicial e a especialização posicional, mas não determina o sucesso a longo prazo.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.