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16/03/2024

P'las Veredas de Monchique 2023/24 | Percurso Pedestre das Cascatas + Rota das Adelfeiras (10-mar-2024)

Há alguns anos que ando - literalmente! - nestas lides. Contudo, raras foram as ocasiões que me permitiram desfrutar dos 19,2 km realizados na Foia, como no passado domingo. 

Porquê? Por causa da água com que nos deparámos ao longo de todo o percurso. Não me lembro de ter descido o trilho dos castanheiros da Foia, no sentido do Penedo do Buraco, pelas bermas do mesmo, caso contrário ficaria com os pés encharcados. O trilho era o que outrora fora: um curso de água. 

As cascatas do Penedo do Buraco e do Chilrão, praticamente secas durante todo o ano, voltaram a mostrar-nos resquícios do passado: resplandecentes, refrescantes e cristalinas (figuras 1 e 2).

 

Figura 1. Cascata do Penedo do Buraco, Foia, Monchique, Portugal (10-mar-2024).

 

Figura 2. Cascata do Chilrão, Monchique, Portugal (10-mar-2024).

 

Uma vez que estes momentos podem ser cada vez mais efémeros, em seguida deixo-vos um vídeo com breves imagens da cascata do Chilrão para a posterioridade. O que foi, talvez nunca o voltará a ser do mesmo modo. A água, essa, a existir, procurará sempre os caminhos que lhe pertencem por direito.


04/12/2021

Gralhas (2021), de Eduardo Jorge Duarte

 Apresentação do novo livro de poesia do autor

Junta de Freguesa de Monchique (4 de dezembro de 2021)

 

Foi com muito prazer e honra que aceitei o «desafio» proposto pelo Eduardo Jorge Duarte – o meu amigo Edu –, para apadrinhar a apresentação do seu novo livro de poesia Gralhas (figura 1), publicado pela editora On y va.

 

Figura 1. Capa do livro Gralhas, de Eduardo Jorge Duarte (Ed. On y va).

 

Salvaguardo, contudo, alguns pontos prévios que dão corpo ao facto de classificar esta minha intervenção como um autêntico «desafio»: 

 

1)  Sou suspeito para falar/escrever sobre as obras ou textos do Eduardo, uma vez que sou um amigo de longa data e, também, sou um admirador daquilo que tem produzido. Portanto, à partida, as minhas opiniões surgem enviesadas por estas circunstâncias.

 

2)  Não sou um especialista em literatura, muito menos no que se refere à poesia. Aliás, mantenho uma relação complicada com este género literário desde os tempos do Ensino Secundário, quando as minhas interpretações de poemas de Fernando Pessoa ou Cesário Verde não correspondiam, com alguma frequência, ao que era pretendido pelas professoras de Português.


3)  Apesar de alguma frustração, com essa lacuna aprendi uma lição que só após a publicação de O Intervalo entre o Raio e o Trovão, do Eduardo, em 2019, coloquei em prática: não se pode ler poesia com os olhos que dão para o cérebro racional, isto é, de modo estritamente analítico e literal, mas com os olhos que iluminam a alma e suscitam o sentimento (cérebro emocional). O Eduardo fala-nos disso mesmo no poema intitulado «Poema» (p. 86): «Poema é a arte do sensível/ Que nos resta./ A última coisa que se presta/ Ao impossível».


4)  Longe de procurar realizar uma crítica literária da obra, julgo que facilmente encontrarão pessoas mais competentes para o fazer nesta sala, tentarei falar-vos francamente sobre algumas particularidades de Gralhas, na perspetiva de um mero leitor. Este intento faz jus à visão do autor que, reiteradamente, tem referido que «quando uma obra é lançada, deixa de ser propriedade do autor para se tornar algo do leitor».

 

No que se refere à capa, o título Gralhas, acompanhado por três aves de rebordo escuro, alude aos pequenos corvídeos que habitam a maior parte do território nacional. Porém, no primeiro poema, que de resto dá título à obra, compreendemos que, afinal, se trata de uma palavra polissémica, ou seja, que «possui vários significados contidos numa mesma forma gráfica e fonológica». «Gralhas» enquanto aves passeriformes e «gralhas» enquanto erros numa redação. Do outro lado, a contracapa é um deleite de três parágrafos sobre esta composição de poemas do Eduardo: um «conjunto de todos os estados que a sua atmosfera humana pode conhecer em dias distintos, enquanto procura situar-se no mundo e situar o outro em si mesmo». Por aqui, percebemos logo que a monotonia da palavra, pelo verso, não nos irá importunar ao longo das cerca de 132 páginas que albergam os 116 poemas. 

Uma composição que, na verdade, é um exercício de altruísmo, de empatia e de inteleção. Altruísmo, porque o autor escancara-nos as portas da sua mente, sem nos solicitar nada em retorno: os seus amores e paixões, os seus conflitos internos, os seus momentos de solidão e a força do elo que existe com a sua terra natal – Monchique. Empatia, porque encontra no outro uma projeção de si mesmo, como no poema «Sina» (p. 106): «O velho sou eu,/ Sou eu, sim,/ Com toda a confiança,/ Enrolado no cachecol/ A queixar-me à Polícia de mim./ Quero voltar à criança/ Que me atirava bolas de futebol/ Para dentro do jardim». Inteleção ou inteligência, pelo modo como «brinca» com palavras, conceitos e ideias nos versos de poemas como «Gralhas», «Mecânica lamechas», «Assassinatura», «Um rapaz» ou «Abstracção». 

A fim de aguçar o apetite para o conteúdo da obra, e para não tornar esta exposição demasiado enfadonha, propus-me analisar os 6 poemas que mais impacto tiveram nas vertentes racional e emocional do meu cérebro. No fundo, trago-vos os textos que mais sentido fizeram do ponto de vista lógico, mas que, concomitantemente, mais sentimentos despertaram. Ressalvo que, pelo carácter subjetivo da interpretação, não implica que sejam necessariamente as melhores construções poéticas do livro. E foi aqui que começaram os meus problemas: fui tirando as minhas notas e, no final da primeira leitura, tinha 28 poemas selecionados. Após nova triagem, fiquei com um «Top-10», portanto, ainda aquém do meu propósito. Com algumas reticências pelo meio, cheguei aos meus 6 preferidos: «Gralhas», «Pergunta à Alice», «Minotauro», «Memória», «Assassinatura» e «Aposta».

 

Figura 2. Painel da apresentação do livro Gralhas, na Junta de Freguesia de Monchique: José Gonçalo (presidente da Junta de Freguesia de Monchique), eu, Eduardo Jorge Duarte (autor) e António Manuel Venda (escritor e editor da On y va). Foto de Ana Paula Almeida.

 

Em primeiro lugar, seria impossível não referenciar o poema inaugural: «Gralhas» (p. 9-10). Conta a história de um miúdo que desafiou a liberdade concedida pela professora para redigir um texto sobre o que lhe aprouvesse: «As palavras estavam/ Desenhadas a preto,/ Reunidas em bando,/ Tinham sombras nos bicos,/ Asas nas sílabas,/ Faziam muito barulho,/ Num canto rouco/ Que quase não se deixava perceber./ (…)». A criatividade, transcendendo a liberdade, resultou num desenho de «gralhas» (pássaros), erros assinalados a vermelho pela professora. Este é um poema muito bem elaborado, que joga habilmente com a polissemia e que, no meu ponto de vista, aborda um tema bastante contemporâneo: o facto de o sistema educativo vigente ser considerado por muitos professores e educadores como obsoleto, na medida em que a rigidez de muitos currículos ou tarefas (não todos, obviamente) desvaloriza a diversidade de aptidões, expectativas e ritmos de aprendizagem dos alunos. 

«Pergunta à Alice» (p. 24) é o meu poema preferido da obra. Na ocasião em que o Eduardo publicou o poema numa rede social, eu havia comentado com ele – não sei se está recordado –, que se um dia eu e a Patrícia tivéssemos uma filha, daríamos o nome Alice. Se isso acontecesse, iria imprimir o poema e emoldurá-lo no quadro dela. Permitam-me recitá-lo:

 

Pergunta à Alice

 Alice,

Quem te disse

Que a realidade é coisa oca?

Que sem imagens

Todas as paisagens

São rostos sem palavras na boca?

Foi o relógio ou um coelho atrasado

Quem te encolheu o mundo

E respondeu, apressado,

Que a eternidade dura apenas um segundo?

 

Neste poema, com 10 versos e 44 palavras, o Eduardo consegue evocar a famosa obra infantil As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 1865 sob o pseudónimo de Lewis Carroll e, simultaneamente, a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein (1915). Einstein revelou que seria possível tratar, matematicamente, o tempo como a quarta dimensão, formando o tecido espaço-tempo. A presença de objetos com massa curva esse espaço-tempo, sendo tanto maior a distorção quanto maior for a massa do objeto. Por isso, no sol o tempo passa mais devagar que no planeta Terra. Reparem, então, nos últimos 4 versos: «Foi o relógio ou um coelho atrasado/ Quem te encolheu o mundo/ E respondeu, apressado,/ Que a eternidade dura apenas um segundo?»: ao se encolher o mundo de Alice, o tempo flui muito mais rápido: «a eternidade dura apenas um segundo». Na minha opinião, aliarmos todo este racional à simplicidade e à sonoridade do poema, torna-o absolutamente genial. 

Em «Minotauro» (p. 31), o autor socorre-se da metodologia grega para fazer uma crítica implícita ao homem (género masculino). A história que dá origem aos versos reza que Teseu, um aclamado herói grego, foi a Creta para enfrentar o Minotauro que habitava o labirinto construído por Dédalo: quem nele entrasse, nunca mais sairia e seria devorado pelo Minotauro. Antes de partir, foi ao Oráculo de Delfos para saber se triunfaria. A resposta do oráculo foi que deveria ser ajudado pelo amor para vencer o monstro. É aqui que entra Ariadne, filha do rei Minos. Ela prontificou-se a ajudar se, posteriormente, o herói se casasse com ela em Atenas. Teseu viu em Ariadne a hipótese de ser bem-sucedido na sua missão. Ariadne deu-lhe uma espada e um fio de lã para que Teseu pudesse matar o Minotauro e encontrar o caminho para sair do labirinto. Foi a própria Ariadne que segurou na outra ponta do fio. Teseu venceu o bicho e conseguiu sair do labirinto. Regressou a Atenas com Ariadne: «Quantos de nós enfrentam o touro escondido/ Num palácio de cobardia?/ Que herói desconhecido/ Em nós arriscaria/ Matar por amor a Ariadne o animal/ E encontrar um caminho vicinal/ Para tornar à luz do dia?». Um poema estupendo e que coloca em causa as atitudes e os comportamentos animalescos dos homens, tantas vezes perdidos num labirinto de confusão intrínseca. A mensagem que retiramos do poema é que no amor, na genuinidade e na sinceridade, os homens poderão sair da escuridão e tornar à luz do dia. Como último comentário a «Minotauro», é importante enfatizar que a apreciação crítica aos homens não se esgota no poema. No âmbito da mitologia grega, há quem defenda a premissa que o amor que Teseu sentia por Ariadne tinha o seu quê de conveniente, não se equiparando ao amor dela por ele. 

No poema «Memória» (p. 46), o Eduardo parece dirigir-se a alguém cujo esquecimento tomou o lugar da recordação: «– O que é a memória? –/ Perguntas tu, no ar espesso/ Do pátio, com a trémula incerteza/ Que existe nas miragens». Com a paciência com que se cuida de alguém muito querido, relembra todas as circunstâncias em que respondeu à questão «O que é a memória?». São versos de afeto, dedicação e altruísmo, exacerbados pela invenção das respostas dadas nas ocasiões anteriores: «Enumero os dias, as semanas, os meses,/ Se era Outono, Primavera, Inverno, Verão,/ E o que te conto já não é recordação,/ Mas sim uma invenção do que te disse nessas vezes». Esta aparente contradição tem uma justificação psicofisiológica: o esquecimento não é um antónimo da memória, mas um auxiliar da mesma, uma vez que a nossa capacidade de armazenamento de informação é limitada. A aprendizagem e a invenção implicam o esquecimento de alguns factos antigos ou menos relevantes. 

«Assassinatura» (p. 81) mostra-nos toda a habilidade do Eduardo com as palavras. Como um malabarista mantém 3, 4 ou 5 bolas no ar enquanto rodopia, salta ou se equilibra, o meu amigo pegou nos verbos «Assassinar» e «Assinar» e, em tons de crítica, apontou contra a poesia escrita às três pancadas: «Violência ortográfica, maus-tratos à sintaxe,/ Torturas à semântica, métrica/ Sem ética e sem estética,/ Orações divididas/ Pelas mãos ilegíveis e fingidas/ Do diabo». O horror e a frieza dos atos de um assassino psicopata, na pele de um mau poeta, captados em versos. O clímax do texto surge com a poesia subvertida a uma nova literatura, assinada a sangue: «Assassinava a língua e assinava:/ E assim gatafunhava/ Uma nova literatura,/ Uma espécie de assassinatura». Cá está, a enorme criatividade do autor imiscuída numa crítica acérrima a quem não respeita a língua portuguesa, a poesia e, ainda assim, crava o seu cunho de autor. 

O último poema que abordarei tem como título «Aposta» (p. 114). É um poema de amor, de sorte ou azar e até de dor. No tema «Anel de Rubi», Rui Veloso tenta, ingloriamente, conquistar a amada por via da música: «Mas esse teu mundo era mais forte do que eu/ E nem com a força da música ele se moveu». Em «Aposta», o Eduardo Duarte fá-lo por via da poesia: «Aposto/ Que mesmo que eu tos escrevesse,/ Não ligarias nenhuma./ “As palavras são vento que se esquece”,/ Dirias, e que a poesia te aborrece,/ Por poder ser muita coisa e tu só uma». O remate do poema ocorre, mais uma vez, em grande estilo, expondo a cru as dores que decorrem de um amor sujeito às vicissitudes da sorte (ou do azar): «Aposto/ O tudo e o nada, a sorte e o azar,/ Que na roleta do coração sempre a girar,/ Os poemas viciados no teu ser/ São dores ainda mais fundas a calcar/ A dor de te ganhar e te perder». Brilhante! 

Em suma, e para não corromper mais a subjetividade da vossa interpretação, congratulo o meu amigo Edu com um valente abraço e destaco o papel da editora On y va, na pessoa do nosso escritor e conterrâneo António Manuel Venda. Aceito as críticas de ser suspeito e um leigo na matéria, mas Gralhas é um livro que nos toca a alma e a razão das mais variadas maneiras. É, sem margem para dúvida, uma ótima sugestão de leitura para este Natal e para um futuro que se encontra por escrever. Caros presentes, senhores e senhoras: recomendo vivamente!


Gravação da sessão: https://fb.watch/9HB3pWNvbU/


15/10/2021

Conto "Além do horizonte" na coletânea Liberdade (2020)

Corria o mês de fevereiro de 2020 quando o Município de Monchique lançou a primeira edição do Prémio Artístico e Literário de Monchique. De entre as cinco categorias de participação possíveis, e julgando estarem asseguradas condições legais para concorrer, submeti o conto “Além do horizonte” na categoria “prosa”. 

Independentemente do resultado do concurso, do qual fui excluído pelo júri e que, em sede própria e a quem de direito, tive oportunidade de manifestar a minha discordância, o conto recebeu uma menção honrosa, com direito a publicação na coletânea Liberdade (1.ª edição, 2020; figura 1), que reúne alguns dos trabalhos que participaram nas diversas categorias: prosa, escultura, fotografia e pintura (poesia não teve trabalhos a concurso).

 

Figura 1. Capa e contracapa da coletânea Liberdade (2020), edição do Município de Monchique.

 

Pessoalmente, deu-me um gozo enorme escrever este conto, não apenas por abordar a liberdade em tempos de confinamento, mas, essencialmente, porque me permitiu conjeturar algumas particularidades e tradições de Monchique em tempos que não tive ocasião de vivenciar. Também não podia deixar de parte a componente filosófica que preenche os entretantos da nossa existência. Aqui, no Linha de Passe, transcrevo o primeiro parágrafo da prosa:

 

Poderia escrever que esta é a história do senhor Jerónimo, mas isso seria mais um dos incontáveis lugares-comuns que encontramos entranhados no quotidiano: os dias repetidos à exaustão, com contornos mais ou menos retos, mais ou menos monótonos. O assunto que vos trago não deveria ser corriqueiro ou desprezível para a tão aclamada humanidade, embora o que reste dela seja apenas alguns espasmos esporádicos que ocorrem sem aviso prévio. A maioria de nós goza o «dado como adquirido» sem esforço, dor, paixão ou memória; um conjunto de intenções, ações e conquistas rebaixado ao valor da indiferença. Porém, as forças que nos impulsionaram para o que somos, ou que nos impelem para o que seremos, nada têm de trivial.

 

Se, por obra do acaso ou da intenção, o livro vos for parar às mãos, espero que o emaranhado de palavras que escrevi vos faça sentido e que a imaginação vos leve “além do horizonte”. 

Expresso os meus sinceros parabéns a todos os participantes e, em especial, aos vencedores do prémio. Faço ainda votos para que o Município de Monchique continue a incentivar a produção cultural local, com esta ou outras iniciativas do género.

14/11/2020

A Paixão do Conde de Fróis (1986), de Mário de Carvalho

“A paixão do Conde de Fróis”, livro primeiramente publicado em 1986, constituiu a minha estreia na literatura produzida pelo escritor português Mário de Carvalho (figura 1). Trata-se de um romance histórico ficcionado, no qual o filho do Conde de Fróis é desterrado para a raia transmontana na sequência de uma rixa em Lisboa, em pleno reinado de D. José, no século XVIII. A punição fora branda para as possibilidades que haviam sido propostas pelo ministro que governava à data – o distinto Sebastião José, Marquês de Pombal. 

 

Figura 1. Capa do livro “A Paixão do Conde de Fróis” (1.ª Edição da Porto Editora, 2015).

 

Não fosse o jovem fidalgo “reincidir na estroinice”, quis o pai que fosse acompanhado pelo capelão da família até ao destino do desterro: a praça de S. Gens. Acontece que o jovem conde metamorfoseou assim que recebeu a incumbência d’el-rei; o anterior rebelde virou homem rijo e diligente, colocando, desde logo, o padre-mestre no sítio: quem daria ordens era ele e mais ninguém! 

A caminho de S. Gens faleceu o velho governador da praça, o Marquês de Lobais, pelo que é atribuída ao conde a função de gerir os destinos do espaço, que com ele readquire o tino, o aprumo e o zelo essenciais para efetivar a missão do foro militar. À paixão do jovem conde por tropa, baluartes e guerra, contrapõe-se o desencanto do capelão pelas sucessivas desfeitas do fidalgo e pela sua condição de subalterno desprezado: “Ao menos se o vento levasse aquela amaldiçoada praça…” (p. 32). 

E é precisamente nesta relação conflituante entre o fidalgo, firme de carácter e obstinado pelo cumprimento do dever, e o capelão de família, interesseiro, intrometido e dissimulado, que se desenrola a trama. Recordemos, por exemplo, o castigo do conde a um soldado que, habilmente impelido pelo senhor padre, disparou um tiro a três lobos, na ocasião vultos em movimento no monte, alheios às más intenções humanas:

 

Querendo – respondeu o conde –, prestará Vossa Paternidade as contas que bem entender à sua consciência ou à Divina Misericórdia. Sobre Vossa Paternidade não tenho, nem quereria ter jurisdição. Quanto ao soldado, cometeu uma falta e vai ser castigado por ela. (…) talvez assim aprenda a obedecer a quem deve e a desobedecer a quem não deve…

(p. 44) 

À crescente virtude demostrada pelo fidalgo nas decisões tomadas, no intuito de proteger a praça do exército coligado de espanhóis e franceses, correspondia a desgraça do servo de Deus:

 

À medida que as notícias vinham, de longe em longe, o padre ia-se sobressaltando. Havia um desencontro entre as suas expectativas e os enredos tecidos pela Providência. Não tinha contado com guerras, e uma praça raiana era justamente o sítio mais incómodo para aguardar que as hostilidades passassem. E ele não se sentia merecedor de desgraças. Já lhe ia bastando aquele ermamento, no fim do mundo. Tudo o que mais viesse sobejaria.

(p. 50) 

Chegados os invasores e montado o cerco, a praça de S. Gens ia resistindo conforme podia. Perante a intransigência do senhor conde em se render e escancarar as portas da aldeia aos espanhóis, o ânimo do povo diminuía, não somente pelo sentimento de insegurança vigente, mas também pelos boatos da descrença do conde que se iam disseminando por meio do capelão – na praça não entraria nem o próprio filho de Deus. Se ao jovem Conde de Fróis lhe poderíamos apontar o erro de ignorar a moral dos seus súbditos, a Sua Paternidade poderíamos legar a responsabilidade de conspirar e atraiçoar o seu suserano: “Pela primeira vez nos largos meses de desterro naquele calcanhar do mundo, o padre sentiu que os seus manejos compensavam, que lhe rendia a semeadura” (p. 168). 

Numa derradeira operação para deter os avanços das trincheiras adversárias, a investida foi denunciada pelos soldados que permaneceram na praça. A porta da traição, com designação a preceito, foi fechada a sete chaves e o conde e os restantes militares deixados à mercê do exército invasor. 

Na missa de corpo presente do Conde de Fróis, com a comparência do Marquês de Alagon, velho líder do exército espanhol, o capelão, qual ilustre representante de honradez, “(…) prestou ao jovem fidalgo um alevantado elogio fúnebre, repassado de tropos retóricos, em que a temperança, a virtude e a coragem eram comparadas às figuras egrégias dos livros antigos” (p. 212). O último parágrafo remete-nos para atributos de tempos antigos, que jamais poderemos reconhecer no sacerdote que os proclamou – aquele que, segundo o narrador, “nunca tocou no coração do povo” e que apenas se queria misturar com “gente de gabarito”.

10/10/2020

Cemitério de Pianos (2006), de José Luís Peixoto

Após ter lido “Nenhum Olhar” (2000) há coisa de sete anos, “Cemitério de Pianos” (2006) foi a segunda obra que li de José Luís Peixoto, um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A título de curiosidade, em 2007, um ano após a sua publicação, “Cemitério de Pianos” (figura 1) recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha.

 

Figura 1. Capa do livro “Cemitério de Pianos” (1.ª Edição, 2006, Quetzal Editores).

 

Quem já havia lido José Luís Peixoto reconhece o estilo do autor nesta obra: a profundidade da narrativa; a atenção concedida à natureza humana; o contraste das emoções associado a acontecimentos díspares; e, a fatalidade do destino entrelaçada com a perpetuação de características hereditárias. Apesar de o autor se ter baseado na história trágica de Francisco Lázaro, um atleta português que faleceu nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, a trama abrange a sua família direta ao longo de três gerações. As três gerações são representadas por três narradores distintos: o pai do atleta Francisco Lázaro, o próprio Francisco Lázaro e, posteriormente, o seu filho. O enredo é contado de forma anacrónica pelos narradores, ou seja, com mudanças constantes de plano temporal, pelo que é preciso permanecer alerta para que não percamos o fio à meada. O excerto – “A minha mulher, sentindo-se menina, mãe e avó, respirou, aproximou-se dela [Maria] e contou-lhe o que aconteceu” (p. 66) –, sintetiza o modo como a história é narrada a partir de três pontos temporais distintos: a recordação da juventude do primeiro narrador, quando solteiro, enamorado e o casamento com a sua esposa; o nascimento dos quatro filhos e a existência como pais; o crescimento da família e o papel de avós. 

Entramos na história de rompante com a frase: “Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer” (p. 13). A intimidade da família é progressivamente revelada, na qual o amor dá lugar à violência, a alegria é abafada pela tristeza, a cumplicidade é pervertida pela traição e a morte permuta com a vida. Hermes nasce no dia em que o avô morre vítima de doença prolongada e o filho de Francisco Lázaro nasce pouco após o pai falecer na maratona de Estocolmo. Além do legado genético, os narradores trabalhavam na carpintaria de Benfica que herdaram dos pais (da família) e arranjavam pianos. É a sala anexa à carpintaria – o cemitério de pianos –, inicialmente apresentada como uma “divisão fechada” que encerrava “sustos lá dentro”, que acaba por estabelecer a conexão intergeracional da narrativa. Por exemplo, Marta, uma das irmãs de Francisco Lázaro, foi concebida no cemitério de pianos, num mês de setembro; porém, anos mais tarde, foi um “incidente familiar” nesse mesmo local que despoletou a mudança comportamental que a tornou disforme. O cemitério de pianos é, também, um espaço metafísico no qual a pequena Íris, sobrinha de Francisco, com quase três anos, dialoga com o falecido avô: “Tu eras marido, pai e avô” (p. 189) e “egoísta”. 

O drama das relações numa família numerosa, no final do século XIX e primórdios do século XX, foi sublimemente captado na relação de Simão, o irmão mais velho de Francisco, com o pai. Simão cegou em pequeno num acidente com Francisco e foi, de entre os quatro irmãos, aquele que mais sofreu com o alcoolismo e a violência do pai. O pai nunca batia em Francisco e este julgava que, ao bater em Simão, era a forma que havia arranjado para lidar com a tristeza do acidente. 

A descrição da corrida, quilómetro a quilómetro, pelo narrador (e atleta) Francisco Lázaro foi uma das partes do livro que mais apreciei. Quando corremos há uma multitude de pensamentos que nos assolam e nem sempre de maneira ordeira e coerente. O autor expôs estes desvarios com mestria, interpolando as sensações experienciadas pelo corredor – alguns excertos são apresentados a seguir –, com eventos ocorridos anteriormente (analepses).

 

·      Quilómetro 6: “(…) O sol arde-me na pele, na graxa especial que me cobre a pele” (p. 108).

·      Quilómetro 11: “Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio” (p. 123).

·      Quilómetro 17: “Deixarei de ouvir a voz que se repete na minha cabeça: o sol. Continuarei a ouvir a voz que existe no centro de mim: a minha vontade” (p. 199).

·      Quilómetro 22: “Era na dificuldade da minha solidão: caminho negro de estátuas: que eu me edificava” (p. 215).

·      Quilómetro 29: “No meu corpo, é outra coisa que se imola no lugar do meu corpo. Talvez aquilo que penso” (p. 235).

 

A morte por exaustão de Francisco Lázaro, na maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912), é um facto verídico na história do desporto nacional. No âmbito da ficção, e segundo a narração do seu filho a relembrar as palavras do tio Simão: “(…) houve aqueles que acreditaram que encontrou a morte ao fugir dela e houve aqueles que acreditaram que fugiu da morte ao procurá-la” (p. 156). No final nem tudo tem de ser derradeiro: haverá sempre vida depois da morte, enquanto houver descendência e memória:

 

Então, pensava que havia uma parte do meu pai que permanecia em mim e que entregava aos meus filhos para que permanecessem neles até que um dia a começassem a entregar aos meus netos. (…) Éramos perpétuos uns nos outros.

 (p. 257)

 

Um livro pleno, que compatibiliza as suaves valências e os duros defeitos do ser humano num contexto íntimo e alargado de família.

22/08/2020

Desgraça (1999), de J. M. Coetzee

John Maxwell Coetzee é um escritor sul-africano que recebeu o prémio nobel da literatura em 2003. Foi o segundo escritor sul-africano e o quarto africano a receber a distinção. “Desgraça”, cuja primeira data de publicação remonta a 1999 (figura 1), foi a primeira obra que li do autor.

 

Figura 1. Capa do livro “Desgraça” (7.ª Edição, 2010, Publicações D. Quixote).

 

Para uma boa compreensão do romance é essencial estar minimamente familiarizado com o conceito de apartheid (em africâner: separação), um regime de segregação racial, liderado por uma minoria branca no poder, desde 1948 até meados da década de 90, cessando com a eleição de Nelson Mandela para presidente da África do Sul, em 1994. Embora o autor aborde o assunto de forma subtil e com mestria, uma leitura atenta é capaz de estabelecer um paralelismo entre a desgraça do professor David Lurie e a tensão sociorracial que se vivia naquele país à época. A expressão máxima dessa tensão é alcançada com o assalto e as agressões brutais a David e à sua filha Lucy, na propriedade rural de Lucy, consumados por três indivíduos de raça negra. Lucy, inclusivamente, caracteriza a violação de que foi vítima com base no ódio: “uma submissão de alguém que está em território alheio”. Mais tarde, compreende-se que o prestável vizinho Petrus tinha, de facto, a pretensão de apropriar-se de todos os bens de Lucy, somente garantindo a sua proteção caso ela se tornasse uma deles. 

Quanto à personagem principal – David Lurie –, é um indivíduo complexo. Gosta de mulheres mais novas, belas e desinibidas, tendo fracassado nos relacionamentos sérios que teve (dois divórcios). É professor de Línguas Modernas na Universidade Técnica da Cidade do Cabo e, apesar de ser uma pessoa culta e amante de literatura europeia, sabe que os alunos não gostam das suas aulas: “Uma vez que não respeita a matéria que ensina, não tem qualquer impacto nos seus alunos” (p. 8). Entende na perfeição aqueles que são os limites da decência, mas não deixa de os ultrapassar em prol dos seus impulsos (por exemplo, a chamada para casa da “acompanhante” Soraya e o assédio à aluna Melanie Isaacs). 

É precisamente a relação com a aluna Melanie que determina a espiral negativa em que entra – a sua desgraça. Resignado, admite que errou e assume a culpa perante a comissão de inquérito da universidade, teimando em não contestar as declarações de Melanie sem tomar conhecimentos das mesmas. “Primeiro a sentença, depois o julgamento” (p. 47). É no avolumar constante de problemas que Lurie dá passos para a remição dos pecados, embora ele afirme não querer tornar-se numa pessoa melhor. “Não deixa de ser curioso que um homem egoísta como ele se tenha oferecido para tratar de cães mortos” (p. 157), diz-nos o narrador. Aliás, a propósito de ser uma boa pessoa, o narrador, quase no papel de superego do protagonista, comenta que: “Não é uma má resolução a tomar numa época negra” (p. 231), quiçá aludindo à tensão racial vigente, fruto da inversão da opressão exercida pela minoria branca, nos tempos de apartheid, face aos indivíduos de raça negra. 

As especialidades do professor Lurie – mulheres e literatura – são, perto do final do livro, alvo de crítica irónica e vincada do narrador: “Grande parte da literatura trata disso: raparigas jovens tentando fugir à opressão de homens velhos, para o bem da espécie” (p. 202). Qual consequência cármica, o infortúnio é extensível às mulheres, de Melanie, bela e perfeita, a Bev Shaw, com tendência a piorar, e à sua obra artística: “Ele não possui os recursos musicais nem as reservas de energia para conseguir tirar Byron em Itália da monotonia em que caiu desde o início” (p. 228). 

A minha interpretação do final, em que David vai buscar o cão que o venera para ser abatido, com todo o carinho que o animal merece, remete-nos para uma metáfora da relação superior, e intempestiva, que manteve com a filha Lucy após o incidente na fazenda. Para o bem de ambos, importava deixar partir a proteção excessiva que evidenciou nos tempos de desgraça comum. 

Pessoalmente, julgo que o livro prometia muito nos primeiros seis capítulos – um thriller repleto de emoções, todavia, a desgraça de David levou a trama para algo menos exuberante e mais real, ficando algumas pontas soltas por esclarecer. Os livros não têm de corresponder às expectativas de cada leitor, isso seria impossível, cabe-nos a tarefa de retirar uma ou mais lições da história que o autor nos conta. Desta, eu retiro o seguinte: nunca é tarde para controlarmos os nossos impulsos, ou para corrigirmos o que de mal deles resulta.

31/07/2020

O último cabalista de Lisboa (1996), de Richard Zimler

A obra selecionada para o encontro do mês de julho de 2020 do Clube de Leitura de Monchique foi “O último cabalista de Lisboa”, cuja primeira edição data de 1996. Desconhecendo por completo Richard Zimler, este foi o primeiro livro que li do autor. Trata-se de um romance histórico baseado em factos reais, em que Berequias Zarco, o narrador e protagonista, discursa quase em regime autobiográfico (figura 1). 

 

Figura 1. Capa do livro “O último cabalista de Lisboa”, do autor Richard Zimler.

 

A trama gira em torno do assassinato do líder e mestre espiritual Abraão Zarco e da incompatibilidade entre duas religiões distintas – a judaica, sendo que muitos judeus foram convertidos em cristãos-novos, e a cristã, cujos crentes eram os cristãos-velhos. O clima de crispação vigente determinou o massacre de judeus no Rossio na Páscoa de 1506, a designada matança da Páscoa de 1506. Para os cristãos-velhos, incitados por frades dominicanos, os judeus eram os culpados da seca, da fome e da peste negra, devido ao seu pacto, alegadamente secreto, com o diabo. Não deixa de ser um tema forte na atualidade, na medida em que os deuses de uns são o diabo para os outros e, por isso, se têm matado milhões de pessoas ao longo da história da humanidade, pela intolerância à diferença associada ao fanatismo religioso.

Além da busca incessante de Berequias Zarco, acompanhado pelo seu fiel amigo e primo Farid, pelo assassino do tio Abraão, há inúmeras passagens desta época de ouro dos descobrimentos portugueses que me impressionaram:

 

· Os tumultos ocorreram na ausência do rei que, devido à peste negra, se havia retirado para Abrantes (muito embora fosse uma prática comum na altura, não se coaduna com a máxima que postula que os bons exemplos devem vir de cima);

 

· Os escravos africanos que morriam, muitos deles a trabalhar na construção do Mosteiro dos Jerónimos, eram atirados para montes de esterco nos arredores de Lisboa (a dignidade da vida humana rebaixada à condição de esterco);

 

· Berequias assistiu à execução de judeus no Rossio, contudo, quando estava a ser perseguido por cristãos-velhos, foi salvo por uma família muçulmana (a intolerância não depende estritamente das diferenças entre religiões, mas na maldade das pessoas que se servem da religião para atingir determinados fins);

 

· A cinco séculos de distância, confesso que a citação seguinte foi extremamente dolorosa de ler:

(…) Sentado numa pá, via-se um recém-nascido desconhecido a quem tinham arrancado a cabeça.

Face ao impensável, que assim tomara forma, nenhum de nós ousara falar.

Alguém pode imaginar o que significa ver uma criança decapitada sentada numa pá? É como se todas as línguas do mundo ficassem esquecidas, como se todos os livros escritos se tivessem reduzido a pó. E como se alguém pudesse ficar feliz com tal coisa; por pessoas como nós não terem direito a falar ou escrever ou deixar qualquer traço na História (p.103).

 

· Depois há uma observação muito interessante sobre o povo português e que julgo que perdurou ao longo de todo este tempo até aos dias de hoje:

Enquanto caminhamos, observamos a atitude respeitosa do povo da cidade, o mesmo povo que um dia ou dois antes era capaz de exigir a cabeça do rei. «Esta passividade está profundamente entranhada nas almas dos cristãos portugueses», penso. «Nunca nenhuma revolta há de aqui ter sucesso» (p. 272). A passividade é um traço característico do povo português ainda visível nos tempos correntes, mas houve algumas revoltas nos últimos 500 anos e, talvez por isso, ainda possamos dizer que somos portugueses e usufruir de direitos como a liberdade de expressão.

 

· A definição cabalística do mal é, na minha opinião, um eufemismo, mas que, de certo modo, nos indica que o ser humano quando nasce é bom: “o bem que se afastou do seu justo lugar” (p. 350).

 

· Para concluir, o aviso premonitório de Berequias Zarco – o Mardoqueu na iluminura do mestre Abraão Zarco –, o herói do povo judeu: “A matança mal começou. (…) Mais tarde ou mais cedo, neste século ou daqui a cinco séculos, hão de vir procurar-vos ou aos vossos descendentes” (p. 351). Teriam os seus ensinamentos cabalísticos permitido que vislumbrasse o que viria ser o holocausto?

 

Um livro muito bem escrito, com um enredo exemplarmente estruturado pelo autor, baseado nos três manuscritos originais de Berequias Zarco e que nos relata acontecimentos que não constam propriamente nos manuais da História de Portugal.

11/08/2018

Monchique: Um diário de uma semana negra (3 a 10 de agosto de 2018)

A todos quantos desvendo o véu da minha intimidade manifesto o orgulho em ser natural de Monchique e residir na minha terra natal. Gabo o ar puro, a água cristalina, o sossego e a predominância do verde que cobre esta magnífica serra algarvia. Nos dias que agora passam a predominância deixou de ser o verde e passou a ser o negro. A imponente serra de Monchique ardeu, consumida por labaredas que se propagaram como não há memória, segundo os dizeres das gentes mais antigas da terra. O Município de Monchique reporta cerca de 16700 hectares de floresta e mato queimados, o que corresponde a 42,3% da área total do concelho, para não referir os imóveis e/ou outros bens materiais perdidos por muitos cidadãos.

Em seguida tentarei, sucintamente, relatar os dias que vivi por Monchique nesta semana que será de má memória para todos nós e cujas repercussões perdurarão por muitos dias, meses e até anos. Não é mais do que a minha versão dos acontecimentos, o meu testemunho, e estou certo de que muitos dos meus conterrâneos terão mais e melhores histórias para contar e que ficarão, pela negativa, para a posterioridade.

Sexta-feira, 3 de agosto de 2018. Deflagrou o fogo na Perna da Negra, na região norte do concelho de Monchique, pelas 13h32. Eu estava a almoçar em casa, na vila de Monchique, mas apenas soube do sucedido à tarde quando estava a trabalhar nas piscinas municipais. Infelizmente, os fogos não são eventos estranhos por cá, mas o facto de ter sido decretado “risco extremo de incêndio” pela Proteção Civil para o distrito de Faro não augurava coisa boa. Lembro-me de comentarem comigo que a área em chamas era um autêntico “barril de pólvora”, uma vez que havia cerros repletos de mato denso, seco e pouca acessibilidade. Ainda nessa sexta-feira à noite foram evacuadas pessoas nas Taipas e na Foz do Carvalhoso, a aproximadamente 20 km da vila.

Sábado, 4 de agosto de 2018. No sábado o cenário mudou e as chamas propagaram em direção à Altura das Corchas e Portela do Vento. O calor e o vento forte dificultaram imenso o trabalho dos efetivos no terreno. À tarde, pelas 17h, aquando das atividades das Jornadas Exercício e Saúde 2018 do Município de Monchique, o fumo cobriu o céu sobre a vila (imagem 1), o que indiciava uma progressão da frente de fogo para a sede de concelho, precisamente a área de maior densidade populacional. Nos povoados acima mencionados as pessoas começaram a ser evacuadas das suas casas. Em Monchique, a preocupação era cada vez mais evidente, sendo já estabelecidos termos de comparação com o incêndio que lavrou o concelho em 2003.
  
Imagem 1. Fumo sobre a vila de Monchique (4-ago-2018).

Domingo, 5 de agosto de 2018. As condições climáticas agravaram e o avanço do incêndio, ao invés de abrandar, acelerou rumo às vertentes Sul e Nascente da vila. Pelo meio, foi varrendo tudo a uma velocidade temente. Pouco após as 16h, a piscina municipal foi evacuada e a Proteção Civil ligou-me para cancelar a última semana das Férias Desportivas 2018. Demorei duas horas a ligar para todos os encarregados de educação e, quando terminei essa tarefa, já o fogo estava às portas da vila (Bica Boa, Relva de Trás, Cruz dos Madeiros). Quando olhei pela varanda da minha casa, apesar do denso fumo que invadiu Monchique, deu para perceber que a situação estava totalmente descontrolada. A decisão de levar a minha esposa e o bebé para Portimão foi imediata, mas organizar a mala com os bens necessários levou o seu tempo. Consegui regressar a Monchique pelas 22h, já as chamas desciam a encosta Sul da Picota, sendo visíveis a partir da zona de Vale de Boi (Parque da Mina) e das Caldas de Monchique. Volvidos 30-40 minutos a estrada N266 Monchique – Portimão foi cortada pela GNR. Na vila, a paisagem da minha casa era desoladora com o incêndio ainda a lavrar na Cruz dos Madeiros, Cerca da Rita, Malhada Quente, Carolo, Bemposta, São Roque, Caminho do Vale e a “subir” a encosta Norte da Picota. Entretanto, uma outra frente progrediu em direção a Alferce, barbeando tudo em redor da aldeia, incluindo algumas casas. O término do dia não chegou sem que as labaredas surgissem no Cerro do Touro. Da Rua do Viador observei diversas casas ameaçadas no dito cerro, no sítio da Mata Porcas e projeções a atingirem a rua onde me situava e a Rua do Bemparece. O Cerro de São Pedro foi, também, atingido por projeções e só não ateou devido à rápida atuação de populares e bombeiros já prontos para a contenção. O sentimento de impotência no momento foi indescritível e o número de moradias que estiveram em perigo em plena vila e arredores foi impressionante (imagem 2).
  
Imagem 2. Fogo às portas da Vila de Monchique (Cerro do Touro e Caminho da Foia; fonte: bombeiros24.pt).

Segunda-feira, 6 de agosto de 2018. A madrugada foi longa e só quando o fogo começou a recuar no Cerro do Touro, por meio da alteração do vento e da intervenção dos bombeiros, me permiti descansar algumas horas. Acordei sem água canalizada e com rede muito instável no telemóvel. Os serviços de televisão e internet já tinham ido abaixo na véspera. Este foi o dia em que o impensável aconteceu: jamais julguei possível sentir a minha casa em risco dentro do perímetro da vila. De manhã fui para o quartel dos bombeiros para ajudar no que fosse preciso e juntei-me a um grupo de malta conhecida na logística. Por volta da hora do almoço andava a distribuir refeições na Altura das Corchas aos operacionais no terreno com um elemento da Proteção Civil de Castro Marim. A vista do veículo era constrangedora (imagem 3).

Imagem 3. Casa dos Cantoneiros (Altura das Corchas, 6-ago-2018).

Na rádio o locutor afirmava que a Proteção Civil anunciava ter 95% do fogo controlado até ao final da tarde. Comentei com o senhor da Proteção Civil que achava a situação demasiado otimista e, ao passar a segunda vez pela Portela da Sernada, avistei uma frente de fogo na zona da Alcaria do Peso e do Barranco dos Pisões a consumir mato com uma força incrível. Disse-lhe que o vento estava de quadrante Norte e que, provavelmente, chegaria à Portela das Eiras e, no pior dos cenários, ao Cerro do Convento; daí até entrar na vila pela vertente Poente seria um ápice. A resposta que obtive foi um leve encolher de ombros e... silêncio. Entretanto, ardia noutros pontos do concelho como, por exemplo, no Semedeiro e nas Caldas de Monchique. Retornado ao quartel, a recolha e a distribuição de alimentos, águas e outras bebidas foi uma constante. Às 19h, num período de atividade mais calmo, vislumbrei um céu mais escuro sobre a vila e o que temia aconteceu mesmo. O fogo estava a lavrar a Portela das Eiras e o vento aumentou de intensidade: ia chegar ao Convento. Despedi-me e fui para casa, no sentido de tentar perceber a gravidade do contexto. Estar sem água canalizada e com pouca rede agravavam as circunstâncias. Por volta das 20h40 – nem sei bem precisar – vimos as primeiras labaredas a se aproximarem, felizmente pudemos contar com a preciosa colaboração de mais 7/8 amigos na proteção das casas e do espaço aberto do antigo Colégio de Santa Catarina, isto com o singelo recurso a baldes e água de um tanque aí situado. Ouvimos o guinchar grotesco de dois cabritos a serem queimados vivos, embora o pastor do Convento tivesse conseguido salvar quase na totalidade os dois rebanhos, um de ovelhas e outro de cabras. Aparte disso, o zumbido das chamas a avançar no cerro e as árvores a estalar eram qualquer coisa de muito intimidante. Num par de vezes faúlhas afoguearam o pasto seco do antigo Colégio de Santa Catarina, a porta do fogo para o centro da vila, mas a rápida intervenção da malta jovem no local com os tais baldes de água evitou males maiores. A chegada algo tardia da Força Especial de Bombeiros e de um carro da Associação de Bombeiros Voluntários de Monchique, entretanto desviado para debelar uma projeção no sítio do Pomar Velho, permitiram controlar a situação na zona Poente da vila (imagem 4). Na hora e meia de maior aflição fomos abordados por quatro militares da GNR para abandonarmos a nossa casa e o espaço aberto do Colégio de Santa Catarina, porém, perceberam que estávamos ali para ajudar e não houve detenções ou evacuações forçadas.
  
Imagem 4. Vista da minha casa sobre o Cerro do Convento, o pior já tinha passado (6-ago-2018).

Após o episódio anterior a vila ficou às escuras com o corte de energia da EDP. Permaneci na zona da minha casa para me assegurar que não havia reacendimentos ou mudança de direção do vento e a maior parte do nosso grupo foi para o Bairro da Ceiceira para colaborar com os populares e as autoridades no que fosse necessário, pois o fogo encaminhou-se para lá. Já madrugada adentro fui buscar os carros para a minha rua e ainda regressei ao quartel para perceber como estava a situação no terreno. Inúmeros focos continuavam ativos no concelho e os bombeiros não tinham mãos a medir.

Terça-feira, 7 de agosto de 2018. Outro dia sem água e agora sem rede de telemóvel; todas as vias de acesso a Portimão estiveram parte do dia cortadas ao trânsito. As frentes de fogo ativas lavraram na Fóia, nas Caldas de Monchique e na Arqueta, em direção à Nave. Múltiplos reacendimentos foram resolvidos pelos meios aéreos ou terrestres em áreas que já tinham ardido parcialmente. Neste dia fiquei, essencialmente, pelo quartel na ajuda ao setor da logística e, ao que me foi possível acompanhar, a vila de Monchique passou ao lado dos sobressaltos vividos nos dois dias anteriores. O mesmo não podemos referir em relação à generalidade do concelho.

Quarta-feira, 8 de agosto de 2018. Com a situação aparentemente mais calma na vila e com o regresso de um ar mais suscetível para respirar, desloquei-me a Portimão para ir buscar a família. O caminho no sentido de Alferce – Laranjeira – Rasmalho foi percorrido de coração apertado (imagem 5). Enquanto fui e vim, o incêndio não deu descanso aos bombeiros nas zonas da Foia, Caldas de Monchique, Barranco do Banho e Nave. Mais a Sul, as chamas dirigiam-se a Silves, ameaçando a povoação de Enxerim. A tarde foi passada em limpezas. A quantidade de cinza, folhas queimadas e cascas de diferentes tipos de árvore retirada do quintal foi considerável. No interior da habitação, a cinza penetrou em todas as divisões com janelas.

Imagem 5. Panorama do miradouro da Pedra Branca, Alferce (8-ago-2018).

Quinta-feira, 9 de agosto de 2018. A manhã foi passada no quartel, período com atividade mais moderada relativamente ao início da semana. O horário do almoço acarretou um serviço mais intensivo, fruto da distribuição de muitas refeições ao mesmo tempo, mas como tive de me ausentar para ir a Portimão, não experienciei essas dificuldades. O dia foi de resolução, embora se tivessem verificado reacendimentos na zona da Palmeira, Foia e Nave, ocorrências estas prontamente solucionadas pelos bombeiros e GIPS.

Sexta-feira, 10 de agosto de 2018. O dia mais calmo da semana, com ações de resolução por parte dos bombeiros e forças militares em reposta a alguns reacendimentos. A frente de Silves concentrou as principais preocupações do posto de comando. No quartel dos bombeiros foi dos dias mais tranquilos que vivemos durante a semana. Alguns operacionais dos bombeiros, GIPS, GNR, exército e forças especiais do exército começaram a desmobilizar e a regressar a casa. O teatro de operações perdeu fulgor e a vila retomou algumas das suas atividades quotidianas, não todas.

Longe de acusar quem quer que seja, caberá às autoridades apurar responsabilidades. À semelhança de muitos populares senti-me desprotegido, em risco e sem o apoio (bombeiros e carros de combate) que seria de esperar no interior do perímetro da vila. Fui convidado a deixar a casa por mais do que uma vez mas, no nosso caso, reinou o bom senso dos agentes da autoridade. Apesar de toda a tristeza e revolta que possamos acumular, é tempo de nos reerguermos e lutarmos por um concelho renovado e com mais vitalidade. Decerto que não será fácil para aqueles que perderam tudo, ainda para mais quando não vão para novos, mas nunca os tempos foram tão urgentes e propícios para que a comunidade monchiquense se envolva em prol de um bem comum. Sarar as feridas e renascer Monchique não é um trabalho para um ou para outro, é um trabalho de todos e para todos (imagem 6).


Imagem 6. As "cicatrizes" da Picota como consequência do incêndio que lavrou Monchique.

Aproveito o ensejo para agradecer a todos os operacionais que colaboraram para que esta semana fosse o menos trágica possível. Aos bombeiros, forças especiais, GIPS, GNR, exército e todos os populares e técnicos que se voluntariaram e abnegadamente deram um pouco de si a esta missão, o meu sincero OBRIGADO!