Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.
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Autores: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B.
País: Dinamarca
Data de publicação: 10-março-2026
Título: Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing
strategy and execution
Referência: Andersen, T. B., & Carstensen, J. B. (2026). Where to aim in soccer penalty kicks: Balancing strategy and execution. Proceedings of the Institution of Mechanical Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology, 1–6. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/1754337126142456
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 75 – março de
2026.
Apresentação do problema
Os pontapés de penálti – remates diretos a partir da marca dos 11 metros, apenas com o guarda-redes pela frente – constituem momentos decisivos no futebol e apresentam taxas de conversão elevadas: cerca de 78% em jogo corrido e entre 69% e 77% em desempates por grandes penalidades (Pipke, 2025; Van Hemert & Van Der Kamp, 2025). Apesar da sua aparente simplicidade, o seu sucesso depende de múltiplos fatores.
A atenção visual e o foco no guarda-redes influenciam o resultado, podendo aumentar a probabilidade de defesa por parte do guarda-redes (Furley et al., 2017). O stress associado ao momento afeta a execução e o controlo motor (Jordet & Elferink-Gemser, 2012). Ao nível estratégico, as abordagens dependente e independente do guarda-redes apresentam eficácia semelhante (Noël et al., 2015). Fatores contextuais, como a experiência do jogador, o estado do jogo e o momento da partida, também condicionam o desempenho, com melhores resultados em jogadores experientes e em situações de jogo equilibrado (Jamil et al., 2020). No conjunto, o sucesso nos penáltis resulta da interação entre fatores cognitivos, emocionais, estratégicos e contextuais.
As taxas de sucesso variam em função da zona da baliza visada, com remates colocados em zonas altas e afastadas do guarda-redes a apresentarem maior probabilidade de golo (figura 2), dada a dificuldade destes em alcançar essas zonas (Almeida et al., 2016; Almeida & Vossovitch, 2023). Por oposição, remates ao centro comportam maior risco quando o guarda-redes antecipa corretamente a trajetória (Bar-Eli & Azar, 2009). Contudo, a aplicação prática destas probabilidades não é direta, uma vez que a colocação real da bola nem sempre corresponde ao alvo pretendido (Hunter et al., 2018). Esta variabilidade introduz incerteza e coloca em causa decisões baseadas exclusivamente na zona ideal de finalização (Hunter et al., 2022).
Figura 2. Os cantos superiores da baliza têm sido frequentemente referidos como zonas ótimas de remate na conversão de grandes penalidades (fonte: www.vsports.pt; imagem não publicada pelos autores).
No futebol jovem, importa considerar as características
específicas dos jogadores. Embora a precisão de remate se mantenha
relativamente estável entre escalões, a velocidade de remate aumenta com a
idade (Vieira et al., 2018; Hunter et al., 2022). Em simultâneo, o alcance dos
guarda-redes também aumenta, o que eleva as exigências de colocação em idades
mais avançadas. Neste contexto, torna-se pertinente compreender qual a zona
ótima de remate em função da variabilidade da execução. O presente estudo
procurou articular probabilidades de sucesso com a dispersão do remate, com o
objetivo de fornecer orientações mais ajustadas à realidade do jogo.
Métodos
·
Visão conceptual
O estudo combinou dados
observacionais e laboratoriais para estimar a probabilidade de golo em função da
zona de remate. Primeiro, determinaram-se probabilidades de golo por zona da
baliza com base em dados reais. Em seguida, modelou-se a variabilidade da
colocação do remate em torno de um ponto-alvo. Por fim, integraram-se ambas as
componentes para simular a probabilidade de sucesso em diferentes zonas da
baliza e sob diferentes níveis de variabilidade.
· Taxa de conversão por zonas da baliza
Foram analisados 4299
penáltis em competições jovens dinamarquesas, com registo da localização do
remate e do seu resultado (Noe & Porse, 2024). A baliza foi dividida em 15
zonas e os remates de jogadores esquerdinos foram espelhados (Pereira & Patching,
2021). Os resultados, apresentados na Figura 3, evidenciaram maior eficácia nos
cantos superiores e menor nas zonas centrais (80,3%), com uma taxa global de
conversão de 76,8%.
Figura 3. Percentagens de golo em diferentes zonas da baliza,
calculadas a partir de 4299 penáltis observados (adaptado de Noe & Porse,
2024, excluindo remates que não atingiram a baliza). A baliza é apresentada na
perspetiva do marcador do penálti (Andersen & Carstensen, 2026).
·
Distribuição
bivariada dos remates
Foram avaliados 53 jogadores de uma academia de elite (Sub-15 a Sub-19), em contexto laboratorial, com consentimento informado e aprovação ética. A velocidade máxima da bola foi medida em remates a 11 m com radar Doppler. A precisão foi analisada apenas com o pé dominante, através de 20 remates por jogador, realizados em 2 dias, com a bola em movimento e a uma intensidade mínima de 75% da velocidade máxima (Radman et al., 2016). A localização dos remates foi registada com um sistema de duas câmaras em relação a um alvo fixo.
Com base nestes dados, foi
calculada uma distribuição bivariada da colocação do remate, representada por
uma elipse de confiança de 95%. Os remates de esquerdinos foram espelhados
(Hunter et al., 2018). A variabilidade foi analisada para o conjunto total de
jogadores, bem como para subgrupos com menor e maior dispersão dos remates.
·
Taxa de conversão em
função da direção do remate
A probabilidade de golo
foi estimada com recurso a simulação de Monte Carlo (Press, 1992), com base na
distribuição bivariada da precisão do remate. Foram simulados 10000 remates
para cada ponto da baliza (200 x 50). A eficácia de cada ponto de remate
resultou da média das probabilidades de sucesso dos remates simulados, tendo em
conta se a bola entrou ou não na baliza e a respetiva zona de finalização. Um
exemplo de simulação é apresentado na Figura 4.
Figura 4. Exemplo de 1000 remates simulados dirigidos junto ao
canto superior esquerdo da baliza. Os remates foram gerados com base na
distribuição bivariada obtida nos testes laboratoriais. A baliza é representada
por linhas pretas (Andersen & Carstensen, 2026).
·
Variação do ângulo da
elipse
A orientação da elipse da
distribuição bivariada varia em função dos padrões individuais de remate. Para
simular diferentes perfis de execução, o ângulo da elipse foi ajustado entre 0º
(horizontal) e 90º (vertical). Para cada configuração, foi calculada a taxa de
conversão na baliza com base no procedimento descrito anteriormente.
Principais resultados
Esta secção apresenta os
principais resultados do estudo, com foco na identificação das zonas ótimas de
remate em grandes penalidades. Em particular, sintetizam-se os dados relativos
à probabilidade de golo em função da localização do remate, da variabilidade da
execução e da orientação da dispersão dos remates.
·
Taxa máxima de
conversão (variação média)
A probabilidade máxima de
golo foi de 78,4%, obtida com remates direcionados para uma zona lateral
intermédia da baliza, a cerca de 2,26 m do centro e 1,22 m de altura (Figura 5).
Figura 5. Taxas de conversão de golo na baliza, representada por
linhas pretas. A taxa máxima está assinalada e marcada com um círculo. As
linhas, bem como as respetivas percentagens, correspondem a isolinhas. Esta
distribuição baseia-se na média de todos os jogadores (Andersen &
Carstensen, 2026).
·
Influência da
precisão do remate
Jogadores com menor
variabilidade (maior precisão) devem visar zonas mais afastadas do guarda-redes
e ligeiramente mais altas, atingindo taxas de conversão até 86,2%. Jogadores
com maior variabilidade beneficiam de alvos mais próximos do guarda-redes e
mais baixos, com uma taxa máxima de 75,3%.
·
Efeito da orientação
da variabilidade
A localização ótima do
remate varia com a orientação da dispersão dos remates: (i) distribuição
horizontal: alvo ótimo mais elevado e central; (ii) distribuição vertical: alvo
ótimo mais baixo e lateral.
Aplicações práticas
Os resultados do estudo
evidenciam que a eficácia nos pontapés de penálti depende da interação entre a
zona visada e a capacidade individual de execução. Esta relação tem implicações
diretas para o treino e para a definição de estratégias de finalização.
Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas
técnicas:
1. Ajustar a zona de remate ao perfil individual de precisão: o local ótimo de finalização não é universal. Jogadores mais precisos beneficiam de alvos mais afastados e elevados (zonas de maior rendimento), enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores resultados ao visar zonas mais centrais e seguras. A definição da estratégia deve considerar o perfil de consistência de cada jogador.
2. Integrar a variabilidade de execução na decisão do remate: a escolha da zona de remate deve equilibrar probabilidade teórica de sucesso e capacidade real de execução. Estratégias baseadas apenas em zonas “ótimas” ignoram a dispersão do remate. A decisão deve refletir a probabilidade de acertar no alvo pretendido, e não apenas a eficácia dessa zona.
3. Caracterizar padrões individuais de dispersão do remate: a orientação da variabilidade (horizontal ou vertical) influencia a zona mais eficaz de finalização. Fatores técnicos e biomecânicos moldam estes padrões, pelo que a sua análise permite identificar tendências individuais e informar a definição da estratégia de remate.
4. Estruturar o treino de penáltis em contexto
específico e representativo: a prática regular de grandes penalidades é
essencial para consolidar estratégias eficazes de execução. O treino deve
incluir diferentes zonas de remate, variações de colocação e manipulação de
constrangimentos técnicos (p. ex., posicionamento do corpo e apoio), de forma a
estabilizar a dispersão do remate e melhorar a tomada de decisão em contexto
competitivo.
Conclusão
A estratégia ótima de penálti não depende apenas das
zonas com maior probabilidade de golo, mas sobretudo da variabilidade
individual de execução. Jogadores mais regulares beneficiam de alvos mais
arriscados, enquanto jogadores com maior variabilidade obtêm melhores
resultados em zonas centrais. A orientação da dispersão do remate também
influencia o ponto ótimo de finalização. Estes resultados sustentam a
necessidade de individualizar a estratégia e o treino de penáltis em função das
características de cada jogador.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista Proceedings of the Institution of Mechanical
Engineers, Part P: Journal of Sports Engineering and Technology.
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