Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

04/12/2021

Gralhas (2021), de Eduardo Jorge Duarte

 Apresentação do novo livro de poesia do autor

Junta de Freguesa de Monchique (4 de dezembro de 2021)

 

Foi com muito prazer e honra que aceitei o «desafio» proposto pelo Eduardo Jorge Duarte – o meu amigo Edu –, para apadrinhar a apresentação do seu novo livro de poesia Gralhas (figura 1), publicado pela editora On y va.

 

Figura 1. Capa do livro Gralhas, de Eduardo Jorge Duarte (Ed. On y va).

 

Salvaguardo, contudo, alguns pontos prévios que dão corpo ao facto de classificar esta minha intervenção como um autêntico «desafio»: 

 

1)  Sou suspeito para falar/escrever sobre as obras ou textos do Eduardo, uma vez que sou um amigo de longa data e, também, sou um admirador daquilo que tem produzido. Portanto, à partida, as minhas opiniões surgem enviesadas por estas circunstâncias.

 

2)  Não sou um especialista em literatura, muito menos no que se refere à poesia. Aliás, mantenho uma relação complicada com este género literário desde os tempos do Ensino Secundário, quando as minhas interpretações de poemas de Fernando Pessoa ou Cesário Verde não correspondiam, com alguma frequência, ao que era pretendido pelas professoras de Português.


3)  Apesar de alguma frustração, com essa lacuna aprendi uma lição que só após a publicação de O Intervalo entre o Raio e o Trovão, do Eduardo, em 2019, coloquei em prática: não se pode ler poesia com os olhos que dão para o cérebro racional, isto é, de modo estritamente analítico e literal, mas com os olhos que iluminam a alma e suscitam o sentimento (cérebro emocional). O Eduardo fala-nos disso mesmo no poema intitulado «Poema» (p. 86): «Poema é a arte do sensível/ Que nos resta./ A última coisa que se presta/ Ao impossível».


4)  Longe de procurar realizar uma crítica literária da obra, julgo que facilmente encontrarão pessoas mais competentes para o fazer nesta sala, tentarei falar-vos francamente sobre algumas particularidades de Gralhas, na perspetiva de um mero leitor. Este intento faz jus à visão do autor que, reiteradamente, tem referido que «quando uma obra é lançada, deixa de ser propriedade do autor para se tornar algo do leitor».

 

No que se refere à capa, o título Gralhas, acompanhado por três aves de rebordo escuro, alude aos pequenos corvídeos que habitam a maior parte do território nacional. Porém, no primeiro poema, que de resto dá título à obra, compreendemos que, afinal, se trata de uma palavra polissémica, ou seja, que «possui vários significados contidos numa mesma forma gráfica e fonológica». «Gralhas» enquanto aves passeriformes e «gralhas» enquanto erros numa redação. Do outro lado, a contracapa é um deleite de três parágrafos sobre esta composição de poemas do Eduardo: um «conjunto de todos os estados que a sua atmosfera humana pode conhecer em dias distintos, enquanto procura situar-se no mundo e situar o outro em si mesmo». Por aqui, percebemos logo que a monotonia da palavra, pelo verso, não nos irá importunar ao longo das cerca de 132 páginas que albergam os 116 poemas. 

Uma composição que, na verdade, é um exercício de altruísmo, de empatia e de inteleção. Altruísmo, porque o autor escancara-nos as portas da sua mente, sem nos solicitar nada em retorno: os seus amores e paixões, os seus conflitos internos, os seus momentos de solidão e a força do elo que existe com a sua terra natal – Monchique. Empatia, porque encontra no outro uma projeção de si mesmo, como no poema «Sina» (p. 106): «O velho sou eu,/ Sou eu, sim,/ Com toda a confiança,/ Enrolado no cachecol/ A queixar-me à Polícia de mim./ Quero voltar à criança/ Que me atirava bolas de futebol/ Para dentro do jardim». Inteleção ou inteligência, pelo modo como «brinca» com palavras, conceitos e ideias nos versos de poemas como «Gralhas», «Mecânica lamechas», «Assassinatura», «Um rapaz» ou «Abstracção». 

A fim de aguçar o apetite para o conteúdo da obra, e para não tornar esta exposição demasiado enfadonha, propus-me analisar os 6 poemas que mais impacto tiveram nas vertentes racional e emocional do meu cérebro. No fundo, trago-vos os textos que mais sentido fizeram do ponto de vista lógico, mas que, concomitantemente, mais sentimentos despertaram. Ressalvo que, pelo carácter subjetivo da interpretação, não implica que sejam necessariamente as melhores construções poéticas do livro. E foi aqui que começaram os meus problemas: fui tirando as minhas notas e, no final da primeira leitura, tinha 28 poemas selecionados. Após nova triagem, fiquei com um «Top-10», portanto, ainda aquém do meu propósito. Com algumas reticências pelo meio, cheguei aos meus 6 preferidos: «Gralhas», «Pergunta à Alice», «Minotauro», «Memória», «Assassinatura» e «Aposta».

 

Figura 2. Painel da apresentação do livro Gralhas, na Junta de Freguesia de Monchique: José Gonçalo (presidente da Junta de Freguesia de Monchique), eu, Eduardo Jorge Duarte (autor) e António Manuel Venda (escritor e editor da On y va). Foto de Ana Paula Almeida.

 

Em primeiro lugar, seria impossível não referenciar o poema inaugural: «Gralhas» (p. 9-10). Conta a história de um miúdo que desafiou a liberdade concedida pela professora para redigir um texto sobre o que lhe aprouvesse: «As palavras estavam/ Desenhadas a preto,/ Reunidas em bando,/ Tinham sombras nos bicos,/ Asas nas sílabas,/ Faziam muito barulho,/ Num canto rouco/ Que quase não se deixava perceber./ (…)». A criatividade, transcendendo a liberdade, resultou num desenho de «gralhas» (pássaros), erros assinalados a vermelho pela professora. Este é um poema muito bem elaborado, que joga habilmente com a polissemia e que, no meu ponto de vista, aborda um tema bastante contemporâneo: o facto de o sistema educativo vigente ser considerado por muitos professores e educadores como obsoleto, na medida em que a rigidez de muitos currículos ou tarefas (não todos, obviamente) desvaloriza a diversidade de aptidões, expectativas e ritmos de aprendizagem dos alunos. 

«Pergunta à Alice» (p. 24) é o meu poema preferido da obra. Na ocasião em que o Eduardo publicou o poema numa rede social, eu havia comentado com ele – não sei se está recordado –, que se um dia eu e a Patrícia tivéssemos uma filha, daríamos o nome Alice. Se isso acontecesse, iria imprimir o poema e emoldurá-lo no quadro dela. Permitam-me recitá-lo:

 

Pergunta à Alice

 Alice,

Quem te disse

Que a realidade é coisa oca?

Que sem imagens

Todas as paisagens

São rostos sem palavras na boca?

Foi o relógio ou um coelho atrasado

Quem te encolheu o mundo

E respondeu, apressado,

Que a eternidade dura apenas um segundo?

 

Neste poema, com 10 versos e 44 palavras, o Eduardo consegue evocar a famosa obra infantil As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 1865 sob o pseudónimo de Lewis Carroll e, simultaneamente, a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein (1915). Einstein revelou que seria possível tratar, matematicamente, o tempo como a quarta dimensão, formando o tecido espaço-tempo. A presença de objetos com massa curva esse espaço-tempo, sendo tanto maior a distorção quanto maior for a massa do objeto. Por isso, no sol o tempo passa mais devagar que no planeta Terra. Reparem, então, nos últimos 4 versos: «Foi o relógio ou um coelho atrasado/ Quem te encolheu o mundo/ E respondeu, apressado,/ Que a eternidade dura apenas um segundo?»: ao se encolher o mundo de Alice, o tempo flui muito mais rápido: «a eternidade dura apenas um segundo». Na minha opinião, aliarmos todo este racional à simplicidade e à sonoridade do poema, torna-o absolutamente genial. 

Em «Minotauro» (p. 31), o autor socorre-se da metodologia grega para fazer uma crítica implícita ao homem (género masculino). A história que dá origem aos versos reza que Teseu, um aclamado herói grego, foi a Creta para enfrentar o Minotauro que habitava o labirinto construído por Dédalo: quem nele entrasse, nunca mais sairia e seria devorado pelo Minotauro. Antes de partir, foi ao Oráculo de Delfos para saber se triunfaria. A resposta do oráculo foi que deveria ser ajudado pelo amor para vencer o monstro. É aqui que entra Ariadne, filha do rei Minos. Ela prontificou-se a ajudar se, posteriormente, o herói se casasse com ela em Atenas. Teseu viu em Ariadne a hipótese de ser bem-sucedido na sua missão. Ariadne deu-lhe uma espada e um fio de lã para que Teseu pudesse matar o Minotauro e encontrar o caminho para sair do labirinto. Foi a própria Ariadne que segurou na outra ponta do fio. Teseu venceu o bicho e conseguiu sair do labirinto. Regressou a Atenas com Ariadne: «Quantos de nós enfrentam o touro escondido/ Num palácio de cobardia?/ Que herói desconhecido/ Em nós arriscaria/ Matar por amor a Ariadne o animal/ E encontrar um caminho vicinal/ Para tornar à luz do dia?». Um poema estupendo e que coloca em causa as atitudes e os comportamentos animalescos dos homens, tantas vezes perdidos num labirinto de confusão intrínseca. A mensagem que retiramos do poema é que no amor, na genuinidade e na sinceridade, os homens poderão sair da escuridão e tornar à luz do dia. Como último comentário a «Minotauro», é importante enfatizar que a apreciação crítica aos homens não se esgota no poema. No âmbito da mitologia grega, há quem defenda a premissa que o amor que Teseu sentia por Ariadne tinha o seu quê de conveniente, não se equiparando ao amor dela por ele. 

No poema «Memória» (p. 46), o Eduardo parece dirigir-se a alguém cujo esquecimento tomou o lugar da recordação: «– O que é a memória? –/ Perguntas tu, no ar espesso/ Do pátio, com a trémula incerteza/ Que existe nas miragens». Com a paciência com que se cuida de alguém muito querido, relembra todas as circunstâncias em que respondeu à questão «O que é a memória?». São versos de afeto, dedicação e altruísmo, exacerbados pela invenção das respostas dadas nas ocasiões anteriores: «Enumero os dias, as semanas, os meses,/ Se era Outono, Primavera, Inverno, Verão,/ E o que te conto já não é recordação,/ Mas sim uma invenção do que te disse nessas vezes». Esta aparente contradição tem uma justificação psicofisiológica: o esquecimento não é um antónimo da memória, mas um auxiliar da mesma, uma vez que a nossa capacidade de armazenamento de informação é limitada. A aprendizagem e a invenção implicam o esquecimento de alguns factos antigos ou menos relevantes. 

«Assassinatura» (p. 81) mostra-nos toda a habilidade do Eduardo com as palavras. Como um malabarista mantém 3, 4 ou 5 bolas no ar enquanto rodopia, salta ou se equilibra, o meu amigo pegou nos verbos «Assassinar» e «Assinar» e, em tons de crítica, apontou contra a poesia escrita às três pancadas: «Violência ortográfica, maus-tratos à sintaxe,/ Torturas à semântica, métrica/ Sem ética e sem estética,/ Orações divididas/ Pelas mãos ilegíveis e fingidas/ Do diabo». O horror e a frieza dos atos de um assassino psicopata, na pele de um mau poeta, captados em versos. O clímax do texto surge com a poesia subvertida a uma nova literatura, assinada a sangue: «Assassinava a língua e assinava:/ E assim gatafunhava/ Uma nova literatura,/ Uma espécie de assassinatura». Cá está, a enorme criatividade do autor imiscuída numa crítica acérrima a quem não respeita a língua portuguesa, a poesia e, ainda assim, crava o seu cunho de autor. 

O último poema que abordarei tem como título «Aposta» (p. 114). É um poema de amor, de sorte ou azar e até de dor. No tema «Anel de Rubi», Rui Veloso tenta, ingloriamente, conquistar a amada por via da música: «Mas esse teu mundo era mais forte do que eu/ E nem com a força da música ele se moveu». Em «Aposta», o Eduardo Duarte fá-lo por via da poesia: «Aposto/ Que mesmo que eu tos escrevesse,/ Não ligarias nenhuma./ “As palavras são vento que se esquece”,/ Dirias, e que a poesia te aborrece,/ Por poder ser muita coisa e tu só uma». O remate do poema ocorre, mais uma vez, em grande estilo, expondo a cru as dores que decorrem de um amor sujeito às vicissitudes da sorte (ou do azar): «Aposto/ O tudo e o nada, a sorte e o azar,/ Que na roleta do coração sempre a girar,/ Os poemas viciados no teu ser/ São dores ainda mais fundas a calcar/ A dor de te ganhar e te perder». Brilhante! 

Em suma, e para não corromper mais a subjetividade da vossa interpretação, congratulo o meu amigo Edu com um valente abraço e destaco o papel da editora On y va, na pessoa do nosso escritor e conterrâneo António Manuel Venda. Aceito as críticas de ser suspeito e um leigo na matéria, mas Gralhas é um livro que nos toca a alma e a razão das mais variadas maneiras. É, sem margem para dúvida, uma ótima sugestão de leitura para este Natal e para um futuro que se encontra por escrever. Caros presentes, senhores e senhoras: recomendo vivamente!


Gravação da sessão: https://fb.watch/9HB3pWNvbU/


03/11/2021

Capítulo no livro recém-publicado “Home Advantage in Sport” (2022) | O efeito da vantagem de jogar em casa em níveis de prática mais baixos

Na passada quinta-feira, dia 28 de outubro de 2021, a editora Routledge lançou a primeira edição do livro “Home Advantage in Sport: Causes and the Effect on Performance” (figura 1), editado pelos professores Miguel Á. Gómez-Ruano, Richard Pollard e Carlos Lago-Peñas.

 

Figura 1. Flyer do livro “Home Advantage in Sport: Causes and the Effect on Performance” (Routledge, 2022).

 

Conforme consta na descrição da obra, este é o primeiro livro que explora o conceito da vantagem de jogar em casa (“home advantage”), o reconhecido efeito positivo que os atletas e as equipas experienciam ao atuar em “casa” (i.e., no seu próprio, estádio, arena, quadra, court, campo, pista, polidesportivo, etc.) e que tem sido observado em todos os desportos, pelo mundo fora. Embora a existência do “home advantage” remonte às origens do desporto organizado, em meados do século XIX, as suas principais causas, e o modo como operam e interagem entre elas, ainda não foram totalmente clarificados. Por isso, este é um tópico de intensa investigação, envolvendo várias disciplinas e que tem o potencial objetivo de melhorar o desempenho individual e coletivo. 

Além dos 3 editores, a obra contou com o contributo de 44 autores, afiliados em instituições do ensino superior e/ou centros de investigação de 11 países diferentes (Alemanha, Austrália, Brasil, Espanha, Estados Unidos da América, França, Inglaterra, Israel, Itália, Países Baixos e Portugal). Os diversos temas analisados foram distribuídos por 3 secções: 1) Teoria da vantagem de jogar em casa no desporto (capítulos 1 a 8); 2) Efeitos da vantagem de jogar em casa no desporto (capítulos 9 a 16); 3) Vantagem de jogar em casa aplicada a desportos específicos (capítulos 17 a 32). 

A convite do colega Werlayne Leite (Secretarias de Educação do Estado do Ceará e de Fortaleza, Brasil), estive envolvido na redação do capítulo 16: “Home Advantage Effect at Lower Levels of Play” (figura 2).

 

Figura 2. Título e autores do capítulo 16 do livro “Home Advantage in Sport: Causes and the Effect on Performance”.

 

A revisão efetuada permitiu-nos concluir que o “home advantage” é um fenómeno robusto na maioria dos desportos e está presente em todos os níveis de prática/competitivos. No desporto infantojuvenil, a vantagem de jogar em casa tende a ser menor em relação ao desporto profissional, ainda que a magnitude aumente à medida que os atletas/jogadores envelhecem, o que sugere a existência de um processo de aprendizagem. Em termos académicos, enquanto no desporto universitário a vantagem de jogar em casa é, na generalidade, superior ao que sucede no desporto profissional, no ensino secundário a magnitude tende a ser inferior comparativamente aos desportos praticados a nível universitário e profissional. Considerando os estudos analisados em diversos desportos, a comparação dos níveis amador e semiprofissional com o nível profissional não produziu resultados consistentes. 

Caso tenham interesse em adquirir o livro, poderão fazê-lo através do link: https://routledge.pub/HomeAdvantageInSport, usufruindo do desconto de 20% em vigor.

15/10/2021

Conto "Além do horizonte" na coletânea Liberdade (2020)

Corria o mês de fevereiro de 2020 quando o Município de Monchique lançou a primeira edição do Prémio Artístico e Literário de Monchique. De entre as cinco categorias de participação possíveis, e julgando estarem asseguradas condições legais para concorrer, submeti o conto “Além do horizonte” na categoria “prosa”. 

Independentemente do resultado do concurso, do qual fui excluído pelo júri e que, em sede própria e a quem de direito, tive oportunidade de manifestar a minha discordância, o conto recebeu uma menção honrosa, com direito a publicação na coletânea Liberdade (1.ª edição, 2020; figura 1), que reúne alguns dos trabalhos que participaram nas diversas categorias: prosa, escultura, fotografia e pintura (poesia não teve trabalhos a concurso).

 

Figura 1. Capa e contracapa da coletânea Liberdade (2020), edição do Município de Monchique.

 

Pessoalmente, deu-me um gozo enorme escrever este conto, não apenas por abordar a liberdade em tempos de confinamento, mas, essencialmente, porque me permitiu conjeturar algumas particularidades e tradições de Monchique em tempos que não tive ocasião de vivenciar. Também não podia deixar de parte a componente filosófica que preenche os entretantos da nossa existência. Aqui, no Linha de Passe, transcrevo o primeiro parágrafo da prosa:

 

Poderia escrever que esta é a história do senhor Jerónimo, mas isso seria mais um dos incontáveis lugares-comuns que encontramos entranhados no quotidiano: os dias repetidos à exaustão, com contornos mais ou menos retos, mais ou menos monótonos. O assunto que vos trago não deveria ser corriqueiro ou desprezível para a tão aclamada humanidade, embora o que reste dela seja apenas alguns espasmos esporádicos que ocorrem sem aviso prévio. A maioria de nós goza o «dado como adquirido» sem esforço, dor, paixão ou memória; um conjunto de intenções, ações e conquistas rebaixado ao valor da indiferença. Porém, as forças que nos impulsionaram para o que somos, ou que nos impelem para o que seremos, nada têm de trivial.

 

Se, por obra do acaso ou da intenção, o livro vos for parar às mãos, espero que o emaranhado de palavras que escrevi vos faça sentido e que a imaginação vos leve “além do horizonte”. 

Expresso os meus sinceros parabéns a todos os participantes e, em especial, aos vencedores do prémio. Faço ainda votos para que o Município de Monchique continue a incentivar a produção cultural local, com esta ou outras iniciativas do género.

27/11/2020

Considerações sobre o treino nos desportos coletivos, a partir do livro “A tomada de decisão no futsal” (Bruno Travassos)

Dentro das minhas possibilidades, procuro ser um leitor assíduo acerca do treino nos desportos coletivos. Apesar de a minha preferência recair no futebol, não me coíbo de saber mais sobre outras modalidades desportivas e sobre o processo de treino em geral. Leio diversos tipos de publicações, mas, regra geral, não encontro muitas peças em português que validem categoricamente as minhas ideias e convicções sobre a prática no terreno. O livro “A tomada de decisão no futsal” do professor e treinador de futsal Bruno Travassos, cuja primeira edição remonta a 2014, foi uma lufada de ar fresco (figura 1). 

 

Figura 1. Capa do livro “A tomada de decisão no futsal” de Bruno Travassos (3.ª edição, 2019, Prime Books).

 

Escrito com base na tese de doutoramento e na experiência prática do autor, esta obra oferece-nos uma perspetiva sólida e cientificamente suportada de como o processo de treino no futsal deve ser encarado, com especial enfoque para o desenvolvimento da tomada de decisão. Desengane-se quem pensa que o conteúdo não é transversal a outras modalidades desportivas. Bem pelo contrário.

 

“Learn the rules like a pro, so you can break them like an artist”

(Pablo Picasso in Travassos, 2019, p. 24)

 

Citando Pablo Picasso, o autor aproveita para destacar o quão importante é a aprendizagem de determinadas regras de ação ou fundamentos nos desportos coletivos para que, no futuro, se possa alcançar um desempenho superior. Este nível superior (ou de elite) implica que um jogador ou equipa seja capaz de se auto-organizar face a acontecimentos situacionais inesperados, de modo a ser efetivo na execução da solução encontrada, mesmo que esta transcenda a norma. Numa simples palavra, referimo-nos à criatividade: para podermos ser criativos, temos, em primeira instância, de dominar as regras de ação, os princípios. 

De facto, os comportamentos nos jogos desportivos ocorrem de forma variável (mas não aleatória!), não apenas em função dos contextos que os proporcionam, mas também das regras, princípios e estratégias proporcionados pelos treinadores (figura 2).


Figura 2. Fatores que regulam os comportamentos específicos dos jogadores e das equipas nos desportos coletivos (adaptado de Travassos, 2019).

 

De acordo com a figura 2, é possível discernir três fatores essenciais para o processo de treino e para o rendimento em competição:

 

1) Princípios gerais e específicos do jogo: regulam o equilíbrio/desequilíbrio espaciotemporal (vantagem espacial e/ou numérica) de uma equipa em relação ao posicionamento da equipa oponente;

2) Modelo de jogo: representa as opções preferenciais de organização estrutural e funcional de uma equipa em função das condições de jogo;

3)  Informações contextuais do jogo: informações espaciotemporais que caracterizam as relações entre jogadores da mesma equipa e entre jogadores de equipas adversárias.

 

Por um lado, estes fatores interrelacionam-se com o processo de preparação para um evento competitivo, na medida em que há uma influência recíproca entre o que é alinhavado e treinado, e as bases estruturais e funcionais da equipa, em conjunção com as condições de jogo que são, de alguma forma, expectáveis. Por outro lado, o resultado prático – ações tático-técnicas individuais e coletivas –, nunca surge desligado daquela que é a matriz de atuação e organização dos jogadores e da interação que estabelecem com o envolvimento. No decurso do jogo há uma série de ajustes estratégico-táticos que desponta desta interdependência. 

O processo de treino não deve, por isso, pressupor a padronização comportamental, mecanicista, mas antes promover competências individuais e coletivas para lidar com a variabilidade que o jogo providencia.

 

Em termos práticos, para otimizar o comportamento coletivo de uma equipa não basta reproduzir um padrão coletivo de forma exemplar em contexto fechado (i.e., sem oposição) e onde todos os jogadores conheçam as movimentações da equipa, na totalidade. Para que se verifique um bom transfer para o contexto de competição é fundamental que os jogadores percebam e construam diferentes formas de resolver problemas em contextos de grande exigência tendo por base princípios de ação para o jogo (…). Estes planos e estratégias deverão permitir a definição de princípios de funcionamento coletivo da equipa, dando liberdade para o surgimento de comportamentos individuais mais flexíveis e adaptativos.

(p. 30) 

É nesta linha de raciocínio que Travassos (2019) destaca a Abordagem Baseada nos Constrangimentos, assente na dinâmica ecológica, na qual o exercício de treino deve: (i) estimular a afinação percetiva dos jogadores às informações de suporte às ações do modelo de jogo; e, (ii) fomentar a capacidade dos jogadores em calibrar o uso de informação às suas capacidades de ação. De maneira a corresponder a este duplo intento de afinação percetiva e calibração percetiva-motora, os exercícios propostos deverão “assumir as mais variadas formas desde que sejam representativos dos contextos de jogo, isto é, mantenham a informação de suporte às ações do modelo de jogo” (p. 58). 

Os princípios metodológicos representatividade da tarefa e acoplamento perceção-ação devem estar implícitos nesta intervenção, para que comportamentos adaptativos semelhantes aos solicitados em situação de jogo possam emergir.

 

Assim, podemos concluir que enquanto o princípio da representatividade permite a afinação percetiva do jogador, é a manutenção do acoplamento informação-ação que permite o processo de calibração ao jogador.

(p. 61) 

No domínio da prática, para que o desenvolvimento da ação tática e da tomada de decisão do jogador sucedam harmoniosa e efetivamente, os objetivos da tarefa devem estar adaptados às capacidades dos jogadores e da equipa. A evolução nos fatores de rendimento supracitados deve ser acompanhada por acréscimos na dificuldade e na complexidade dos exercícios. De acordo com Travassos (2019), estes parâmetros podem ser calculados através das seguintes fórmulas:

 

(rácio entre o número de defensores e o número de possibilidades de ação do portador da bola, i. e., opções de passe, de remate e de condução/manutenção da posse de bola)

 

(quantidade de informação que os jogadores necessitam de atender no exercício em relação à situação de jogo formal)

 

Tomemos como exemplo dois exercícios para o treino de Futebol 11: 

1) Situação de jogo reduzido/condicionado 4v4+NT interior (34x65m; figura 3). Jogadores apenas podem atuar e finalizar no seu corredor, sendo que o neutro interior (joker) pode criar superioridade numérica em cada um dos corredores. Marcar golo nas balizas laterais ou controlar a bola nas zonas finais centrais vale um ponto.


Figura 3. Situação de jogo reduzido/condicionado 4v4+NT interior (34x65m).

 


2) Situação de jogo reduzido/condicionado Gr+6v6+Gr+6NT exteriores (40x40m; figura 4). Três equipas de 6 jogadores de campo em regime “bota-fora”. Duas equipas defrontam-se no espaço definido, tendo como suporte nas linhas laterais os elementos da equipa que se encontra de fora (neutros ou jokers exteriores). Equipa que sofre golo sai para atuar como “neutra”, permanecendo em campo a equipa vencedora. Jogadores neutros jogam a 1 toque por intervenção sobre a bola.


 

Figura 4. Situação de jogo reduzido/condicionado Gr+6v6+Gr+6NT exteriores (40x40m).

 

 

Reparem que duas situações de jogo distintas determinam relações opostas nos graus de dificuldade e complexidade. Na preparação de estruturas de planeamento (exercício, sessão, microciclo, etc.), o treinador deve ter presente que são dois conceitos distintos, ainda que complementares no que à didática da modalidade diz respeito. Neste sentido, Travassos definiu três etapas de aprendizagem/desenvolvimento da ação tático-técnica e da tomada de decisão, de acordo com critérios inerentes a (i) rigidez vs. fluidez dos comportamentos, (ii) capacidade de utilização da informação do contexto, (iii) capacidade de antecipação e adaptação a variações no contexto, e (iv) funcionalidade dos comportamentos. As etapas são as seguintes: 


Etapa 1 – Exploração de possibilidades de ação, que corresponde ao nível de principiante na modalidade;

Etapa 2 – Descoberta e estabilização de soluções, para um nível de prática intermédio;

Etapa 3 – Variabilidade nas possibilidades de ação, para indivíduos de nível avançado.


Entre outros aspetos que caracterizam cada nível evolutivo, o autor propôs uma integração dos parâmetros dificuldade e complexidade dos exercícios em cada uma das etapas, definindo valores de referência tanto para a aprendizagem e aperfeiçoamento de ações individuais, como para a aquisição e consolidação de comportamentos coletivos (tabela 1). 

 

Tabela 1. Valores de referência para a dificuldade e complexidade dos exercícios em cada uma das etapas de desenvolvimento da ação tática e da tomada de decisão (adaptado de Travassos, 2019). 


Segundo esta classificação é possível perceber, de forma mais criteriosa, se uma determinada tarefa de treino está ou não ajustada às capacidades dos jogadores e equipas com os quais trabalhamos, isto se partirmos do pressuposto de que enquadramos o indivíduo ou o grupo na etapa correta. Colocar miúdos com 6 ou 7 anos de idade a disputar jogos reduzidos 1v1 com balizas, por exemplo, pode não ser a tarefa mais indicada para principiantes na modalidade, uma vez que a situação acarreta um nível de dificuldade de 50%. Porém, se adicionarmos um neutro para formar equipa com o portador da bola (1v1+NT), aumentamos o número de possibilidades de ação, medida mais condizente com o nome da primeira etapa, e, concomitantemente, reduzimos o grau de dificuldade do exercício para 33,3%. 

Equacionar estes fatores com os demais relacionados com os objetivos, a estrutura ou os recursos espaciais e temporais, é uma atividade fulcral para qualquer treinador, em qualquer modalidade e em diferentes níveis de desempenho. A quantidade de informação que podemos retirar deste livro de futsal e transpor para outros contextos desportivos é enorme. Além disso, a fusão do conhecimento científico com o conhecimento que resulta da prática no terreno faz com que a obra seja um autêntico “must-read”. Aconselho! 

 

Referência

Travassos, B. (2019). A tomada de decisão no futsal (3.ª Edição). Prime Books.

14/11/2020

A Paixão do Conde de Fróis (1986), de Mário de Carvalho

“A paixão do Conde de Fróis”, livro primeiramente publicado em 1986, constituiu a minha estreia na literatura produzida pelo escritor português Mário de Carvalho (figura 1). Trata-se de um romance histórico ficcionado, no qual o filho do Conde de Fróis é desterrado para a raia transmontana na sequência de uma rixa em Lisboa, em pleno reinado de D. José, no século XVIII. A punição fora branda para as possibilidades que haviam sido propostas pelo ministro que governava à data – o distinto Sebastião José, Marquês de Pombal. 

 

Figura 1. Capa do livro “A Paixão do Conde de Fróis” (1.ª Edição da Porto Editora, 2015).

 

Não fosse o jovem fidalgo “reincidir na estroinice”, quis o pai que fosse acompanhado pelo capelão da família até ao destino do desterro: a praça de S. Gens. Acontece que o jovem conde metamorfoseou assim que recebeu a incumbência d’el-rei; o anterior rebelde virou homem rijo e diligente, colocando, desde logo, o padre-mestre no sítio: quem daria ordens era ele e mais ninguém! 

A caminho de S. Gens faleceu o velho governador da praça, o Marquês de Lobais, pelo que é atribuída ao conde a função de gerir os destinos do espaço, que com ele readquire o tino, o aprumo e o zelo essenciais para efetivar a missão do foro militar. À paixão do jovem conde por tropa, baluartes e guerra, contrapõe-se o desencanto do capelão pelas sucessivas desfeitas do fidalgo e pela sua condição de subalterno desprezado: “Ao menos se o vento levasse aquela amaldiçoada praça…” (p. 32). 

E é precisamente nesta relação conflituante entre o fidalgo, firme de carácter e obstinado pelo cumprimento do dever, e o capelão de família, interesseiro, intrometido e dissimulado, que se desenrola a trama. Recordemos, por exemplo, o castigo do conde a um soldado que, habilmente impelido pelo senhor padre, disparou um tiro a três lobos, na ocasião vultos em movimento no monte, alheios às más intenções humanas:

 

Querendo – respondeu o conde –, prestará Vossa Paternidade as contas que bem entender à sua consciência ou à Divina Misericórdia. Sobre Vossa Paternidade não tenho, nem quereria ter jurisdição. Quanto ao soldado, cometeu uma falta e vai ser castigado por ela. (…) talvez assim aprenda a obedecer a quem deve e a desobedecer a quem não deve…

(p. 44) 

À crescente virtude demostrada pelo fidalgo nas decisões tomadas, no intuito de proteger a praça do exército coligado de espanhóis e franceses, correspondia a desgraça do servo de Deus:

 

À medida que as notícias vinham, de longe em longe, o padre ia-se sobressaltando. Havia um desencontro entre as suas expectativas e os enredos tecidos pela Providência. Não tinha contado com guerras, e uma praça raiana era justamente o sítio mais incómodo para aguardar que as hostilidades passassem. E ele não se sentia merecedor de desgraças. Já lhe ia bastando aquele ermamento, no fim do mundo. Tudo o que mais viesse sobejaria.

(p. 50) 

Chegados os invasores e montado o cerco, a praça de S. Gens ia resistindo conforme podia. Perante a intransigência do senhor conde em se render e escancarar as portas da aldeia aos espanhóis, o ânimo do povo diminuía, não somente pelo sentimento de insegurança vigente, mas também pelos boatos da descrença do conde que se iam disseminando por meio do capelão – na praça não entraria nem o próprio filho de Deus. Se ao jovem Conde de Fróis lhe poderíamos apontar o erro de ignorar a moral dos seus súbditos, a Sua Paternidade poderíamos legar a responsabilidade de conspirar e atraiçoar o seu suserano: “Pela primeira vez nos largos meses de desterro naquele calcanhar do mundo, o padre sentiu que os seus manejos compensavam, que lhe rendia a semeadura” (p. 168). 

Numa derradeira operação para deter os avanços das trincheiras adversárias, a investida foi denunciada pelos soldados que permaneceram na praça. A porta da traição, com designação a preceito, foi fechada a sete chaves e o conde e os restantes militares deixados à mercê do exército invasor. 

Na missa de corpo presente do Conde de Fróis, com a comparência do Marquês de Alagon, velho líder do exército espanhol, o capelão, qual ilustre representante de honradez, “(…) prestou ao jovem fidalgo um alevantado elogio fúnebre, repassado de tropos retóricos, em que a temperança, a virtude e a coragem eram comparadas às figuras egrégias dos livros antigos” (p. 212). O último parágrafo remete-nos para atributos de tempos antigos, que jamais poderemos reconhecer no sacerdote que os proclamou – aquele que, segundo o narrador, “nunca tocou no coração do povo” e que apenas se queria misturar com “gente de gabarito”.

10/10/2020

Cemitério de Pianos (2006), de José Luís Peixoto

Após ter lido “Nenhum Olhar” (2000) há coisa de sete anos, “Cemitério de Pianos” (2006) foi a segunda obra que li de José Luís Peixoto, um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A título de curiosidade, em 2007, um ano após a sua publicação, “Cemitério de Pianos” (figura 1) recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha.

 

Figura 1. Capa do livro “Cemitério de Pianos” (1.ª Edição, 2006, Quetzal Editores).

 

Quem já havia lido José Luís Peixoto reconhece o estilo do autor nesta obra: a profundidade da narrativa; a atenção concedida à natureza humana; o contraste das emoções associado a acontecimentos díspares; e, a fatalidade do destino entrelaçada com a perpetuação de características hereditárias. Apesar de o autor se ter baseado na história trágica de Francisco Lázaro, um atleta português que faleceu nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, a trama abrange a sua família direta ao longo de três gerações. As três gerações são representadas por três narradores distintos: o pai do atleta Francisco Lázaro, o próprio Francisco Lázaro e, posteriormente, o seu filho. O enredo é contado de forma anacrónica pelos narradores, ou seja, com mudanças constantes de plano temporal, pelo que é preciso permanecer alerta para que não percamos o fio à meada. O excerto – “A minha mulher, sentindo-se menina, mãe e avó, respirou, aproximou-se dela [Maria] e contou-lhe o que aconteceu” (p. 66) –, sintetiza o modo como a história é narrada a partir de três pontos temporais distintos: a recordação da juventude do primeiro narrador, quando solteiro, enamorado e o casamento com a sua esposa; o nascimento dos quatro filhos e a existência como pais; o crescimento da família e o papel de avós. 

Entramos na história de rompante com a frase: “Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer” (p. 13). A intimidade da família é progressivamente revelada, na qual o amor dá lugar à violência, a alegria é abafada pela tristeza, a cumplicidade é pervertida pela traição e a morte permuta com a vida. Hermes nasce no dia em que o avô morre vítima de doença prolongada e o filho de Francisco Lázaro nasce pouco após o pai falecer na maratona de Estocolmo. Além do legado genético, os narradores trabalhavam na carpintaria de Benfica que herdaram dos pais (da família) e arranjavam pianos. É a sala anexa à carpintaria – o cemitério de pianos –, inicialmente apresentada como uma “divisão fechada” que encerrava “sustos lá dentro”, que acaba por estabelecer a conexão intergeracional da narrativa. Por exemplo, Marta, uma das irmãs de Francisco Lázaro, foi concebida no cemitério de pianos, num mês de setembro; porém, anos mais tarde, foi um “incidente familiar” nesse mesmo local que despoletou a mudança comportamental que a tornou disforme. O cemitério de pianos é, também, um espaço metafísico no qual a pequena Íris, sobrinha de Francisco, com quase três anos, dialoga com o falecido avô: “Tu eras marido, pai e avô” (p. 189) e “egoísta”. 

O drama das relações numa família numerosa, no final do século XIX e primórdios do século XX, foi sublimemente captado na relação de Simão, o irmão mais velho de Francisco, com o pai. Simão cegou em pequeno num acidente com Francisco e foi, de entre os quatro irmãos, aquele que mais sofreu com o alcoolismo e a violência do pai. O pai nunca batia em Francisco e este julgava que, ao bater em Simão, era a forma que havia arranjado para lidar com a tristeza do acidente. 

A descrição da corrida, quilómetro a quilómetro, pelo narrador (e atleta) Francisco Lázaro foi uma das partes do livro que mais apreciei. Quando corremos há uma multitude de pensamentos que nos assolam e nem sempre de maneira ordeira e coerente. O autor expôs estes desvarios com mestria, interpolando as sensações experienciadas pelo corredor – alguns excertos são apresentados a seguir –, com eventos ocorridos anteriormente (analepses).

 

·      Quilómetro 6: “(…) O sol arde-me na pele, na graxa especial que me cobre a pele” (p. 108).

·      Quilómetro 11: “Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio” (p. 123).

·      Quilómetro 17: “Deixarei de ouvir a voz que se repete na minha cabeça: o sol. Continuarei a ouvir a voz que existe no centro de mim: a minha vontade” (p. 199).

·      Quilómetro 22: “Era na dificuldade da minha solidão: caminho negro de estátuas: que eu me edificava” (p. 215).

·      Quilómetro 29: “No meu corpo, é outra coisa que se imola no lugar do meu corpo. Talvez aquilo que penso” (p. 235).

 

A morte por exaustão de Francisco Lázaro, na maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912), é um facto verídico na história do desporto nacional. No âmbito da ficção, e segundo a narração do seu filho a relembrar as palavras do tio Simão: “(…) houve aqueles que acreditaram que encontrou a morte ao fugir dela e houve aqueles que acreditaram que fugiu da morte ao procurá-la” (p. 156). No final nem tudo tem de ser derradeiro: haverá sempre vida depois da morte, enquanto houver descendência e memória:

 

Então, pensava que havia uma parte do meu pai que permanecia em mim e que entregava aos meus filhos para que permanecessem neles até que um dia a começassem a entregar aos meus netos. (…) Éramos perpétuos uns nos outros.

 (p. 257)

 

Um livro pleno, que compatibiliza as suaves valências e os duros defeitos do ser humano num contexto íntimo e alargado de família.