14/07/2026

International Journal of Sports Medicine (2026) | Impacto da COVID-19 na saúde dos jogadores de futebol: Revisão sistemática e meta-análise

Há projetos científicos que nascem de uma curiosidade pessoal. Outros surgem de uma conversa entre colegas. E há aqueles, muito mais raros, que começam com um e-mail inesperado.

No dia 4 de setembro de 2024 recebi um convite do Prof. Ricardo da Costa, editor da International Journal of Sports Medicine, para liderar um artigo de revisão sobre um tema muito específico: a COVID-19 e o futebol. Confesso que a primeira reação foi de hesitação. Depois de refletir sobre o convite, percebi que só faria sentido aceitá-lo se conseguisse reunir uma equipa com experiência e competências complementares. 

Reunido o grupo, composto por mim (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Rui Freitas (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, Portugal), José Afonso (Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal), Pedro Vargas (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; Escola Superior de Saúde Jean Piaget Algarve, Portugal), Alberto Pompeo (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Everton Cirillo (Universidade Estadual de Londrina, Brasil), Rodrigo Ramírez-Campillo (Universidad Andrés Bello, Chile) e Filipe Casanova (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), chegou o momento de definir o rumo do projeto. Numa primeira fase, equacionámos a realização de uma revisão de escopo. Contudo, essa hipótese não reuniu o consenso da revista, que manifestou preferência por uma revisão narrativa ou, idealmente, por uma revisão sistemática. Depois de uma boa dose de ponderação, optámos pelo percurso metodologicamente mais exigente: uma revisão sistemática com meta-análise. Sabíamos que essa decisão implicaria um investimento muito superior em termos de tempo e rigor metodológico, mas também que resultaria numa síntese científica substancialmente mais robusta. 

Nunca tinha coordenado uma revisão sistemática com meta-análise enquanto primeiro autor. Além disso, apesar de já ter publicado alguns trabalhos relacionados com a pandemia no futebol, esta investigação inseria-se muito mais no domínio da Medicina do Desporto do que nas minhas linhas habituais de investigação, centradas na análise do jogo e no desempenho em futebol. Naquela altura encontrava-me também envolvido em vários projetos científicos, conciliando-os com a atividade profissional e a vida familiar. Pouco depois, surgiram ainda os problemas de saúde do meu pai, que tornaram este período particularmente difícil. Aceitar este convite significava assumir um compromisso de grande responsabilidade, sem qualquer garantia de publicação. 

Seguiram-se meses de leitura e análise de centenas de artigos científicos, aplicação rigorosa das recomendações PRISMA 2020, avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos e realização daquela que foi a primeira meta-análise que tive a oportunidade de liderar como autor principal. O produto deste esforço acaba de ser publicado na InternationalJournal of Sports Medicine, uma revista científica internacional alemã de referência na área da Medicina do Desporto (Q1; Impact Factor: 2.3; CiteScore 2025: 4.5; Figura 1).

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista International Journal of Sports Medicine.

 

Mais do que estudar os efeitos da infeção por SARS-CoV-2, procurámos distinguir as alterações provocadas pela própria doença daquelas decorrentes das restrições impostas durante a pandemia, como as interrupções competitivas, as alterações nos treinos e as profundas mudanças na preparação dos jogadores. Para o efeito, analisámos 9 estudos, abrangendo mais de 1500 futebolistas de diferentes níveis competitivos. Esta revisão sintetiza, pela primeira vez, a evidência disponível sobre os efeitos fisiológicos da COVID-19 no futebol. Os resultados sugerem que, apesar de terem sido observadas alterações transitórias, sobretudo ao nível respiratório, a maioria dos indicadores fisiológicos permaneceu dentro de valores clinicamente normais. Ainda assim, a reduzida qualidade da evidência atualmente disponível recomenda prudência na interpretação destes resultados. 

Este foi, muito provavelmente, o projeto científico mais exigente em que estive envolvido até hoje. Não apenas pela complexidade metodológica, mas também porque me obrigou a sair da minha zona de conforto e a aprofundar conhecimentos numa área científica diferente daquelas em que habitualmente desenvolvo investigação. No final, fica a satisfação de termos correspondido ao desafio lançado pela própria revista e de contribuir com uma síntese que poderá servir de referência para futuras investigações e para a preparação de eventuais situações semelhantes.

O resumo e as palavras-chave constam na Figura 2.

  

Figura 2. Abstract do estudo publicado na revista International Journal of Sports Medicine (clique para ampliar).

 

Reference

Almeida, C. H., Freitas, R., Afonso, J., Vargas, P., Pompeo, A., Cirillo, E., Ramirez-Campillo, R., & Casanova, F. (2026). The impact of COVID-19 on soccer players’ health: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Sports Medicine. Advance online publication. https://doi.org/10.1055/a-2896-9130

08/07/2026

Pai: o meu super-herói

Pai, a dor e o sofrimento acabaram.

Nos últimos dois anos foste um exemplo de força de vontade, determinação e resistência. Lutaste até ao limite, como sempre lutaste pelas tuas convicções, tantas vezes colocando em segundo plano aquilo que seria melhor para ti e para os teus.

Um osso duro de roer. O “homem das sete vidas”, como te apelidaram no hospital. A música Invincible dos Tool fala de um guerreiro que luta para permanecer consequente: “Warrior struggling to remain consequential...”. Não há verso que melhor te descreva. Foste um exemplo de coragem, resiliência e tenacidade.

No hospital, quando perguntava como te sentias, respondias: "Bem!", fechando os olhos para não veres as nossas expressões de comiseração. Lutavas contra a doença e lutavas para não mostrar fraqueza. Sempre foste forte, pai.

Tivemos as nossas divergências. Não tanto no que pensávamos, mas na forma como o exprimíamos. Ainda assim, nunca tive dúvidas de que os valores que nos transmitiste eram os certos. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sempre!

Entre tantas memórias, recordo com nostalgia o dia em que me ensinaste a andar de bicicleta no campo pelado do Juventude Desportiva Monchiquense; as motas que me desenhavas com perfeição quando te pedia; as nossas partidas de raquetes e os remates na praia; o dia em que me foste buscar quando o barquinho de borracha foi levado pela corrente na Praia da Luz, enquanto me gritavas para não saltar para a água; a firmeza com que recusaste que comprasse uma mota – “és muito maluco para isso” – e os raspanetes que levava quando fazia das minhas.


Mais recentemente, dizias, em jeito de brincadeira, que iria pagar, com os meus filhos, todas as traquinices que tinha feito na infância. Tinhas razão, pai.

Os meus filhos recordarão o avô Carlos pelo homem que foi: um homem de ação, prático e de convicções fortes. Porque as palavras leva-as o vento.

Como fazem os super-heróis.

A luta acabou, pai.

Descansa em paz e olha por nós.