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09/08/2026

Motricidade (2026) | Padrões de atividade e exigências físicas de árbitros de futebol portugueses: Um estudo de caso

É com satisfação que partilho mais uma publicação científica para a qual tive a oportunidade de dar um singelo contributo. O artigo “Physical demands and patterns of Portuguese football referees: a case study” foi recentemente publicado online na revista científica Motricidade (Q4; Impact Factor 2024: 0,41; CiteScore 2025: 0,7; Figura 1), embora a respetiva versão final se encontre ainda em produção, estando atualmente disponível apenas o draft do artigo.

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista Motricidade.

 

O trabalho é da autoria de Pedro Miguel (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona), Vítor Carvalho (Universidade Lusófona), Carlos H. Almeida (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona; CIDEFES), Alberto Pompeo (CIDEFES), Marcos Prandi (Universidade Lusófona), Pedro Viana (Universidade Lusófona), Paulo Paixão (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona; Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Beja; SPRINT) e Filipe Casanova (CIDEFES). 

Este trabalho nasceu de um projeto iniciado em setembro de 2024, sob a liderança do Prof. Doutor Filipe Casanova, no âmbito de uma colaboração entre a Universidade Lusófona e a Associação de Futebol de Aveiro, com o propósito de aprofundar o conhecimento sobre as exigências físicas e fisiológicas associadas à arbitragem no futebol português. 

Ainda que o meu envolvimento tenha sido mais limitado do que o de alguns dos restantes coautores, é estimulante ver o trabalho colaborativo desenvolvido ao longo dos últimos 2 anos materializar-se numa publicação científica com potencial para contribuir para um melhor conhecimento das exigências e da preparação física dos árbitros de futebol. 

O estudo procurou caracterizar as exigências físicas externas e internas e os padrões de atividade de árbitros principais e árbitros assistentes, bem como compreender de que forma estas exigências variam em função do papel desempenhado em campo e da categoria competitiva. Para o efeito, foram monitorizados 8 árbitros principais e 7 árbitros assistentes, num total de 98 observações em jogos oficiais, com recurso a dispositivos GPS, monitorização da frequência cardíaca e perceção subjetiva de esforço. 

Os resultados evidenciaram perfis de exigência distintos entre as duas funções. Os árbitros principais percorreram maiores distâncias totais e relativas e acumularam maior distância em corrida de média velocidade, enquanto os árbitros assistentes atingiram velocidades máximas superiores e realizaram mais esforços de corrida a alta velocidade e um maior número de desacelerações. Estes últimos apresentaram também valores superiores de perceção subjetiva de esforço, variável que revelou associações positivas fortes com o número de acelerações e desacelerações. 

Estes resultados reforçam a importância de adequar a preparação física às exigências específicas de cada função. Os árbitros principais necessitam de sustentar maiores volumes de deslocamento em todo o terreno de jogo. Já a preparação dos árbitros assistentes deverá conferir particular atenção aos esforços curtos de alta velocidade e às acelerações e desacelerações frequentes. A conjugação de indicadores de carga externa e interna poderá ainda contribuir para uma melhor individualização do treino, monitorização da carga e gestão dos processos de recuperação. 

Concluo, deixando-vos o resumo original e a referência do trabalho. Espero que vos seja útil:

Abstract

This study quantified the match-related external and internal physical demands and activity patterns of Portuguese Football field referees (FRs) and assistant referees (ARs) across different categories. A total of 8 FRs and 7 ARs were monitored during 98 official competitions using GPS with embedded heart rate sensors, and post-match rate of perceived exertion (RPE) was collected. Descriptive statistics and between-group comparisons were applied to examine differences between roles, and the interrelationship between external and internal loads was explored using Pearson’s correlation. FRs covered substantially more total distance and distance per minute than ARs (7.49 ± 2.47 vs 5.64 ± 1.25 km; 78.68 ± 14.56 vs 55.88 ± 7.78 m·min¹; both p < .001), and accumulated more medium-velocity running, whereas ARs reached higher maximal speeds and performed more high-speed running bouts and decelerations (p ≤ .031). ARs also reported higher perceived exertion than FRs (6.80 ± 0.68 vs 4.23 ± 1.65, p < .001), and RPE showed strong positive correlations with accelerations (r = 0.674, p < .001) and decelerations (r = 0.686, p < .001). Heart rate data from FRs showed most match time spent in low-to-moderate intensity zones, with minimal exposure to very high intensities. The referees were exposed to substantial, role-dependent external and internal loads even in a non-professional regional setting. The distinct demands of FRs and ARs support the need for role- and category-specific conditioning, monitoring and recovery strategies. These findings provide practical benchmarks to inform training prescription, load management and development pathways for football referees.

 

Keywords: Referee role; External load; GPS; Internal load; Rating of perceived exertion.

 

Reference

Miguel, P., Carvalho, V., Almeida, C. H., Pompeo, A., Prandi, M., Viana, P., Paixão, P., & Casanova, F. (2026). Physical demands and patterns of Portuguese football referees: a case study. Motricidade, 22, e40534. https://doi.org/10.6063/motricidade.40534

31/07/2026

Artigo do mês #79 – julho 2026 | Restrições ao número de toques e ao número de jogadores em jogos reduzidos de jovens futebolistas: efeitos nos indicadores físicos e técnicos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 79 -

Autores: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-junho-2026

Título: Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth

soccer players: Effects on physical and technical parameters

Referência: Jäger, J., Rumpf, M. C., Barrett, S., Meixner, B., & Lochmann, M. (2026). Touch restrictions and player numbers during small-sided games in youth soccer players: Effects on physical and technical parameters. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–14. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261450910

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 79 – julho de 2026.

 

Apresentação do problema

Os jogos reduzidos (JRs) representam uma estratégia amplamente utilizada no treino de futebol, pois permitem desenvolver adaptações fisiológicas, físicas, técnicas e táticas em contextos representativos da competição (Davids et al., 2013; Hill-Haas et al., 2011). A manipulação dos constrangimentos da tarefa, como o número de jogadores ou o número de toques na bola, influencia as oportunidades de ação disponíveis e proporciona diferentes respostas motoras e tático-técnicas (Borges et al., 2022; Renshaw & Chow, 2018). 

O número de jogadores constitui um dos constrangimentos mais estudados nos JRs, uma vez que influencia simultaneamente as exigências físicas e o envolvimento técnico dos praticantes (Clemente & Sarmento, 2020). Quando a área relativa por jogador se mantém constante, os formatos com mais jogadores tendem a aumentar a distância percorrida e as ações de alta intensidade, mas reduzem a frequência de acelerações e desacelerações (Clemente et al., 2025; Hill-Haas et al., 2009). Em contrapartida, formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento individual, o número de contactos com a bola e as oportunidades de decisão, embora também possam elevar a frequência de erros devido à maior pressão temporal e à maior densidade de ações (Clemente et al., 2025; Clemente et al., 2021). Em comparação com os formatos mais amplos, as situações de 2v2 e 3v3 tendem a espoletar mais receções, recuperações, ações ofensivas, passes e posses individuais de bola. 

A limitação do número de toques na bola constitui outro constrangimento frequentemente utilizado nos JRs. Ao reduzir o tempo disponível para decidir e executar, esta condicionante incentiva os jogadores a explorar melhor o espaço, a identificar informação relevante e a adaptar o seu comportamento às exigências do jogo (Coutinho et al., 2022; Rumpf et al., 2025). Em termos ofensivos, a condição de 1 toque (1T) proporciona uma circulação de bola mais rápida, acelera a criação de oportunidades de finalização e modifica os comportamentos táticos das equipas (Carling, 2011; Brito e Sousa et al., 2019). Por este motivo, esta regra constitui um dos constrangimentos mais utilizados nos JRs, com impacto demonstrado nas respostas físicas, técnicas e táticas dos jogadores (Lauria et al., 2024; Rumpf et al., 2025). 

O impacto da manipulação do número de toques parece, contudo, depender do nível dos jogadores. Em jovens futebolistas, o jogo livre (free play – FP) tende a promover maior envolvimento físico, enquanto a restrição de toques aumenta as exigências técnicas sem benefícios consistentes nas ações de alta intensidade (Coutinho et al., 2022). Em jogadores profissionais, estas restrições associam-se frequentemente a maiores distâncias percorridas e a uma maior intensidade de jogo (Lauria et al., 2024; Dellal et al., 2011). Do ponto de vista técnico, limitar o número de toques aumenta a frequência de passes e influencia os padrões de circulação da bola, embora possa reduzir a precisão da execução, sobretudo em jovens futebolistas (Coutinho et al., 2022; Rosten et al., 2025). Em comparação com o jogo livre, jogar a 2 toques (2T) conduz ainda a sequências de posse mais curtas, com maior número de passes e maior participação dos jogadores em cada posse de bola (Almeida et al., 2012). 

Apesar da vasta investigação sobre os efeitos isolados do número de jogadores e da limitação do número de toques, o conhecimento sobre a interação entre os 2 constrangimentos permanece limitado, sobretudo no futebol de formação (Clemente et al., 2025; Lauria et al., 2024). Esta lacuna assume particular relevância, uma vez que estas duas variáveis constituem algumas das estratégias mais utilizadas pelos treinadores para modular simultaneamente a carga de treino e os comportamentos tático-técnicos. Assim, o presente estudo analisou o efeito combinado de diferentes formatos de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e de 3 condições relativas ao número de toques (1T, 2T e FP) nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas.

 

Métodos

 

·     Estudo-piloto e estimativa do tamanho da amostra

Antes da recolha principal dos dados, realizou-se um estudo-piloto com o mesmo protocolo experimental, no qual todos os jogadores realizaram duas repetições de cada combinação entre formato de jogo (3v3, 5v5 e 7v7) e condição relativa ao número de toques (FP, 1T e 2T). A ordem das condições foi aleatória e equilibrada entre sessões. Os dados obtidos permitiram estimar os tamanhos do efeito e a variabilidade das medidas através de modelos lineares generalizados mistos, utilizando a condição 7v7 em jogo livre como referência. 

Com base nos resultados do estudo-piloto, realizou-se uma análise a priori do poder estatístico através de simulações de Monte Carlo (1000 iterações). Os resultados indicaram que uma amostra mínima de 16 jogadores seria suficiente para detetar os efeitos de interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques (poder estatístico = 0,82). O nível de significância foi ajustado através da correção de Bonferroni.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 16 futebolistas masculinos do escalão Sub-15 pertencentes a uma academia alemã de elevado nível competitivo, cuja equipa sénior disputava a 2. Bundesliga. De acordo com a classificação de McKay et al. (2022), os jogadores enquadravam-se no nível “highly trained/national level” (Tier 3). Durante o período de observação, realizaram 4 sessões de treino semanais (90–120 minutos) e disputaram um jogo oficial por semana. Apenas participaram jogadores de campo sem lesões nos 3 meses anteriores ao estudo, tendo sido excluídos os guarda-redes devido às especificidades inerentes à posição.

 

·     Procedimentos

A recolha de dados decorreu ao longo de 6 semanas, durante o período competitivo, com duas sessões semanais separadas por 48 horas de recuperação. Foi utilizado um desenho experimental cruzado (crossover), no qual todos os jogadores participaram em 3 formatos de JRs (3v3, 5v5 e 7v7; Figura 2), combinados com 3 condições relativas ao número de toques na bola: FP, 1T e 2T. A ordem das condições foi randomizada e equilibrada entre sessões, de modo a assegurar que todos os participantes fossem expostos a todas as combinações experimentais.

 

Figura 2. Formatos de JRs utilizados no estudo: a) 3v3; b) 5v5; c) 7v7 (Jäger et al., 2026).

 

Antes de cada sessão, os jogadores realizaram um aquecimento padronizado. Cada formato de jogo compreendeu 4 séries de 3 minutos, intercaladas por 3 minutos de recuperação passiva. Os jogos decorreram em campos com dimensões ajustadas para manter uma área relativa por jogador semelhante entre formatos (215–216 m2/jogador), recorrendo a balizas regulamentares e a regras idênticas às da competição oficial.

 

·     Instrumentação, variáveis físicas e técnica

As respostas físicas e técnicas foram monitorizadas através de unidades de medição inercial (inertial measurement units – IMUs), colocadas nas chuteiras de todos os jogadores durante os JRs. A partir destes dispositivos foram obtidos indicadores físicos como a distância total percorrida, a distância percorrida em alta intensidade, a distância em sprint, a velocidade máxima, o número de sprints, as acelerações e as desacelerações. Do ponto de vista técnico, registaram-se o número de contactos com a bola, ações de distribuição/finalização com bola (passes, cruzamentos ou remates), ações executadas ao primeiro toque e posses individuais de bola. A seleção destas variáveis baseou-se em estudos anteriores realizados com jovens futebolistas (Bergstra et al., 2024; Rumpf et al., 2024).

 

·     Análise estatística

Os resultados foram descritos através de estatística descritiva (média ± desvio-padrão). Para comparar os efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos, os autores recorreram a modelos lineares generalizados mistos, adequados à análise de medidas repetidas (Bates et al., 2015). Sempre que se verificaram diferenças estatisticamente significativas, efetuaram-se comparações post hoc com correção de Bonferroni. Para além da significância estatística (p < 0,05), foi ainda avaliada a relevância prática dos resultados através do tamanho do efeito e de testes de equivalência (Lakens et al., 2018).

 

Principais resultados

Esta secção sintetiza os principais resultados do estudo relativos aos efeitos do número de jogadores, da limitação do número de toques e da interação entre ambos nas respostas físicas e técnicas de jovens futebolistas na prática de JRs (Figura 3).

 

·     Interação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques

Os resultados demonstraram que o efeito do número de jogadores variou, em algumas variáveis, em função da condição relativa ao número de toques na bola. Esta interação revelou-se significativa na distância percorrida em alta intensidade, na distância percorrida em sprint, no número de sprints, nas desacelerações, nos contactos com a bola e nas ações de libertação da bola.

 

·     Respostas físicas

Os formatos com menos jogadores favoreceram, de forma geral, um maior número de desacelerações, sobretudo nas condições 2T e FP. Em contrapartida, o número de sprints e a distância percorrida em sprint tenderam a aumentar nos formatos com mais jogadores, particularmente na comparação entre 3v3 e 7v7, independentemente da condição relativa ao número de toques. A distância percorrida em alta intensidade apresentou diferenças menos consistentes, destacando-se apenas valores superiores no 5v5 relativamente ao 7v7, na condição 2T.

 

·     Respostas técnicas

Os formatos com menos jogadores proporcionaram um maior número de contactos com a bola em todas as condições relativas ao número de toques. A condição 2T promoveu igualmente mais ações de distribuição da bola e finalização, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos. Por sua vez, o número de posses individuais de bola e as ações executadas ao primeiro toque mantiveram-se relativamente estáveis entre os diferentes formatos e condições experimentais.

 

Figura 3. Síntese gráfica dos principais resultados obtidos por Jäger et al. (2026).

 

Aplicações práticas

As aplicações práticas apresentadas de seguida decorrem diretamente dos resultados obtidos no estudo e podem auxiliar os treinadores na manipulação dos constrangimentos da tarefa em situações de JR. Ei-las:

 

1. A manipulação simultânea dos constrangimentos produz efeitos distintos: o efeito do número de jogadores depende, em várias variáveis, da limitação do número de toques. Por isso, estas duas variáveis não devem ser planeadas de forma isolada, mas sim em conjunto, de acordo com o objetivo específico da sessão de treino. 

2. Utilize formatos reduzidos para aumentar o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares: os formatos com menos jogadores (3v3) proporcionam maior participação individual no jogo, traduzindo-se num maior número de contactos com a bola. Adicionalmente, tendem a aumentar as ações de aceleração e desaceleração, o que aumenta as exigências neuromusculares específicas da modalidade. Sempre que o objetivo passe por potenciar o envolvimento técnico e estimular ações associadas à força específica do futebol, os formatos reduzidos parecem constituir uma opção mais adequada. 

3. Recorra a formatos mais amplos para estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade: os formatos com mais jogadores (7v7) tendem a aumentar o número de sprints e a distância percorrida em sprint. Além disso, em determinadas condições, observaram-se maiores distâncias percorridas em alta intensidade. Assim, quando o objetivo consiste em estimular ações locomotoras de elevada velocidade em contexto representativo, os formatos mais amplos parecem constituir uma opção adequada. 

4. A limitação a 2 toques pode acelerar a circulação da bola: a condição 2T esteve associada a um maior número de ações de libertação da bola, embora este efeito não tenha sido uniforme entre todos os formatos de jogo. Esta regra poderá, por isso, constituir uma estratégia útil para promover uma circulação de bola mais rápida e reduzir o tempo disponível para a tomada de decisão, sobretudo quando combinada com formatos de jogo criteriosamente definidos.

 

Conclusão

O presente estudo demonstra que a combinação entre o número de jogadores e a limitação do número de toques constitui uma estratégia eficaz para ajustar as exigências físicas e técnicas dos JRs em jovens futebolistas. Os formatos com menos jogadores aumentam o envolvimento técnico e as exigências neuromusculares, enquanto os formatos mais amplos tendem a estimular ações de sprint e corrida de alta intensidade. A regra dos 2T pode ainda potenciar as ações de libertação da bola, embora o seu efeito dependa do formato de jogo utilizado. Estes resultados reforçam a importância de planear os JRs de forma integrada, considerando simultaneamente os diferentes constrangimentos da tarefa. Mais do que opções metodológicas isoladas, o número de jogadores e a limitação do número de toques constituem ferramentas complementares que permitem aos treinadores adequar o treino aos objetivos específicos de cada sessão.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

28/05/2026

Artigo do mês #77 – maio 2026 | Jogos de grandes dimensões não replicam os cenários de maior exigência física, específicos por posição, dos jogos oficiais de futebol profissional

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

- 77 -

Autores: Herzig, L., Stöckert, J., Lochmann, M., & Rumpf, M. C.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-abril-2026

Título: Large-sided games do not replicate the positional worst-case scenarios of official matches in professional football

Referência: Herzig, L., Stöckert, J., Lochmann, M., & Rumpf, M. C. (2026). Large-sided games do not replicate the positional worst-case scenarios of official matches in professional football. Frontiers in Sports and Active Living, 8, 1797322. https://doi.org/10.3389/fspor.2026.1797322

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 77 – maio de 2026.

 

Apresentação do problema

No futebol, preparar os jogadores para as exigências físicas do jogo oficial implica ir além dos valores médios registados ao longo dos 90 minutos. Devido à natureza intermitente da modalidade, os momentos de maior intensidade podem ficar diluídos quando se analisam apenas médias por minuto. Por este motivo, a investigação tem valorizado o conceito de Worst-Case Scenario (“cenário de maior exigência física”), entendido como o período mais intenso de jogo dentro de uma determinada janela temporal (Lobo-Triviño et al., 2025; Oliva-Lozano et al., 2020). Estas janelas temporais variam frequentemente entre 1, 3 e 5 minutos, sendo comum observar valores físicos mais elevados nas durações mais curtas (Rico-González et al., 2022). 

A relevância dos cenários de maior exigência física não se limita à identificação dos picos de intensidade. Estudos prévios indicaram que, após estes períodos, o desempenho físico dos jogadores pode diminuir, sobretudo em variáveis locomotoras como a corrida de alta velocidade (Fang et al., 2024; Ju et al., 2022; Schimpchen et al., 2020). Esta quebra pode comprometer ações decisivas, como recuperações defensivas, pressões sobre o portador da bola, coberturas ou movimentos de apoio ofensivo (Ju et al., 2022). Assim, atenuar o impacto da fadiga após momentos de elevada exigência torna-se essencial para otimizar o rendimento físico e tático dos jogadores (Díez et al., 2025; Douchet et al., 2025; de Dios-Álvarez et al., 2023). 

Do ponto de vista prático, jogos de pequena, média e grande dimensão têm sido amplamente utilizados no treino, por permitirem integrar exigências físicas, técnicas e táticas em tarefas próximas do jogo (Chena et al., 2022; Hill-Haas et al., 2011; Sydney et al., 2022). Um fator decisivo nestas tarefas é a área relativa por jogador, uma vez que o aumento do espaço tende a elevar a exigência física, sobretudo nas variáveis locomotoras (Rumpf et al., 2025). Em particular, os maiores formatos de jogo parecem mais adequados para estimular deslocamentos a velocidades elevadas, desde que a área relativa por jogador se aproxime da observada no formato oficial (Lacome et al., 2018; Riboli et al., 2020, 2023a, 2023b).



 Figura 2. Exemplos de jogos de pequena, média e grande dimensão e respetiva área relativa por jogador (Lacome et al., 2018; Riboli et al., 2020, 2023a, 2023b; imagem não publicada pelos autores).

 

Apesar destes avanços, permanece por esclarecer se os jogos de grande dimensão conseguem reproduzir os cenários de maior exigência física do jogo oficial, em diferentes durações e de acordo com as exigências específicas de cada posição. Assim, o presente estudo procurou analisar se os cenários de maior exigência física de 1, 3 e 5 minutos observados em jogos oficiais podem ser replicados em jogos ampliados, com área relativa por jogador semelhante à observada em competição, considerando as exigências locomotoras e mecânicas específicas de cada posição.

 

Métodos

 

·     Participantes

Participaram no estudo 21 jogadores masculinos de futebol pertencentes à equipa secundária de um clube alemão da 2. Bundesliga. A equipa competia na quarta divisão alemã e realizava 5 sessões de treino semanais, além de um jogo oficial por semana. Apenas jogadores de campo sem lesões nos 6 meses anteriores e com participação mínima de 80% nos treinos foram incluídos na análise. Nos jogos oficiais, apenas foram considerados os jogadores titulares que completaram os 90 minutos. Os jogadores foram agrupados por posição específica: defesas centrais, laterais, médios-centro, médios-ala e avançados. Os guarda-redes foram excluídos devido às exigências específicas da posição. Todos os participantes deram consentimento informado, e os dados foram anonimizados antes da análise.

 

·     Amostra

O estudo decorreu durante 19 semanas da segunda metade da época 2024/2025. Todas as sessões realizaram-se em relva natural, sempre no mesmo período do dia e a 3 dias do jogo oficial (MD-3), de acordo com estratégias habituais de periodização no futebol (Buchheit et al., 2021; Morgans et al., 2023). Foram analisados 17 jogos oficiais e 2 formatos de jogos de grande dimensão: 9v9 e 10v10, ambos com área relativa por jogador semelhante à competição oficial (≈320 m2). 

Os jogos foram organizados em 2 a 4 séries, com duração média aproximada de 15 minutos e pausas passivas de 2 a 5 minutos entre séries. No total, registaram-se 698 observações individuais (126 em jogos oficiais e 570 em jogos de grande dimensão), distribuídas por diferentes posições específicas (defesas centrais, laterais, médios-centro, médios-ala e avançados). 

Os jogos seguiram as regras formais do futebol, incluindo a lei do fora de jogo. Para aumentar a continuidade do exercício, as interrupções foram retomadas rapidamente e colocaram-se bolas suplementares ao redor do campo. A equipa de investigação forneceu encorajamento verbal durante os exercícios para manter elevada intensidade de participação (de Dios-Álvarez et al., 2024).

 

·     Recolha de dados

As exigências físicas dos jogos de treino e oficiais foram monitorizadas através de dispositivos GPS de 10 Hz, utilizados individualmente por cada jogador para reduzir diferenças entre unidades (Riboli et al., 2020). Os dados foram posteriormente analisados através de software específico, tendo estes sistemas demonstrado elevada validade e fiabilidade para variáveis locomotoras e mecânicas (Cormier et al., 2023; Crang et al., 2024; Mackay et al., 2025). 

As variáveis analisadas incluíram distância total percorrida, corrida de velocidade moderada (14,4–19,7 km/h), corrida de alta velocidade (19,8–25,1 km/h), sprint (>25,2 km/h), acelerações e desacelerações de baixa, moderada e elevada intensidade (Cotteret et al., 2025). Para identificar os cenários de maior exigência física, os autores utilizaram o método de médias móveis (rolling average) em períodos de 1, 3 e 5 minutos, tanto nos jogos oficiais como nos jogos de grande dimensão (Lacome et al., 2018; Martin-Garcia et al., 2019; Rico-González et al., 2022).

 

·     Análise estatística

Os dados foram analisados no software R, com apresentação de estatísticas descritivas (média ± desvio-padrão). Para comparar jogos de grande dimensão e jogos oficiais nos diferentes cenários de maior exigência física (1, 3 e 5 minutos), os autores recorreram a modelos lineares mistos, adequados para dados repetidos e desequilibrados (Bates et al., 2015; Winter, 2013). As análises consideraram o formato de jogo e a posição dos jogadores, com correção de Bonferroni para comparações múltiplas. A magnitude das diferenças foi interpretada através do tamanho do efeito de Cohen’s d: trivial (<0,10), pequeno (0,10– 0,29), moderado (0,30–0,49), grande (0,50–0,69) e muito grande (>0,70) (Cohen, 1988).

 

Principais resultados

Esta secção sintetiza os principais resultados do estudo relativos às exigências locomotoras e mecânicas observadas nos cenários de maior exigência física em jogos oficiais e jogos de grande dimensão.

 

·     Variáveis locomotoras nos cenários de maior exigência física

As exigências locomotoras revelaram-se sistematicamente inferiores nos jogos de grande dimensão quando comparadas com os jogos oficiais, independentemente da posição dos jogadores e da duração analisada (1, 3 ou 5 minutos). Variáveis como a distância total percorrida, a corrida de velocidade moderada, a corrida de alta velocidade e o sprint apresentaram reduções consistentes nos jogos de treino.

 

·     Variáveis mecânicas nos cenários de maior exigência física

As exigências mecânicas também foram inferiores nos jogos de grande dimensão, sobretudo nas acelerações e desacelerações de intensidade moderada e elevada. As maiores discrepâncias verificaram-se nos períodos de 1 minuto e em posições como defesas centrais, médios-centro e médios-ala. Em contraste, os laterais apresentaram resultados menos consistentes em algumas variáveis.

 

·     Influência da posição específica e da duração dos períodos analisados

As diferenças entre jogos oficiais e jogos de grande dimensão variaram em função da posição específica e da duração dos cenários analisados. Os períodos mais curtos concentraram maiores exigências físicas e evidenciaram discrepâncias mais acentuadas entre treino e competição. Além disso, posições com maior envolvimento em ações intensas de aceleração, desaceleração e corrida de alta velocidade apresentaram diferenças mais pronunciadas.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam limitações dos jogos de grande dimensão na reprodução dos cenários de maior exigência física observados na competição oficial. De seguida, expõem-se 4 aplicações práticas relevantes para o treino no futebol:

 

1. Complementar os jogos de grande dimensão com exercícios específicos de corrida: apesar da elevada especificidade tática dos jogos mais amplos, estes formatos revelaram limitações na reprodução das exigências locomotoras máximas do jogo oficial, sobretudo em corrida de alta velocidade e sprint. A inclusão de exercícios específicos de corrida pode contribuir para submeter os jogadores a estímulos mais próximos dos cenários competitivos. 

2. Utilizar jogos de pequena e média dimensão para promover acelerações e desacelerações intensas: formatos com menor número de jogadores tendem a aumentar a frequência de ações explosivas, como acelerações e desacelerações de elevada intensidade. Estes exercícios podem constituir uma estratégia mais eficaz para replicar exigências mecânicas máximas observadas na competição. 

3. Individualizar os estímulos de treino em função da posição específica: as exigências locomotoras e mecânicas variaram de acordo com a posição dos jogadores e com a duração dos períodos analisados. O treino deve considerar estas diferenças, ajustando volumes, intensidades e tipos de exercício às exigências específicas de cada função em jogo. 

4. Ajustar o formato e a área relativa por jogador em função do objetivo do exercício: aumentar apenas a área relativa por jogador pode não ser suficiente para reproduzir os cenários mais exigentes da competição. A seleção do formato de jogo deve considerar simultaneamente o número de jogadores, o espaço disponível, a duração das séries e o tipo de exigência física que se pretende desenvolver.

 

Conclusão

Os resultados do estudo demonstraram que jogos de grande dimensão em formatos 9v9 e 10v10, mesmo com área relativa por jogador semelhante à competição oficial, revelaram capacidade limitada para reproduzir os cenários de maior exigência física observados em jogos oficiais Os valores das variáveis locomotoras permaneceram inferiores nos períodos de 1, 3 e 5 minutos, sobretudo nas ações de corrida de alta velocidade e sprint. Também as exigências mecânicas associadas a acelerações e desacelerações intensas tenderam a ser inferiores nos jogos de treino, embora com algumas variações em função da posição específica e da duração analisada. As evidências reiteram a necessidade de complementar os jogos de grande dimensão com estratégias de treino ajustadas às exigências da competição oficial.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Frontiers in Sports and Active Living.

30/04/2026

Artigo do mês #76 – abril 2026 | Tendências contemporâneas dos dispositivos táticos e do sucesso das equipas nas principais ligas europeias de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Tokul, E., Özçillingir, Ö. M., Kaya, K., Yilmaz, E. A., Saray, D., Agascioglu, E. A., Demirli, A., & Erdem, K.

País: Turquia

Data de publicação: 27-março-2026

Título: Contemporary trends in tactical formations and team success in Europe’s top-tier football leagues: a comparative analysis

Referência: Tokul, E., Özçillingir, Ö. M., Kaya, K., Yilmaz, E. A., Saray, D., Agascioglu, E. A., Demirli, A., & Erdem, K. (2026). Contemporary trends in tactical formations and team success in Europe’s top-tier football leagues: a comparative analysis. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. Advance online publication. https://doi.org/10.1186/s13102-026-01657-1

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 76 – abril de 2026.

 

Apresentação do problema

Os dispositivos táticos no futebol constituem elementos estruturais que influenciam a organização espacial das equipas, a ocupação do campo e a dinâmica do jogo. Para além de definirem o posicionamento inicial dos jogadores, condicionam a dinâmica ofensiva e defensiva e refletem a estratégia global da equipa (Rein & Memmert, 2016; Plakias et al., 2023). Neste sentido, assumem um papel central na forma como o jogo é construído e interpretado. 

Nos últimos anos, a evolução tecnológica tem permitido analisar estas estruturas de forma mais objetiva. O recurso a sistemas de rastreamento, análise posicional e inteligência artificial tem ampliado a capacidade de quantificar padrões táticos e relacioná-los com o desempenho competitivo (Plakias et al., 2023; Mesoudi, 2019). Apesar destes avanços, continuam a ser escassos os estudos que comparam, de forma sistemática, as preferências estratégico-táticas entre as principais ligas europeias e a sua associação com o sucesso desportivo (Lago-Peñas et al., 2023). 

A análise do rendimento no futebol assenta na observação sistemática dos comportamentos que emergem durante o jogo, permitindo compreender a interação entre indicadores individuais e a organização coletiva (Sarmento et al., 2014). Aspetos como a pressão alta, a construção desde o setor defensivo ou a eficácia nos duelos integram a matriz funcional das equipas e articulam-se com o dispositivo tático adotado. Estas estruturas táticas de base não só definem funções posicionais, como traduzem a identidade de jogo das equipas e das próprias ligas (Memmert et al., 2021; Forcher et al., 2022). 

O contexto atual do futebol, marcado por um ritmo de jogo mais elevado, calendários congestionados e maior diversidade de adversários, tem incentivado a adaptação e a variação dos dispositivos táticos ao longo da época (Yi et al., 2020; Guedea-Delgado et al., 2019). Embora estruturas clássicas como o 4-3-3, 4-2-3-1 e 4-4-2 se mantenham predominantes (Figura 2), a sua utilização apresenta oscilações em função das dinâmicas competitivas de cada liga (Sarmento et al., 2014).

 

Figura 2. Exemplos de dispositivos táticos predominantes no futebol contemporâneo (fonte: www.whoscored.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Posto isto, compreender de que forma os dispositivos táticos se relacionam com o sucesso competitivo assume particular relevância. O presente estudo procurou (i) identificar os dispositivos táticos utilizados na época 2023/2024 nas principais ligas europeias, (ii) analisar a sua relação com a classificação das equipas e (iii) comparar padrões entre ligas. As evidências reunidas permitem extrair implicações práticas relevantes para treinadores e investigadores (Lago-Peñas et al., 2023).

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

Estudo descritivo retrospetivo que analisou os dispositivos táticos nas principais ligas europeias sob 3 perspetivas: (i) identificação dos dispositivos utilizados, (ii) relação entre dispositivos e classificação final das equipas e (iii) comparação entre ligas (Rein & Memmert, 2016).

 

·     Amostra

Foram analisados dados da época 2023/2024 em 6 ligas europeias (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França, Itália e Turquia), num total de 2132 jogos. Cada equipa foi considerada como unidade de análise, resultando em 4038 observações após inclusão de alterações táticas durante os jogos. Foram excluídas situações com inferioridade numérica prolongada (>45 min) e dispositivos utilizados por menos de 15 minutos. Os guarda-redes não foram considerados na análise. 

Para analisar a relação entre dispositivos táticos e sucesso competitivo, as equipas foram agrupadas em 4 níveis de desempenho, definidos com base na classificação final e nos critérios de qualificação para competições da UEFA (Bradley et al., 2013): (i) qualificação para a Liga dos Campeões, (ii) qualificação para Liga Europa/Conference League, (iii) meio da tabela e (iv) despromoção. Os intervalos de classificação variaram ligeiramente entre ligas, de acordo com a sua estrutura competitiva.

 

·     Recolha de dados

Os dados sobre dispositivos táticos foram obtidos a partir da OPTA Sportsdata e validados com a plataforma fbref.com. Foram identificados 18 dispositivos utilizados na época 2023/2024, depois agrupados em 8 categorias principais com base em semelhanças estruturais. Esta classificação contou com o contributo de treinadores certificados (UEFA A e B), reforçando a validade técnica da categorização. As classificações finais das ligas foram recolhidas nos websites oficiais das federações.

 

·     Análise estatística

A análise estatística foi realizada com recurso ao SPSS (versão 25) e Excel. A normalidade dos dados foi verificada através do teste de Kolmogorov–Smirnov. Para comparar médias de pontos por jogo entre ligas e dispositivos táticos, utilizou-se uma ANOVA. As diferenças na distribuição dos dispositivos entre as ligas foram analisadas com o teste do qui-quadrado. O nível de significância foi definido em p < 0.05.

 

Principais resultados

Apresentam-se, de seguida, os principais resultados do estudo, organizados em função da distribuição dos dispositivos táticos, das variações entre ligas e da sua relação com o sucesso competitivo.

 

·     Distribuição e eficácia dos dispositivos táticos

O 4-2-3-1 foi o dispositivo mais utilizado no conjunto das 6 ligas europeias, o que evidencia uma forte predominância no futebol atual. No entanto, o dispositivo 3-4-3 apresentou o melhor rendimento médio em termos de pontos por jogo, destacando-se como o mais eficaz entre as estruturas analisadas (Figura 3). Em contraste, dispositivos mais conservadores, como o 5-4-1, associaram-se a menor rendimento competitivo. Ainda assim, as diferenças globais entre dispositivos táticos revelaram-se relativamente reduzidas, o que sugere um impacto limitado da estrutura tática isolada no desempenho.

 

Figura 3. Frequência de utilização (MAÇ) e pontos médios por jogo (OP) dos dispositivos táticos nas principais ligas europeias (2023/2024). Cada gráfico corresponde a uma liga: Itália (Serie A), Turquia (Super League), Inglaterra (Premier League), Espanha (La Liga), Alemanha (Bundesliga) e França (Ligue 1) (adaptado de Tökul et al., 2026).

 

·     Diferenças entre ligas nas preferências de estruturas táticas de base

As preferências por dispositivos táticos variaram de forma clara entre ligas. O 4-2-3-1 destacou-se como o sistema mais utilizado em todas as competições, com especial incidência na liga turca. O 3-4-3 apresentou maior expressão na Bundesliga e na Serie A, enquanto o 4-4-2 foi mais frequente na La Liga. Também se observaram variações em dispositivos menos utilizados, como o 5-3-2, mais presente em Itália. Estas diferenças demonstram identidades estratégico-táticas distintas entre as ligas.

 

·     Relação entre dispositivos táticos e sucesso competitivo

A associação entre o dispositivo tático utilizado e o nível de sucesso das equipas revelou-se reduzida. Embora algumas tendências tenham sido identificadas – como a maior utilização do 3-4-3 em equipas despromovidas e menor presença em equipas qualificadas para competições europeias – não se verificou um padrão consistente. As diferenças de rendimento entre dispositivos táticos foram pouco expressivas, e a respetiva influência mostrou-se limitada quando considerada de forma isolada face a outros fatores contextuais que influenciam o desempenho competitivo.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam que a escolha do dispositivo tático, por si só, não determina o sucesso competitivo e deve ser enquadrada nas características dos jogadores, no contexto competitivo e nas exigências do modelo de jogo. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas para enquadramento técnico e estratégico: 

1. Adequar o dispositivo tático ao perfil e às exigências do plantel: estruturas como o 3-5-2 ou o 3-4-3 podem associar-se a bons indicadores de rendimento, mas exigem perfis específicos, em particular médios-ala capazes de responder às exigências ofensivas e defensivas. A sua implementação requer também elevados níveis de condição física, leitura de jogo e flexibilidade posicional. A eficácia destes dispositivos depende da qualidade e da adequação do plantel. 

2. Privilegiar dispositivos equilibrados e adaptáveis ao contexto competitivo: estruturas como o 4-2-3-1, 4-3-3 e 4-4-2 mantêm-se amplamente utilizadas devido ao seu equilíbrio entre organização defensiva e capacidade ofensiva. A sua utilização consistente sugere que a estabilidade estrutural e a versatilidade funcional constituem fatores relevantes na adaptação a diferentes contextos competitivos. 

3. Introduzir variabilidade estratégica no uso dos dispositivos táticos: a alternância entre diferentes estruturas táticas ao longo do jogo ou ao longo da época pode aumentar a imprevisibilidade da equipa e dificultar a adaptação do adversário. A capacidade de ajustar o dispositivo tático em função do contexto competitivo, do adversário ou da fase do jogo constitui um recurso estratégico relevante no futebol contemporâneo. 

4. Utilizar estruturas mais defensivas de forma contextual e estratégica: dispositivos com linhas defensivas mais densas, como o 5-3-2 e o 5-4-1, tendem a associar-se a menor rendimento ofensivo. A sua utilização deve responder a necessidades específicas do jogo, como controlo defensivo ou gestão de resultado, e não constituir uma opção estrutural dominante ao longo da época.

 

Conclusão

Os resultados indicam que os dispositivos táticos se associam ao sucesso competitivo, embora essa relação dependa do contexto competitivo, do perfil dos jogadores e das dinâmicas específicas de cada liga. Estruturas táticas equilibradas e adaptáveis, como o 4-2-3-1, mantiveram uma elevada utilização e um bom rendimento, o que evidencia a importância do equilíbrio entre organização defensiva e capacidade ofensiva no futebol contemporâneo. Por outro lado, estruturas mais ofensivas, como o 3-4-3, apresentaram indicadores de eficácia elevados, ainda que com menor consistência de utilização entre ligas. Por sua vez, estruturas mais defensivas apresentaram menor expressão e eficácia. A eficácia de um dispositivo tático resulta da sua adequação ao contexto e da qualidade da sua implementação, e não apenas das suas características estruturais.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation.