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30/05/2021

Artigo do mês #17 – maio 2021 | Análise dos “piores cenários possíveis” numa equipa de futebol de elite

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Novak, A. R., Impellizzeri, F. M., Trivedi, A., Coutts, A., & McCall, A.

País: Austrália

Data de publicação: 10-abril-2021

Título: Analysis of the worst-case scenarios in an elite football team: Towards a better understanding and application

Revista: Journal of Sports Sciences

Referência: Novak, A. R., Impellizzeri, F. M., Trivedi, A., Coutts, A., & McCall, A. (2021). Analysis of the worst-case scenarios in an elite football team: Towards a better understanding and application. Journal of Sports Sciences. https://doi.org/10.1080/02640414.2021.1902138

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 17 – maio de 2021.

 

Apresentação do problema

Ao avaliar as atividades realizadas por um jogador em contexto competitivo, no sentido de identificar determinantes físicas e fisiológicas da performance, é possível definir objetivos de treino na estruturação das sessões práticas (Impellizzeri et al., 2019). Porém, para entender as exigências fisiológicas impostas pela carga externa do treino, também é necessário dispor de medidas da carga interna. Em conjunto, ambas permitem monitorizar a ocorrência de respostas internas favoráveis (ou desfavoráveis). Mais recentemente, as medidas da carga externa de jogos competitivos têm sido utilizadas para melhorar a conceptualização de exercícios de treino específicos, como os jogos reduzidos/condicionados, visando replicar as atividades que são efetuadas em contexto de jogo (Delaney, Duthie et al., 2016; Furlan et al., 2015; Weaving et al., 2019). 

Apesar disso, ultimamente tem sido sugerido que as médias das atividades em jogo têm uma relevância limitada na preparação do jogador, pois a aplicação desses valores como referências no treino pode não determinar que os indivíduos sejam expostos aos períodos mais intensos que ocorrem, intermitentemente, no decurso de uma partida (Delaney et al., 2015). Essas atividades, doravante designadas como os “piores cenários possíveis” (worst-case scenarios), têm sido analisadas de diversas formas: períodos de esforços repetidos de alta intensidade, períodos mais longos com a bola em jogo, períodos curtos com durações fixas, ou utilizando uma técnica de análise da média do movimento ao longo de muitos períodos do jogo, recorrendo a diversas variáveis espaciotemporais (e.g., distância, velocidade média, corrida de alta intensidade, aceleração média, potência metabólica e colisões). 

Em todos os casos, o intento aparenta ser o mesmo: captar as atividades físicas mais intensas experienciadas durante um jogo competitivo, por forma a que um estímulo semelhante possa ser reproduzido pelos jogadores no treino, potenciando, consequentemente, respostas positivas (McCall et al., 2020). Os “piores cenários possíveis” podem ser influenciados por inúmeros fatores contextuais além daqueles que já foram estudados (i.e., posições de jogo ou entre partes do jogo), como o tempo de ocorrência dentro de uma parte do jogo, estatuto do jogador (titular vs. substituto), a quantidade de minutos que um jogador está em campo e a quantidade de trabalho efetuado pelo jogador no período precedente a um “pior cenário possível”. Estes fatores devem ser equacionados em conjunto, pois os autores acreditam que o conceito de “pior cenário possível” não só ainda não foi adequadamente definido, como não foi proposta qualquer estrutura teórica apropriada para testar a sua existência e utilidade (figura 2).

 

Figura 2. Os “piores cenários possíveis” e as atividades físicas mais exigentes experienciadas num jogo. Fará sentido? (fonte: statsport.com; imagem não publicada pelos autores).

 

O objetivo geral deste estudo foi investigar os “piores cenários possíveis” no futebol, definidos como janelas temporais em curso. Embora estudos anteriores tenham reportado diferenças entre posições dos jogadores e partes do jogo no râguebi (Delaney, Duttie et al, 2016; Weaving et al., 2019) e os profissionais utilizem o constructo para monitorizar variáveis de alta intensidade (corrida em alta velocidade e sprint), um primeiro propósito passou por quantificar a variabilidade dos “piores cenários possíveis” quando estas análises são implementadas. Para o efeito, foi levantada a hipótese que “os piores cenários possíveis” são altamente variáveis, influenciados por diversos fatores contextuais e de valor limitado para os técnicos na tarefa de conceptualizar estruturas de planeamento para o treino. Um segundo propósito passou por propor uma potencial estrutura teórica para melhor definir e investigar os “piores cenários possíveis”.

 

Métodos

Desenho do estudo e participantes: foi levado a cabo um estudo retrospetivo e transversal, utilizando dados de 26 jogadores profissionais de futebol (idade: 28 ± 4 anos; estatura: 182 ± 6 cm; massa corporal: 78.8 ± 6.2 kg). Estes jogadores competiram por uma equipa da Premier League, ao longo de 38 jornadas, na época 2018/2019. Os guarda-redes foram removidos da análise, bem como os jogadores que participaram em menos de 5 jogos, sendo incluídos 21 jogadores de 5 grupos posicionais na amostra: médios-centro (n = 7), defesas centrais (n = 5), médios ala/extremos (n = 2), defesas laterais (n = 4) e pontas de lança (n = 3). Todos os dados foram analisados de forma anónima. 

Recolha de dados, cálculos e procedimentos: as coordenadas posicionais dos jogadores foram obtidas em cada jogo, com uma frequência de 25 Hz, recorrendo ao sistema de rastreamento ótico TRACAB Gen4 (ChyronHego, New York, USA), que foi previamente validado (c.f. Linke et al., 2015). Para cada jogador, em cada jogo e para cada parte, o “pior cenário possível” (worst-case scenario: WCS) foi definido como o pico de distâncias total (WCSTD), em corrida de alta velocidade (≥ 5.5 m/s; WCSHSR) e em sprint (≥ 7.0 m/s; WCSSP), e calculado em janelas de 3 minutos. Foi realizada uma observação por cada jogador em cada parte dos jogos, resultando numa média de 33 ± 22 observações por jogador. Após identificado o “pior cenário possível”, os 3 minutos precedentes foram calculados e definidos como o pré-período. As variáveis contextuais analisadas foram o grupo posicional, estatuto do jogador (titular vs. substituto), parte do jogo (1.ª vs. 2.ª), atividade total não acoplada para cada parte (o “pior cenário possível” de cada parte foi subtraído da atividade total apurada nessa mesma parte do jogo), minutos desde o início de cada parte, minutos totais jogados em cada parte e atividade no pré-período. 

Análise estatística: todas as análises estatísticas foram realizadas no programa R. Os “piores cenários possíveis” foram analisados através de modelos de efeitos mistos (mixed effects models), um para cada variável dependente (WCSTD, WCSHSR e WCSSP), de acordo com a figura 3. As variáveis contínuas foram estandardizadas para facilitar as comparações entre variáveis com escalas diferentes. Todas as variáveis independentes foram incluídas nos três modelos. No caso da variável categórica “grupo posicional”, a categoria de referência foi “defesas centrais”, por ser o grupo com mais observações. Para cada variável independente foram calculados os coeficientes estimados e os intervalos de confiança a 95%. Os valores marginais e condicionais de R2 foram, também, calculados para avaliar a variância explicada pelos modelos, contendo ou não os efeitos aleatórios.

 

Figura 3. Desenho do modelo. Os efeitos fixos estão hipoteticamente associados ao “pior cenário possível” (Worst-Case Scenario: WCS). Os efeitos aleatórios indicam fontes de variância atribuídas às medidas repetidas recolhidas da amostra (Novak et al., 2021).

 

Principais resultados

 

·      “Pior cenário possível” para distância total (WCSTD)

O coeficiente de variação intraindividual para distância total foi de 6.2%. O efeito do grupo posicional foi forte, com os defesas centrais, laterais, pontas de lança e médios ala/extremos a apresentarem menores valores de WCSTD que os médios-centro. Valores mais elevados nesta métrica estiveram associados com ocorrências precoces na parte do jogo ou na partida, atividades não acopladas mais elevadas e para jogadores substitutos. A variância não explicada permaneceu elevada (R2 = 0.53; 53%).

 

·      “Pior cenário possível” para corrida de alta velocidade (WCSHSR)

O coeficiente de variação intraindividual para esta variável aumentou para 25.2%. O efeito do grupo posicional também atenuou, sendo que apenas os defesas centrais registaram menores valores de WCSHSR que os médios-centro. Valores mais elevados de atividades não acopladas na mesma parte do jogo estiveram associados a valores de WCSHSR mais elevados. Inversamente, uma menor quantidade de minutos jogados esteve relacionada com valores mais elevados de WCSHSR. A variância não explicada manteve-se igualmente elevada (R2 = 0.53; 53%).

 

·      “Pior cenário possível” em sprint (WCSSP)

O coeficiente de variação intraindividual para a atividade em sprint alcançou o valor de 46.1%. Não houve diferenças significativas entre os grupos posicionais. Os valores mais elevados de WCSSP estiveram associados a valores mais elevados de produto total não acoplado e com uma ocorrência tardia na parte do jogo analisada. A variância não explicada reduziu ligeiramente (R2 = 0.40; 40%). 

As evidências refletem que estas variáveis são instáveis e difíceis de utilizar na prática, conforme ilustra a figura 4.

 

Figura 4. Variabilidade no tempo de ocorrência/timing dos “piores cenários possíveis” num jogo de futebol de elite. Os “piores cenários possíveis”, medidos por diferentes variáveis, não são necessariamente concorrentes (apenas jogadores que começaram e completaram uma parte inteira do jogo foram incluídos no gráfico) (Novak et al., 2021).

 

Estrutura teórica para definir e investigar os “piores cenários possíveis”

A elevada variabilidade na manifestação dos “piores cenários possíveis”, que, inclusivamente, podem ocorrer em diferentes fases do jogo, sugere que as reais exigências destes episódios podem variar consoante as circunstâncias nos quais ocorrem. Portanto, a utilização de valores de referência para induzir adaptações fisiológicas relevantes e adequadas no treino é, no mínimo, questionável. Por outro lado, mesmo que os “piores cenários possíveis” constituíssem uma métrica estável/regular, somente iria refletir a carga externa de uma única variável locomotora, sendo necessárias diversas interpretações univariadas. O problema é que um “pior caso possível” (ou outra qualquer definição para pico de exigências locomotoras) é, provavelmente, um constructo muito mais complexo, requerendo, assim, análises multivariadas. 

Os autores propuseram que um “pior cenário possível” resulta da combinação de vários fatores de carga externa e variáveis contextuais, com a variabilidade intraindividual a poder ser observada através de medidas de resposta interna em condições multivariadas. A figura 5 exibe o construto multifatorial de “pior cenário possível”, explicando alguns motivos para a variabilidade associada. A resposta interna observável deve ser selecionada em função da especificidade da atividade e do contexto. Por exemplo, a frequência cardíaca e a perceção subjetiva de esforço podem representar apropriadamente as exigências de atividades coletivas no terreno.

 

Figura 5. Estrutura teórica para definir e investigar os “piores cenários possíveis” como um constructo composto, determinado por várias combinações de fatores contextuais e de carga externa, e observável mediante medidas da carga interna (Novak et al., 2021).

 

Aplicações práticas

Os treinadores ou outros técnicos devem-se abster de recorrer aos “piores cenários possíveis” ou exigências pico para investigar variáveis locomotoras univariadas. 

Treinar ou estimular os jogadores para corresponderem positivamente a “piores cenários possíveis”, com base em performances anteriores ou valores médios, pode não os preparar convenientemente para um “pior cenário possível” num jogo futuro. 

É fundamental entender que um verdadeiro “pior cenário possível” é um constructo complexo e composto que, na realidade, constitui uma resposta interna extrema induzida pela combinação de diversos fatores de performance e contextuais. 

A equipa técnica deve estar ciente que um “pior cenário possível” não ocorre simultaneamente para todas as métricas (e.g., distância total, distância em corrida em alta velocidade ou distância em sprint) ou jogadores, o que permite dotar as suas expectativas para aprimorar o desempenho físico e a respetiva conceptualização do treino de maior representatividade.

 

Conclusão

No cômputo geral, quando analisado como uma métrica univariada, “o pior cenário possível” apresenta uma fraca consistência, em particular, estando na base da análise variáveis locomotoras que são frequentemente utilizadas pelos treinadores em desportos de equipa profissionais. Os valores de referência para, por exemplo, delimitar atividades de alta intensidade no treino são questionáveis. Ponderar cada “pior cenário possível” como um construto composto, que resulta de várias combinações de atividades físicas e fatores contextuais, e que pode ser monitorizado por parâmetros apropriados de carga interna, parece ser mais sensato. Finalmente, o conceito de “pior cenário possível” não foi previamente bem definido e a sua aplicabilidade no treino para promover adaptações fisiológicas favoráveis requer mais investigação.

 

P.S.:

1-  As que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Sports Sciences.

27/11/2020

Considerações sobre o treino nos desportos coletivos, a partir do livro “A tomada de decisão no futsal” (Bruno Travassos)

Dentro das minhas possibilidades, procuro ser um leitor assíduo acerca do treino nos desportos coletivos. Apesar de a minha preferência recair no futebol, não me coíbo de saber mais sobre outras modalidades desportivas e sobre o processo de treino em geral. Leio diversos tipos de publicações, mas, regra geral, não encontro muitas peças em português que validem categoricamente as minhas ideias e convicções sobre a prática no terreno. O livro “A tomada de decisão no futsal” do professor e treinador de futsal Bruno Travassos, cuja primeira edição remonta a 2014, foi uma lufada de ar fresco (figura 1). 

 

Figura 1. Capa do livro “A tomada de decisão no futsal” de Bruno Travassos (3.ª edição, 2019, Prime Books).

 

Escrito com base na tese de doutoramento e na experiência prática do autor, esta obra oferece-nos uma perspetiva sólida e cientificamente suportada de como o processo de treino no futsal deve ser encarado, com especial enfoque para o desenvolvimento da tomada de decisão. Desengane-se quem pensa que o conteúdo não é transversal a outras modalidades desportivas. Bem pelo contrário.

 

“Learn the rules like a pro, so you can break them like an artist”

(Pablo Picasso in Travassos, 2019, p. 24)

 

Citando Pablo Picasso, o autor aproveita para destacar o quão importante é a aprendizagem de determinadas regras de ação ou fundamentos nos desportos coletivos para que, no futuro, se possa alcançar um desempenho superior. Este nível superior (ou de elite) implica que um jogador ou equipa seja capaz de se auto-organizar face a acontecimentos situacionais inesperados, de modo a ser efetivo na execução da solução encontrada, mesmo que esta transcenda a norma. Numa simples palavra, referimo-nos à criatividade: para podermos ser criativos, temos, em primeira instância, de dominar as regras de ação, os princípios. 

De facto, os comportamentos nos jogos desportivos ocorrem de forma variável (mas não aleatória!), não apenas em função dos contextos que os proporcionam, mas também das regras, princípios e estratégias proporcionados pelos treinadores (figura 2).


Figura 2. Fatores que regulam os comportamentos específicos dos jogadores e das equipas nos desportos coletivos (adaptado de Travassos, 2019).

 

De acordo com a figura 2, é possível discernir três fatores essenciais para o processo de treino e para o rendimento em competição:

 

1) Princípios gerais e específicos do jogo: regulam o equilíbrio/desequilíbrio espaciotemporal (vantagem espacial e/ou numérica) de uma equipa em relação ao posicionamento da equipa oponente;

2) Modelo de jogo: representa as opções preferenciais de organização estrutural e funcional de uma equipa em função das condições de jogo;

3)  Informações contextuais do jogo: informações espaciotemporais que caracterizam as relações entre jogadores da mesma equipa e entre jogadores de equipas adversárias.

 

Por um lado, estes fatores interrelacionam-se com o processo de preparação para um evento competitivo, na medida em que há uma influência recíproca entre o que é alinhavado e treinado, e as bases estruturais e funcionais da equipa, em conjunção com as condições de jogo que são, de alguma forma, expectáveis. Por outro lado, o resultado prático – ações tático-técnicas individuais e coletivas –, nunca surge desligado daquela que é a matriz de atuação e organização dos jogadores e da interação que estabelecem com o envolvimento. No decurso do jogo há uma série de ajustes estratégico-táticos que desponta desta interdependência. 

O processo de treino não deve, por isso, pressupor a padronização comportamental, mecanicista, mas antes promover competências individuais e coletivas para lidar com a variabilidade que o jogo providencia.

 

Em termos práticos, para otimizar o comportamento coletivo de uma equipa não basta reproduzir um padrão coletivo de forma exemplar em contexto fechado (i.e., sem oposição) e onde todos os jogadores conheçam as movimentações da equipa, na totalidade. Para que se verifique um bom transfer para o contexto de competição é fundamental que os jogadores percebam e construam diferentes formas de resolver problemas em contextos de grande exigência tendo por base princípios de ação para o jogo (…). Estes planos e estratégias deverão permitir a definição de princípios de funcionamento coletivo da equipa, dando liberdade para o surgimento de comportamentos individuais mais flexíveis e adaptativos.

(p. 30) 

É nesta linha de raciocínio que Travassos (2019) destaca a Abordagem Baseada nos Constrangimentos, assente na dinâmica ecológica, na qual o exercício de treino deve: (i) estimular a afinação percetiva dos jogadores às informações de suporte às ações do modelo de jogo; e, (ii) fomentar a capacidade dos jogadores em calibrar o uso de informação às suas capacidades de ação. De maneira a corresponder a este duplo intento de afinação percetiva e calibração percetiva-motora, os exercícios propostos deverão “assumir as mais variadas formas desde que sejam representativos dos contextos de jogo, isto é, mantenham a informação de suporte às ações do modelo de jogo” (p. 58). 

Os princípios metodológicos representatividade da tarefa e acoplamento perceção-ação devem estar implícitos nesta intervenção, para que comportamentos adaptativos semelhantes aos solicitados em situação de jogo possam emergir.

 

Assim, podemos concluir que enquanto o princípio da representatividade permite a afinação percetiva do jogador, é a manutenção do acoplamento informação-ação que permite o processo de calibração ao jogador.

(p. 61) 

No domínio da prática, para que o desenvolvimento da ação tática e da tomada de decisão do jogador sucedam harmoniosa e efetivamente, os objetivos da tarefa devem estar adaptados às capacidades dos jogadores e da equipa. A evolução nos fatores de rendimento supracitados deve ser acompanhada por acréscimos na dificuldade e na complexidade dos exercícios. De acordo com Travassos (2019), estes parâmetros podem ser calculados através das seguintes fórmulas:

 

(rácio entre o número de defensores e o número de possibilidades de ação do portador da bola, i. e., opções de passe, de remate e de condução/manutenção da posse de bola)

 

(quantidade de informação que os jogadores necessitam de atender no exercício em relação à situação de jogo formal)

 

Tomemos como exemplo dois exercícios para o treino de Futebol 11: 

1) Situação de jogo reduzido/condicionado 4v4+NT interior (34x65m; figura 3). Jogadores apenas podem atuar e finalizar no seu corredor, sendo que o neutro interior (joker) pode criar superioridade numérica em cada um dos corredores. Marcar golo nas balizas laterais ou controlar a bola nas zonas finais centrais vale um ponto.


Figura 3. Situação de jogo reduzido/condicionado 4v4+NT interior (34x65m).

 


2) Situação de jogo reduzido/condicionado Gr+6v6+Gr+6NT exteriores (40x40m; figura 4). Três equipas de 6 jogadores de campo em regime “bota-fora”. Duas equipas defrontam-se no espaço definido, tendo como suporte nas linhas laterais os elementos da equipa que se encontra de fora (neutros ou jokers exteriores). Equipa que sofre golo sai para atuar como “neutra”, permanecendo em campo a equipa vencedora. Jogadores neutros jogam a 1 toque por intervenção sobre a bola.


 

Figura 4. Situação de jogo reduzido/condicionado Gr+6v6+Gr+6NT exteriores (40x40m).

 

 

Reparem que duas situações de jogo distintas determinam relações opostas nos graus de dificuldade e complexidade. Na preparação de estruturas de planeamento (exercício, sessão, microciclo, etc.), o treinador deve ter presente que são dois conceitos distintos, ainda que complementares no que à didática da modalidade diz respeito. Neste sentido, Travassos definiu três etapas de aprendizagem/desenvolvimento da ação tático-técnica e da tomada de decisão, de acordo com critérios inerentes a (i) rigidez vs. fluidez dos comportamentos, (ii) capacidade de utilização da informação do contexto, (iii) capacidade de antecipação e adaptação a variações no contexto, e (iv) funcionalidade dos comportamentos. As etapas são as seguintes: 


Etapa 1Exploração de possibilidades de ação, que corresponde ao nível de principiante na modalidade;

Etapa 2Descoberta e estabilização de soluções, para um nível de prática intermédio;

Etapa 3Variabilidade nas possibilidades de ação, para indivíduos de nível avançado.


Entre outros aspetos que caracterizam cada nível evolutivo, o autor propôs uma integração dos parâmetros dificuldade e complexidade dos exercícios em cada uma das etapas, definindo valores de referência tanto para a aprendizagem e aperfeiçoamento de ações individuais, como para a aquisição e consolidação de comportamentos coletivos (tabela 1). 

 

Tabela 1. Valores de referência para a dificuldade e complexidade dos exercícios em cada uma das etapas de desenvolvimento da ação tática e da tomada de decisão (adaptado de Travassos, 2019). 


Segundo esta classificação é possível perceber, de forma mais criteriosa, se uma determinada tarefa de treino está ou não ajustada às capacidades dos jogadores e equipas com os quais trabalhamos, isto se partirmos do pressuposto de que enquadramos o indivíduo ou o grupo na etapa correta. Colocar miúdos com 6 ou 7 anos de idade a disputar jogos reduzidos 1v1 com balizas, por exemplo, pode não ser a tarefa mais indicada para principiantes na modalidade, uma vez que a situação acarreta um nível de dificuldade de 50%. Porém, se adicionarmos um neutro para formar equipa com o portador da bola (1v1+NT), aumentamos o número de possibilidades de ação, medida mais condizente com o nome da primeira etapa, e, concomitantemente, reduzimos o grau de dificuldade do exercício para 33,3%. 

Equacionar estes fatores com os demais relacionados com os objetivos, a estrutura ou os recursos espaciais e temporais, é uma atividade fulcral para qualquer treinador, em qualquer modalidade e em diferentes níveis de desempenho. A quantidade de informação que podemos retirar deste livro de futsal e transpor para outros contextos desportivos é enorme. Além disso, a fusão do conhecimento científico com o conhecimento que resulta da prática no terreno faz com que a obra seja um autêntico “must-read”. Aconselho! 

 

Referência

Travassos, B. (2019). A tomada de decisão no futsal (3.ª Edição). Prime Books.

10/06/2020

A tomada de decisão no futebol, segundo o professor Duarte Araújo

No passado dia 20 de maio de 2020 tive a oportunidade de rever (virtualmente) o professor Duarte Araújo, convidado para uma conversa online na página do Facebook da Sapienta Sports. De entre as inúmeras formações e conversas à distância que segui, foi, sem margem para dúvida, uma das mais proveitosas dos tempos de confinamento. A temática da conversa esteve associada à principal área de investigação do professor – a tomada de decisão –, com especial incidência na modalidade futebol.

Conforme foi cabalmente esclarecido, a expressão “tomada de decisão” remete-nos para um conceito estático, decorrente do paradigma cognitivista ou mecanicista, que concebe o movimento humano em três etapas sucessivas: 1) captação dos estímulos informacionais pelos sentidos, 2) processamento da informação e decisão da resposta e 3) execução da resposta pelos órgãos efetores (no caso, os músculos). Porém, a teoria do processamento informacional tem sido descartada na área do desporto em prol de uma perspetiva mais ecológica, que equaciona o contexto como um parceiro contínuo e indispensável na seleção das ações que realizamos ou não. Os acoplamentos perceção-ação ajudam a entender o cariz imediato do comportamento humano em contextos de elevada variabilidade e imprevisibilidade, nos quais emergem inúmeras oportunidades de ação, as designadas affordances. Cada affordance é, por isso, circunstancial e reúne condições espaciotemporais muito particulares, que resultam das forças (equipas) em confronto.

Neste sentido, se o objetivo do treino é afinar ou calibrar a perceção de oportunidades de ação acoplada à execução de ações motoras apropriadas, tendo em consideração as capacidades individuais do jogador, não será algo paradoxal continuarmos a falar em “tomada de decisão”? De acordo com o professor Duarte, temos falta de vocabulário na Língua Portuguesa. Os britânicos usam o termo agency, uma espécie de inteligência, ou influência, que dirige a busca por determinadas affordances. A expressão “tomada de decisão”, ainda que mecanicista e estática, não deixa de fazer algum nexo, pois se há affordances sobre as quais o jogador atua, há outras que declina. Estas affordances são meras solicitações, circunstanciais como já referimos, que o indivíduo pode aceder ou não. O propósito do treino é desenvolver a modulação de affordances e dos ciclos contínuos de perceção-ação.

Depois temos de considerar a intenção, um aspeto fulcral em tudo aquilo que fazemos. A intencionalidade no futebol, ou em qualquer outro jogo desportivo, direciona os acoplamentos perceção-ação num determinado sentido. A intenção, per se, não determina o comportamento, porque deve ser convergente com o objetivo da tarefa. Por exemplo, ultrapassar um adversário numa situação um contra um (1v1) não é um fim em si mesmo; o portador da bola dribla o defensor para se aproximar da baliza, criar uma situação de finalização e, eventualmente, marcar golo. Neste contexto é fundamental reportarmo-nos à Abordagem Baseada nos Constrangimentos, inicialmente proposta por Karl Newell (1986), entretanto já aprimorada por outros autores, incluindo o professor Duarte Araújo (Figura 1).

Figura 1. O papel do acoplamento informação-movimento como base para o desempenho competente e para a aquisição de perícia no desporto (Chow, Shuttleworth, Davids, & Araújo, 2019).

As ações específicas do jogo resultam da interação permanente entre três tipos de constrangimentos: do indivíduo (características do jogador), da tarefa (i.e., exercício analítico, forma jogada ou jogo) e do ambiente (envolvimento). Desta interação gera-se um continuum de fontes de informação e comportamentos associados que desencadeiam os ciclos de affordances. À medida que o jogador se torna mais proficiente, desenvolve um acoplamento mais forte e estreito entre a informação existente num dado contexto e as ações que é capaz de executar. Quando treinadores questionam tão frequentemente a relevância destas estruturas teóricas para a prática, não posso deixar de me insurgir. Construtos teóricos de qualidade estarão sempre na base de uma prática lógica, válida e direcionada para o êxito. Permitam-me uma pergunta estapafúrdia: em contexto de ensino do futebol, será razoável colocar crianças Sub-7 a praticar 11v11? A maioria dirá logo que não. É evidente, uma vez que as fontes de informação determinadas pela complexidade da tarefa não estão adequadas às características dos praticantes no envolvimento em causa. O caos ocasionado pela tarefa não será devidamente resolvido pelos miúdos, ou seja, não serão bem-sucedidos. Conciliar estruturas teóricas de qualidade com estratégias e metodologias efetivas na prática aproxima-nos da concretização dos objetivos estabelecidos, sejam eles de caráter vincadamente pedagógico ou estritamente competitivo.

Achei especialmente feliz o exemplo que o professor concedeu a propósito do ex-treinador de basquetebol (e também professor) Jorge Araújo, que afirmava que não podia preparar a sua equipa para as competições europeias de igual forma ao que fazia para as competições nacionais. Tinha de promover o aumento do ritmo de jogo, proporcionando maiores restrições espaciotemporais e, com esse intento em mente, colocava a equipa a treinar situações de jogo 5v7 ou 5v8. Por inerência, entramos no conceito de “representatividade da tarefa”, que não tem apenas que ver com as características genéricas do exercício ou com o imitar o jogo em termos de componentes estruturais (tempo, espaço, número, regras, etc.). Na prática, o que importa é que os treinadores sejam capazes de refinar as funções dos jogadores, mantendo fontes de informações que estes podem usar em competição e com o seu próprio modo de ação.

Finalmente, as relações interpessoais subjacentes à configuração de uma equipa devem alicerçar-se em três pilares fundamentais que, além de coexistirem, sustentam todo o processo de performance no futebol, em particular, e nos jogos desportivos coletivos, em geral: estrutura, função e dinâmica (figura 2).

Figura 2. Componentes fundamentais para o desempenho da equipa.

Em suma, foram 60 minutos com muito "sumo" gratuito, contudo, como tudo nesta vida, cada um bebe o que quiser.


Referências

Chow, J. Y., Shuttleworth, R., Davids, K., & Araújo, D. (2019). Ecological dynamics and transfer from practice to performance in sports. In N. J. Hodges & A. M. Williams (Eds.), Skill acquisition in sport: Research, theory and practice (3rd Edition). Abingdon, Oxon: Routledge, Taylor & Francis Group.

Newell K. M. (1986). Constraints on the development of coordination. In M. G. Wade & H. T. A. Whiting (Eds.), Motor development in children: Aspects of coordination and control (pp. 341–360). Dordrecht: Martinus Nijhoff.

28/05/2020

Artigo do mês #5 – maio 2020 | Períodos sensíveis para treinar capacidades motoras gerais: Uma apreciação crítica

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Van Hooren, B., & De Ste Croix, M.
País: Holanda
Título: Sensitive periods to train general motor abilities in children and adolescents: do they exist? A critical appraisal
Revista: Strength and Conditioning Journal
Referência:
Van Hooren, B., & De Ste Croix, M. (2020). Sensitive periods to train general motor abilities in children and adolescents: do they exist? A critical appraisal. Strength and Conditioning Journal. doi: 10.1519/SSC.0000000000000545 (link)


Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 5 - maio 2020.


Apresentação do problema
As crianças e os adolescentes experienciam inúmeras alterações morfológicas e orgânicas, como consequência de processos de crescimento e maturação, até alcançarem a idade adulta. Os tempos e os ritmos de ocorrência destes processos são, porém, individualizados. Alguns modelos de desenvolvimento de atletas a longo prazo (ver post antigo aqui) têm proposto que, durante a infância e a adolescência, há períodos sensíveis ou “janelas de oportunidades” que são ótimos para treinar e melhorar capacidades motoras gerais, como são, por exemplo, a força ou a velocidade (figura 2).


Figura 2. Períodos sensíveis para treinar capacidades motoras gerais em rapazes (esquerda) e raparigas (direita), de acordo com o modelo LTAD. As caixas com linhas sólidas representam períodos dependentes da idade cronológica, enquanto as caixas com linhas tracejadas representam períodos associados à maturação. As curvas de crescimentos são baseadas em crianças e adolescentes holandeses (fonte: Van Hooren & De Ste Croix, 2020).

Por exemplo, entre os 7 e os 9 anos e entre os 13 e os 16 anos são considerados períodos sensíveis para estimular a velocidade em rapazes, enquanto o treino da capacidade aeróbia é particularmente indicado antes do Pico de Velocidade em Altura (i.e., fase na qual se verifica um ganho máximo em estatura). Acresce a assunção de que treinar capacidades motoras fora destes períodos sensíveis resulta em menores magnitudes de adaptação e, por isso, o efeito na performance é mais reduzido.

No primeiro modelo de desenvolvimento do atleta a longo prazo, proposto em 2005, não foram fornecidas evidências científicas que suportassem a existência de períodos sensíveis. Nos modelos subsequentes, já atualizados, as evidências apresentadas basearam-se, primariamente, na ideia de que o crescimento acelerado e o desenvolvimento maturacional de um dado atributo físico ou capacidade motora geral também conduziriam a uma maior sensibilidade ao processo de treino. Revisões prévias acerca dos períodos sensíveis e da treinabilidade têm sugerido que, no presente, há evidências insuficientes que sustentem a crença que um indivíduo nunca alcançará a sua capacidade atlética máxima geneticamente predeterminada, ou um nível específico de proficiência, durante a idade adulta, se uma capacidade motora geral não for especificamente treinada num hipotético período sensível (Bailey, et al., 2010; Ford et al., 2012; Ford et al., 2011).

Além disso, os períodos sensíveis projetados no modelo LTAD (Long-term Athlete Development) resultaram de estudos transversais (cross-sectional) e de intervenções experimentais de baixa qualidade. Em consequência da adoção abrangente dos períodos sensíveis genéricos e da falta de evidência robusta a favor ou contra esta conceção em revisões anteriores, é necessária uma reavaliação dos ditos períodos sensíveis. Assim, este artigo de revisão teve como propósito produzir uma avaliação crítica do racional e das evidências por detrás dos períodos sensíveis genéricos, recorrendo a estudos recentemente publicados.

Método
Foi utilizada uma síntese narrativa em vez de revisão sistemática, pois poucos estudos têm investigado os efeitos de uma intervenção de treino em grupos de idades (biológicas) diferentes, recorrendo a um grupo de controlo passível de separar os efeitos do treino e da maturação. Portanto, uma revisão sistemática neste tópico seria prematura. De qualquer modo, o processo de pesquisa foi o mais sistemático possível, através de motores de busca da internet, como o Google Scholar e o PubMed, utilizando combinações de palavras-chave para identificar a literatura relevante.

Avaliação crítica dos períodos sensíveis genéricos
Capacidades motoras gerais
Os modelos LTAD frequentemente simplificam/dividem os aspetos físicos do desporto em 5 capacidades motoras gerais: flexibilidade, velocidade, coordenação, resistência e força. Embora esta abordagem reducionista possa ser útil para simplificar a gestão dos cinco construtos físicos supramencionados, implica (incorretamente) que haja capacidades motoras distintas que são treinadas de forma independente, cada qual com os seus períodos sensíveis. Tal simplificação conduz à ideia, por exemplo, de que a velocidade máxima de corrida possa ser melhorada independentemente da coordenação ou da força. Também pressupõe que a maturação de subsistemas envolvidos na coordenação difira (largamente) da maturação dos subsistemas associados à velocidade ou à força, resultando na separação de períodos sensíveis para estas capacidades motoras.

Contudo, evidências científicas recentes (e.g., Buckner et al., 2019; Ellison, Kearney, Sparks, Murphy, & Marchant, 2018; Yeung et al., 2018) têm colocado em causa a conceção de capacidades motoras gerais, uma vez que cada habilidade motora é determinada por uma integração complexa de capacidades que são parcialmente específicas da tarefa. Segundo esta linha de raciocínio, pode-se questionar se os períodos sensíveis para as capacidades motoras gerais existem, de facto, ou se devem ser específicos para cada tarefa motora, ou, pelo menos, para grupos de ações motoras com características muito similares (Figura 3).

Figura 3. Abordagem reducionista com as variáveis latentes (em cima) e abordagem holística baseada na análise de rede (em baixo) para períodos sensíveis (fonte: Van Hooren & De Ste Croix, 2020).

Métodos de treino para melhorar as capacidades motoras gerais
O segundo problema prende-se com a falta de informação sobre os métodos de treino que devem ser utilizados durante os períodos sensíveis propostos. Nos artigos que suportam a utilização de modelos LTAD não é claro se, por exemplo, a velocidade (sprint) deve ser estimulada, durante os períodos sensíveis, mediante treino específico de sprint, treino pliométrico ou de força. Um estudo de Moran e colaboradores (2018) demonstrou que o treino de sprint em jovens praticantes de futebol, proposto na fase pré Pico de Velocidade em Altura (PVA), foi ligeiramente mais efetivo para melhorar a velocidade máxima de corrida e a capacidade de mudança de direção, que durante o PVA (i.e., fase coincidente ao primeiro e ao segundo períodos sensíveis para trabalhar a velocidade no modelo LTAD). Adicionalmente, Armstrong e Baker (2011) verificaram, numa revisão que somente incluiu estudos que aplicaram estímulos de treino que resultaram em incrementos no VO2máx., resultados aproximadamente iguais em crianças com menos de 11 anos e outras com mais de 11 anos (7,7 vs. 8,6%, respetivamente). Estes e outros estudos sugerem que certas ações motoras ou capacidades motoras derivadas são apenas extrassensíveis a determinados métodos de treinos e não a todos os que potencialmente possam ser empregues para trabalhar a ação motora ou a capacidade motora genérica visada.

Características do método de treino durante os períodos sensíveis
Os modelos de desenvolvimento do atleta fornecem poucas linhas orientadoras sobre as características dos métodos de treino, embora este seja um fator que também influencia a eficácia do treino (Lesinski, Prieske, & Granacher, 2016; Otero-Esquina, de Hoyo Lora,
Gonzalo-Skok, Dominguez-Cobo, & Sanchez, 2017). Não é claro se, por exemplo, uma sessão de treino extra por semana é suficiente nos ditos períodos sensíveis, ou se o treino específico deve ser incluído durante ou após o aquecimento em todas as sessões de treino.

Uma meta-análise com jovens atletas femininas evidenciou que variáveis do programa de treino, como o número de sessões semanais e a duração da sessão, afetaram a eficácia do treino pliométrico na altura do salto (Moran, Clark, Ramirez-Campillo, Davies, & Drury, 2018). Uma outra investigação de Rodriguez-Rosell, Franco-Marquez, Mora-Custodio e Gonzalez-Badillo (2017) demonstrou que o treino combinado de pliometria e força foi mais efetivo em jovens praticantes de futebol Sub-13 (≈ pré PVA), do género masculino, perdendo eficácia com o incremento da idade cronológica (figura 4). Como último exemplo, uma combinação de treino de jogos reduzidos/condicionados e HIIT (high-intensity interval training) mostrou ser mais efetivo para melhorar parâmetros da performance física, como o VO2pico, em praticantes de desportos de equipa com 13 anos, comparativamente à utilização exclusiva de jogos reduzidos (Harrison, Kinugasa, Gill, & Kilding, 2015).

Figura 4. Treino de pliometria com jovens praticantes de futebol (fonte: chriswinstone.wordpress.com).
(imagem não publicada pelos autores)

Os resultados dos estudos aqui sumarizados sugerem que as características dos métodos e dos exercícios propostos (e.g., tipo de estímulo, carga de treino, duração, repetições, séries, tempos de recuperação, etc.) são de enorme importância para induzir adaptações ao treino, melhorar a performance desportiva e gerir a maior suscetibilidade de lesões agudas e crónicas, no decurso dos hipotéticos períodos sensíveis.

O efeito da experiência anterior de treino e as diferenças individuais
Os modelos propostos também não clarificam se os períodos sensíveis e os respetivos conteúdos diferem entre indivíduos, com níveis de experiência e background de treino distintos. Atletas com menos experiência em programas de treino estruturados e com menos proficiência técnica tendem, na generalidade, a realizar exercícios menos avançados que outros desportistas mais novos, mas tecnicamente mais competentes e com mais experiência de treino (Lloyd et al., 2016). Assim, por exemplo, um atleta de 17 anos sem experiência de treino de força realizará, numa fase inicial, treino com cargas baixas antes de passar para o trabalho com cargas mais elevadas, o que potencialmente não lhe permitiria capitalizar (otimamente) o treino no período sensível para a força.

Os jovens atletas podem ser mais ou menos responsivos a um método de treino específico, dependendo também da sua predisposição genética. Esta predisposição genética, em conjunto com a experiência de treino prévia, limitam de sobremaneira a generalização dos períodos sensíveis para as diferentes capacidades motoras.


Consequências do treino não específico durante o período sensível
As consequências de se aplicar treino não específico de uma dada capacidade motora durante os períodos sensíveis parece ser ignorado pelos modelos já referidos. No entanto, é relevante questionar até que ponto é possível treinar capacidades motoras genéricas, em jovens que participam regularmente no desporto, através de métodos não específicos. No futebol tem sido reportado que a prática de jogos reduzidos (figura 5) produz melhorias em parâmetros da resistência (VO2máx), da velocidade (sprint de 20 metros) e da potência muscular (salto vertical) (Engel, Ackermann, Chtourou, & Sperlich, 2018; Hammami, Gabbett, Slimani, & Bouhlel, 2017; Ramizer-Campillo et al., 2018). De modo análogo, tem sido demonstrado que o treino de força promove incrementos em medidas da resistência, como a economia de corrida (Barnes & Kilding, 2014), da velocidade (Sander, Keiner, Wirth, & Schmidtbleicher, 2013) e no desempenho de mudanças de direção (Keiner, Sander, Wirth, & Schmidtbleicher, 2014).

Figura 5. Jogos reduzidos como atividades não específicas para o treino de capacidades motoras gerais. (imagem não publicada pelos autores)

Aplicações práticas
No cômputo geral, as evidências indicam que cada habilidade motora e capacidade motora derivada podem ser treinadas através de variados métodos, sendo que cada método é potencialmente mais eficaz em diferentes estádios de desenvolvimento. A efetividade do método depende das características do treino (e competição) e difere entre indivíduos de idade biológica similar, mas que apresentam experiências prévias e predisposições genéticas muito particulares. Por si só, estes factos colocam em causa a validade dos períodos sensíveis genéricos postulados em modelos de desenvolvimento a longo prazo.

Assim, os treinadores não se devem basear nestes períodos sensíveis genéricos, mas sim trabalhar todos os atributos físicos do atleta, segundo critérios lógicos e equilibrados, ao longo das fases de desenvolvimento. Tal não implica que alguns métodos de treino não possam ser priorizados ou mitigados em certos períodos (e.g., dar primazia ao treino de coordenação motora durante o PVA, precisamente quando esta capacidade se encontra comprometida e o risco de lesão aumentado).

Conclusão
Este foi o primeiro estudo que produziu uma avaliação crítica do racional por detrás dos períodos sensíveis genéricos, amplamente adotados no treino de jovens atletas. Os problemas teóricos ora identificados fornecem evidências mais fortes do que as críticas anteriormente realizadas, ao ponto de questionar a validade deste constructo. Os profissionais do treino desportivo não devem, por isso, sustentar as suas práticas com crianças/jovens pressupondo a existência de períodos sensíveis genéricos.


P.S.:
1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;
2-  Para melhor compreender as ideias referidas neste texto, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada no Strength and Conditioning Journal.