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30/09/2026

Artigo do mês #81 – setembro 2026 | Tendências temporais do efeito da idade relativa nas 5 principais ligas europeias de futebol masculino, 2000–2025

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Torrent, J. & Rossier, L.

País: Suíça

Data de publicação: 2-setembro-2026

Título: Temporal trends in the relative age effect in five major European men’s football leagues, 2000–2025

Referência: Torrent, J. & Rossier, L. (2026). Temporal trends in the relative age effect in five major European men’s football leagues, 2000–2025. Science and Medicine in Football, 1–17. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24733938.2026.2728065

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 81 – setembro de 2026.

 

Apresentação do problema

 

·     O efeito da idade relativa: conceito e mecanismos explicativos

O efeito da idade relativa (EIR) traduz a sobrerrepresentação, num mesmo escalão etário, de jogadores nascidos nos primeiros meses do período anual de seleção, fenómeno particularmente evidente no futebol (Musch & Grondin, 2001; Cobley et al., 2009). Entre os 10 e os 16 anos, uma diferença cronológica que pode atingir 12 meses associa-se a vantagens ao nível do crescimento, das capacidades físicas e da maturidade psicossocial, por vezes interpretadas como maior talento. Esta vantagem inicial pode reforçar-se através da seleção e permanência em contextos estruturados de treino e de maior atenção dos treinadores, enquanto os jogadores relativamente mais jovens apresentam maior risco de abandono (Cobley et al., 2009; Delorme et al., 2010). Contudo, o EIR resulta da interação entre idade biológica e pressões contextuais de seleção e não constitui uma característica universal do desporto de elite, pelo que deve ser interpretado à luz da estrutura institucional e formativa específica do futebol masculino europeu (Wattie et al., 2015).

 

·     O EIR no futebol profissional de elite: persistência sem atenuação

Embora fosse expectável que o EIR diminuísse no futebol profissional, uma vez ultrapassadas as diferenças maturacionais próprias da formação, a evidência mostra que este permanece entre jogadores de elite (Smith et al., 2018; Dixon et al., 2020). Uma possível explicação reside na filtragem cumulativa ao longo do percurso formativo: os jogadores que chegam ao nível profissional representam os sobreviventes de sucessivos processos de seleção, nos quais a idade relativa pode ter condicionado as oportunidades de progressão (figura 2). Assim, o EIR observado na idade adulta pode traduzir a marca residual dessas etapas de seleção, mais do que diferenças maturacionais atuais (Morgans et al., 2024). Também foram identificadas diferenças segundo a posição de jogo: Salinero et al. (2013) observaram assimetrias na distribuição dos quartis de nascimento entre posições nas 5 principais ligas europeias, enquanto Yagüe et al. (2018) reportaram um EIR comparativamente mais pronunciado entre os médios das ligas europeias mais bem classificadas.

 

Figura 2. Representação ilustrativa da filtragem cumulativa associada ao efeito da idade relativa ao longo do percurso formativo no futebol (imagem não publicada pelos autores).

 

·     A questão temporal: a maior consciencialização produziu mudanças?

Apesar da crescente atenção científica e prática dedicada ao EIR, permanece por esclarecer se esta maior consciencialização resultou numa redução do fenómeno no futebol profissional. Helsen et al. (2012), ao compararem 10 ligas europeias entre 2000/2001 e 2010/2011, não identificaram alterações sistemáticas, com o EIR a manter uma magnitude semelhante ao longo da década. Desde então, o futebol europeu conheceu mudanças relevantes nos processos de formação, entre as quais a criação da UEFA Youth League, a expansão dos sistemas de licenciamento das academias e uma maior divulgação de estratégias como o bio-banding (Cumming et al., 2017). Contudo, permanece por determinar se estas mudanças alteraram a distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento nas principais ligas europeias após 2010/2011.

 

·     O presente estudo

O estudo analisou a evolução do EIR nas 5 principais ligas europeias de futebol masculino ao longo de 25 épocas, entre 2000/2001 e 2024/2025. A amostra incluiu 60 078 registos jogador-época, correspondentes a 14 173 jogadores, e permitiu examinar a magnitude e a evolução temporal do EIR, bem como possíveis diferenças entre ligas, posições e níveis de participação. Os autores procuraram ainda verificar a robustez dos resultados através de diferentes critérios e unidades de análise. Com base na evidência anterior, formularam duas hipóteses: (1) os jogadores nascidos no primeiro trimestre do ano estariam sobrerrepresentados e os do quarto trimestre sub-representados; e (2) o EIR permaneceria observável após 2010/2011, sem evoluir para uma distribuição uniforme dos nascimentos. A forma exata da evolução temporal foi mantida como questão de investigação, sem uma hipótese direcional específica.

 

Métodos

 

·     Fonte de dados e amostra

Os dados foram obtidos através da FBref (www.fbref.com), a partir dos registos públicos de participação em jogos das 5 principais ligas europeias: Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1. Foram analisadas todas as épocas completas entre 2000/2001 e 2024/2025. Em cada época, incluíram-se os jogadores que acumularam pelo menos 90 minutos de utilização na respetiva liga, assegurando uma participação documentada na equipa principal, sem pressupor uma utilização regular. A principal unidade de análise foi o registo jogador-época, pelo que um mesmo jogador poderia contribuir com várias épocas. Numa análise complementar por jogador único, considerou-se apenas a primeira época elegível. Após a limpeza dos dados, a amostra final compreendeu 60 078 registos jogador-época, correspondentes a 14 173 jogadores.

 

·     Extração, tratamento e controlo da qualidade dos dados

Para cada registo jogador-época, foram extraídas informações relativas ao jogador, clube, liga, nacionalidade, época, data e ano de nascimento, posição de jogo, jogos disputados, titularidades e minutos de utilização. Os endereços individuais da FBref permitiram identificar os jogadores ao longo das diferentes épocas. Após a integração dos dados numa única base longitudinal, foram eliminados registos duplicados e uniformizadas as principais variáveis. A partir da data de nascimento determinaram-se o mês e o trimestre de nascimento. As posições de jogo foram agrupadas em 4 categorias: guarda-redes, defesas, médios e avançados. Quando um jogador apresentava mais do que uma posição, considerou-se a primeira como posição principal. Os registos sem posição definida foram excluídos apenas das análises por posição.

 

·     Obtenção e validação das datas de nascimento

As datas de nascimento foram obtidas e validadas através de um procedimento faseado, com recurso a fontes públicas. Numa primeira etapa, os dados em falta foram pesquisados na Wikidata, através dos identificadores individuais da FBref. Nos casos não resolvidos, efetuou-se posteriormente uma pesquisa na Wikidata e na Wikipedia pelo nome do jogador, com verificação do ano de nascimento, profissão e, quando disponível, nacionalidade. A data de nascimento apenas foi aceite quando correspondia a um único resultado compatível, para reduzir o risco de erros na classificação do mês e trimestre de nascimento. A análise final incluiu apenas registos com datas de nascimento válidas e trimestre identificável. Importa salientar que este processo recorreu a bases de dados públicas e não a registos oficiais das federações.

 

·     Classificação da idade relativa

Os jogadores foram distribuídos por trimestres de nascimento, com base na data de corte anual de 1 de janeiro, habitualmente utilizada nos contextos UEFA: Q1 = janeiro–março, Q2 = abril–junho, Q3 = julho–setembro e Q4 = outubro–dezembro. Como alguns jogadores podem ter realizado a formação em países com diferentes datas de corte, foi efetuada uma análise exploratória com base na nacionalidade. Os jogadores associados a contextos com corte a 1 de janeiro (44 091 registos jogador-época) e os restantes (15 987) apresentaram distribuições muito semelhantes (Q1: 30,3% vs. 30,6%; Q4: 20,1% vs. 20,2%). O padrão global não parece, portanto, resultar da inclusão de jogadores provenientes de contextos com outras datas de corte. Contudo, a nacionalidade não permite determinar o percurso formativo nem a data de corte efetivamente aplicada a cada jogador.

 

·     Dimensão da amostra e abordagem analítica

O estudo incluiu todos os registos jogador-época disponíveis que cumpriam os critérios de inclusão, pelo que não foi realizado um cálculo prévio de potência estatística. Face à elevada dimensão amostral, a significância estatística foi interpretada em conjunto com a magnitude dos efeitos, os intervalos de confiança e as análises de sensibilidade, para avaliar também a relevância prática dos resultados.

 

·     Estratégias de análise

As análises examinaram a distribuição dos jogadores por trimestre e mês de nascimento, globalmente e por época, liga e posição. As frequências observadas foram comparadas com distribuições uniformes esperadas (25% por trimestre e 8,33% por mês), através de testes do qui-quadrado, e a magnitude do EIR foi quantificada pelo V de Cramer. Os valores de p foram ajustados para comparações múltiplas pelo método de Benjamini-Hochberg (Benjamini & Hochberg, 1995). 

A evolução temporal do EIR ao longo das 25 épocas foi analisada através de modelos de regressão, com análises de sensibilidade destinadas a testar a robustez dos resultados. Foram ainda examinadas diferenças entre ligas e posições, diferentes limiares de minutos de utilização e o efeito das observações repetidas dos mesmos jogadores. Uma análise exploratória comparou os resultados com dados de natalidade dos 5 países disponibilizados pelo Eurostat. Todas as análises foram realizadas em Python.

 

Principais resultados

Os resultados confirmaram a presença do EIR nas cinco principais ligas europeias, com diferenças ao longo do tempo, entre ligas e posições de jogo, conforme detalhado nas subsecções seguintes.

 

·     Distribuição por trimestre e mês de nascimento

No conjunto dos 60 078 registos jogador-época, os jogadores nascidos no primeiro trimestre (Q1) representaram 30,4% da amostra, enquanto os nascidos no último trimestre (Q4) corresponderam a apenas 20,1%, uma diferença estatisticamente significativa, embora de pequena magnitude. Assim, os jogadores do Q1 estiveram representados cerca de 1,5 vezes mais do que os do Q4. A análise dos 14 173 jogadores únicos apresentou praticamente o mesmo padrão (30,6% vs. 20,5%), o que reforçou a robustez do resultado. A distribuição mensal confirmou esta tendência: janeiro foi o mês mais representado (11,0%) e dezembro o menos representado (6,4%) (Figura 3).

 

Figura 3. Distribuição dos registos jogador-época por trimestre de nascimento nas cinco principais ligas europeias (Torrent & Rossier, 2026).

 

·     Evolução do EIR ao longo das 25 épocas

O EIR aumentou sobretudo durante a primeira parte do período analisado e estabilizou posteriormente. Até 2010 verificou-se uma tendência crescente estatisticamente significativa, enquanto após 2010 não se observou uma alteração significativa. Em termos descritivos, a representação do Q1 passou de 26,4% em 2000/2001 para valores superiores a 30% em várias épocas posteriores, enquanto o Q4 desceu de aproximadamente 24–25% para cerca de 18–20%. Nas épocas mais recentes, a diferença entre os 2 grupos voltou a estreitar-se, o que reforçou a ideia de estabilização, em vez de um aumento contínuo do EIR (Figura 4).

 

Figura 4. Evolução da magnitude do efeito da idade relativa nas cinco principais ligas europeias entre 2000/2001 e 2024/2025 (Torrent & Rossier, 2026).

 

·     Diferenças entre ligas

O EIR foi identificado nas 5 ligas analisadas, ainda que com magnitudes distintas. A Serie A e a La Liga apresentaram os efeitos mais pronunciados, seguidas da Ligue 1 e da Bundesliga, enquanto a Premier League apresentou o efeito de menor magnitude. A evolução temporal também diferiu entre competições: La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1 apresentaram tendências crescentes significativas, ao contrário da Premier League, onde não se verificou uma tendência temporal significativa.

 

·     Diferenças segundo a posição de jogo

O EIR foi estatisticamente significativo nas 4 posições de jogo, mas a sua magnitude variou. O efeito foi mais pronunciado entre os médios, nos quais 32,3% dos registos pertenciam ao Q1 e 19,1% ao Q4, seguidos dos guarda-redes. Defesas e avançados apresentaram efeitos de menor magnitude, embora a sobrerrepresentação dos jogadores nascidos no início do ano também estivesse presente (Figura 5).

 

Figura 5. Distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento segundo a posição de jogo (Torrent & Rossier, 2026).

 

Aplicações práticas

Embora o estudo analise jogadores profissionais e não permita identificar diretamente os mecanismos que originam o EIR, os resultados sugerem implicações relevantes para os processos de identificação, seleção e desenvolvimento de jovens jogadores. Destacam-se 4 aplicações práticas. 

1. Considere a idade relativa nos processos de identificação e seleção: a persistência do EIR no futebol profissional sugere que as assimetrias associadas ao trimestre de nascimento podem acompanhar os jogadores muito para além das etapas de formação. Nos escalões jovens, treinadores e responsáveis pelo recrutamento devem conhecer a idade relativa de cada jogador e evitar interpretar vantagens temporárias de crescimento, maturação ou desempenho como indicadores inequívocos de maior potencial. A data de nascimento não deve determinar a decisão, mas deve fazer parte do contexto em que essa decisão é tomada. 

2. Monitorize o EIR ao longo do percurso formativo, em vez de assumir que o fenómeno se atenua naturalmente: os resultados mostraram um aumento inicial seguido de estabilização, sem evidência de desaparecimento do EIR nas épocas mais recentes. Os clubes, as academias e as escolas de futebol podem acompanhar periodicamente a distribuição dos jogadores por trimestre de nascimento ao longo das diferentes etapas de formação e nos processos de entrada, permanência e saída do sistema. Esta monitorização pode ajudar a identificar desequilíbrios persistentes e os momentos do percurso em que estes se tornam mais pronunciados. 

3. Evite soluções universais e analise o contexto específico de seleção: a magnitude e a evolução do EIR diferiram entre as 5 ligas analisadas, o que desaconselha a aplicação automática das mesmas interpretações ou medidas em todos os contextos. Os clubes, as academias, as associações e as federações devem começar por caracterizar os seus próprios padrões, tendo em conta o escalão, o modelo competitivo e os processos de recrutamento e seleção, antes de definir eventuais estratégias de intervenção. As diferenças entre ligas não demonstram, por si só, que determinados sistemas formativos sejam mais ou menos enviesados. 

4. Inclua a posição de jogo na monitorização dos processos de seleção: ainda que o EIR esteja presente em todas as posições, foi mais pronunciado entre os médios e os guarda-redes. A distribuição por idade relativa deve, por isso, ser analisada também por posição, sobretudo nas etapas em que ocorre maior especialização funcional. Uma concentração de jogadores relativamente mais velhos numa determinada posição não prova a existência de decisões de seleção enviesadas, mas pode constituir um sinal para rever os critérios utilizados e verificar se características associadas à maturação estão a adquirir peso excessivo.

 

Conclusão

O estudo confirmou que o EIR permanece evidente no futebol profissional europeu, com sobrerrepresentação dos jogadores nascidos no primeiro trimestre do ano. Contudo, a sua evolução ao longo de 25 épocas não revelou um aumento contínuo: o fenómeno intensificou-se sobretudo nos primeiros anos e estabilizou posteriormente, com diferenças relevantes entre ligas e posições de jogo. A persistência deste efeito no nível profissional sugere que as assimetrias associadas à idade relativa podem prolongar-se para além das etapas de formação. Ainda assim, os dados não permitem determinar como ou em que momentos do percurso formativo se estabeleceram estas assimetrias. Investigações futuras deverão acompanhar os jogadores desde a formação até ao futebol profissional, de modo a compreender melhor o contributo dos processos de seleção, recrutamento e desenvolvimento para a persistência do EIR.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.

09/08/2026

Motricidade (2026) | Padrões de atividade e exigências físicas de árbitros de futebol portugueses: Um estudo de caso

É com satisfação que partilho mais uma publicação científica para a qual tive a oportunidade de dar um singelo contributo. O artigo “Physical demands and patterns of Portuguese football referees: a case study” foi recentemente publicado online na revista científica Motricidade (Q4; Impact Factor 2024: 0,41; CiteScore 2025: 0,7; Figura 1), embora a respetiva versão final se encontre ainda em produção, estando atualmente disponível apenas o draft do artigo.

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista Motricidade.

 

O trabalho é da autoria de Pedro Miguel (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona), Vítor Carvalho (Universidade Lusófona), Carlos H. Almeida (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona; CIDEFES), Alberto Pompeo (CIDEFES), Marcos Prandi (Universidade Lusófona), Pedro Viana (Universidade Lusófona), Paulo Paixão (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – ISMAT, Universidade Lusófona; Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Beja; SPRINT) e Filipe Casanova (CIDEFES). 

Este trabalho nasceu de um projeto iniciado em setembro de 2024, sob a liderança do Prof. Doutor Filipe Casanova, no âmbito de uma colaboração entre a Universidade Lusófona e a Associação de Futebol de Aveiro, com o propósito de aprofundar o conhecimento sobre as exigências físicas e fisiológicas associadas à arbitragem no futebol português. 

Ainda que o meu envolvimento tenha sido mais limitado do que o de alguns dos restantes coautores, é estimulante ver o trabalho colaborativo desenvolvido ao longo dos últimos 2 anos materializar-se numa publicação científica com potencial para contribuir para um melhor conhecimento das exigências e da preparação física dos árbitros de futebol. 

O estudo procurou caracterizar as exigências físicas externas e internas e os padrões de atividade de árbitros principais e árbitros assistentes, bem como compreender de que forma estas exigências variam em função do papel desempenhado em campo e da categoria competitiva. Para o efeito, foram monitorizados 8 árbitros principais e 7 árbitros assistentes, num total de 98 observações em jogos oficiais, com recurso a dispositivos GPS, monitorização da frequência cardíaca e perceção subjetiva de esforço. 

Os resultados evidenciaram perfis de exigência distintos entre as duas funções. Os árbitros principais percorreram maiores distâncias totais e relativas e acumularam maior distância em corrida de média velocidade, enquanto os árbitros assistentes atingiram velocidades máximas superiores e realizaram mais esforços de corrida a alta velocidade e um maior número de desacelerações. Estes últimos apresentaram também valores superiores de perceção subjetiva de esforço, variável que revelou associações positivas fortes com o número de acelerações e desacelerações. 

Estes resultados reforçam a importância de adequar a preparação física às exigências específicas de cada função. Os árbitros principais necessitam de sustentar maiores volumes de deslocamento em todo o terreno de jogo. Já a preparação dos árbitros assistentes deverá conferir particular atenção aos esforços curtos de alta velocidade e às acelerações e desacelerações frequentes. A conjugação de indicadores de carga externa e interna poderá ainda contribuir para uma melhor individualização do treino, monitorização da carga e gestão dos processos de recuperação. 

Concluo, deixando-vos o resumo original e a referência do trabalho. Espero que vos seja útil:

Abstract

This study quantified the match-related external and internal physical demands and activity patterns of Portuguese Football field referees (FRs) and assistant referees (ARs) across different categories. A total of 8 FRs and 7 ARs were monitored during 98 official competitions using GPS with embedded heart rate sensors, and post-match rate of perceived exertion (RPE) was collected. Descriptive statistics and between-group comparisons were applied to examine differences between roles, and the interrelationship between external and internal loads was explored using Pearson’s correlation. FRs covered substantially more total distance and distance per minute than ARs (7.49 ± 2.47 vs 5.64 ± 1.25 km; 78.68 ± 14.56 vs 55.88 ± 7.78 m·min⁻¹; both p < .001), and accumulated more medium-velocity running, whereas ARs reached higher maximal speeds and performed more high-speed running bouts and decelerations (p ≤ .031). ARs also reported higher perceived exertion than FRs (6.80 ± 0.68 vs 4.23 ± 1.65, p < .001), and RPE showed strong positive correlations with accelerations (r = 0.674, p < .001) and decelerations (r = 0.686, p < .001). Heart rate data from FRs showed most match time spent in low-to-moderate intensity zones, with minimal exposure to very high intensities. The referees were exposed to substantial, role-dependent external and internal loads even in a non-professional regional setting. The distinct demands of FRs and ARs support the need for role- and category-specific conditioning, monitoring and recovery strategies. These findings provide practical benchmarks to inform training prescription, load management and development pathways for football referees.

 

Keywords: Referee role; External load; GPS; Internal load; Rating of perceived exertion.

 

Reference

Miguel, P., Carvalho, V., Almeida, C. H., Pompeo, A., Prandi, M., Viana, P., Paixão, P., & Casanova, F. (2026). Physical demands and patterns of Portuguese football referees: a case study. Motricidade, 22, e40534. https://doi.org/10.6063/motricidade.40534

14/07/2026

International Journal of Sports Medicine (2026) | Impacto da COVID-19 na saúde dos jogadores de futebol: Revisão sistemática e meta-análise

Há projetos científicos que nascem de uma curiosidade pessoal. Outros surgem de uma conversa entre colegas. E há aqueles, muito mais raros, que começam com um e-mail inesperado.

No dia 4 de setembro de 2024 recebi um convite do Prof. Ricardo da Costa, editor da International Journal of Sports Medicine, para liderar um artigo de revisão sobre um tema muito específico: a COVID-19 e o futebol. Confesso que a primeira reação foi de hesitação. Depois de refletir sobre o convite, percebi que só faria sentido aceitá-lo se conseguisse reunir uma equipa com experiência e competências complementares. 

Reunido o grupo, composto por mim (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Rui Freitas (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, Portugal), José Afonso (Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal), Pedro Vargas (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; Escola Superior de Saúde Jean Piaget Algarve, Portugal), Alberto Pompeo (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Everton Cirillo (Universidade Estadual de Londrina, Brasil), Rodrigo Ramírez-Campillo (Universidad Andrés Bello, Chile) e Filipe Casanova (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), chegou o momento de definir o rumo do projeto. Numa primeira fase, equacionámos a realização de uma revisão de escopo. Contudo, essa hipótese não reuniu o consenso da revista, que manifestou preferência por uma revisão narrativa ou, idealmente, por uma revisão sistemática. Depois de uma boa dose de ponderação, optámos pelo percurso metodologicamente mais exigente: uma revisão sistemática com meta-análise. Sabíamos que essa decisão implicaria um investimento muito superior em termos de tempo e rigor metodológico, mas também que resultaria numa síntese científica substancialmente mais robusta. 

Nunca tinha coordenado uma revisão sistemática com meta-análise enquanto primeiro autor. Além disso, apesar de já ter publicado alguns trabalhos relacionados com a pandemia no futebol, esta investigação inseria-se muito mais no domínio da Medicina do Desporto do que nas minhas linhas habituais de investigação, centradas na análise do jogo e no desempenho em futebol. Naquela altura encontrava-me também envolvido em vários projetos científicos, conciliando-os com a atividade profissional e a vida familiar. Pouco depois, surgiram ainda os problemas de saúde do meu pai, que tornaram este período particularmente difícil. Aceitar este convite significava assumir um compromisso de grande responsabilidade, sem qualquer garantia de publicação. 

Seguiram-se meses de leitura e análise de centenas de artigos científicos, aplicação rigorosa das recomendações PRISMA 2020, avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos e realização daquela que foi a primeira meta-análise que tive a oportunidade de liderar como autor principal. O produto deste esforço acaba de ser publicado na InternationalJournal of Sports Medicine, uma revista científica internacional alemã de referência na área da Medicina do Desporto (Q1; Impact Factor: 2.3; CiteScore 2025: 4.5; Figura 1).

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista International Journal of Sports Medicine.

 

Mais do que estudar os efeitos da infeção por SARS-CoV-2, procurámos distinguir as alterações provocadas pela própria doença daquelas decorrentes das restrições impostas durante a pandemia, como as interrupções competitivas, as alterações nos treinos e as profundas mudanças na preparação dos jogadores. Para o efeito, analisámos 9 estudos, abrangendo mais de 1500 futebolistas de diferentes níveis competitivos. Esta revisão sintetiza, pela primeira vez, a evidência disponível sobre os efeitos fisiológicos da COVID-19 no futebol. Os resultados sugerem que, apesar de terem sido observadas alterações transitórias, sobretudo ao nível respiratório, a maioria dos indicadores fisiológicos permaneceu dentro de valores clinicamente normais. Ainda assim, a reduzida qualidade da evidência atualmente disponível recomenda prudência na interpretação destes resultados. 

Este foi, muito provavelmente, o projeto científico mais exigente em que estive envolvido até hoje. Não apenas pela complexidade metodológica, mas também porque me obrigou a sair da minha zona de conforto e a aprofundar conhecimentos numa área científica diferente daquelas em que habitualmente desenvolvo investigação. No final, fica a satisfação de termos correspondido ao desafio lançado pela própria revista e de contribuir com uma síntese que poderá servir de referência para futuras investigações e para a preparação de eventuais situações semelhantes.

O resumo e as palavras-chave constam na Figura 2.

  

Figura 2. Abstract do estudo publicado na revista International Journal of Sports Medicine (clique para ampliar).

 

Reference

Almeida, C. H., Freitas, R., Afonso, J., Vargas, P., Pompeo, A., Cirillo, E., Ramirez-Campillo, R., & Casanova, F. (2026). The impact of COVID-19 on soccer players’ health: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Sports Medicine. Advance online publication. https://doi.org/10.1055/a-2896-9130

28/06/2026

Artigo do mês #78 – junho 2026 | Modelos de jogo no treino de futebol: uma perspetiva da dinâmica ecológica

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 78 -

Autores: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K.

País: Inglaterra

Data de publicação: 27-maio-2026

Título: Game models in football coaching: an ecological dynamics perspective

Referência: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K. (2026). Game models in football coaching: an ecological dynamics perspective. International Journal of Performance Analysis in Sport, 1–18. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24748668.2026.2679371

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 78 – junho de 2026.

 

Apresentação do problema

No futebol, o Modelo de Jogo é habitualmente entendido como uma estrutura que sustenta a forma de jogar de uma equipa e integra a filosofia do treinador, as características dos jogadores, os princípios táticos, a metodologia de treino e a identidade do clube (Plakias, 2023). Historicamente, tem servido para formalizar padrões de jogo, definir estruturas posicionais e orientar comportamentos em posse de bola, sem posse de bola e nas transições (Costa et al., 2011; Garganta, 1997; Guilherme, 2004). 

Apesar da sua utilidade, os Modelos de Jogo tradicionais podem assumir uma natureza excessivamente prescritiva. Quando reduzem o jogo a comportamentos previamente definidos, correm o risco de limitar a adaptação dos jogadores à variabilidade do contexto competitivo (Araújo & Davids, 2016; Ribeiro et al., 2019; Wellock, 2026). Práticas muito centradas na repetição de padrões podem diminuir a exposição à complexidade informacional do jogo e comprometer o desenvolvimento de decisões flexíveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2015; Davids et al., 2022). 

A dinâmica ecológica oferece uma alternativa conceptual, ao compreender o rendimento como resultado da interação entre jogador e ambiente. Nesta perspetiva, os princípios táticos não funcionam como instruções rígidas, mas como convites funcionais para a ação (Ribeiro et al., 2019). Os jogadores devem aprender a reconhecer affordances, isto é, oportunidades de ação que emergem em função das capacidades do jogador, dos colegas de equipa, dos adversários, do espaço e das condições do jogo (Silva et al., 2014; Travassos et al., 2013; Vilar et al., 2012). 

À luz desta perspetiva, o Modelo de Jogo pode ser repensado como uma estrutura flexível de suporte, e não como um guião determinista. Em vez de prescrever sequências fixas, deve ajudar os jogadores a adaptar-se a constrangimentos dinâmicos e a informação em mudança, de maneira a favorecer a autonomia, a flexibilidade tática e a capacidade de resposta (Goes et al., 2019; He et al., 2023; Jordet et al., 2020). Esta visão deve ainda considerar os constrangimentos socioculturais do clube, incluindo valores, tradições e identidade coletiva (O’Sullivan et al., 2025; Woods et al., 2020). 

Assim, o artigo propõe uma perspetiva ecológica dos Modelos de Jogo como estrutura conceptual para orientar a conceção da prática. O objetivo não é abandonar a ideia de Modelo de Jogo, mas torná-lo mais funcional, representativo e adaptativo, no intuito de potenciar a relação perceção-ação, a auto-organização coletiva e a aprendizagem dos jogadores em contextos próximos da competição.

 

Repensar os modelos de jogo tradicionais: para uma abordagem adaptativa do jogo

A crescente complexidade do rendimento no futebol conduziu ao desenvolvimento dos Modelos de Jogo como forma de estruturar o jogo em princípios, fases e momentos que orientam a forma de jogar das equipas (Ribeiro et al., 2019). Apesar da sua ampla utilização, o conceito permanece pouco consensual na literatura e é frequentemente confundido com outros, como “estilo de jogo” (Game Style ou Playing Style), o que pode originar interpretações e aplicações inconsistentes na prática (Hewitt et al., 2016; Plakias, 2023). Acresce que a adoção de modelos assentes em tradições históricas ou identidades pouco definidas pode comprometer a sua adequação às características dos jogadores e às exigências contemporâneas da competição. A este propósito, o antigo treinador da Premier League inglesa, Sam Allardyce, recordou a sua passagem pelo West Ham United F.C.:

 

Assim que fui nomeado treinador, em 2011, instalou-se de imediato o grande debate sobre se iria seguir a “forma de jogar do West Ham”, algo que ninguém conseguia definir. Ainda assim, fosse ela qual fosse, diziam que eu não a praticava. Os adeptos estavam a ser levados a acreditar que, historicamente, o clube tinha um estilo de jogo muito próprio, semelhante ao do Barcelona, o que era um completo disparate.

(The Guardian, 2015)

 

A experiência relatada por Sam Allardyce evidencia o risco de adotar filosofias de jogo assentes em tradições ou identidades históricas pouco definidas. O problema não reside na existência de um Modelo de Jogo, mas na sua eventual desadequação às características dos jogadores e às exigências competitivas do momento (Tamarit, 2015; Tee et al., 2018). Nesta perspetiva, a dinâmica ecológica não rejeita a identidade ou a filosofia de jogo, mas defende que estas devem evoluir em função do contexto e das necessidades da equipa (Davids et al., 2013; He et al., 2023). Assim, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto rígido de comportamentos pré-definidos para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação contínua dos jogadores e da equipa.

 

Fundações teóricas

A dinâmica ecológica assenta em conceitos como os constrangimentos (constraints), as affordances e o desenho representativo da prática (Representative Learning Design), que permitem compreender o rendimento no futebol como um fenómeno dinâmico e auto-organizado, resultante da interação contínua entre jogadores e ambiente (Araújo & Davids, 2016; Davids et al., 2008; Newell, 1986).

 

·     Compreendendo os constrangimentos

Na perspetiva da dinâmica ecológica, o comportamento dos jogadores emerge da interação entre constrangimentos individuais, da tarefa e do ambiente (Newell, 1986; Davids et al., 2008). Em vez de prescrever soluções táticas, o treinador manipula estes constrangimentos para criar contextos de prática que favoreçam a exploração, a adaptação e a emergência de comportamentos funcionais (Chow et al., 2015; Renshaw & Chow, 2019). 

No futebol, esta abordagem permite compreender o Modelo de Jogo como uma estrutura flexível e dinâmica. A manipulação de princípios táticos, responsabilidades posicionais, condições de jogo ou características dos jogadores proporciona a emergência de oportunidades de ação representativas da competição (Araújo et al., 2022; Pinder et al., 2011).

 

·     Affordances e comportamento adaptativo

Na perspetiva da dinâmica ecológica, as affordances correspondem às oportunidades de ação que emergem da interação entre o jogador e o ambiente e variam em função dos constrangimentos da tarefa (Araújo & Davids, 2009; Gibson, 1979). Neste enquadramento, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto de instruções rígidas para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação dos jogadores às exigências do jogo, sem deixar de respeitar princípios táticos comuns. A tomada de decisão passa a assentar na perceção da informação relevante em cada momento, com base em relações entre perceção e ação que facilitam a transferência comportamental do treino para a competição (Araújo & Davids, 2016; Araújo et al., 2017; Button et al., 2021; Jordet et al., 2020).

 

·     Desenho representativo da prática

Na perspetiva da dinâmica ecológica, o treino deve privilegiar a adaptação às exigências do jogo, em detrimento da repetição de soluções técnicas ou táticas previamente definidas (Davids, 2024). Neste âmbito, o Modelo de Jogo orienta a conceção da prática e as intenções dos jogadores, sem prescrever comportamentos fixos. Por exemplo, um treino mais direcionado após transições ofensivas não deve assentar apenas na repetição de contra-ataques previamente ensaiados, mas na criação de tarefas representativas que desafiem os jogadores a reconhecer e explorar oportunidades de ação em função do espaço, do tempo e da oposição (Duarte et al., 2012; Seifert et al., 2014).

 

·     O feedback do treinador como desafio à aprendizagem

O feedback do treinador deve orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante do jogo, em vez de prescrever soluções ou corrigir erros de forma isolada (Davids et al., 2008; Correia et al., 2019). Através de questões, desafios ou pistas, o treinador promove a exploração de diferentes soluções e reforça a capacidade de resolução de problemas em contextos representativos da competição (Juarrero, 2023; Otte et al., 2020). Conforme ilustrado na tabela 1, esta abordagem transforma o feedback num instrumento pedagógico que apoia a aprendizagem e concretiza o Modelo de Jogo sem limitar a autonomia dos jogadores (Woods et al., 2020).

 

Tabela 1. Fase de organização ofensiva (construção e finalização): princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).

 

·     Uma perspetiva ecológica da análise do desempenho

Tradicionalmente, a análise do desempenho no futebol tem privilegiado indicadores isolados, como a posse de bola, a eficácia de passe ou o número de remates. Embora úteis, estas métricas nem sempre captam a natureza dinâmica e relacional do jogo (Bradley et al., 2014; Sarmento et al., 2022). A perspetiva da dinâmica ecológica propõe uma análise centrada nas interações entre jogadores e contexto, o que permite compreender de que forma os comportamentos táticos emergem durante a competição (Araújo et al., 2022; O'Sullivan et al., 2026). 

Desta maneira, indicadores coletivos como a ocupação do espaço, a sincronia entre jogadores ou a posição do centroide da equipa podem oferecer informação mais representativa sobre a coordenação coletiva e apoiar o aperfeiçoamento contínuo do Modelo de Jogo (Folgado et al., 2014; Frencken et al., 2011).

 

Para um novo Modelo de Jogo

Com base nos princípios da dinâmica ecológica, os autores propõem um novo enquadramento conceptual para o Modelo de Jogo, entendido como um sistema dinâmico de affordances que emergem da interação contínua entre jogadores, constrangimentos e contexto competitivo (Araújo et al., 2007; Chow et al., 2015; Renshaw et al., 2019). A Figura 2 representa o jogo como um fluxo contínuo de momentos interdependentes, afastando-se da visão tradicional que divide o jogo em fases discretas e sequenciais.

  

Figura 2. Representação conceptual do Modelo de Jogo proposto pelos autores, assente nos princípios da dinâmica ecológica (adaptado de Wellock et al., 2026).

 

Neste modelo, os momentos ofensivos, defensivos, de transição e de bola parada encontram-se permanentemente interligados. As transições assumem um papel central, não apenas como mudanças de posse de bola, mas como momentos privilegiados para reorganização coletiva, adaptação comportamental e exploração de novas oportunidades de ação. Os autores designam este espaço central por “Transition Nexus”, definido como um ponto de reajustamento percetivo e atencional perante alterações nas condições do jogo (Correia et al., 2019; Rietveld & Kiverstein, 2014). 

O modelo atribui igualmente relevância às intervenções externas, como o feedback do treinador, as decisões da equipa de arbitragem ou as interrupções do jogo, que podem desencadear novos processos de adaptação. Assim, os princípios táticos deixam de constituir comportamentos rígidos previamente definidos para assumirem o papel de constrangimentos facilitadores, capazes de orientar a coordenação coletiva sem comprometer a autonomia dos jogadores (Araújo et al., 2022; Button et al., 2020). 

Em síntese, os autores defendem que o Modelo de Jogo deve evoluir de um conjunto de padrões táticos prescritos para uma estrutura dinâmica, flexível e adaptativa, capaz de orientar a perceção, a tomada de decisão e a ação dos jogadores em função das exigências emergentes da competição. A aprendizagem passa a assentar na criação de contextos representativos que favoreçam a adaptação contínua dos jogadores às constantes mudanças do jogo (Araújo et al., 2022; Dann et al., 2024; Morris et al., 2022).

 

Conceção de ambientes de treino representativos para um desempenho adaptativo

Depois de apresentado o enquadramento conceptual, foi proposto um conjunto de orientações práticas para operacionalizar um Modelo de Jogo baseado na dinâmica ecológica. Em termos aplicados, são sugeridas 3 estratégias fundamentais: 

1. Conceber tarefas que preservem os principais constrangimentos da competição: os exercícios devem reproduzir os principais problemas que os jogadores enfrentam em competição, por forma a preservar as interações entre jogadores, espaço, tempo e objetivos do jogo (Davids et al., 2017; Duarte et al., 2012; Gray, 2021). Em vez de simplificar excessivamente a tarefa, importa criar contextos que obriguem os jogadores a percecionar informação relevante e a ajustar continuamente o comportamento. Quanto maior for a representatividade da tarefa, maior tenderá a ser a transferência da aprendizagem para a competição. 

2. Relacionar os princípios táticos com situações reais de jogo, em vez de sequências previamente definidas: os princípios táticos devem funcionar como referências para orientar o comportamento individual e coletivo, e não como movimentos obrigatórios ou previamente coreografados. O treino deve expor os jogadores a diferentes problemas do jogo para potenciar a descoberta de soluções adaptadas ao contexto. Promove-se, então, a flexibilidade tática, a autonomia na tomada de decisão e a capacidade de resposta perante situações imprevisíveis. 

3. Utilizar o feedback para orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante e para as oportunidades de ação, sem prescrever soluções (Pimenta, 2014): o feedback do treinador deve recorrer preferencialmente a perguntas, pistas ou desafios que orientem a atenção dos jogadores para a informação mais relevante da situação de jogo ou da tarefa (tabela 2). Em vez de indicar exatamente o que fazer, importa ajudar os jogadores a identificar as oportunidades de ação disponíveis e a compreender as consequências das suas decisões. Esta estratégia pedagógica fomenta a aprendizagem, a autonomia e contribui para desenvolver jogadores mais adaptáveis às exigências da competição (Davids et al., 2022; Jones et al., 2021).

 

Tabela 2. Momento de transição defensiva: princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).

 

Conclusão

O presente artigo propõe uma nova forma de compreender o Modelo de Jogo no futebol; concebe-o como uma estrutura flexível que orienta a ação coletiva sem limitar a capacidade de adaptação dos jogadores às exigências da competição. Segundo a proposta, os princípios táticos deixam de corresponder a comportamentos rígidos e passam a funcionar como referências comuns para a tomada de decisão individual e coletiva. Consequentemente, o papel do treinador também evolui. Para além de definir uma identidade coletiva, importa conceber ambientes de treino representativos, manipular constrangimentos, orientar a atenção dos jogadores através do feedback e criar condições que proporcionem a descoberta de soluções adequadas ao contexto do jogo. Mais do que substituir modelos tradicionais, esta perspetiva encoraja os treinadores e os clubes a repensar o Modelo de Jogo como um instrumento ao serviço da aprendizagem, da adaptação e do rendimento, sem perder a identidade que caracteriza cada equipa.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Performance Analysis in Sport.