Nota prévia: O artigo
científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes
critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com
revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3)
associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do
Desporto.
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Autores: Buchheit, M., Settembre, M., Hader,
K., & McHugh, D.
País: França
Data de publicação: 3-janeiro-2023
Título: Planning the microcycle
in elite football: To rest or not to rest?
Referência: Buchheit,
M., Settembre, M., Hader, K., & McHugh, D. (2023). Planning the microcycle
in elite football: To rest or not to rest? International Journal of Sports
Physiology and Performance, 1–7. Advanced online publication. https://doi.org/10.1123/ijspp.2022-0146
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 37 – janeiro de
2023.
Apresentação do problema
O planeamento do microciclo no futebol de elite é uma
tarefa complexa (Buchheit et al., 2021). Embora já haja alguns dados
informativos sobre a prática de planear no futebol (e.g., Chena et al., 2021;
Clemente et al., 2019; Mateus et al., 2016), estes são, geralmente, (1)
quantitativos e representativos de um único clube ou (2) limitados a
orientações metodológicas, tais como as inicialmente desenvolvidas por R.
Verheijen e, posteriormente, pelo FC Barcelona (Tarragó et al., 2019).
Mais recentemente, e no intuito de melhor se perceber o
racional por detrás da seleção dos conteúdos a desenvolver e do planeamento
efetuado, Buchheit et al. (2021) aplicaram um questionário a 100 profissionais
a trabalhar no futebol de elite. A maioria dos respondentes confirmaram que a
preocupação de equilibrar o trabalho e a recuperação de um dia para o seguinte,
no decurso do microciclo, era (muito provavelmente) necessária para promover a
saúde e otimizar o desempenho. Apesar disso, ainda não se sabe se fazer descansar
completamente os jogadores por 1 ou 2 dias afeta a taxa de lesões no mesmo
microciclo, incluindo o jogo competitivo seguinte. A questão de qual o melhor
dia para dar folga, ou mesmo se compensa dar folga no microciclo (figura 2), é
um aspeto que não foi investigado cientificamente, não obstante a sua enorme
importância em termos da recuperação, da compensação e da dinâmica psicossocial
da equipa (Buchheit et al., 2021; Buchheit, 2017).
.png)
Figura 2. Na gestão do risco de lesão, é importante programar dias
de folga num microciclo de treino no futebol profissional? (imagem não
publicada pelos autores)
De modo a produzir novas evidências sobre esta matéria,
os autores examinaram a associação entre o planeamento dos dias de folga e a
taxa de lesões, recorrendo a dados retrospetivos de 18 equipas de elite que
disputaram ligas de topo, como a Premier League (Inglaterra), Serie A
(Itália), Bundesliga (Alemanha), Premiership (Escócia), Major
League Soccer (E. U. A.) e Eredivisie (Países Baixos). Além disso,
também foi averiguado o timing dos dias de folga em microciclos de diferentes
extensões (de 3 a 8 dias) e, depois, a influência do fluxo prévio de jogos nas
associações suprarreferidas. Ainda que o desenho deste estudo observacional não
permita o estabelecimento de relações causais, decerto que as informações
obtidas poderão ajudar os treinadores e a equipa técnica a otimizar o
planeamento dos seus microciclos, em função do contexto no qual estão
inseridos.
Métodos
Amostra: os dados foram
extraídos de 18 equipas pertencentes às ligas de topo de Inglaterra (Premier
League), Itália (Serie A), Alemanha (Bundesliga), Escócia (Premiership),
E. U. A. (Major League Soccer) e Países Baixos (Eredivisie),
entre janeiro de 2018 e dezembro de 2021. A amostra final incluiu um total de
56 épocas (a mesma equipa pode ter contribuído com dados de mais do que uma
época), 1578 jogadores, 2865 lesões, 2859 jogos domésticos e 12939 sessões de
treino diárias.
Recolha
de dados: os detalhes acerca das características dos jogadores, da
participação em treinos e jogos e das lesões ocorridas foram retiradas de uma
base de dados online (i.e., Kitman Labs platform Dublin, Irlanda)
frequentemente usada pelos clubes de futebol envolvidos no estudo. O staff
médico das equipas introduz este tipo de informação na plataforma, como parte
da sua rotina de gestão diária, incluindo variáveis como datas, tipo e
severidade da lesão. A severidade da lesão foi apurada em função dos dias de
treino/competição perdidos. A exposição ao treino e à competição (e.g., duração
e dados de GPS) foi igualmente inserida na plataforma. Os procedimentos foram
rigorosamente os mesmos para todos os clubes.
Preparação
dos dados: a extensão dos microciclos foi definida pelo número de
dias entre dois jogos competitivos, iniciando no dia após o primeiro jogo e
terminando com o jogo seguinte. Um microciclo de 3 dias (3-d turnaround)
implica, por exemplo, jogar num domingo e, posteriormente, na quarta-feira
seguinte. Considerando um total de 1871 microciclos, os mais curtos envolveram
3 dias e os mais longos 8 dias. Os microciclos com 3 dias foram, também,
considerados como congestionados. Assumiu-se como “dia de folga” um dia sem
jogo, em que, para os 15 principais jogadores da equipa (i.e., os mais
utilizados no decurso dessa época), não foi registada na plataforma qualquer exposição
a atividades de treino. Os padrões de distribuição dos dias de folga foram
analisados para cada microciclo. Os dias com exposição física foram codificados
como “x” e os dias de folga como “o”. Foram exploradas todas as combinações
possíveis em função da extensão do microciclo, contudo, somente as sequências
com ≥10 ocorrências por extensão de microciclo foram incluídas na análise. Uma
lesão é geralmente definida como uma mazela ocorrida em treino ou em competição
e que impede um jogador de realizar treino ou jogo durante um ou mais dias após
a ocorrência (Bahr et al., 2020). A investigação focou-se apenas nas lesões sem
contacto que tiveram um impacto substancial na participação em treino ou em
jogo competitivo, i.e., só foram consideradas lesões sem contacto que
resultaram, no mínimo, em 3 dias perdidos de treino/competição (≥3-day time
loss). No total, 511 jogadores principais estiveram envolvidos em 965
lesões com tempo perdido, incluindo 559 lesões sem contacto.
Análise
dos dados: os dados foram analisados ao longo de 3 etapas
consecutivas, de uma perspetiva relacional macro para outra micro:
1. Dia de folga por si e taxa de lesão: aferir potenciais
diferenças entre as taxas de lesão em treino e em jogo, em função da
presença/ausência de, pelo menos, um dia de folga no microciclo (no total e por
extensão do microciclo);
2. Presença de jogos consecutivos (calendário congestionado:
0, 1, ou ≥2 de microciclo de 3 dias) antes do microciclo analisado, incluindo,
pelo menos, um dia de folga, ou sem folga, e risco de lesão;
3. Distribuição (i.e., quando) dos dias de folga para cada
extensão de microciclo e a sua associação com lesões em treino ou em jogo
(neste nível, as taxas de lesão foram apresentadas tanto para o microciclo
inteiro, como apenas para o número de dias de treino).
Análise estatística: os resultados foram
apresentados como médias e intervalos de confiança de 95%. A existência de
diferenças substanciais foi assumida quando os intervalos de confiança não se
sobrepuseram (Cumming, 2018). O d de Cohen foi também calculado para
verificar a magnitude das diferenças, tendo por base os seguintes limites: 0.2
(pequena); 0.6 (moderada); 1.2 (grande); 2 (muito grande) (Hopkins et al.,
2009).
Principais resultados
A taxa de lesão foi 5 vezes mais elevada nos jogos
competitivos do que nas sessões de treino, sem diferenças quanto à extensão do
microciclo, excetuando para o microciclo de 5 dias, em que foi evidenciado um menor
número de lesões em relação aos outros microciclos.
As diferenças entre microciclos com e sem dia de folga,
quanto às taxas de lesão em treino e em jogo, foram inconclusivas. Por sua vez,
o número de microciclos congestionados (de 3 dias) que precedeu os microciclos
de interesse não apresentou uma relação evidente com as taxas de lesão em
treino ou em jogo, independentemente da sua extensão e de incluírem ou não dia
de folga.
Para microciclos até 6 dias, a prática mais frequente foi
treinar todos os dias do microciclo (30%–80%, havendo um decréscimo de dias de
folga à medida que os microciclos ficam mais curtos). Nestes microciclos, caso
tenha sido programado um dia de folga, o mesmo ocorreu mais frequentemente logo
após o jogo competitivo: Match Day (MD)+1. Em relação aos microciclos
mais longos (7 e 8 dias), a prática mais comum foi dar um dia de folga em MD+1,
seguido de treinar todos os dias. Conceder dia de folga em MD+2 aconteceu 44
vezes nos microciclos de 7 dias (10%) e 12 vezes nos microciclos de 8 dias
(9%).
Considerado as taxas de lesão em treino e em jogo como um
todo (figura 3), e focando-nos apenas nos 3 tipos mais frequentes de
planeamento do microciclo (i.e., sem dia de folga, um dia de folga em MD+1 ou
em MD+2), as sequências incluindo um dia de folga em MD+2 (x/o/…) estiveram
associadas a uma redução das taxas de lesão por dia, comparativamente às outras
duas sequências (sem folga e dia de folga em MD+1), nos microciclos de 3 e de 7
dias (dimensão de efeito moderada a muito grande). As diferenças entre as 3
principais sequências não foram claras para as outras extensões de microciclo.
.png)
Figura 3. Média total (com intervalo de confiança a 95%) das taxas
de lesão sem contacto por microciclo (painel superior) e das taxas totais de
lesão sem contacto por treino ou por jogo (painel inferior), em função das 3
principais sequências: sem folga (x/x/…), um dia de folga em MD+1 (o/x/…) e um
dia de folga em MD+2 (x/o/…). *,** diferenças moderadas a grandes,
respetivamente, em relação a microciclo sem folga. #,## diferenças moderadas a
grandes, respetivamente, em relação a microciclos com um dia de folga em MD+1
(Buchheit et al., 2023).
Aplicações práticas
A utilização de um vasto conjunto de dados no futebol de
elite permitiu comprovar que, apesar de a opção de introduzir um dia de folga
por si não demonstrar associações claras com a ocorrência de lesões sem
contacto, a sua programação (i.e., quando) no microciclo relevou associações
positivas e dignas de registo. Na prática, pelo menos em microciclos com 3 e 7
dias de extensão, propor um dia de folga em MD+2 esteve associado a um
decréscimo substancial (2 a 3 vezes) na taxa de lesões contraídas em treino e
em jogo, comparativamente a não ter dia de folga ou tê-lo mais cedo, em MD+1.
Embora haja sempre muitas formas de planear um
microciclo, treinar em MD+1 e ter um dia de folga em MD+2 pode providenciar
diversas vantagens, tanto ao nível do desempenho competitivo, como no que
respeita à incidência de lesão sem contacto. Propor treino em MD+1 permite, por
um lado, que os titulares/jogadores mais utilizados possam receber tratamento e
realizar uma sessão de recuperação adequada e, por outro lado, que os suplentes
não utilizados ou pouco utilizados tenham a oportunidade de treinar em zonas de
intensidade elevada para compensar o esforço não realizado em competição. Esta opção
metodológica faz com que todos os elementos do plantel “fechem o microciclo
anterior” e possam descansar no dia seguinte (MD+2), antes de regressarem
“frescos” para um novo ciclo de treino em MD+3 até ao jogo competitivo seguinte.
Ao invés, ao se optar por um dia de folga em MD+1,
reduzem-se e, eventualmente, adiam-se as oportunidades para cuidar da
recuperação dos titulares/mais utilizados e para nivelar o esforço realizado
pelos suplentes utilizados/não utilizados após o jogo anterior. A consequência
desta opção é que alguns jogadores titulares/mais utilizados podem ainda
necessitar de tratamento/cuidados em MD+2 e podem, por isso, não estar logo disponíveis
para treinar; já os suplentes correm o risco de experienciar um regime de treino
leve durante 2 ou 3 dias consecutivos (carga leve em MD-1, 0–30 minutos de jogo
e dia de folga em MD+1), o que perturba uma dinâmica de treino que se quer
otimal, limitando a adaptação global ao esforço.
A estrutura de microciclo associada às menores taxas de
lesão sem contacto não foi a mais comum na amostra recolhida de diversos clubes
profissionais de topo. Os treinadores podem achar que a opção de “descansar 2
dias após o jogo” (MD+2) não constitui uma alternativa pertinente para o
contexto em que estão inseridos, apesar de parecer ser a estratégia ideal, do
ponto de vista fisiológico e biológico, no papel. Também é verdade que o
argumento “lesão” pode não constituir uma prioridade principal para os
treinadores no ato de planear o microciclo. Há outros aspetos que podem ser priorizados
em detrimento de uma eventual redução na incidência de lesão: (1) a dinâmica
psicossocial da equipa (jogadores geralmente preferem o dia de folga logo após
o jogo, MD+1); (2) a necessidade de promover cargas de treino mais fortes nos
jogadores (pouco descanso ou inexistência de dias de folga durante a pré-época
ou no regresso de pausa para férias), ou de preparar taticamente um jogo muito
importante; (3) a interferência de outros constrangimentos externos, como, por
exemplo, realização de viagens longas.
Conclusão
De acordo com o conhecimento dos autores, este foi o
primeiro estudo que analisou a associação entre a programação de dias de folga
no microciclo de treino de equipas profissionais e as taxas de lesão em treino
e em jogo. O resultado mais sonante evidenciou que conceder um dia de folga em
MD+2 (2 dias após o jogo) esteve associado com uma redução moderada a grande de
lesões sem contacto, em particular, no decurso de microciclos com 3 e 7 dias. Em
ocasiões futuras, a investigação deve ainda examinar a carga de treino em cada
dia, relativamente a diferentes estratégias de programação das folgas, considerando,
também, os diversos tipos de microciclo em termos de extensão.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista International Journal of Sports Physiology and
Performance.