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14/07/2026

International Journal of Sports Medicine (2026) | Impacto da COVID-19 na saúde dos jogadores de futebol: Revisão sistemática e meta-análise

Há projetos científicos que nascem de uma curiosidade pessoal. Outros surgem de uma conversa entre colegas. E há aqueles, muito mais raros, que começam com um e-mail inesperado.

No dia 4 de setembro de 2024 recebi um convite do Prof. Ricardo da Costa, editor da International Journal of Sports Medicine, para liderar um artigo de revisão sobre um tema muito específico: a COVID-19 e o futebol. Confesso que a primeira reação foi de hesitação. Depois de refletir sobre o convite, percebi que só faria sentido aceitá-lo se conseguisse reunir uma equipa com experiência e competências complementares. 

Reunido o grupo, composto por mim (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Rui Freitas (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, Portugal), José Afonso (Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal), Pedro Vargas (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; Escola Superior de Saúde Jean Piaget Algarve, Portugal), Alberto Pompeo (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Everton Cirillo (Universidade Estadual de Londrina, Brasil), Rodrigo Ramírez-Campillo (Universidad Andrés Bello, Chile) e Filipe Casanova (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), chegou o momento de definir o rumo do projeto. Numa primeira fase, equacionámos a realização de uma revisão de escopo. Contudo, essa hipótese não reuniu o consenso da revista, que manifestou preferência por uma revisão narrativa ou, idealmente, por uma revisão sistemática. Depois de uma boa dose de ponderação, optámos pelo percurso metodologicamente mais exigente: uma revisão sistemática com meta-análise. Sabíamos que essa decisão implicaria um investimento muito superior em termos de tempo e rigor metodológico, mas também que resultaria numa síntese científica substancialmente mais robusta. 

Nunca tinha coordenado uma revisão sistemática com meta-análise enquanto primeiro autor. Além disso, apesar de já ter publicado alguns trabalhos relacionados com a pandemia no futebol, esta investigação inseria-se muito mais no domínio da Medicina do Desporto do que nas minhas linhas habituais de investigação, centradas na análise do jogo e no desempenho em futebol. Naquela altura encontrava-me também envolvido em vários projetos científicos, conciliando-os com a atividade profissional e a vida familiar. Pouco depois, surgiram ainda os problemas de saúde do meu pai, que tornaram este período particularmente difícil. Aceitar este convite significava assumir um compromisso de grande responsabilidade, sem qualquer garantia de publicação. 

Seguiram-se meses de leitura e análise de centenas de artigos científicos, aplicação rigorosa das recomendações PRISMA 2020, avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos e realização daquela que foi a primeira meta-análise que tive a oportunidade de liderar como autor principal. O produto deste esforço acaba de ser publicado na InternationalJournal of Sports Medicine, uma revista científica internacional alemã de referência na área da Medicina do Desporto (Q1; Impact Factor: 2.3; CiteScore 2025: 4.5; Figura 1).

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista International Journal of Sports Medicine.

 

Mais do que estudar os efeitos da infeção por SARS-CoV-2, procurámos distinguir as alterações provocadas pela própria doença daquelas decorrentes das restrições impostas durante a pandemia, como as interrupções competitivas, as alterações nos treinos e as profundas mudanças na preparação dos jogadores. Para o efeito, analisámos 9 estudos, abrangendo mais de 1500 futebolistas de diferentes níveis competitivos. Esta revisão sintetiza, pela primeira vez, a evidência disponível sobre os efeitos fisiológicos da COVID-19 no futebol. Os resultados sugerem que, apesar de terem sido observadas alterações transitórias, sobretudo ao nível respiratório, a maioria dos indicadores fisiológicos permaneceu dentro de valores clinicamente normais. Ainda assim, a reduzida qualidade da evidência atualmente disponível recomenda prudência na interpretação destes resultados. 

Este foi, muito provavelmente, o projeto científico mais exigente em que estive envolvido até hoje. Não apenas pela complexidade metodológica, mas também porque me obrigou a sair da minha zona de conforto e a aprofundar conhecimentos numa área científica diferente daquelas em que habitualmente desenvolvo investigação. No final, fica a satisfação de termos correspondido ao desafio lançado pela própria revista e de contribuir com uma síntese que poderá servir de referência para futuras investigações e para a preparação de eventuais situações semelhantes.

O resumo e as palavras-chave constam na Figura 2.

  

Figura 2. Abstract do estudo publicado na revista International Journal of Sports Medicine (clique para ampliar).

 

Reference

Almeida, C. H., Freitas, R., Afonso, J., Vargas, P., Pompeo, A., Cirillo, E., Ramirez-Campillo, R., & Casanova, F. (2026). The impact of COVID-19 on soccer players’ health: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Sports Medicine. Advance online publication. https://doi.org/10.1055/a-2896-9130

31/01/2023

Artigo do mês #37 – janeiro 2023 | Planear o microciclo no futebol de elite: descansar ou não descansar?

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 37 -

Autores: Buchheit, M., Settembre, M., Hader, K., & McHugh, D.

País: França

Data de publicação: 3-janeiro-2023

Título: Planning the microcycle in elite football: To rest or not to rest?

Referência: Buchheit, M., Settembre, M., Hader, K., & McHugh, D. (2023). Planning the microcycle in elite football: To rest or not to rest? International Journal of Sports Physiology and Performance, 1–7. Advanced online publication. https://doi.org/10.1123/ijspp.2022-0146

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 37 – janeiro de 2023.

 

Apresentação do problema

O planeamento do microciclo no futebol de elite é uma tarefa complexa (Buchheit et al., 2021). Embora já haja alguns dados informativos sobre a prática de planear no futebol (e.g., Chena et al., 2021; Clemente et al., 2019; Mateus et al., 2016), estes são, geralmente, (1) quantitativos e representativos de um único clube ou (2) limitados a orientações metodológicas, tais como as inicialmente desenvolvidas por R. Verheijen e, posteriormente, pelo FC Barcelona (Tarragó et al., 2019). 

Mais recentemente, e no intuito de melhor se perceber o racional por detrás da seleção dos conteúdos a desenvolver e do planeamento efetuado, Buchheit et al. (2021) aplicaram um questionário a 100 profissionais a trabalhar no futebol de elite. A maioria dos respondentes confirmaram que a preocupação de equilibrar o trabalho e a recuperação de um dia para o seguinte, no decurso do microciclo, era (muito provavelmente) necessária para promover a saúde e otimizar o desempenho. Apesar disso, ainda não se sabe se fazer descansar completamente os jogadores por 1 ou 2 dias afeta a taxa de lesões no mesmo microciclo, incluindo o jogo competitivo seguinte. A questão de qual o melhor dia para dar folga, ou mesmo se compensa dar folga no microciclo (figura 2), é um aspeto que não foi investigado cientificamente, não obstante a sua enorme importância em termos da recuperação, da compensação e da dinâmica psicossocial da equipa (Buchheit et al., 2021; Buchheit, 2017).


Figura 2. Na gestão do risco de lesão, é importante programar dias de folga num microciclo de treino no futebol profissional? (imagem não publicada pelos autores)

 

De modo a produzir novas evidências sobre esta matéria, os autores examinaram a associação entre o planeamento dos dias de folga e a taxa de lesões, recorrendo a dados retrospetivos de 18 equipas de elite que disputaram ligas de topo, como a Premier League (Inglaterra), Serie A (Itália), Bundesliga (Alemanha), Premiership (Escócia), Major League Soccer (E. U. A.) e Eredivisie (Países Baixos). Além disso, também foi averiguado o timing dos dias de folga em microciclos de diferentes extensões (de 3 a 8 dias) e, depois, a influência do fluxo prévio de jogos nas associações suprarreferidas. Ainda que o desenho deste estudo observacional não permita o estabelecimento de relações causais, decerto que as informações obtidas poderão ajudar os treinadores e a equipa técnica a otimizar o planeamento dos seus microciclos, em função do contexto no qual estão inseridos.

 

Métodos

Amostra: os dados foram extraídos de 18 equipas pertencentes às ligas de topo de Inglaterra (Premier League), Itália (Serie A), Alemanha (Bundesliga), Escócia (Premiership), E. U. A. (Major League Soccer) e Países Baixos (Eredivisie), entre janeiro de 2018 e dezembro de 2021. A amostra final incluiu um total de 56 épocas (a mesma equipa pode ter contribuído com dados de mais do que uma época), 1578 jogadores, 2865 lesões, 2859 jogos domésticos e 12939 sessões de treino diárias. 

Recolha de dados: os detalhes acerca das características dos jogadores, da participação em treinos e jogos e das lesões ocorridas foram retiradas de uma base de dados online (i.e., Kitman Labs platform Dublin, Irlanda) frequentemente usada pelos clubes de futebol envolvidos no estudo. O staff médico das equipas introduz este tipo de informação na plataforma, como parte da sua rotina de gestão diária, incluindo variáveis como datas, tipo e severidade da lesão. A severidade da lesão foi apurada em função dos dias de treino/competição perdidos. A exposição ao treino e à competição (e.g., duração e dados de GPS) foi igualmente inserida na plataforma. Os procedimentos foram rigorosamente os mesmos para todos os clubes. 

Preparação dos dados: a extensão dos microciclos foi definida pelo número de dias entre dois jogos competitivos, iniciando no dia após o primeiro jogo e terminando com o jogo seguinte. Um microciclo de 3 dias (3-d turnaround) implica, por exemplo, jogar num domingo e, posteriormente, na quarta-feira seguinte. Considerando um total de 1871 microciclos, os mais curtos envolveram 3 dias e os mais longos 8 dias. Os microciclos com 3 dias foram, também, considerados como congestionados. Assumiu-se como “dia de folga” um dia sem jogo, em que, para os 15 principais jogadores da equipa (i.e., os mais utilizados no decurso dessa época), não foi registada na plataforma qualquer exposição a atividades de treino. Os padrões de distribuição dos dias de folga foram analisados para cada microciclo. Os dias com exposição física foram codificados como “x” e os dias de folga como “o”. Foram exploradas todas as combinações possíveis em função da extensão do microciclo, contudo, somente as sequências com ≥10 ocorrências por extensão de microciclo foram incluídas na análise. Uma lesão é geralmente definida como uma mazela ocorrida em treino ou em competição e que impede um jogador de realizar treino ou jogo durante um ou mais dias após a ocorrência (Bahr et al., 2020). A investigação focou-se apenas nas lesões sem contacto que tiveram um impacto substancial na participação em treino ou em jogo competitivo, i.e., só foram consideradas lesões sem contacto que resultaram, no mínimo, em 3 dias perdidos de treino/competição (≥3-day time loss). No total, 511 jogadores principais estiveram envolvidos em 965 lesões com tempo perdido, incluindo 559 lesões sem contacto. 

Análise dos dados: os dados foram analisados ao longo de 3 etapas consecutivas, de uma perspetiva relacional macro para outra micro:

 

1.  Dia de folga por si e taxa de lesão: aferir potenciais diferenças entre as taxas de lesão em treino e em jogo, em função da presença/ausência de, pelo menos, um dia de folga no microciclo (no total e por extensão do microciclo);

2.  Presença de jogos consecutivos (calendário congestionado: 0, 1, ou ≥2 de microciclo de 3 dias) antes do microciclo analisado, incluindo, pelo menos, um dia de folga, ou sem folga, e risco de lesão; 

3.  Distribuição (i.e., quando) dos dias de folga para cada extensão de microciclo e a sua associação com lesões em treino ou em jogo (neste nível, as taxas de lesão foram apresentadas tanto para o microciclo inteiro, como apenas para o número de dias de treino).

 

Análise estatística: os resultados foram apresentados como médias e intervalos de confiança de 95%. A existência de diferenças substanciais foi assumida quando os intervalos de confiança não se sobrepuseram (Cumming, 2018). O d de Cohen foi também calculado para verificar a magnitude das diferenças, tendo por base os seguintes limites: 0.2 (pequena); 0.6 (moderada); 1.2 (grande); 2 (muito grande) (Hopkins et al., 2009).

 

Principais resultados

A taxa de lesão foi 5 vezes mais elevada nos jogos competitivos do que nas sessões de treino, sem diferenças quanto à extensão do microciclo, excetuando para o microciclo de 5 dias, em que foi evidenciado um menor número de lesões em relação aos outros microciclos. 

As diferenças entre microciclos com e sem dia de folga, quanto às taxas de lesão em treino e em jogo, foram inconclusivas. Por sua vez, o número de microciclos congestionados (de 3 dias) que precedeu os microciclos de interesse não apresentou uma relação evidente com as taxas de lesão em treino ou em jogo, independentemente da sua extensão e de incluírem ou não dia de folga. 

Para microciclos até 6 dias, a prática mais frequente foi treinar todos os dias do microciclo (30%–80%, havendo um decréscimo de dias de folga à medida que os microciclos ficam mais curtos). Nestes microciclos, caso tenha sido programado um dia de folga, o mesmo ocorreu mais frequentemente logo após o jogo competitivo: Match Day (MD)+1. Em relação aos microciclos mais longos (7 e 8 dias), a prática mais comum foi dar um dia de folga em MD+1, seguido de treinar todos os dias. Conceder dia de folga em MD+2 aconteceu 44 vezes nos microciclos de 7 dias (10%) e 12 vezes nos microciclos de 8 dias (9%). 

Considerado as taxas de lesão em treino e em jogo como um todo (figura 3), e focando-nos apenas nos 3 tipos mais frequentes de planeamento do microciclo (i.e., sem dia de folga, um dia de folga em MD+1 ou em MD+2), as sequências incluindo um dia de folga em MD+2 (x/o/…) estiveram associadas a uma redução das taxas de lesão por dia, comparativamente às outras duas sequências (sem folga e dia de folga em MD+1), nos microciclos de 3 e de 7 dias (dimensão de efeito moderada a muito grande). As diferenças entre as 3 principais sequências não foram claras para as outras extensões de microciclo.

 

Figura 3. Média total (com intervalo de confiança a 95%) das taxas de lesão sem contacto por microciclo (painel superior) e das taxas totais de lesão sem contacto por treino ou por jogo (painel inferior), em função das 3 principais sequências: sem folga (x/x/…), um dia de folga em MD+1 (o/x/…) e um dia de folga em MD+2 (x/o/…). *,** diferenças moderadas a grandes, respetivamente, em relação a microciclo sem folga. #,## diferenças moderadas a grandes, respetivamente, em relação a microciclos com um dia de folga em MD+1 (Buchheit et al., 2023).

 

Aplicações práticas

A utilização de um vasto conjunto de dados no futebol de elite permitiu comprovar que, apesar de a opção de introduzir um dia de folga por si não demonstrar associações claras com a ocorrência de lesões sem contacto, a sua programação (i.e., quando) no microciclo relevou associações positivas e dignas de registo. Na prática, pelo menos em microciclos com 3 e 7 dias de extensão, propor um dia de folga em MD+2 esteve associado a um decréscimo substancial (2 a 3 vezes) na taxa de lesões contraídas em treino e em jogo, comparativamente a não ter dia de folga ou tê-lo mais cedo, em MD+1. 

Embora haja sempre muitas formas de planear um microciclo, treinar em MD+1 e ter um dia de folga em MD+2 pode providenciar diversas vantagens, tanto ao nível do desempenho competitivo, como no que respeita à incidência de lesão sem contacto. Propor treino em MD+1 permite, por um lado, que os titulares/jogadores mais utilizados possam receber tratamento e realizar uma sessão de recuperação adequada e, por outro lado, que os suplentes não utilizados ou pouco utilizados tenham a oportunidade de treinar em zonas de intensidade elevada para compensar o esforço não realizado em competição. Esta opção metodológica faz com que todos os elementos do plantel “fechem o microciclo anterior” e possam descansar no dia seguinte (MD+2), antes de regressarem “frescos” para um novo ciclo de treino em MD+3 até ao jogo competitivo seguinte. 

Ao invés, ao se optar por um dia de folga em MD+1, reduzem-se e, eventualmente, adiam-se as oportunidades para cuidar da recuperação dos titulares/mais utilizados e para nivelar o esforço realizado pelos suplentes utilizados/não utilizados após o jogo anterior. A consequência desta opção é que alguns jogadores titulares/mais utilizados podem ainda necessitar de tratamento/cuidados em MD+2 e podem, por isso, não estar logo disponíveis para treinar; já os suplentes correm o risco de experienciar um regime de treino leve durante 2 ou 3 dias consecutivos (carga leve em MD-1, 0–30 minutos de jogo e dia de folga em MD+1), o que perturba uma dinâmica de treino que se quer otimal, limitando a adaptação global ao esforço. 

A estrutura de microciclo associada às menores taxas de lesão sem contacto não foi a mais comum na amostra recolhida de diversos clubes profissionais de topo. Os treinadores podem achar que a opção de “descansar 2 dias após o jogo” (MD+2) não constitui uma alternativa pertinente para o contexto em que estão inseridos, apesar de parecer ser a estratégia ideal, do ponto de vista fisiológico e biológico, no papel. Também é verdade que o argumento “lesão” pode não constituir uma prioridade principal para os treinadores no ato de planear o microciclo. Há outros aspetos que podem ser priorizados em detrimento de uma eventual redução na incidência de lesão: (1) a dinâmica psicossocial da equipa (jogadores geralmente preferem o dia de folga logo após o jogo, MD+1); (2) a necessidade de promover cargas de treino mais fortes nos jogadores (pouco descanso ou inexistência de dias de folga durante a pré-época ou no regresso de pausa para férias), ou de preparar taticamente um jogo muito importante; (3) a interferência de outros constrangimentos externos, como, por exemplo, realização de viagens longas.

 

Conclusão

De acordo com o conhecimento dos autores, este foi o primeiro estudo que analisou a associação entre a programação de dias de folga no microciclo de treino de equipas profissionais e as taxas de lesão em treino e em jogo. O resultado mais sonante evidenciou que conceder um dia de folga em MD+2 (2 dias após o jogo) esteve associado com uma redução moderada a grande de lesões sem contacto, em particular, no decurso de microciclos com 3 e 7 dias. Em ocasiões futuras, a investigação deve ainda examinar a carga de treino em cada dia, relativamente a diferentes estratégias de programação das folgas, considerando, também, os diversos tipos de microciclo em termos de extensão.

  

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Physiology and Performance.

28/03/2022

Artigo do mês #27 – março 2022 | A monitorização da carga de treino em jogadores de futebol de elite, numa época desportiva: Variações da perceção subjetiva de esforço e da creatina quinase entre microciclos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 27 -

Autores: Mendes, B., Clemente, F. M., Calvete, F., Carriço, S., & Owen, A.

País: Portugal

Data de publicação: 10-fevereiro-2022

Título: Seasonal training load monitoring among elite level soccer players: Perceived exertion and creatine kinase variations between microcycles

Referência: Mendes, B., Clemente, F. M., Calvete, F., Carriço, S., & Owen, A. (2022). Seasonal training load monitoring among elite level soccer players: Perceived exertion and creatine kinase variations between microcycles. Journal of Human Kinetics, 81, 85–95. https://doi.org/10.2478/hukin-2022-0008

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 27 – março de 2022.

 

Apresentação do problema

O stress fisiológico pode acumular-se ao longo de uma época competitiva, predispondo os jogadores de futebol a situações de incapacidade para lidar com as exigências do treino e da competição, o que pode comprometer os seus desempenhos (Silva et al., 2014). A exposição continuada ao stress fisiológico pode gerar danos musculares e alterações hormonais e imunológicas difíceis de reverter (Ascensão et al., 2008; Hammouda et al., 2012; Silva et al., 2008). Deste modo, a monitorização do treino e a extensa monitorização de múltiplas amostras sanguíneas podem contribuir para controlar estados funcionais e não funcionais de overreaching (fadiga crónica) (Drust et al., 2007; Heisterberg et al., 2013). 

A perceção subjetiva de esforço é um método de controlo da carga popular, barato, efetivo e fácil de aplicar em contexto desportivo (Borg, 1982; Foster et al., 2001). O método de Foster tem sido amplamente utilizado para controlar a carga interna na sessão de treino, consistindo na multiplicação do nível reportado, numa escala de 1 a 10, pela duração da sessão de treino em minutos (Foster et al., 1996, 1998). Estes métodos subjetivos têm sido testados através de tecnologia GPS e com monitorização da frequência cardíaca e os resultados indicam que constituem um indicador global da resposta individual ao treino no futebol e podem ser considerados como fiáveis para controlar a carga interna em contexto prático (Casamichana et al., 2013). Por outro lado, parece que a perceção subjetiva de esforço não parece ser suficientemente fiável em sessões de treino muito exigentes, com colisões e esforços intermitentes de alta intensidade passíveis de originar dano muscular (Lambert & Borresen, 2010; Takarada, 2003). 

Um outro método de autoavaliação, que no caso mede a perceção de fadiga, o nível de stress, o aparecimento da dor muscular retardada e a qualidade do sono, é o índice de Hooper (Hooper & Mackinnon, 1995). É um método para avaliar o bem-estar do atleta e parece ser fiável para evitar situações de sobretreino, porém, raros foram os estudos que procuraram comparar o índice de Hooper com marcadores bioquímicos em jogadores profissionais de futebol de elite. Neste particular, controlar a creatina quinase sérica é um procedimento comum para aferir a extensão do dano muscular em futebolistas profissionais (Andersson et al., 2008; Fatouros et al., 2008; Lazarim et al., 2009), ainda que devam ser ponderados a sua alta variabilidade e a fraca relação com a recuperação muscular (Twist & Highton, 2013). 

Como vimos, o controlo da carga de treino é uma tarefa fundamental para otimizar a performance desportiva. Pode, também, ser útil para controlar a variação da carga nas sessões de treino que compõem o microciclo semanal (Coutinho et al., 2015; Impellizzeri et al., 2004). Apesar disso, são escassos os estudos que analisaram a variação semanal da carga de treino em atletas de elite e, em especial, nenhuma investigação analisou as associações entre a perceção subjetiva de esforço, o índice de Hooper (perceção de bem-estar) e a atividade da creatina quinase. As perceções das diferenças de carga no decurso da semana devem ser consideradas para identificar a sensibilidade dos jogadores às alterações da carga e ao modo como esta afeta a perceção de bem-estar e as respostas orgânicas ao dano muscular. Posto isto, o presente estudo teve o duplo propósito de determinar: 1) a variação da carga de treino diária entre microciclos; 2) as relações entre a perceção subjetiva de esforço, o índice de Hooper e os níveis de cretina quinase de futebolistas profissionais, ao longo dos microciclos semanais que compuseram a totalidade de uma época desportiva.

 

Métodos

Participantes: 35 jogadores profissionais de futebol, do género masculino; 3 guarda-redes, 6 defesas laterais, 4 defesas centrais, 9 médios centro, 8 médios-ala e 4 avançados (idade: 25.7 ± 5.0 anos; estatura: 182.3 ± 6.4 cm; massa corporal: 79.1 ± 7.0 kg). Todos os jogadores pertenciam ao mesmo clube de futebol, jogando na primeira liga portuguesa e na UEFA Champions League e foram monitorizados durante 41 microciclos semanais (figura 2).

 

Figura 2. Jogadores profissionais de futebol de elite num treino de um microciclo semanal (fonte: sapodesporto.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

Design do estudo e recolha de dados: o estudo foi tipicamente longitudinal, com dados recolhidos para cada sessão de treino ao longo de uma época desportiva completa. O índice de Hooper foi monitorizado 30 minutos antes de cada treino, enquanto a perceção subjetiva de esforço foi solicitada 30 minutos após a sessão. A duração das sessões foi registada para quantificar a carga de treino diária: perceção subjetiva de esforço x minutos da sessão de treino. Somente foram recolhidos dados dos jogadores que realizaram todo o volume da sessão de treino. A familiarização com as escalas de perceção subjetiva decorreu na pré-época, também com o intuito de identificar o perfil de resposta de cada elemento do plantel. Durante uma das primeiras semanas da época também foram recolhidas amostras sanguíneas de base para cada jogador, por forma a verificar padrões de recuperação individuais. Além disso, foram recolhidas amostras sanguíneas 48h antes e após cada jogo competitivo, mas apenas para os jogadores que disputaram mais de 60 minutos. 

Variáveis: as variáveis inclusas no estudo estão caracterizadas na tabela 1 quanto à classificação, medidas e procedimentos específicos de recolha. Em relação às respostas subjetivas, os jogadores registaram as suas respostas no seu tablet portátil, contendo uma aplicação configurada para o efeito; para avaliar os fatores do índice de Hooper e a perceção subjetiva de esforço, bastava tocar num valor da escala e salvar a resposta no respetivo perfil de utilizador.

 

Tabela 1. Caracterização das variáveis (independentes e dependentes) do estudo.


Análise estatística: foram corridas análises multivariadas da variância de duas vias (MANOVA) para averiguar diferenças entre os fatores “carga interna”, “índice de Hooper” (total), “minutos de treino” (minT) e “atividade da creatina quinase”. Quando houve interações entre fatores, foi aplicada a análise da variância de dupla via (ANOVA), seguida de ANOVA de uma via e testes post-hoc Tukey HSD para averiguar a variância dentro do fator. As dimensões de efeito (effect sizes; ES) apuradas foram interpretadas de acordo com os seguintes valores de corte: sem efeito (ES < 0.04), efeito mínimo (0.04 < ES < 0.25), efeito moderado (0.25 < ES < 0.64) e efeito forte (ES > 0.64). Os procedimentos estatísticos foram executados no software SPSS v. 23.0, com a significância definida para 5%.

 

Principais resultados

 

·      Variação das variáveis de carga de treino ao longo dos meses

A análise post-hoc revelou dois clusters no fator “meses” (primeiro cluster: agosto – dezembro; segundo cluster: janeiro – maio), com valores do índice de Hooper mais elevados no primeiro cluster (figura 1). Na variável “carga interna” foram identificados três clusters significativamente distintos (primeiro cluster: agosto; segundo cluster: setembro, outubro e fevereiro; terceiro cluster: novembro, dezembro, janeiro, março, abril e maio), sendo os valores mais elevados no primeiro cluster e mais baixos no terceiro. Finalmente, houve diferenças significativas na atividade da creatina quinase (CK) entre agosto e janeiro, e agosto e maio.

 

Figura 1. Variações do Índice de Hooper, da carga interna (internal load) e da atividade da creatina quinase (CK) ao longo dos diversos meses da época (Mendes et al., 2022).

 

·      Variação das variáveis da carga de treino em função do tipo de microciclo

Foram encontrados valores mais elevados no índice de Hooper nos microciclos com 1 jogo, comparativamente aos microciclos com 2 jogos, nos quais a duração dos treinos também foi significativamente mais reduzida. No que à carga de treino diz respeito, os treinos mais exigentes ocorreram nos microciclos sem jogos competitivos, seguindo-se os microciclos com 1 jogo. O tipo de microciclo não afetou a atividade da creatina quinase. A figura 2 exibe diferenças significativas na carga interna entre os dias do microciclo com 1 e 2 jogos, o que não aconteceu nos microciclos sem jogos.

 

Figura 2. Variações da carga interna nos dias de três tipos distintos de microciclo semanal (sem jogo, com 1 jogo e com 2 jogos) (Mendes et al., 2022). Legenda: na semana com 1 jogo – diferença significativa para aMD+1, bMD+2, cMD-4, dMD-3, eMD-2 ou fMD-1; na semana com 2 jogos – diferença significativa para aMD+1, bMD+2, cMD-2 ou dMD-1 (p < 0.05).

 

·      Variação das variáveis da carga de treino em função do dia do treino

O índice de Hooper teve valores significativamente mais elevados nos dias MD+1 e MD+2 e os valores mais baixos nos dias que antecederam os jogos (MD-2 e MD-1). Em relação aos minutos de treino, as sessões mais curtas tiveram lugar no primeiro e segundo dias logo após o jogo competitivo. As sessões mais longas ocorreram nos terceiro e quarto dias antes do jogo competitivo. Os menores valores de carga interna foram registados nos primeiro e sexto dias após o jogo competitivo, enquanto as sessões mais exigentes ocorreram nos terceiro e quarto dias após o jogo.

 

·      Variação das variáveis da carga de treino em função da posição de jogo

Em relação à posição de jogo (figura 3), foram obtidos dois clusters significativamente distintos para o índice de Hooper (primeiro cluster: laterais, médios-ala e centrais; segundo cluster: médios centro, guarda-redes e avançados), com valores mais elevados no primeiro. Os médios mostraram valores mais elevados de carga interna relativamente aos jogadores das outras posições, à exceção dos guarda-redes. Pelo contrário, os defesas centrais apresentaram os menos valores de carga interna, com diferenças significativas para os guarda-redes, médios centro e médios-ala. Houve, também, diferenças significativas entre defesas laterais e médios centro na atividade da creatina quinase.

 

Figura 3. Variações da carga interna entre as diversas posições de jogo (Mendes et al., 2022). Legenda: diferença significativa para aGK (guarda-redes), bWD (defesa lateral), cCD (defesa central), dMF (médio centro), eWMF (médio-ala) ou fFW (avançado).

 

Aplicações práticas

Os treinadores e preparadores físicos devem estar cientes de que a utilização de escalas percetivas (de esforço e bem-estar) constitui uma abordagem útil e apropriada para monitorizar as cargas de treino no futebol. Por se tratar de um método barato e eficiente, pode ser aplicado em qualquer nível competitivo (amador, semiprofissional e profissional). 

A atividade da creatina quinase também é sensível à variação da carga de treino, podendo ser uma variável interessante para monitorizar os efeitos mecânicos induzidos pelas sessões de treino e controlar estados não funcionais de fadiga crónica (overreaching). Contudo, é uma abordagem que não está ao alcance de clubes com menos recursos financeiros. 

A variação da carga interna reflete o trabalho dos jogadores nas sessões de treino, tendo por base os objetivos da equipa técnica para determinado período da época. Por exemplo, o trabalho tende a ser mais exigente na pré-época do que no período competitivo e o ajustamento da carga de treino deve ser ponderado para promover adaptações específicas e desejáveis no plantel. 

O tipo de microciclo em causa condiciona a expressão da perceção de bem-estar (índice de Hooper) e de esforço dos jogadores. Microciclos sem jogos tendem a ser fisicamente mais extenuantes e microciclos com 2 jogos, por pressuporem mais sessões visando a recuperação física e mental, tendem a ser mais aprazíveis. A dinâmica aquisitiva inerente a microciclos com 1 jogo leva a variações mais evidentes da carga interna nos jogadores. 

É imperioso desenvolver um programa de treino contínuo para a condição física dos jogadores, não só para recuperá-los mais rapidamente dos jogos competitivos, mas também para minimizar o risco de lesão e aumentar a disponibilidade para competir. Para o efeito, é absolutamente fundamental compreender as particularidades táticas, técnicas, físicas e mentais associadas ao desempenho das diversas posições de jogo, tendo ainda em consideração as características específicas de cada indivíduo.

 

Conclusão

Este estudo procurou determinar a variação da carga de treino diária em jogadores de futebol de elite, tal como a sua relação com as perceções subjetivas de esforço e bem-estar, e com os níveis de creatina quinase no decurso de uma época completa. As evidências demonstraram a existência de variações significativas no conjunto de variáveis derivadas do treino, em função dos meses, do tipo de microciclo, do dia do microciclo semanal e da posição de jogo. No cômputo geral, a carga interna tem uma relação de proporcionalidade direta com a perceção de bem-estar, sendo a pré-época e os dias a meio da semana normalmente mais exigentes. Estudos futuros podem equacionar a utilização destas técnicas de monitorização para estimar as cargas de treino individuais, eventualmente associando-as a situações nas quais o risco de lesão é real.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Human Kinetics.

28/10/2021

Artigo do mês #22 – outubro 2021 | Quantidade e qualidade do sono em jovens jogadores de um clube profissional de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Merayo, A., Gallego, J. M., sans, O., Capdevila, L., Iranzo, A., Sugimoto, D., & Rodas, G.

País: Espanha

Data de publicação: 17-agosto-2021

Título: Quantity and quality of sleep in young players of a professional football club

Revista: Science and Medicine in Football

Referência: Merayo, A., Gallego, J. M., sans, O., Capdevila, L., Iranzo, A., Sugimoto, D., & Rodas, G. (2021). Quantity and quality of sleep in young players of a professional football club. Science and Medicine in Football. https://doi.org/10.1080/24733938.2021.1962541

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 22 – outubro de 2021.

 

Apresentação do problema

A adequação da quantidade e da qualidade do sono acarreta benefícios, contribuindo para otimizar as performances física e cognitiva e para manter o bem-estar emocional (Simpson et al., 2017; Wheaton et al., 2011). Nos últimos tempos, os atletas e os treinadores têm considerado o sono como um dos pilares da performance desportiva de alto nível, mas a verdade é que alguns atletas não cumprem as recomendações dos especialistas (Halson & Juliff, 2017; Malhotra, 2017). Há um corpo de evidências crescente que aponta que o sono tem um impacto positivo em fatores como as performances física e neurocognitiva, a incidência de lesões, a regulação do humor, a função imunitária e o peso corporal, mas também é uma das estratégias de recuperação mais efetivas devido aos seus efeitos fisiológicos de regeneração (Halson, 2008). 

Por sua vez, diversos estudos têm demonstrado que a restrição parcial ou total de sono, tal como o sono de baixa qualidade, influenciam negativamente a performance desportiva, surgindo associados a perda de resistência (Fullagar et al., 2015; Simpson et al., 2017), redução da potência anaeróbia (Skein et al., 2011; Watson, 2017), decréscimos de precisão e tempo de reação em desportos como o basquetebol e o ténis (Suppiah et al., 2016; Watson, 2017) e ao aumento do risco de lesão em atletas (Milewski et al., 2014; von Rosen et al., 2017). A um nível cognitivo-emocional, dormir mal tem sido associado a reduções da capacidade de aprendizagem e das funções executivas, que são aspetos-chave para o desenvolvimento tático nas sessões de treino (Malhotra, 2017; Pallesen et al., 2017; Watson et al., 2017). A própria regulação do humor fica comprometida, concorrendo para um aumento de stress, sentimento de frustração, apatia, irritabilidade e diminuição da autoconfiança (Venter, 2012). 

Apesar de todo o conhecimento acerca da importância do sono, os atletas tendem a apresentar déficits, em termos de quantidade e qualidade, comparativamente à população geral, considerando as variáveis idade e género (Halson & Juliff, 2017; Watson, 2017). As barreiras que a privação do sono gera são especialmente válidas para jovens atletas, pois têm de compatibilizar os desempenhos desportivos com o rendimento académico. Esta problemática é mais preocupante em adolescentes, uma vez que têm uma elevada propensão para o designado “atraso da fase de mudança” (Sateia, 2014), que consiste na tendência em ir para a cama tarde e a necessidade de levantar cedo para ir para a escola, resultando na privação de sono. Além de todos os efeitos negativos já mencionados que a restrição de sono provoca, sabe-se que prejudica ainda o aproveitamento académico e aumenta a tendência para o abandono escolar (Malhotra, 2017). 

Posto isto, há a necessidade premente de investigar o impacto negativo que a restrição de sono pode ter em adolescentes que combinam a vida académica com o desporto competitivo. O objetivo do estudo consistiu em avaliar a quantidade e a qualidade do sono em jovens futebolistas pertencentes aos quadros de um clube profissional. Adicionalmente, os autores analisaram as relações entre a quantidade e a qualidade do sono e os estados emocionais e o aproveitamento escolar dos jogadores.

 

Métodos

Participantes: os participantes do estudo foram classificados por género e faixa etária. A coorte envolveu 261 jogadores de futebol (201 do género masculino e 60 do género feminino) de todos os escalões jovens de um clube profissional (até à equipa de reservas): o FC Barcelona (figura 2). As idades dos participantes variaram entre os 7 e os 25 anos (média = 13.04; desvio-padrão = 3.16). Os indivíduos foram agrupados em três faixas etárias, de acordo as recomendações da American National Sleep Foundation para estudos envolvendo a análise do sono: 7–11, 12–15 e 16–25 anos. O estudo decorreu na época 2018/2019 e os dados foram tratados de forma anónima, respeitando os procedimentos éticos e de proteção dos dados do clube.

 

Figura 2. La Masia, a academia do FC Barcelona (fonte: mundodeportivo.com; foto não publicada pelos autores).

 

Respostas aos questionários: os jogadores e os encarregados de educação de crianças com idade ≤ 12 anos responderam aos questionários através de uma plataforma digital online. Vinte e cinco jogadores que não dispunham de dispositivos eletrónicos responderam aos questionários em papel, sendo os dados posteriormente inseridos na plataforma online pelo investigador principal. O tempo necessário para preencher os três questionários variou entre 20–30 minutos. Todos os questionários foram preenchidos por todos os participantes no mesmo dia, sendo que o preenchimento do diário de sono continuou nos 4 dias seguintes (5 entradas por indivíduo no total). 

Avaliação da qualidade do sono: o questionário Sleep Disturbance Scale in Children (SDSC) foi aplicado para avaliar a qualidade do sono dos participantes. Este questionário é composto por 27 itens, com questões relativas a 6 fatores: início e manutenção do sono, dores de crescimento, distúrbios de respiração no sono, distúrbios na transição do sono para o despertar, sonolência excessiva durante o dia e hiperidrose (suor excessivo) no sono. As respostas foram expressas em graus de concordância com diversas frases, numa escala Likert 5 pontos (1 = Nunca; 5 = Sempre), em que scores mais elevados indicam menor qualidade do sono. 

Avaliação da quantidade de sono: a quantidade de sono foi medida através de um registo diário do sono, preenchido pelos participantes de manhã logo após acordar. Os participantes reportaram a hora estimada de início do sono, o número de vezes que acordaram durante a noite e, se tal sucedeu, o tempo e o motivo por que interromperam o sono. As horas de sono foram calculadas com base no tempo estimado do adormecer e do acordar, subtraindo a duração das interrupções noturnas, mais a duração da(s) sesta(s) diurna(s). As horas de sono foram convertidas para uma escala decimal. Os participantes preencheram o diário de sono na sua residência habitual. 

Avaliação do bem-estar psicológico: foi medido através de dois indicadores. Primeiro, foi aplicado o Positive and Negative Affect Scale (PANAS, Watson, 1888), que consiste em 10 itens (5 de valência positiva e 5 de valência negativa) sobre como os jogadores se sentiram nas 3–4 semanas anteriores, medidos através de uma escala Likert 7 pontos. Segundo, foi proposta a Subjective Vitality Scale (SVS), ferramenta que tem sido validada para avaliar dinamicamente o bem-estar (García, 2019). Este questionário é composto por 7 itens, referentes ao entusiasmo e a sentimentos de vivacidade e energia, sendo as respostas anotadas numa escala Likert 7 pontos; valores mais altos correspondem a maior vitalidade. 

Avaliação do desempenho académico: as classificações do primeiro trimestre do ano letivo (finalizado em dezembro) foram facultadas pelos participantes ou pelos encarregados de educação (familiares). Este trimestre correspondeu ao período de aplicação dos questionários. É de referir que o sistema de ensino espanhol atribui classificações até 10 pontos; valores inferiores a 5 são considerados negativos. 

Análise estatística: os dados foram descritos como média ± desvios-padrão, para números absolutos ou percentagens. A normalidade dos parâmetros quantitativos foi verificada através dos testes Omnibus D’Agostino-Pearson e Kolmogorov-Smirnov. As variáveis sem distribuição normal foram normalizadas para posterior análise. Os dados paramétricos foram comparados através de ANOVA de uma via e testes post-hoc de Tukey. A relação entre as variáveis quantitativas do estudo foi aferida através de correlações de Pearson. A análise estatística foi executada nos softwares SPSS (v. 25.0) e SAS (v. 9.1.3) e o nível de significância foi predefinido para p ≤ 0.05.

 

Principais resultados

 

·      Quantidade de sono

A análise dos diários de sono mostrou que o número médio de horas de sono foi significativamente inferior às recomendações internacionais da American National Sleep Foundation: 9–11 horas para crianças/jovens entre os 6 e os 13 anos; 8–10 horas para adolescentes entre os 14 e os 17 anos; 7–9 horas para jovens adultos entre os 18 e os 25 anos. Cerca de 70% dos participantes dormiram menos do que recomendado. O número de horas reportado no questionário SDSC foi significativamente mais baixo comparando com os diários dos participantes (figura 3). Houve uma correlação negativa entre o número médio de horas de sono e a idade dos participantes, o que demonstra que, à medida que a idade dos jogadores avança, estes tendem a dormir menos horas.

 

Figura 3. Número médio de horas de sono apurado pelo questionário SDSC e pelo diário de sono, por faixa etária. a e b: diferenças significativas para o grupo 7–11 anos (p < 0.001) (Merayo et al., 2021).

 

·      Qualidade do sono

Para todas as faixas etárias, os autores verificaram que os resultados médios de qualidade do sono excederam os 39 pontos, valor de corte para a suspeição de desordens de sono (i.e., problemas relativos à qualidade e quantidade de sono) (Bruni et al., 1996). A este nível, quanto mais elevados forem os resultados apurados no questionário SDSC, pior é a qualidade do sono. Os valores obtidos para participantes com idades ≥ 12 anos foram significativamente superiores ao constatado para a faixa etária 7–11 anos, indicando pior qualidade de sono em jogadores mais velhos (figura 4). Ademais, menos horas a dormir está correlacionado com pior qualidade do sono, o que foi mais notório nos jogadores mais velhos.

 

Figura 4. Resultados da qualidade do sono obtidos através do questionário SDSC para os diferentes grupos etários. a: diferenças significativas para o grupo 7–11 anos (p < 0.001) (Merayo et al., 2021).

 

·      Associação entre bem-estar e quantidade e qualidade do sono

Não foi encontrada uma relação entre mais horas e melhor qualidade de sono com humor positivo ou perceção de bem-estar reportados pelos participantes.

 

·      Associação entre desempenho académico e quantidade e qualidade do sono

No global, jogadores que tiveram maior quantidade e melhor qualidade de sono obtiveram um melhor aproveitamento escolar (i.e., classificação média das diversas disciplinas).

 

Aplicações práticas

É importante que os clubes e as equipas técnicas garantam que crianças e jovens jogadores adquiram e mantenham bons hábitos de sono, pois trata-se de uma rotina diária que concorre para a manifestação de uma mentalidade mais positiva e competitiva. 

Houve uma relação evidente entre quantidade e qualidade do sono nas diversas faixas etárias investigadas. Uma vez que dormir é fundamental para o desenvolvimento físico e mental de indivíduos com idade < 18 anos, os clubes devem promover ações de sensibilização/formação para crianças/jovens, encarregados de educação e tutores, por forma a que boas rotinas de sono sejam implementadas em casa ou no centro/academia de treino. 

Internamente, os clubes/escolas de futebol devem criar, ou adotar, e utilizar ferramentas e técnicas que permitam otimizar o sono e o descanso das suas crianças/jovens. O recurso a manuais de higiene do sono, diários de sono e vídeos educativos pode ser bastante útil para incrementar a quantidade e a qualidade do sono em jovens que aliam a vida académica às exigências competitivas do desporto federado. A contratação de um “conselheiro de sono” pode ser benéfica para o diagnóstico e para o desenvolvimento de estratégias específicas para melhorar o perfil de sono de atletas com distúrbios neste âmbito.

 

Conclusão

As crianças e os jovens jogadores pertencentes a um clube profissional eclético dormiram menos do que o recomendado pelas linhas de orientação internacionais, o que teve um impacto negativo no desempenho escolar. Aparentemente, o sono é uma variável com uma influência considerável no aproveitamento académico, mas que também pode abranger a dimensão física. No futuro seria importante perceber se a otimização da quantidade e da qualidade do sono melhora o bem-estar psicológico e as classificações escolares. 

Este estudo constituiu um primeiro passo para alertar crianças/jovens, familiares e profissionais do treino para a importância de se cuidar da quantidade e da qualidade do sono no contexto do desporto infantojuvenil. Algumas medidas foram propostas no sentido de se obter uma perspetiva geral sobre como os jogadores dormem e, com isso, ser possível desenvolver estratégias para mitigar os efeitos negativos da restrição do sono em idades jovens. Por último, são necessários mais estudos para melhor compreender os padrões de sono inerentes a performances desportivas de excelência e para examinar a viabilidade e a adesão aos hábitos de sono recomendados para crianças e jovens desportistas.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.