Em 2016, numa ação de formação sobre “liderança no desporto”, o professor Tomaz Morais referiu que o rendimento desportivo, em particular na alta competição, é o resultado do somatório de duas componentes essenciais: atitude e competência.
A propósito da mais recente Liga Portuguesa bwin conquistada pelo Futebol Clube do Porto – o 30.º campeonato de futebol do clube –, e completamente à margem de todas as polémicas relacionadas com questões de arbitragem, devemos reconhecer que a equipa de Sérgio Conceição bateu inequivocamente qualquer equipa em matéria de atitude (foco, compromisso e sentido coletivo). No que respeita à componente “competência”, foi também o conjunto mais eficaz e regular nas diversas fases e momentos do jogo.
Para
ilustrar a importância da atitude em contexto competitivo, analisemos o lance que,
aos 90’+4, decide a vitória do FC Porto no jogo de ontem diante do Sport Lisboa
e Benfica. Convido-vos a observar os comportamentos de transição defensiva da
maioria dos jogadores da casa, mas designadamente de Adel Taarabt:
Em
quatro “frames” demonstro o porquê de termos um SL Benfica a 17 pontos do FC
Porto e a 11 do Sporting Clube de Portugal. A atitude nestes momentos de
transição defensiva tem sido quase norma: lenta, carente de objetividade e entreajuda.
Inicialmente, após a execução do pontapé de canto, o equilíbrio defensivo encarnado
parecia assegurado, com três jogadores fora da área visitante (figura 1). Uma
vez que o grosso dos alívios defensivos geralmente ocorre para o local em que
Pepê recolheu a bola, Taarabt e Darwin não apresentam o posicionamento ideal
para contrariar um possível contra-ataque. Contudo, nesta fase do jogo, e com o
SL Benfica a dar tudo para evitar a festa azul e branca, até é admissível (e
vulgar) que haja algum desacerto posicional no cumprimento do equilíbrio
defensivo.
Figura 1. Início da transição defensiva
com o SL Benfica em superioridade numérica fora da área de penálti.
Nos
episódios de transição defensiva, a atitude competitiva é aferida pelo modo com
os jogadores e as equipas reagem à perda da posse de bola. Se a maioria dos
jogadores das águias nem esboçou reação para recuperar defensivamente, Darwin –
que de resto foi o mais rápido a tentar fechar espaço defensivo –, somente
iniciou o sprint após percecionar Taarabt a ser ultrapassado em velocidade por
Pepê no duelo 1v1 (figura 2).
Figura 2. Desenrolar da transição
defensiva, com Taarabt a ser ultrapassado por Pepê.
O
terceiro “frame” é marcante para o desfecho do contra-ataque. Taarabt, batido em
velocidade por Pepê, deveria ter ajustado a corrida de recuperação para fechar
o espaço defensivo no corredor central. Com essa possível adaptação tática, equilibraria
a relação numérica (Pepê vs. João Mário; Zaidu vs. Taarabt) e, no mínimo,
cobriria o espaço vital à entrada da sua área de penálti. Não só não acompanhou
Pepê, como não fechou o espaço central, como ainda foi totalmente ultrapassado
por Zaidu e pelo árbitro Luís Godinho (figura 3). Uma atitude incompreensível e
que não faz jus às exigências competitivas de um clube de referência como é o
SL Benfica.
Figura 3. O princípio do sucesso do contra-ataque
do FC Porto: a “atitude” de Taarabt.
O
vídeo e o último “frame” mostram que João Mário fez tudo o que podia para temporizar.
Dividiu a ocupação espacial para evitar a progressão de Pepê para a baliza e,
simultaneamente, para cortar a linha de passe para Zaidu. Por força da
desvantagem numérica, não foi bem-sucedido. Taarabt assistiu “a meio gás” ao
2v1, ao golo de Zaidu e à festa do FC Porto (figura 4).
Figura 4. O 2v1 do FC Porto que viria a
resultar no golo de Zaidum. Taarabt ficou a ver.
Em jeito de conclusão, é justo assinalar que a pontuação alcançada pelos portistas não pode dar azo a que análises, no mínimo questionáveis, em torno de mais ou menos centímetros, mais ou menos cartões, mais ou menos penáltis, ofusquem o grupo que mais rendimento desportivo exibiu ao longo da época. Por sua vez, o SL Benfica deve refletir a fundo sobre o que pretende para sua equipa principal e definir um plano estratégico para o alcançar. Nesta busca interna de rumo para o futuro, a “atitude” deverá ser uma componente inegociável para todos, assente numa identidade própria – a famigerada mística – que exclua por completo qualquer manifestação de facilitismo, conformação e irresponsabilidade.
Parabéns
ao FC Porto pelo 30.º título nacional de futebol.
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