19/11/2020

Artigo do mês #11 – novembro 2020 | “Scanning”, fatores contextuais e performance em jogadores da Premier League

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Jordet, G., Aksum, K. M., Pedersen, D. N., Walvekar, A., Trivedi, A., McCall, A., Ivarsson, A., & Priestley, D.

País: Noruega

Data de publicação: 6-outubro-2020

Título: Scanning, contextual factors, and association with performance in English Premier League footballers: An investigation across a season

Revista: Frontiers in Psychology

Referência: Jordet, G., Aksum, K. M., Pedersen, D. N., Walvekar, A., Trivedi, A., McCall, A., Ivarsson, A., & Priestley, D. (2020). Scanning, contextual factors, and association with performance in English Premier League footballers: An investigation across a season. Frontiers in Psychology, 11, 553813. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2020.553813

  


Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 11 – novembro de 2020.

Apresentação do problema

O futebol é um desporto altamente dinâmico, fluído e complexo, pelo que a capacidade dos jogadores em recolher informação visual dos companheiros de equipa e adversários pode, logicamente, ser um aspeto chave no desempenho competitivo. As evidências indicam que mecanismos percetivos e cognitivos diferenciam jogadores mais ou menos competentes, e performances superiores de outras de menor qualidade (Mann et al., 2019; Williams & Jackson, 2019). Por exemplo, num estudo com 44 jogadores profissionais e semiprofissionais em Inglaterra (Roca et al., 2018), os indivíduos mais criativos revelaram um foco atencional mais abrangente, demonstrando fixações visuais de curta duração mais frequentes do que indivíduos menos criativos. Estas mudanças da localização de fixação visual fazem sentido, pois, nos desportivos coletivos com bola, os jogadores têm de alternar constantemente a atenção entre diferentes objetos/corpos (i.e., bola, baliza, companheiros e adversários). 

Até à data, a maioria dos estudos produzidos neste âmbito tem sido conduzida em contextos laboratoriais, portanto, com um baixo grau de representatividade em relação ao que sucede na vida real. Adicionalmente, escassas são as investigações que têm documentado os processos percetivos em jogadores profissionais de elite, possivelmente porque é uma população difícil de recrutar para este tipo de pesquisa. Este trabalho dá sequência a uma linha de investigação que se tem centrado na observação e análise sistemática do comportamento de jogadores de futebol de elite em contextos reais de prática. 

A perceção é um processo ativo de obtenção de informação do mundo, um ato psicossomático que implica uma ação motora (Gibson, 1966, 1979). No futebol, em concreto, o “scanning” (i.e., varrer com o olhar; perscrutar) consiste num movimento ativo da cabeça, em que a face do jogador é temporariamente direcionada para locais afastados da bola, no intuito de reunir informação do envolvimento na preparação de ações subsequentes com bola. Nesta matéria, um estudo prévio de Jordet e colaboradores (2013) mostrou que, de entre 118 jogadores de futebol (médios e avançados) da Premier League, aqueles que haviam recebido um prémio individual de prestígio (e.g., FIFA World Player of the Year) perscrutavam mais vezes o envolvimento antes de receber a bola, e que havia uma relação positiva entre a frequência de “scanning” e passes completos. McGuckian et al. (2020) também verificou que jovens jogadores de elite adotam comportamentos de “scanning” mais extensivamente quando em posse de bola, comparativamente a quando não a têm, fazem-no mais no terço defensivo do campo e menos no intermédio, e jogadores de posições centrais, quando em posse de bola, “varrem” mais o jogo com o olhar do que jogadores em posições periféricas.

 


Contudo, nenhum dos estudos realizados no terreno controlou estatisticamente a influência que fatores contextuais e individuais podem exercer nos resultados obtidos. Parece ser fundamental avaliar o impacto específico destes fatores, de forma a melhor compreender os comportamentos percetivo-cognitivos dos jogadores de elite em situação real de competição. Assim, o objetivo do estudo foi examinar o modo como 27 jogadores profissionais de futebol, de um clube da Premier League inglesa, utilizam o “scanning” em jogos competitivos, as condições nas quais exibem este comportamento e as relações entre estes comportamentos e a performance.


Materiais e Métodos

Participantes e dados: 27 jogadores profissionais do género masculino, com idades compreendidas entre os 17 e os 32 anos (M = 25.66 ± 4.26). Todos os jogadores representaram a mesma equipa na Premier League inglesa, na época 2017/2018. Foram recolhidos dados referentes a 9574 posses de bola individuais, obtidos em 21 jogos em “casa” (13 jogos na Premier League, 6 na UEFA Europa League e 2 na Taça da Liga). 

Procedimentos: os jogos foram gravados por três câmaras digitais colocadas numa posição elevada nas bancadas, ao nível da linha do meio-campo. Após um processo de sincronização de imagens e de focalização dos jogadores, em função de coordenadas posicionais, um programa a disponibilizar na web foi criado para que os observadores pudessem codificar as ações específicas dos jogadores na unidade de tempo. Todos os observadores cumpriram protocolos de treino e de fiabilidade rigorosos para que pudessem recolher dados para o estudo. A fiabilidade interobservador foi calculada através do Cohen’s K para variáveis nominais e do Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC) para variáveis ordinais e contínuas. Para a principal variável do estudo – "scanning" –, a fiabilidade interobservador obteve um valor médio de 0.960 (excelente). 

Variáveis: foram definidos três tipos de variáveis para o estudo, as relacionadas (1) com o comportamento de “scanning”, (2) com o contexto e (3) com a performance com bola.

 

“Scanning”

· Scan: movimento ativo da cabeça do jogador, no qual a face (e os olhos) estão temporariamente direcionados além da localização da bola, no sentido de recolher informação sobre companheiros e/ou oponentes para preparar a ação subsequente com bola (Jordet et al., 2005b).

· Frequência de scan: número de comportamentos de exploração visual por segundo, contabilizados nos últimos 10 segundos em que a equipa do jogador alvo esteve em posse, antes de o mesmo receber a bola.

 

Contexto

· Posição de jogo: posição do jogador em função da formação inicial da equipa (central, lateral, médio centro, ala/extremo ou avançado).

· Localização no campo: posição do jogador no campo quando recebe a bola num passe, apurada através de coordenadas posicionais (x, y).

· Pressão adversária: distância (em metros) entre o jogador alvo e o oponente mais próximo, no momento em que o jogador alvo recebe a bola, sendo avaliada visualmente pelo observador em cada posse de bola.

· Estado do jogo: averiguado através de duas variáveis: resultado corrente do jogo no momento de uma dada posse de bola (a vencer, empatado ou a perder) e tempo de jogo acumulado pelo jogador alvo, contabilizado em intervalos de 5 minutos (dos 0 aos 90 minutos, com uma categoria extra para tempos adicionais).

 

Performance com bola

· Direção da ação: direção da ação do jogador alvo em cada situação, sendo a direção estimada a partir da posição final da bola após o término da ação (para a frente, para trás ou para o lado).

· Tipo de ação: as ações registadas foram passe, remate, drible e receção. Assim, foram diferenciadas as seguintes categorias: (1) passe longo penetrante (ultrapassa duas ou mais linhas adversárias), (2) passe curto penetrante (ultrapassa uma linha adversária), (3) passe para a frente não penetrante, (4) passe lateral, (5) passe à retaguarda e (6) sem passe (quando a última ação foi um remate, drible ou receção da bola).

· Sucesso da ação: se a equipa do jogador alvo mantém a posse de bola após a sua última ação, a mesma foi considerada como bem-sucedida; o caso inverso, foi categorizado como malsucedido. 

Análise estatística: a verificação da assunção de normalidade e a análise de diferenças nos comportamentos de “scanning”, sob diferentes condições contextuais (e.g., posição de jogo, pressão adversária, localização do campo, estado do jogo e sucesso das ações), foram concretizadas mediante testes não-paramétricos no SPSS v. 24.0. Foram utilizados modelos hierárquicos de Bayesian para uma e para múltiplas variáveis explicativas, através do software “pymc3” Python (Salvatier et al., 2016), para estimar coeficientes de “scanning” de cada jogador.


Principais resultados

Os jogadores realizaram, em média, 3.0 “scans” (± 2.1) nos últimos 10 s antes de receberem a bola. A frequência de exploração visual variou significativamente entre diferentes posições de jogo, sendo mais elevada nos médios centro (dimensão de efeito média). Quanto maior é a pressão defensiva adversária (0–1 m do oponente mais próximo), menor tende a ser a frequência de movimentos da cabeça do jogador alvo, aumentando o valor progressivamente até aos 4 m de distância do defensor mais próximo (dimensão de efeito pequena). Para eventos de passe, os jogadores executaram comportamentos de “scan”, em média, acima do percentil 75 (0.6 scans/s) em torno da sua área de penálti, e entre esta e o grande círculo, no corredor central. A frequência de varrimentos decresceu abaixo da média nas áreas limítrofes do campo (<0.3 scans/s), em especial no terço ofensivo, havendo ainda uma diminuição abrupta do terço intermédio para o ofensivo (figura 2). 

 

Figura 2. Local do campo e frequência de “scan”: quanto mais claro, maior a frequência de exploração visual. Direção de ataque: da esquerda para a direita (Jordet et al., 2020).

 

O resultado corrente do jogo também afetou a frequência de “scan”. Os jogadores perscrutaram o envolvimento mais vezes em situação de desvantagem no marcador, comparativamente à circunstância de empate. No que respeita ao tempo acumulado de jogo, a frequência de exploração visual foi relativamente estável ao longo da primeira parte, o que não sucedeu na segunda parte, com uma tendência para a significância decrescente entre os 76–80 min e 81–85 min, e entre os 76–80 min e os 90 minutos mais tempo adicional. 

Os jogadores efetuaram mais varrimentos com a cabeça antes de ações para a frente, comparativamente com outras direcionadas para o lado ou para trás. Os jogadores tiveram a maior frequência de “scanning” quando a sua última ação foi um passe (Média = 0.45 scans/s), em comparação com drible (M = 0.39 scans/s), receção (M = 0.35 scans/s) e ação de finalização (M = 0.27 scans/s). 

Para compreendermos a importância dos comportamentos de exploração visual, note-se que os jogadores tiveram frequências de “scanning” mais elevadas quando a sua equipa manteve a posse após as suas ações com bola (M = 0.46 scans/s). Quando a equipa perdeu a posse de bola, a frequência prévia de varrimento foi menor (M = 0.37 scans/s), o que foi particularmente evidente para a ação de passe: completos (M = 0.46 scans/s) vs. incompletos (M = 0.40 scans/s). De acordo com os modelos Bayesian, quando a variável afeta à dificuldade do passe é constante, quanto maior for a frequência de “scanning” do jogador, maior será a probabilidade de completar o passe. Apesar disso, também ficou demonstrado que a vantagem conferida por se aumentar a frequência de exploração visual é muito menor relativamente à capacidade técnica intrínseca do jogador e ao contexto no qual o passe é executado.

 

Aplicações práticas

Os resultados suportam que as ações de exploração visual, como o “scanning”, constituem uma componente que os profissionais devem estimular em situação de treino, no sentido de ajudar os jogadores a melhorarem a obtenção de informação contextual e a incrementar a performance competitiva. 

No cômputo geral, a equipa técnica terá todo o interesse em aumentar a capacidade dos atletas no que à atenção visual diz respeito. Com este tipo de metodologia observacional, é possível apurar o diferencial entre aquilo que o jogador perceciona e o que a equipa técnica pretende que ele integre: para onde é que deve olhar? Para que pistas do envolvimento? Quando é que os jogadores devem olhar para determinado ponto/colega de equipa/opositor e quando não o devem fazer? Quais os momentos críticos de interesse para o treinador e até que ponto dos jogadores percecionam (ou não), em escassas frações de segundo, informação crucial que pode decidir o jogo? 

Em suma, os treinadores devem promover a integração destes comportamentos de “scanning” em exercícios de treino e, especialmente, em tarefas de jogo que tenham em consideração as capacidades e as necessidades dos jogadores, o modelo de jogo e o plano estratégico-tático para o compromisso competitivo seguinte.

 

Conclusão

Os jogadores de futebol de elite a competir na Premier League inglesa executam frequentemente comportamentos de exploração visual segundos antes de receberem a bola. Foram verificadas diferenças posicionais e contextuais nas ações de “scanning”, o que pode ser explicado pelos requisitos que diferentes fases e aspetos do jogo suscitam. 

Através de um modelo estatístico sofisticado, os dados indicaram uma relação positiva, embora de pequena dimensão, entre as ações de “scanning” e a eficácia do passe, ou seja, ao aumento da frequência de exploração visual corresponde um aumento da taxa de passes completos. Contudo, dado que as diferenças encontradas foram relativamente pequenas ou modestas, os autores não asseguram que o “scanning” seja uma determinante da performance no futebol, pois são inúmeros e incomensuráveis os fatores que podem afetar a performance das equipas num dado momento do jogo. 

O interesse deste estudo residiu na exploração da variável “scanning” em contexto de jogo. Além de admitir a sua incompletude, os autores destacam o seu potencial futuro para, conjuntamente com outros dados multidisciplinares, levar a diálogos e intervenções fascinantes e inovadores com jogadores e treinadores, designadamente se a relação entre seres humanos e tecnologia continuar a progredir ao ritmo atual.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Frontiers in Psychology.

14/11/2020

A Paixão do Conde de Fróis (1986), de Mário de Carvalho

“A paixão do Conde de Fróis”, livro primeiramente publicado em 1986, constituiu a minha estreia na literatura produzida pelo escritor português Mário de Carvalho (figura 1). Trata-se de um romance histórico ficcionado, no qual o filho do Conde de Fróis é desterrado para a raia transmontana na sequência de uma rixa em Lisboa, em pleno reinado de D. José, no século XVIII. A punição fora branda para as possibilidades que haviam sido propostas pelo ministro que governava à data – o distinto Sebastião José, Marquês de Pombal. 

 

Figura 1. Capa do livro “A Paixão do Conde de Fróis” (1.ª Edição da Porto Editora, 2015).

 

Não fosse o jovem fidalgo “reincidir na estroinice”, quis o pai que fosse acompanhado pelo capelão da família até ao destino do desterro: a praça de S. Gens. Acontece que o jovem conde metamorfoseou assim que recebeu a incumbência d’el-rei; o anterior rebelde virou homem rijo e diligente, colocando, desde logo, o padre-mestre no sítio: quem daria ordens era ele e mais ninguém! 

A caminho de S. Gens faleceu o velho governador da praça, o Marquês de Lobais, pelo que é atribuída ao conde a função de gerir os destinos do espaço, que com ele readquire o tino, o aprumo e o zelo essenciais para efetivar a missão do foro militar. À paixão do jovem conde por tropa, baluartes e guerra, contrapõe-se o desencanto do capelão pelas sucessivas desfeitas do fidalgo e pela sua condição de subalterno desprezado: “Ao menos se o vento levasse aquela amaldiçoada praça…” (p. 32). 

E é precisamente nesta relação conflituante entre o fidalgo, firme de carácter e obstinado pelo cumprimento do dever, e o capelão de família, interesseiro, intrometido e dissimulado, que se desenrola a trama. Recordemos, por exemplo, o castigo do conde a um soldado que, habilmente impelido pelo senhor padre, disparou um tiro a três lobos, na ocasião vultos em movimento no monte, alheios às más intenções humanas:

 

Querendo – respondeu o conde –, prestará Vossa Paternidade as contas que bem entender à sua consciência ou à Divina Misericórdia. Sobre Vossa Paternidade não tenho, nem quereria ter jurisdição. Quanto ao soldado, cometeu uma falta e vai ser castigado por ela. (…) talvez assim aprenda a obedecer a quem deve e a desobedecer a quem não deve…

(p. 44) 

À crescente virtude demostrada pelo fidalgo nas decisões tomadas, no intuito de proteger a praça do exército coligado de espanhóis e franceses, correspondia a desgraça do servo de Deus:

 

À medida que as notícias vinham, de longe em longe, o padre ia-se sobressaltando. Havia um desencontro entre as suas expectativas e os enredos tecidos pela Providência. Não tinha contado com guerras, e uma praça raiana era justamente o sítio mais incómodo para aguardar que as hostilidades passassem. E ele não se sentia merecedor de desgraças. Já lhe ia bastando aquele ermamento, no fim do mundo. Tudo o que mais viesse sobejaria.

(p. 50) 

Chegados os invasores e montado o cerco, a praça de S. Gens ia resistindo conforme podia. Perante a intransigência do senhor conde em se render e escancarar as portas da aldeia aos espanhóis, o ânimo do povo diminuía, não somente pelo sentimento de insegurança vigente, mas também pelos boatos da descrença do conde que se iam disseminando por meio do capelão – na praça não entraria nem o próprio filho de Deus. Se ao jovem Conde de Fróis lhe poderíamos apontar o erro de ignorar a moral dos seus súbditos, a Sua Paternidade poderíamos legar a responsabilidade de conspirar e atraiçoar o seu suserano: “Pela primeira vez nos largos meses de desterro naquele calcanhar do mundo, o padre sentiu que os seus manejos compensavam, que lhe rendia a semeadura” (p. 168). 

Numa derradeira operação para deter os avanços das trincheiras adversárias, a investida foi denunciada pelos soldados que permaneceram na praça. A porta da traição, com designação a preceito, foi fechada a sete chaves e o conde e os restantes militares deixados à mercê do exército invasor. 

Na missa de corpo presente do Conde de Fróis, com a comparência do Marquês de Alagon, velho líder do exército espanhol, o capelão, qual ilustre representante de honradez, “(…) prestou ao jovem fidalgo um alevantado elogio fúnebre, repassado de tropos retóricos, em que a temperança, a virtude e a coragem eram comparadas às figuras egrégias dos livros antigos” (p. 212). O último parágrafo remete-nos para atributos de tempos antigos, que jamais poderemos reconhecer no sacerdote que os proclamou – aquele que, segundo o narrador, “nunca tocou no coração do povo” e que apenas se queria misturar com “gente de gabarito”.

27/10/2020

“Jogar” com o oponente – Interpretação dos “sinais” e adaptação num esquema tático (bem-sucedido)

Num texto recentemente publicado no Linha de Passe: “Pontapés de canto longos e alternativas – motivos para diversificar”, foi enfatizada a importância de “desposicionar” as equipas adversárias do seu método defensivo, através de pontapés de canto batidos de modo indireto (“curtos”), a fim de retirar dividendos ofensivos. Para ilustrar esse texto, adicionei um vídeo de um golo que a equipa de Sub-17 (Juvenis A) do Portimonense SC marcou diante do Louletano DC, na época 2017/2018, e que, na ocasião, valeu a reviravolta (2-1) num jogo muito competitivo. Passo a recuperar essas imagens:

 


Se a premissa que originou a execução do método indireto foi explanada na publicação supramencionada, as estratégias e os meios de treino que estiveram na origem das decisões tomadas pelos jogadores constituem o objeto da presente análise. Em primeira instância, que fique claro que as ações dos nossos jogadores no esquema tático decorreram da autonomia decisional que lhes fora concedida, não pressupondo qualquer interferência prévia da equipa técnica, a não ser na definição de alguns posicionamentos de referência e das zonas de ataque à bola para finalizar. Em suma, a solução encontrada foi uma novidade para nós. Sabíamos e expusemos, de antemão, que: (1) a estratégia adversária passava por ocupar espaços vitais dentro da área de penálti, mediante um método à zona composto por 9 jogadores de campo e o guarda-redes; (2) quando instalados nas posições de referência do método defensivo, os jogadores oponentes eram habitualmente eficazes no jogo aéreo.

 

“Jogar” com o oponente

Diz-se nos meandros do treino desportivo que jogamos com os companheiros de equipa e contra a equipa ou os jogadores contrários. O “jogar” com o oponente significa tirá-lo das suas zonas (e ações) de conforto. E este “jogo do gato e do rato” pode resultar de opções estratégicas ponderadas antes do jogo, geralmente por parte da equipa técnica, ou de ações táticas dos jogadores que emergem no decurso do mesmo. Os jogadores, além de serem os agentes táticos por excelência, na medida em que são eles que solucionam os problemas contextuais que o jogo suscita, podem reforçar o estatuto de protagonistas se também forem estrategas dentro do campo. E esse é um fator que pode ser treinado e rentabilizado no treino, ao invés do que é admitido pela maioria dos treinadores. 

Voltando ao caso em análise, a nossa equipa já tinha usufruído de alguns pontapés de canto antes deste golo, contudo, a equipa adversária havia conseguido superiorizar-se nesses lances. Aproveitando a interrupção da partida por lesão de um jovem jogador, recordo-me de ver os nossos responsáveis pela marcação das bolas paradas a trocar impressões e a gesticular para os colegas no interior da área. Posteriormente, um dos executantes (esquerdino) dirigiu-se para o banco adversário e pediu para beber água, enquanto o outro (destro) tomou posição junto ao quarto de círculo (figura 1). 

 

Figura 1. Engodo criado pelos jogadores antes da execução do pontapé de canto bem-sucedido.

 

A ida ao banco para beber água foi um pretexto inteligente que o nosso jogador usou para adquirir vantagem posicional para o que havia combinado com os companheiros. O engodo criado, que ocorreu de forma autónoma e espontânea, visava atrair os adversários para fora da sua zona de conforto (i.e., posições no interior da área). Ficámos surpreendidos e bastante satisfeitos pelo desenlace da situação, porque, embora não tenhamos tido responsabilidade direta na solução encontrada para o esquema tático, potenciámos o pensamento estratégico e a liberdade dos jogadores no processo de treino.

 

Interpretação dos “sinais” e adaptação comportamental

No início da época, com pouco tempo de trabalho, propusemos tarefas de treino mais fechadas no que às situações fixas do jogo diz respeito, ou seja, com posicionamentos mais rígidos, zonas de ataque à bola religiosamente estabelecidas e sinaléticas associadas à forma de marcação do esquema tático (p. ex., um braço levantado para cruzamento ao 2.º poste, tocar na meia para saída “curta” ou mãos atrás da cabeça para despoletar “combinação tática”). Em cada microciclo não trabalhámos todos os esquemas táticos, uma vez que incidíamos rotativamente sobre um ou dois, consoante o planeamento efetuado e as necessidades da equipa. No microciclo do jogo em questão, apresentámos dois objetivos específicos para pontapés livres laterais e lançamentos laterais, a cumprir num exercício do último treino da semana, com 3 repetições de 8 minutos (figura 2). 

 


Figura 2. Método específico de preparação – jogo Gr+10v10+Gr (50x65m; 147,7 m2/jogador).

 

Acontece que, depois de instruída a situação de jogo reduzido/condicionado e divididas as equipas, os jogadores tinham a responsabilidade de definir os métodos ofensivos e defensivos subjacentes aos esquemas táticos, sem o conhecimento da equipa oponente. A condicionante utilizada foi que as equipas repunham a bola em jogo, após a bola sair fora ou ser cometida uma infração, através de pontapé livre lateral ou lançamento lateral indicado pelo treinador. Aos métodos adotados por uma equipa sucediam-se adaptações comportamentais constantes da outra equipa, fomentando o foco atencional de atacantes e defensores e a leitura dos “sinais do outro”. Se, por exemplo, uma equipa optava por uma reposição indireta (“curta”), os atacantes na área deveriam temporizar as suas ações para explorar os espaços vitais no momento oportuno (figura 3), ou procurar uma outra posição que lhes permitisse aumentar a probabilidade finalizar com êxito. Por sua vez, os defensores deveriam pressionar para condicionar a leitura e a execução do portador da bola sem, no entanto, perder o controlo do espaço em largura e profundidade. Entre cada repetição, treinadores e jogadores debatiam as opções estratégicas tomadas, encorajando ou corrigindo alguns detalhes, sendo que os melhores “projetos” poderiam ser aplicados em jornadas futuras.

 

Figura 3. A temporização no deslocamento para espaços vitais no interior da área de penálti para não incorrerem em fora de jogo.

 

Não tenho dúvidas que o golo que a nossa equipa marcou resultou do tipo de “tarefa aberta” que foi regularmente proposto nas sessões de treino, ao longo dos microciclos semanais. Defendo, sem hesitação, que estas tarefas de treino apresentam um conjunto de valências que não são de ignorar no processo de formação no futebol ou noutra modalidade coletiva, designadamente:

 

· Mantêm a dinâmica sequencial típica do jogo, pois garantem que momentos de transição (ofensiva/defensiva) e fases de organização (ofensiva/defensiva) sucedam à marcação de um esquema tático;

·  Promovem a responsabilidade e a autonomia dos jogadores, porque são os próprios que executam as estratégias que conceberam;

·  Desenvolvem a leitura e inteligência de jogo, tal como o pensamento estratégico, desde idades jovens – “em cada praticante, há um mini treinador”;

· Potenciam o transfer de soluções inovadoras e mais bem interpretadas pelos praticantes para o contexto competitivo.

 

Ao “puxarmos” as crianças ou os jovens para a tomada de decisão estratégica estaremos, também, a aprofundar o conhecimento do jogo enquanto treinadores. Partilhar e confrontar perceções e raciocínios com os outros induz a reflexão e a aprendizagem. E é um facto que as mentes jovens são capazes de produzir ideias absolutamente fascinantes.

18/10/2020

Artigo do mês #10 – outubro 2020 | O impacto do VAR na tomada de decisão de árbitros de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Spitz, J., Wagemans, J., Memmert, D., Williams, A. M., & Helsen, W. F.

País: Bélgica

Data de publicação: 14-agosto-2020

Título: Video assistant referees (VAR): The impact of technology on decision making in association football referees

Revista: Journal of Sports Sciences

Referência: Spitz, J., Wagemans, J., Memmert, D., Williams, A. M., & Helsen, W. F. (2020). Video assistant referees (VAR): The impact of technology on decision making in association football referees. Journal of Sports Sciences. https://doi.org/10.1080/02640414.2020.1809163

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 10 – outubro de 2020.

 

Apresentação do problema

Nas últimas décadas, os atletas e os treinadores têm demonstrado obsessão em ultrapassar os limites, estabelecendo novos records e tornando-se técnica e taticamente mais competentes, mais rápidos e mais fortes (Coutts, 2016). Por sua vez, os árbitros/juízes desempenham um papel importante na gestão das competições ao mais alto nível, sendo que a sua performance pode influenciar, em primeira instância, o sucesso de atletas e equipas e, subsequentemente, o enorme impacto social e económico que daí advém. As entidades que tutelam o desporto têm, por isso, feito um esforço para que os árbitros, tal comos os atletas, possuam as melhores condições para cumprir as suas tarefas. A permissão do uso de avanços tecnológicos nas competições desportivas (e.g., sistemas de rastreio da bola no ténis e no cricket, tecnologia da linha de golo no futebol, repetições imediatas no basquetebol e no futebol americano, etc.) encontra-se entre as medidas suprarreferidas. 

Estas inovações tecnológicas suportam a tomada de decisão dos árbitros, tornando-as mais precisas (Leveaux, 2010). No futebol, em particular, as leis de jogo referentes à época 2018/2019 incluíram a introdução do Video Assistant Referee (VAR). Esta modalidade requer que os árbitros tomem decisões instantâneas enquanto lidam com diversas fontes de informação, pelo que decisões incorretas podem acontecer devido a (1) falha na perceção do lance, (2) influência do contexto (e.g., barulho dos adeptos ou pressão dos jogadores) e (3) interferência de decisões anteriores. A tomada de decisão dos árbitros não é, deste modo, 100% eficaz e o VAR tem sido empregue com o intuito de corrigir erros claros e óbvios em situações passíveis de alterar o curso do jogo, como golos, penáltis, vermelhos diretos ou má identificação de um jogador infrator. 

O VAR é assistido por um operador de repetições que verifica todos os lances passíveis de alterar o desenrolar do jogo. Se o VAR considera que o árbitro ou um assistente errou claramente, corrige no imediato a decisão (i.e., foras-de-jogo; figura 2) ou, em jogadas de cariz subjetivo, solicita a revisão do lance pelo árbitro principal. O uso desta tecnologia pode melhorar a exatidão das decisões dos árbitros em situações que requeiram precisão temporal (momento certo) e espacial (local da bola ou do jogador). No entanto, permanece incerto até que ponto as repetições de vídeo podem ajudar os árbitros, em decisões que exigem a interpretação da regra e a sua aplicação durante o jogo (Helsen et al., 2019). Neste estudo, o primeiro objetivo foi investigar o impacto do VAR nas performances dos árbitros, ou seja, se as intervenções do VAR melhoraram ou não a precisão das decisões iniciais. O segundo objetivo foi examinar o número e a duração das intervenções do VAR por jogo, de forma a entender se estes avanços tecnológicos prejudicam ou não o típico “fluxo do jogo” no futebol.

 

Figura 2. A intervenção do VAR no futebol de alto rendimento.

(imagem não publicada pelos autores; fonte: marca.com)

 

Métodos

Recolha de dados: foram recolhidos dados de 2195 jogos de 13 associações/federações nacionais de futebol (Alemanha, Austrália, Bélgica, China, Coreia do Sul, França, Estados Unidos da América, Inglaterra, Itália, Países Baixos, Polónia, Portugal e República Checa). A utilização do VAR só foi permitida em jogos oficiais promovidos pelas entidades organizadoras, caso o protocolo fosse implementado em pleno respeito pelo manual do International Football Association Board (IFAB). Os protocolos operacionais do VAR são os mesmos para cada país/associação nacional (FIFA, 2019), sendo os procedimentos inerentes a cada intervenção (upload dos clips de vídeo, descrições detalhadas de cada verificação ou revisão e preenchimento de questionário com 24 itens sobre eficácia, duração e impacto) assegurados por 13 gestores de projeto. Foi solicitado aos membros dos comités nacionais de arbitragem (variando entre 5 a 10 elementos) que determinassem, de forma independente, a decisão de referência para cada situação, em função das Leis de Jogo (FIFA, 2017, 2018). A exatidão da decisão foi calculada apenas para as decisões em que se verificou consentimento entre os peritos de cada comité nacional; as decisões de jogadas consideradas dentro da chamada “zona cinzenta” foram excluídas da análise de eficácia. 

Variáveis dependentes e análise estatística: todas as verificações e revisões afetas às 4 categorias de intervenção foram analisadas: golos, penáltis, vermelhos diretos e má identificação de jogador infrator.

·      Eficácia da decisão: esta variável foi calculada separadamente para a decisão inicial (eficácia da decisão inicial) e para a decisão final após uma possível intervenção do VAR (eficácia da decisão final). Os resultados de eficácia foram indicados como o número total de decisões corretas em percentagem, ou seja, decisões que estiveram de acordo com a decisão de referência tomada pelo painel de peritos de cada comité nacional.

·      Duração das verificações e das revisões: a duração da verificação está associada ao tempo que a equipa do VAR demora a verificar um episódio para determinar se é ou não necessária revisão; de acordo com o protocolo do VAR, o processo de revisão começa quando o árbitro principal executa a sinalética retangular com as duas mãos, em forma de um ecrã de televisão, e termina quando a decisão final é indicada pelo árbitro.

·    Análise estatística: as probabilidades de decisões iniciais e finais corretas foram examinada utilizando um modelo de regressão logística. Como as decisões iniciais e finais não são estatisticamente independentes, foi utilizado um modelo de efeitos randomizados, com um termo aleatório para o árbitro, ajustado por uma série de outros procedimentos inseridos no Statistical Analyses Software (SAS) 9.4. Baseando-se neste modelo, foram estimadas as proporções de decisões iniciais e finais corretas. Finalmente, o número e a duração de verificações e revisões foram apresentados através de medidas de estatística descritiva (frequências, medianas e amplitudes interquartis).

 

Principais resultados

Observaram-se 9732 verificações nos 2195 jogos. No total, 638 situações foram classificadas como pertencentes à “zona cinzenta”, ou seja, decisões em que não havia uma decisão de referência inequívoca (i.e., mais do que uma decisão era aceitável). Houve 99 revisões de episódios na “zona cinzenta” e os árbitros alteraram a decisão inicial em 44 vezes (7% dos incidentes na “zona cinzenta”). 

A decisão inicial do árbitro foi correta em 8367 das 9094 situações em que houve uma decisão de referência clara, resultando numa eficácia de 92.1%. Após a intervenção do VAR, 8942 das 9094 decisões tomadas foram corretas, originando uma taxa de acerto de 98.3%. Os parâmetros estimados do modelo indicaram que houve um efeito significativo do tipo de decisão (p < 0.0001), sendo que as probabilidades preditivas de tomar uma decisão final correta, após uma possível intervenção do VAR, foram significativamente mais elevadas do que a decisão inicial. Em síntese, houve um decréscimo nas probabilidades de sucesso da decisão inicial (Odds Ratio = 0.19) em comparação com a decisão final. Adicionalmente, em 585 dos 718 episódios com decisão inicial incorreta (81.5%), a decisão foi revista e corrigida em 577 ocasiões. Em 111 dos 8376 incidentes com decisão inicial correta (1.3%), a decisão foi revista e revertida para uma decisão incorreta. 

Apurou-se uma média de 4.4 verificações por jogo, com a duração mediana de cada verificação a estabelecer-se nos 22 segundos. A duração mediana de todas as verificações durante o jogo foi de 110 segundos. Ao todo, 795 das verificações ocasionaram revisões (média de 0.36 por jogo), sendo 534 dessas revisões efetuadas em campo pelo árbitro principal, com uma duração mediana de 62 segundos, e 261 estritamente conferidas pelo VAR, com uma duração mediana de 15 segundos. 

A distribuição de verificações e revisões pelas diferentes categorias dos incidentes (em %) está apresentada na tabela 1.

 

Tabela 1. Número de verificações/revisões por categoria de incidente (Spitz et al., 2020). 


A maior proporção de verificações esteve associada a incidentes de amostragem do cartão vermelho direto (39.3%), seguida de eventos de grande penalidade (33.4%). Em termos de revisões, foram reavaliados mais lances subjacentes à marcação de penáltis (43.9%) e à validação de situações de golo (32.5%). Nos casos de revisão, o árbitro teve a oportunidade de mudar a decisão inicial, pelo que, devido à intervenção do VAR, houve a mais 76 penáltis (164 marcados; 88 cancelados) e 126 cartões vermelhos (132 concedidos; 6 cancelados), e a menos 114 golos (61 validados; 175 cancelados; figura 3).

 

Figura 3. Golo anulado pelo VAR ao Gil Vicente FC frente ao CD Tondela (17-out-2020), por fora-de-jogo.

(imagem não publicada pelos autores; fonte: vsports.pt)

 

Conclusão

Os autores demonstraram que as chances de tomar decisões corretas aumentaram significativamente com a utilização do VAR, comparativamente à decisão inicial tomada sem o recurso a esta tecnologia. Contudo, uma vez que subsiste o elemento humano no processo de perceção e avaliação dos lances, é praticamente impossível eliminar todos os erros de tomada de decisão claros e óbvios para atingir uma eficácia de 100%, mesmo com a utilização do VAR. Em relação ao segundo objetivo do estudo, os resultados revelaram que, em mais de 70% dos jogos, as verificações dos incidentes passíveis de afetar o curso do jogo não implicaram revisões. Como as verificações ocorrem em contexto de estúdio, têm um impacto mínimo no fluxo natural do jogo. Quando há revisões, aumenta a duração das paragens e tende a diminuir o tempo útil de jogo. 

A análise das alterações das decisões mostrou que houve mais penáltis e vermelhos diretos, e menos golos devido à intervenção do VAR. Portanto, é fundamental que se continue a aplicar esta tecnologia de vídeo de forma ponderada e equilibrada, pois tanto pode deteriorar a credibilidade de uma equipa de arbitragem, como mudar a dinâmica do jogo de futebol.

 

Aplicações práticas

O aumento da qualidade das decisões iniciais tem o condão de reduzir o número de intervenções do VAR e limitar o tempo de jogo perdido em paragens. Há trabalhos que indicam que o treino percetivo-cognitivo pode melhorar a tomada de decisão dos árbitros (Catteeuw et al., 2010; Kittel et al., 2019), pelo que se sugere a implementação e o investimento em programas de treino específicos para as diversas funções que os elementos da equipa de arbitragem têm de cumprir. 

As Leis do Jogo estão em evolução constante, mas a avaliação de determinados episódios do jogo permanecerá subjetiva e suscetível de causar discussão. Com a introdução do VAR, pode haver a tendência para formular critérios mais objetivos, como no caso recente da regra de “mão na bola” (FIFA, 2019). 

É essencial que as entidades internacionais que tutelam o futebol se empenhem no sentido de reduzir os tempos de pausa associados à intervenção do VAR, sobretudo no que diz respeito às revisões. O IFAB e a FIFA têm discutido a ideia de adotar um tempo efetivo de jogo de 60 minutos, parando o cronómetro cada vez que a bola não está em jogo. Outra opção, segundo o IFAB (2017), passa por haver um cálculo rigoroso do tempo adicional a conceder para compensar as perdas de tempo relativas à intervenção do VAR ou a outras interrupções.

 

P.S.:

1- As que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;

2- Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3- As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Sports Sciences.

10/10/2020

Cemitério de Pianos (2006), de José Luís Peixoto

Após ter lido “Nenhum Olhar” (2000) há coisa de sete anos, “Cemitério de Pianos” (2006) foi a segunda obra que li de José Luís Peixoto, um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A título de curiosidade, em 2007, um ano após a sua publicação, “Cemitério de Pianos” (figura 1) recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha.

 

Figura 1. Capa do livro “Cemitério de Pianos” (1.ª Edição, 2006, Quetzal Editores).

 

Quem já havia lido José Luís Peixoto reconhece o estilo do autor nesta obra: a profundidade da narrativa; a atenção concedida à natureza humana; o contraste das emoções associado a acontecimentos díspares; e, a fatalidade do destino entrelaçada com a perpetuação de características hereditárias. Apesar de o autor se ter baseado na história trágica de Francisco Lázaro, um atleta português que faleceu nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, a trama abrange a sua família direta ao longo de três gerações. As três gerações são representadas por três narradores distintos: o pai do atleta Francisco Lázaro, o próprio Francisco Lázaro e, posteriormente, o seu filho. O enredo é contado de forma anacrónica pelos narradores, ou seja, com mudanças constantes de plano temporal, pelo que é preciso permanecer alerta para que não percamos o fio à meada. O excerto – “A minha mulher, sentindo-se menina, mãe e avó, respirou, aproximou-se dela [Maria] e contou-lhe o que aconteceu” (p. 66) –, sintetiza o modo como a história é narrada a partir de três pontos temporais distintos: a recordação da juventude do primeiro narrador, quando solteiro, enamorado e o casamento com a sua esposa; o nascimento dos quatro filhos e a existência como pais; o crescimento da família e o papel de avós. 

Entramos na história de rompante com a frase: “Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer” (p. 13). A intimidade da família é progressivamente revelada, na qual o amor dá lugar à violência, a alegria é abafada pela tristeza, a cumplicidade é pervertida pela traição e a morte permuta com a vida. Hermes nasce no dia em que o avô morre vítima de doença prolongada e o filho de Francisco Lázaro nasce pouco após o pai falecer na maratona de Estocolmo. Além do legado genético, os narradores trabalhavam na carpintaria de Benfica que herdaram dos pais (da família) e arranjavam pianos. É a sala anexa à carpintaria – o cemitério de pianos –, inicialmente apresentada como uma “divisão fechada” que encerrava “sustos lá dentro”, que acaba por estabelecer a conexão intergeracional da narrativa. Por exemplo, Marta, uma das irmãs de Francisco Lázaro, foi concebida no cemitério de pianos, num mês de setembro; porém, anos mais tarde, foi um “incidente familiar” nesse mesmo local que despoletou a mudança comportamental que a tornou disforme. O cemitério de pianos é, também, um espaço metafísico no qual a pequena Íris, sobrinha de Francisco, com quase três anos, dialoga com o falecido avô: “Tu eras marido, pai e avô” (p. 189) e “egoísta”. 

O drama das relações numa família numerosa, no final do século XIX e primórdios do século XX, foi sublimemente captado na relação de Simão, o irmão mais velho de Francisco, com o pai. Simão cegou em pequeno num acidente com Francisco e foi, de entre os quatro irmãos, aquele que mais sofreu com o alcoolismo e a violência do pai. O pai nunca batia em Francisco e este julgava que, ao bater em Simão, era a forma que havia arranjado para lidar com a tristeza do acidente. 

A descrição da corrida, quilómetro a quilómetro, pelo narrador (e atleta) Francisco Lázaro foi uma das partes do livro que mais apreciei. Quando corremos há uma multitude de pensamentos que nos assolam e nem sempre de maneira ordeira e coerente. O autor expôs estes desvarios com mestria, interpolando as sensações experienciadas pelo corredor – alguns excertos são apresentados a seguir –, com eventos ocorridos anteriormente (analepses).

 

·      Quilómetro 6: “(…) O sol arde-me na pele, na graxa especial que me cobre a pele” (p. 108).

·      Quilómetro 11: “Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio” (p. 123).

·      Quilómetro 17: “Deixarei de ouvir a voz que se repete na minha cabeça: o sol. Continuarei a ouvir a voz que existe no centro de mim: a minha vontade” (p. 199).

·      Quilómetro 22: “Era na dificuldade da minha solidão: caminho negro de estátuas: que eu me edificava” (p. 215).

·      Quilómetro 29: “No meu corpo, é outra coisa que se imola no lugar do meu corpo. Talvez aquilo que penso” (p. 235).

 

A morte por exaustão de Francisco Lázaro, na maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912), é um facto verídico na história do desporto nacional. No âmbito da ficção, e segundo a narração do seu filho a relembrar as palavras do tio Simão: “(…) houve aqueles que acreditaram que encontrou a morte ao fugir dela e houve aqueles que acreditaram que fugiu da morte ao procurá-la” (p. 156). No final nem tudo tem de ser derradeiro: haverá sempre vida depois da morte, enquanto houver descendência e memória:

 

Então, pensava que havia uma parte do meu pai que permanecia em mim e que entregava aos meus filhos para que permanecessem neles até que um dia a começassem a entregar aos meus netos. (…) Éramos perpétuos uns nos outros.

 (p. 257)

 

Um livro pleno, que compatibiliza as suaves valências e os duros defeitos do ser humano num contexto íntimo e alargado de família.