30/10/2022

Artigo do mês #34 – outubro 2022 | Atividade de exploração visual e design de tarefas de treino: Perceções de treinadores experientes de academias profissionais de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Eldridge, D., Pocock, C., Pulling, C., Kearney, P., & Dicks, M.

País: Inglaterra

Data de publicação: 4-setembro-2022

Título: Visual exploratory activity and practice design: Perceptions of experienced coaches in professional football academies

Referência: Eldridge, D., Pocock, C., Pulling, C., Kearney, P., & Dicks, M. (2022). Visual exploratory activity and practice design: Perceptions of experienced coaches in professional football academies. International Journal of Sports Science & Coaching. https://doi.org/10.1177/17479541221122412

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 34 – outubro de 2022.

 

Apresentação do problema

A qualidade do desempenho em contextos dinâmicos e temporalmente constrangidos pode ser sustentada pela capacidade do jogador em explorar visualmente o envolvimento no sentido de identificar oportunidades de ação (Jordet et al., 2020; McGuckian et al., 2018). A natureza dinâmica dos jogos desportivos, como o futebol, requer que os jogadores prestem atenção aos movimentos dos companheiros de equipa e dos adversários para orientar as ações subsequentes (Eldridge et al., 2013). A investigação existente tem reconhecido a importância de competências percetivo-cognitivas, como o reconhecimento de padrões (North et al., 2009), a antecipação (Roca et al., 2011) e a pesquisa visual (Savelsbergh et al., 2002), em performances de excelência no futebol. Mais recentemente, os estudos no futebol têm analisado a “atividade de exploração visual” (McGuckian et al., 2020; Pocock et al., 2019), o “comportamento de exploração visual” (McGuckian et al., 2017) e o “scanning” (Aksum et al., 2021; Jordet et al., 2020), que, no cômputo geral, referem-se aos movimentos corporais e da cabeça que envolvem desviar o olhar da bola para orientar o controlo prospetivo de ações futuras. 

A relevância da atividade de exploração visual em ambientes competitivos tem sido destacada em estudos analíticos no âmbito da performance desportiva, surgindo a frequência de exploração visual associada à precisão do passe na Premier League inglesa (Jordet et al., 2013, 2020) e em campeonatos europeus de futebol em idades juvenis (Aksum et al., 2021). Porém, apesar de investigadores e treinadores reconhecerem a importância dos comportamentos de pesquisa visual para a performance de alto nível no futebol (Pulling et al., 2018), pouquíssimos estudos têm investigado a eficácia do design de atividades práticas no aumento da frequência e na melhoria da qualidade do ato de exploração visual de jovens praticantes. 

Na generalidade, uma maior exploração visual tem sido ligada a desempenhos com bola mais bem conseguidos, embora vários fatores contextuais possam influenciar a frequência de comportamentos de pesquisa visual. A regularidade destes comportamentos pode variar em função de exigências posicionais no seio da equipa: por norma, executam-se mais varrimentos por segundo em posições centrais (e.g., defesas centrais e médios-centro), comparativamente a posições periféricas (e.g., defesas laterais) (Jordet et al., 2020). Além disso, a proximidade dos oponentes pode influenciar a frequência de busca visual, já que, tipicamente, os jogadores realizam mais movimentos com a cabeça quando estão longe da bola e, por isso, sob menor pressão defensiva (Aksum et al., 2021). Por seu turno, sob intensa pressão, os jogadores não realizam tantos “scans”, pois há o risco acrescido de perderem a posse de bola enquanto desviam o olhar da mesma para preparar ações futuras. A verdade é que, se os jogadores forem capazes de efetuar atividades de exploração visual sob intensa pressão, reunirão melhores condições para superar a oposição dos adversários. A compreensão destes constrangimentos pode ajudar a que os treinadores concebam atividades práticas mais efetivas para incrementar a qualidade dos comportamentos de exploração visual dos jogadores. 

O comportamento visual de procura de informações do envolvimento varia em função do escalão etário. Por exemplo, jogadores Sub-19 exploraram mais o envolvimento que indivíduos Sub-17 em campeonatos europeus nessas categorias (Aksum et al., 2021). Mesmo em condições simuladas de futebol, em contexto laboratorial, os jogadores mais velhos executaram mais movimentos com a cabeça (McGuckian et al., 2020). Porém, uma vez que pode haver um “efeito de teto” em jogadores internacionais de elite, compreender como os treinadores de futebol delineiam a prática para jovens praticantes pode contribuir para que a investigação forneça pistas valiosas para a melhoria de competências percetivas no decurso do processo de formação de futebolistas. Essencialmente, urge entender como é que se treinam comportamentos de exploração visual no terreno, em tarefas representativas (figura 2).

 

Figura 2. O design de tarefas representativas no desenvolvimento de comportamentos de pesquisa visual (imagem não publicada pelos autores).

 

Os treinadores de futebol mais experientes e com mais qualificações destacaram que o treino da exploração visual deve ser introduzido desde idades baixas e pode ser estimulado através de instruções diretas, aplicando constrangimentos e questionamento (Pulling et al., 2018). Os treinadores que raramente trabalham comportamentos de pesquisa visual mencionaram a existência de barreiras para desenvolver capacidades percetivas (e.g., dificuldade na estruturação de tarefas e falta de recursos para entender tais comportamentos). Para superar estas barreiras, a realização de entrevistas com treinadores experientes pode facultar exemplos de atividades práticas direcionadas para a melhoraria da exploração visual em jovens futebolistas. O objetivo deste estudo foi entender como é que treinadores, com experiência em contexto de academias profissionais de futebol, conceptualizam os comportamentos de exploração visual e como é que aplicam essa conceção na estruturação de tarefas práticas.

 

Métodos

Participantes: 9 treinadores masculinos a trabalhar no seio de uma academia da Federação Inglesa de Futebol pertencente a um clube profissional que atua nas 4 divisões mais altas de Inglaterra (Premier League, Championship, League 1 e League 2). Os treinadores (idade, média ± desvio-padrão: 40 ± 9.6 anos; experiência de treino no futebol: 18 ± 6.1 anos) foram selecionados porque são responsáveis por uma equipa da academia e porque, em termos de qualificações, possuem licenças UEFA A (n = 5) e UEFA B (n = 4).

Procedimentos: os dados foram obtidos de entrevistas semiestruturadas para conhecer aprofundadamente as perspetivas dos treinadores sobre a atividade de exploração visual. O guião da entrevista passou por uma fase de estudo piloto, com um treinador com licença UEFA B, após o qual os investigadores puderam fazer pequenos ajustes nas questões propostas e na organização das mesmas. As questões eram abertas, por forma a conceder oportunidade aos investigadores de sondar as respostas dadas pelos treinadores. O guião da entrevista foi dividido em 3 secções: 1) questões sobre o background dos participantes enquanto treinadores (e.g., Por favor, pode dizer-me como começou a desenvolver a atividade de treinador?); 2) questões sobre as perceções e as experiências dos treinadores em orientar sessões de treino para desenvolver a exploração visual dos jovens jogadores (e.g., Acha que a atividade de exploração visual tem mais importância em determinadas idades?); 3) com base na experiência acumulada, os participantes foram convidados a desenhar e a descrever exercícios que eles achavam que poderiam aprimorar a perceção visual dos jovens futebolistas. As entrevistas foram conduzidas pelo autor principal presencialmente, cara a cara, numa localização escolhida pelos treinadores. As entrevistas duraram entre 32 e 48 minutos e foram gravadas através da aplicação para telemóvel Smart Recorder 7 (Version 2.1, 2009–2013 Roe Mobile Development). Posteriormente, o conteúdo das entrevistas foi transcrito à letra para análise dos dados.


Análise dos dados:

 

·     Entrevista

Neste estudo, o autor principal recorreu a um modelo de 6 fases para realizar a análise dos temas (Braun et al., 2016): familiarização com os dados, produção de códigos iniciais, procura de temas, revisão dos temas, definição e nomeação dos temas e produção do relatório. O autor principal adotou uma abordagem indutiva, pesquisando semelhanças e diferenças nos dados e descrevendo temas. Os códigos iniciais foram desenvolvidos em temas mais amplos, que, depois, foram revistos e redefinidos pela equipa de investigação. Após completar a definição e a nomeação dos temas, o investigador principal reviu os códigos dos dados em bruto e os temas. Os outros coautores realizaram uma apreciação crítica dos códigos e dos temas para tornar o racional da organização dos dados mais robusto.

 

·     Exemplos dos exercícios práticos

As atividades práticas apresentadas pelos treinadores foram categorizadas segundo a proposta avançada por Roca e Ford (2020) (tabela 1).

 

Tabela 1. Categorias e definições das atividades relacionadas com a prática de futebol utilizadas na análise (adaptado de Roca & Ford, 2020).

  

·     Qualidade e rigor da investigação

Para aumentar o rigor metodológico do estudo, foi cumprida uma série de passos para assegurar a fiabilidade dos dados (Smith & McGannon, 2018): a seriação dos participantes foi executada através de critérios específicos (qualificações próprias; papel atualmente desempenhado); explicação dos objetivos do estudo antes do começo das entrevistas; o entrevistador tinha uma longa experiência no treino de futebol (14 anos), incluindo o facto de ter sido treinador numa academia profissional de futebol e possuir a licença UEFA A; os coautores atuaram como “amigos críticos” do investigador principal, ao rever e criticar os procedimentos adotados em todas as fases de análise do conteúdo das entrevistas. Foram, também, calculadas as fiabilidades intra e interobservador para a análise das tarefas práticas propostas pelos treinadores, sendo os valores de concordância ambos muito elevados (k = 1.0; k = 0.81, respetivamente).

 

Principais resultados

Os resultados deste estudo permitem (1) estreitar a brecha existente entre a atividade de exploração visual dos jogadores e o design de atividades práticas e (2) introduzir conhecimento aplicado sobre o tipo de exercícios que os treinadores consideram efetivo para desenvolver a exploração visual dos jogadores. A análise de conteúdo dos dados identificou 3 temas fundamentais: a importância da atividade exploração visual, o desenvolvimento da atividade exploração visual e a transmissão da atividade de exploração visual.

 

·     Importância da atividade de exploração visual

No decurso das entrevistas, os treinadores aludiram a jogadores de futebol de elite nos anos mais recentes, como Paul Scholes, Frank Lampard, Andrea Pirlo e Cristiano Ronaldo, para enfatizar a importância da perceção visual no jogo. De facto, a atividade de exploração visual permite que os jogadores orientem efetivamente as suas ações subsequentes com ou sem bola:

 

Treinador 2: Eu penso que é relevante, os jogadores saberem o que necessitam de fazer antes de receber a bola, onde está o espaço, é crucial no suporte do processo de tomada de decisão.

 

Treinador 7: Oh, sem dúvida, o varrer com o olhar é massivo, nós dizemos aos jogadores, e continuamos a dizer-lhes: como podemos acelerar o jogo? Como podemos tornar os nossos passes mais efetivos? Como podemos tornar o nosso jogo mais fluído? E retornamos aos simples pré movimentos, olhar por cima do ombro, ter ideias, fixar imagens antes de receber a bola.

 

Os treinadores manifestaram que a habilidade para jogar com perspetivas de 360 graus é essencial para uma tomada de decisão eficaz, especialmente em certas posições:

 

Treinador 2: Eu não acho que haja uma sessão em que eu não diga aos jogadores “levantam a cabeça, levantem a cabeça, olhem à vossa volta”, não olhar apenas em frente, mas por cima do ombro e chegar aos 360 graus, porque o futebol é 360 graus.

 

Treinador 1: Eu especialmente entendo que é vital para um médio centro, a posição na qual eu próprio joguei e é tão importante saber o que se passa à nossa volta quando estamos no meio do “parque”.

 

·     Desenvolvimento da atividade de exploração visual

Os treinadores entendem que, para que os jogadores desenvolvam atividades de exploração visual proficientes, eles precisam de desenvolver este comportamento desde idades baixas:

 

Treinador 4: Eu considerá-lo-ia como um fundamento do jogo e, quando tu falas acerca dos fundamentos, devem ser trabalhados entre os 5 e os 11 anos de idade. Portanto, para mim, necessita de ser ensinado nessa faixa etária, e não penso que se deva parar a partir de então… tu sabes, quando se olha para o [Andrea] Pirlo, tu nunca alcanças um nível de topo quando entendes que não necessitas de fazer mais isso. (…) tão importante quanto receber competências, é transmitir as competências que ensinas aos 5, 6, 7, 8 e 9 anos.

 

Alguns treinadores questionaram se a atividade de exploração visual pode ser desenvolvida em idades posteriores. Surgiu a dúvida se o desenvolvimento desta competência percetiva em crianças/jovens alguma vez alcance níveis de mestria, caso o comportamento não seja estimulado desde idades jovens:

  

Treinador 3: (…) porque eu não tenho certeza de que se chegares aos 14 sem nunca ter executado o comportamento, que consigas apanhá-lo, não tenho a certeza de que chegues lá. Eu estou a tentar fazê-lo agora com jovens com 16 e 17 anos de idade e não é natural para eles, nunca o fizeram antes, nem nunca lhes foi mostrado antes.

 

Treinador 4: Eu acho que quanto mais tarde começares a fazê-lo, mais difícil se torna.

 

As evidências experimentais parecem contradizer as perspetivas destes treinadores. O potencial para desenvolver atividades de exploração visual na adolescência tardia é suportado por diversos estudos, entre os quais, um mostrou que jogadores Sub-19 exploraram visualmente mais que jogadores Sub-17 em jogos de Campeonatos Europeus (Aksum et al., 2021).

 

·     Transmissão da atividade de exploração visual

Os treinadores exibiram uma atitude positiva para o treino da atividade de exploração visual e para o papel importante que tem no desenvolvimento do jogador. Apesar desta atitude positiva, parece que a maioria dos treinadores não coloca um foco especial nestes comportamentos durante as sessões de treino:

 

Treinador 1: É uma tendência que adoto ao longo das minhas sessões, não diria “oh, esta noite os rapazes vão trabalhar os seus sentidos visuais”. Eu colocaria isso em qualquer sessão que faço.

 

Treinador 9: É interessante porque eu não diria que vou para um treino a pensar que vou desenvolver as competências visuais dos jogadores.

 

Os treinadores mencionaram que utilizam diversos métodos para aprimorar a exploração visual nas sessões de treino. O método mais comum prende-se com o design de exercícios de treino e, especificamente, recorrendo a atividades com oposição:

 

Treinador 4: Os rapazes necessitam de entender o jogo e que o processo de tomada de decisão só vai surgir quando há meia oposição ou oposição e o “scanning” é a base para isso; se eles não sabem o que se passa à sua volta, então não interessa o quão bem eles batem na bola de A para B, porque nunca a vão ter.

 

Os exercícios são uma parte integral do processo de treino e é crucial que os treinadores considerem como é que as tarefas devem ser estruturadas para facilitar a aprendizagem e a aquisição de competências específicas do futebol. Por isso, o facto de alguns treinadores não manifestarem certeza sobre o tipo de exercícios que deve ser proposto para fomentar o desenvolvimento da exploração visual revelou-se surpreendente:

 

Treinador 9: Eu ficaria muito interessado em saber que tipo de exercícios melhoram as competências visuais dos jogadores.

 

O recurso à vídeo-análise é outro passo positivo no processo de treino, uma vez que demonstra que os treinadores trabalham e valorizam outras disciplinas para promover o desenvolvimento do jogador:

 

Treinador 9: Eu gosto de usar clips de vídeo… Eles necessitam de ser capazes de se autorreconhecer. Eu fiz coisas no passado em que levei o meu iPad para a sessão de treino, filmei o jogador por dois minutos, tirei-o da situação e mostrei-lhe exatamente o que pretendia.

 

Treinador 2: Eu posso definitivamente pensar em alguns jogadores com quem tenho trabalhado… ao nível da academia e ao nível da primeira equipa, talvez não varram tão bem o jogo quanto deveriam e eu penso numa situação em que tu possas olhar para destacar na tua análise ou no teu DVD, portanto, tu sentar-te-ias com o jogador e mostrar-lhe-ias visualmente que não está a fazê-lo e também enfatizaria o sucesso quando ele executa o pretendido.

 

Os treinadores admitiram que o questionamento constitui uma ferramenta crucial para desenvolver o conhecimento e a compreensão das competências de pesquisa visual:

 

Treinador 8: O trabalho de Mosston e Ashworth [estilos de ensino] em torno do Q [Question: pergunta] & A [Answer: resposta], descoberta convergente, descoberta divergente, sou muito mais deste tipo de coisas, então vais conseguir através de perguntas e respostas de qualquer maneira. Eu raramente paro os treinos, mas posso falar com as crianças no decurso da sessão, até coisas simples como: quando tocaste lá, ou quando recebeste pela última vez, sabias o que estava atrás de ti? Que outras imagens viste nesse momento? Ou viste aquela pessoa ali?

 

·     Atividades práticas

Cada treinador apresentou um conjunto de exercícios de treino quando foram questionados sobre o tipo de práticas que empregam para desenvolver a atividade de exploração visual. Reuniu-se um total de 33 tarefas de treino estruturadas pelos 9 treinadores (tabela 2).

 

Tabela 2. Frequências e percentagens de atividades com tomada de decisão ativa e não ativa propostas pelos treinadores.


A percentagem de atividades definidas como de tomada de decisão ativa (n = 70%) excedeu a percentagem de atividades de tomada de decisão não ativa (n = 30%). É algo preocupante a evidência de que cerca de um terço das tarefas desenhadas para melhorar competências de perceção visual seja classificado de tomada de decisão não ativa. Somente foram propostos 3 (9%) exercícios para a manutenção exclusiva da posse de bola, enquanto 17 (52%) foram classificados como jogos reduzidos/condicionados. A visão dos treinadores sobre a importância dos jogos reduzidos/condicionados foi encarada como positiva, já que as oportunidades de ação (affordances) que emergem são mais consistentes com o que ocorre em situação de jogo formal.

 

Aplicações práticas

Em estudos prévios já foi comprovado que os melhores jogadores, pelo menos aqueles que receberam um prémio de prestígio internacional na sua carreira, apresentam mais comportamentos de exploração visual do envolvimento em jogo relativamente aos seus pares (Jordet et al., 2013). Assim, é fundamental que os treinadores reconheçam quais são os atributos-chave que fazem com que jogadores sejam bem-sucedidos ao nível da elite. Este saber pode ajudá-los no processo de treino e a fornecer aos aprendizes modelos para que possam observar bons hábitos de suporte ao seu desenvolvimento. 

Recorrer ao questionamento é importante, sem dúvida; porém, conforme verificado no exemplo suprarreferido do treinador 8, os técnicos fazem predominantemente questões convergentes, comparativamente a questões divergentes, que tendem a promover mais o pensamento crítico e a reflexão (O’Connor et al., 2021; Partington & Cushion, 2013). Os treinadores devem ir além da simples evocação do que os jovens viram ou fizeram e da importância excessiva atribuída à obtenção de uma resposta imediata. Neste sentido, sugere-se que os treinadores antecipem a sua intervenção e/ou beneficiem de apoio no planeamento das questões a colocar, por forma a aumentar a eficácia das mesmas no desenvolvimento do desempenho do jogador. 

A necessidade de criar e aplicar tarefas de aprendizagem representativas foi um ponto bastante enfatizado. Para estimular e refinar competências do foro percetivo, é essencial que as tarefas práticas envolvam os jogadores em contextos informacionais funcionais, que proporcionem espaços, brechas, relações angulares, distâncias interpessoais, sincronização ou perturbações entre companheiros de equipa e adversários. Para encorajar o desenvolvimento da exploração visual, também é recomendado que sejam propostas atividades com tomada de decisão ativa específicas para as diferentes posições de jogo (por exemplo, os comportamentos de exploração visual dos médios-centro diferem daqueles que são executados por jogadores que atuam em posições mais periféricas: defesas laterais/extremos). 

Não é lógico, nem coerente, preparar exercícios com tomada de decisão não ativa (i.e., atividades que não contenham elementos que determinem a tomada de decisão dos jogadores como ocorre no jogo formal) para desenvolver competências visuais nos jogadores. Essas atividades não requerem que os jogadores pesquisem ativamente o envolvimento para identificar oportunidades de ação. A necessidade de “olhar sobre o ombro” ou “adquirir uma visão a 360 graus” cai por terra quando os jogadores já sabem com exatidão o que têm de fazer a seguir antes de receber a bola (e.g., exercícios padronizados). 

A promoção de comportamentos de pesquisa visual no treino deve estar devidamente alinhada com o nível do praticante. Por exemplo, a redução excessiva da área de jogo individual numa situação reduzida de 3v3 (40 m2/jogador), com crianças Sub-8 em fase de iniciação, produzirá contextos de pressão que não facilitam o “levantar a cabeça” e o “varrer o jogo com o olhar” (exploração visual). Por outro lado, à medida que os praticantes se tornam mais competentes, a criação e a intensidade dos contextos de pressão devem ser cuidadosamente ponderadas sem que, acima de tudo, se comprometa o princípio da representatividade da tarefa.

 

Conclusão

O propósito deste estudo foi aprofundar o entendimento sobre as atividades práticas propostas por treinadores experientes a trabalhar em academias de futebol profissionais, no intuito de melhorar os comportamentos de exploração visual no processo de formação de jovens jogadores. A investigação debruçou-se sobre (a) a perceção que os treinadores de futebol têm da atividade de exploração visual e (b) as tarefas práticas produzidas pelos treinadores para aprimorar a perceção visual dos jovens. Os principais resultados traduzem-se nos seguintes pontos: 1) os treinadores consideraram a atividade de exploração visual como uma parte integrante da performance do jogador, que deve ser treinada desde idades baixas; 2) alguns treinadores não entenderam ser necessário focar particularmente a perceção visual nas sessões de treino; 3) a melhor forma de intervir para fomentar estes comportamentos é através do design de atividades práticas, que podem ser suportadas por adereços visuais, vídeo-análise e questionamento. As estratégias de intervenção no treino devem continuar a evoluir para que os jogadores possam desenvolver as suas competências em consonância com as exigências do jogo. No futuro, a investigação deve centrar-se no impacto de diferentes tarefas de treino na atividade de exploração visual do jogador e no transfer para a performance em competição.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

29/09/2022

Artigo do mês #33 – setembro 2022 | Perfis de corrida de alta intensidade contextualizados pelos níveis qualitativos das equipas na Premier League inglesa

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Ju, W., Hawkins, R., Doran, D., Gómez-Díaz, A., Martín-García, M., Evans, M., Laws, A., & Bradley, P. S.

País: Inglaterra

Data de publicação: 21-julho-2022

Título: Tier-specific contextualised high-intensity running profiles in the English Premier League: more on-ball movement at the top

Referência: Ju, W., Hawkins, R., Doran, D., Gómez-Díaz, A., Martín-García, M., Evans, M., Laws, A., & Bradley, P. S. (2023). Tier-specific contextualised high-intensity running profiles in the English Premier League: more on-ball movement at the top. Biology of Sport, 40(2), 561–573. https://doi.org/10.5114/biolsport.2023.118020

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 33 – setembro de 2022.

 

Apresentação do problema

As exigências energéticas do jogo de futebol podem ser indiretamente quantificadas através da análise espaciotemporal, que, por sua vez, pode fornecer dados valiosos à equipa técnica (Carling et al., 2008). Embora um vasto conjunto de investigações já tenha quantificado as demandas físicas no decurso de jogos de futebol de elite, as evidências acerca da relação entre o sucesso no futebol e a performance física ainda são limitadas (Mohr et al., 2003; Bradley et al., 2013). Esta ambiguidade aparenta resultar da desconsideração dada ao contexto tático em que os dados físicos são recolhidos, uma vez que os cenários táticos que ocorrem durante o jogo modelam os esforços físicos realizados (Schuth et al., 2016). 

De facto, o sucesso no futebol parece estar mais associado a ações de alta intensidade em posse da bola e que promovam a criação de espaços e de ameaças ofensivas, porém, os tipos de ações táticas realizadas durante esforços de alta intensidade ainda não foram revelados (Bradley et al., 2016; Brito Sousa et al., 2020). Desta forma, para aumentar o conhecimento de como o sucesso coletivo é alcançado no futebol, o contexto tático deve ser codificado com as variáveis físicas (figura 2). Até à data, esta relação tem sido negligenciada em grande parte devido às opções metodológicas tomadas pelos investigadores. A análise restrita de performances à escala individual (i.e., jogador), em vez de à escala coletiva (i.e., equipa), limita as evidências que podem ser extraídas dos estudos, visto que os desempenhos físicos e táticos são influenciados não apenas pela atividade dos adversários, mas também pelos esforços realizados pelos companheiros de equipa (Bradley, 2020).

 

Figura 2. Bernardo Silva (Manchester City FC) num esforço de alta intensidade com bola na Premier League (fonte: https://www.manchestereveningnews.co.uk).

 

Ao invés da performance física por si (e.g., distância em corrida de alta intensidade), os desempenhos técnicos parecem ser indicadores mais robustos para predizer o sucesso de uma equipa e para distinguir vários grupos de qualidade ou níveis classificativos em ligas de futebol de elite (Konefał et al., 2019; Rampinini et al., 2007). Os clubes mais bem classificados tendem a realizar mais remates à baliza, toques sobre a bola e passes, apresentando também uma percentagem de passes precisos mais elevada, comparativamente a clubes menos bem classificados (Castellano et al., 2012; Konefał et al., 2019). Contudo, a utilização das métricas técnicas isoladas continua a ser unidimensional e insuficiente para compreender na íntegra como é que as equipas atingem o sucesso ou se diferenciam qualitativamente entre si. 

Presentemente, já foi estabelecida uma abordagem sistemática integrada capaz de contextualizar as variáveis físicas com propósitos táticos chave (Ju et al., 2022); apesar disso, esta abordagem não incluiu o desempenho técnico, que requer um processo laborioso de codificação manual. Não obstante a limitação, esta nova abordagem pode ser uma solução para melhor entender o sucesso de uma equipa através da discriminação de níveis qualitativos baseada na identificação de diferentes padrões físico-táticos coletivos ou individuais. Assim, o presente estudo visou determinar os perfis físico-táticos de equipas e jogadores de futebol de elite em relação à classificação final da liga, de forma a identificar associações entre o sucesso e os dados físico-táticos em conjunto com fatores técnicos.

 

Métodos

Dados individuais e coletivos: os dados físico-táticos dos jogos foram recolhidos da edição 2018/2019 da Premier League inglesa, utilizando uma abordagem integrada e um novo filtro desenvolvido para esta pesquisa. Com o novo filtro, foram isoladas as atividades de alta intensidade que alcançaram velocidades > 19.8 km/h, durante um tempo mínimo de 1 s. O investigador principal analisou 50 partidas oficiais, envolvendo um total de 388 jogadores de campo e 1265 observações individuais de 20 equipas distintas. Para a análise individual, só foram incluídos na amostra jogadores de campo que completaram o jogo na mesma posição (n = 583 observações individuais: defesas centrais, n = 179; defesas laterais, n = 147, médios centro, n = 167; médios ala/extremos, n = 54; avançados centro, n = 36).

Controlo dos jogos e equilíbrio dos dados: os jogos foram aleatoriamente selecionados, sendo controlados fatores contextuais (e.g., fases da época, localização, qualidade da oposição) para aumentar o rigor científico. Os jogos foram excluídos da amostra se o diferencial de golos fosse superior a 3 e/ou houvesse uma ou mais expulsões (Bradley & Noakes, 2013; Carling & Bloomfield, 2010). 

Categorização da classificação da liga em níveis: foram constituídos 4 grupos de qualidade a partir da classificação final das equipas: (A) 1.º–5.º lugar (n = 25 jogos observados), (B) 6.º–10.º lugar (n = 26), (C) 11.º–15.º lugar (n = 26) e (D) 16.º–20.º lugar (n = 23). 

Abordagem integrada para quantificar a performance em jogo: foram utilizadas duas categorias principais – ações táticas e opções adicionais para tornar esta abordagem mais sistemática (tabela 1). As ações isoladas de alta intensidade foram sincronizadas com ângulos abertos das imagens de todos os jogadores no decurso das partidas, a fim de categorizar a intenção tática de cada ação. A codificação foi executada no QuickTime Player (Apple Inc, Cupertino, California, USA), de acordo com os seguintes critérios: as ações de alta intensidade com uma ação tática foram classificadas como ação simples (n = 27054), com duas ações táticas como ação híbrida (n = 4718) e com 3 ou mais ações táticas foram codificadas como “outros” (n = 3398). No caso de esforços de alta intensidade com 70-90% de dominância de uma ação tática primária e 10–30% de uma ação tática secundária, a codificação foi híbrida; porém, caso a ação primária decorresse em 50–60% do esforço e a secundária em 40–50%, foi registada a categoria “outros”. 


Tabela 1. Variáveis físico-táticas e opções adicionais (direção e/ou diferentes opções situacionais). Adaptado de Ju et al. (2020).


Dados técnicos: os dados de rastreamento dos jogos da amostra foram recolhidos de uma empresa especializada (OPTA Sports, London, UK). Os eventos técnicos analisados foram os seguintes: remates, remates à baliza, toques na bola, passes, cruzamentos, dribles, passes longos, passes longos precisos, interceções e eficácia do passe. Os dados individuais por jogo foram somados, de modo a representar a performance global da equipa. 

Análise estatística: os dados foram apresentados como média ± desvio-padrão e a análise realizada no software IBM SPSS Statistics, versão 26 (IBM Corp., Armonk, N.Y., USA). A normalidade dos dados foi verificada através de testes de Shapiro-Wilk e Kolmogorov-Smirnov. A comparação das performances competitivas por cada nível foi executada através de análise de variância (ANOVA) de uma via, com a aplicação de testes post hoc de Tukey para especificar diferenças entre níveis. As dimensões de efeito foram determinadas de acordo com os valores de corte seguintes: trivial (≤ 0.2), pequena (> 0.2–0.6), moderada (> 0.6–1.2), grande (> 1.2–2.0) e muito grande (> 2.0–4.0) e extremamente grande (>4.0) (Batterham & Hopkins, 2006). As análises correlacionais recorreram ao coeficiente de correlação de Pearson, em função dos seguintes intervalos: trivial (r ≤ 0.1), pequena (r > 0.1–0.3), moderada (r > 0.3–0.5), grande (r > 0.5–0.7), muito grande (r > 0.7–0.9) e quase perfeita (r > 0.9) (Hopkins et al., 2009). A variabilidade da performance coletiva de jogo para jogo foi aferida através de coeficientes de variação (Carling et al., 2016). A significância estatística foi definida em p ≤ 0.05.


Principais resultados

 

·      Contextualização da distância em alta intensidade por grupo de qualidade

A equipas do grupo A percorreram: (1) mais 34% de distância em alta intensidade, quando em posse de bola, que as equipas dos grupos C e D; (2) mais 39–51% de distância em alta intensidade nas categorias “movimento para receber/explorar espaço” e “corrida com bola”, comparativamente aos grupos C e D; (3) mais 23–94% de distância nas categorias “over/underlap”, “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração” e “entrada na área de penálti”, em relação ao grupo C. A figura 3 mostra as distâncias percorridas em alta intensidade, nas diferentes posições de jogo, para cada grupo de qualidade.

 

Figura 3. Distâncias percorridas em alta intensidade contextualizadas para os diferentes grupos de qualidade, em função de cada posição de jogo. * Maior distância percorrida para “movimento para receber/explorar espaço” que os grupos A, B e C (p < 0.01). # Maior distância percorrida para “esticar o jogo” que o grupo C (p < 0.05). Maior distância percorrida para “over/underlap” que o grupo C (p < 0.05). Maior distância percorrida para “corrida de recuperação” que o grupo B (p < 0.05). Δ Maior distância percorrida para “corrida com bola” que os grupos B e C (p < 0.05). ● Maior distância percorrida para “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração” que os grupos B e C (p < 0.01). ○ Maior distância percorrida para “entrada na área de penálti” que o grupo C (p < 0.01). Maior distância percorrida para “cobertura” que o grupo A (p < 0.05). Maior distância percorrida para “cobertura” que os grupos A e B (p < 0.05). Os volumes de “interceção” e “esticar o jogo” foram relativamente pequenos, pelo que não estão visíveis na figura (Ju et al., 2023).

 

·      Opções adicionais pelos diferentes grupos de qualidade

A figura 4 ilustra a comparação das opções adicionais, para as variáveis das fases ofensiva (4a, 4b e 4c) e defensiva (4d e 4e), entre os 4 grupos de qualidade. Em posse de bola, as equipas do grupo A realizaram 88–118% mais ações de alta intensidade nos deslocamentos para trás na zona central, em relação aos outros grupos. O grupo A também executou 54–78% e 25–43% mais ações de alta intensidade para “corrida com bola” e “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração” na zona central, respetivamente, que os outros grupos.

 

Figura 4a. Comparação das opções adicionais para as variáveis ofensivas “jogo apoiado” e “movimento para receber/explorar espaço” entre os grupos de qualidade. Símbolos destacam diferenças significativas (p < 0.05). Δ Mais ações realizadas que todos os outros grupos de qualidade. * Mais ações realizadas que o grupo D. # Mais ações realizadas que os grupos C e D. ● Mais ações realizadas que o grupo C. Mais ações realizadas que os grupos B e C (Ju et al., 2023).

 

Figura 4b. Comparação das opções adicionais para as variáveis ofensivas “over/underlap” e “esticar o jogo” entre os grupos de qualidade. Símbolos destacam diferenças significativas (p < 0.05). Δ Mais ações realizadas que todos os outros grupos de qualidade. * Mais ações realizadas que o grupo D. # Mais ações realizadas que os grupos C e D. ● Mais ações realizadas que o grupo C. Mais ações realizadas que os grupos B e C (Ju et al., 2023).

 

Figura 4c. Comparação das opções adicionais para as variáveis ofensivas “corrida com bola”, “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração” e “entrada na área de penálti” entre os grupos de qualidade. Símbolos destacam diferenças significativas (p < 0.05). Δ Mais ações realizadas que todos os outros grupos de qualidade. * Mais ações realizadas que o grupo D. # Mais ações realizadas que os grupos C e D. ● Mais ações realizadas que o grupo C. Mais ações realizadas que os grupos B e C (Ju et al., 2023).

 

Figura 4d. Comparação das opções adicionais para as variáveis defensivas “cobertura” e “corrida de recuperação” entre os grupos de qualidade. Símbolos destacam diferenças significativas (p < 0.05). Δ Mais ações realizadas que todos os outros grupos de qualidade. * Mais ações realizadas que o grupo D. # Mais ações realizadas que os grupos C e D. ● Mais ações realizadas que o grupo C. Mais ações realizadas que os grupos B e C (Ju et al., 2023).

 

Figura 4e. Comparação das opções adicionais para as variáveis defensivas “fechar/pressionar” e “interceção” entre os grupos de qualidade. Símbolos destacam diferenças significativas (p < 0.05). Δ Mais ações realizadas que todos os outros grupos de qualidade. * Mais ações realizadas que o grupo D. # Mais ações realizadas que os grupos C e D. ● Mais ações realizadas que o grupo C. Mais ações realizadas que os grupos B e C (Ju et al., 2023).

 

·      Desempenho técnico

As equipas de topo (grupo A) executaram mais 36–57% de remates à baliza, 24–34% de toques na bola e 38–55% de passes relativamente aos outros grupos. No que respeita à eficácia do passe, as equipas do grupo A foram mais eficazes (82 ± 5%) que as equipas do grupo B (78 ± 6%), C (74 ± 5%) e D (73 ± 7%). A figura 5 apresenta as correlações entre as variáveis técnicas e as ações físico-táticas.

 


 Figura 5. Correlações entre as variáveis físico-táticas (eixo x) e técnicas (eixo y). Linhas picotadas indicam os intervalos de confiança a 95% (Ju et al., 2023).

 

·      Variabilidade da performance de jogo para jogo

A percentagem média do coeficiente de variação das distâncias percorridas em alta intensidade pelas equipas foi de 13 ± 4%. Independentemente das variáveis físico-táticas, a percentagem média do coeficiente de variação para as ações contextualizadas foi de 48 ± 31%.

 

Aplicações práticas

Os resultados obtidos aumentam o nosso entendimento acerca dos padrões de jogo no futebol de elite face à classificação final das equipas, permitindo discriminar os fatores que diferenciam grupos de qualidade na mesma competição. As equipas mais fortes (grupo A) realizaram mais ações contextualizadas em alta intensidade (i.e., “movimento para receber/explorar espaço”, “corrida com bola”, “over/underlap”, “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração” e “entrada na área de penálti adversária”) e executaram mais ações técnicas ofensivas (e.g., remates à baliza, passes, toques na bola) que as equipas pertencentes aos grupos de qualidade inferior. As evidências explicam o “porquê” de as melhores equipas percorrerem maiores distâncias em alta intensidade na fase ofensiva: procura sistemática de espaços vitais para criar condições espaciotemporais favoráveis para marcar golo. 

Apesar de a distância percorrida em alta intensidade ser equivalente entre os 4 grupos de qualidade, as equipas do topo percorreram, aproximadamente, mais 35% de distância na fase ofensiva, comparativamente às equipas dos grupos C e D. A diferença baixou para os 5% na fase defensiva. Assim, parece que a distância percorrida em alta intensidade quando as equipas têm a posse de bola é um aspeto diferenciador do nível qualitativo em competições como a Premier League inglesa. 

A análise das opções adicionais das variáveis físico-táticas demonstrou que as equipas do grupo A dominaram o corredor central ao realizar mais esforços de alta intensidade para “jogo apoiado”, “movimento para receber a bola/explorar espaço”, “corrida com bola” e “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração”. Considerando as etapas do processo ofensivo, as equipas do topo tendem a recorrer a ações de alta intensidade para promover o jogo apoiado e uma progressão calculada da bola nos terços defensivo e médio, para, a partir do terço intermédio, incrementar o número de esforços físico-táticos de “over/underlap” e de ações alta intensidade associadas à rotura da organização defensiva adversária. Por sua vez, as equipas do grupo C executaram mais ações de alta intensidade para cobrir espaço ou aproximar dos oponentes no terço defensivo, o que indica que estas equipas preferem estabilizar defensivamente a equipa atrás da linha da bola, em vez de pressionar em zonas mais adiantadas do campo. 

Inevitavelmente, a execução de algumas variáveis técnicas surgiu relacionada a determinados esforços físico-táticos. A “entrada na área de penálti” e a “corrida para o espaço atrás da linha defensiva/penetração” ocorreram associadas a ações de cruzamento e à eficácia do passe longo. O número de eventos de interceção esteve moderadamente ligado a ações de alta intensidade para “fechar espaço/pressionar”. Na prática, é imprescindível que os treinadores criem contextos que promovam, por um lado, a variabilidade das ações técnicas executadas e, por outro lado, o transfer das ações que são predominantemente solicitadas no treino para o jogo competitivo. Se a técnica nunca surge dissociada da tática, o contexto proporciona uma narrativa para os dados obtidos. A integração dos dados físicos, táticos, técnicos no contexto em que ocorrem é uma mais-valia para qualquer departamento de análise do jogo. 

Por último, convém ter em consideração a natureza complexa do futebol. Há inúmeros fatores contextuais passíveis de influenciar a performance em competição, o que resulta em elevados níveis de variabilidade dos dados inerentes à performance coletiva (e.g., distâncias de alta intensidade e ações contextualizadas: ~13% e ~48%, respetivamente). Os profissionais do treino devem ponderar esta variabilidade na tomada de decisão acerca da aplicabilidade prática dos dados em eventos ou processos futuros.

 

Conclusão

Os dados contextualizados podem ajudar a melhorar o entendimento do estilo de jogos das equipas e podem ser utilizados para melhor discriminar os respetivos níveis qualitativos, tendo em consideração variáveis do foro técnico. Além disso, as ações físico-táticas dos jogadores produzem impacto não apenas nas ações dos seus companheiros de equipa, mas também nas atividades executadas pelos adversários no decurso do jogo competitivo. Para finalizar, deve ser enfatizado que a variabilidade de jogo para jogo da distância percorrida em alta intensidade e das ações contextualizadas é elevada.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Biology of Sport.