Figura 1. O melhor 11 de sempre a atuar em campeonatos europeus (fonte: uefa.com).
Goste-se ou não, os 11 jogadores da Figura 1 foram eleitos para a
melhor equipa de sempre a atuar em campeonatos europeus de seleções. A votação
decorreu no sítio oficial da UEFA (uefa.com) e, na minha ideia, não estaria um
11 muito diferente deste.
Que maravilhas fariam estes senhores se efetivamente
tivessem jogado todos juntos na mesma equipa?
No início desta época –
2015/2016 – foi-me proposto um novo desafio como treinador: colaborar com o
Portimonense SC no escalão de Infantis (Sub-13). Algum tempo depois, viemos a
saber que a Associação de Futebol do Algarve iria lançar, pela primeira vez na
história do futebol na região, a modalidade Futebol 9 para o escalão etário em
questão. Após nove épocas consecutivas a treinar miúdos no Futebol 7 (2005/2006
– 2013/2014) e uma época no Futebol 11 (2014/2015), este constituía um desafio
suplementar, marcado pela novidade.
Figura 1. Plantel dos Infantis A (Sub-13) do Portimonense SC, 2015/2016. (em falta 9 elementos dos Infantis C que também se sagraram campeões).
Os desafios foram
ultrapassados de uma forma absolutamente gratificante, fruto do talento dos
nossos jovens praticantes mas, sobretudo, da sua capacidade de trabalho e solidariedade.
A atitude é essencial para vingarmos em qualquer área da sociedade e no
desporto essa premissa não foge à regra. Se é óbvio que o trabalho de um
treinador de formação deve assentar no aperfeiçoamento das capacidades individuais
da criança/jovem, não é menos verídico que o desenvolvimento de competências
sociais deve ser convenientemente ponderado. A atitude para colaborar, cooperar
e ser solidário com os companheiros de equipa é mais determinante do que se
pensa no desporto, em particular nos desportos coletivos, nos quais a base do
sucesso individual é e será sempre o êxito coletivo. Deste modo, apresentámos a
época como uma corrida («RACE») em que os vencedores se pautam por R – Respeito, A – Aprendizagem, C –
Cooperação e E – Empenho. E o grupo
que formámos foi forte, muito forte mesmo, o que foi bastante evidente nos
poucos momentos menos bons com que nos deparámos. Não tenho dúvida que foi a
chave para uma temporada memorável: 26 jogos e 26 vitórias no Campeonato
Distrital de Infantis – Futebol 9 (figura 2); vencedores do torneio Albufeira
EuroCopa 2016 (Futebol 11) e do Torneio Centenário – Cidade de Portimão 2016
(Futebol 9).
Figura 2. Classificação final no Campeonato Distrital de Infantis - Futebol 9 (AF Algarve).
Os números valem o que
valem nestas idades e os títulos são meros incentivos para um futuro que é por
demais incerto e tantas vezes cruel. A noção de que o respeito, a cooperação e
o empenho em prol de objetivos comuns compensam e produzem resultados práticos
foi a melhor lição de todas e serve para a vida. As estatísticas dizem que
apenas uma percentagem irrisória de jovens praticantes se tornam profissionais
de futebol, mas é legítimo que todos estes jovens continuem a nutrir o sonho de
jogar em grandes palcos, porque «o sonho comanda a vida» e «quando o Homem
sonha, a obra nasce», contudo, sem nunca descurar a formação académica.
Pessoalmente, enfatizo a
aprendizagem recíproca no seio do grupo, a amizade e, claro está, o gosto pela
prática do bom futebol: o jogo de triângulos, as combinações táticas ofensivas,
as coberturas, os equilíbrios e as saídas de zonas de pressão. A homenagem da equipa
técnica, na qual estão incluídos João Liberal (treinador adjunto), António
Sagreiro (treinador de guarda-redes), José Pio e Pedro Simões (delegados), a estes
jovens surge sob a forma de imagens. Eis aqueles que foram eleitos os dez
melhores golos no campeonato distrital; memórias bonitas que irão perdurar pela
posterioridade, fazendo jus ao nosso lema: «se jogarmos para equipa, a equipa,
mais cedo ou mais tarde, jogará para nós».
Parabéns a todos, em
especial aos nossos rapazes. Força, Portimonense!
Faz hoje dez anos que
escrevi a «Reflexão Inicial”. Faz hoje dez anos que surgiu a analogia com um
qualquer jogo desportivo coletivo: «a vida não é mais que uma questão de linhas
de passe». Uma analogia que serve de mote para este blogue.
Figura. Décimo aniversário do blogue Linha de Passe.
Entretanto, abriram-se múltiplas linhas de passe, fecharam-se outras tantas. Por vezes, o
passe chegou ao destinatário, noutras ocasiões foi um fracasso total. Dez anos
de alegrias, tristezas, pensamentos existenciais, homenagens, textos técnicos e um punhado de
publicações de cariz científico. A minha cara-metade, que teve a santa
paciência de ler todos os 370 textos escritos, diz que mudei ao longo dos anos.
Que cresci e amadureci. Quis o destino que o dia 18 de maio fosse também o
nosso dia, tal como o dia do Linha de Passe.
Haja temas para, pelo
menos, mais dez anos de Linha de Passe. Haja saúde para, no mínimo, mais
cinquenta com o meu amor Patrícia; a melhor linha de passe que a vida me
proporcionou.
Os britânicos chamam-lhe «fairytale», outros referem-se a «fantasy
football» ou «real football manager», mas é pura realidade: o Leicester City Football Club venceu a
mais que competitiva Barclays FA Premier
League.
Figura 1. O treinador vencedor - Claudio Ranieri (fonte: www.abola.pt).
No dia da consagração como vencedores da competição, o líder italiano
Claudio Ranieri fez questão de frisar: «Esta foi uma época de doidos, as
grandes equipas não estavam consistentes e nós tivemos consistência». As
variáveis contextuais têm o condão de adquirir contornos decisivos em
competições longas e o facto de o Leicester não ter compromissos europeus e de
ter saído cedo das outras provas internas (taças) contribuiu bastante para a
gestão do plantel e para potenciar a qualidade do trabalho nas sessões de
treino. Aliás, esta questão foi publicamente assumida pelo staff técnico que
envolve a primeira equipa do Leicester. Convido-vos a ler a peça
da BBC Leicester City: The science behind their Premier League title.
Pode-se vencer um ou outro jogo com alguma dose de sorte, mas nenhuma
equipa é campeã ao fim de 36 jornadas só com sorte. A competência, a qualidade
do trabalho desenvolvido e, sobretudo, o trabalho de equipa – «teamwork» – são
particularidades essenciais para que uma equipa alcance o sucesso numa época
desportiva. Por exemplo, o psicólogo Ken Way elogiou o manager Claudio Ranieri, ao afirmar
que é um segundo psicólogo do grupo e que proferiu frases que o deixou de
queixo em baixo. Por sua vez, Claudio Ranieri considera fundamentais e
profícuas as informações e os dados disponibilizados por todos os elementos do
staff das ciências do desporto (i.e., especialistas em análise da performance,
condição física, força e potência, fisiologia, psicologia e nutrição). Finalmente,
é de destacar a envolvência e a mobilização de todos, do grupo, em torno de
objetivos comuns. Este trabalho coletivo, de rigor e repleto de valores sociais
derrubou o «futebol-industria», no qual o dinheiro impera e conquista vitórias
e títulos (figura 2).
Figura 2. Relação entre custo do plantel e posição na Premier League. (fonte: BBC Sport).
O «conto de fadas» Leicester FC trouxe-nos de volta o verdadeiro e genuíno futebol,
colocando indiretamente em causa os preceitos pelos quais a nossa sociedade se
rege atualmente. Vale a pena refletir sobre a lição dada por este pequeno clube.
Afonso Cruz é um
escritor português que, segundo nota da contracapa do livro, «vive no campo e
gosta de cerveja». Nesta publicação da editora Alfaguara, esta enciclopédia
revela-nos algumas sábias subtilezas que o mundo esqueceu ou ignorou.
Figura. Capa do livro «Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria», de Afonso Cruz.
Acerca do tema «Evolução
da Sociedade», o autor invoca as palavras de Tsilia Kacev (1979), numa
exposição de Paris:
Chama-se evolução
da sociedade ao tempo que se leva a concordar com os artistas do século
passado.
(p. 49)
Na minha perspetiva, o
texto intitulado «Sintaxe Interior» atingiu o píncaro da excelência:
Há palavras que
nunca se dizem, à cautela, pois são tremendas. (…) As pessoas dizem-nas
exibindo a nudez das suas letras e das suas fonéticas, sem pudor. Mas as
pessoas estão enganadas. As palavras ainda têm poder e movem mundos. Criam
mundos. Desfazem mundos. E só os inconscientes as atiram para fora da boca como
perdigotos.