Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.
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Autores: Büyükçelebi,
H. & Düz, S.
País: Turquia
Data de
publicação: 24-setembro-2026
Título: Half-space involvement in goal-scoring sequences in elite
European football: a multi-league spatial analysis
Referência: Büyükçelebi, H. & Düz, S. (2026). Half-space involvement in goal-scoring sequences in elite European football: a multi-league spatial analysis. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, 1–17. Advance online publication. https://doi.org/10.1186/s13102-026-02102-z
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 82 – outubro de
2026.
Apresentação do problema
A organização espacial e a ocupação dos diferentes corredores do campo assumem particular importância na análise do futebol de elite. Entre estas zonas, destacam-se os corredores interiores, também designados por meios-espaços (half-spaces), situados entre o corredor central e os corredores laterais, pela sua possível relevância na organização ofensiva e na criação de oportunidades de golo (Bradley et al., 2013; Gonçalves et al., 2017).
Tradicionalmente, a Zona 14, localizada na região central à entrada da área de grande penalidade, tem sido identificada como uma das zonas mais relevantes para a criação de golos (Taylor et al., 2004). Contudo, os meios-espaços também podem favorecer combinações entre jogadores, incluindo movimentos de terceiro homem, e criar dificuldades à organização defensiva adversária (Rein & Memmert, 2016). A sua ocupação constitui, por isso, um elemento relevante nos modelos de jogo que valorizam o posicionamento e a criação de vantagens espaciais.
Apesar da investigação existente sobre zonas de finalização, padrões de passe e comportamentos ofensivos, a participação dos corredores interiores nas sequências que resultam em golo permanece pouco esclarecida, sobretudo quando se comparam diferentes ligas europeias. As diferenças entre os estudos, nomeadamente na definição das zonas espaciais e nos procedimentos metodológicos, dificultam a identificação de padrões comuns.
Neste contexto, o estudo procurou analisar a participação dos meios-espaços nas sequências ofensivas que terminaram em golo, nas 5 principais ligas europeias. A investigação foi orientada por 3 questões:
1. Distribuição espacial: como se distribuem os golos e as
assistências pelos meios-espaços, corredor central e corredores laterais, após
considerar as diferenças no número de subcorredores que constituem cada
categoria?
2. Relações tático-técnicas: como se relacionam a zona de
origem da assistência, o local do golo, o tipo de passe, a técnica de
finalização e o contexto tático?
3. Diferenças entre ligas: em que medida variam as
distribuições espaciais dos golos e das assistências entre as 5 principais
ligas europeias?
Métodos
·
Amostra e recolha de
dados
O estudo adotou um desenho quantitativo, observacional e retrospetivo, de natureza exploratória e descritiva, para analisar a participação dos meios-espaços nas sequências ofensivas que resultaram em golo. A amostra compreendeu 1 826 jogos e 4 647 golos, referentes à época 2021/2022 das 5 principais ligas europeias: Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1. A seleção destas competições teve por base a sua relevância competitiva, económica e internacional, considerando os rankings da UEFA e os valores de mercado disponibilizados pelo Transfermarkt.
Os vídeos dos jogos e os
respetivos dados de eventos foram obtidos através das plataformas InStat Scout
e PFSA. As situações de golo e assistência foram posteriormente revistas em
vídeo, cabendo à equipa de investigação a classificação espacial e tática de
cada ocorrência, de acordo com o sistema de zonas definido para o estudo.
· Variáveis e procedimentos
O campo foi dividido
digitalmente em 5 corredores longitudinais, com base nas dimensões
regulamentares da UEFA: 2 laterais, 2 interiores (meios-espaços) e 1 central.
Os corredores interiores foram definidos como as zonas intermédias entre o
corredor central e os laterais, com particular atenção ao terço ofensivo (Rein
& Memmert, 2016). Para uma análise espacial mais detalhada, foram ainda
delimitadas zonas de assistência e de finalização, incluindo a denominada golden
zone, associada à criação e concretização de oportunidades de golo (Figura 2).
Figura 2. Divisão longitudinal de um campo de futebol
regulamentar, com identificação das zonas táticas.
Cada sequência que resultou em golo foi classificada segundo a zona de origem da assistência, a zona de finalização, o tipo de passe (aéreo ou à altura da cintura ou abaixo), o contexto tático (bola corrida ou bola parada) e o número de toques antes da finalização (1, 2 ou 3 ou mais). As situações de bola parada incluíram cantos, livres, penáltis e lançamentos laterais. Quando a equipa atacante recuperou claramente a posse após a ação inicial de bola parada, a sequência foi classificada como bola corrida.
Para comparar a
participação dos diferentes corredores, os autores ajustaram as frequências dos
corredores interiores e laterais ao número de corredores que constituíam cada
categoria (2), mantendo os valores do corredor central (1). Este ajustamento
permitiu uma comparação descritiva, sem representar uma medida de eficiência
espacial. Nas análises mais detalhadas, as zonas de assistência e de
finalização foram agrupadas em 4 categorias distintas para cada variável,
conforme o diagrama apresentado (Figura 2).
·
Fiabilidade
Antes da recolha de dados,
os 2 observadores realizaram uma fase de treino com uma amostra-piloto de
jogos, apoiada por um manual de codificação com definições operacionais e
exemplos de classificação. Para avaliar a fiabilidade interobservador, 10% da
amostra foi codificada de forma independente por ambos os investigadores. As
divergências identificadas foram posteriormente discutidas até se alcançar um
consenso. A concordância interobservador foi avaliada através do coeficiente
kappa de Cohen, com valores entre 0,79 e 0,95, indicativos de uma concordância
substancial a quase perfeita. Estes resultados demonstraram uma elevada
consistência na aplicação dos critérios de codificação espacial e tática
definidos para o estudo.
·
Análise estatística
A análise estatística foi realizada no programa IBM SPSS (versão 23.0). A distribuição dos golos e das assistências pelas diferentes zonas do campo foi descrita através de frequências e percentagens, com ajustamentos ao número de corredores de cada categoria para facilitar a comparação. As relações entre variáveis categóricas foram examinadas através do teste do qui-quadrado de independência, com a magnitude das associações avaliada pelo V de Cramér.
A análise dos resíduos
padronizados ajustados permitiu identificar combinações de categorias com
frequências significativamente superiores ou inferiores às esperadas,
considerando valores superiores a +1,96 ou inferiores a −1,96, respetivamente.
Adotou-se um nível de significância de p < 0,05. Dada a possível
dependência entre acontecimentos da mesma equipa, jogo ou competição, os
resultados foram interpretados sobretudo numa perspetiva descritiva, sem
estabelecer relações causais.
Principais resultados
A análise incidiu sobre 4 647
golos registados em 1 826 jogos das 5 principais ligas europeias, na época
2021/2022. Os resultados permitiram identificar padrões espaciais e associações
entre as zonas de assistência e finalização, os comportamentos tático-técnicos
e o contexto competitivo.
·
Distribuição dos
golos e das assistências por zona do campo
A distribuição espacial
revelou diferenças na frequência de golos e assistências entre os
meios-espaços, o corredor central e os corredores laterais. Em termos
agregados, os corredores interiores apresentaram a maior proporção de golos
entre as 3 categorias representadas, enquanto as assistências tiveram maior
expressão nos corredores laterais e central. Contudo, após o ajustamento ao
número de corredores de cada categoria, o corredor central apresentou a maior
participação relativa, tanto nos golos como nas assistências (Figura 3).
Figura 3. Distribuição dos golos e das assistências pelos
corredores interiores, central e laterais, com valores agregados e ajustados ao
número de corredores (Büyükçelebi & Düz, 2026). Nota: as percentagens dos
golos foram normalizadas apenas para as 3 categorias representadas, não
correspondendo à totalidade dos golos analisados.
·
Relação entre a zona
de assistência e a zona de finalização
Verificou-se uma
associação estatisticamente significativa, de magnitude moderada, entre a zona
de origem da assistência e a zona de finalização. Destacaram-se duas
combinações com frequências superiores às esperadas: assistências da Zona 3 associadas
a golos na Zona 3 e assistências provenientes de fora dos meios-espaços para
finalizações nesses corredores. Por sua vez, as combinações entre a Zona de
Assistência 3 e os meios-espaços, bem como entre zonas exteriores aos meios-espaços
e a Zona de Finalização 3, apresentaram frequências inferiores às esperadas
(Figura 4).
Figura 4. Mapa de calor das frequências observadas face às
esperadas nas combinações entre zonas de assistência e finalização (Büyükçelebi
& Düz, 2026). Nota: o verde indica frequências superiores às esperadas, o
vermelho frequências inferiores e o amarelo valores próximos dos esperados.
·
Técnica de
finalização e zonas táticas
A técnica de finalização
apresentou associações significativas, de magnitude moderada, tanto com a zona
de assistência como com a zona de finalização. As finalizações ao primeiro
toque foram menos frequentes do que o esperado após assistências provenientes
das Zonas 2 e 3, mas mais frequentes após assistências provenientes das zonas exteriores
aos meios-espaços. Adicionalmente, as finalizações com 3 ou mais toques
destacaram-se após assistências da Zona 3. Relativamente ao local de
finalização, as ações ao primeiro toque estiveram sobrerrepresentadas nos meios-espaços,
enquanto as finalizações com 3 ou mais toques se destacaram na Zona 3.
·
Tipo de passe e zonas
táticas
O tipo de passe apresentou
uma associação significativa, de magnitude elevada, com a zona de assistência,
e moderada com a zona de finalização. Os passes aéreos estiveram
sobrerrepresentados nas assistências provenientes de fora dos meios-espaços,
enquanto os passes à altura da cintura ou abaixo se destacaram nas Zonas de
Assistência 2 e 3. Quanto ao local de finalização, os passes aéreos estiveram
associados a uma frequência de golos nos meios-espaços superior à esperada,
enquanto os passes à altura da cintura ou abaixo se destacaram na Zona de
Finalização 3.
·
Contexto tático,
técnica de finalização e tipo de passe
Foram identificadas
associações significativas, de magnitude elevada, entre o contexto tático e a
técnica de finalização, bem como entre o contexto tático e o tipo de passe. As
situações de bola parada apresentaram maior representação de finalizações ao primeiro
toque e assistências através de passes aéreos. Pelo contrário, nas situações de
bola corrida destacaram-se as finalizações com 3 ou mais toques e os passes à
altura da cintura ou abaixo.
·
Diferenças entre as
cinco principais ligas europeias
A distribuição das zonas
de finalização não apresentou diferenças estatisticamente significativas entre
as 5 ligas analisadas. A distribuição das zonas de assistência revelou uma
associação significativa com a competição, embora de magnitude muito reduzida.
As diferenças concentraram-se na La Liga, onde as assistências da Zona 1
estiveram sobrerrepresentadas e as da Zona 2 sub-representadas. Globalmente, os
resultados não sustentaram a existência de distribuições espaciais claramente
distintas entre as ligas, nem permitiram inferir identidades
estratégico-táticas específicas de cada competição.
Aplicações práticas
Embora o estudo tenha analisado exclusivamente sequências ofensivas que resultaram em golo, as associações identificadas sugerem possíveis implicações para a análise do jogo e para a organização do treino. Sem estabelecer relações causais ou demonstrar a superioridade de determinadas soluções ofensivas, destacam-se 4 aplicações práticas.
1. Diversificar as ligações entre zonas de assistência e finalização: os resultados evidenciaram diferentes associações espaciais entre a origem do último passe e o local de finalização. No treino, importa proporcionar situações que permitam explorar combinações entre corredores, incluindo os meios-espaços, e diferentes trajetórias de passe. O objetivo não será reproduzir padrões fixos, mas ampliar as soluções ofensivas disponíveis em função da organização adversária.
2. Contextualizar a técnica de finalização e o tipo de passe: as associações observadas entre zonas do campo, modalidades de passe e número de toques sugerem a importância de diversificar as condições de finalização. As tarefas de treino deverão contemplar diferentes origens de assistência, tipos de passe, posicionamentos e níveis de oposição, de modo a favorecer decisões ajustadas às possibilidades de ação que emergem em cada situação.
3. Diferenciar as exigências da bola corrida e da bola parada: os resultados revelaram diferenças nas características técnicas das sequências de golo entre os 2 contextos, nomeadamente na maior representação de passes aéreos e finalizações ao primeiro toque nas situações de bola parada. No treino, estas diferenças podem orientar a criação de tarefas específicas, sem limitar as opções dos jogadores a soluções predefinidas. Importa preservar a variabilidade e a necessidade de adaptação às circunstâncias do jogo.
4. Integrar a análise espacial na avaliação do
desempenho ofensivo: a identificação das zonas de assistência e
finalização, complementada pelo tipo de passe, técnica de finalização e
contexto tático, pode contribuir para compreender os padrões ofensivos das
equipas. A utilização de mapas de calor e matrizes de associação constitui uma
ferramenta útil para a análise pós-jogo. Contudo, a avaliação da eficácia das
diferentes soluções exige considerar também as sequências que não resultaram em
golo, evitando conclusões baseadas exclusivamente nas ações bem-sucedidas.
Conclusão
O estudo identificou associações entre as zonas de
assistência e finalização, o tipo de passe, a técnica de finalização e o
contexto tático nas sequências ofensivas que resultaram em golo nas 5
principais ligas europeias. Após o ajustamento ao número de corredores, o
corredor central apresentou maior participação relativa do que cada meio-espaço
considerado individualmente. Contudo, os resultados devem ser interpretados com
prudência, uma vez que a análise incluiu apenas sequências que terminaram em
golo, sem considerar as oportunidades de utilização de cada zona. Assim, não é
possível concluir que os meios-espaços sejam intrinsecamente mais eficazes.
Investigações futuras deverão incluir sequências ofensivas sem sucesso, dados
de rastreamento e diferentes contextos competitivos, para aprofundar a
compreensão das relações espaciais e tático-técnicas observadas.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista BMC Sports Science, Medicine and
Rehabilitation.
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