25/10/2015

A atualidade da política portuguesa para crianças do 1º Ciclo

A Martins e o Sousa abriram Portas da vivenda, à beira-mar plantada, e correram pelo areal. A correria de mãos dadas foi interrompida ao encontrarem um Coelho que tinha dado à Costa. Pegaram no Coelho e levaram-no de volta a casa. Esfolaram-no e prepararam o refogado a contar com o bicho já parcialmente Salgado da sua jornada tão austera em mar pouco brando. Enquanto cozinhavam o almoço, decidiram ir ao quintal apanhar amoras silvestres para sobremesa. Ainda em êxtase pelo achado do dia, combinaram apanhar apenas com a mão Esquerda. A brincadeira não foi bem-sucedida, pois picaram-se numa Silva; irritados, protestaram ruidosamente. Mais tarde, restabelecidos dos ligeiros ferimentos, apreciaram o repasto com um bom vinho tinto alentejano. Contudo, à medida que as horas passavam, as dúvidas aumentavam: será que mais Coelhos iriam dar à Costa? Será que conseguiriam apanhar amoras com a mão Esquerda sem se depararem com a Silva? Será que ambos se continuariam a dar bem na casa da Costa?

Imagem: David e Golias cartoon (fonte: correntes.blogs.sapo.pt).

Não percam os próximos episódios porque eu também não.

15/09/2015

Os triângulos e as combinações táticas indiretas no futebol

Da minha experiência de ensino/treino do jogo de futebol, uma das primeiras ilações que retirei foi acerca da importância de me socorrer de figuras geométricas para desenvolver competências táticas das crianças/jovens. Já no ensino pré-escolar são transmitidas noções geométricas básicas como o triângulo, o quadrado e o retângulo e, numa fase inicial de aprendizagem do jogo (e não só), isso pode ser bastante útil ao treinador.

Já Carlos Queiroz afirmava que o futebol é um jogo de triângulos e, se pensarmos sobre isso, percebemos que o 3v3 (3-versus-3) é a unidade base para a evolução das competências táticas dos jogadores. Uma equipa de três jogadores pode cumprir os três princípios específicos do jogo em posse de bola (penetração/progressão, cobertura ofensiva/apoio e mobilidade) e os três princípios específicos da fase defensiva (contenção, cobertura defensiva e equilíbrio). Para além disso, com três jogadores, o portador da bola passa a ter opções múltiplas (i.e., passar para A, passar para B, driblar/fintar, rematar), em vez das evidentes limitações impostas pelo 2v2.

Três jogadores podem formar um triângulo, dois não; quatro ou mais jogadores podem formar mais do que um triângulo. Com triângulos podemos exigir mais do que simples combinações táticas diretas (i.e., combinações entre 2 jogadores: «tabelinha» e «overlap») e assim surgem as combinações táticas indiretas (envolvendo três ou mais jogadores). As opções múltiplas que o jogo de triângulos oferece são muito mais eficazes para perturbar a estabilidade das organizações defensivas cada vez mais aprimoradas no futebol contemporâneo (figura 1).

Figura 1. A combinação tática indireta (e o triângulo) que dá origem ao único golo do jogo Sunderland vs. Tottenham (13-set-2015).

Como exemplo, pego no magnífico golo de Mason (Tottenham) no passado fim-de-semana e que deu a vitória à sua equipa diante do Sunderland. Num jogo bastante disputado, no qual o nulo imperava, três jogadores (Mason, Harry Kane e Lamela) foram suficientes para ultrapassar as linhas defensivas dos visitados e criar a situação de golo. Três jogadores, um triângulo e a qualidade para interpretar e concretizar a combinação tática indireta.


Futebol é simples.
Mas nada é mais difícil do que jogar futebol de uma forma simples.
(Johan Cruyff)

01/09/2015

Jogadores de equipas futebol de elite não correm mais em situação de competição; correm melhor!

Uma ideia subliminar na mente de grande parte dos adeptos, dirigentes e até mesmo treinadores é que o nível de forma desportiva de um jogador e/ou de uma equipa está intimamente relacionado com a quantidade de distância percorrida em situação de competição. Não é invulgar ouvirmos alusões ao facto de um determinado jogador estar em grande forma porque «está em todo o lado», «tem um enorme pulmão» ou «corre muito».

É, no entanto, uma noção imprecisa, pois o nível de forma de um jogador/equipa não depende apenas da condição física. Sabemos que existe outras dimensões subjacentes ao rendimento desportivo nos jogos coletivos e que não podem ser ignoradas: tática, técnica e psicológica/emocional. Recentemente, a ciência aplicada ao futebol tem-nos fornecido dados extremamente interessantes sobre este assunto.

Por exemplo, Bradley et al. (2013) compararam a performance e a capacidade física de jogadores a atuar em três níveis competitivos em Inglaterra (Premier League, Championship e League 1) e concluíram o seguinte: (a) apesar da condição física ser similar, os jogadores das divisões inferiores percorreram maior distância total e em corrida de alta intensidade do que os jogadores da Premier League; (b) as mesmas equipas percorreram maiores distâncias em alta intensidade numa divisão inferior após despromoção, mas tal não sucedeu quando disputaram uma divisão superior na sequência de uma promoção; (c) os indicadores de performance técnicos (i.e., total de passes, passes para a frente, passes completos, bolas recebidas e média de toques na bola) obtiveram maior expressão na Premier League que nas divisões inferiores. Com base nos resultados, os autores especularam que o desempenho físico dos jogadores é influenciado pelas características dos métodos de jogo implementados pelas equipas. Se na Premier League se observou métodos ofensivos que privilegiavam a posse de bola, nas divisões inferiores os indicadores técnicos sugeriram um recurso mais frequente a bolas longas na fase de organização ofensiva. É perfeitamente plausível que esta disparidade estratégico-tática condicione o desempenho físico dos jogadores, no caso avaliado pelo perfil de corrida.

Num outro estudo, Carling et al. (2014) investigaram o desempenho competitivo de uma equipa profissional (Lille) durante 5 épocas consecutivas, tendo em particular atenção a época 2010/2011, na qual o clube foi campeão de França. Notavelmente, nas duas épocas em que a equipa foi mais bem sucedida, a performance física (avaliada pelo perfil de corrida dos jogadores) caiu em termos de ranking. A título de exemplo, na época em que o Lille foi campeão, a equipa foi apenas a 8ª da Ligue 1 em termos de distância percorrida em corrida de alta intensidade. Estas evidências sugerem que a corrida de alta intensidade per si pode não ser considerada um indicador de performance chave, especialmente se for analisada desconsiderando fatores contextuais e táticos.

Não quero com isto afirmar que a condição física dos jogadores não é importante. É um fator de rendimento que não deve ser negligenciado, mas que deve ser treinado e avaliado em conjunto com os outros fatores do rendimento desportivo, alguns deles até mais decisivos para a obtenção de sucesso no futebol. Neste sentido, um estudo recente de Folgado et al. (2015) abriu-nos novas perspetivas sobre o tema, na medida em que a eficiência dos deslocamentos dos jogadores poderá determinar uma poupança energética no que à distância total percorrida e à distância percorrida em alta intensidade diz respeito. No caso, a eficiência dos deslocamentos não tem que ver com um fenómeno meramente fisiológico, mas sim com o grau de sincronização ou coordenação entre os jogadores da mesma equipa. Entramos, inequivocamente, no domínio tático do jogo.

Embora o objetivo do estudo de Folgado et al. (2015) fosse analisar os desempenhos físico e tático da mesma equipa em períodos de jornadas concentradas ou dispersas, os resultados podem ser utilizados para suposições mais genéricas. Mais concretamente, comparando o tipo de distribuição das jornadas (congestionadas ou não congestionadas), não foram verificadas diferenças no desempenho físico da equipa; contudo, foram observadas percentagens mais baixas de sincronização diádica entre jogadores nos períodos de jornadas concentradas, em deslocamentos de intensidade baixa e moderada.

Quais são as implicações dos resultados dos estudos anteriores para o futebol de alto rendimento? Em primeiro lugar, a distância total percorrida e a distância percorrida em alta intensidade não são indicadores de performance fiáveis no futebol de elite. Em segundo lugar, a proficiência técnica dos jogadores em ações básicas como a receção e o passe é essencial em níveis competitivos superiores. Em terceiro lugar, os treinadores devem saber e reconhecer que os métodos de jogo propostos à equipa (dimensão estratégico-tática) condicionam o desempenho físico. Por último, supõe-se que as equipas de elite apresentam uma maior sincronização entre os seus jogadores, o que implica que o «correr muito» deva ser preterido no treino em prol de um «correr melhor» ou, se preferirem, de forma mais sincronizada (figura 1). No fundo, trata-se de conceder primazia à dimensão tática na sistematização de um processo de treino conducente ao sucesso competitivo.

Figura 1. A sincronização dos jogadores – o «correr melhor» – é um aspeto fundamental no futebol contemporâneo.

Referências
Bradley, P. S., Carling, C., Diaz, A. G., Hood, P., Barnes, C., Ade, J., Boddy, M., Krustrup, P., & Mohr, M. (2013). Match performance and physical capacity of players in the top three competitive standards of English professional soccer. Human Movement Science, 32, 808-821.
Carling, C., Le Gall, F., McCall, A., Nédélec, M., & Dupont, G. (2014). Squad management, injury, and match performance in a professional soccer team over a championship-winning season. European Journal of Sport Science. doi: 10.1080/02640414.2015.1022576
Folgado, H., Duarte, R., Marques, P., & Sampaio, J. (2015). The effects of congested fixtures on tactical and physical performance in elite football. Journal of Sports Sciences, 33(12), 1238-1247.

22/08/2015

Diário de um killer sentimental (2015)

Luis Sepúlveda, aquele que milhares de leitores já elegeram como o mais «português» dos escritores latino-americanos. Não sou eu que o digo, consta na sinopse do novo livro constituído por três «novelas negras»; o regresso do escritor chileno aos policiais.

Imagem: Capa do livro «Diário de um killer sentimental» de Luis Sepúlveda.

Muda o estilo literário, mas a sua escrita continua sempre cativante. É como ir de férias com um guia turístico carismático e conhecedor do envolvimento, sem realmente necessitarmos de sair de casa. Ademais, o modo como Sepúlveda «humaniza» os seus diversos personagens é de mestre. Para mim, Luis Sepúlveda está para a literatura como Andrea Pirlo está para o futebol; é um senhor.

Como não gosto de dar ponto sem nó, eis um breve trecho do livro:

– Achas mesmo que o sexo se presta a confusões? – perguntou Anita passando-lhe uma lima pelos calos.
– Às vezes. Lembro-me de uma história que me contaram uns arrieiros na Patagónia. Há dois anos, uma frente de mau tempo interrompeu as manobras que um regimento de infantaria estava a realizar na fronteira com a Argentina. Os tropas tinham suportado trinta dias e trinta noites a chover sem parar, quando um tenente se aproximou do grupo de arrieiros para lhes perguntar como é que eles aliviavam os tormentos de entre as pernas. Responderam-lhe que da maneira mais conhecida, e que se se sentia muito apertado podiam levar-lhe uma burra para junto do rio. O tenente negou-se, e com um gesto de repugnância acusou-os de pervertidos. Passou outro mês. À chuva juntou-se a neve, e o tenente tornou a encontrar-se com os arrieiros. Com toda a vergonha do facto, pediu que lhe levassem a burra para o pé do rio. Os arrieiros, sem entenderem a causa de semelhante pudor, disseram-lhe que muito bem, que no dia seguinte a burra o esperaria junto do rio, que crescia cada vez mais. Ali esteve também muito pontual o tenente e, depois de ordenar aos arrieiros que virassem as costas, baixou as calças e começou a fornicar com o animal. Então um dos arrieiros virou a cabeça e disse-lhe: «Meu tenente, a burra é para atravessar o rio. As putas estão do outro lado.»

Hilariante!

10/08/2015

Notas soltas sobre a Supertaça 2015/2016: SL Benfica 0 x 1 Sporting CP


1.  O vencedor Sporting: venceu a melhor equipa em campo, aquela que melhores processos (ofensivos e defensivos) apresentou, a que impôs o ritmo de jogo que pretendeu e a que criou mais oportunidades de golo.

2.  O vencido Benfica: uma equipa descaracterizada. Não tem a dinâmica fomentada por Jorge Jesus em épocas transatas e, acredito eu, tão pouco manifesta a que o técnico Rui Vitória ambiciona. A pré-época foi mal estruturada do ponto de vista desportivo, há jogadores a chegar e provavelmente outros sairão, mas os processos estão longe de agradar ou augurar bom prenúncio para o futuro. Por exemplo, há muito tempo que não via o Benfica a aliviar tantas bolas sem nexo para o meio-campo defensivo adversário. Porque será? Enorme a distância intersetorial e inexistência de opções múltiplas ao portador da bola (os apoios ao portador da bola são escassos e/ou pouco ou nada efetivos, mesmo na etapa de construção de jogo).

Imagem: Na Supertaça Cândido de Oliveira, época 2015/2016, o Sporting foi a melhor equipa.
(fonte: zerozero.pt; foto de Carlos Alberto Costa).

3.  Jorge Jesus: é um treinador excelente, diga-se o que se disser dele enquanto pessoa (isso pouco interessa no mundo do futebol). Tem o seu modelo, as suas ideias e sabe fazer com que os jogadores o interpretem e o ponham em prática. Um mês foi suficiente para transformar radicalmente os processos da equipa; quando outros pedem tempo, Jorge Jesus capitaliza os recursos que tem ao seu dispor.

4.  Rui Vitória: pede o tempo que um treinador não pode ter num clube bicampeão. Apreciei alguns processos defensivos, porém, ofensivamente, a equipa é pouco criativa e dinâmica e socorre-se, invariavelmente, de bolas paradas para chegar à grande área adversária. Muito pouco! Não será a chegada de um ou outro suposto craque que irá mudar esta tendência. É o treino e a boa transmissão (e interpretação) de referências, de princípios, que mobilizará o coletivo a expressar uma dinâmica conducente ao sucesso. Rui Vitória tem muito trabalho pela frente. Gostei da sua coragem em lançar jovens jogadores numa partida com elevada carga emocional.

5.  Melhores jogadores do Sporting: Dentro de um coletivo forte e coeso, destacaria os desempenhos de João Mário, Jefferson e Slimani.

6.  Melhores jogadores do Benfica: Como é óbvio, enalteço dois jogadores de caraterísticas mais defensivas: Lisandro López e Júlio César.

7.  Epílogo: «O todo é mais do que a mera soma das partes».