06/05/2021

28-abril-2021: O dia dos gémeos

O tempo já não anda, nem corre, voa! Há oito dias que me leva num rodopio até à letargia. A Patrícia diz, com o seu jeito assertivo, que estou em modo “barata tonta” e é verdade: na minha cabeça figura um milhão de peças para encaixar no puzzle que é a nossa existência. 

No dia 28 de abril de 2021, na passada quarta-feira, nasceram os nossos gémeos, Alexandre e Guilherme, às 11h38 e 11h39, respetivamente (figura 1). A velocidade do parto foi inversamente proporcional ao tempo necessário para processar as mudanças familiares. Não tem mal, o mais importante é que os pequenos e a mãe continuem bem de saúde. Tudo o resto se compõe, como este débil conjunto de palavras que jamais fará jus à relevância do acontecimento. Em suma, um dos dias mais felizes da minha vida, no qual se criaram duas linhas de passe que teremos, como equipa, de manter “abertas” para a vida.

 

Figura 1. Os nossos recém-nascidos Guilherme e Alexandre.

Entretanto, houve o dia da mãe (2 de maio de 2021). Os meus três filhos, ainda à cata da noção dos dias, seguiram o meu (mau) exemplo de não o assinalar a preceito. E porque a desenvoltura da escrita não me permite redigir algo condizente com o que realmente sinto, sirvo-me das palavras de um dos melhores escritores portugueses contemporâneos para homenagear as três mulheres, todas elas mães, da minha vida – Patrícia, Ana Paula e Ana Catarina –, deixando um primeiro conselho que valha a pena para o Alexandre e para o Guilherme.

 

Sabes quem se lembra desses anos e os guarda no peito como um coração mais importante do que o próprio coração? É a tua mãe. (…) Era a tua mãe que gravava dentro da alma tudo o que testemunhava, e ela vai continuar a guardar essas memórias até morrer. As mães são as fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso, trata-a bem.

(Afonso Cruz, in Flores, p. 80)

26/04/2021

Artigo do mês #16 – abril 2021 | Rumo a uma estrutura contemporânea de “aprendizagem em desenvolvimento” do jogador para técnicos de desporto

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Sullivan, M. O., Woods, C. T., Vaughan, J., & Davids, K.

País: Inglaterra

Data de publicação: 22-março-2021

Título: Towards a contemporary player learning in development framework for sports practitioners

Revista: International Journal of Sports Science & Coaching

Referência: Sullivan, M. O., Woods, C. T., Vaughan, J., & Davids, K. (2021). Towards a contemporary player learning in development framework for sports practitioners. International Journal of Sports Science & Coaching. https://doi.org/10.1177/17479541211002335

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 16 – abril de 2021.

 

Apresentação do problema

O desenvolvimento do talento tem sido descrito como uma acomodação mútua e progressiva que ocorre para aumentar a funcionalidade de um atleta em ambientes desportivos e não desportivos holísticos e dinâmicos (Henriksen, 2010). Como parte dessa “acomodação mútua e progressiva”, os técnicos de desporto são frequentemente desafiados a preparar atletas para as exigências competitivas imediatas e, simultaneamente, a desenvolver competências específicas que permitam melhorar o rendimento desportivo a médio/longo prazo. 

No sentido de orientar teoricamente estes agentes para o desafio, estruturas pedagógicas como a Abordagem Baseada nos Constrangimentos (ABC) têm vindo a ganhar notoriedade. Atualmente, é reconhecido que a aprendizagem é um processo não linear e, por isso, é de todo plausível que, no percurso de desenvolvimento de um jogador, esta não linearidade seja equacionada. A ABC, assente em pressupostos da teoria da dinâmica ecológica, permite captar a não linearidade da aprendizagem, do desenvolvimento e da performance no desporto. Esta matriz concebe que o comportamento especializado emerge através da interação de diferentes constrangimentos (tarefa – ambiente – indivíduo). Contudo, apesar de possuir raízes teóricas bem estabelecidas, a sua implementação em contextos práticos constitui outro repto. 

De facto, a aceitação da ABC tem sido prejudicada por algumas interpretações erróneas das suas premissas e ideias-chave. Por exemplo, os constrangimentos podem ser mal interpretados como influências negativas que limitam o desenvolvimento de habilidades, pela imposição exagerada ou insuficiente de constrangimentos em tarefas práticas no processo de desenvolvimento e preparação da performance. Para evitar os efeitos preconcebidos de tarefas práticas excessivamente condicionadas, muitos treinadores optam por uma abordagem centrada do jogo laissez-faire (sem intervenção), na qual a ABC é (mal) interpretada sob a divisa “deixe o jogo ser o professor” (Renshaw et al., 2016). Não é assim que o modelo pedagógico baseado nos constrangimentos conceptualiza os desafios que o aprendiz deve superar no percurso de aprendizagem no desporto (Chow et al., 2020; Renshaw et al, 2016). 

Deste modo, para melhor auxiliar os técnicos de desporto a lidar com estes desafios, este artigo propõe uma estrutura acessível para o utilizador que demonstra os benefícios decorrentes da aplicação da ABC. Para conceptualizar a natureza não linear e individual da aprendizagem, e o respetivo progresso do jogador, os autores empregaram a noção de Adolph “aprendizagem em desenvolvimento” para explicar as ideias fundamentais da ABC. Em termos práticos, também exemplificaram uma estrutura de trabalho do tipo “aprendizagem em desenvolvimento” adotada numa organização de futebol juvenil de alto nível.

 

“Aprendizagem em desenvolvimento”

 

· Rumo a uma interpretação acessível para o utilizador da ABC para conceptualizar o desenvolvimento do jogador

À luz de conceitos da psicologia ecológica e dos constrangimentos em sistemas dinâmicos, a compreensão da perícia, da habilidade e do desenvolvimento do talento pode emergir das interações complexas e dinâmicas subjacentes à contínua adaptação do indivíduo aos constrangimentos do envolvimento (executante, ambiente e tarefa), os quais se alteram ao longo de micro e macro escalas temporais (Button et al., 2020; Fitzpatrick et al., 2018). A aprendizagem ocorre durante modificações de desenvolvimento continuadas ao longo de uma vida e têm que ver, sobretudo, com o modo como cada indivíduo lida com essas mudanças. É por isso que Adolph (2019) utilizou a frase “aprendizagem EM desenvolvimento” (learning IN development), em vez de “aprendizagem e desenvolvimento” (learning AND development). 

A caracterização do processo de aprendizagem não prescinde do termo “não linear”. A não linearidade refere-se à ideia de que pequenas alterações nas propriedades de um sistema (e.g., características físicas, psicológicas emocionais de um indivíduo; as condições de prática de uma equipa) podem originar grandes transformações no comportamento emergente e vice-versa. A não linearidade é, assim, algo muito específico de um sistema, dado que a não proporcionalidade transformacional depende das suas características exclusivas e da rede de interações que estabelece (Chow et al., 2011). 

Por exemplo, a manipulação de um constrangimento da tarefa, como a massa e o tamanho da bola no futebol infantojuvenil, pode levar à emergência de “novas” ações qualitativas para a exploração de brechas ou espaços existentes, situação que pode não acontecer de forma óbvia e imediata quando os jogadores treinam sistematicamente com bolas com diferentes propriedades. Uma criança pode ter a oportunidade de passar ou driblar por um espaço entre dois jogadores oponentes a jogar com uma bola oficial do jogo dos adultos (tamanho 5), embora seja incapaz de “picar” a bola por cima desses defensores para explorar o espaço nas suas costas. Não se trata, portanto, da mera falta de habilidade da criança, simplesmente o peso e as dimensões da bola não estão ajustados à sua capacidade de ação no momento. Neste sentido, introduzir uma bola mais pequena e leve (i.e., adaptada às características momentâneas do sistema físico do aprendiz) pode proporcionar a “nova” oportunidade de ação de “picar” a bola por cima dos defensores. Com esta ligeira modificação na tarefa, o valor e o significado do contexto altera-se para o jovem praticante, por meio da transformação da relação indivíduo-contexto. A não linearidade deriva, precisamente, da evolução das múltiplas relações (e transformações) que ocorrem entre o indivíduo e o contexto no qual opera. 

A ABC, com as suas três categorias de constrangimentos, forma um sistema complexo que molda a “aprendizagem em desenvolvimento”. As características interconectadas do sistema podem ser conceptualizadas como constrangimentos, pois orientam a direção e a taxa de desenvolvimento ao delimitar barreiras entre as quais despoleta a aprendizagem. Um ponto essencial aqui é que os constrangimentos não determinam a aprendizagem individual e os comportamentos competitivos, contudo, interagem continuamente para orientá-los e moldá-los (Davids et al., 1994). Esta ideia permite enquadrar o aprendiz e o processo de aprendizagem numa trajetória de desenvolvimento única e individual (figura 2), contribuindo para que os autores reconheçam as oportunidades que advêm da implementação da ABC no terreno.

  

Figura 2. Adaptado do modelo de constrangimentos de Newell (1986), englobando os constrangimentos que orientam e moldam a aprendizagem (Sullivan et al., 2021).

 

Embora a ABC ajude a entender como se processa a emergência de habilidades específicas, não providencia uma estrutura teórica de como criar ou apresentar ambientes de aprendizagem apropriados nos desportos coletivos. Para o efeito, os princípios da pedagogia não linear podem contornar esta limitação, uma vez que conduzem os treinadores a melhor aproveitar a operacionalização da matriz de constrangimentos numa grande diversidade de propostas práticas. Os princípios-chave da pedagogia não linear podem ser resumidos a: (1) criação de ambientes de aprendizagem representativos, que fomentem oportunidades para que os aprendizes desenvolvam e adaptem acoplamentos informação-movimento relevantes; (2) manipulação de constrangimentos; (3) repetição sem repetição (variabilidade funcional do movimento); (4) promoção de um foco atencional externo (relação com o envolvimento).

 

·      Conhecimento de (em jogo) e conhecimento sobre (fora do jogo)

Gibson (1966) distinguiu dois tipos de conhecimento, “conhecimento de” e “conhecimento sobre”, que podem influenciar (in)diretamente a perceção de um indivíduo. Enquanto o “conhecimento sobre” reflete uma resposta abstrata e indireta sobre coisas, estados ou assuntos (fora do contexto), o “conhecimento de” um ambiente demonstra competências incorporadas que foram desenvolvidas, e são exemplificadas, em atividades (e.g., movimentos, comportamentos, performances), potenciando o acoplamento entre perceção e ação. 

Um ponto importante do artigo é que as tarefas práticas devem ser conceptualizadas por técnicos com um extensivo conhecimento sobre o jogo, porquanto este conhecimento da performance individual e coletiva pode favorecer, qualitativamente, a criação de tarefas práticas que fomentem o desenvolvimento do conhecimento em jogo do(s) jogador(es).

 

·      Conceptualizar a prática de suporte ao conhecimento em jogo

As tarefas práticas devem ser cuidadosamente pensadas para fomentar a aprendizagem no jogo, ou seja, devem proporcionar que os executantes detetem informação relevante do envolvimento para reconhecer oportunidades de ação, as designadas affordances (Gibson, 1979). As affordances são entendidas como propriedades do sistema indivíduo-ambiente e constituem oportunidades de ação face às capacidades de ação do indivíduo (e.g., velocidade, força) e dimensões corporais. 

Muito embora os seres humanos vivam rodeados de affordances, estas oportunidades de ação apenas emergem quando o indivíduo reconhece e assume o seu significado. Na medida em que há muitas perceções e ações possíveis num dado instante e local, os profissionais do treino precisam de orientar as intenções dos praticantes para o que convém ser alcançado em contexto de desempenho. Ao consegui-lo, os técnicos tornam-se capazes de educar a atenção dos jogadores para a perceção e realização de affordances chave disponíveis no envolvimento.

 

A proposta de uma estrutura de trabalho de “aprendizagem em desenvolvimento”

Os autores propuseram uma estrutura de trabalho acessível para o utilizador (treinador), baseada na noção “aprendizagem em desenvolvimento” de Adolph (2019). A proposta a seguir apresentada está a ser aplicada no futebol de formação do clube AIK, sedeado em Solna, Estocolmo, na Suécia (figura 3). O clube tem cerca de 1500 praticantes de futebol entre os 5 e os 18 anos de idade. Em abril de 2017, depois de cessar a antiga política de seleção de talentos, foi realizada uma investigação interna conduzida por treinadores profissionais e cientistas do desporto, a fim de discutir e implementar estratégias sustentadas sobre a evolução da prática e o desenvolvimento do jogador.

  

Figura 3. Jovens jogadoras do AIK (fonte: efeg.se; imagem não publicada pelos autores).

  

Em primeira instância, os treinadores foram encorajados a adotar os princípios da ABC no desenvolvimento de jogadores. O esforço contínuo e interativo de promover as ideias-chave e os conceitos pedagógicos da ABC junto dos técnicos, motivou avanços na estrutura de trabalho “aprendizagem em desenvolvimento” (figura 4) e nas “fundações para o modelo de conceptualização de tarefas” (figura 5).

 

Figura 4. As três fases da estrutura “aprendizagem em desenvolvimento” do jogador, parte integrante do ciclo de desenvolvimento do clube de futebol AIK (Sullivan et al., 2021).

  

Figura 5. Fundações para o modelo de conceptualização de tarefas. A bola, os oponentes e a direccionalidade são aspetos essenciais no modelo para moldar as intenções e a atenção dos aprendizes. A noção de consequência (e.g., se perdermos a bola e não a conseguirmos recuperar, os adversários podem marcar golo) enfatiza a continuidade e a coadaptação existentes entre o ataque e a defesa. A informação relevante na conceptualização de tarefas é representativa do jogo (Sullivan et al., 2021).

 

Se este último modelo fornece uma breve perspetiva de alguns dos fundamentos para a conceção de tarefas práticas, considerando os princípios basilares da pedagogia não linear, a estrutura “aprendizagem em desenvolvimento” encontra-se organizada em três fases, associadas ao timing e às escalas temporais nos quais se processa o desenvolvimento em diferentes níveis (macro e micro). O papel do treinador envolve a orientação do desenvolvimento individual do praticante.

 

·      Fase 1 da “aprendizagem em desenvolvimento”

A fase 1 ilustra o papel do treinador nesta matriz estrutural. Basicamente, o técnico tem uma missão de “co-designer” da sessão de treino para estimular a evolução do conhecimento em jogo. Trata-se de um facilitador de atividades que coloquem as interações indivíduo-envolvimento no âmago da conceptualização da prática. Garantido este predicado, os aprendizes são convidados a explorar ativamente a informação disponível no contexto de desempenho, incrementando o seu conhecimento em jogo e o entendimento das suas possibilidades de (inter)ação (Woods et al., 2020b). 

A partir dos pressupostos da ABC e da pedagogia não linear, os treinadores manipulam os constrangimentos da tarefa para moldar intenções que enquadram a perceção e a ação dos jogadores. O “co-design” alude aos inputs que os principais agentes que operam no processo de aprendizagem (i.e., treinador e jogadores) providenciam, tanto implícita como explicitamente. Ao ajustarem as tarefas de aprendizagem às capacidades de ação momentâneas dos praticantes, os treinadores estão implicitamente a ponderar os efeitos da tarefa no processo de aprendizagem. Por outro lado, os executantes podem ser envolvidos na decisão dos constrangimentos da tarefa a utilizar, tornando-os explicitamente corresponsáveis pelo próprio percurso de aprendizagem e respetivas adaptações (Pinder et al., 2011). 

A esta primeira fase está vinculado o recurso ao modelo de conceptualização de tarefas (figura 5), uma vez que define os princípios de como os profissionais do treino podem criar e avaliar contextos específicos de aprendizagem. De facto, uma tarefa pode satisfazer os princípios bola–adversário(s)–consequência, mas violar o critério de que a informação presente na tarefa seja representativa do jogo. Por exemplo, a regra de que todos os jogadores devem tocar na bola para que o golo seja válido pode não ser um constrangimento da tarefa representativo, já que pode não promover acoplamentos perceção-ação efetivos em relação às affordances disponíveis em competição. No caso, a equipa em posse de bola pode não ficar afinada para a informação que suporta a exploração de espaços ou brechas defensivas, mediante a execução de deslocamentos de rotura (penetrantes) e de ações de finalização (figura 6).


Figura 6. Jogo Gr+5v5+Gr e a violação do princípio de representatividade do jogo. A preto consta a sequência de passes que cumprem o constrangimento proposto; a vermelho uma possível affordance (i.e., deslocamento de rotura e finalização) impossibilitada pelo constrangimento da tarefa (imagem não publicada pelos autores).

 

De acordo Woods et al. (2020a), as regras e as instruções verbais utilizadas pelos treinadores podem exercer uma influência negativa (i. e., excessivamente constrangida) nas interações e nas intenções do jogador, guiando a atenção do indivíduo para fontes de informação não representativas. Assim, ao invés de impor regras durante o processo ofensivo, o treinador pode propiciar que os jogadores utilizem o tempo da sua equipa em posse de bola para criar mais possibilidades de jogar por dentro, por fora, através de métodos ofensivos mais rápidos, ou de modo mais posicional. Em suma, os constrangimentos utilizados na conceptualização de uma tarefa devem orientar, moldar ou estimular ações e não necessariamente erradicá-las, prescrevê-las ou ditá-las.

 

·      Fase 2 da “aprendizagem em desenvolvimento”

A segunda fase desta estrutura de trabalho diz respeito ao jogador, visto ser na prática que refina os acoplamentos perceção-ação através da progressiva deteção de informação e da (re)organização da ação. O treinador deve, por isso, ser cauteloso na sua abordagem, evitando basear-se em constrangimentos informacionais como são as instruções verbais concedidas aos jogadores. A orientação do(s) jogador(es) pode ser alcançada de múltiplas formas através da manipulação da tarefa. Os defensores podem perder pontos extra se permitirem passes penetrantes entre eles, mas podem ganhar pontos se, pelo contrário, forem eficazes na pressão exercida no centro do jogo, com a reconquista da posse de bola. 

Nesta paisagem de affordances partilhadas, a intenção dos atacantes em jogar por dentro colocaria ênfase na busca de oportunidades para realizar e receber passes penetrantes entre os defensores. Porém, para os defensores, as oportunidades de ação percebidas estariam associadas à tentativa de intercetar o passe ou em fechar espaços passíveis de provocar roturas na sua organização defensiva. É a partir das affordances partilhadas entre indivíduos com intenções opostas que emerge a coadaptação comportamental.

 

·      Fase 3 da “aprendizagem em desenvolvimento”

A terceira fase refere-se ao progresso da recuperação e da adaptação suscitada pela(s) sessão/sessões de treino. No decurso das típicas escalas temporais da aprendizagem (dias, semanas, meses, anos), a adaptação irá modificar as capacidades de ação do jogador à medida que aprendem em desenvolvimento. O desenvolvimento contínuo do jogador irá restruturar todo o ciclo e a partilha de responsabilidades, o que enaltece a dinâmica do processo de aprendizagem nesta estrutura de trabalho. Neste contexto, se há um aspeto sobre o qual o treinador deve refletir durante a atividade de planeamento de tarefas, no curso de diferentes escalas temporais, é que que a perceção de affordances do praticante altera-se à medida que as suas capacidades de ação evoluem (ou involuem).

 

Conclusão

Este artigo propôs uma estrutura de trabalho que suporta a aplicação da ABC na prática de futebol, em idades infantojuvenis. Ainda que os autores reconheçam que há trabalho a fazer, é expectável que a estrutura apresentada resolva alguns dos desafios atuais para os técnicos de futebol. Os objetivos desta proposta foram: (1) auxiliar os treinadores a ponderar a natureza não linear e altamente pessoal da aprendizagem, de modo a melhor aferir e comunicar trajetos de desenvolvimento do jogador; (2) demonstrar como integrar a ABC na elaboração de tarefas práticas. A discussão gerada visou orientar os técnicos para uma abordagem de planeamento mais flexível e adaptada, na qual eles possam, mediante a implementação e o aperfeiçoamento de tarefas práticas, avaliar continuamente as necessidades do indivíduo (no seio de uma equipa), ao longo de várias escalas temporais de desenvolvimento.

 

P.S.:

1-  As que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

19/04/2021

Biology of Sport (Vol. 38/2021) | A vantagem de jogar em casa ("home advantage") no futebol profissional europeu em tempos de COVID-19

Em tempos de confinamento há tempo para pensar, ou melhor, em março do ano passado houve algum tempo para formular uma questão de pesquisa: resistiria o fenómeno da “vantagem de jogar em casa” (home advantage) no futebol à ausência de público nos estádios (figura 1), uma das medidas adotadas para controlar a propagação do novo coronavírus SARS-CoV-2?

Figura 1. Futebol sem público no estádio (fonte: rfi.fr).


Em maio de 2020 foram reatadas as competições profissionais de futebol em alguns países e, volvidas as primeiras jornadas de retoma na principal liga alemã (Bundesliga), soaram os alarmes a nível internacional: as percentagens de vitórias caseiras haviam caído dramaticamente; na prática, a secular “vantagem de jogar em casa” havia desaparecido nos jogos com estádios vazios. Na altura, questionámo-nos se o mesmo aconteceria nas outras ligas europeias de referência, as designadas “Big-5”. Substituindo a Ligue 1 (francesa), cujo desenlace na época 2019/2020 não ocorreu no campo, optámos por introduzir na análise a Primeira Liga portuguesa (6.ª classificada no ranking da UEFA). 

Hoje, foi publicado na revista Biology of Sport (figura 2) o produto final de um verão intenso, com o valoroso contributo do meu colega Werlayne Leite (Secretaria da Educação do Estado do Ceará, Fortaleza, Brasil). Ao Werlayne e ao Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT, Portimão), endereço os sinceros agradecimentos pelo apoio prestado ao longo dos últimos meses.


Figura 2. Revista Biology of Sport (fonte: https://www.termedia.pl/Journal/Biology_of_Sport-78).

 

Quanto aos principais resultados, a “vantagem de jogar em casa” não reduziu significativamente no conjunto das 5 ligas europeias analisadas (de 16.4% para 11.6%). Depois da suspensão provocada pela COVID-19, a “vantagem de jogar em casa” foi significativamente superior a 0%, ou seja, no somatório das ligas europeias, o efeito da “vantagem de jogar em casa” persistiu, mesmo sem público nos estádios. A análise por cada liga permitiu-nos constatar que o efeito da “vantagem de jogar em casa” desapareceu completamente na Bundesliga, permaneceu inalterado na La Liga, Premier League e Primeira Liga e, inclusivamente, aumentou na Serie A após a retoma. Nestas ligas, o contexto induzido pela pandemia COVID-19, sobretudo o facto de se jogar sem adeptos nos recintos, influenciou de forma distinta o desempenho das equipas visitadas. Contudo, no cômputo geral, as equipas da casa realizaram menos remates (total), remates à baliza, desarmes e, ainda, houve um decréscimo significativo da taxa de passes precisos.

Convido-vos a ler o resumo seguinte (figura 3) e, se o mesmo suscitar interesse, a descarregar o artigo original (disponível gratuitamente) através do link facultado na referência em baixo. Adicionada mais uma peça ao complexo puzzle do fenómeno home advantage, torcemos para que as comunidades do futebol e das ciências do desporto encontrem alguma informação útil e relevante neste trabalho.


Figura 3. Informações editoriais do artigo, abstract (resumo) e key words (palavras-chave).

(clique para ampliar)


Referência

Almeida, C. H., & Leite, W. S. S. (2021). Professional football in times of COVID-19: did the home advantage effect disappear in European domestic leagues? Biology of Sport, 38(4), 693–701. https://doi.org/10.5114/biolsport.2021.104920 (LINK)

 

Saúde!

26/03/2021

Artigo do mês #15 – março 2021 | A cinética de recuperação após jogos reduzidos no futebol: A densidade de jogadores importa?

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Papanikolaou, K., Tsimeas, P., Anagnostou, A., Varypatis, A., Mourikis, C., Tzatzakis, T., Draganidis, D., Batsilas, D., Mersinias, T., Loules, G., Poulios, A., Deli, C. K., Batrakoulis, A., Chatzinikolaou, A., Mohr, M., Jamurtas, A. Z., & Fatouros, I. G.

País: Grécia

Data de publicação: 25-fevereiro-2021

Título: Recovery kinetics following small-sided games in competitive soccer players: Does player density size matter?

Revista: International Journal of Sports Physiology and Performance

Referência: Papanikolaou, K., Tsimeas, P., Anagnostou, A., Varypatis, A., Mourikis, C., Tzatzakis, T., Draganidis, D., Batsilas, D., Mersinias, T., Loules, G., Poulios, A., Deli, C. K., Batrakoulis, A., Chatzinikolaou, A., Mohr, M., Jamurtas, A. Z., & Fatouros, I. G. (2021). Recovery kinetics following small-sided games in competitive soccer players: Does player density size matter? International Journal of Sports Physiology and Performance. https://doi.org/10.1123/ijspp.2020-0380

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 15 – março de 2021.

 

Apresentação do problema

O jogo de futebol é um desporto intermitente caracterizado por ações abruptas de alta intensidade, alternadas com períodos de esforço de intensidade baixa a moderada (Bangsbo et al., 2006). Por este facto, é frequente a introdução de exercícios de alta intensidade com bola nos microciclos de treino. Nesta conjuntura, os jogos reduzidos são meios de treino bastante populares, sendo propostos para desenvolver a capacidade dos jogadores em realizar esforços de alta intensidade e para melhorar comportamentos técnicos e táticos específicos, mediante a execução de padrões de movimento em contextos que replicam as exigências do jogo competitivo (Rampinini et al., 2007). 

Os jogos reduzidos com menor número de jogadores parecem aumentar a carga fisiológica, proporcionando valores mais elevados na frequência cardíaca e na concentração sanguínea de lactato (Aguiar et al., 2013). Jogos com maiores áreas de jogo (>40x30m) ou menor densidade de jogadores (≥175 m2/jogador) induzem uma carga externa mais elevada (Casamichana & Castellano, 2010). Uma vez que estas tarefas incorporam ações repetidas de alta intensidade, com um elemento excêntrico vincado, têm sido associadas ao aparecimento de dano muscular induzido pelo exercício, à instalação de fadiga e ao declínio acentuado da performance (Fatouros et al., 2010; Tzatzakis et al., 2020). No entanto, apesar de estudos recentes terem demonstrado que a função neuromuscular e a performance ficam comprometidas (Madison et al., 2019; Sparkes et al., 2018), os respetivos procedimentos experimentais utilizaram medidas de performance e marcadores de dano muscular limitados e, também, num período muito restrito (≈ 24h) a seguir à prática de jogo reduzido. 

De acordo com os autores deste estudo, a cinética de recuperação do dano muscular induzido pelo exercício, da fadiga neuromuscular e de variáveis de performance após jogos reduzidos ainda não foi investigada. A informação sobre o tempo necessário para a recuperação completa após jogos reduzidos pode determinar a frequência ótima de utilização destas atividades no decurso de um microciclo semanal. Assim, esta investigação teve o propósito de avaliar a cinética de recuperação dos parâmetros acima especificados, na sequência da implementação de jogos reduzidos com diferentes densidades individuais.

 

Métodos

Amostra: 10 jogadores (idade: 21.7 ± 2.1 anos), de acordo com os seguintes critérios: nível competitivo (≥5 sessões de treino/semana e ≥1 jogo/semana), durante, pelo menos, 4 épocas desportivas e sem historial de doenças ou lesões musculoesqueléticas. 

Protocolo e medidas: o estudo teve o seu início uma semana após o término do período competitivo. A investigação apresentou um design randomizado, crossover e de medidas repetidas, pressupondo 3 ensaios: (1) controlo (sem treino); (2) 4v4 (20x25m, 62.5m2/jogador); (3) 8v8 (70x65m, 284.4m2/jogador). Os participantes estavam familiarizados com os procedimentos experimentais e as suas medidas antropométricas e de performance já haviam sido recolhidas. As contrações isométricas máximas voluntárias (MVIC; extensores e flexores do joelho) dos membros dominante e não dominante foram determinadas à partida (baseline) e nas 3 horas seguintes (uma vez por hora) após o jogo reduzido, como medida de fadiga neuromuscular. O aparecimento retardado de dor muscular (DOMS), a atividade da creatina quinase (CK), a força isocinética concêntrica/excêntrica, o salto com contramovimento (CMJ) e o sprint 30 metros foram avaliados na baseline e, diariamente, durante as 72h de recuperação. O lactato sanguíneo (BLa) e a perceção subjetiva de esforço (RPE) foram medidos na baseline e após o jogo reduzido. A atividade locomotora em campo durante os jogos reduzidos (i.e., distância de corrida em alta intensidade, 14–21 km/h; distância de corrida de alta velocidade, >21 km/h; número de acelerações intensas, >2 m/s2; número de desacelerações intensas, >2 m/s2) e a frequência cardíaca (HR) foram monitorizados continuamente através de GPS. Entre ensaios, os participantes cumpriram um período de recuperação de 7 dias, composto por treinos diários leves (figura 2).

 

Figura 2. O fluxograma da experiência (Papanikolaou et al., 2021).

Legenda: CMJ, counter movement jump; DOMS, delayed-onset muscle soreness; DXA, dual-energy X-ray absorptiometry; IE, intermittent endurance; IR, intermittent recovery; MVIC, maximal voluntary isometric contraction; VO2max, maximal oxygen consumption.

 

Jogos reduzidos: estas atividades foram realizadas num campo de relva natural, em condições ambientais similares (20–24 ºC e 40–50% de humidade). O 4v4 foi disputado em 6 séries de 4 minutos, com 180 segundos de pausa, uma área de jogo individual de 62.5 m2/jogador e elevada densidade de jogadores. O 8v8 foi disputado em 3 séries de 8 minutos, com 90 segundos de pausa, 284.4 m2/jogador de área de jogo individual e baixa densidade de jogadores (figura 3). O objetivo dos jogos foi manter a posse de bola e os jogadores foram encorajados verbalmente, no sentido de assegurar uma participação ativa e com alta intensidade. Não foram utilizados guarda-redes e foi imposta a limitação de jogar a 2 toques por intervenção sobre a bola. Em cada sessão, após um aquecimento padrão de 20 minutos, 5 participantes foram monitorizados na situação de jogo, enquanto os jogadores substitutos foram utilizados para completar as relações numéricas pretendidas. Este procedimento foi cumprido duas vezes para ambos os ensaios (4v4 e 8v8), de modo a incluir os 10 elementos da amostra. Os jogadores foram distribuídos pelas equipas de forma equilibrada.

  

Figura 3. Jogos reduzidos 4v4 (20x25m; painel A) e 8v8 (70x65m; painel B), com o objetivo de manter a posse de bola (imagem não publicada pelos autores).

 

Análise estatística: Os dados foram apresentados como médias (e desvios-padrão). O teste Shapiro-Wilk foi usado para averiguar a normalidade dos dados. As diferenças entre grupos e intragrupos foram analisadas recorrendo a uma análise de variância de duas vias (condição vs. tempo) para medidas repetidas, com contrastes planeados para pontos temporais e incluindo o teste post hoc de Bonferroni. A significância estatística foi estabelecida para P < .05. O método Hedge g (corrigido para vieses) foi empregue para estimar as dimensões de efeito e os intervalos de confiança.

 

Principais resultados

 

·      Performance e respostas fisiológicas

Os 2 jogos reduzidos originaram valores comparáveis na distância total, velocidade média, acelerações e desacelerações intensas. No 8v8, os jogadores percorreram maiores distâncias de corrida em alta intensidade, de corrida em alta velocidade e em velocidade máxima do que no 4v4. Os parâmetros da carga interna frequência cardíaca média, frequência cardíaca pico e tempo >90% FCmáx foram superiores no 4v4. O lactato sanguíneo aumentou imediatamente após ambos os jogos reduzidos, obtendo valores mais elevados no 4v4. A perceção subjetiva de esforço foi superior no 8v8 comparativamente ao 4v4.

 

·      Dano muscular

O aparecimento retardado de dor muscular aumentou no 4v4 durante 72h e no 8v8 durante 24h, sendo mais pronunciada para os flexores do joelho em comparação com os músculos extensores. Em relação ao 8v8, foram registados valores mais elevados de CK no 4v4 às 48h e às 72h após o esforço. Independentemente da densidade de jogadores, os jogos reduzidos induzem danos musculares prolongados. Embora a magnitude seja inferior ao observado no jogo formal, o período de recuperação é similar ao verificado em contexto competitivo.

 

·      Fadiga neuromuscular

No 4v4, as contrações isométricas máximas voluntárias de ambos os membros (dominante e não dominante) decresceram 1h pós-esforço nos extensores do joelho, enquanto nos flexores do joelho decresceram após 1h e 2h, normalizando em seguida. No 8v8, as contrações máximas dos extensores do joelho dos 2 membros (dominante e não dominante) diminuíram após 1h, 2h e 3h. Nos flexores do joelho, foram constatados decréscimos após 1h e 2h (dominante e não dominante), e 3h (membro não dominante). Houve uma redução mais acentuada nos flexores do joelho (≈7–12%) do que nos extensores do joelho, provavelmente devido ao perfil de contração excêntrica verificado em inúmeras ações específicas da modalidade, como rematar, saltar e desarmar (Mohr et al., 2016).

 

·      Força isocinética

No 4v4, a força concêntrica dos extensores do joelho diminuiu após 24h (membro inferiore dominante), embora nos flexores do joelho esse decréscimo tenha sido observado em ambos os membros. A força excêntrica dos extensores e flexores do joelho, de ambos os membros inferiores, demonstraram um padrão de decréscimo similar em 24h, recuperando totalmente em 72h. No 8v8, a força concêntrica dos extensores do joelho ficou comprometida até às 48h e nos flexores do joelho até às 24h pós-ensaio (ambos os membros). A força excêntrica dos músculos agonistas e antagonistas da coxa sofreu um decréscimo às 24h, às 48h e às 72h, nos 2 membros inferiores. Os dados sugerem que a força excêntrica dos flexores do joelho é um dos indicadores de performance mais sensíveis da cinética de recuperação subsequente ao treino com jogos reduzidos.

 

·      Tempo de sprint 0–30m e salto com contramovimento

O tempo de sprint de 30 metros aumentou após 24h (4v4 e 8v8), 48h (4v4 e 8v8) e às 72h apenas para o grupo 8v8. No 4v4, a altura do salto com contramovimento somente diminuiu após 24h, porém, no 8v8, decresceu imediatamente após o exercício, às 24h e às 48h.

 

Aplicações práticas

Os jogos reduzidos induzem dano muscular que, independentemente da densidade de jogadores, se pode prolongar até às 72h pós-esforço, o que é surpreendente tendo em consideração que cada jogo reduzido foi disputado com um tempo útil de 24 minutos. Estes resultados sugerem que, a seguir a jogos reduzidos exigentes, conteúdos que acarretem altas intensidades podem não ser adequados na própria sessão de treino, nem nos 2 dias subsequentes. A fadiga central pode, até certa parte, explicar a deterioração da performance a curto-prazo, por via de alterações agudas no controlo motor neuronal (Thomas et al., 2017). 

A densidade de jogadores proposta (área de jogo individual) é um fator importante. Ainda que o 4v4 seja mais intenso, com base na monitorização de parâmetros da carga interna, o 8v8 tende a originar cinéticas de recuperação da performance mais prolongadas (72h para a força isocinética e velocidade, e 48h para a força explosiva – salto com contramovimento). No caso do 4v4, o decremento da performance física foi mais curto, sendo alcançados valores iniciais (baseline) em pontos temporais prévios (48h para a força isocinética e velocidade, e 24h para o salto com contramovimento). De facto, o declínio na força, no salto com contramovimento e na velocidade foi mais acentuado no 8v8. 

Jogos reduzidos de baixa densidade (e.g., 8v8, 70x65m: 284.4 m2/jogador) não devem ser propostos mais de 3 vezes por semana, isto caso a equipa técnica pretenda que os jogadores recuperem totalmente do esforço antes de uma próxima sessão de treino, evitando a acumulação de fadiga. Por sua vez, jogos reduzidos com alta densidade (e.g., 4v4, 20x25m: 62.5 m2/jogador) podem ser propostos mais frequentemente e até 2 dias antes do jogo competitivo. Uma vez que uma recuperação ótima é essencial para desempenhos de êxito e para a prevenção de lesões, alternar a tipologia de jogos reduzidos e/ou reduzir o respetivo volume podem ser estratégias profícuas para encurtar o período de recuperação dos jogadores.

 

Conclusão

O treino coletivo mediante jogos reduzidos induz dano muscular, fadiga neuromuscular de curto prazo, bem como uma cinética de recuperação lenta associada às capacidades de produzir força isocinética (membros inferiores), força explosiva (salto), e na performance em sprint. O tempo necessário para alcançar uma recuperação completa é mais elevado em jogos reduzidos de baixa densidade, podendo prolongar-se das 24h às 72h. Os profissionais do treino de futebol devem considerar as evidências ora apresentadas na conceptualização de microciclos semanais, já que a maximização do rendimento coletivo depende da cinética de recuperação de cada elemento que compõe a equipa.

 

P.S.:

1-  As que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Physiology and Performance.