30/09/2023

Artigo do mês #45 – setembro 2023 | O papel-chave do contexto nos desportos coletivos: O valor das atividades jogadas na conceção da prática no futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Petiot, G. H., Vitulano, M., & Davids, K.

País: Canadá

Data de publicação: 1-agosto-2023

Título: The key role of context in team sports training: The value of played-form activities in practice designs for soccer

Referência: Petiot, G. H., Vitulano, M., & Davids, K. (2023). The key role of context in team sports training: The value of played-form activities in practice designs for soccer. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541231191077

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 45 – setembro de 2023.

 

Apresentação do problema

O treino por meio de atividades em forma de jogo (i.e., atividades jogadas) tem sido amplamente discutido no âmbito dos desportos coletivos, como o futebol, sendo também cada vez mais recomendado pelas entidades que tutelam a modalidade para todas as idades e níveis de prática (Woods et al., 2020; Ribeiro et al., 2021). As evidências sugerem que conceber estritamente exercícios com base em análises de desempenho não é suficiente para melhorar as performances individuais e coletivas (Herold et al., 2022). A prática composta por diversas variantes do jogo formal, conhecida como “prática em forma de jogo”, é essencial para aumentar a adaptabilidade e a transferibilidade das ações específicas, principalmente do treino para a competição (Araújo & Davids, 2011; Causer & Ford, 2014). 

Este tipo de atividades engloba os jogos reduzidos e condicionados, nos quais a oposição constitui um elemento nuclear da prática. As atividades jogadas contêm elementos, características e propriedades informacionais do jogo formal, mas podem ser configuradas para dar respostas mais concretas ao desenvolvimento do praticante, à preparação para o desempenho competitivo e à organização coletiva (i.e., da equipa) (Machado et al., 2019). Por isso, são situações práticas recomendadas pela literatura científica, tanto para o desenvolvimento como para o rendimento, mediante a promoção de oportunidades de ações (i.e., affordances) relevantes e motivantes para os praticantes (Petiot et al., 2021; Sannicandro & Raiola, 2021). 

Como é insinuado pela expressão “o contexto é tudo”, o contexto no qual os praticantes estão inseridos é uma variável determinante a equacionar. As atividades em forma de jogo simulam precisamente as propriedades do jogo competitivo em cenários arranjados para proporcionar as oportunidades de ação ou as sequências de jogo desejadas. Os jogadores são desafiados a envolver-se em comportamentos percetivos, tomadas de decisão, resolução de problemas e coadaptação posicional (Petiot et al., 2021), pelo que a prática em forma de jogo pode ser equacionada como uma abordagem poderosa para o desenvolvimento do jogador, se convenientemente adaptada às suas necessidades. Esta abordagem baseia-se numa estrutura teórica aplicada aos desportos coletivos, que se centra na interação entre o indivíduo e o envolvimento: a perspetiva da Dinâmica Ecológica (Araújo et al., 2006). O seu racional liga-se visceralmente aos fundamentos da Abordagem Baseada nos Constrangimentos, já que os seus conceitos e os seus princípios também promovem a manipulação de parâmetros contextuais e da tarefa (Ometto et al., 2018). Em última instância, esta estrutura teórica encoraja os treinadores e os outros profissionais do treino a trabalhar com os jogadores em jogos ou atividades contextualizadas, por forma que as habilidades específicas e o desenvolvimento da perícia possam sair enriquecidos (Button et al., 2020; Woods et al., 2020). 

As atividades em forma de jogo têm sido enquadradas na literatura associada à matriz ecológica como parte integrante de um continuum no desenvolvimento de jogadores e no treino para a obtenção de rendimento no futebol (Ribeiro et al., 2021). Os vários formatos podem ser diferenciados num espectro proposto de tarefas práticas, que vão desde atividades com enfoque técnico até às situações de jogo formal. Porém, a produção científica acerca de como integrar as diversas atividades jogadas num continuum de desenvolvimento é atualmente limitada. É necessário ter diretrizes claras sobre como as tarefas de jogo podem ser combinadas e organizadas no planeamento das sessões de treino de futebol, bem como podem ser ajustadas no terreno por meio de adaptações-chave. Neste sentido, o propósito desta revisão narrativa foi tripartido: (a) considerar os formatos típicos de atividades em forma de jogo, frequentemente organizadas como jogos contextualizados, que podem ser utilizados em sessões de treino de futebol; (b) analisar a sua finalidade e os principais parâmetros a partir da perspetiva da Dinâmica Ecológica; e (c) enfatizar como e por que podem ser úteis para os jogadores, treinadores e staff de apoio.

 

O contexto como um enquadramento

O contexto tem sido proposto como essencial para dotar os comportamentos humanos em geral (Juarrero, 2023), e os inerentes à obtenção de resultados desportivos (Jones et al., 2023), de coerência e significado. Esta noção é particularmente importante nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e preparação para a performance nos desportos coletivos, uma vez que o contexto molda as cognições, as perceções e as ações dos jogadores face a uma multiplicidade de oportunidades de ações (Gibson, 1979) e constrangimentos (Pinder et al., 2011). Em jogo, os futebolistas precisam ser capazes de ler e atuar em diferentes contextos de desempenho e adaptar as suas ações para alcançar as suas intenções táticas (e.g., intercetar um passe entre oponentes, criar uma oportunidade de remate, driblar os adversários em espaços apertados ou evitar que um remate contrário entre na sua baliza). Na perspetiva ecológica, um contexto de prática bem estruturado é aquele que recria as informações disponíveis num contexto competitivo e que os praticantes podem efetivamente explorar. Esta abordagem à prática implica que os treinadores sejam designers de contextos de aprendizagem/treino (Button et al., 2020) e facilitadores de cenários dinâmicos de oportunidades de ação que os jogadores exploram na construção de uma forma de jogar. 

Portanto, o contexto funciona como um background vital para enquadrar as ações dos principais intervenientes no jogo. Neste âmbito, a Pedagogia Não Linear sustenta que, além do contexto, a representatividade da tarefa é outro aspeto basilar para a prática e para a aquisição de habilidades, especialmente no que respeita à conceção de jogos modificados (Chow et al., 2021). Os contextos são moldados para que certas ações possam ocorrer em sessões de treino, ou no decurso de programas de treino (i.e., microciclos), em função de temáticas designadas pelos treinadores (Davids et al., 2013; Davids, 2014). Por exemplo, o jogo pode ser contextualizado para guiar as intenções dos jogadores associadas a situações de “contra-ataque com entrada no terço ofensivo, após recuperações de bola perto da própria baliza”. A representatividade das atividades em forma de jogo pode ser alcançada quando a paisagem de oportunidades de ação enfatiza o tema escolhido, ou mais precisamente quando essas affordances determinam que as habilidades relevantes sejam executadas de forma repetida e, sobretudo, quando ocorre a transferência dessas ações-alvo para situações de jogo não condicionadas (i.e., jogos competitivos) (Chow et al., 2021; Renshaw et al., 2022). 

Enquadrar o contexto requer a articulação da natureza da prática em forma de jogo com a temática a ela atribuída para que a aprendizagem ou o rendimento se manifestem. Quando as atividades são projetadas para um tema específico, a configuração e as características da tarefa não só devem permanecer fiéis à natureza do jogo proposto, mas também devem proporcionar aos jogadores oportunidades para atingirem os objetivos definidos, ponderando as necessidades de cada indivíduo e da equipa (Nunes, 2021).

 

  • Configuração das atividades

Os contextos de jogo podem ser intencionalmente modificados ou manipulados para proporcionar as oportunidades que os jogadores necessitam para adaptar os seus comportamentos tático-técnicos. A estrutura e a organização das atividades de jogo podem ser modificadas sem remover os objetivos básicos do jogo: superar a oposição para marcar golo ou impedir que a oposição marque. A existência de oposição e de balizas/alvos/portas (Headrick et al., 2012) é inegociável para que a prática de jogo mantenha um elevado grau de representatividade. Há outros constrangimentos da tarefa que são igualmente importantes: a organização estrutural, a dimensão e a forma da área de jogo e o número de participantes envolvidos. Contudo, algumas atividades são planeadas em função da seleção de alguns destes parâmetros, como os jogos de posse, i.e., sem balizas/alvos para finalizar. A conceção de um contexto de prática depende da conjugação destes parâmetros-chave. Apesar de haver um número vasto de possibilidades, a importância da representatividade da tarefa não deve ser descurada. 

Em geral, há falta de documentos internacionais suscetíveis de orientar as equipas técnicas que optem por trabalhar com abordagens pedagógicas baseadas no jogo. Sem um consenso prático sobre o uso de atividades jogadas na prática, as metodologias de treino praticamente permanecem sob a responsabilidade de cada treinador ou de cada clube. 

As atividades em forma de jogo são porções enquadradas do jogo formal que estimulam as respostas motoras pretendidas, contrariamente às ações individuais que emergem em contextos de jogo não condicionados e que, por esse motivo, podem ser divergentes (Farias et al., 2018; Mesquita et al., 2012). Os treinadores podem guiar as intenções dos jogadores através da simulação das características de um jogo formal em situações de jogo reduzidas, com uma baliza de cada lado e com constrangimentos simples. As atividades que replicam o jogo podem ainda diferir da sua estrutura original, com modificações na forma da área de jogo e na localização das balizas ou dos alvos (e.g., áreas hexagonais ou “meeinhos” ou “rondos”, com alvos nas extremidades). Estas configurações têm o condão de direcionar as ações pretendidas para dentro e para fora, ou ao redor de uma zona propícia para finalizar/pontuar (ver figura 2).


Figura 2. Comparação de formatos espaciais com diferentes direções sugeridas para as ações pretendidas (adaptado de Petiot et al., 2023).

 

Por um lado, jogos em campos com formas distintas podem ampliar o espectro de ações e comportamentos específicos e apoiar a exploração de soluções práticas, precisamente porque não estão adstritas à estrutura espacial original. Por outro lado, os formatos cêntricos e circulares divergem tanto do formato original do jogo que podem afastar os jogadores da organização coletiva pretendida – designadamente, na preparação para a competição –, devido ao facto de não serem tão representativos. Deste modo, este tipo de estruturas espaciais deve ser utilizado de maneira coerente, como uma etapa no processo de descoberta de ações inovadoras (para jogadores em formação), e não como um meio de preparação antes de um compromisso competitivo iminente.

 

  • Tempo e espaço

Em contextos de treino, as circunstâncias desafiantes derivam essencialmente de restrições de tempo e espaço, tanto para tomar decisões e executar ações, como para resolver problemas situacionais com número díspar de jogadores. As dimensões do espaço de jogo e o número de participantes envolvidos são constrangimentos da tarefa que afetam o tempo e o espaço disponíveis (Ric et al., 2016), pelo que devem ser rigorosamente calculados para que as distâncias interpessoais proporcionadas convidem os jogadores a solucionar os problemas idealizados pela equipa técnica (Praça et al., 2021; Silva et al., 2016). 

O tempo e o espaço projetados para um formato de jogo fazem com que as oportunidades de ação disponíveis variem. Em situações de jogo mais reduzidas, os jogadores têm menos tempo e espaço para executar ações adquiridas (i.e., que fazem habitualmente), o que pode dificultar a autoeficácia, por exemplo, na manutenção da posse de bola. O desafio pode determinar uma redução no envolvimento direto com a bola, de modo a evitar ser desarmado ou a cometer erros que causem a perda da posse de bola. Por sua vez, espaços de maiores dimensões tendem a estimular mais movimentos sem bola (Almeida et al., 2013). As atividades devem, então, ser estruturadas para provocar intencionalidade nos comportamentos, reconhecendo que a eficácia no jogo requer tempo para a adaptação e para a sintonização a novos ritmos de movimento e a novas particularidades espaciais, antes propriamente de se atingir os resultados desejados.

 

  • Gerindo a complexidade e a dificuldade dos contextos de prática

A complexidade e a dificuldade dos contextos de prática são parâmetros significativos para os jogadores em termos de experiência, tomada de decisão e preparação para a competição. Na prática, estes conceitos devem ser ajustados de acordo com a experiência e o nível de habilidade dos jogadores (Petiot et al., 2021). A complexidade é representada pela qualidade e pela quantidade de informação disponível, resultante da configuração da tarefa. Situações mais complexas também podem levar os jogadores a pensar mais e decidir menos (Masters & Maxwell, 2004), inibindo a sua capacidade de autorregulação e o fluxo de desempenho (Morris et al., 2020). Em suma, a complexidade da tarefa está relacionada com o número de possibilidades de ação e de oponentes presentes na situação de jogo. 

A dificuldade da tarefa decorre da limitação do número de oportunidades de ação disponíveis. Em geral, uma maior dificuldade traz desafios que resultam em mais insucessos, nomeadamente em jogadores e equipas inexperientes. Enquanto jogadores experientes conseguem criar mais soluções mesmo quando há menos possibilidades, jogadores menos experientes precisam de mais tempo e espaço para criar oportunidades de ação. Ora, uma situação complexa não deve ser descrita como difícil, uma vez que os dois conceitos refletem características diferentes, como é evidenciado pela forma como são calculados (Travassos, 2014; para mais detalhes, ver texto aqui). Por exemplo, a inclusão de jogadores neutros (“jokers”) em jogos reduzidos pode contribuir para o desenvolvimento de jovens praticantes com níveis de habilidade mais baixos, pois aumenta a complexidade, devido à presença de mais jogadores (e informação) e, concomitantemente, diminui a dificuldade, tornando disponíveis mais oportunidades de ação.

 

Formatos e características-chave das atividades em forma de jogo

O fluxo do ato de jogar no contexto da temática variará sempre de acordo com a configuração escolhida para a atividade. Uma atividade de jogo bem concebida consegue relevar o contexto e a o ato de jogar no desenvolvimento dos indivíduos envolvidos. Há muitas apresentações possíveis de contextos de jogo e de paisagens de oportunidades de ação. Os formatos atuam como configurações e arranjos predefinidos, sequenciados de forma coerente, tendo em conta: (a) forma e tamanho da área de jogo (Clemente, 2016); (b) tipo e localização das balizas/alvos (Sarmento et al., 2018); (c) localização do campo na qual a situação de jogo é organizada. A combinação destes parâmetros gera contextos de desempenho distintos, nos quais a aprendizagem e o treino podem ocorrer eficazmente. Devido à sua escala crescente, os formatos expostos delineiam um continuum de 5 categorias de atividades, retratando configurações predefinidas. Segundo a perspetiva ecológica aplicada à construção da prática, os formatos são classificados em função das possibilidades de ação que proporcionam (Ribeiro et al., 2021; Woods et al., 2020) e pelo respetivo grau de representatividade da tarefa. 

Conforme exposto na tabela 1, as formas jogadas abertas implicam sequências curtas de jogo, que podem ser mais ou menos dinâmicas (i.e., defensores ativos ou passivos), pressupondo a resolução de problemas táticos básicos, com tomadas de decisão simples; os jogos reduzidos e condicionados são pequenos jogos com diferentes configurações, por vezes em espaços desproporcionais, e uma organização menos representativa comparativamente ao jogo formal; os jogos analíticos representam formas de jogo delimitadas para isolar uma subfase específica do jogo, localizadas em zonas específicas do campo; os jogos condicionados são jogos proporcionais, com configurações semelhantes ao jogo formal, embora possam conter constrangimentos adicionais não encontrados em competição (e.g., obrigatoriedade de executar um número mínimo de passes para entrar no terço ofensivo); o jogo completo corresponde ao jogo original praticado em contexto de treino, contendo as regras formais do futebol (e.g., lei do fora de jogo).

 

Tabela 1. Continuum dos formatos, do menos para o mais específico em relação ao jogo (adaptado de Petiot et al., 2023) (p.f., clique para ampliar). 


As formas jogadas estabelecem situações mais simples de jogo, oferecendo menos possibilidades de ação e uma banda mais estreita de busca e exploração de soluções táticas. Esta banda de exploração tática aumenta nos jogos reduzidos e condicionados, o que enfatiza o limitado potencial tático presente em situações de jogo 1v1. De facto, os jogos reduzidos e condicionados propõem um leque mais diversificado de oportunidades de ação porque são mais adaptáveis a formas, configurações e organizações divergentes. À medida que os formatos avançam no continuum, os jogos condicionados continuam a enquadrar oportunidades de ação específicas, em contraste com o realismo proporcionado pelo jogo completo, pois suscitam informações contextuais importantes referentes ao tema definido para a sessão ou para o microciclo. 

A representatividade das situações criadas nas atividades, a partir dos jogos analíticos em diante, direciona as intenções e a organização coletiva, restringindo, consequentemente, a gama de ações e responsabilidades passíveis de promover a adequação a um contexto circunscrito no campo. Havendo intenções mais direcionadas numa atividade significa que haverá menos oportunidades de ação divergentes a explorar pelos praticantes, uma vez que estas affordances são limitadas pelas intenções táticas a perseguir na tarefa. Assim, os formatos e as configurações possíveis resultam em diferentes implicações para a prática, mesmo que se rejam pela máxima de repetir (a resolução de um problema contextual) sem repetir (a mesma técnica) (Bernstein, 1967; Eskov et al., 2017). Em concordância com os referenciais dos cursos específicos para treinadores, os diferentes propósitos dos formatos constituem uma mensagem importante que os técnicos devem reter para contextualizar a prática e enfatizar as implicações de cada configuração. 

As atividades configuradas devem, portanto, ser planeadas de forma flexível ao longo de uma sessão de treino, com cada tarefa a contribuir gradualmente para a concretização dos objetivos específicos definidos para a sessão. Por exemplo, para praticar os princípios contenção e cobertura defensiva, podem ser usadas algumas ou todas as atividades que constam na figura 3. A sequência delineada corresponde a uma sessão tipicamente composta por quatro atividades, organizadas sequencialmente.

 

Figura 3. Exemplos de atividades em forma de jogo utilizadas para treinar ações e princípios defensivos em situações 4v4 (adaptado de Petiot et al., 2023).

 

Implicações práticas

Os treinadores devem explorar um vasto espectro de recursos para enriquecer o seu conhecimento sobre o uso, o impacto e as implicações das atividades em formato de jogo. As ideias apresentadas neste artigo foram cuidadosamente elaboradas com o objetivo de esclarecer as vantagens e os desafios associados à implementação de atividades jogadas, proporcionando evidências e referências para capacitar os treinadores a utilizá-las de maneira lógica e coerente. 

Para que os treinadores possam transformar um diagnóstico em atividades em forma de jogo, devem seguir o que é sugerido na figura 4. Recomenda-se que comecem a partir do jogo completo do respetivo escalão etário (e.g., 5v5, 7v7, 9v9 e 11v11), “desmembrando-o” em frações mais reduzidas.

 

Figura 4. Comparação dos processos de conceber e praticar atividades em forma de jogo (adaptado de Petiot et al., 2023).

 

A atividade em forma de jogo permite que os treinadores enquadrem as ações ou as sequências específicas esperadas em competição, estando adstritas a um tema que favorece o transfer para os contextos de desempenho. O contexto inerente à formulação do tema orienta a conceção dos diferentes formatos reduzidos de jogo. Os temas, os formatos e os parâmetros da atividade refletem as informações com as quais os treinadores podem trabalhar para criar exercícios a partir do zero. 

Qualquer configuração de atividade em forma de jogo tem uma influência clara e direta nas possibilidades que emergem em campo e fornece, até certo ponto, contextos significativos para os jogadores, na medida em que as ações se tornam transferíveis para contextos não condicionados de jogo. Portanto, os formatos incorporam graus de complexidade, dificuldade, especificidade e integridade, em função do arranjo dos diferentes parâmetros da tarefa. Conforme é possível verificar na tabela 2, a mensagem que convém reter é que os formatos devem manipulados e orientados para cumprir o seu propósito por meio das possibilidades de ação que providenciam aos praticantes.

 

Tabela 2. Propósitos dos diferentes formatos e as suas implicações em termos de processo de treino (adaptado de Petiot et al., 2023) (p. f., clique para ampliar). 


Ao nível da “prática do treinador”, destacamos que os próprios são responsáveis por experimentar e manipular as tarefas incorporadas no continuum proposto de atividades em forma de jogo. Estes processos envolvem a leitura do jogo, a manipulação dos parâmetros-chave e a intervenção em cada atividade concebida para um grupo específico de jogadores. A vantagem que decorre de se avançar com um quadro abrangente e flexível de formatos, como é este continuum, é poder navegar entre contextos, cada qual com características e oportunidades de ação diferenciadas.

 

Conclusão

Este artigo propõe um continuum de formatos de atividades de jogo, que variam em especificidade, complexidade e representatividade para atender às necessidades de jogadores com diferentes níveis de prática. Cada atividade em forma de jogo oferece oportunidades de ação para diferentes níveis de desempenho, com estruturas, parâmetros e regras variáveis e personalizáveis. Este instrumento constitui uma contribuição científica valiosa para o treino desportivo, com potencial para ser incluído em currículos nacionais e internacionais inerentes ao desenvolvimento de jovens jogadores e à preparação para a performance em competição.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

28/08/2023

Artigo do mês #44 – agosto 2023 | Tempo útil de jogo influencia os parâmetros técnico-táticos e físicos no futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Tojo, Ó., Spyrou, K., Teixeira, J., Pereira, P., & Ribeiro, J.

País: Portugal

Data de publicação: 8-agosto-2023

Título: Effective playing time affects technical-tactical and physical parameters in football

Referência: Tojo, Ó., Spyrou, K., Teixeira, J., Pereira, P., & Ribeiro, J. (2023). Effective playing time affects technical-tactical and physical parameters in football. Frontiers in Sports and Active Living, 5, 1229595. https://doi.org/ 10.3389/fspor.2023.1229595

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 44 – agosto de 2023.

 

Apresentação do problema

O jogo de futebol tem sido descrito como um sistema altamente dinâmico, complexo, auto-organizado, instável e imprevisível, no qual os treinadores e os jogadores tentam manter a estabilidade das suas organizações ofensiva e defensiva, enquanto procuram desorganizar a estrutura adversária (Davids et al., 2013; Garganta, 2009). Contudo, há uma série de fatores contextuais, como a localização do jogo, o ranking das equipas, o nível de prática, o resultado corrente do jogo e os estilos de jogo, que pode influenciar os comportamentos individuais e coletivos (Eccles et al., 2009; Gómez et al., 2013; Sarmento et al., 2014), exigindo uma adaptação constante dos jogadores a essas mudanças e que se reflete nas ações técnico-táticas executadas e nos padrões que emergem em competição (Vilar et al., 2012). 

As interrupções no futebol são uma característica do jogo e contribuem para que a sua natureza prime pela intermitência (Siegle & Lames, 2012; Zhao & Liu, 2022). Recentemente, o tempo efetivo (ou útil) de jogo tem sido discutido com preocupação pelos diversos agentes envolvidos no futebol (Altmann et al., 2023; Rey et al., 2022), já que, embora os jogos oficiais durem mais de 90 minutos, as várias interrupções (i.e., substituições, faltas, lesões, golos e bolas fora de jogo), podem afetar negativamente o tempo útil de jogo (Linke et al., 2018). Por exemplo, foi evidenciado que o tempo efetivo de jogo na liga portuguesa foi em média ~49 minutos do tempo total de jogo (i.e., 90 minutos), o que é consistentemente mais baixo comparativamente a outras ligas europeias (i.e., Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália) e à UEFA Champions League (Portugal Football Observatory, 2022; ver figura 2). O tempo útil de jogo também foi equacionado numa outra investigação (Castellano et al., 2022). Ao distinguir as duas principais fases do jogo (ou seja, com e sem a posse de bola), e normalizando a distância total para metros por minuto (m/min), estes investigadores constataram que as equipas correm mais sem posse de bola, e o tempo efetivo de jogo e a quantidade de posse de bola influenciaram o desempenho de corrida dos jogadores.

 

Figura 2. Tempo útil de jogo no contexto europeu – Portugal e a Europa (fonte: https://portugalfootballobservatory.fpf.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

No que diz respeito às exigências físicas, jogadores profissionais a atuar na Bundesliga alemã percorreram em média 10% mais de distância total, realizaram 13% mais acelerações e sprintaram 7% a 10% menos em partidas oficiais com um tempo útil de jogo longo (>65 minutos), em comparação com um tempo útil mais curto (<50 minutos) (Altmann et al., 2023). Além disso, jogadores profissionais do Championship, em Inglaterra, apresentaram menores exigências físicas, comparando o jogo completo e o período apenas com a bola em jogo (Mernagh et al., 2021). O tempo útil de jogo foi ainda ponderado em função de várias variáveis contextuais, como o nível da equipa, o resultado corrente e a localização do jogo. A distância total aumentou em jogos caseiros, quando a equipa estava em desvantagem no marcador e quando defrontou adversários mais fortes (Castellano et al., 2011). No entanto, é necessária mais investigação sobre os efeitos do tempo efetivo de jogo em parâmetros físicos e técnico-táticos no jogo de futebol. 

O futsal e o basquetebol são desportos coletivos que são uma referência relativamente ao tempo útil de jogo, uma vez que o tempo é parado quando a bola está fora. Esta pode ser uma alteração interessante para o futebol que, como foi referido, é particularmente sensível a diversas variáveis contextuais. Portanto, este estudo teve como objetivo explorar as diferenças causadas por duas condições de jogo – (1) 45 minutos de jogo sem interrupção do cronómetro quando a bola estava fora (T45) e (2) 30 minutos de jogo com paragem do cronómetro sempre que a bola estava fora (T30) – em variáveis relacionadas com o tempo de jogo (i.e., tempo total, efetivo e interrompido), parâmetros técnico-táticos (posse de bola e remates à baliza), métricas de carga externa e outros eventos do jogo (i.e., assistência médica, pontapés de baliza, cantos, lançamentos laterais, pontapés de saída e faltas). Os autores colocaram a hipótese de que o protocolo T30 apresentaria valores mais altos nas variáveis relacionadas ao tempo, nos parâmetros técnico-táticos e nas métricas de carga externa, em comparação com o T45.

 

Métodos

Desenho experimental: foram recolhidos dados de 6 jogos particulares (“amigáveis”). Os jogos foram aleatoriamente divididos em uma parte de 45 minutos (T45: 45 minutos de jogo sem paragem do cronómetro com a bola fora), ou uma parte de 30 minutos efetivos (T30: o cronómetro foi parado sempre que a bola não estava em jogo). Neste estudo foi analisado um total de 6 partes em cada condição experimentar (T45 e T30). Os jogos foram geridos por árbitros oficiais (i.e., 1 árbitro e 2 assistentes), porém, com um responsável externo para cronometrar o tempo de jogo. Entre cada parte houve um intervalo de 15 minutos. Os jogos foram realizados no final da época 2021/2022. 

Participantes: participaram na experiência 179 jogadores de futebol amadores do género masculino, altamente treinados (idade: 27.9 9 ± 5.1 anos), provenientes de 12 equipas a competir nas 4.ª e 5.ª divisões de Portugal. Todos os jogadores tinham mais de 18 anos e treinavam 3–4 vezes por semana, com um jogo oficial. Os guarda-redes foram excluídos do estudo devido às diferentes exigências físicas e técnico-táticas inerentes à respetiva posição. Os participantes assinaram o consentimento informado e o estudo foi aprovado pelo Comité de Ética da Portugal Football School. 

Procedimentos: os jogos foram gravados com uma câmara digital de 35-megapixeis (Canon XA15Hd, Japão), colocada acima do terreno de jogo para filmá-lo integralmente ao longo dos períodos considerados. Os jogos foram analisados e codificados através do software LongoMatch (Barcelona, Espanha), utilizando 3 categorias de variáveis: (1) a relacionada com o tempo, (2) os eventos relacionados com as paragens do jogo e (3) variáveis técnico-táticas ofensivas (Tabela 1).

  

Tabela 1. Variáveis do estudo, em função de cada categoria: tempo, eventos de jogo associados às paragens e variáveis técnico-táticas ofensivas (Tojo et al., 2023).


Os jogadores usaram unidades de GPS (APEX, STATSports, Irlanda do Norte), com uma frequência amostral de 10 Hz. Contudo, só foram incluídos os dados dos jogadores que disputaram as partidas por completo. As métricas de carga externa incluíram as distâncias total, em corrida de velocidade moderada (14.4–19.8 km/h), em corrida de alta velocidade (19.8–25.2 km/h), em sprint (>25.2 km/h), as atividades em alta velocidade (distância percorrida em velocidade alta e sprint), o número de sprints, o número de acelerações (>3 m/s2) e o número de desacelerações (<−3 m/s2) (Gualtieri et al., 2023; Rago et al., 2019). 

Análise estatística: foi utilizado o pacote estatístico jamovi (versão 2.3; https://www.jamovi.org) para o efeito. A estatística descritiva consistiu na apresentação da média e do desvio-padrão para todas as variáveis. Para averiguar as diferenças entre as condições T45 e T30 nas variáveis de carga externa foi utilizado o modelo linear misto, tendo em consideração medidas individuais repetidas. De modo a analisar as diferenças entre as ações e o tempo médio de paragem, entre as condições T45 e T30, foi empregue um modelo linear geral. Recorreu-se ao teste de proporção para uma amostra para comparar as variáveis técnico-táticas ofensivas entre as duas condições experimentais. As dimensões de efeito inerentes ao d de Cohen foram interpretadas da seguinte forma: <0.2 = trivial; 0.2 = pequeno; 0.5 = moderado; 0.8 = grande (Cohen, 1988). O nível de significância estabelecido foi de 5% (p ≤ 0.05).

 

Principais resultados

 

·     Variáveis relacionadas com o tempo

A condição T30 apresentou valores significativamente mais elevados no tempo total (49:30 vs. 45:00; efeito grande), tempo efetivo (28:70 vs. 26:80; efeito moderado) e tempo parado (20:60 vs. 18:20; efeito pequeno), comparativamente à condição T45.

 

·     Eventos relacionados com as paragens do jogo

A única variável que registou diferenças significativas entre T30 e T45 foi o pontapé de baliza, com valores mais elevados na condição T30 (00:46 vs. 00:30; efeito grande). Porém, embora para as outras variáveis não tenham sido evidenciadas diferenças estatisticamente significativas, os valores médios das paragens para assistência médica e para substituições foram mais elevados na condição T30: 01:32 vs. 00:59 (efeito moderado) e 01:50 vs. 00:22 (efeito grande).

 

·     Variáveis técnico-táticas ofensivas

Mais uma vez, foi na condição T30 (vs. T45) que foram detetados valores significativamente mais elevados, no caso, na posse de bola total (n = 703, 54.4% vs. n = 590, 45.6%) e na posse de bola no terço ofensivo (n = 276, 55.3% vs. n = 223, 44.7%). No que respeita à posse dentro da área de penálti e aos números de remates à baliza dentro e fora da área de penálti, não houve diferenças significativas entre as duas condições experimentais.

 

·     Variáveis de carga externa

Relativamente à condição T45, na T30 os jogadores percorreram significativamente maiores distâncias totais (4899 vs. 4481m; efeito moderado), em corrida de velocidade moderada (607 vs. 557m; efeito pequeno), em corrida de alta velocidade (202 vs. 170m; efeito pequeno) e em atividades de alta velocidade (284 vs. 245m; efeito pequeno). Os números médios de acelerações (27 vs. 24; efeito pequeno) e de desacelerações (31 vs. 28; efeito pequeno) também foram significativamente mais elevados na condição T30.

 

Aplicações práticas

Acima de tudo, este estudo indica que as entidades que tutelam o futebol internacional devem considerar seriamente a possibilidade de se cronometrar o tempo da bola em jogo no futebol, tal como sucede no futsal. Aumentar o tempo útil de jogo tem consequências nas exigências físicas e nas ações técnico-táticas que são executadas em competição. Em particular, há a destacar o aumento do número de atividades técnico-táticas no terço ofensivo do campo e o aumento da carga externa, sobretudo, da distância total percorrida e do número de ações em alta velocidade (> 19.8 km/h), de acelerações e de desacelerações. 

Na perspetiva dos adeptos e dos fãs de futebol, parar o cronometro quando a bola está fora parece ser uma estratégia que aumenta o interesse do jogo. Além de proporcionar a disputa do jogo pelo jogo durante mais tempo, tende a reduzir substancialmente situações indesejadas (e eticamente condenáveis), como é, por exemplo, a simulação de lesões. Esta medida poderá ser especialmente indicada para ligas com reduzido tempo útil de jogo, como são principais ligas portuguesas (Liga Portugal Betclic e Liga Portugal 2 SABSEG), com valores médios de tempo efetivo a rondar os 50%.

 

Conclusão

Comparando com o protocolo sem parar o cronómetro quando a bola está fora (T45), a condição T30 (com paragens do cronómetro quando a bola está fora) revelou tempos total, útil e parado mais longos. Os jogadores tiveram significativamente mais posse de bola e ações no terço ofensivo do campo, percorrendo maiores distâncias total, a velocidade moderada, a velocidade alta e registando-se mais acelerações e desacelerações. As evidências sugerem que o tempo útil de jogo pode influenciar substancialmente as componentes técnico-tática e física do jogo de futebol. Por isso, as organizações internacionais que tutelam o futebol devem ponderar a implementação do tempo cronometrado nos jogos, pois parece trazer mais benefícios do que desvantagens no que se refere ao interesse da modalidade.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Frontiers in Sports and Active Living.

17/08/2023

German Journal of Exercise and Sport Research (2023) | Desempenho defensivo no futebol de elite: Uma revisão sistemática

O dia de hoje, 17 de agosto de 2023, encerra um trabalho desenvolvido ao longo de vários anos. No âmbito do seu projeto de doutoramento, o Rui Freitas liderou uma abrangente revisão sistemática sobre o desempenho defensivo no futebol de elite (figura 1) – uma temática que muito me apraz –, e que, na prática, resultou na segunda publicação derivada da sua tese, sob a orientação da Professora Anna Volossovitch (CIPER, Faculdade de Motricidade Humana, SpertLab, Universidade de Lisboa). Além da minha modesta colaboração, contamos também com a contribuição da Professora Veronica Vleck (CIPER, Faculdade de Motricidade Humana, BIOLAD, Universidade de Lisboa).

 

Figura 1. Informações editoriais da revisão sistemática publicada no German Journal of Exercise and Sport Research.

 

Em primeira instância, seria injusto não enaltecer a perseverança, a determinação e a ética de trabalho incansável do Rui – irrepreensível na condução e na gestão de todo um processo que de acessível pouco ou nada teve. Para compreender o esforço subjacente a este artigo, seria necessário vivenciar cada etapa do estudo, cada submissão, cada revisão, cada troca de informação entre os autores. Tamanha dedicação merece, sem dúvida, ser celebrada! 

Em segundo lugar, saliento que não se trata de uma revisão sistemática qualquer. Não estou com isto a procurar ser pretensioso. Apesar de ser um dos coautores, seria injusto assumir que tive a mesma cota parte de responsabilidade no produto final que o Rui ou a Professora Anna. Não há comparação! Contudo, julgo-me apto a reconhecer quando há algo de extraordinário numa peça de cariz científico. Em particular, esta revisão sistemática incluiu 119 estudos, publicados entre 2010 e 2023, envolvendo 20 competições de futebol, tanto nacionais quanto internacionais. Pode-se imaginar quantas revisões sistemáticas incluem 119 estudos ou mais? 

E, para responder à incontornável objeção de que “quantidade não é sinónimo de qualidade”, convido-vos a ler o artigo na íntegra. Como referem os britânicos, there is a lot of food for thought. Que o abstract possa servir como aperitivo (Figura 2).

 

Figura 2. Abstract da revisão sistemática publicada no German Journal of Exercise and Sport Research.

 

No final do dia, um pouco mais de conhecimento não ocupa espaço e pode ajudar a tornar a prática no terreno mais eficaz. Espero que seja útil!

 

Reference

Freitas, R., Volossovitch, A., Almeida, C. H., & Vleck, V. (2023). Elite-level defensive performance in football: a systematic review. German Journal of Exercise and Sport Research, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1007/s12662-023-00900-y

28/07/2023

Artigo do mês #43 – julho 2023 | Adaptabilidade funcional no estilo de jogo: Uma determinante chave da performance no futebol competitivo

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: He, Q., Araújo, D., Davids, K., Kee, Y. H. & Komar, J.

País: Singapura

Data de publicação: 30-maio-2023

Título: Functional adaptability in playing style: A key determinant of competitive football performance

Referência: He, Q., Araújo, D., Davids, K., Kee, Y. H. & Komar, J. (2023). Functional adaptability in playing style: A key determinant of competitive football performance. Adaptative Behavior, 1–14. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/10597123231178942

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 43 – julho de 2023.

 

Apresentação do problema

No futebol de competição, as equipas têm de adaptar, rápida e continuamente, os seus comportamentos táticos coletivos para responder de forma eficaz aos constrangimentos contextuais em constante mutação, como as opções estratégico-táticas adversárias, o resultado do jogo, a localização do jogo ou o tempo em falta para o término da partida (Gómez et al., 2018; Lago, 2009; Lago-Ballesteros et al., 2012). Estes comportamentos táticos que emergem no decurso das cerca de 120 sequências ofensivas em cada jogo (Tenga et al., 2010a) e ao longo de 34–38 semanas competitivas em cada época são frequentemente descritos como estilos de jogo da equipa, ou os “padrões de jogo característicos demonstrados pela equipa durante os jogos (…) regularmente repetidos em contextos situacionais específicos” (Hewitt et al., 2016). 

Segundo a abordagem da dinâmica ecológica, as equipas são vistas como sistemas coletivos complexos que (re)organizam os seus comportamentos táticos através de interações e trocas de informação contínuas com o contexto de desempenho (Vilar et al., 2012). Assim, descrever uma equipa em função de um único estilo de jogo (e.g., contra-ataque ou ataque posicional) pouco contribui para compreender as características de uma equipa de alto nível. Para o efeito, o recurso a indicadores de resultado (i.e., vitória ou derrota no jogo) e de performance em jogo (e.g., remates realizados, golos) pode revelar uma associação estreita com a capacidade das equipas em explorar efetivamente os constrangimentos ambientais e da tarefa em permanente mudança durante o jogo competitivo. Uma associação positiva sugere a produção de uma resposta coletiva funcional (Seifert et al., 2016). Esta capacidade de gerar e executar um vasto conjunto de comportamentos funcionais e orientados para o objetivo em diferentes contextos tem sido identificada como uma imagem de marca da perícia no desporto, sendo amplamente referida como “flexibilidade comportamental” (Johnson, 1961; Ranganathan et al., 2020), embora seja conceptualmente conhecida como system degeneracy (Seifert et al., 2016) (figura 2).

 

Figura 2. O dispositivo tático é uma componente (estrutural) inerente à adoção de diversos estilos de jogo, mas que emergem, essencialmente, através da modificação de nuances comportamentais. O alemão Julian Nagelsmann é um caso de reconhecido sucesso na implementação da flexibilidade no estilo de jogo (fonte: https://theathletic.com/4344068/2023/03/25/julian-nagelsmann-future-club-tottenham-psg-real-madrid-chelsea/; imagem não publicada pelos autores).

 

Porém, sob dinâmicas competitivas específicas, os jogadores peritos necessitam de gravitar em direção à “reatividade comportamental”, ou seja, são acionadas determinadas tendências coordenativas para responder a alterações específicas nos constrangimentos ambientais e da tarefa. Pelo contrário, os experts também podem exibir comportamentos de imposição em certas situações, que se caracterizam pela propensão para impor um conjunto predeterminado de ações estratégico-táticas, independentemente do desenrolar das circunstâncias situacionais. Importa entender que as interações comportamentais de um perito não são completamente reativas, nem completamente impostas, pois o comportamento intencional é orientado pela deteção de informação para atingir o(s) objetivo(s) proposto(s). Ainda assim, no futebol, talvez devido a limitações técnico-táticas dos jogadores ou da filosofia dos treinadores, as equipas aplicam muitas vezes estratégias que impõem certos estilos de jogo, desconsiderando as dinâmicas de jogo em curso (Cordes et al., 2012). 

Neste estudo, as respostas comportamentais das equipas (i.e., ações realizadas no jogo) são consideradas como um reflexo do estilo de jogo, surgindo a partir das adaptações (ou falhas de adaptação) que ocorrem ao longo do evento competitivo. O termo adaptabilidade do estilo de jogo é, portanto, utilizado para coletivamente descrever a flexibilidade, a reatividade e a imposição dos comportamentos táticos da equipa em resposta às diferentes dinâmicas competitivas que ocorrem ao longo da temporada. Para expandir o conhecimento existente nesta área, em que o foco tem sido colocado na análise das adaptações no estilo de jogo em cada partida, o presente estudo examinou a adaptabilidade das equipas no decurso de uma época (i.e., adaptabilidade funcional entre jogos), bem como a sua relação com diversos indicadores de performance. A questão de pesquisa foi: Qual é a associação entre a adaptabilidade do estilo de jogo da equipa (i.e., flexibilidade, reatividade e imposição do estilo de jogo) e os indicadores de performance em jogo numa época competitiva? Os autores adiantaram duas hipóteses: (1) equipas que apresentam maior flexibilidade no estilo de jogo ao longo da época alcançam melhores resultados nos indicadores de performance em jogo; (2) uma maior tendência tática de imposição ou reatividade nos estilos de jogo está negativamente associada aos indicadores de performance analisados.

 

Métodos

Amostra: para determinar o estilo de jogo das equipas em cada partida, foram recolhidos dados de todos os jogos disputados nas principais ligas masculinas europeias (Premier League inglesa, LaLiga espanhola, Serie A italiana, Bundesliga alemã e Ligue 1 francesa), entre as épocas 2014/2015 e 2019/2020. Os dados foram recolhidos do website Whoscored (www.whoscored.com), que previamente retira os dados da empresa Opta Sports. A base de dados incluiu 31 ações de jogo pertencentes a 3 categorias distintas que especificam 3 fases fundamentais do jogo (Wade, 1988): ataque (e.g., remates a partir de contra-ataque/ataque rápido, remates a partir de esquemas táticos/bola paradas), defesa (e.g., interceções, alívios, cruzamentos bloqueados na zona defensiva) e posse (e.g., toques na bola, passes no terço defensivo, passes penetrantes). Devido à falta de homogeneidade na variância das ações de jogo na base de dados, as características de cada variável foram  dimensionadas para a variância unitária. Os algoritmos de aprendizagem de máquina (machine learning) podem não funcionar de forma ideal quando os dados não apresentam uma distribuição normal (Pedregosa et al., 2011). 

Análise de cluster: a análise de cluster (ou de agrupamento) utilizou uma abordagem não supervisionada de machine learning. Esta abordagem agrupa pontos de dados semelhantes, resultando na formação de diferentes grupos que, no caso, representam os diferentes estilos de jogo das equipas. O algoritmo do Modelo de Mistura Gaussiano Expectation-Maximization (GMM) foi usado na análise de agrupamento. O número de clusters (k) para o GMM deve ser introduzido na construção do modelo. No entanto, como o número total de clusters (ou seja, estilos de jogo) não é conhecido, foi necessário um processo de seleção de modelo para obter um k estatisticamente “ótimo”. Para isso, a análise de cluster foi realizada 14 vezes, com diferentes valores de k a variar entre 2 e 15. O valor “ótimo” de k foi determinado pelo modelo com melhor ajustamento aos dados, avaliado através dos critérios de informação de Akaike (AIC) e Bayesiano (BIC) (Huang et al., 2017). 

Adaptabilidade do estilo de jogo: as equipas foram agrupadas em diferentes estilos de jogo para determinar os respetivos níveis de flexibilidade, reatividade e imposição em cada jogo. A adaptabilidade dos estilos de jogo das equipas foi examinada por cada temporada, de modo a minimizar a influência de perturbações externas e internas (e.g., constituição do plantel ou mudança de equipa técnica). O coeficiente de não similaridade (coefficient of unalikeability – COA), que mede a variância para variáveis categóricas (Kader & Perry, 2007), foi utilizado para calcular a flexibilidade, reatividade e imposição do estilo de jogo. O COA gera um coeficiente numa escala de 0 (todas as observações são idênticas) a 1 (todas as observações são diferentes). 

  • Flexibilidade: para determinar a flexibilidade do estilo de jogo da equipa, calculou-se o COA de todos os estilos de jogo utilizados ao longo da temporada. Um valor de COA mais próximo de 1 indica que a equipa utiliza uma maior variedade de estilos de jogo ao longo da época. Na computação da flexibilidade, os pares de estilos de jogo referem-se ao estilo de jogo utilizado pela equipa em comparação com o de outra semana (e.g., estilo de jogo da semana 1 vs. semana 2; estilo de jogo da semana 1 vs. semana 3).

  • Reatividade: de forma a obter a reatividade do estilo de jogo da equipa, calculou-se o COA dos estilos de jogo utilizados em relação a cada estilo de jogo dos oponentes ao longo da temporada. A reatividade foi obtida invertendo o valor do COA (1 – COA). A reatividade geral do estilo de jogo da equipa foi calculada como a soma das pontuações ponderadas de reatividade. Portanto, um valor mais próximo de 1 indica uma maior reatividade nos estilos de jogo utilizados contra cada estilo de jogo da oposição (ou seja, maior consistência nas respostas do estilo de jogo ao enfrentar um estilo de jogo específico). Na computação da reatividade, os pares de estilos de jogo referem-se aos estilos de jogo da equipa utilizados ao enfrentar um certo estilo de jogo da equipa adversária (e.g., assumindo que o estilo de jogo A foi enfrentado nas semanas 1, 3 e 7: estilo de jogo da semana 1 vs. semana 3; estilo de jogo da semana 1 vs. semana 7).

  • Imposição: a imposição do estilo de jogo das equipas foi determinada através do cálculo do COA dos estilos de jogo enfrentados pela equipa ao longo da temporada aquando do recurso a um dado estilo de jogo. Um valor mais próximo de 1 indicou maior imposição nos estilos de jogo utilizados contra cada estilo de jogo dos oponentes (ou seja, a equipa recorre a um estilo de jogo predefinido, mesmo ao enfrentar uma grande diversidade de estilos de jogo adversários). Na computação da imposição, foram considerados os pares dos estilos de jogo usados pelo adversário face a um dado estilo de jogo da equipa (e.g., assumindo que o estilo de jogo A foi usado nas semanas 1, 3 e 7: estilo de jogo da oposição da semana 1 vs. semana 3; estilo de jogo da oposição da semana 1 vs. semana 7).

  • Indicadores de performance em jogo: recorreu-se a 4 eventos de jogo como indicadores de desempenho: (1) remates executados na área de penálti do adversário; (2) remates permitidos na própria área de penálti; (3) golos marcados; (4) golos sofridos. Estes indicadores foram normalizados pelo número de jogos disputados na época e foram selecionados porque representam eventos críticos no futebol. Além disso, o número de vitórias em cada temporada também foi usado como um indicador de desempenho, uma vez que reflete o sucesso geral da equipa.

 

Análise estatística: o Coeficiente de Correlação de Spearman foi utilizado para calcular a associação entre a flexibilidade, reatividade e imposição do estilo de jogo e os 4 indicadores de desempenho em jogo. O nível de significância foi definido em 0.05 e as dimensões de efeito do Coeficiente de Correlação foram categorizadas como fracas (<0.3), moderadas (0.3–0.6) e fortes (>0.6) (Lipsey & Wilson, 1993). O pré-processamento dos dados e a análise de cluster foram realizados mediante a biblioteca scikit-learn (versão 0.24.2), enquanto o cálculo dos Coeficientes de Correlação de Spearman foram executados através do módulo SciPy-stats (versão 1.6.3), tudo isto dentro do ambiente Python (versão 3.8).

 

Principais resultados

 

·     Agrupamento dos estilos de jogo

Os valores de AIC e BIC foram mais reduzidos no modelo com k = 12 clusters, o que indica que as ações de jogo permitiram diferenciar 12 estilos de jogo no modelo com melhor ajustamento ao conjunto de dados. Assim, as ações executadas em jogo possibilitaram identificar os seguintes estilos de jogo (clusters): 1 – “Posse elevada, alta pressão”; 2 – “Equipa equilibrada, ataque através de bolas paradas”; 3 – “Alta pressão, foco na criação de oportunidades de golo”; 4 – “equipa equilibrada”; 5 – “equipa equilibrada, defender para contra-atacar”; 6 – “estratégia defensiva, com posse diminuta”;  7 – “jogo direto”; 8 – “contra-ataque”; 9 – “dominante na posse, preponderância ofensiva”; 10 – “foco na posse, construção de jogo”; 11 – “equipa equilibrada, foco no jogo corrido e na bola parada”; 12 – “bolas paradas ofensivas”.

 

·     Adaptabilidade dos estilos de jogo e indicadores de performance

A flexibilidade do estilo de jogo teve uma correlação positiva e significativa com o número de vitórias, embora com uma dimensão de efeito pequena. Foram ainda evidenciadas correlações moderadamente positivas (e significativas) entre a flexibilidade do estilo de jogo e o número de golos marcados e o número de remates executados na área de penálti. Ao invés, a flexibilidade do estilo de jogo estabeleceu correlações negativas, de pequena dimensão, com o número de golos sofridos e o número de remates permitidos na área de penálti (figura 3).

 

Figura 3. Relação entre a adaptabilidade do estilo de jogo e indicadores de performance em jogo. Legenda: Flexibility: flexibilidade; Imposition: imposição; Reactivity: reatividade; Wins: vitórias; Goals scored: golos marcados; Goals conceded: golos sofridos; Shots in penalty box: remates na área de penálti; Shots conceded in penalty box: remates permitidos na área de penálti (He et al., 2023).

 

Em relação à imposição do estilo de jogo, os resultados demonstraram o seguinte: (1) correlações negativas de pequena dimensão com o número de vitórias e de golos marcados (p < 0.001 e p < 0.01, respetivamente), e (2) correlações positivas e significativas, de pequena dimensão, com o número de golos concedidos e o número de remates permitidos no interior da própria área de penálti. A reatividade do estilo de jogo demonstrou correlação negativa e significativa, de pequena dimensão, com o número de vitórias e com o número de golos concretizados. Houve, também, uma correlação negativa moderada com o número de remates realizados na área de penálti adversária. Pelo contrário, foram identificadas correlações moderadamente positivas, ainda que significado estatístico (p < 0.001), com os números de golos concedidos e remates permitidos na própria área de penálti. 

Em suma, a flexibilidade do estilo de jogo esteve positivamente associada aos indicadores de performance ofensivos e defensivos. Em sentido inverso, a imposição e a reatividade do estilo de jogo estiveram negativamente associados com os indicadores de performance em jogo suprarreferidos.

 

Aplicações práticas

O estudo sugere que as equipas com maior flexibilidade no estilo de jogo, ou seja, que apresentam uma ampla variedade de estilos durante a temporada, tendem a vencer mais jogos e registam melhores indicadores de desempenho ofensivo e defensivo. Assim, os treinadores devem preparar a suas equipas para gerar respostas diversificadas ao nível do estilo de jogo, pois a velocidade e a variedade com que mudam de estilo tornam as ações dos jogadores e o movimento da bola mais imprevisíveis, o que proporciona uma vantagem tática face ao comportamento da equipa adversária. 

Além disso, as equipas capazes de exibir uma ampla gama de estilos de jogo são mais difíceis de analisar e de se preparar, devido à incerteza que advém dos estilos de jogo que poderão utilizar ou se alterarão (ou não) – e quando? – durante uma partida. Ao defrontar equipas altamente flexíveis, os treinadores precisam de trabalhar as suas equipas para enfrentar inúmeros estilos de jogo, o que restringe o tempo disponível para preparar convenientemente a equipa para responder de forma eficaz a uma ou outra forma de jogar. No entanto, apesar de todas estas vantagens inerentes à flexibilidade do estilo de jogo, na prática não é tão simples fomentar esta flexibilidade estratégico-tática. Tal requer tempo para treinar formas distintas de jogar, para que cada jogador compreenda os detalhes de cada estilo e reconheça as oportunidades contextuais que norteiam a tomada de decisão (i.e., quando e para que estilo de jogo mudar?). 

Embora a associação entre flexibilidade dos estilos de jogo e os indicadores de desempenho tenha sido significativa, as dimensões de efeito variaram de pequena e moderada. Portanto, é crucial reconhecer a natureza altamente dinâmica e em constante mudança do futebol, e ter cautela para não empolar o papel da flexibilidade no estilo de jogo. De facto, o desempenho competitivo é o produto de vários fatores que transcendem a capacidade das equipas em modificarem o modo como atuam. 

Os resultados deste estudo também sugerem que abordagens predominantemente impositivas (independente da dinâmica evolutiva do jogo) ou reativas (dependente ou seguindo a dinâmica evolutiva do jogo) são prejudiciais para a obtenção de sucesso em competição. Porém, o estudo contempla a possibilidade de se registarem indicadores efetivos de desempenho como consequência da capacidade individual e coletiva em alternar funcionalmente estilos impositivos e reativos de jogo. Por exemplo, sabe-se que equipas de elite beneficiam ao impor um estilo de posse dominante frente a equipas mais fracas (Bloomfield et al., 2005; Fernandez-Navarro et al., 2019). Em outros contextos, como quando o resultado no marcador é favorável, reagir ao aumento da preponderância ofensiva dos oponentes, recuando no terreno para, a seguir, lançar contra-ataque ou ataques rápidos tem sido associado a melhores indicadores de desempenho (Lago, 2009; Lago-Peñas & Dellal, 2010). Os treinadores devem estimular, através de situações de jogo representativas nas sessões de treino, a capacidade dos jogadores em alternar funcionalmente entre estilos de jogo impositivos e reativos, manipulando, clínica e pontualmente, os constrangimentos da tarefa e ambientais emergentes.

 

Conclusão

O presente estudo sugere que a adaptabilidade funcional nos estilos de jogo exibidos está significativamente associada aos indicadores de desempenho em competição. Verificou-se uma associação positiva entre a capacidade das equipas em variarem os seus estilos de jogo ao longo da temporada e o desempenho coletivo. Especificamente, equipas suscetíveis de apresentar uma ampla variedade de respostas de estilo de jogo tendem a exibir indicadores de desempenho ofensivo e defensivo mais bem-sucedidos, e, em última instância, vencem mais partidas. Por outro lado, as evidências indicam que abordagens predominantemente impositivas ou reativas comprometem o desempenho coletivo e a obtenção de sucesso em competição. Apesar de os resultados do estudo apontarem direções promissoras para investigações futuras, é imperativo não sobrestimar o papel da flexibilidade no estilo de jogo na melhoria da performance individual e coletivo através do processo de treino. Afinal, o sucesso competitivo resulta da interação complexa de um número quase ilimitado de fatores.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Adaptative Behavior.