26/02/2025

Artigo do mês #62 – fevereiro 2025 | Efeitos de diferentes dispositivos táticos nos comportamentos posicionais coletivos em jogos reduzidos disputados por jovens jogadores de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: González-Rodenas, J., Ferrandis, J., Valdó, J. C., Claver-Rabaz, F., Ballester, R., & Gil-Arias, A.  

País: Espanha

Data de publicação: 19-dezembro-2024

Título: Effects of different tactical formations on positional team behaviors during small-sided games in youth soccer players

Referência: González-Rodenas, J., Ferrandis, J., Valdó, J. C., Claver-Rabaz, F., Ballester, R., & Gil-Arias, A.  (2025). Effects of different tactical formations on positional team behaviors during small-sided games in youth soccer players. Journal of Human Kinetics, 97, 1–11. Advance online publication. https://doi.org/10.5114/jhk/194071

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 62 – fevereiro de 2025.

 

Apresentação do problema

O futebol é um jogo dinâmico, no qual as equipas se influenciam mutuamente nas fases de organização ofensiva e defensiva (Duarte et al., 2012). A interação tático-estratégica requer que os treinadores desenvolvam meios de treino representativos para facilitar a transferência de competências para a competição (Passos & Davids, 2015). 

Neste contexto, os jogos reduzidos (JRs) são ferramentas eficazes para o desenvolvimento técnico, tático e físico dos jogadores (Clemente et al., 2021; Sarmento et al., 2018). Através da manipulação de variáveis como o espaço, o número de jogadores e o formato das balizas, torna-se possível (re)criar condições de jogo específicas (Davids et al., 2013; Ometto et al., 2018). O impacto da adaptação destas condições nas variáveis físicas e fisiológicas tem sido amplamente explorado (González-Rodenas et al., 2015; Praça et al., 2022; Rabano-Muñoz et al., 2023), contribuindo para que as equipas técnicas concebam tarefas de treino mais precisas para monitorizar a carga dos jogadores (Clemente et al., 2014; Hammami et al., 2018; Skalski et al., 2024). 

Nos últimos anos, a investigação sobre a influência dos constrangimentos da tarefa nos comportamentos táticos tem vindo a aumentar consideravelmente (Ometto et al., 2018). Também a dinâmica posicional dos jogadores no campo emergiu recentemente como um dos principais aspetos para avaliar a coordenação coletiva das equipas (Coito et al., 2022). Contudo, a investigação em torno de variáveis posicionais tem-se focado predominantemente nos efeitos da manipulação do número de jogadores (Aguiar et al., 2015; Vilar et al., 2014), da dimensão e configuração do campo (Coutinho et al., 2018; Olthof et al., 2018), bem como em ajustes na tarefa, como os métodos concretização de golo (Travassos et al., 2014) ou as regras do jogo (Castellano et al., 2016; Praça et al., 2021, 2022). 

Embora alguns estudos em contexto competitivo indiquem efeitos significativos dos dispositivos táticos no desempenho tático-técnico (Aquino et al., 2020; Forcher et al., 2023; Memmert et al., 2019), a exploração deste fator em JRs ainda é escassa. Os dispositivos táticos estabelecem uma estrutura coletiva que define a distribuição espacial e os papéis específicos dos jogadores (González-Rodenas et al., 2023; Shaw & Glickman, 2019), sendo fundamentais para moldar as interações e sinergias entre as diferentes posições e missões táticas. Por exemplo, Baptista et al. (2020) verificaram que o número de médios utilizados num dispositivo tático afeta a dinâmica do jogo e a ocupação espacial em jogos 7v7. Concretamente, o estudo revelou que o 4-3-0 (4 defesas, 3 médios e nenhum avançado) promoveu a exploração espacial, o 4-1-2 favoreceu uma distribuição mais compacta e a regularidade coletiva, enquanto o 0-4-3 estimulou o equilíbrio e a capacidade de cobertura face ao adversário. 

Assim, é necessário aprofundar a compreensão sobre o modo como comportamentos coletivos são influenciados pela manipulação dos dispositivos táticos em JRs de futebol. As evidências resultantes podem auxiliar as equipas técnicas a definir estruturas táticas específicas em treino, que sejam mais propícias para criar ambientes de aprendizagem mais representativos para os jogadores. Por conseguinte, este estudo teve como objetivo explorar o impacto de diferentes dispositivos táticos nos comportamentos coletivos da equipa em jovens jogadores durante JRs 7v7.

 

Métodos

Participantes: 18 jogadores (idade = 17,9 ± 0,8 anos; massa corporal = 69,2 ± 4,3 kg; estatura = 178,0 ± 5,6 cm) pertencentes a uma equipa subelite sediada em Madrid, que competia ao mais alto nível no escalão correspondente. Os guarda-redes também integraram o protocolo, mas foram excluídos da análise dos dados. Os critérios de inclusão exigiam que os jogadores estivessem oficialmente inscritos em competição e fisicamente aptos para suportar as exigências dos JRs. 

Abordagem experimental: este estudo transversal analisou o impacto de diferentes dispositivos táticos em JRs 7v7. Foram criadas duas equipas equilibradas (A e B), mantendo-se estáveis ao longo do estudo. A seleção das posições teve por base o perfil tático-técnico e a posição habitual dos jogadores. Os jogos foram disputados num campo de 65x50m (232 m²/jogador), replicando as condições da competição, com exceção das reposições, realizadas sempre através de pontapés de baliza. Propuseram-se 3 dispositivos táticos: 2-3-1 e 3-1-2, sempre contra uma estrutura tática 3-3 (Figura 2).

 

Figura 2. Representação dos dispositivos táticos implementados nos JRs (González-Rodenas et al., 2025).


Os JRs decorreram uma vez por semana durante 3 semanas, integrados no treino da equipa Sub-19. No total, realizaram-se 18 jogos de 5 minutos, com 2 minutos de intervalo, sendo os dispositivos táticos atribuídos aleatoriamente a cada equipa (Tabela 1).

 

Tabela 1. Desenho experimental exibindo os dispositivos táticos utilizados por cada equipa em cada período de jogo (adaptado de González-Rodenas et al., 2025).

Antes de cada jogo, os jogadores foram informados pelo treinador sobre o dispositivo tático e respetivas posições de jogo. O aquecimento incluiu 10 minutos divididos entre exercícios de mobilidade, mudanças de direção e passe/drible.

Procedimentos: os movimentos dos jogadores nos JRs foram monitorizados com WIMU PRO™ GPS (10 Hz), obtendo-se o registo de 9049 posições coletivas (Bastida-Castillo et al., 2019). A otimização do final foi assegurada mediante a configuração dos dispositivos num espaço desimpedido junto ao campo e colocados em coletes anatómicos ajustados às costas dos jogadores. O software SPRO (WIMU, Hudl, EUA) foi utilizado para calcular 5 variáveis táticas (Low et al., 2020; Rico-González et al., 2022): 

·  Altura da equipa: distância média (m) entre o jogador mais recuado e a baliza;

·  Largura da equipa: distância média (m) entre os jogadores mais afastados lateralmente;

· Comprimento da equipa: distância média (m) entre os jogadores mais afastados longitudinalmente;

·  Índice de dispersão: distância média dos jogadores ao centro geométrico da equipa;

·  Área da equipa: área total (m²) do polígono formado pelos jogadores (“convex hull”).


Estas métricas avaliam a coordenação coletiva, a exploração espacial e as distâncias interpessoais, e têm sido amplamente utilizadas em estudos sobre futebol (Baptista et al., 2020; Low et al., 2020, 2022; Ometto et al., 2018; Praça et al., 2021). 

Análise estatística: os dados foram transferidos do SPRO para o SPSS (v. 27.0). Como não seguiram uma distribuição normal (Kolmogorov-Smirnov), foram analisados com medianas e intervalos interquartis. Para comparar os diferentes dispositivos táticos, recorreu-se ao teste de Mann-Whitney U e ao d de Cohen para determinar a magnitude do efeito (Cohen, 1988, 1992): 0–0.2, trivial; >0.2–0.5, pequena; >0.5–0.8, moderada; >0.8, grande. Os resultados foram apresentados em tabelas e caixas de bigodes para visualizar a distribuição, a tendência central e a variabilidade da amostra (p < 0,05).


Principais resultados

 

·     Atacar com dispositivos táticos 2-3-1 ou 3-1-2

Em organização ofensiva, o dispositivo tático 2-3-1 promoveu uma maior altura e largura da equipa em campo do que a estrutura 3-1-2, com diferenças estatisticamente significativas. Contudo, não foram encontradas diferenças no comprimento da equipa nem no índice de dispersão. Além disso, o 2-3-1 registou uma área total significativamente superior à da estrutura 3-1-2, embora com um efeito trivial.

 

·     Defender com dispositivos táticos 2-3-1 ou 3-1-2

Em organização defensiva, o dispositivo tático 2-3-1 promoveu uma linha defensiva mais alta em campo do que a estrutura 3-1-2, com diferenças estatisticamente significativas. No entanto, também resultou numa equipa mais compacta, apresentando menor comprimento e menor dispersão dos jogadores. O 2-3-1 registou ainda uma área total da equipa significativamente inferior à do 3-1-2, o que reforça a ideia de contribuir para um bloco defensivo mais coeso.

 

·     Atacar contra um dispositivo 2-3-1 ou 3-1-2

Ao construir um ataque contra um dispositivo defensivo 2-3-1, a equipa atacante apresentou uma menor altura média, mas maior largura e dispersão coletiva em comparação com o ataque contra um 3-1-2. Adicionalmente, atacar contra um bloco defensivo 2-3-1 levou a um aumento significativo da área total da equipa atacante face à estrutura 3-1-2, com um efeito de magnitude moderada.

 

·     Defender contra um dispositivo 2-3-1 ou 3-1-2

Em organização defensiva, quando a equipa adversária atacou com um dispositivo 2-3-1, a equipa defensora apresentou menor comprimento e dispersão coletiva do que ao defender contra um 3-1-2, com efeitos de magnitude moderada e pequena, respetivamente. Também, defender contra um ataque estruturado em 2-3-1 resultou numa área total defensiva significativamente menor em comparação com a defesa contra um 3-1-2, embora o efeito tenha sido pequeno.

 

Aplicações práticas

A escolha dos dispositivos táticos nos JRs influencia significativamente as dinâmicas coletivas, tanto na equipa que os implementa como na adversária. A compreensão de como os diferentes dispositivos táticos afetam a ocupação espacial, a organização ofensiva e a organização defensiva pode ajudar os treinadores a conceber tarefas práticas mais eficazes e consentâneas com o modelo de jogo criado. Com base nos resultados deste estudo, propõem-se 4 aplicações práticas para aprimorar o treino tático no futebol juvenil:

1. Definir o dispositivo tático conforme o modelo de jogo pretendido: o 2-3-1 favorece ataques mais amplos e estruturados, proporcionando maior liberdade aos médios-ala e garantindo mais estabilidade defensiva com 2 centrais fixos. Em contrapartida, o 3-1-2 gera maior variabilidade posicional e pode potenciar ataques mais imprevisíveis. Ao ponderar as vantagens e limitações de cada estrutura, os treinadores tomam decisões mais informadas sobre o dispositivo tático que melhor se ajusta ao seu modelo de jogo. 

2. Manipular os dispositivos táticos para condicionar a equipa adversária: a estrutura tática proposta não impacta apenas a organização da própria equipa, mas também a dinâmica da equipa adversária, fenómeno reconhecido como coadaptação tática. O 2-3-1 induz uma defesa mais compacta e organizada, enquanto o 3-1-2 tende a ampliar a dispersão longitudinal da equipa adversária. Os treinadores podem recorrer a esta informação para conceber cenários de treino que desafiem os jogadores a solucionar problemas contextuais, como atacar blocos defensivos compactos ou explorar espaços em defesas mais alongadas, ou seja, cedendo mais espaço entre linhas. 

3️. Refinar a ocupação espacial em função da estrutura tática utilizada: o 2-3-1 promove uma organização simétrica e equilibrada, já que permite que os jogadores mantenham distâncias mais curtas entre si, especialmente em momentos defensivos. Por sua vez, o 3-1-2 apresenta uma estrutura ofensiva menos expansiva, o que pode levar os laterais a assumir um papel mais defensivo para garantir o equilíbrio numérico. Os treinadores podem ajustar o dispositivo tático nas tarefas de treino para enfatizar certos princípios de jogo, por forma a melhorar a ocupação espacial sem comprometer as dinâmicas coletivas pretendidas. 

4️. Personalizar os JRs com base nas características dos jogadores e nos objetivos da sessão: a escolha do dispositivo tático deve considerar não apenas o modelo de jogo e o perfil dos jogadores disponíveis, mas também o objetivo específico da sessão de treino. A interação entre diferentes estruturas táticas nos JRs influencia a emergência de padrões coletivos, tornando-se essencial que os treinadores adaptem as tarefas de treino para estimular os comportamentos desejados. Ao manipular os dispositivos táticos de forma estratégica, a equipa técnica pode criar desafios que estimulem a adaptabilidade tática dos praticantes e o desenvolvimento de comportamentos tático-técnicos representativos do jogo competitivo.

 

Conclusão

Este estudo demonstra a influência dos dispositivos táticos nos comportamentos posicionais em JRs de futebol. O 2-3-1 promoveu maior largura e área ofensiva, bem como um posicionamento mais alto, enquanto, defensivamente, proporcionou uma estrutura mais compacta devido à redução do comprimento e do índice de dispersão. Por outro lado, o 3-1-2 resultou numa ocupação espacial mais variável. Atacar contra um 2-3-1 incentivou maior largura e dispersão, enquanto defendê-lo levou a uma estrutura mais compacta. Os resultados enfatizam a importância da escolha do dispositivo tático para modular os comportamentos coletivos. Os treinadores devem manipular estrategicamente o dispositivo tático nos JRs para desenvolver a adaptabilidade dos jogadores e a sua compreensão tática. Ao fazê-lo, otimizam as sessões de treino em função do modelo de jogo idealizado.


P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Human Kinetics.

31/01/2025

Artigo do mês #61 – janeiro 2025 | Atualização sobre a evolução do Campeonato do Mundo da FIFA: futebol masculino e feminino

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Norton, K.

País: Austrália

Data de publicação: 8-dezembro-2024

Título: Update on the evolution of World Cup soccer: men and women

Referência: Norton, K, (2024). Update on the evolution of World Cup soccer: men and women. International Journal of Performance Analysis in Sport, 1–14. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24748668.2024.2436276

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 61 – janeiro de 2025.


Apresentação do problema

Raros são os estudos que analisaram a evolução dos desportos de invasão ao longo do tempo, devido à falta de tecnologias adequadas até ao início do século XXI (Norton et al., 1999; Sarmento et al., 2018). A introdução de tecnologias como sensores microeletrónicos e sistemas multicâmara revolucionou a análise do jogo no futebol e noutros desportos análogos (Bradley et al., 2016; Bush et al., 2015); porém, as mudanças a longo prazo continuam difíceis de quantificar. Neste sentido, metodologias computacionais e notacionais recentes permitiram superar algumas dessas limitações ao analisar vídeos de arquivo (Edgecomb & Norton, 2006; Wallace & Norton, 2014). Os padrões de jogo, aparentemente aleatórios a curto prazo, revelam-se quantificáveis numa análise de longo prazo (Norton, 2013). Além disso, a evolução destes desportos pode ajudar a identificar vantagens estratégico-táticas, bem como os limites das capacidades humanas. 

Documentar a evolução dos desportos pode trazer diversos benefícios, incluindo: (1) estabelecer ligações com as exigências atuais e futuras do jogo e do treino, (2) otimizar a seleção e o desenvolvimento do talento, (3) avaliar os limites da interação entre o aporte energético, a fadiga e a execução de habilidades motoras e, crucialmente, (4) aprofundar a relação entre as regras, a carga física dos jogadores e padrões de lesão. Todos estes potenciais benefícios podem ser valiosos para jogadores, clubes e organizações desportivas e, em particular, para os diretores/gestores desportivos num contexto em que os jogadores são cada vez mais ágeis, competitivos e fisicamente mais bem preparados (Hill et al., 2018; Norton & Olds, 2001). A compreensão das tendências desportivas também contribui para a definição de diretrizes que minimizam o surgimento de lesões sem comprometer a identidade do jogo. A análise de vídeos históricos e o rastreamento da bola e da estrutura do jogo permitiram identificar padrões emergentes e tendências estratégicas ao longo do tempo em diversos desportos coletivos (Norton, 2013; Norton et al., 1999; Wallace & Norton, 2014). 

A Federação Internacional de Futebol Associativo (FIFA) organiza separadamente os Mundiais de futebol masculino e feminino a cada 4 anos, sendo estes dos maiores torneios desportivos do planeta. O torneio masculino ocorre desde 1930, enquanto o feminino teve início apenas em 1991. A relativa estabilidade das regras e a disponibilidade de imagens de arquivo permitem compreender a evolução deste desporto ao mais alto nível. Estudos prévios quantificaram a evolução do Mundial masculino entre 1966 e 2010, revelando maior velocidade da bola, aumento da densidade de jogadores junto à bola e maior intensidade de jogo (Wallace & Norton, 2014). Alguns trabalhos mais recentes confirmaram estas tendências no futebol de alto rendimento (Bradley et al., 2016; Bush et al., 2015). 

O presente estudo expande a análise até 2022 no torneio masculino e, pela primeira vez, examina a evolução do Mundial feminino (1991–2023). A investigação sobre o futebol feminino é escassa, refletindo a sub-representação de jogadoras em investigações nas áreas das ciências do desporto e da medicina (Costello et al., 2014; Ryan et al., 2023). Com uma história competitiva mais curta, o futebol feminino pode estar a evoluir de forma distinta, tornando-se fundamental a análise de padrões comuns e diferenças entre ambos os géneros.

 

Métodos

Desenho do estudo: o estudo utilizou um desenho correlacional retrospetivo para analisar as gravações das finais do Mundial da FIFA (1966–2022 para o futebol masculino, 1991–2023 para o futebol feminino) e quantificar as mudanças ao longo do tempo em métricas específicas. Foram consideradas 3 grandes dimensões: estrutura do jogo, deslocamento da bola e frequência de passes (tabela 1). A análise utilizou o rastreamento computacional da bola e a cronometragem automática dos períodos de jogo e paragem, complementados por uma análise notacional dos passes efetuados (Edgecomb & Norton, 2006; Wallace & Norton, 2014). Os dados das finais masculinas entre 1966 e 2010 foram previamente publicados (Wallace & Norton, 2014), sendo agora atualizados com as 3 edições subsequentes (2014–2022). Os jogos femininos foram analisados separadamente. Normalmente, as finais do Mundial duram 90 minutos, mas, no torneio feminino, houve duas exceções: em 1991, com partes de 40 minutos e, em 1995, com a introdução experimental do “tempo técnico”, que não foi contabilizado como tempo de paragem.


Tabela 1. Variáveis utilizadas no estudo e respetivas definições operacionais (adaptado de Norton, 2024).

Metodologia de rastreamento: as variáveis relacionadas com a duração dos períodos de jogo/paragem e com o deslocamento da bola foram registadas automaticamente pelo software TrakPerformance (Wallace & Norton, 2014). O sistema rastreia visual e mecanicamente o movimento da bola num campo em miniatura e calibra a posição para calcular a distância percorrida e a velocidade. O tempo de jogo iniciou-se no começo de cada parte, sendo interrompido por eventos como livres ou saídas da bola, e retomado com o seu regresso ao campo. A análise permitiu quantificar o tempo total de jogo/paragem e as respetivas percentagens. A fiabilidade do sistema registou um erro de 5–7%. A precisão foi influenciada pela experiência do rastreador, com erro intra-avaliador de 1,8–3,0% no estudo anterior (Wallace & Norton, 2014). Para o presente estudo, a fiabilidade foi recalculada antes da recolha de dados, com erro máximo de 3,68% na duração mediana das paragens. 

Análise notacional da taxa de passes: definiu-se o passe como qualquer toque deliberado para um colega por forma a manter a posse de bola. Os passes foram contabilizados manualmente por cada parte do jogo e normalizados pelo tempo de jogo, registado via TrakPerformance (Wallace & Norton, 2014). A fiabilidade da contagem foi testada com medições duplicadas em 2 jogos. 

Análise estatística: a análise por partes do jogo permitiu avaliar tendências temporais em função de contextos competitivos e estratégicos distintos (Gollan et al., 2020; Wallace & Norton, 2014). Uma regressão linear simples foi utilizada para avaliar mudanças na estrutura do jogo, no movimento da bola e nas taxas de passes. Os jogos masculinos e femininos foram analisados separadamente, comparando-se as tendências através de um teste F para detetar diferenças entre as inclinações das linhas de regressão. As variáveis foram analisadas com testes t emparelhados para identificar as diferenças entre as partes do jogo. O nível de significância foi definido como p < 0,05.

 

Principais resultados

 

·     Estrutura do jogo

Os tempos totais de jogo e de paragem nas finais masculinas e femininas seguiram padrões semelhantes ao longo do tempo. O tempo de jogo manteve-se estável, enquanto o tempo de paragem aumentou progressivamente, com uma evolução semelhante para ambos os géneros (figura 2a). 

A duração das paragens tem aumentado ao longo das décadas, sem diferenças significativas entre as tendências do futebol masculino e feminino (figura 2b). A percentagem de tempo de jogo diminuiu de 65% para cerca de 55%, com descidas semelhantes para ambos os géneros (figura 2c).


Figura 2. Padrões de jogo e paragens nas finais do Campeonato do Mundo masculino (1966–2022) e feminino (1991–2023). O painel (a) apresenta o tempo total de jogo e o tempo de paragem em cada parte do jogo. O painel (b) ilustra a duração mediana das interrupções. O painel (c) mostra a evolução do tempo efetivo de jogo como percentagem do tempo total da partida.


Na segunda parte dos jogos, o tempo efetivo de jogo foi inferior, devido ao aumento do tempo de paragem, enquanto o tempo total de jogo permaneceu estável. O tempo de paragem foi 9% superior nos homens e 25% superior nas mulheres, comparativamente à primeira parte.

 

·     Movimento da bola

A distância total percorrida pela bola manteve-se estável nos homens e aumentou nas mulheres (figura 3a), embora o deslocamento médio tenha sido 7% superior no futebol masculino. As tendências entre géneros não diferiram significativamente. 

A velocidade média da bola aumentou significativamente em ambos os géneros (figura 3b), mas o crescimento foi mais acentuado no futebol feminino (18%), reduzindo a diferença para os homens: de uma diferença aproximada de 17% nas primeiras edições do Mundial feminino, passou-se para uma diferença atual de cerca de 8%. A distância percorrida e a velocidade da bola permaneceram constantes entre a primeira e a segunda parte, tanto nos jogos masculinos como nos femininos.


Figura 3. Movimento da bola nas finais do Campeonato do Mundo masculino (1966–2022) e feminino (1991–2023). O painel (a) representa a distância percorrida pela bola em cada parte do jogo. O painel (b) mostra a velocidade média da bola (distância percorrida por tempo de jogo) nas finais masculinas e femininas.

 

·     Taxa de passes

Esta variável registou um aumento significativo no futebol masculino e feminino (figura 4), sem diferenças na taxa de variação entre ambos os géneros. Nos homens, a taxa de passes por 100 metros de deslocamento da bola cresceu ao longo do tempo, enquanto nas mulheres manteve-se estável. A taxa de passes por unidade de distância foi semelhante entre os grupos. Já a taxa de passes por minuto de jogo diminuiu significativamente do primeiro para o segundo tempo em ambos os géneros, tal como a taxa de passes por 100 metros percorridos pela bola.


Figura 4. Variação na média das taxas de passe por minuto de jogo nas finais do Campeonato do Mundo masculino (1966–2022) e feminino (1991–2023).

 

Aplicações práticas

A evolução do futebol, tanto no género masculino como feminino, tem demonstrado um aumento da intensidade de jogo, da velocidade da bola e das taxas de passe. Estes padrões reforçam a necessidade de adaptação por parte de treinadores e equipas técnicas para otimizar o desempenho, mitigar riscos e rentabilizar as vantagens competitivas. A duração crescente das paragens de jogo permite maior recuperação fisiológica, mas também influencia a organização estratégico-tática e a tomada de decisão. Para além disso, o aumento da velocidade do jogo e da densidade de jogadores em zonas-chave do campo exige novas soluções estratégicas para lidar com a pressão, reduzir o tempo de reação e aumentar a eficácia das ações tático-técnicas. 

Com base nos resultados deste estudo, propõem-se 5 aplicações práticas que poderão ser equacionadas pelas equipas técnicas na preparação e gestão dos/as jogadores/as, de modo a promover uma adaptação mais eficaz às novas exigências do futebol moderno:

 

1. Ajustar a gestão do tempo de paragem para incrementar a recuperação e a organização estratégico-tática: o tempo total de paragem nos jogos tem aumentado, permitindo maior recuperação fisiológica, mas também maior organização defensiva e ofensiva. Os treinadores devem utilizar estas pausas de forma estratégica para reforçar instruções táticas, implementar jogadas de bola parada e evitar que o adversário beneficie de períodos de recuperação prolongados. Dito isto, reproduzir contextos de paragem prolongada nos treinos pode ajudar os/as jogadores/as a manter a intensidade após estas pausas, atenuando uma eventual quebra de rendimento. 

2. Desenvolver a velocidade de execução técnica e a tomada de decisão sob pressão: o aumento da velocidade da bola e da taxa de passes destaca a importância da rapidez na receção e na distribuição da bola. As sessões de treino devem conter exercícios que exijam receções de bola rápidas, controladas e orientadas, uma perceção célere do envolvimento que favoreça uma tomada de decisão mais prospetiva e a execução de passes curtos e precisos, não descurando o passe ao primeiro toque. Estas competências são fulcrais para o sucesso num jogo cada vez mais rápido, intenso e com espaços mais congestionados de jogadores. 

3. Aperfeiçoar a performance em cenários de alta densidade de jogadores: a maior intensidade de jogo e a redução do tempo para ler o jogo e tomar decisões aumentam a relevância de habilidades como dribles curtos, mudanças de direção rápidas e fintas eficazes. A integração de jogos reduzidos/condicionados no treino contribui para que os/as jogadores/as fiquem mais preparados para atuar com eficiência em áreas restritas, o que é benéfico para (1) encontrar companheiros em posições mais vantajosas, (2) executar combinações táticas progressivas, (3) aumentar a fluidez do jogo e (4) manter a posse de bola.

4. Inovar na preparação física para acompanhar a evolução do jogo e reduzir o risco de lesões: jogos com mais intensidade e velocidade são suscetíveis de aumentar a incidência de lesões com ou sem contacto. O planeamento do treino deve incluir tarefas específicas para aprimorar a resistência em contexto de alta intensidade, envolvendo aspetos como a aceleração, a desaceleração e as mudanças de direção sob pressão. A preparação física deve também focar-se na eficiência dos movimentos e na manutenção da capacidade cognitiva e técnica sob fadiga, para que os jogadores preservem um ritmo elevado ao longo dos 90 minutos.

5. Valorizar o progresso metodológico no treino face à evolução abrupta do futebol feminino: o futebol feminino tem-se desenvolvido a um ritmo acelerado, aproximando-se das exigências do jogo masculino em termos de intensidade, velocidade e dinâmica coletiva. As equipas técnicas devem adotar metodologias de treino que preparem as jogadoras para um jogo mais rápido e exigente, não somente do ponto de vista físico, mas, sobretudo, do ponto de vista percetivo, decisional e técnico. As tarefas de treino específico devem expor as jogadoras a contextos desafiantes, com menos tempo e espaço para executar as ações de jogo.

 

Conclusão

De forma geral, este estudo demonstrou que a evolução do futebol de elite tem-se mantido constante tanto no género masculino como no feminino: os movimentos e os estilos de jogo estão cada vez mais intensos. Contudo, é evidente que estes progressos não poderão continuar indefinidamente. O presente estudo, assim como investigações anteriores sobre o incremento das ações de alta intensidade e das competências táticas (Barnes et al., 2014; Bradley, 2025), sustentam a hipótese de que os elementos do jogo e as métricas associadas à intensidade continuarão a evoluir no futuro próximo, à medida que novas gerações de jogadores talentosos forem identificadas e desenvolvidas (Nassis et al., 2020).


P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Performance Analysis in Sport.

31/12/2024

Trends in Sport Sciences (Vol. 31, 2024) | Tendências temporais dos golos marcados por jogo nas principais ligas europeias: Uma análise de 3 décadas

O ano de 2024 foi marcado por um turbilhão de emoções – para mim e para a minha família. Altos e baixos constantes, marcados por tristeza, alegria, frustração, resiliência e muita, muita esperança. Ainda antes dos sobressaltos e em consequência da possível alteração da lei 11 do futebol – a famigerada lei do fora de jogo –, surgiu a ideia de estudar a evolução da média de golos por jogo das principais ligas europeias. 

Voltemos um pouco atrás: que alteração da lei do fora de jogo? Pois bem, há tempos, o ex-treinador e atual Chefe de Desenvolvimento Global do Futebol da FIFA, Arsène Wenger, propôs que a lei do fora de jogo fosse modificada. A ideia era que, se, no meio-campo ofensivo, alguma parte do corpo do atacante estivesse em linha com alguma parte do corpo do penúltimo defensor no momento do passe, este estaria em jogo. A lei 11 atual, no entanto, estipula que a parte mais adiantada do corpo do atacante (excluindo os membros superiores) deve estar, no máximo, em linha com a parte mais recuada do penúltimo defensor. 

A suposta alteração, atualmente em fase de testes, tem como objetivo, por um lado, facilitar a vida dos árbitros em campo e, por outro lado, tornar o jogo de futebol mais apelativo, ao contribuir – supõe-se – para a adoção de estilos de jogo mais ofensivos, com maior potencial para gerar golos. O processo de industrialização da modalidade, além de a querer tornar num produto diariamente consumível, visa também reforçar a questão da atratividade. Contudo, o que não consegui encontrar foi a resposta a uma questão tão simples quanto: “Como tem evoluído a média de golos por jogo nas principais ligas europeias nas últimas décadas?”. Este foi o ponto de partida para um novo artigo, publicado ontem, 30 de dezembro de 2024, na revista Trends in Sport Sciences (figura 1), que figura no quartil 3 da Scimago e apresenta um CiteScore 2023 de 1.6 na Scopus.

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista Trends in Sport Sciences.

 

Este trabalho envolveu a análise da média de golos marcados nas 7 principais ligas europeias de futebol (Premier League inglesa, LaLiga espanhola, Serie A italiana, Bundesliga alemã, Ligue 1 francesa, Eredivisie neerlandesa e Liga Portugal), ao longo das últimas 30 épocas (1994/1995 – 2023/2024), contabilizando-se 193.442 golos marcados em 71.499 jogos disputados neste período. A análise pretendeu responder a 3 questões-chave: (1) O número médio de golos marcados no futebol tem-se mantido estável ao longo das últimas décadas? (2) O número médio de golos por jogo nas últimas décadas difere significativamente entre as principais ligas europeias? (3) Que ligas se desviam da média europeia global?

 

1. O número médio de golos marcados no futebol tem-se mantido estável ao longo das últimas décadas?

Não, o número médio de golos marcados não se manteve estável. Identificaram-se correlações positivas e significativas entre o número de golos marcados por jogo e a época (tempo) na Premier League, Ligue 1, Bundesliga e na média global das 7 ligas. Foram observadas correlações fortes na Premier League, Ligue 1 e na média global, enquanto a correlação na Bundesliga foi moderada (figura 2). Curiosamente, em 3 das 7 ligas, o maior valor médio de golos por jogo foi registado na época mais recente da amostra (2023/2024), nomeadamente na Premier League (3,27), Bundesliga (3,22) e Liga Portugal (2,87). A média global também foi mais elevada nesta última época (2,94).

 

Figura 2. Evolução dos golos marcados por jogo nas 7 principais ligas europeias de futebol (1994/1995-2023/2024).

 

2. O número médio de golos por jogo nas últimas décadas difere significativamente entre as principais ligas europeias?

Sim, foram identificadas diferenças significativas entre as principais ligas europeias no número médio de golos por jogo. A Bundesliga (2,93) e a Eredivisie (3,07) apresentaram médias significativamente superiores às restantes ligas, com efeitos de grande dimensão. Contudo, a Eredivisie destacou-se com uma média de golos por jogo superior à da Bundesliga. Por outro lado, não se verificou uma diferença significativa entre as duas ligas com as médias de golos mais baixas: a Ligue 1 (2,46) e a Liga Portugal (2,52). Já a Premier League (2,69), a LaLiga (2,66) e a Serie A (2,67) não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre elas, embora se tenham destacado significativamente de todas as outras.

 

3. Que ligas se desviam da média europeia global?

A Bundesliga (2,93) e a Eredivisie (3,07) apresentaram médias de golos por jogo significativamente superiores à média europeia global (2,71), com efeitos de grande dimensão. Por outro lado, a Ligue 1 (2,46) e a Liga Portugal (2,52) registaram médias significativamente inferiores, também com efeitos de grande magnitude. A Premier League, a LaLiga e a Serie A não se desviaram significativamente da média europeia.

 

Face a estas evidências, justifica-se alterar a lei 11 do futebol para aumentar a atratividade do jogo? 

O resumo original do estudo consta na Figura 3.

 

Figura 3. Abstract do estudo publicado na revista Trends in Sport Sciences.

 

De modo algum este texto ou o resumo substituem a leitura do artigo integral. Por isso, deixo-vos a referência do trabalho em baixo, cujo acesso é gratuito (open access). Acima de tudo, torço para que seja útil e interessante para a comunidade afeta ao futebol. 

Em 2025 por cá continuaremos, na tentativa de esclarecer outras curiosidades ou mitos. Boas entradas no Ano Novo para todos! 

 

Reference

Almeida, C. H. (2024). Temporal trends in goals scored per match across European soccer leagues: a three-decade analysis. Trends in Sport Sciences, 31(4), 245-254. https://doi.org/10.23829/TSS.2024.31.4-6

28/12/2024

Artigo do mês #60 – dezembro 2024 | O erro no tempo adicional no futebol está associado ao tipo de interrupção e à diferença de golos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Li, Y., Weber, H., & Link, D.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-dezembro-2024

Título: Additional time error in association football is associated with interruption type and goal difference

Referência: Li, Y., Weber, H., & Link, D. (2024). Additional time error in association football is associated with interruption type and goal difference. Science and Medicine in Football, 1–7. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24733938.2024.2435843

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 60 – dezembro de 2024.

 

Apresentação do problema

No Mundial da FIFA em 2022, os tempos adicionais foram significativamente mais longos que o habitual, frequentemente excedendo os 7 minutos e, por vezes, os 10 minutos. Segundo a OPTA, nos 2 primeiros dias do torneio, 5 partes já tinham batido recordes históricos. Este aumento deveu-se a uma ordem da FIFA para que os árbitros aplicassem com maior rigor as regras de compensação de tempo perdido. 

O International Football Association Board (IFAB) tem ajustado as regras de compensação de tempo perdido desde 1939/1940. Inicialmente vagas, estas regras foram especificadas em 1987/1988 para incluir substituições, avaliação de jogadores lesionados e perda de tempo. Em 2016/2017, foram adicionadas as paragens médicas e as sanções disciplinares, seguidas pelo VAR em 2018. Na versão 2023/2024, as celebrações de golo foram listadas como uma categoria separada (IFAB, 2023b). 

Durante o Mundial de 2022, estas regras foram aplicadas rigorosamente pela primeira vez. Registaram-se dados adicionais da partida, como o tipo, o início e o fim de todas as interrupções do jogo consideradas no cálculo do tempo adicional. A recolha desta informação foi executada pela Sportech Solutions Corp., sendo possível calcular o designado “Tempo Adicional Calculado” (Calculated Additional Time – CAT) através da soma aritmética de todas as interrupções, posteriormente sugerido ao árbitro. A Premier League adotou o mesmo mecanismo na temporada 2023/2024 (Kilpatrick, 2023). 

Na Bundesliga alemã, a Sportech Solutions Corp. recolheu o CAT durante a época 2022/2023, após o Mundial (segunda metade da temporada), utilizando o mesmo método aplicado no torneio, mas sem sugerir aos árbitros o tempo adicional a atribuir. Esta configuração ofereceu uma oportunidade única para investigar até que ponto os árbitros atribuem o tempo adicional de acordo com as regras e se estão, de alguma forma, enviesados neste processo. Para tal, foi introduzido um novo parâmetro chamado “Erro de Tempo Adicional” (Additional Time Error – ATE), definido como a diferença entre o CAT e o “Tempo Adicional Atribuído” (Awarded Additional Time – AAT) pelo árbitro. 

O tempo adicional é um elemento decisivo no futebol, representando até 12,2% dos golos marcados nas principais ligas europeias (Transfermarkt, 2024). Apesar dessa relevância, ainda não há estudos que analisem em profundidade o CAT e o ATE. Estudos anteriores sugerem que interrupções no jogo podem ser usadas como estratégia para perder tempo, levando a um tempo adicional atribuído frequentemente inferior ao necessário. Além disso, fatores como a presença do público da equipa da casa e a diferença de golos podem influenciar as decisões dos árbitros sobre o tempo adicional concedido (Augste & Cordes, 2016; Reade et al., 2022; Riedl et al., 2014). Contudo, as análises carecem de dados precisos sobre o CAT, essenciais para avaliar a aplicação rigorosa das Leis de Jogo. 

Este estudo pioneiro explora o CAT e o ATE no futebol, analisado 3 tópicos: (i) a prevalência do CAT por tipo de interrupção na Bundesliga; (ii) a relação entre CAT, tempo adicional concedido (figura 2) e ATE, verificando possíveis vieses associados ao tipo de interrupção; (iii) o impacto da diferença de golos no ATE, avaliando a influência sobre as decisões dos árbitros. Os resultados fornecem informações essenciais para as ligas e árbitros na aplicação e implementação das regras relativas ao tempo adicional no futebol.

 

Figura 2. Exemplo de tempo adicional concedido num jogo da Bundesliga (fonte: gettyimages.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

Métodos

Amostra: o estudo utilizou dados de todos os 153 jogos das jornadas 18–34 da temporada 2022/2023 da Bundesliga, na qual participaram 18 equipas e 25 árbitros. Cada árbitro concordou com a gravação em vídeo dos jogos e com a recolha de dados. 

Procedimentos: para cada jogo, foram analisadas todas as interrupções de jogo relevantes para o cálculo do tempo adicional, conforme as Leis de Jogo 2023/2024 (IFAB, 2023b). Os dados incluíram o tipo de interrupção (substituição, lesão, penálti, celebração de golo, sanção disciplinar, Árbitro Assistente de Vídeo (VAR), outras razões e causas múltiplas), o momento e a duração da ocorrência. A categoria “penálti” abrange a duração de discussões entre o árbitro e os jogadores, sem envolvimento do VAR. A categoria “causas múltiplas” foi usada para interrupções causadas por eventos simultâneos (e.g., lesão e substituição). Registaram-se também o “diferencial de golos da equipa da casa” (Home Goal Difference – HGD), correspondente à diferença de golos antes do tempo adicional da segunda parte, e o “Tempo Adicional Atribuído” (AAT) por período. O “Tempo Adicional Calculado” (CAT) foi obtido somando a duração das interrupções de jogo. Os dados foram recolhidos por observadores humanos profissionais e fornecidos pela Deutsche Fußball Liga. 

Análise estatística: a análise da distribuição das interrupções por tipo implicou que cada jogo constituísse uma unidade estatística. Foram reportados os valores médios absolutos (min:ss) e relativos (%) do CAT para os 8 tipos de interrupção, divididos por primeira parte, segunda parte e tempo total. A avaliação da influência do tipo de interrupção no tempo adicional atribuído (AAT) envolveu o cálculo do “Erro de Tempo Adicional” (ATE), i.e., a diferença entre o CAT e o AAT no tempo total. Regressões Lineares Múltiplas examinaram as relações entre os tipos de CAT e o AAT e o ATE. De forma a explorar se, e em que medida, a diferença de golos e a vantagem de jogar em casa influenciaram os árbitros, os jogos foram categorizados com base no diferencial de golos (HGD). O critério Goal Difference+ usou 5 categorias (>1, 1, 0, −1 e <−1), enquanto o Goal Difference# utilizou apenas duas: “Desequilibrado” (HGD > 1 ou HGD < −1) e “Equilibrado” (todos os restantes). Testes de Mann-Whitney U avaliaram o ATE em diferentes resultados dos jogos. Como jogos desequilibrados apresentaram mais golos (3,94 ± 1,74) do que os equilibrados (2,38 ± 1,46), foi feita uma análise adicional excluindo as celebrações de golos. Testes Kruskal-Wallis H identificaram o ATE em categorias de HGD, com comparações post hoc usando Dunn e ajuste de Bonferroni. A dimensão do efeito (η²) foi classificada como pequena (0,010 ≤ η² < 0,059), moderada (0,059 ≤ η² < 0,138) ou grande (η² ≥ 0,138) (Cohen, 1988). Os instrumentos utilizados foram o SPSS Statistics 25 e o Python 3.9.

 

Principais resultados

 

·     Estatística descritiva

Em média, os jogos da segunda metade da época da Bundesliga 2022/2023 apresentaram um “Tempo Adicional Calculado” (CAT) total de 9:22 ± 3:11, com um “Tempo Adicional Atribuído” (AAT) correspondente de 7:11 ± 2:27. As interrupções nos jogos (CAT = 6:23 ± 2:23) e o tempo adicional atribuído (AAT = 4:55 ± 1:52) foram significativamente mais elevados na segunda parte, comparativamente à primeira (CAT = 2:58 ± 2:09, AAT = 2:15 ± 1:28). O “Erro de Tempo Adicional” (ATE) médio foi de 2:10 ± 2:24 minutos no tempo total, com 0:42 ± 1:22 minutos na primeira parte e 1:28 ± 1:57 na segunda parte.

 

·     Prevalência do Tempo Adicional Calculado (CAT) por tipo de interrupção

Considerando o tempo total de jogo, os tipos de interrupção que mais contribuíram para o CAT foram as substituições (28,17%), as celebrações de golo (24,33%) e causas múltiplas (22,97%). Exclusivamente na primeira parte, foram as celebrações de golo (40,49%), as lesões (25,13%) e as causas múltiplas (18,76%), enquanto na segunda parte foram as substituições (41,76%), as causas múltiplas (23,75%) e as celebrações de golo (17,64%).

 

·     Relação entre o tipo de interrupção e o Tempo Adicional Atribuído (ATT) e o Erro de Tempo Adicional (ATE) para o jogo inteiro

O tempo associado a lesões esteve significativamente relacionado com o AAT e o ATE. As substituições e a intervenção do VAR também afetaram significativamente o AAT, mas não tiveram impacto significativo no ATE. Por outro lado, as celebrações de golos influenciaram significativamente o ATE, mas não o AAT. Já os penáltis e as sanções disciplinares foram 2 tipos de CAT que não afetaram o AAT, embora estivessem consideravelmente associados ao ATE.

 

·     Distribuição do Erro de Tempo Adicional (ATE) em função da diferença de golos

O ATE foi significativamente maior em jogos desequilibrados (imbalanced) em comparação com jogos equilibrados (close), com um efeito de grande magnitude (Figura 3a). No teste adicional, que excluiu as celebrações de golos, o ATE manteve-se significativamente maior em jogos desequilibrados, embora com uma dimensão de efeito pequena. Os resultados também mostraram um ligeiro viés a favor da equipa da casa, uma vez que o ATE foi mais elevado quando a equipa da casa estava em vantagem (diferença de golos > 1; Figura 3b).

 

Figura 3. Erro de Tempo Adicional (ATE) agrupado por diferença de golos# (parte A) e diferença de golos+ (parte B) (golos da equipa da casa – golos da equipa visitante). ES refere-se à dimensão do efeito, e * indica diferenças significativas. O ATE em jogos desequilibrados (imbalance) foi significativamente maior do que em jogos equilibrados (close), indicando um viés dos árbitros ao alocar menos tempo adicional em jogos já decididos. Mais concretamente, a parte B mostra um ATE significativamente mais elevado quando a equipa da casa lidera por mais de 1 golo, em comparação com HGD = 1, 0 e −1. Além disso, o ATE médio foi menor quando a equipa da casa estava a perder por apenas 1 golo, o que sugere um ligeiro viés a favor dos visitados.

 

Aplicações práticas

Uma potencial melhoria na formação dos árbitros e nos processos de tomada de decisão, incluindo uma maior consciência na atribuição do tempo adicional, pode beneficiar substancialmente o jogo de futebol. Até a literatura científica demonstra que as equipas utilizam interrupções de jogo para fins estratégico-táticos (Augste & Cordes, 2016), como a perda de tempo (Morgulev & Galily, 2019). Neste contexto, o aperfeiçoamento do cálculo do tempo adicional pode garantir que os jogos tenham uma duração mais justa, desencorajando as equipas de provocarem conflitos desnecessários, forçarem lesões ou prolongarem excessivamente as celebrações de golos. Com base nos resultados obtidos, identificaram-se 3 aplicações práticas que poderão ser exploradas no futuro para adequar o tempo adicional mínimo concedido às incidências de cada partida:

 

1. Adotar a sugestão de Tempo Adicional Calculado (CAT) para maior justiça competitiva: a utilização do CAT sugerido por fornecedores de dados dos jogos, como a OPTA, seguindo o exemplo do Campeonato do Mundo FIFA 2022, pode assegurar que o tempo adicional reflita com maior precisão o tempo perdido durante as interrupções. Esta abordagem ajudaria a reduzir jogos com menos de 45 minutos de tempo útil e a promover maior equidade competitiva. No entanto, a implementação deve ser precedida de uma avaliação cuidadosa, tendo em conta as perceções dos adeptos, que manifestaram críticas aos tempos adicionais prolongados no último Mundial. 

2. Aperfeiçoar a formação de árbitros para contabilização justa das interrupções: os resultados mostram que o tipo de interrupção afeta o Tempo Adicional Atribuído (AAT) e o Erro de Tempo Adicional (ATE). Embora as substituições e as intervenções do VAR sejam bem contabilizadas, interrupções como lesões e celebrações de golo são frequentemente subestimadas. É fundamental que os árbitros avaliem a duração e o impacto de todas as interrupções, especialmente agora que estas estão mais detalhadas nas Leis de Jogo. Os programas de formação devem enfatizar a importância de contabilizar cada interrupção com precisão, garantindo que o tempo adicional reflete fielmente os acontecimentos em campo. 

3. Sensibilizar os árbitros para decisões justas independentemente das dinâmicas situacionais: os dados sugerem que o Erro de Tempo Adicional (ATE) é maior em jogos decididos. Os árbitros tendem a atribuir menos tempo adicional nestas situações, possivelmente devido a um viés consciente ou inconsciente. Embora as Leis do Jogo (IFAB, 2023b) concedam aos árbitros poder discricionário para gerir estas situações – a designada “lei do bom senso” –, finalizar jogos desequilibrados mais cedo pode ser mal interpretado. Também foi observado que os árbitros atribuem tempos adicionais mais adequados quando a equipa da casa ainda pode empatar, o que reflete uma ligeira tendência a favor da equipa da casa. Recomenda-se que o treino dos árbitros inclua estratégias para aumentar a precisão das decisões relativas ao tempo adicional, quer em contextos de resultados desequilibrados, como ao equacionar o “fator casa”.

 

Conclusão

O estudo explorou o Tempo Adicional Calculado (CAT) e o Erro de Tempo Adicional (ATE) na Bundesliga alemã. Verificou-se que os árbitros frequentemente atribuem menos tempo adicional do que o sugerido pelas Leis de Jogo. Na alocação desse tempo, priorizam interrupções como lesões, intervenções do VAR e substituições, mas subestimam as celebrações de golo, apesar de estas contribuírem significativamente para o tempo total de interrupções. Houve uma tendência para atribuir menos tempo adicional em jogos com uma diferença de golos superior a um no final do tempo regulamentar. Por outro lado, quando a equipa da casa estava a perder por um golo, o tempo adicional foi ligeiramente mais adequado, indiciando um ligeiro viés a favor da equipa da casa. Estes resultados destacam a importância de melhorias na formação dos árbitros e nos seus processos de tomada de decisão.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.