25/06/2022

Artigo do mês #30 – junho 2022 | Efeitos das exigências fisiológicas nos comportamentos de pesquisa visual em situações de futebol 2v1+Gr

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Casanova, F., Esteves, P. T., Padilha, M. B., Ribeiro, J., Williams, A. M., & Garganta, J.

País: Portugal

Data de publicação: 30-maio-2022

Título: The effects of physiological demands on visual search behaviours during 2 vs. 1 + GK game situations in football: An in-situ approach

Referência: Casanova, F., Esteves, P. T., Padilha, M. B., Ribeiro, J., Williams, A. M., & Garganta, J. (2022). The effects of physiological demands on visual search behaviours during 2 vs. 1 + GK game situations in football: An in-situ approach. Frontiers in Psychology, 13, 885765. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.885765

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 30 – junho de 2022.

 

Apresentação do problema

O desenvolvimento de competências percetivo-cognitivas está associado a uma capacidade aumentada de identificar e utilizar informação ambiental na seleção e execução de ações apropriadas ao contexto (Marteniuk, 1976). Estas competências são influenciadas por diferentes constrangimentos que se interrelacionam durante a performance (Williams et al., 2004; Roca & Williams, 2016), tais como a carga mental e fisiológica, as exigências tático-técnicas da partida e as habilidades percetivo-cognitivas solicitadas. Em particular, os cientistas têm comprovado que as competências percetivo-cognitivas são influenciadas pela fadiga e pelas exigências do jogo, ainda que estas conclusões derivem exclusivamente de protocolos laboratoriais envolvendo simulações filmadas. 

Com este tipo de protocolo, Casanova e colaboradores (2013) verificaram a existência de alterações no comportamento de pesquisa visual dos jogadores com o aumento da carga de trabalho, designadamente à medida que o jogo se aproxima do seu final. Indivíduos de nível mais elevado fixaram significativamente mais localizações e recorreram a mais fixações de curta duração, em condições com e sem fadiga instalada, comparativamente a jogadores de nível mais baixo. Contudo, os jogadores, sobretudo os menos habilidosos, tendem a aumentar o tempo de busca visual necessário para recolher a informação relevante do contexto em condições de maior carga fisiológica. O mesmo significa referir que diferentes intensidades fisiológicas criam níveis distintos de stress e, consequentemente, de fadiga. As intensidades mais elevadas geram mais fadiga, o que reduz as performances tático-técnica e física no decurso da partida (Gandevia et al., 2001; Castillo et al., 2021). 

Na generalidade, os jogadores que exibem melhores performances em condições de stress manifestam a habilidade de adaptar a sua estratégia visual, alocando a atenção de forma mais efetiva na busca de informação relevante de suporte às ações subsequentes (Ward & Williams, 2003; Vickers, 2009). A questão-chave que necessita de ser colocada é a seguinte: como é que o aumento da intensidade de treino influencia o comportamento de pesquisa visual dos jogadores em situações in-situ (reais), em vez de se considerar a visualização de situações de jogo filmadas (simulações)? Os investigadores têm mencionado que a inclusão de informação específica do contexto de desempenho em tarefas experimentais dinâmicas e representativas pode ter um impacto mais substancial nos ciclos de perceção-ação, em comparação com tarefas fechadas e típicas de laboratório (Casanova et al., 2013; Dicks et al., 2013). Por isso, são necessários mais estudos para examinar se há diferenças nos comportamentos de busca visual observados no terreno (in-situ), relativamente a tarefas mais tradicionais, de laboratório. 

Este estudo de caso exploratório visou examinar os efeitos induzidos pela carga fisiológica (alta vs. baixa carga de trabalho) nos comportamentos de pesquisa visual durante situações de jogo in-situ 2v1+Gr (guarda-redes). Os autores também exploraram interações com o nível de habilidade dos jogadores, ao diferenciarem grupos de alta e baixa performance, com base numa avaliação previamente validada do desempenho tático. As expectativas iniciais previam que: (1) os jogadores utilizam diferentes estratégias de pesquisa visual em condições distintas de carga fisiológica; (2) os jogadores de nível mais elevado empregam menos fixações para menos localizações, comparativamente com o grupo menos hábil, em ambas as condições de carga fisiológica.

 

Métodos

Participantes: 22 jogadores seniores de futebol que cumpriram os seguintes critérios de inclusão: (i) jogar no nível profissional (Liga Portugal SABSEG – II Liga) ou no semiprofissional (Liga 3) e (ii) reportar níveis de função visual dentro da normalidade. Os jogadores eram defesas ou médios defensivos e foram separados em 2 grupos distintos, em função da performance tática defensiva evidenciada na situação 2v1+Gr, em condições de baixa intensidade: grupo de alta performance (n = 11; performance média = 61.08 ± 4.70 %) e grupo de baixa performance (n = 11; performance média = 53.29 ± 2.43 %). A performance tática foi medida através da eficiência dos jogadores no cumprimento dos princípios táticos defensivos do jogo de futebol (Teoldo et al., 2011). 

Tarefa experimental: consistiu em 12 tentativas envolvendo 1 guarda-redes e 3 jogadores de campo (i.e., 2v1+Gr). A subfase 2v1+Gr é considerada uma das situações mais prevalentes do jogo de futebol e decorreu num campo com as dimensões de 27x20m (comprimento x largura; ver figura 2). A situação foi disputada de forma livre e os participantes (defensores) foram avaliados pela proficiência das ações defensivas. Os 2 atacantes (II Liga) foram instruídos a atacar de forma veloz e rápida como se de uma partida oficial se tratasse. As tentativas iniciaram e finalizaram ao sinal do investigador, sendo cada tentativa dada por concluída quando (i) o defensor recuperou a posse de bola, (ii) um dos atacantes rematou à baliza ou (iii) foi assinalado fora de jogo ou falta.

 

Figura 2. Representação esquemática das tarefas experimentais (situação 2v1+Gr e teste intermitente de recuperação Yo-Yo, nível 2) e da disposição dos participantes e dos materiais (Casanova et al., 2022).

 

Procedimentos: antes da tarefa experimental, os jogadores aqueceram e foram-lhes colocados os óculos de registo do movimento do olho (Tobii Pro Glasses 2®, Estocolmo, Suécia; figura 3) e a banda de peito Suunto Ambit3 (Vantaa, Finlândia). Após calibração do sistema de registo do movimento do olho, executaram-se 3 tentativas para familiarização com a tarefa e com os materiais experimentais. O grupo que realizou a experiência em condições de baixa intensidade, cumpriu inicialmente o teste intermitente de recuperação Yo-Yo (nível 2) até atingir, no mínimo, 60% da frequência cardíaca máxima (FCmáx). O grupo que executou a experiência em condições de alta intensidade, realizou, em primeira instância, o mesmo procedimento físico até atingir, pelo menos, 90% da FCmáx. Ambos os grupos executaram as 12 tentativas da tarefa experimental após o teste físico e, em seguida, completaram as escalas para medir o esforço mental (rating scale for mental effort – RSME: 0 – sem qualquer esforço a 150 – extremamente puxado) e a perceção subjetiva de esforço (rate of perceived exertion – RPE; Borg, 1982: 6 – esforço mínimo a 20 – esforço máximo).

 

Figura 3. Tobii Pro Glasses 2® - óculos de registo de registo do movimento do olho (fonte: tobii.23video.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Variáveis dependentes: os dados do comportamento de pesquisa visual foram analisados frame a frame a uma frequência de 50 Hz. A fixação foi defina como um período de, pelo menos, 100 ms em que o olho permaneceu estacionário dentro dos 0.5º de tolerância de movimento ocular (Vater et al., 2016). Os comportamentos de pesquisa visual foram analisados para obter a “taxa de pesquisa” e a “percentagem de tempo de visualização” (percentage of viewing time – %VT).

·      A taxa de pesquisa envolveu a medição de 3 variáveis: (i) número médio de fixações visuais (mean number of visual fixations – NF); a duração média de fixação em milissegundos (mean fixation duration – FD); e, número total de localizações fixadas (total number of fixation locations – NFL).

·      A percentagem de tempo de visualização foi definida como a proporção de tempo despendido a fixar uma de 7 áreas de interesse diferentes: (i) portador da bola (PlayerBall); (ii) espaço ao redor do portador da bola (SpacePlayer); (iii) espaço em frente ao portador da bola (SpaceFrontPlayer); (iv) bola (Ball); (v) espaço livre no campo (Space); (vi) outro oponente (AnotherOpponent); (vii) indefinido (categoria eliminada devido a frequência irrisória, < 1%). 

A fiabilidade intra e interobservador foi avaliada para mais de 25% do total de tentativas na situação 2v1+Gr e os valores foram superiores a 85% nas variáveis de pesquisa visual e a 90% na análise tática defensiva.

 

Análise estatística: a análise da distribuição dos dados foi cumprida através de testes Shapiro-Wilk. Foram corridas múltiplas ANOVAs fatoriais para examinar o impacto dos fatores nas medidas de performance (1: esforços mental e físico – RSME e RPE; 2: taxa de pesquisa visual – NF, NFL e FD), utilizando o grupo experimental (alta vs. baixa performance) como fator entre grupos e a condição de carga fisiológica (alta vs. baixa intensidade) como fator intra grupo. No caso da percentagem de tempo de visualização, foi conduzida uma ANOVA de 3 vias com o grupo experimental como fator entre grupos e a condição de intensidade e as áreas de interesse como fatores intra grupo. Os efeitos principais e de interação significativos foram seguidos recorrendo a comparações de pares de Bonferroni ajustadas ou testes post-hoc de Bonferroni. As dimensões de efeito foram averiguadas através dos valores de eta quadrado parcial (η2), considerando os seguintes valores de corte: 0.02, efeito pequeno; 0.13, efeito moderado; 0.26, efeito grande (Cohen, 1988). O valor de significância foi estabelecido nos 5% (p ≤ 0.05).

 

Principais resultados

 

·      Perceção subjetiva de esforço

Os jogadores reportaram valores mais elevados de esforço na condição de alta intensidade, comparativamente à condição de baixa intensidade. Enquanto o grupo de alta performance alcançou valores significativamente mais elevados nas escalas de esforço mental (RSME) e físico (Borg) na condição de alta intensidade, comparativamente à condição de baixa intensidade, o grupo de baixa performance apenas manifestou valores significativamente mais elevados na escala de Borg.

 

·      Taxa de pesquisa visual

Os jogadores do grupo de baixa performance aumentaram a duração média das fixações e reduziram o número de fixações e de localizações fixadas da condição de baixa carga fisiológica para a de alta carga fisiológica. Relativamente ao grupo de baixa performance, o grupo de alta performance empregou menos fixações para menos localizações na condição de baixa intensidade, mas aumentou significativamente a duração média das fixações. Na condição de alta carga fisiológica, a diferença entre os grupos restringiu-se à duração média das fixações, com valores significativamente mais elevados no grupo taticamente mais competente.

 

·      Percentagem de tempo de visualização

Os grupos experimentais demonstraram diferentes estratégias de pesquisa visual em relação às áreas de interesse predominantemente fixadas. Independentemente da condição de carga de trabalho, os defesas taticamente mais competentes despenderam mais tempo a fixar o “espaço em frente ao portador da bola” (SpaceFrontPlayer), seguido da “bola” (Ball) e de “outro oponente” (Another Opponent) (figura 4).

 

Figura 4. Percentagem média (%) de tempo despendido a fixar cada localização pelo grupo de alta performance defensiva, nas duas condições de trabalho (alta vs. baixa carga fisiolígica). * Diferenças significativas (p < 0.05) entre SpaceFrontPlayer, e Ball e AnotherOpponent, em ambas as condições de trabalho (Casanova et al., 2022).

 

Por sua vez, os jogadores do grupo de baixa competência defensiva passaram mais tempo a fixar o “espaço em frente ao portador da bola” (SpaceFrontPlayer), o “espaço ao redor do portador da bola” (SpacePlayer), relativamente à “bola” (Ball) e a “outro oponente” (Another Opponent), na condição de alta carga fisiológica (figura 5).

 

Figura 5. Percentagem média (%) de tempo despendido a fixar cada localização pelo grupo de baixa performance defensiva, nas duas condições de trabalho (alta vs. baixa carga fisiológica). ** Diferenças significativas (p < 0.05) entre SpacePlayer e SpaceFrontPlayer, e PlayerBall, Ball e AnotherOpponent, na condição de baixa carga fisiológica. + Diferenças significativas (p < 0.05) entre SpaceFrontPlayer e SpacePlayer, e Ball e AnotherOpponent, na condição de alta carga fisiológica (Casanova et al., 2022).

 

Aplicações práticas

Em primeiro lugar, parece que a carga fisiológica e a competência tática interagem sobre os comportamentos de pesquisa visual de jogadores profissionais de futebol. Em condições de fadiga tende a ocorrer um declínio da performance, diminuindo a habilidade para identificar informação relevante do contexto de jogo e suprimir dicas informacionais insignificantes. Neste sentido, pode não haver uma interconexão tão forte entre perceção subjetiva de esforço e o esforço mental imposto na tarefa em jogadores taticamente mais competentes. 

Além da intensidade do esforço, a complexidade da tarefa também pode ter um papel importante na magnitude da alteração dos comportamentos visuais dos jogadores. A tarefa proposta – “2v1+Gr” – apresenta uma dificuldade média (66.7%) e uma complexidade reduzida (4.5%), em relação à situação de jogo formal (Futebol 11). As diferenças entre os grupos (alta vs. baixa performance) sugerem que os jogadores taticamente mais competentes são mais seletivos na busca de informação em localizações mais pertinentes, sobretudo em circunstâncias de baixa carga fisiológica. Em tarefas mais complexas, é crível que indivíduos com elevado nível de perícia tática sejam capazes de extrair informação relevante do envolvimento de forma mais seletiva e célere, o que não aconteceu propriamente no estudo em questão. Dito isto, a execução eficaz de ações táticas em condições fisiologicamente menos exigentes não é reproduzida linearmente em contextos de sobrecarga física. 

Na situação de maior carga física, os jogadores despenderam mais tempo a fixar o “outro oponente”, desviando a sua atenção do portador da bola e do respetivo espaço envolvente. Este facto pode estar associado à fadiga fisiológica e mental, que, entre outros fenómenos, modifica o foco atencional do objetivo a atingir para um dos estímulos (secundários) do contexto situacional, afetando, em última instância, a perceção visual. Assim sendo, proporcionar contextos de jogo dinâmicos e complexos em condições de fadiga pode ser uma estratégia útil para incrementar o controlo atencional dos jogadores e a função inibitória de dicas informacionais acessórias. 

Os treinadores devem equacionar a melhor forma de manipular os constrangimentos da tarefa (e.g., relações numéricas, dimensões espaciais, regras, carga física prévia) nas sessões de treino, a fim de proporcionar a emergência das dicas informacionais utilizadas pelos defensores. O principal desafio passa por conceptualizar tarefas que repliquem as condições situacionais encontradas no(s) jogo(s) competitivo(s). Estes contextos práticos possibilitam que os jogadores se envolvam numa aprendizagem do tipo “tentativa e erro” conducente ao desenvolvimento de comportamentos visuais flexíveis e adaptativos que, por sua vez, concorrem para aprimorar a tomada de decisão e a criatividade.

 

Conclusão

O estudo mostra que futebolistas profissionais empregam diferentes estratégias de pesquisa visual em circunstâncias distintas de carga física (alta vs. baixa). O grupo taticamente mais competente focou-se mais tempo, em ambas as condições de intensidade, no “espaço em frente ao portador da bola”, comparativamente ao grupo de baixa performance defensiva. Este último grupo despendeu mais tempo a fixar o “espaço em frente ao portador da bola” e “espaço ao redor do portador da bola” na condição de baixa carga fisiológica, e o “espaço ao redor do portador da bola” e o “espaço em frente ao portador da bola” em circunstâncias de alta carga fisiológica. Os resultados revelaram que a carga física e a competência tática interagem para guiar os comportamentos de pesquisa visual em situações de jogo no terreno (in-situ). De um prisma estritamente prático, os treinadores devem considerar o melhor modo de adaptar as suas intervenções no treino, com a intenção de melhorar as estratégias de pesquisa visual e a performance dos jogadores sob diferentes condições de carga física e fisiológica.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Frontiers in Psychology.

04/06/2022

International Journal of Sport and Exercise Psychology (2022) | Vantagem de jogar em casa no futebol após a mudança para um novo estádio: evidências de equipas profissionais europeias

Decorria o mês de março de 2021, o meu colega Werlayne Leite (Secretaria de Educação do Estado do Ceará, Fortaleza; Secretaria de Educação de Fortaleza, Fortaleza, Brasil) convidou-me a dar uma vista de olhos num projeto que estava a dar os primeiros passos. Para aproveitar um dos capítulos da tese de mestrado de Mario Giardina (Solvay Business School, Université Libre de Bruxelles, Belgium), o objetivo passava por estudar o impacto que a mudança de estádio pode ter no “efeito da vantagem de jogar em casa” (home advantage effect) no futebol profissional europeu. 

O projeto evoluiu também com a participação do professor Richard Pollard (Statistics Department, California Polytechnic State University, San Luis Obispo, CA, USA) e ficou acordado aumentarmos a amostra inicial e executar uma análise estatística que permitisse controlar os efeitos da qualidade das equipas, pois influencia os valores de “home advantage”, incorporando ainda na análise as diferenças do número médio de espectadores nos períodos pré e pós-mudança para o novo estádio. 

Desde o início do século XXI foram muitos os clubes que construíram novos estádios (figura 1), o que proporcionou a oportunidade de, no âmbito da vantagem de jogar em casa na modalidade de futebol, examinarmos em detalhe a influência da mudança para um novo estádio. Até à data, pouco havia sobre o assunto no desporto-rei, pelo que seria essencial trabalharmos sobre uma amostra alargada. O Werlayne fez um trabalho de pesquisa brutal e foi possível compor uma amostra de 98 equipas de 25 países europeus afiliados na UEFA. 

 

Figura 1. O Tottenham Hotspur FC foi um dos clubes europeus que inaugurou recentemente o seu novo estádio (abril de 2019) – uma das melhores instalações desportivas do mundo (fonte: www.stadia-magazine.com).


Sinteticamente, a análise consistiu na comparação das taxas de home advantage num período consecutivo de 6 épocas: 3 pré e 3 pós-mudança para a nova instalação desportiva. Partindo do pressuposto que a familiaridade com o próprio estádio é um dos fatores que (mais) contribui para o fenómeno da vantagem de jogar em casa, colocámos a hipótese que a mudança de estádio poderia ter um impacto negativo no rendimento competitivo das equipas. Será mesmo isso que tende a acontecer? 

No dia 27 de maio de 2022 foi publicado online o produto final da nossa investigação na revista britânica International Journal of Sport and Exercise Psychology (figura 2). A leitura do abstract (resumo) dissipará grande parte das dúvidas relativas à questão de pesquisa, contudo, essa ação não dispensa a consulta da totalidade do artigo para melhor se poder compreender a multiplicidade de fatores que afetam a expressão da vantagem de jogar em casa no futebol contemporâneo e, designadamente, após a mudança para um novo estádio.

 


Figura 2. Título, autores, afiliações, datas e abstract do artigo publicado no International Journal of Sport and Exercise Psychology.

 

Reference

Leite, W., Giardina, M., Almeida, C. H., & Pollard, R. (2022). Home advantage in football after moving to a new stadium: evidence from European professional teams. International Journal of Sport and Exercise Psychology. https://doi.org/10.1080/1612197X.2022.2078855

27/05/2022

Artigo do mês #29 – maio 2022 | “No sport for old players”. Estudo longitudinal sobre os efeitos do envelhecimento na performance em jogo no futebol de elite

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Rey, E., Lorenzo-Martinez, M., López-Del Campo, R., Resta, R., & Lago-Peñas, C.

País: Espanha

Data de publicação: 9-março-2022

Título: No sport for old players. A longitudinal study of aging effects on match performance in elite soccer

Referência: Rey, E., Lorenzo-Martinez, M., López-Del Campo, R., Resta, R., & Lago-Peñas, C. (2022). No sport for old players. A longitudinal study of aging effects on match performance in elite soccer. Journal of Science and Medicine in Sport. https://doi.org/10.1016/j.jsams.2022.03.004

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 29 – maio de 2022.

 

Apresentação do problema

O processo de envelhecimento tem um papel crítico na performance competitiva de atletas ou jogadores de topo. Diversos estudos têm confirmado a existência de incrementos anuais na idade do pico de performance desde 2000, em diferentes desportos de elite (Allen & Hopkins, 2015). De facto, os jogadores de elite estão a jogar até mais tarde e isso, provavelmente, tem um impacto significativo no futebol enquanto indústria. Conhecer a altura em que os jogadores atingem o seu melhor nível e compreender os efeitos da idade nos desempenhos físico e tático-técnico em jogo pode auxiliar jogadores, treinadores e managers a tomar decisões mais consertadas nas suas rotinas diárias (Dendir, 2016). 

Os jogadores de futebol de elite acabam as suas carreiras entre os 31 e os 35 anos de idade, com uma duração média de carreira entre os 8 e os 11 anos (Carapinheira et al., 2019). Nas ligas de futebol mais importantes, os jogadores tendem a alcançar o pico de performance entre os 25 e os 27 anos de idade, dependendo da sua posição de jogo: o pico dos avançados (≈ 25 anos) ocorre mais cedo que o dos médios e defesas (≈ 27 anos) (Dendir, 2016; Kalén et al., 2019). Alguns estudos recentes mostraram ainda que os desempenhos em jogo de indivíduos com mais de 30 anos apresentaram decréscimos significativos na distância total percorrida, nas atividades de alta intensidade, na distância em sprint e no número de acelerações e de desacelerações (Lorenzo-Martínez et al., 2020, 2021; Rey et al., 2019; Zhou et al., 2020). Os declínios associados à idade foram mais pronunciados nos defesas centrais, médios-centro e avançados. Contudo, raros foram os estudos que analisaram alterações na performance tático-técnica de jogadores de elite, de acordo com a idade cronológica. As evidências produzidas verificaram que o número e a percentagem de passes bem-sucedidos foram significativamente mais elevados em jogadores mais velhos (>30 anos), em comparação com outros mais jovens (<30 anos) (Sal de Rellán-Guerra et al., 2019; Zhou et al., 2020). Os parâmetros tático-técnicos também exibiram variações face às diferentes posições de jogo. 

Estes estudos basearam-se em designs transversais, pelo que os resultados podem ter sido enviesados por problemas inerentes aos coortes analisados: diferenças na habilidade, nos estilos de vida ou na componente genética. É, portanto, relevante preencher a lacuna de estudos longitudinais sobre esta temática. De momento, apenas podemos presumir que os jogadores deixam o futebol de elite quando a sua performance entra em declínio, e que somente jogadores geneticamente dotados ou altamente competentes (figura 2) conseguem manter-se envolvidos para lá de determinada idade, tendo carreiras mais longas (Rey et al., 2019). Assim, este estudo visou analisar os efeitos da idade nas performances física e tático-técnica em jogo, recorrendo a um design longitudinal. Os autores colocaram as seguintes hipóteses: (1) a performance de corrida decresce com o avançar da idade, (2) os desempenhos tático-técnicos não se relacionam com a idade no futebol de elite e (3) os efeitos variam nas diferentes posições de jogo.

 

Figura 2. Luka Modric no CF Real Madrid (36 anos): um exemplo de longevidade no futebol de elite (fonte: realmadrid.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Métodos

Amostra: foram analisados dados da performance em jogo de 154 jogadores da primeira divisão espanhola (LaLiga), durante 8 épocas consecutivas (2012/2013–2019/2020). Os jogadores incluídos tinham que jogar, no mínimo, 5 partidas completas (i.e., 90 minutos mais tempo adicional) durante, pelo menos, 5 épocas. As observações individuais em jogos com uma ou mais expulsões foram excluídas da amostra. Foram analisadas 14092 observações individuais, com uma média de 15.2 ± 7.0 observações por jogador e época. 

Variáveis e procedimentos: as observações em jogo foram distribuídas por 5 posições de jogo: (1) defesas centrais (CD; n = 37 jogadores, observações = 3769); (2) defesas laterais (ED; n = 44 jogadores, observações = 4233); (3) médios-centro (CM; n = 34 jogadores, observações = 3281); (4) médios-ala (EM; n = 22 jogadores, observações = 1535); (5) avançados (F; n = 17 jogadores, observações = 1274). A idade dos jogadores em cada época foi determinada recorrendo à sua data de nascimento. Os dados foram obtidos da liga de futebol profissional de Espanha (LaLiga), que autorizou a utilização das variáveis incluídas no estudo. O desempenho de corrida em jogo foi examinado através das seguintes variáveis: distância total percorrida (TD), distância percorrida em corrida de alta intensidade (HIR; >21.0 km/h) e número de esforços em alta intensidade (N of HIR). A performance tático-técnica dos jogadores foi analisada através da eficácia do passe (PA; %), definida como a percentagem de passes bem-sucedidos da totalidade de tentativas de passe. Estes dados foram recolhidos através de um sistema de rastreamento ótico computadorizado, com múltiplas câmaras: TRACAB (ChyronHego, Nova Iorque, EUA). Os dados foram processados no software Mediacoach (LaLiga, Madrid, Espanha), cujas fiabilidade e validade foram previamente testadas (Felipe et al., 2019). Adicionalmente, foram registadas 3 variáveis situacionais: resultado do jogo (derrota, empate ou vitória), localização do jogo (casa ou fora) e qualidade da equipa (diferença de ranking das equipas no final de cada época). 

Análise estatística: a análise estatística foi realizada no software R, versão 4.0.3 (R Core Team, 2020). As diferenças entre observações individuais, em função da idade e da posição de jogo (idade x posição de jogo), foram verificadas através de modelos lineares generalizados com ajuste. As variáveis situacionais foram moduladas como efeitos fixos, enquanto a idade do jogador como efeito aleatório, de modo a lidar com medidas repetidas. A variável “época” foi introduzida como interceção aleatória para ponderar as evoluções física e tático-técnica ao longo do tempo. As assunções de homogeneidade e de distribuição normal dos resíduos foram analisadas e não causaram qualquer problema. O teste do Qui-quadrado de Wald (χ2) foi executado para analisar os efeitos principais e de interação. Para cada modelo, foram ainda computadas métricas de R2. O valor de significância definido para todas as análises foi de 5% (p ≤ 0.05).

 

Principais resultados

 

·      Efeitos da idade nas variáveis de performance

Verificou-se a existência de efeitos significativos da idade em todas as variáveis de performance. Designadamente, por cada ano a mais de idade, houve decréscimos de 0.56%, 1.80% e 1.42% na distância total percorrida, na distância percorrida em corrida de alta intensidade e no número de esforços de alta intensidade, respetivamente. Em particular, os decréscimos nas atividades de alta intensidade começaram em torno dos 23 anos. Em sentido contrário, os jogadores aumentaram a eficácia do passe em 0.25% por cada ano que envelheceram (figura 3).

 

Figura 3. Efeitos da idade na distância total percorrida (TD), na distância em corrida de alta intensidade (HIR), no número de esforço de alta intensidade (N of HIR) e na eficácia do passe (PA). Os dados representam a média com intervalos de confiança a 95% (Rey et al., 2022).

 

·      Efeitos da idade nas variáveis de performance por posição de jogo

O estudo mostrou a existência de efeitos interativos entre a idade e a posição de jogo para as variáveis “distância total percorrida”, “distância em corrida de alta intensidade”, “número de esforços de alta intensidade” e “eficácia do passe” (figura 4).

 

Figura 4. Efeitos da idade na distância total percorrida (TD), na distância em corrida de alta intensidade (HIR), no número de esforço de alta intensidade (N of HIR) e na eficácia do passe (PA), em função da posição de jogo: defesas centrais (CD), defesas laterais (ED), médios-centro (CM), médias-ala (EM) e avançados (F) (Rey et al., 2022).

 

Distância total percorrida: os efeitos da idade foram mais pronunciados nos defesas laterais, médios-ala e avançados, com decréscimos de 0.58%, 0.81% e 0.64%, respetivamente, por cada ano a mais de idade. No caso dos defesas centrais e dos médios-centro, os decréscimos anuais foram mais reduzidos: 0.40% e 0.37%, respetivamente. 

Distância em corrida de alta intensidade: maiores reduções anuais nos defesas laterais (1.99%), médios-ala (1.96%) e avançados (2.32%), em comparação com os defesas centrais (1.37%) e os médios-centro (0.89%).

Número de esforços de alta intensidade: não houve diferenças significativas em relação à variável “posição de jogo”, contudo, os decréscimos anuais foram os seguintes: médios-ala (2.16%), defesas centrais (1.74%), avançados (1.52%), defesas laterais (1.27%) e médios-centro (1.15%). 

Eficácia do passe: os defesas centrais e os médios-centro aumentaram a sua eficácia na ação de passe em 0.34% e 0.43%, respetivamente, por cada ano a mais de idade. Os efeitos positivos da idade foram menores para os avançados (0.21%), médios-ala (0.20%) e defesas laterais (0.10%).

 

Aplicações práticas

A distância total percorrida e os esforços de alta intensidade em treino e competição devem ser regularmente monitorizados e analisados. Esta tarefa pode fornecer informações fiáveis e válidas acerca das variações intraindividuais das performances dos jogadores, em função do envelhecimento. Em concreto, os esforços de alta intensidade são considerados como ações físicas muito importantes no futebol de elite, devido à sua associação com eventos ofensivos altamente determinantes (i.e., marcação de golo ou assistência para golo). No contexto da LaLiga, é relevante notar que o declínio da performance nas ações de alta intensidade não começa somente na terceira década de vida dos jogadores, mas sim a partir dos 23/24 anos de idade. 

A realização de desempenhos tático-técnicos superiores, que se reflitam, por exemplo, numa maior eficácia do passe, pode estar associada a um mecanismo de compensação dos jogadores para lidar com o decréscimo da performance física que ocorre com o avanço da idade. Trata-se, por isso, de uma estratégia profícua para que jogadores profissionais possam aumentar a longevidade das suas carreiras em patamares de rendimento elevados. Estes dados podem ainda ser utilizados por treinadores e managers para tomar decisões informadas sobre aspetos contratuais, tais como o salário, a duração do contrato e timing para transferir ou substituir um jogador do plantel. 

Os defesas laterais, os médios-ala e os avançados foram as posições de jogo mais afetadas pelo envelhecimento. Assim, os resultados da monitorização previamente referida também podem ser usados por especialistas do treino da condição física para (1) individualizar planos e cargas de treino no decurso do(s) microciclo(s) e (2) conceptualizar e desenvolver programas de treino, considerando a idade como um fator mediador da capacidade física momentânea do jogador.

 

Conclusão

Em síntese, ao utilizar um design longitudinal, este estudo forneceu novas evidências acerca dos efeitos da idade na performance em jogo no futebol de elite. Os jogadores com carreiras de maior longevidade num patamar de rendimento elevado foram incapazes de manter a performance física à medida que a idade avançou. Apesar disso, mesmo envelhecendo, os jogadores podem melhorar anualmente as suas competências tático-técnicas, constituindo um possível mecanismo compensatório para os efeitos nefastos do envelhecimento ao nível da performance física. Por último, constatou-se que o declínio da performance física associado ao avanço da idade foi mais pronunciado nos defesas laterais, médios-ala e avançados, enquanto os efeitos positivos da idade na eficácia do passe foram mais acentuados nos defesas centrais e nos médios-centro.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Science and Medicine in Sport.

18/05/2022

O 16.º aniversário do blogue Linha de Passe

O blogue Linha de Passe celebra hoje 16 anos de existência (figura 1).

 

Figura 1. O 16.º aniversário do Linha de Passe (18-maio-2022).

 

Por razões que mencionei outrora (link), é um dia duplamente especial para mim. Sem me querer alongar em celebrações, até porque se trata somente de uma data que, por coincidência, me recorda decisões felizes que tomei na minha vida, finalizo com três lições que tenho vindo a assimilar, de há 16 anos a esta parte, com as reflexões e os textos que amiúde por aqui vou escrevendo:

 

1) Opiniões e convicções há muitas, mas se não forem devidamente informadas e fundamentadas, ou são falíveis ou depressa passam à história; 

2) Vivemos na era da (des)informação, confirmar a veracidade dos factos e dos dados é absolutamente crucial e marca a diferença entre a credibilidade e a inutilidade; 

3) Não se altera a essência do ser, porém, as nossas perspetivas, crenças e ideias são moldadas pela idade e pela experiência – o que fazemos ou acreditamos no presente pode não se repercutir no futuro, seja a curto, médio ou longo prazo.

 

Parabéns ao blogue de Linha de Passe!

(https://www.facebook.com/blogueLinhaDePasse)

08/05/2022

Rendimento = Atitude + Competência; a conquista do título pelo FC Porto

Em 2016, numa ação de formação sobre “liderança no desporto”, o professor Tomaz Morais referiu que o rendimento desportivo, em particular na alta competição, é o resultado do somatório de duas componentes essenciais: atitude e competência. 

A propósito da mais recente Liga Portuguesa bwin conquistada pelo Futebol Clube do Porto – o 30.º campeonato de futebol do clube –, e completamente à margem de todas as polémicas relacionadas com questões de arbitragem, devemos reconhecer que a equipa de Sérgio Conceição bateu inequivocamente qualquer equipa em matéria de atitude (foco, compromisso e sentido coletivo). No que respeita à componente “competência”, foi também o conjunto mais eficaz e regular nas diversas fases e momentos do jogo. 

Para ilustrar a importância da atitude em contexto competitivo, analisemos o lance que, aos 90’+4, decide a vitória do FC Porto no jogo de ontem diante do Sport Lisboa e Benfica. Convido-vos a observar os comportamentos de transição defensiva da maioria dos jogadores da casa, mas designadamente de Adel Taarabt:

 


Em quatro “frames” demonstro o porquê de termos um SL Benfica a 17 pontos do FC Porto e a 11 do Sporting Clube de Portugal. A atitude nestes momentos de transição defensiva tem sido quase norma: lenta, carente de objetividade e entreajuda. Inicialmente, após a execução do pontapé de canto, o equilíbrio defensivo encarnado parecia assegurado, com três jogadores fora da área visitante (figura 1). Uma vez que o grosso dos alívios defensivos geralmente ocorre para o local em que Pepê recolheu a bola, Taarabt e Darwin não apresentam o posicionamento ideal para contrariar um possível contra-ataque. Contudo, nesta fase do jogo, e com o SL Benfica a dar tudo para evitar a festa azul e branca, até é admissível (e vulgar) que haja algum desacerto posicional no cumprimento do equilíbrio defensivo.

 

Figura 1. Início da transição defensiva com o SL Benfica em superioridade numérica fora da área de penálti.

 

Nos episódios de transição defensiva, a atitude competitiva é aferida pelo modo com os jogadores e as equipas reagem à perda da posse de bola. Se a maioria dos jogadores das águias nem esboçou reação para recuperar defensivamente, Darwin – que de resto foi o mais rápido a tentar fechar espaço defensivo –, somente iniciou o sprint após percecionar Taarabt a ser ultrapassado em velocidade por Pepê no duelo 1v1 (figura 2).

 

Figura 2. Desenrolar da transição defensiva, com Taarabt a ser ultrapassado por Pepê.

 

O terceiro “frame” é marcante para o desfecho do contra-ataque. Taarabt, batido em velocidade por Pepê, deveria ter ajustado a corrida de recuperação para fechar o espaço defensivo no corredor central. Com essa possível adaptação tática, equilibraria a relação numérica (Pepê vs. João Mário; Zaidu vs. Taarabt) e, no mínimo, cobriria o espaço vital à entrada da sua área de penálti. Não só não acompanhou Pepê, como não fechou o espaço central, como ainda foi totalmente ultrapassado por Zaidu e pelo árbitro Luís Godinho (figura 3). Uma atitude incompreensível e que não faz jus às exigências competitivas de um clube de referência como é o SL Benfica.

 

Figura 3. O princípio do sucesso do contra-ataque do FC Porto: a “atitude” de Taarabt.

 

O vídeo e o último “frame” mostram que João Mário fez tudo o que podia para temporizar. Dividiu a ocupação espacial para evitar a progressão de Pepê para a baliza e, simultaneamente, para cortar a linha de passe para Zaidu. Por força da desvantagem numérica, não foi bem-sucedido. Taarabt assistiu “a meio gás” ao 2v1, ao golo de Zaidu e à festa do FC Porto (figura 4).

 

Figura 4. O 2v1 do FC Porto que viria a resultar no golo de Zaidum. Taarabt ficou a ver.

 

Em jeito de conclusão, é justo assinalar que a pontuação alcançada pelos portistas não pode dar azo a que análises, no mínimo questionáveis, em torno de mais ou menos centímetros, mais ou menos cartões, mais ou menos penáltis, ofusquem o grupo que mais rendimento desportivo exibiu ao longo da época. Por sua vez, o SL Benfica deve refletir a fundo sobre o que pretende para sua equipa principal e definir um plano estratégico para o alcançar. Nesta busca interna de rumo para o futuro, a “atitude” deverá ser uma componente inegociável para todos, assente numa identidade própria – a famigerada mística – que exclua por completo qualquer manifestação de facilitismo, conformação e irresponsabilidade. 

Parabéns ao FC Porto pelo 30.º título nacional de futebol.