28/01/2024

Artigo do mês #49 – janeiro 2024 | Treinar ou não treinar (no dia do jogo)? Influência de uma sessão de preparação no desempenho competitivo no futebol profissional

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Modric, T., Carling, C., Lago-Peñas, C., Versic, Š, Morgans, R., & Sekulic, D.

País: Croácia

Data de publicação: 19-dezembro-2023

Título: To train or not to train (on match day)? Influence of a priming session on match performance in competitive elite-level soccer

Referência: Modric, T., Carling, C., Lago-Peñas, C., Versic, Š., Morgans, R., & Sekulic, D. (2023). To train or not to train (on match day)? Influence of a priming session on match performance in competitive elite-level soccer. Journal of Sports Sciences, 41(18), 1726–1733. https://doi.org/10.1080/02640414.2023.2296741

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 49 – janeiro de 2024.

 

Apresentação do problema

A análise de jogo é frequentemente utilizada em muitos desportos, pois fornece aos treinadores um meio de recolher informações objetivas que podem ser usadas para dar feedback sobre o desempenho em jogo (Kim et al., 2023). No futebol, o rendimento competitivo é determinado por uma interação complexa entre fatores físicos, técnicos, táticos e psicossociais (Schuth et al., 2016). O desempenho físico é geralmente avaliado pela quantificação de diferentes variáveis cinemáticas (e.g. distância total percorrida, distâncias percorridas em diferentes zonas de intensidade e frequências de aceleração/desaceleração (Byrkjedal et al., 2023; Riboli & Castagna, 2023). Os remates, passes, cruzamentos e dribles estão entre as variáveis mais utilizadas para examinar o desempenho técnico (Yi et al., 2019), enquanto a coordenação entre jogadores e entre as equipas é usualmente analisada para avaliar o desempenho tático (Folgado et al., 2015). Embora o desempenho técnico dos jogadores seja considerado decisivo para o sucesso competitivo (Hoppe et al., 2015; Moalla et al., 2018), não é possível alcançar um alto nível de rendimento no futebol contemporâneo sem um nível apropriado de condição física (Mackenzie & Cushion, 2013). Portanto, aprimorar o desempenho técnico e físico dos jogadores constitui um objetivo essencial para os profissionais do treino no futebol. 

Juntamente com uma recuperação e alimentação adequadas, uma estratégia importante para melhorar o desempenho técnico e físico no dia do jogo é a periodização da carga de treino (Los Arcos et al., 2017). A maior parte dos esforços para otimizar a preparação para o jogo ocorre durante as sessões de treino semanais; no entanto, a preparação final acontece no dia do jogo. Assim, na manhã do dia do jogo (visto que os jogos são habitualmente disputados à tarde ou à noite), a equipa técnica pode optar pela realização de uma “sessão de preparação” (priming session; figura 2), no futebol também designada de “ativação”. A investigação sobre a prevalência e aplicação de exercícios de preparação em desportos de alto rendimento mostraram que estas sessões consistem predominantemente em exercícios para a parte superior do corpo (e.g., supino, lançamento de bola medicinal, elevações, etc.) e para a parte inferior do corpo (e.g., agachamento, variações de levantamento olímpico, saltos, etc.), envolvendo ou não carga adicional (Harrison et al., 2020).

 

Figura 2. Jogadores em preparação matinal antes de um jogo competitivo (imagem não publicada pelos autores; fonte: https://www.soccersupplement.com).

 

As sessões de preparação em geral visam melhorar o desempenho à tarde/noite por meio de vários mecanismos, como a redução da rigidez articular e muscular, a ativação dos motoneurónios de alta frequência e o aumento agudo da testosterona (Harrison et al., 2019; Nutt et al., 2022). Contudo, apesar de algumas evidências empíricas sugerirem que as sessões de preparação podem ser uma estratégia eficaz para melhorar a performance dos atletas (Marrier et al., 2019; McGowan et al., 2017; Nutt et al., 2022), outros estudos não reportaram qualquer efeito positivo (Fry et al., 1995; Harrison et al., 2020). A existência de resultados contraditórios pode ser em parte atribuída a prescrições distintas das sessões de preparação, uma vez que tem sido aplicada uma vasta gama de métodos na prática (Harrison et al., 2020). Independentemente da causalidade, é importante destacar que os estudos investigaram apenas medidas instantâneas de desempenho, como saltos e/ou indicadores de força. 

Considerando a importância comprovada do desempenho físico e técnico no futebol (Hoppe et al., 2015; Moalla et al., 2018; Schuth et al., 2016), até à presente data, nenhum estudo investigou os efeitos de sessões de preparação na performance em jogos oficiais de futebol (Harrison et al., 2020). Consequentemente, permanece incerto se as sessões de preparação têm ou não um efeito positivo no desempenho competitivo dos jogadores, havendo necessidade de mais investigação. Este estudo visou suprir esta lacuna, examinando o efeito das sessões de preparação no desempenho físico e técnico de jogadores profissionais em competição.

 

Métodos

Abordagem experimental: neste estudo observacional, a performance competitiva dos futebolistas foi analisada em função de duas rotinas específicas implementadas pela equipa no dia do jogo: (i) uma sessão de preparação de 15 a 20 minutos, (ii) um período de 15 a 20 minutos de caminhada ou descanso. Este desenho permitiu investigar as potenciais diferenças no desempenho em jogos precedidos e não precedidos por uma sessão de preparação. Os seguintes fatores contextuais também foram controlados (covariáveis): posição de jogo, local e resultado do jogo, qualidade do adversário e tipo de campo. 

Amostra: foram recolhidos dados de 31 jogadores de campo de uma equipa sénior profissional da primeira divisão da Letónia (9 médios centro, 7 defesas centrais, 4 avançados, 5 defesas laterais e 6 médios ala). Os jogadores participaram em 32 jogos oficiais do campeonato, 12 precedidos por uma sessão de preparação e 20 não precedidos por uma sessão de preparação. Apenas foram incluídos na análise os jogos disputados com a mesma estrutura tática de base: 4-3-3. A nível individual, somente foram incluídas observações caso o jogador tivesse participado em, pelo menos, 75 minutos do jogo. No total, foram obtidas 266 observações individuais (92 precedidas por sessão de preparação e 174 observações não precedidas por sessão de preparação). Obteve-se o consentimento verbal do clube e dos jogadores e, ao longo do estudo, foi garantido o anonimato dos participantes. 

Procedimentos: a performance física dos jogadores foi medida utilizando um sistema global de posicionamento (GPS) de 10 Hz (Vector S7, Catapult Sports Ltd., Melbourne, Austrália). Cada jogador usou sempre o mesmo dispositivo em cada jogo. Os dados brutos foram exportados após o final de cada jogo através do software específico do sistema (OpenField, Catapult Sports Ltd., Melbourne, Austrália). O desempenho técnico dos jogadores foi analisado mediante o sistema ótico semiautomático InStat Scout (Instat Limited, Limerick, República da Irlanda). O sistema foi recentemente comprovado como sendo altamente fiável (Silva & Marcelino, 2022). Com base na experiência prática dos autores do estudo, que têm um histórico comprovado de trabalho no futebol profissional como preparadores físicos, foi elaborado um protocolo de preparação pré-jogo (figura 3). O protocolo teve a duração de 15–20 minutos e consistiu em 4 partes: (i) aquecimento no solo, (ii) exercícios de força média (core), (iii) exercícios de força para membros inferiores e (iv) exercícios de agilidade reativa. Este protocolo foi realizado nas manhãs dos dias de jogo e foi orientado pelo preparador físico da equipa (um dos coautores do estudo). Dependendo da hora do jogo, as sessões de preparação foram realizadas 6 a 9 horas antes do apito inicial.


Figura 3. Protocolo da sessão de preparação pré-jogo (traduzido de Modric et al., 2023).

 

Variáveis: a performance física foi avaliada através das variáveis “distância total” (m), “distância em corrida de baixa intensidade” (m; <4m/s), “distância em corrida de intensidade moderada” (m; 4–5.5m/s), “distância em corrida de alta intensidade” (m; >19.8km/h), “total de acelerações” (n; >0.5m/s2), “acelerações de alta intensidade” (n; >3m/s2), “total de desacelerações” (n; <-0.5m/s2) e “desacelerações de alta intensidade” (n; <-3m/s2). Por sua vez, o desempenho técnico foi verificado através de remates, passes, cruzamentos, desarmes, dribles e duelos (n). O contexto foi analisado através das variáveis categóricas “posição de jogo” (defesa central, defesa lateral, médio centro, médio ala e avançado), “resultado do jogo” (vitória, empate e derrota), “localização do jogo” (casa e fora), “qualidade da oposição” (forte, 1.º–5.º lugares e fraca, 6.º–10.º lugares) e “tipo de campo” (relva artificial e relva natural). Para examinar o efeito de uma sessão de preparação no desempenho físico e técnico dos jogadores, foi criada a variável categórica “sessão de preparação” (jogo precedido por uma sessão de preparação ou não precedido). 

Análise estatística: foi corrido um modelo linear misto para examinar o efeito das sessões de preparação no desempenho físico e técnico dos jogadores. As variáveis físicas e técnicas nos jogos que foram precedidos ou não por sessões de preparação foram incluídas no modelo como variáveis dependentes. A posição de jogo, o resultado do jogo, a localização do jogo, a qualidade da oposição e o tipo de campo constituíram as variáveis independentes, sendo inseridas no modelo como efeitos fixos. A identidade dos jogadores foi modelada como efeito aleatório. O d de Cohen foi utilizado para identificar as dimensões de efeito e interpretado da seguinte forma: trivial (<0.2), pequeno (≥0.2–0.5), moderado (≥0.5–0.8) e grande (>0.8) (Cohen, 2013). Todas as análises foram executadas no software SPSS (IBM, SPSS, versão 25.0). A significância estatística foi estabelecida em p < 0.05.

 

Principais resultados

 

·     Distâncias total e percorridas em diversas zonas de intensidade

Em jogos precedidos por uma sessão de preparação (vs. sem sessão de preparação), os futebolistas alcançaram valores significativamente superiores nas seguintes variáveis: distância total (10727m vs. 10468m, respetivamente; efeito pequeno), corrida de intensidade moderada (1632m vs. 1484m, respetivamente; efeito moderado) e corrida de alta intensidade (689m vs. 625m, respetivamente; efeito pequeno). As covariáveis posição de jogo, localização do jogo e resultado do jogo tiveram influência na distância total e nas distâncias percorridas em corrida de intensidade moderada e de alta intensidade. Além disso, o tipo de campo teve impacto na distância total e na distância percorrida em alta intensidade.

 

·     Atividades de aceleração e desaceleração

Não houve um efeito significativo de prescrever sessão de preparação antes dos jogos nas 4 variáveis afetas a acelerações e desacelerações. Ainda assim, quando os jogos foram precedidos por uma sessão de preparação, os jogadores manifestaram valores ligeiramente superiores de acelerações de alta intensidade (30 vs. 28, respetivamente; efeito pequeno) e desacelerações de alta intensidade (39 vs. 36, respetivamente; efeito pequeno), comparativamente aos jogos que não foram precedidos por uma sessão de preparação. A covariável posição de jogo teve influência nas acelerações e desacelerações de alta intensidade. O resultado e a localização do jogo manifestaram efeitos significativos no número total de acelerações e desacelerações. A qualidade da oposição influiu nas acelerações de alta intensidade, enquanto o tipo de campo afetou o número total de acelerações e desacelerações, e as acelerações de alta intensidade.

 

·     Desempenho técnico

Das 6 variáveis analisadas (remates, passes, cruzamentos, desarmes, duelos e dribles), os jogadores apenas executaram significativamente mais duelos em jogos precedidos de sessões de preparação (vs. sem sessão de preparação). As respetivas médias foram 18.66 e 16.71, respetivamente (efeito pequeno). Os duelos também foram afetados pelas covariáveis posição de jogo e qualidade da oposição.

 

Aplicações práticas

As evidências extraídas do estudo proporcionaram a formulação de 3 sugestões práticas para os treinadores de futebol profissional:

 

1. Melhorar o desempenho físico em competição: implementar sessões de preparação na manhã do dia do jogo pode conduzir a uma melhoria notável no desempenho físico dos jogadores durante o jogo subsequente. Ao contrário de sessões altamente intensivas, a natureza não intensiva e de curta duração destas sessões de preparação é improvável que afete negativamente o estado anímico dos jogadores. Assim, os treinadores podem incorporar com confiança estas sessões nas rotinas pré-jogo sem preocupações com efeitos adversos no bem-estar psicológico dos jogadores. 

2. Impacto na performance técnica: embora as sessões de preparação não melhorem diretamente a performance técnica dos jogadores em competição, também não a prejudicam. Por um lado, esta evidência sugere que a integração de sessões de preparação (ativação) no dia de jogo não compromete a execução de habilidades técnicas associadas à obtenção de sucesso no futebol. Por outro lado, destaca a importância de incorporar sessões de preparação pré-jogo no planeamento semanal (microciclo), no intuito de otimizar a prontidão física dos jogadores, mantendo o nível tático-técnico inalterado. 

3. Eficácia das sessões de preparação em diversos contextos de jogo: o impacto positivo das sessões de preparação no desempenho físico permanece significativo mesmo quando foram controlados diversos fatores contextuais conhecidos por influenciar o rendimento no futebol. Os resultados enfatizam a eficácia das sessões de preparação em múltiplos contextos de futebol profissional e enaltecem a sua relevância na mitigação da variabilidade natural que existe entre jogos.

 

Conclusão

Este estudo pioneiro demonstrou que as sessões de preparação no dia do jogo podem melhorar o desempenho físico dos jogadores em competição. Especificamente, observou-se que em jogos precedidos por uma sessão de preparação, os jogadores percorreram maiores distâncias totais e em corrida de intensidade moderada e alta, comparativamente com jogos não precedidos por este tipo de trabalho. Embora tenham sido observadas ligeiras melhorias nas acelerações e desacelerações de alta intensidade, estas não foram estatisticamente significativas. Além disso, não foi detetado nenhum efeito negativo no desempenho técnico. Em suma, os autores destacam que a aplicação de carga adicional na manhã do dia do jogo não compromete o desempenho competitivo subsequente.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Sports Sciences.

30/12/2023

Artigo do mês #48 – dezembro 2023 | Práticas contemporâneas de treinadores de futebol portugueses e brasileiros na conceção e aplicação de jogos reduzidos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Clemente, F. H., Afonso, J., Silva, R. M., Aquino, R., Vieira, L. P., Santos, F., Teoldo, I., Oliveira, R., Praça, G., & Sarmento, H.

País: Portugal

Data de publicação: 20-novembro-2023

Título: Contemporary practices of Portuguese and Brazilian soccer coaches in designing and applying small-sided games

Referência: Clemente, F. H., Afonso, J., Silva, R. M., Aquino, R., Vieira, L. P., Santos, F., Teoldo, I., Oliveira, R., Praça, G., & Sarmento, H. (2024). Contemporary practices of Portuguese and Brazilian soccer coaches in designing and applying small-sided games. Biology of Sport, 41(2), 185–199. https://doi.org/10.5114/biolsport.2024.132985

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 48 – dezembro de 2023.

 

Apresentação do problema

Os jogos reduzidos são exercícios que simplificam a complexidade do jogo formal e, por meio do recurso a constrangimento da tarefa, visam aprimorar comportamentos específicos dos jogadores (Davids et al., 2013). A popularidade destas atividades jogadas tem vindo a aumentar devido à sua capacidade para, por um lado, exacerbar os comportamentos desejados e, por outro lado, proporcionar esforços intensos (Clemente et al., 2021). Na perspetiva do treinador, as configurações destas tarefas podem ser manipuladas para fomentar a concretização de determinados objetivos, incluindo o número, a forma e a disposição das balizas, o tamanho e a forma do campo, limitações na coordenação intra e interpessoal (e.g., restrição do número de toques), constrangimentos temporais e diversas relações numéricas. Consequentemente, os jogos reduzidos oferecem uma integração abrangente das várias dimensões de desempenho, abrangendo aspetos tático-técnicos (Clemente et al., 2020; Clemente & Sarmento, 2020; Ometto et al., 2018), físico/fisiológicos (Clemente et al., 2021; Moran et al., 2019) e psicológicos/sociológicos (Arcos et al., 2015). 

Nas últimas duas décadas, os investigadores têm-se focado cada vez mais em examinar os efeitos da modificação dos constrangimentos neste tipo de exercícios, uma vez que os jogos reduzidos proporcionam um ambiente de treino enriquecedor que fornece múltiplas oportunidades de ação e que garante que os jogadores permaneçam envolvidos em dinâmicas específicas da modalidade (Dellal et al., 2012; Owen et al., 2012). Por exemplo, formatos de jogo mais reduzidos (i.e., com menos jogadores envolvidos) tipicamente suscitam cargas internas mais elevadas (Lacome et al., 2018) e aumentam a frequência de ações tático-técnicas individuais (Clemente & Sarmento., 2020; Silva et al., 2014). Ao invés, jogos com dimensões >100 m2/jogador aumentam as exigências de carga externa, como a distância percorrida a alta velocidade (Casamichana & Castellano, 2010), e a ocorrência de comportamentos coletivos, tais como a mobilidade e a exploração dos corredores laterais (Castelão et al., 2014). 

Apesar da extensa investigação e do estabelecimento dos jogos reduzidos na literatura científica, há uma escassez de estudos especificamente direcionados à análise (1) da frequência com que os treinadores desportivos incorporam estas tarefas práticas nos seus processos de treino e (2) dos fatores que influenciam a sua aplicação (Clemente et al., 2015). Parece ser fundamental transmitir perceções sobre as práticas reais de treino relacionados com os jogos reduzidos, respondendo à questão: como é que os treinadores têm integrado os jogos reduzidos na sua atividade diária? Previamente, Gonçalves et al. (2021) monitorizaram os tipos de exercícios empregues por um treinador profissional ao longo de 5 meses. Os autores mostraram que, em média, foram dedicados 19.8 ± 13.4 minutos das sessões de treino a jogos de dimensões reduzidas (de 1v1 a 5v5), e mais 19.2 ± 7.4 minutos a formatos de maiores dimensões (de 6v6 a 11v11). 

Em 2017, Alves e colaboradores realizaram um estudo qualitativo com 2 treinadores de futebol experientes acerca da implementação de jogos reduzidos no treino. Os resultados indicaram que os treinadores reconhecem a importância destas tarefas, devido ao seu potencial em combinar princípios táticos e componentes da condição física, o que concorre para um transfer positivo da performance para os jogos competitivos. Um outro estudo qualitativo explorou como os treinadores concebem os jogos reduzidos e articulam a respetiva elaboração com os seus objetivos em contextos reais de prática (Clemente et al., 2015). Este trabalho revelou que treinadores experientes foram mais efetivos a implementar constrangimentos da tarefa para obter o estímulo fisiológico desejado, com uma correlação forte (r = 0.827) entre a frequência cardíaca (FC) estimada pelo treinador e a FC registada pelos jogadores. Apesar destes estudos explanarem a utilização e a importância dos jogos reduzidos no processo de treino no futebol, é evidente que são necessárias mais pesquisas para alcançar uma compreensão mais abrangente dos vários fatores que influenciam a conceção e a aplicação destas atividades pelos treinadores, em particular em contextos desportivos com nuances (e.g., culturas, métodos e abordagens de treino) próprias, como sucede em diferentes países. 

Os casos de Portugal e Brasil são paradigmáticos no concerne com a utilização de jogos reduzidos (figura 2). Em Portugal, o desenvolvimento da Periodização Tática (Delgado-Bordonau & Mendez-Villanueva, 2012) e a emergência de figuras influentes, como José Mourinho, fomentou a adoção de exercícios ecológicos, incluindo os jogos reduzidos, nas práticas de treino. Por inerência, tem havido uma expansão concomitante de literatura relacionada com os jogos reduzidos. O Brasil seguiu de perto esta tendência, com os jogos reduzidos a adquirir popularidade como uma abordagem de treino fundamental, quer para jovens futebolistas, quer para seniores (Aquino et al., 2016; Greboggy & Silva, 2018). Dada a implementação dos jogos reduzidos em ambos os países, torna-se especialmente premente explorar e comparar as suas aplicações práticas no quotidiano de treino diário.

 

Figura 2. Exemplo de um jogo reduzido aplicado na aprendizagem do jogo em idades infantojuvenis, em Portugal (imagem não publicada pelos autores).

 

Os principais objetivos deste estudo consistiram em realizar um inquérito sobre a utilização dos jogos reduzidos no treino de futebol. A abordagem quantitativa envolveu a distribuição de questionários a treinadores em Portugal e no Brasil, com o intuito de proporcionar perceções valiosas, esclarecer práticas atuais e formular recomendações para aprimorar a eficácia da implementação destas tarefas no processo de treino. Além disso, procurou-se oferecer uma visão direta de como os treinadores estão a aplicar os jogos reduzidos, verificando se esse uso está alinhado com a literatura científica mais recente, a fim de identificar lacunas que possam contribuir para melhorar a formação contemporânea dos treinadores.

 

Métodos

Desenho do estudo: de natureza transversal, o trabalho visou examinar e descrever as práticas atuais de treinadores de futebol portugueses e brasileiros no que respeita à conceção e à implementação de jogos reduzidos no treino. O tamanho da amostra foi calculado a priori no software G*power (versão 3.1), atendendo aos seguintes parâmetros: dimensão de efeito pequena (0.3), valor de p de 0.05, potência de 0.95 e 2 graus de liberdade (duas nacionalidades). O tamanho da amostra recomendado foi de 172. Um grupo diversificado de treinadores, incluindo treinadores principais, treinadores-adjuntos e preparadores físicos, foi convidado a participar no inquérito e partilhar as suas práticas e perspetivas sobre a utilização de jogos reduzidos no treino de futebol. Antes de responder ao questionário, foi obtido o consentimento informado de todos os participantes, cuja participação foi totalmente voluntária. 

Participantes: foram recolhidas 187 respostas válidas, por parte de indivíduos de Portugal e do Brasil, sendo 82 homens portugueses e 105 homens brasileiros. Estes treinadores desempenhavam diversos papeis no seio da equipa técnica, com 63 a atuarem como treinadores principais, 38 como treinadores-adjuntos, 38 como preparadores físicos e 48 noutras funções, como analistas de jogo e fisiologistas. Além disso, os participantes treinavam escalões competitivos jovens (n = 102) e seniores (n = 59), embora alguns não estivessem à data a trabalhar num clube ou a desempenhar funções de treinador. 

Procedimentos: o inquérito online foi realizado através do Google Forms e esteve disponível para preenchimento entre 9 e 18 de julho de 2022. O recrutamento dos participantes ocorreu durante um webinar concretizado no dia 9 de julho de 2022. Aos interessados foram apresentados, de modo abrangente, os conceitos fundamentais e a importância dos jogos reduzidos no futebol. O desenvolvimento do inquérito sobre os jogos reduzidos envolveu os “quandos”, os “comos” e os “porquês” da sua utilização, sendo primariamente elaborado por 3 investigadores com base na literatura existente. De modo a assegurar a qualidade do instrumento, 3 académicos especialistas em jogos reduzidos foram convidados a rever o esboço, determinando uma série de melhorias. O inquérito foi, então, enviado a 4 treinadores de futebol, 2 com formação académica em Ciências do Desporto e 2 sem. Após incorporar os feedbacks destes, a versão final foi enviada aos especialistas iniciais para avaliação final. Após aprovação, o inquérito foi lançado online, com os participantes a receber explicações claras sobre o propósito do instrumento e as devidas garantias de anonimato. O questionário abordou aspetos demográficos e questões sobre a implementação dos jogos reduzidos, incluindo 18, 14, e 43 perguntas nos domínios “quando”, “como” e “porquê”, respetivamente. 

Recolha dos dados e procedimentos estatísticos: os dados recolhidos do inquérito foram exportados e compilados num ficheiro Excel. Para questões de resposta fixa, foi realizada uma análise de frequência, que permitiu uma avaliação quantitativa das escolhas e das preferências dos participantes dentro das categorias de resposta predefinidas. O teste do Qui-quadrado foi aplicado para investigar potenciais relações entre duas variáveis categóricas, como a nacionalidade e a questão em causa. O teste de Mann-Whitney U foi utilizado para escalas ordinais, também para detetar diferenças entre as nacionalidades. Os testes estatísticos foram realizados através do software SPSS (versão 28.0), com significância estatística definida em p ≤ 0.05.

 

Principais resultados

 

·     Perspetiva global

Independentemente do país, a maioria dos treinadores propõe jogos reduzidos duas a três vezes por semana, quer na pré-época, como no período competitivo. Para o grosso dos participantes, a duração dos jogos reduzidos varia entre os 16 e os 30 minutos, situando-os nas partes inicial (aquecimento) e fundamental. Os treinadores concebem jogos reduzidos para melhorar a aptidão aeróbia e as mudanças de direção e fazem-no menos frequentemente para desenvolver a performance em sprint. O treino técnico e tático é, para a grande maioria, o principal objetivo que decorre da aplicação de jogos reduzidos. Os treinadores preferem formatos mais pequenos (1v1 a 4v4) para estimular a aptidão aeróbia, as mudanças de direção e as habilidades técnicas. Ao invés, os formatos médios (5v5 a 8v8) são mais idealizados para desenvolver comportamentos táticos e ações de sprint.

 

·     “Quando?”

Os treinadores tendem a integrar frequentemente os jogos reduzidos nos seus planos de treino, embora não o façam em todas as sessões de treino. Houve associações significativas entre a nacionalidade e a frequência de jogos reduzidos na pré-época e no período competitivo. Na pré-época e no período competitivo, os treinadores brasileiros tendem a propor duas sessões de treino semanais com jogos reduzidos, enquanto os portugueses privilegiam 3 sessões práticas por semana. Na parte do retorno à calma, 33% dos brasileiros refere não utilizar jogos reduzidos, porém, 43% dos portugueses confessaram implementar abaixo de metade do número de sessões de treino definidas. As diferenças nas outras distribuições – duração das sessões de treino, o tempo despendido em jogos reduzidos e as frequências de jogos reduzidos no aquecimento e na parte fundamental – não foram significativas.

 

·     “Como”? (para melhorar a condição física)

As associações significativas ocorreram entre a nacionalidade e (1) o desenvolvimento do sprint, (2) de mudanças de direção, (3) o tempo despendido para o treino aeróbio e (4) a frequência de jogos reduzidos para aprimorar as ações de sprint. Em concreto, 56% dos treinadores brasileiros usam os jogos reduzidos como método de treino para treinar a velocidade máxima, mas 52% dos participantes portugueses referiram não o fazer. Também, 76% dos treinadores brasileiros utilizam jogos reduzidos para desenvolver as mudanças de direção, valor que baixa para os 66% no caso dos treinadores portugueses. Os treinadores brasileiros dedicam mais tempo de treino para desenvolver a aptidão aeróbia (21–30 min; 39%), comparativamente aos portugueses (11–20 min; 41%). Os treinadores brasileiros também mencionaram recorrer a mais sessões para potenciar a performance em sprint: 1–2 sessões (38% vs. 37% portugueses); 3–4 sessões (16% vs. 2% portugueses).

 

·     “Como”? (para melhorar habilidades técnicas e comportamentos táticos)

O estudo revelou associações significativas entre a nacionalidade e o uso de jogos reduzidos para desenvolver habilidades técnicas e comportamentos táticos. Contudo, as associações entre nacionalidade e (1) escolha do tipo de jogos reduzidos, (2) relações numéricas propostas, (3) o tempo alocado para os jogos reduzidos e (4) frequência semanal de jogos reduzidos apenas foram significativas para o treino técnico, o que não aconteceu para o aperfeiçoamento tático. Comparativamente aos treinadores portugueses, os técnicos brasileiros afirmaram utilizar mais os jogos reduzidos para o desenvolvimento técnico (86% vs. 71%) e tático (84% vs. 70%). Enquanto os treinadores portugueses preferem utilizar jogos de dimensões mais reduzidas (49%) para aprimorar a técnica, os brasileiros referem combinar mais do que um grupo de formatos (40%). Na dimensão técnica, os portugueses preferem situações de igualdade numérica (41%), mas os técnicos do Brasil optam mais por jogos com superioridade/inferioridade numéricas (48%), concedendo mais tempo aos jogos reduzidos (11–30 min vs. 11–20 min).

 

·     “Como”? (caracterização dos objetivos das tarefas)

Não houve associações significativas entre a nacionalidade e as dimensões do espaço para o treino fisiológico, acelerações/desacelerações e o desenvolvimento de habilidades técnicas. No entanto, houve associações significativas entre a nacionalidade e as dimensões do espaço para potenciar o sprint e as ações táticas. Para promover a velocidade de corrida e os comportamentos táticos, os técnicos portugueses propõem espaços amplos (> 1/8 do campo formal) mais frequentemente (85% vs. 71% e 93% vs. 76%, respetivamente). Para o desenvolvimento de habilidades técnicas, houve ainda uma associação significativa entre a nacionalidade e o objetivo dos jogos reduzidos, com os treinadores brasileiros a proporem mais situações de posse de bola (52%) e os portugueses a utilizar jogos com alvos, i.e., com direcionalidade (56%).

 

·     “Porquê”? (importância de desenvolver diferentes capacidades)

Os resultados mostraram associações significativas entre a nacionalidade e a importância dos jogos reduzidos para potenciar (1) a condição física de base (aeróbia), (2) mudanças de direção, (3) agilidade, (4) habilidades técnicas ofensivas, (5) habilidades técnicas defensivas, (6) comportamentos táticos ofensivos, (7) comportamentos táticos defensivos e (8) o modelo jogo. Não houve nenhuma associação entre a nacionalidade e a importância dos jogos reduzidos para estimular a força máxima. Enquanto os treinadores brasileiros consideram os jogos reduzidos muito importantes para desenvolver princípios táticos ofensivos e defensivos, a maioria dos treinadores portugueses considera-os apenas importantes. Analogamente, a maioria dos treinadores brasileiros vê os jogos reduzidos como muito importantes para melhorar a aptidão aeróbica e a agilidade, enquanto os portugueses não enfatizam tanto essa relevância.

 

Aplicações práticas

Os resultados e a discussão do estudo levaram-me a formular 5 sugestões práticas que julgo poderem ser úteis para melhorar o planeamento e a aplicação de jogos reduzidos no processo de treino no futebol, a saber:

 

1. Personalizar os planos de treino: para otimizar a eficácia dos jogos reduzidos nas sessões de treino, os constrangimentos da tarefa propostos devem atender às preferências e aos objetivos específicos da equipa técnica. Uma abordagem personalizada permitir direcionar o desenvolvimento tático, técnico, físico e psicossocial no sentido pretendido, tendo em consideração as necessidades individuais e coletivas do plantel. 

2. Ajustar a periodização do treino: ao equacionar variações na frequência e na duração dos jogos reduzidos ao longo da temporada, os treinadores podem ajustar estrategicamente a periodização, equilibrando a relação entre carga de treino e recuperação. Adaptar o planeamento com base na cultura, na filosofia e nas nuances metodológicas locais permite rentabilizar o desempenho dos jogadores. 

3. Promover a variedade nos formatos de jogo reduzido propostos: os treinadores devem incorporar diversos formatos de jogo reduzido no seu processo de treino para trabalhar as dimensões do rendimento de forma holística. Formatos diferentes de jogo permitem usualmente atingir objetivos específicos, do ponto de vista tático, técnico, físico e fisiológico. Os formatos mais reduzidos (1v1 a 4v4) são mais propícios para o desenvolvimento técnico, da aptidão aeróbia e da componente neuromuscular (i.e., acelerações, desacelerações e mudanças de direção). Já os formatos médios (5v5 a 8v8) ou grandes (9v9 a 11v11) aparentam ser mais efetivos para o aperfeiçoamento de comportamentos táticos e para estimular ações contextualizadas de corrida em velocidade (sprint). 

4. Potenciar a integração dos jogos reduzidos nas sessões de treino: a integração de jogos reduzidos nas sessões de treino deve ocupar até, aproximadamente, 40 minutos da sessão. Não é de todo descabido propor jogos reduzidos ao longo de todo o microciclo semanal, mas nunca descurando o binómio “esforço – recuperação”. Além disso, os jogos reduzidos podem ser implementados na parte inicial da sessão (vulgo aquecimento), pois fomentam respostas agudas nos indivíduos relacionadas com as exigências subsequentes da sessão ou do jogo. A parte final (retorno à calma) também pode conter situações jogadas, desde que concebidas de modo a fazer jus às particularidades desta fase da sessão (e.g., inclusão de jogadores neutros ou jokers, ou utilização de restrições espaciais, em períodos de esforço curtos). 

5. Facilitar a diversidade de movimentos e multiplicidade de oportunidades de ação: os treinadores devem explorar a diversidade de movimentos e multiplicidade de oportunidades de ação (affordances) por meio da manipulação das características estruturais da tarefa. Alterações simples do jogo em termos espaciais, numéricos, temporais, materiais ou regulamentares podem ter um impacto considerável nos esforços físicos produzidos e nas habilidades tático-técnicas executadas.

 

Conclusão

O inquérito realizado permitiu caracterizar a aplicação de jogos reduzidos por treinadores portugueses e brasileiros, procurando compreender os “quandos”, os “comos” e os “porquês” da utilização destas atividades de treino. Os treinadores preferem realizar jogos reduzidos duas a 3 vezes por semana, com uma duração média de 16 a 30 minutos por sessão. Os jogos são principalmente utilizados para estimular a aptidão aeróbica, mudanças de direção, habilidades técnicas e comportamentos táticos. Os formatos mais reduzidos (1v1 a 4v4) são mais selecionados para potenciar a aptidão aeróbia e as capacidades neuromusculares e técnicas, embora os treinadores ajustem os constrangimentos da tarefa conforme necessário. No geral, os treinadores consideram os jogos reduzidos altamente importantes para aprimorar a aptidão aeróbica, as habilidades técnicas e os comportamentos táticos. As evidências contribuem para uma compreensão mais profunda de como os treinadores incorporam os jogos reduzidos no processo de treino, fornecendo inúmeras perspetivas sobre como otimizar o planeamento e diversificar as práticas no contexto do futebol.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Biology of Sport.

27/11/2023

Artigo do mês #47 – novembro 2023 | Efeitos de diferentes durações de recuperação nas medidas de carga externa e interna em jogos reduzidos de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: de Dios-Álvarez, V., Padrón-Cabo, A., Lorenzo-Martínez, M., & Rey, E.

País: Espanha

Data de publicação: 11-outubro-2023

Título: Effects of different recovery duration on external and internal load measures during bouts of small-sided games

Referência: de Dios-Álvarez, V., Padrón-Cabo, A., Lorenzo-Martínez, M., & Rey, E. (2024). Effects of different recovery duration on external and internal load measures during bouts of small-sided games. Journal of Human Kinetics, 90, 1–8. Advance online publication. https://doi.org/10.5114/jhk/169520

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 47 – novembro de 2023.

 

Apresentação do problema

Os jogos reduzidos constituem uma forma de exercício de treino comum, que tem ganho popularidade entre equipas de futebol amadoras e profissionais (Hill-Haas et al., 2011). Estes jogos representam uma solução útil para melhorar a eficácia do treino (Clemente et al., 2019), uma vez que estimulam a tomada de decisão e aspetos fisiológicos, físicos e técnicos (Sarmento et al., 2018). Além disso, este tipo de tarefa permite analisar como os jogadores gerem as suas relações espaciotemporais com os colegas de equipa e os oponentes, aquando da emergência de padrões de jogo em diferentes níveis de rendimento (Travassos et al., 2013). 

A manipulação de variáveis como o número de jogadores (Aguiar & Botelho, 2013), a dimensão do campo (Casamichana & Castellano, 2010), a presença de guarda-redes (Hulka et al., 2016), a inclusão de “jokers” (Sanchez-Sanchez et al., 2017), o número de contactos permitidos por jogador (Dellal et al., 2011), o resultado do jogo (Lorenzo-Martínez et al., 2020) e a duração da recuperação entre repetições (Köklü et al., 2015) pode influenciar as respostas fisiológicas (i.e., frequência cardíaca, FC; consumo de oxigénio; níveis de lactato sanguíneo; perceção subjetiva de esforço, PSE) durante os jogos reduzidos (Branquinho et al., 2021a). Por exemplo, a redução da dimensão do campo, ou o aumento do número de jogadores, podem conduzir a uma maior intensidade da tarefa e aumentar a exigência fisiológicas sobre os jogadores (Aguiar & Botelho, 2013; Casamichana & Castellano, 2010). 

Mais concretamente, a manipulação do tempo de recuperação também pode afetar as respostas fisiológicas dos jogadores, com períodos de recuperação mais curtos a induzir um aumento da fadiga e a diminuição do desempenho (Branquinho et al., 2020a). Aliás, a modificação deste fator pode ser globalmente caracterizada como contínua, onde o exercício é realizado sem pausas ou intervalos, ou fracionada, onde o exercício é repetido com períodos de descanso entre cada jogo (Branquinho et al., 2020b). No entanto, apesar da importância da duração da recuperação entre jogos reduzidos, pouca atenção tem sido dada ao impacto de diferentes períodos de recuperação nas cargas externa e interna ocasionadas nos futebolistas no decurso de jogos reduzidos (Branquinho et al., 2021b; Köklü et al., 2015). 

Branquinho et al. (2021b) avaliaram o impacto de diferentes tempos de recuperação durante jogos reduzidos 5v5 com guarda-redes (Gr). Os autores verificaram que tempos de recuperação curtos (30s) resultaram numa carga externa significativamente mais elevada em jogadores semiprofissionais, comparativamente a tempos de recuperação mais longos. Foram observados resultados semelhantes para a carga interna, com valores mais elevados em jogos reduzidos com tempos de recuperação mais curtos entre repetições. No entanto, McLean et al. (2016) não encontraram diferenças nas medidas de carga externa entre tempos de recuperação de 30s e 120s em futebolistas profissionais. Estes autores mostraram, sim, diferenças significativas na FC, com valores mais elevados nos intervalos de 30s, em relação aos de 120s. Estas evidências sugerem que períodos curtos de recuperação podem resultar numa carga interna mais pronunciada. 

Até à data, os autores sustentam que os efeitos da duração da recuperação entre jogos reduzidos com Gr apenas foram investigados numa ocasião (Branquinho et al., 2021b). Em virtude desta escassez de pesquisas, é necessária mais produção científica para determinar a duração de recuperação ideal no desempenho subsequente em jogos reduzidos. Assim, o objetivo do estudo passou por analisar o impacto de diferentes períodos de recuperação entre repetições de jogos reduzidos 4v4 com Gr em variáveis de carga externa e interna (Branquinho et al., 2021b; McLean et al., 2016).

 

Métodos

Participantes: 16 jogadores semiprofissionais do género masculino (idade: 24.8 ± 6.8 anos; estatura: 179.1 ± 6.1 cm; massa corporal: 74.6 ± 7.5 kg), de duas equipas militantes na 3.ª divisão espanhola. No global, os participantes tinham 19.4 ± 4.0 anos de treino sistemático no futebol e cumpriam um regime de treino com 4 sessões semanais, de 90 minutos e 1 jogo oficial ao fim de semana. 

Procedimentos: os jogadores participaram em 3 sessões de treino de jogos reduzidos com diferentes períodos de recuperação entre eles: sessão 1 (recuperação longa, 4-min), sessão 2 (recuperação média, 2-min) e sessão 3 (recuperação curta, 1-min). Cada sessão consistiu em jogos reduzidos Gr+4v4+Gr, com 4 repetições de 4 minutos cada, após um aquecimento estandardizado de 20-min. O protocolo experimental foi realizado no decurso do período competitivo, com mais de 72 horas antes ou depois do último jogo e com um intervalo mínimo de 48 horas entre as sessões. Todas as sessões decorreram às 21:00 em relvado artificial, num campo de 30x25m (94 m2/jogador, excluindo os Gr; figura 2) e sem chuva. Os jogadores foram distribuídos em equipas equilibradas, compostas por defesas, médios e avançados, não se alterando ao longo da experiência. Os participantes estavam a par das regras dos jogos, que incluíam o recomeço a partir do Gr e a ausência da regra do fora de jogo. Os jogos reduzidos foram realizados com encorajamento do treinador e do preparador físico.

 

Figura 2. Formato de jogo reduzido proposto no estudo: Gr+4v4+Gr (30x25m) (imagem não publicada pelos autores).

 

Recolha dos dados: os dados inerentes à carga externa dos jogadores durante os jogos reduzidos foram recolhidos mediante um dispositivo portátil de GPS de 10 Hz (Playertek, Catapult Innovations, Melbourne, Austrália). As variáveis de corrida obtidas do GPS foram a distância total percorrida (m) e a distância percorrida (m) em 4 níveis diferentes de velocidade (Lorenzo-Martínez et al., 2020): corrida de baixa intensidade (0–6.9 km/h), corrida de média intensidade (7.0–12.9 km/h), corrida de alta intensidade (13.0–17.9 km/h) e sprint (≥18.0 km/h). Foram ainda obtidos o número total de acelerações e desacelerações (Akenhead et al., 2013) e outras medidas globais de carga, como o power score (w/kg; baseado nos níveis de velocidade alcançados e nas taxas de aceleração ao longo da sessão), a carga individual (baseada na taxa instantânea de mudança das medidas triaxiais do acelerómetro; Bredt et al., 2020), rácio esforço:repouso (representa a percentagem do tempo que um jogador corre acima de 5.4 km/h) e a potência metabólica elevada (traduz o número de esforços que excedem os 20 w/kg). A carga interna dos jogadores foi quantificada através da escala de Foster de 0 a 10, de forma a registar o esforço percebido imediatamente após cada repetição de jogo reduzido (Foster et al., 2001). Cada jogador avaliou o seu esforço individualmente. Todos os participantes estavam familiarizados com a escala de PSE, pois já a haviam utilizado em treino. 

Análise estatística: todas as análises estatísticas foram realizadas através do software estatístico R, versão 4.2.1 (R Core Team, 2020).  Os resultados foram apresentados como médias e desvios-padrão. Os efeitos dos diferentes tempos de recuperação entre jogos reduzidos nas variáveis de carga externa foram comparados através de um modelo linear misto, utilizando o pacote R “lme4” (Bates et al., 2015). A identidade do jogador foi modelada como efeito aleatório. O quadrado eta parcial foi calculado como uma medida de dimensão do efeito, de acordo com os seguintes valores de corte: pequeno (≥ 0.01), médio (≥ 0.059) e grande (≥ 0.138) (Cohen, 1988). Além disso, após a verificação das assunções de homogeneidade e normalidade, foi realizada uma comparação de pares através do teste de Bonferroni. Para comparações de pares significativas, foram calculadas as dimensões de efeito, utilizando os critérios de Cohen (1988): trivial (d < 0.2), pequeno (0.2 ≤ d < 0.5), médio (0.5 ≤ d < 0.8) e grande (d > 0.8). A homogeneidade das variâncias foi examinada usando o teste de Levene. Para todas as análises, o nível de significância foi estabelecido em p < 0.05.

 

Principais resultados

A tabela 1 exibe a estatística descritiva das variáveis de carga externa e interna consideradas no estudo, enfatizando, também, as diferenças significativas entre os jogos reduzidos com diferentes períodos de recuperação. 

 

Tabela 1. Diferenças nas variáveis de carga externa e de carga interna dos jogadores, em função da duração dos períodos de recuperação entre os jogos reduzidos (média ± desvio-padrão) (adaptado de de Dios-Álvarez et al., 2023).

Legenda: JR 1-min: jogos reduzidos com períodos de recuperação de 1 minuto; JR 2-min: jogos reduzidos com períodos de recuperação de 2 minutos; JR 4-min: jogos reduzidos com períodos de recuperação de 4 minutos. ^ Diferença significativa entre JR 1-min e JR 2-min. # Diferença significativa entre JR 1-min e JR 4-min.

 

·     Carga externa

Os resultados mostraram um decréscimo significativo do número total de acelerações nos jogos reduzidos com 1-min de pausa, comparativamente aos jogos reduzidos com 2-min de pausa (dimensão de efeito média) e com 4-min de pausa (dimensão de efeito grande). De modo idêntico, também houve um decréscimo significativo do número total de desacelerações nos jogos reduzidos com períodos de recuperação mais curtos (1-min), em relação aos períodos de recuperação de 2-min (dimensão de efeito média) e de 4-min (dimensão de efeito grande). Contudo, entre os diversos períodos de recuperação, não foram identificadas diferenças significativas para a distância total percorrida, para as distâncias percorridas em diferentes níveis de intensidade, para as medidas de potência metabólica e para o rácio esforço-repouso. 

No caso dos jogos reduzidos com 1-min de recuperação, os valores médios foram ligeiramente mais elevados nas distâncias percorridas a andar e em alta intensidade. Nas situações jogadas com períodos de recuperação de 2-min, as médias foram ligeiramente mais elevadas nas seguintes variáveis: distância total, distâncias percorridas em intensidades baixa e moderada, carga individual e rácio esforço-repouso. A velocidade máxima atingida e o power score foram, no cômputo geral, similares.

 

·     Carga interna

Os jogos reduzidos com períodos de recuperação de 2-min demonstraram valores médios significativamente mais elevados que os jogos com 1-min de recuperação (dimensão de efeito grande).

 

Aplicações práticas

Os resultados obtidos permitiram formular 4 sugestões práticas passíveis de serem implementadas por treinadores de futebol em contexto de treino:

 

1. Jogos reduzidos para treinar em regime de força específica: indiretamente, os resultados comprovam que jogos reduzidos com um número de jogadores (≤ 5 elementos) e áreas de jogo individuais mais reduzidos (< 100 m2/jogador) são indicados para trabalhar em regime de força específica, já que exigem, predominantemente, mais esforços explosivos.

 

2. Intervalo ótimo de recuperação para ações explosivas: os treinadores devem propor períodos de recuperação mais longos (i.e., em torno dos 4-min) entre repetições de jogos reduzidos para aumentar a capacidade dos jogadores em executar ações explosivas de alta intensidade, como acelerações e desacelerações. Períodos mais longos favorecem a ressíntese de fosfocreatina, um fator crucial para a produção de energia em atividades intermitentes e, especialmente, para ações de alta intensidade.

 

3. Intervalos curtos de recuperação em jogos reduzidos: a redução do período de recuperação para intervalos curtos (1-min) tem um efeito negativo na performance física. Em termos gerais, períodos de pausa muito curtos resultam em menores distâncias percorridas em intensidades moderadas e numa performance neuromuscular menos conseguida.

 

4. Tomar em consideração os objetivos específicos para a sessão de treino: quando a performance física objetivada nos jogos reduzidos implica mais atividades curtas de alta intensidade, os treinadores devem optar por períodos de recuperação mais longos (3 ou 4-min); contudo, quando a intenção passa por alcançar distâncias totais e de alta intensidade mais elevadas, um período de recuperação mais curto (2-min) parece ser apropriado. A escolha da duração da recuperação deve estar alinhada com os objetivos específicos da sessão de treino.

 

Conclusão

Este estudo destaca a importância da gestão do tempo de recuperação durante jogos reduzidos para melhorar as cargas externa e interna de jogadores de futebol. Os resultados indicam que futebolistas semiprofissionais tendem a executar mais acelerações e desacelerações quando os períodos de recuperação entre jogos reduzidos são mais longos (4-min). Para além disso, e quiçá paradoxalmente, a redução do tempo de recuperação entre repetições induziu valores mais baixos no esforço percebido pelos jogadores, em particular nas pausas de 1-min.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Human Kinetics.