22/03/2016

A «verticalidade» de Messi na origem da perturbação da organização defensiva adversária

Lionel Messi dispensa apresentações. No confronto mais recente com o Arsenal, nos oitavos-de-final da UEFA Champions League 2015/2016, o craque argentino voltou a demonstrar porque é que as mudanças de ritmo no jogo de futebol são essenciais para quebrar a simetria entre equipas em processos opostos: ofensivo e defensivo. Além disso, as mudanças de ritmo ocorrem em espaços propícios para perturbar a organização defensiva adversária e criar situações iminentes de golo. Chamo a atenção para os movimentos verticais (em profundidade) de Messi, tendo sempre a preocupação de ter, no mínimo, um companheiro com quem pode realizar a combinação tática direta (figura 1).

Figura 1. Os movimentos em profundidade (verticais) de Messi.

Messi é inteligente a procurar os espaços que explora para provocar a perturbação (corredor central), é perspicaz na forma como temporiza para criar pontos de apoio laterais ou verticais e, posteriormente, objetivo na mudança de ritmo (aceleração para a baliza; a «verticalidade») que realiza com a plena intenção de concretizar ou contribuir para o golo.


Como já referi anteriormente, é um enorme prazer poder desfrutar do futebol num tempo em que Messi vive, joga e faz jogar.

24/02/2016

Journal of Sports Sciences: Science and Medicine in Football (Vol. 34/2016) | Efeitos do modo de concretização de golo e do escalão etário no desempenho defensivo de equipas jovens em jogos reduzidos de futebol

Nos agora saudosos tempos de faculdade tive, por diversas vezes, de me socorrer de artigos científicos internacionais e, na área das Ciências do Desporto, o Journal of Sports Sciences sempre foi uma referência, quase que obrigatória, para a maioria dos estudantes. Durante a licenciatura, por exemplo, de vez em quando aparecia uma cadeira que exigia pesquisas mais elaboradas e leituras mais demoradas e nem sempre cativantes. Alguns desses trabalhos, do tipo de revisão bibliográfica, aborreciam-me à data e o nome Journal of Sports Sciences era uma constante raramente bem apreciada. A esta distância consigo perceber que o grau de imaturidade académica ainda era elevado.

Figura 1. Capa do Journal of Sports Sciences.

Mais tarde, ao entrar no mercado de trabalho, começaram a surgir algumas questões práticas que queria poder responder, mas não sabia, ou tinha as minhas incertezas. Aquelas perguntas típicas dos 4/5 anos, contudo, aplicadas à vida adulta profissional: «porquê?», «onde?», «quando?» e «como?». Fui à descoberta de respostas no mestrado e a necessidade de investigar, saber mais, estar atualizado, tornou-se insaciável. Perguntas que pediam respostas e respostas que geraram novas questões sobre aquilo que mais gosto no desporto: o treino de futebol.

Em meados de 2014, as questões que traduziam as nossas dúvidas eram: (1) Se modificarmos o número e as dimensões dos alvos/balizas em jogos reduzidos, que implicações tem no desempenho defensivo de jovens praticantes de futebol; (2) Será que a manipulação dos alvos nos jogos reduzidos afeta do mesmo modo o desempenho de jovens praticantes com idades e níveis de experiência distintos? No final dessa época – 2013/2014 – fomos para o terreno recolher imagens com miúdos Sub-13 (Infantis) e Sub-15 (Iniciados). A partir de então, em conjunto com os professores Ricardo Duarte, Anna Volossovitch e António Paulo Ferreira (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa), não mais paramos até hoje: data de publicação do artigo «Scoring mode and age-related effects on youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games», no suplemento Science and Medicine in Football do famigerado Journal of Sports Sciences. Aqui vos deixo alguns detalhes sobre o artigo:

Figura 2. Codificação da performance defensiva através do software Match Vision Studio Premium.

Abstract
This study aimed to examine the scoring mode (line goal, double goal or central goal) and age-related effects on the defensive performance of youth soccer players during 4v4 small-sided games (SSGs). Altogether, 16 male players from 2 age groups (U13, n = 8, mean age: 12.61 ± 0.65 years; U15, n = 8, 14.86 ± 0.47 years) were selected as participants. In six independent sessions, participants performed the three SSGs each during 10-min periods. Teams’ defensive performance was analysed at every instant ball possession was regained through the variables: ball-recovery type, ball-recovery sector, configuration of play and defence state. Multinomial logistic regression analysis used in this study revealed the following significant main effects of scoring mode and age: (1) line goal (vs. central goal) increased the odds of regaining possession through tackle and in the defensive midfield sector, and decreased the odds of successful interceptions; (2) double goal (vs. central goal) decreased the odds of regaining possession through turnover won and with elongated playing shapes; (3) the probability of regaining possession through interception significantly decreased with age. Moreover, as youth players move forward in age groups, teams tend to structurally evolve from elongated playing shapes to flattened shapes and, at a behavioural level, from defending in depth to more risky flattened configurations. Overall, by manipulating the scoring mode in SSGs, coaches can promote functional and coadaptive behaviours between teams not only in terms of configurations of play, but also on the pitch locations that teams explore to regain possession.

Keywords: task constraints, performance analysis, configurations of play, collective behaviours, defensive behaviours.

Reference
Almeida, C. H., Duarte, R., Volossovitch, A., & Ferreira, A. P. (2016). Scoring mode and age-related effects of youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games. Journal of Sports Sciences. doi: 10.1080/02640414.2016.1150602 (link)

Pelo enorme trabalho de logística associado ao projeto, pelas frustrações e problemas que tivemos de superar, tanto nas sessões experimentais como nas submissões iniciais que não chegaram a bom porto, e pela fantástica cooperação e solidariedade existente entre todos, expresso os meus sinceros agradecimentos às inúmeras pessoas (jogadores, assistentes, colaboradores e dirigentes) e entidades envolvidas (Juventude Desportiva Monchiquense e Faculdade de Motricidade Humana) neste trabalho. Em especial, uma palavra de apreço para os professores (e coautores) Ricardo, Anna e António Paulo que, apesar de terem as suas agendas mais que preenchidas, nunca colocaram de parte a colaboração no estudo e, de forma abnegada, contribuíram com sugestões absolutamente decisivas para o produto final. É um orgulho poder partilhar esta ocasião convosco.

Espero que os leitores gostem. Para aqueles que têm um papel ativo na área do treino desportivo, em particular nos jogos desportivos coletivos, torço para que estas conclusões sejam úteis e, sobretudo, que estimulem a busca por novas respostas a outras tantas novas questões.

10/02/2016

A sombra do que fomos (2009)


«Luis Sepúlveda regressa aos romances com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores.»

O enredo de três sexagenários que esperam impacientes a chegada de um quarto homem que, na realidade, nunca chegará. Três antigos militantes de esquerda condenados ao exílio por diferenças políticas, mas que, ao contrário de outros, conseguiram sobreviver e, décadas depois, regressar ao seu próprio país.

Figura. Capa de «A sombra do que fomos» de Luis Sepúlveda.

A diferença que faz parte da condição humana, mas que essa condição não respeita e com a qual raramente convive. Censura, critica e absolve. A diferença: o nosso garante enquanto espécie. E a dor, o declínio e a compaixão retratados com mestria, como é apanágio de Luis Sepúlveda.

A foice e o martelo numa chávena de café. Uma sombra.

25/01/2016

Uma tarde de domingo na Academia Sporting

Vinte e quatro de janeiro de 2016. Podia ser um domingo qualquer, mas era dia de eleições presidenciais e visita à Academia do Sporting CP, em Alcochete. Não foi uma estreia; há cerca de 11 anos foi-nos apresentada a academia numa reunião para estágio no clube que, para mim, nunca chegou a acontecer. A vida ditou outro rumo e o Atlético Clube de Portugal apadrinhou a minha estreia como treinador no futebol de formação.

Antes da visita à Academia Sporting com os miúdos do Portimonense SC (2003 e 2005), o dia começou com o cumprimento de um dever cívico: votar nas eleições presidenciais. Se não fui o primeiro a votar no concelho de Monchique, fui certamente um dos primeiros. À porta do quartel dos bombeiros, o casal responsável pelas sondagens à boca da urna ainda tomava o seu pequeno-almoço. Saímos de Portimão por volta das 9h, almoçámos em Grândola e entrámos na Academia às 14h15, com uma forte e animada falange de apoio; os familiares dos miúdos mobilizaram-se massivamente. Em pouco menos de meia hora, os rapazes vestiram-se, ouviram as indicações estratégico-táticas e a palavra de ordem: honra. Honrar o convite que nos foi endereçado, honrar o Portimonense e, sobretudo, honrar o trabalho efetuado desde o início da época. Sermos iguais a nós próprios e divertirmo-nos com responsabilidade. Assim foi.

Imagem. A nossa chegada à Academia Sporting.

O encontro consistiu num triangular de Futebol 7 com o Sporting CP (2004) e o GD Teixosense (2003). Duas partes de 20 minutos por jogo e um plantel de 16 jovens para gerir. Dois jogos consecutivos, praticamente sem paragens. A informalidade do evento – sem árbitros e com os próprios treinadores a gerir o tempo de jogo – tornou o encontro ainda mais sui generis. O clima de treino imbuído num regime de competição, com uma elevada dose de fair-play entre as três equipas participantes. Se no primeiro jogo vencemos a equipa de Teixoso por números expressivos, o desafio contra a rapaziada da casa foi mesmo isso: um (enorme) desafio. O jogo foi muito bem disputado pelas equipas e a palavra «problema» apareceu regularmente diante dos nossos miúdos. Para «problema» tem de surgir «solução» ou «soluções» e, no fundo, é deste modo que se evolui no futebol, ou em outra qualquer área de atividade. Ao contrário das Presidenciais 2016, o resultado final (1-1) deu origem a uma segunda volta: as grandes penalidades. Neste particular, o Sporting revelou-se mais competente e venceu-nos por 2-0.

Imagem. As equipas do Portimonense SC (2003 e 2005) na Academia Sporting.
(fonte: Pedro Simões)

Acima de tudo, fica o valor formativo da experiência e, desde logo, saliento a forma como fomos bem recebidos pelo Sporting CP. Partilhar os campos de treino com jogadores da academia, de diversas idades, que se encontravam a praticar informalmente a modalidade; utilizar balneários que, muito provavelmente, acolheram craques como Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Nani, João Mário, entre outros, é uma oportunidade que os jovens devem mais tarde poder recordar com alegria e saudosismo. E que o sonho do futebol continue a ser, cuidadosamente, alimentado com estas ações, pois se agora assim não for, não o será seguramente quando tiverem 30 ou 40 anos.

Até sempre, Alcochete.

26/12/2015

O intervalo nos jogos desportivos coletivos: Estratégias para maximizar a performance na segunda parte

«Como maximizar a performance dos jogadores nos jogos desportivos coletivos (JDC)?»

Esta é a pergunta que todos os treinadores devem fazer continuamente ao longo das suas carreiras. As práticas mudam, os métodos e as estratégias também e compete ao treinador ir estando a par das últimas tendências e da investigação que é realizada na área das Ciências do Desporto. Se há práticas que há décadas se encontram inalteráveis são as que ocorrem durante os intervalos na maioria dos JDC (andebol, futebol, râguebi, hóquei em campo, hóquei em patins, etc.). Os jogadores recolhem aos balneários, ingerem alguns hidratos de carbono e água/bebidas isotónicas, eventualmente recebem alguns cuidados médicos e, grosso modo, ouvem as indicações estratégico-táticas e as dicas motivacionais dos treinadores.

Em 2003, quando fui voluntário no World Congress on Science and Football, na Faculdade de Motricidade Humana (Lisboa), tive a feliz oportunidade de assistir a uma apresentação do investigador das Ilhas Faroé Magni Mohr, que visava a importância de reaquecer no intervalo de um jogo de futebol. Nunca, como praticante, me tinham mandado reaquecer antes de entrarmos para a segunda parte. Recentemente, já em 2015, num artigo publicado na conceituada revista Sports Medicine, Mark Russell e colaboradores fizeram uma síntese das evidências existentes sobre o tema e propuseram algumas estratégias a implementar, no intuito de manter ou maximizar o desempenho dos jogadores nas segundas partes.

O racional teórico deste artigo de revisão reporta decréscimos em diversos aspetos da performance dos jogadores e das equipas nas etapas iniciais da segunda parte. Por exemplo, 20% dos futebolistas têm o seu período menos intenso de jogo nos 15 minutos subsequentes ao intervalo (Mohr et al., 2005). Para além disso, foi observado um aumento significativo do risco de lesão nos primeiros 20 minutos da segunda parte. Segundo os investigadores, os efeitos nocivos do intervalo no desempenho inicial dos jogadores na segunda parte devem-se a algumas alterações fisiológicas, decorrentes da natureza passiva das práticas propostas pelos treinadores. Assim, tende a verificar-se decréscimos nas temperaturas muscular e do core, alterações no equilíbrio ácido-base e na resposta glicémica.

De acordo com Russell et al. (2015), o intervalo concede uma oportunidade adicional para os treinadores otimizarem a performance da equipa na segunda parte. Contudo, para que isso suceda, não se pode restringir o tempo disponível a instruções estratégico-táticas. Tomemos em consideração o modelo proposto pelos autores (figura 1).

Figura 1. Modelo teórico de estratégias sugeridas para um intervalo de 15 minutos
(Russell et al., 2015; clique para ampliar).


Este modelo compreende um período de 2 minutos para regressar ao balneário/cabine da equipa. Os jogadores devem tentar manter a temperatura corporal e, para isso, as estratégias passivas incluem vestir casacos térmicos, colocar um cobertor sobre as pernas ou, se for possível, aclimatizar o balneário para atenuar a perda de calor corporal. Três minutos, no máximo, constituem o tempo do jogador, que pode incluir alguns cuidados médicos. Em seguida, o treinador tem 2 minutos para instruções estratégico-táticas à equipa e que pode envolver análise de vídeo. Outros 2 minutos podem ser utilizados para conceder feedbacks individuais aos jogadores. Atenção, porque a utilização de vídeos pode induzir respostas hormonais desejadas ou indesejadas. Por exemplo, mostrar a execução correta de ações do jogador/equipa estimula o aumento da concentração da testosterona; no entanto, a visualização de jogadas/ações bem sucedidas dos jogadores adversários incrementa a resposta de stress.

A 6 minutos do reinício da partida, os jogadores devem preparar o seu equipamento e consumir uma pastilha de cafeína. A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central e, quando tomada ao intervalo, pode ser eficaz para o desempenho desportivo subsequente. Ryan et al. (2013) observaram melhorias na performance de cycling, quando uma pastilha com 300 mg de cafeína foi ministrada 5 minutos antes do exercício. Posteriormente, os autores propõem 3 minutos de reaquecimento (estratégia ativa para manutenção da temperatura corporal). O reaquecimento pode incluir exercícios de intensidade moderada (agilidade, mobilidade, jogos reduzidos/condicionados) e breves exercícios de alta intensidade para modificar favoravelmente o pole hormonal antes da segunda parte. Para terminar o reaquecimento, Russell et al. (2015) sugerem a utilização de Post-Activation Potentiation, isto é, alguns exercícios pliométricos para preparar a atividade contrátil dos músculos mais solicitados no decurso do jogo. Finalmente, o intervalo deve incorporar a ingestão de hidratos de carbono. Embora os efeitos de hidratos de carbono de diferentes índices glicémicos ainda necessitem de ser investigados, é plausível que hidratos de carbono de baixo índice glicémico prolonguem as concentrações de glucose sanguínea que, normalmente, sofrem um declínio ao longo das segundas partes das partidas.

Portanto, o intervalo deve ser encarado como uma oportunidade para aplicar estratégias específicas que visem manter ou maximizar a performance no decurso da segunda parte. Conforme foi referido pelos próprios autores, o modelo proposto procura complementar, e não substituir, os protocolos já existentes na maioria dos JDC. Ainda assim, pode ser adaptado em função da idade dos praticantes, do nível de rendimento desportivo e das condições de trabalho existentes num determinado clube.

Continuação de boas festas para todos!

Referências
Mohr, M., Krustrup, P., & Bangsbo, J. (2005). Fatigue in soccer: A brief review. Journal of Sports Sciences, 23(6), 593-599.
Russell, M., West, D. J., Harper, L. D., Cook, C. J., & Kilduff, L. P. (2015). Half-time strategies to enhance second-half performance in team-sports players: A review and recommendations. Sports Medicine, 45(3), 353-364.
Ryan, E. J., Kim, C-H., Fickes, E. J., Williamson, M., Mullher, M. D., Barkley, J. E., Gunstad, J., & Glickman, E. L. (2013). Caffeine gum and cycling performance: A timing study. Journal of Strength and Conditioning Research, 27(1), 259-264.