22/02/2021

“Mind the fundamentals”: As vantagens do princípio cultural “amplitude/espaço”

A complexidade inerente ao jogo de futebol faz com que um “frame”, uma singela imagem, tenha o significado de um punhado de areia num vasto deserto. Há, no entanto, quem o contradiga, na medida em que uma imagem vale por mil palavras. Uma imagem pode, até certo ponto, captar alguns fatores que determinam uma dada realidade. 

Numa época marcada por circunstâncias sem precedentes, face à pandemia mundial da COVID-19, o Sport Lisboa e Benfica decidiu investir como nunca para recuperar a hegemonia interna no que ao futebol profissional diz respeito. Contudo, os resultados desportivos estão longe de ser fazer jus aos milhões despendidos. Enquanto uns criticam a permeabilidade defensiva da equipa, outros apontam o dedo à ineficácia do setor intermédio na etapa de criação de situações de finalização e outros, ainda, referem que os avançados não têm qualidade suficiente. Se os jogadores estão a ser ostracizados pela parca produtividade no jogo, nem a equipa técnica, nem a estrutura do clube, podem sair ilibadas. 

Perante o nulo registado ontem, em Faro, Jorge Jesus referiu que “falta um homem que meta a bola lá dentro”. Sim, se é verdade que poderiam ter vencido o jogo, parece ser uma análise, no mínimo, redutora, até porque o problema não é de agora (e ainda não foi corrigido). Tomemos em consideração a figura 1.

 

Figura 1. SL Benfica em processo ofensivo, com 8 jogadores concentrados num espaço de ≈ 36x40m, em inferioridade numérica, no decurso do minuto 80 (fonte: vsports.pt).

 

Segundo um dos princípios culturais do jogo – “amplitude/espaço” –, quando a equipa recupera a posse de bola deve aumentar o seu espaço efetivo de jogo (em largura e profundidade). Genericamente, quanto maior for a densidade de jogadores adversários, mais estreitos serão os caminhos para chegar à baliza e tentar a finalização, ou seja, mais difícil se torna criar oportunidades claras de golo. Não é precisamente isto que tem acontecido? 

Por outro lado, quando uma equipa cumpre com propriedade este princípio tático básico, tende a expandir as distâncias entre os jogadores adversários, condicionando as ações de marcação dos oponentes e os eventuais comportamentos defensivos de suporte – as coberturas defensivas. Com mais tempo e espaço para executar, qualquer equipa dota as ações (individuais e coletivas) dos seus elementos de maior qualidade e eficácia. Com o princípio espaço, também se garante a ocupação de zonas menos congestionadas de adversários, nas quais a pressão defensiva é menor e a progressão mais viável. Quer a equipa opte por atrair fora (corredor lateral) para penetrar por dentro (corredor central), ou vice-versa, as vantagens ofensivas suplantam as desvantagens defensivas que podem decorrer de maior exposição e projeção no ataque. E uma equipa que quer estar no topo tem de saber lidar com o risco, sem descurar as bases sobre as quais o sucesso assenta. 

Mister Jorge Jesus, como diria a malta norte-americana perita no basquetebol: “please, mind the fundamentals”.

20/02/2021

Artigo do mês #14 – fevereiro 2021 | O esquema tático mais subvalorizado no futebol: Análise dos lançamentos laterais na Premier League 2018/2019

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Stone, J., Smith, A., & Barry, A.

País: Inglaterra

Data de publicação: 10-fevereiro-2021

Título: The undervalued set piece: Analysis of soccer throw-ins during the English Premier League 2018-2019

Revista: International Journal of Sports Science & Coaching

Referência: Stone, J., Smith, A., & Barry, A. (2021). The undervalued set piece: Analysis of soccer throw-ins during the English Premier League 2018-2019. International Journal of Sports Science & Coachinghttps://doi.org/10.1177/1747954121991447

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 14 – fevereiro de 2021.

 

Apresentação do problema

Uma vez que os esquemas táticos (i.e., situações de bola parada) estão associados a cerca de 30 a 40% dos golos marcados no futebol de elite, estudos recentes têm vindo a analisar pontapés de canto (Strafford et al., 2019), pontapés livres (Casal et al., 2014; Link et al., 2016) e penáltis (Almeida et al., 2016). As evidências sugerem que as bolas paradas são eventos críticos para o êxito da performance ofensiva e, por isso, constituem uma área chave de intervenção no treino de equipas profissionais. Contudo, um tipo de esquema tático que tem sido pouco investigado é o lançamento lateral e, portanto, não se sabe ao certo se os treinadores devem dedicar tempo a trabalhar estas situações fixas específicas. 

Segundo a lei 11 do jogo de futebol, um lançamento lateral é atribuído a uma equipa quando um dos adversários toca a bola e esta ultrapassa completamente a linha lateral, junto ao solo ou pelo ar. Um estudo recente de KcKinley (2018) mostrou que, na Major League Soccer (EUA), houve uma média de 44 lançamentos laterais por jogo, entre 2015 e 2019, correspondendo a quase 5% da totalidade dos passes efetuados. Este facto demonstra que estas bolas paradas ocorrem mais frequentemente num jogo que os pontapés de canto, os pontapés livres ou os pontapés de baliza. Neste sentido, a importância que podem ter na manutenção da posse de bola de uma equipa e no resultado dos jogos não deve ser menosprezada. 

Do ponto de vista científico, o lançamento lateral tem sido essencialmente avaliado ao nível da biomecânica e, designadamente, na identificação dos fatores inerentes à projeção da bola a longa distância (no caso, para dentro da área de penálti; figura 2). No entanto, a maioria dos lançamentos laterais ocorre em zonas defensivas, com o propósito de recomeçar o processo ofensivo. Consoante a zona do campo, assim se alteram os problemas contextuais que uma equipa tem de lidar para obter sucesso no esquema tático, seja para recomeçar o jogo sem perder extemporaneamente a posse de bola, seja para criar uma situação eminente de golo. Em termos práticos, em zonas do campo mais recuadas, fomentar que os jogadores lancem a bola “o mais longe possível ao longo da linha lateral” ou “para o meio-campo adversário” são estratégias comuns que não estão cientificamente fundamentadas. A produção de evidência a este respeito pode ajudar a que os treinadores optem por outro tipo de estratégia que conduza os jogadores a serem, técnica e taticamente, mais bem-sucedidos. Também não é por acaso que clubes de futebol de elite tenham começado a contratar treinadores especialistas em lançamentos laterais (Bascombe, 2018).

 

Figura 2. Exemplo de lançamento lateral longo para a área de penálti.

(imagem não publicada pelos autores; fonte: vsports.pt)

 

Deste modo, a investigação em torno dos lançamentos laterais no futebol ainda é escassa, pelo que é necessário um conhecimento mais aprofundado de como estes eventos específicos afetam a performance no jogo de futebol, decorrendo o proveito adicional de melhor se poder informar o treinador quanto à preparação do processo de treino. Este estudo teve como propósitos: (1) examinar se a execução do lançamento lateral está ligada à performance subsequente em jogo; (2) analisar os efeitos da direção e da distância do lançamento lateral na taxa de sucesso do primeiro contacto, na manutenção da posse de bola, no tempo médio em posse e na criação de situações de finalização, em jogos da Premier League inglesa, na época 2018/2019.


Método

Amostra: foram incluídos na amostra 16154 lançamentos laterais executados nos 380 jogos da Premier League inglesa, na época 2018/2019, envolvendo 20 equipas. Os dados referentes aos lançamentos foram retirados do website Statsbomb (https://statsbomb.com). Da amostra total de lançamentos (n = 16380), foram apenas excluídas 226 observações relativas à cedência deliberada da posse de bola à equipa adversária, após a assistência médica a um jogador lesionado. 

Procedimentos e variáveis: cada fase de jogo analisada começou com a execução do lançamento lateral e terminou quando a equipa que repôs a bola em jogo perdeu a posse de bola. Com base nos dados brutos retirados do site da Statsbomb, foram definidas 3 variáveis independentes e 4 variáveis dependentes. A figura 3 expressa as variáveis independentes e a forma como foram operacionalizadas: distância (curta, média e longa), direção (para trás, lateral e para a frente) e zona do campo (4 áreas). 

 

Figura 3. Operacionalização das variáveis independentes: distância, direção e zona do lançamento lateral (Stone et al., 2021). Nota: 1 jarda (yard) = 0,9144 metros.

 

As definições operacionais das categorias das variáveis dependentes encontram-se discriminadas na tabela 1.


Tabela 1. Definições operacionais das categorias das variáveis dependentes: primeiro contacto, tempo em posse, retenção da posse e lançamento resultando em finalização (adaptado de Stone et al., 2021).


Para todas as variáveis, o primeiro autor realizou um protocolo para aferir a fiabilidade da recolha dos dados. Selecionando 3 jogos aleatórios, reanalisou um total de 106 lançamentos laterais e obteve um valor de Kappa de 0.97, o que representa uma excelente fiabilidade intraobservador. 

Análise estatística: registados os dados e calculada a estatística descritiva numa folha de Excel, os dados foram exportados para o SPSS, v. 24.0. Numa primeira fase, foi analisada a relação entre a performance de cada equipa (classificação final: 1–20) com cada uma das variáveis dependentes, utilizando Coeficientes de Correlação de Spearman em separado. Em segundo lugar, para compreender se as estratégias de lançamento variavam em função da classificação final, foram calculados Coeficientes de Correlação de Spearman relativamente às variáveis independentes. Por fim, foram corridos diversos testes paramétricos de análise de variância para amostras repetidas (ANOVA) para examinar a influência das variáveis independentes nas variáveis dependentes. As dimensões de efeito foram apresentadas mediante o cálculo de Partial Eta Squared (ƞp2).

 

Principais resultados

Em termos globais, 83% dos lançamentos analisados resultou num primeiro contacto com êxito, 54% na retenção da posse de bola durante 7 ou mais segundos e 8.8% das posses de bola que derivaram de um lançamento lateral, com um primeiro toque bem-sucedido, foi concluído com uma ação de finalização. 

As equipas que terminaram em posições mais altas da tabela classificativa da Premier League 2018/2019 obtiveram mais sucesso nos lançamentos laterais. Em particular, foram reveladas taxas de sucesso mais elevadas no primeiro contacto, na retenção da bola e no tempo médio da posse subsequente, tal como foram executados mais remates decorrentes deste tipo de esquema tático. Curiosamente, as equipas mais bem classificadas realizaram mais lançamentos para trás, enquanto as menos bem classificadas fizeram mais lançamentos na direção da baliza adversária (i.e., para a frente).

 

·      Sucesso do primeiro contacto

A taxa de sucesso do primeiro contacto após o lançamento lateral decresceu com o aumento da distância do lançamento. Lançar para trás teve a taxa de sucesso mais alta (99.5%), aumentando 24.9% em relação aos lançamentos para a frente (74.6%). Conforme podemos constatar na figura 4, o maior insucesso no primeiro contacto foi observado após lançamentos longos, para a frente e a partir do meio-campo defensivo. 

 

Figura 4. Sucesso (relativo e absoluto) do primeiro contacto, em função da zona do campo, da distância (S – curta; M – média; L – longa) e da direção (B – para trás; L – lateral; F – para a frente) do lançamento lateral (Stone et al., 2021).

 

·      Retenção da posse de bola após lançamento lateral

A direção, a distância e a zona do campo influenciaram significativamente as variáveis associadas à manutenção da posse de bola (figura 5). Os lançamentos para trás não só tiveram uma taxa de retenção da posse mais alta (83%), como originaram posses de bola subsequentes, em média, mais longas (24s). Por sua vez, lançar para a frente implicou uma menor taxa de manutenção da posse (50.3%) e processos ofensivos com uma duração média mais reduzida (13s). Os lançamentos curtos também propiciaram taxas de retenção da bola mais elevadas (70.5%) e posses de bola mais longas (20s), ao invés do que sucedeu nos lançamentos longos (64.3%; 17.8s). Lançamentos laterais na zona defensiva do campo também originaram posses de bola subsequentes, em média, mais demoradas (19.4s vs. 18.4s). 

 

Figura 5. Sucesso (relativo e absoluto) da retenção da bola e tempo médio da posse de bola subsequente, em função da zona do campo, da distância (S – curta; M – média; L – longa) e da direção (B – para trás; L – lateral; F – para a frente) do lançamento lateral (Stone et al., 2021).

 

·      Lançamento lateral que origina finalização

Um total de 1053 lançamentos laterais, realizados nos meios-campos ofensivo e defensivo, e com um primeiro contacto bem-sucedido, resultou numa ação de finalização. A probabilidade de produzir uma ação de finalização foi mais elevada em lançamentos executados para o lado (12.2%) ou para trás (11.2%). Dos lançamentos para a frente, somente 6.6% permitiram visar a baliza adversária.

 

Aplicações práticas

Em média, foram executados 43 lançamentos laterais por jogo, uma frequência superior a pontapés de canto, pontapés livres ou pontapés de baliza. Dada a correlação existente entre o desenrolar do processo ofensivo após um lançamento lateral e a classificação obtida no final da época, os treinadores não devem negligenciar este tipo de esquema tático no processo de treino. 

Os lançamentos laterais são mais ponderados e trabalhados em zonas ofensivas (i.e., projeção da área de penálti), quase como se de pontapés de canto se tratassem. Porém, 78.5% dos lançamentos da presente amostra ocorreram nas demais áreas ofensivas e defensivas. Estas bolas paradas são um fator importante no recomeço do jogo e nas ações inerentes à etapa de construção de uma equipa. Devem, assim, ser proporcionados contextos de treino que enfatizem a importância dos lançamentos laterais na (re)construção do processo ofensivo. 

A crença comum que um lançamento lateral deve ser executado para a frente e longo (“ao longo da linha lateral” ou “para o meio-campo adversário”) não foi corroborada neste estudo. Pelo contrário, quando analisadas as taxas de sucesso do primeiro contacto e da retenção da posse de bola, lançar para trás ou para o lado constituiu uma estratégia mais eficaz que, inclusivamente, permitiu criar mais oportunidades de finalização. 

Numa perspetiva defensiva, a estratégia de jogo mais adotada é recuar o bloco, colocando um maior número de jogadores atrás da linha da bola, no sentido de melhor proteger a baliza. Estes dados sugerem, no entanto, que consentir que uma equipa lance para trás e recomece a etapa de construção pode não ser a solução mais efetiva para o desfecho do jogo. Uma abordagem alternativa é, precisamente, condicionar o lançamento para trás (ou para o lado) e fazer com que o adversário lance longo, aumentando a probabilidade de reconquistar mais rápido a posse de bola.

 

Conclusão

A investigação demonstrou que o sucesso nos lançamentos laterais está associado com a classificação obtida numa das principais ligas europeias (Premier League inglesa). Os resultados permitiram compreender que as estratégias implementadas nestes esquemas táticos influenciam o sucesso de ações seguintes relacionadas com o primeiro toque, a retenção da posse de bola e a criação de situações de finalização no futebol profissional. Lançar para trás ou para o lado foi mais profícuo do que lançar longo para a frente; de facto, as melhores equipas tendem a privilegiar o lançamento para trás. Recomenda-se que os treinadores revejam as estratégias de lançamento que propõem e equacionem outras soluções que potencialmente possam melhorar a performance global da equipa em competição. 

 

P.S.:

1-  As que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

25/01/2021

Equilíbrio competitivo nas 6 melhores ligas europeias na última década (2010–2020), com especial referência à Primeira Liga

Há dias, a Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS, sigla na língua inglesa) classificou a Primeira Liga (Liga NOS) como a sexta melhor do mundo em 2019, à frente de ligas como a Bundesliga (alemã) e a Ligue 1 (francesa). Sinceramente, não procurei saber os critérios que nortearam a atribuição de pontos pela IFFHS, mas não deixa de ser um pouco estranho, visto que, somente em 2019/2020, a Primeira Liga recuperou a sexta posição no ranking de ligas da UEFA, por troca com a Rússia. 

A antítese da competitividade no futebol profissional português foi aqui debatida há dois anos. Por essa altura, foi citado um estudo brasileiro (Da Silva et al., 2018) que concluiu que a Primeira Liga era a que mostrava menor equilíbrio competitivo de entre as 7 ligas analisadas (Alemanha, Brasil, França, Espanha, Inglaterra, Itália e Portugal). Os investigadores também verificaram que, na liga portuguesa, o desequilíbrio competitivo (ou a desigualdade entre os 4 primeiros classificados e as restantes equipas) tem vindo a aumentar significativamente ao longo do tempo. Embora este estudo tenha analisado um período de 13 épocas consecutivas (2003/2004–2015/2016), utilizou apenas uma métrica subjacente ao equilíbrio competitivo (C4 Index of Competitive Balance), que mede a desigualdade entre os 4 primeiros classificados da tabela final de cada época e as restantes equipas e não, exclusivamente, o (des)equilíbrio competitivo da totalidade das equipas que compõem a liga. 

No relatório da IFFHS, divulgado no passado dia 20 de janeiro de 2021, é mencionado que a Primeira Liga subiu 4 posições no ranking das melhores ligas em relação a 2018. Em face deste novo e surpreendente facto, urge averiguar o que aconteceu ao equilíbrio competitivo nas melhores ligas europeias na última década. Será que o equilíbrio competitivo da Liga NOS se aproximou das outras ligas europeias de referência ou, ao invés, os clubes de maior dimensão cavaram ainda mais o fosso para os ditos “clubes pequenos”? 

Para o efeito, foram calculados valores de duas variáveis comummente aplicadas neste âmbito (Michie & Oughton, 2004):

· Five-club Concentration Index of Competitive Balance (C5ICB) – Índice C5 de Equilíbrio Competitivo: mede o grau de desigualdade entre os 5 clubes de topo numa liga e os restantes, relativamente a um valor ideal que seria alcançado numa liga perfeitamente equilibrada, com um qualquer número de equipas. Valores mais elevados traduzem uma redução do equilíbrio competitivo e um aumento da dominância dos 5 primeiros classificados.

·  Herfindahl Index of Competitive Balance (HICB) – Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl: através da proporção de pontos conquistados por cada equipa, avalia as desigualdades entre todos os clubes que compõem uma liga, também ponderando o valor ideal que seria atingido numa liga perfeitamente equilibrada, com um qualquer número de equipas. Quanto maior for o valor do índice, menor é o equilíbrio competitivo. Numa liga perfeitamente equilibrada, o índice de Herfindahl assume um valor similar a 100.


Em relação à primeira métrica, a figura 1 exibe a variação do equilíbrio competitivo nas 6 melhores ligas europeias ao longo da última década. 

 

Figura 1. Variação do Índice C5 de Equilíbrio Competitivo nas 6 melhores ligas europeias na última década.

 

Como podemos constatar, a Primeira Liga (a verde) é uma das que apresenta valores consecutivamente mais elevados no Índice C5 de Equilíbrio Competitivo, ao invés do que sucede, por exemplo, com a Ligue 1 (a lilás). Isto significa que a dominância dos 5 primeiros classificados, em relação às outras equipas que compõem a liga, é das mais elevadas nas ligas em análise, o que reflete uma maior desigualdade ou, por outras palavras, um menor equilíbrio competitivo. Para atestar esta evidência, a tabela 1 expõe os valores médios do Índice C5 apurados para a década 2010–2020.

 

Tabela 1. Médias e desvios-padrão do Índice C5 de Equilíbrio Competitivo para as 6 melhores ligas europeias de futebol, na década 2010–2020.

É, também, curioso verificar que a Premier League e a LaLiga são as ligas que maior dispersão (desvios-padrão) apresentam em relação à média, o que sugere que a desigualdade entre os 5 primeiros classificados e as restantes equipas tende a ser mais inconstante de época para época. Por sua vez, além de ser a segunda liga mais equilibrada, a Bundesliga é a prova cujo Índice C5 de Equilíbrio Competitivo é mais regular ao longo do tempo. 

Se fizermos uma análise isolada do Índice C5 de Equilíbrio Competitivo na Primeira Liga, ficamos em posição de perceber que houve uma tendência crescente ao longo da última década (figura 2), ou seja, a desigualdade entre as equipas do topo da tabela e as outras aumentou. 

 

Figura 2. Linha de tendência do Índice C5 de Equilíbrio Competitivo na Primeira Liga (2010-2020).

 

Porém, ao considerarmos os valores médios por época do conjunto das outras ligas europeias de referência, foi observada uma tendência similar, mas com um declive bem mais pronunciado (figura 3). Portanto, ainda que a desigualdade entre as equipas de topo e as restantes esteja a aumentar na Primeira Liga, a competição portuguesa está a aproximar-se da média das melhores ligas europeias, o que pode explicar parte dos recentes dados publicados pela IFFHS.

 

 Figura 3. Linha de tendência do Índice C5 de Equilíbrio Competitivo para a média de valores, por época, do conjunto composto por Bundesliga, LaLiga, Ligue 1, Premier League e Serie A (2010-2020).

 

A segunda variável – Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl –, que envolve a proporção de pontos conquistados por todas as equipas de uma liga, traça um cenário ligeiramente diferente para as 6 melhores ligas europeias e, em particular, para a Primeira Liga (figura 4).

  

Figura 4. Variação do Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl nas 6 melhores ligas europeias na última década.

 

À primeira vista sobressai uma linha verde (Primeira Liga) mais uniforme e destacada das restantes. Por outro lado, ao contrário do Índice C5 de Equilíbrio Competitivo, parece que a linha segue uma tendência decrescente. De facto, a tabela 2 revela que, segundo este índice, a Primeira Liga apresenta um menor equilíbrio competitivo (valores mais elevados) em relação às outras ligas europeias. A Ligue 1 continua a liderar no que ao equilíbrio competitivo diz respeito, e a Premier League e a LaLiga trocam de posição. Neste parâmetro, a Ligue 1 é a prova com equilíbrio competitivo mais uniforme, ao invés do que sucede com a LaLiga e a Serie A, que mostram valores de dispersão (desvios-padrão) mais altos relativamente à média.

 

Tabela 2. Médias e desvios-padrão do Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl para as 6 melhores ligas europeias de futebol, na década 20102020.


A análise isolada do Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl na Primeira Liga corrobora a perceção inicial: houve uma tendência decrescente ao longo da última década (figura 5), ou seja, a liga portuguesa tem-se tornado mais competitiva. Não obstante qualquer razão apontada não passe de pura especulação, estou a crer que a crescente profissionalização da estrutura de alguns clubes ditos “pequenos” possa estar a contribuir para que a liga portuguesa esteja a melhorar. Face ao disposto no Índice C5 de Equilíbrio Competitivo, talvez seja incorreto pensarmos que os “clubes grandes” estejam a perder supremacia na competição. 

 

Figura 5. Linha de tendência do Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl na Primeira Liga (2010-2020).

 

Por último, não podemos omitir a linha de tendência que resulta do combinado das outras 5 ligas europeias (figura 6).

 

Figura 6. Linha de tendência do Índice de Equilíbrio Competitivo de Herfindahl para a média de valores, por época, do conjunto composto por Bundesliga, LaLiga, Ligue 1, Premier League e Serie A (2010-2020).

 

Estes dados comprovam, até certa medida, o salto qualitativo da Primeira Liga para a IFFHS, em 2019: se na principal liga portuguesa de futebol o equilíbrio competitivo está a aumentar, a média provinda das 5 melhores ligas europeias expressa a tendência oposta. Em suma, de entre as 6 melhores ligas europeias para a UEFA, a portuguesa é a menos competitiva, contudo, na última década, tem vindo a aproximar-se do valor médio das ligas europeias de topo. Para bem do futebol português, é bom que assim continue! 

 

Referências Bibliográficas

Da Silva, C. D., Abad, C. C. C., Macedo, P. A. P., Fortes, G. O. I., & do Nascimento, W. W. G. (2018). Equilíbrio competitivo no futebol: Um estudo comparativo entre Brasil e as principais ligas europeias. Journal of Physical Education, 29, e2945. https://doi.org/0.4025/jphyseduc.v29i1.2945

Michie, J., & Oughton, C. (2004). Competitive balance in football: Trends and effects. Football Governance Research Centre.

15/01/2021

Artigo do mês #13 – janeiro 2021 | Jogadores de futebol de elite correm maiores distâncias quando estão a perder?

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Lago-Peñas, C., Kalén, A., Lorenzo-Martinez, M., López-Del Campo, R., Resta, R., & Rey, E.

País: Espanha

Data de publicação: 22-dezembro-2020

Título: Do elite players cover longer distance when losing? Differences between attackers and defenders

Revista: International Journal of Sports Science & Coaching

Referência: Lago-Peñas, C., Kalén, A., Lorenzo-Martinez, M., López-Del Campo, R., Resta, R., & Rey, E. (2020). Do elite players cover longer distance when losing? Differences between attackers and defenders. International Journal of Sports Science & Coaching. https://doi.org/10.1177/1747954120982270 

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 13 – janeiro de 2021.

 

Apresentação do problema

No futebol, as evidências sobre a análise do deslocamento na unidade de tempo (“time-motion analysis”) são úteis para quantificar a performance de corrida em jogo e podem fornecer orientações claras para o desenvolvimento de (1) testes específicos para a avaliação do desempenho e (2) regimes de treino (Bradley et al., 2009). Adicionalmente, estudos prévios têm demonstrado que variáveis situacionais, como o resultado corrente do jogo (a vencer, empatado ou a perder), a localização do jogo (casa ou fora), o nível da oposição (e.g., forte ou fraca) e a parte do jogo (primeira ou segunda) influenciam o perfil de corrida dos jogadores (Paul et al., 2015). 

No que se refere ao resultado corrente do jogo, a tendência é verificar-se um aumento da corrida em alta velocidade quando as equipas estão a perder, comparativamente à situação de vantagem no marcador. Por exemplo, Lago-Peñas et al. (2010) mostraram que, por cada minuto a perder, os jogadores percorreram um metro extra em sprint (>19 km/h), em relação a quando estavam a ganhar; inversamente, na liderança do marcador, aumentaram os deslocamentos a baixa velocidade (<11 km/h). Contudo, ao equacionarem o resultado parcial do jogo, em períodos de 15 minutos ou em cada parte, Moalla et al. (2019) observaram que os jogadores correram maiores distâncias em todas as intensidades de corrida quando estavam a vencer. Outros estudos evidenciaram que jogadores de elite, independentemente do resultado corrente do jogo, percorrem distâncias similares em corrida de alta intensidade (Bradley & Noakes, 2012; Redwood-Brown et al., 2012). Estes factos contraditórios podem dever-se a diversas limitações do foro metodológico. 

Embora poucas investigações tenham examinado o efeito da posição de jogo no perfil de corrida durante vários resultados correntes, foram reportados dados igualmente divergentes. Redwood-Brown et al. (2012) desvendaram que os médios percorrem maiores distâncias em corrida de alta velocidade quando empatados, os defensores quando estão a perder e os atacantes quando estão em vantagem (figura 2). Mais recentemente, Redwood-Brown et al. (2018) não constataram a existência de qualquer diferença entre as posições de jogo nos deslocamentos de alta intensidade ou em sprint. 

 

Figura 2. O avançado argentino Messi a correr com bola, diante do CD Leganés, época 2017/2018.

(imagem não publicada pelos autores; fonte: zimbio.com)

 

Portanto, persiste a necessidade de investigar a influência das posições de jogo nos deslocamentos em corrida no decurso das partidas, tendo em consideração os resultados temporários possíveis. No sentido de providenciar informação mais precisa sobre as demandas físicas em competição, os autores não só ponderaram o tempo efetivo de jogo, em vez do tempo total, como propuseram categorias mais abrangentes para a variável posição de jogo (i.e., defesas centrais, defesas laterais, médios centro, médios ala e avançados). O propósito do estudo foi averiguar a influência das variáveis resultado corrente do jogo (“match status”) e posição de jogo (“positional role”) nos perfis de corrida de uma vasta amostra de jogadores de futebol de elite.

 

Métodos

Amostra: consistiu em 4240 observações de jogo (412 jogadores e 297 jogos), da primeira divisão espanhola – LaLiga –, na época 2018/2019. Apenas foram consideradas observações de jogadores de campo que disputaram jogos completos. Partidas que envolveram a expulsão de um ou mais jogadores (cartão vermelho) foram excluídas da amostra (n = 73). Os dados foram obtidos da Liga de Futebol Profissional de Espanha (LaLiga), que autorizou a utilização das variáveis incluídas nesta investigação.

 

Procedimentos: o sistema computorizado de rastreamento ótico TRACAB (ChryronHego VID, New York, USA), com uma frequência amostral de 25 Hz, foi utilizado para captar a performance de corrida em jogo. O desempenho físico foi avaliado através de seis variáveis: (1) distância total percorrida, (2) distância de corrida em velocidade lenta (low-speed running: LSR, 0–14 km/h), (3) distância de corrida em velocidade média (medium-speed running: MSR, 14–21 km/h); (4) distância de corrida em velocidade alta (high-speed running: HSR, >21 Km/h); (5) distância de corrida em velocidade muito alta (very high-speed running: VHSR, 21–24 Km/h); (6) distância em sprint (>24 km/h). As variáveis independentes propostas pelos autores constam na tabela 1.

 

Tabela 1. Definição e categorias das variáveis independentes (situacionais) propostas no estudo (tabela não publicada pelos autores).


Análise estatística: a estatística descritiva foi reportada através de médias, desvios-padrão e coeficientes de variação em percentagem para cada posição e localização de jogo. O índice de vitória foi apresentado através de medianas e amplitudes interquartis. Um modelo liner multivariado foi calculado para as variáveis dependentes (performance de corrida em jogo), incluindo as variáveis situacionais índice de vitória, localização do jogo, qualidade da equipa, tempo efetivo de jogo e posição de jogo como fatores principais fixos. As interações do índice de vitória com as outras variáveis independentes também foram testadas. Os jogadores e as equipas foram introduzidos como fatores aleatórios. Todas as análises foram executadas no programa R, versão 4.0.0. O nível de significância foi estabelecido para p ≤ 0.05 e foram utilizados intervalos de confiança de 95%.

 

Principais resultados

 

·      Resultado corrente do jogo

O índice de vitória interagiu com a posição de jogo para todas as variáveis de corrida. Os defensores (centrais e laterais) percorreram distâncias mais longas em corrida em velocidades média, alta, muito alta e sprint quando estavam a perder, enquanto a tendência inversa foi observada para os avançados. Por exemplo, a vencer durante 45% do tempo do jogo, a distância em sprint aumentou 16% e 9% para os avançados e médios ala, respetivamente, comparando com um contexto de desvantagem no marcador durante 45% do jogo. Contudo, em condições análogas de vantagem no marcador, a distância percorrida em sprint pelos defensores (centrais e laterais) decresceu 14% e 7%, respetivamente (figura 3). 

 

Figura 3. Diferenças na distância total percorrida e em cada categoria de velocidade, em função do índice de vitória, para cada posição de jogo (Lago-Peñas et al., 2020).

 

·      Localização do jogo

A jogar em casa, os jogadores percorreram maiores distâncias de corrida em velocidades mais elevadas (alta, muito alta e sprint), comparativamente a jogar fora. A interação desta variável situacional com o índice de vitória revelou que as distâncias de corrida em velocidades alta e muito alta tendem a aumentar quando a equipa visitada está em vantagem no marcador durante mais tempo, observando-se um decréscimo mais pronunciado na distância percorrida em velocidades baixas (<14 km/h).

 

·      Qualidade da equipa (diferença classificativa)

Uma diferença de ranking positiva, i.e., uma equipa mais bem classificada do que a equipa adversária, esteve relacionada com o aumento das distâncias total e percorridas em velocidades média e muito alta. Ainda assim, quando equipas mais bem classificas estão a vencer, há a tendência para não somente percorrerem maior distância em baixa velocidade, como também para percorrer menos metros em corrida de alta velocidade e em sprint.

 

·      Tempo efetivo de jogo

Em jogos com mais tempo útil de jogo, os jogadores percorreram maiores distâncias de corrida total e em velocidades baixa, média e muito alta. Quando ponderados o índice de vitória, a diferença de ranking, a localização de jogo e a posição de jogo, não houve, no entanto, acréscimo nas distâncias de corrida em velocidade alta e em sprint.

 

Aplicações práticas

Ao entender as demandas físicas do jogo, em função de variáveis situacionais, os treinadores poderão antecipar cenários que irão encontrar ao longo da competição e, assim, preparar mais convenientemente os jogadores e a equipa ao longo do microciclo. Na LaLiga – principal competição de clubes em Espanha –, os médios centro percorreram maiores distâncias totais que os jogadores de outras posições, possivelmente devido ao seu papel permanente de ligação intersetorial. Os defesas centrais e os médios centro percorreram menores distâncias de corrida em alta intensidade, em relação aos laterais, médios ala (extremos) e avançados. 

Apesar disso, em situação de desvantagem no marcador, os defensores (centrais e laterais) tendem a aumentar as distâncias percorridas em velocidades média, alta, muito alta e sprint, provavelmente para fechar os espaços que são concedidos pelas equipas que estão a tentar assumir o jogo para anular a vantagem adversária. Ao invés, os médios ala e os avançados, em contextos de vantagem no marcador, tendem a percorrer maiores distâncias com velocidades mais elevadas, de modo a capitalizar em golo os espaços que se abrem no meio-campo ofensivo, com a progressão espacial da equipa oponente que procura reentrar na discussão do jogo. Além disso, a jogar em casa, as equipas cobrem maiores distâncias em velocidades média, alta, muito alta e sprint, comparativamente aos visitantes, o que corrobora a existência do famigerado “efeito de jogar em casa”. 

Ao fazer este tipo de análise, é importante que as equipas técnicas e os analistas considerem o tempo efetivo de jogo e não o tempo total de jogo, pois só assim serão apurados dados precisos sobre as exigências físicas em competição. Por exemplo, se um período com a bola fora é contemplado na quantificação da performance, as demandas físicas a que os jogadores estão sujeitos podem ser subestimadas. 

Independentemente do índice de vitória e da localização do jogo, as evidências indicam que as equipas mais bem classificadas percorreram maiores distâncias total e em velocidades média e muito alta (dimensão de efeito pequeno), relativamente a equipas de menor qualidade. Urge entender que, muito provavelmente, as melhores equipas correm menos, porque, concomitantemente, passam mais tempo em posição de vantagem no marcador. Em processo de treino, a manipulação do resultado e das relações numéricas pode ser uma estratégia profícua para lidar com as vicissitudes dos diversos contextos com que as equipas se deparam em competição.

 

Conclusão

Este estudo mostrou que a performance de corrida em jogo é altamente dependente de variáveis situacionais, especialmente as circunstâncias associadas à evolução do marcador. Além disso, o resultado corrente do jogo afetou, de forma distinta, a prestação da corrida de jogadores a atuar em diferentes posições. Em situação de derrota, os defensores aumentaram as distâncias percorridas em velocidades média, alta, muito alta e sprint, enquanto os jogadores atacantes manifestaram a tendência oposta. Em casa, as equipas percorreram maiores distâncias de corrida em velocidades média, alta, muito alta e em sprint. 

Estas evidências devem ser verificadas noutras competições e em outros países. É possível que a idiossincrasia de cada liga, na qual determinadas características de jogador ou estilos de jogo são enfatizados, possa alterar os resultados apresentados nesta investigação.

  

P.S.:

1-  As que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.