11/03/2015

Ser treinador de futebol de formação

O usual é o sucesso do treinador ser avaliado pelos resultados que obtém nos jogos, independentemente do escalão etário. A ideia mais ou menos vigente em Portugal rege-se pela seguinte premissa: quem ganha mais jogos, é muito bom; quem perde regularmente, é mau.

Nós, treinadores, sentimos isso a toda a hora. Em uma década de experiência no futebol juvenil, tive épocas com resultados (desportivos) mais fracos e outras épocas com resultados francamente positivos. À luz do número de vitórias, empates e derrotas, será que a minha competência se modificou radicalmente ao longo destes anos? Óbvio que não, porém, para muitos – os mais distraídos – e que pouco ou nada acompanham o processo (dia após dia, mês após mês, ano após ano), ir do 8 ao 80 e do 80 para o 8 é um desígnio recorrente.

Porque o futebol é isto mesmo. Todos nós somos (ou nos julgamos) treinadores, sem o realmente sermos, sem profundamente conhecermos os procedimentos subjacentes ao treino, à competição e ao crescimento/maturação dos jovens aprendizes. Porque vencer jogos, por vezes, causa-nos indiferença e porque, noutras vezes, algumas derrotas trazem um sentimento de missão cumprida. O produto na formação não deve ultrapassar o processo e o processo, quando bem aplicado e gerido, traz-nos o produto em forma de sucesso no futuro. A paciência é um aspeto chave.

Imagem. O futebol de formação tem particularidades distintas do futebol de rendimento.

Ser treinador de formação é, na minha opinião, chegar ao final de uma época e ver miúdos que não entendiam o jogo e, em certos casos, que não sabiam executar ações técnicas básicas, fazer isto autonomamente num treino:


E tudo o resto é pura conversa circunstancial.

26/02/2015

A classe que tarda em ser valorizada em Portugal

Contínuo a insistir no caso «Bernardo Silva». Se, para muitos, 15 milhões de Euros é um montante acima do valor de mercado do jogador, para mim, é uma quantia abaixo do potencial que apresenta.

Não precisamos de recuar muito no tempo. Ontem, nos oitavos-de-final da UEFA Champions League 2014/2015 – Arsenal 1 x 3 Mónaco –, o Bernardo jogou sensivelmente 10 minutos (entrou aos 84’). Pisou o relvado do Emirates Stadium num período em que o Mónaco vencia por 2-0 e, por conseguinte, com a sua equipa quase sempre em organização defensiva e sob elevada pressão ofensiva dos visitados. As oportunidades para o Bernardo ter a bola em seu poder foram escassas. Até que, em cima do apito final, já após o Arsenal reduzir a desvantagem no marcador para um golo (1-2), o jovem português recebeu a bola no corredor direito e fez o que melhor sabe: executar com critério.


Cinco toques na bola foram suficientes para o médio temporizar, ler apropriadamente o envolvimento (espaço livre, posições/deslocamentos dos companheiros e adversários), driblar e executar uma assistência primorosa para Ferreira Carrasco. Nestes breves pormenores revela-se a classe de um jogador e que, nesta eliminatória em particular, pode mesmo vir a ser decisiva.

Imagem: Bernardo Silva e Özil no final do Arsenal 1 x 3 Mónaco.
(fonte: dailymail.co.uk)
Tenho sérias dúvidas que o plantel do SL Benfica possua muitos jogadores de classe, mas talvez o modesto Mónaco (e Leonardo Jardim) proporcione o espaço e o tempo (de jogo e de aprendizagem) que o Bernardo não encontrou no clube que o formou. Quando o Caixa Futebol Campus começar a gerar dividendos desportivos, em vez de financeiros, quiçá outros talentos como Bernardo Silva, André Gomes, João Cancelo, Ivan Cavaleiro ou Ricardo Horta possam surgir e singrar na sua própria casa: o Estádio da Luz.

07/02/2015

Modelo de jogo e criatividade tática: duas faces da mesma moeda?

No âmbito do treino do futebol, a expressão «modelo de jogo» tem sido amplamente difundida nos últimos anos, sobretudo em Portugal e nos países lusófonos. O advento e a notoriedade adquirida pela Periodização Tática – modelo de planeamento utilizado por José Mourinho, André Villas-Boas, Carlos Carvalhal, entre outros – assim o determinaram. O conceito de modelo de jogo remete-nos para uma série de princípios que concedem organização nos diferentes momentos (pessoalmente, prefiro o termo fases) do jogo (Delgado-Bordonau & Mendez-Villanueva, 2012). Entre muitas outras variáveis, o modelo de jogo está subjacente à filosofia do treinador/equipa técnica e pode, segundo diversos autores da especialidade, ser adotado ou criado. Esta modelação é, em primeira instância, obra do treinador e que, posteriormente, será interpretada e aplicada pelos seus jogadores.

Por sua vez, a criatividade tática é algo que está inerente ao desempenho dos jogadores em contexto de jogo. De acordo com o investigador alemão Daniel Memmert (2014), a criatividade tática é definida como a criação/execução de diversas soluções para problemas em grupos específicos de indivíduos ou em situações de jogo coletivas, que podem ser consideradas como surpreendentes, raras e/ou originais. Esta criatividade tática, também associada ao conceito de inteligência tática, é cada vez mais acreditada pelos treinadores de elite como uma característica fundamental do jogador no futebol contemporâneo.

Imagem: Pablo Aimar - um «jogador-exemplo» de criatividade tática.

O problema que tenho identificado através da observação sistemática, de inúmeras entrevistas e com o qual também me debato em todas as sessões de treino, resume-se a uma singela questão: até que ponto a definição e a operacionalização de um determinado modelo de jogo não constrange a criatividade tática dos jogadores?

A meu ver, são duas faces da mesma moeda e algo sobre o qual o treinador/equipa técnica deve(m) ponderar em permanência ao longo da época desportiva. Como conceder organização, sem condicionar a capacidade criativa dos nossos jogadores?

Assumamos o exemplo que consta na Figura 1.

Figura 1. Exemplo da hierarquização e da fragmentação dos princípios de jogo na fase de organização ofensiva.

O treinador pretende que a bola circule rápido das zonas de maior concentração de jogadores oponentes para outras zonas menos congestionadas. Para isso, prepara os jogadores para aumentar a área da equipa em largura (subprincípio 1: espaço) e que haja, pelo menos, três linhas de passe relativamente ao portador da bola (subprincípio 2: soluções múltiplas). Até aqui, parece-me tudo muito razoável. Quando começamos a fracionar os subprincípios em mais sub-subprincípios e sub-sub-sub-etc., deixo de concordar. É precisamente neste ponto que eu entendo que o excesso de regras/normas de ação (modelização comportamental) compromete a criatividade tática dos jogadores.

Temos um princípio bem definido («circular a bola para longe da zona de pressão adversária»), mais dois subprincípios adicionais e é com essa matéria que, no treino, o treinador/equipa técnica deve(m) propor tarefas para que os jogadores, individual e coletivamente, encontrem soluções (descoberta guiada) para cumprirem os princípios estipulados e que estão consubstanciados no modelo de jogo.

Deste modo, conseguiremos tirar o máximo proveito das duas faces da moeda (modelo de jogo e criatividade tática) num processo que requer, por um lado, o desenvolvimento dos jogadores e da equipa e, por outro lado, o obtenção de resultados em competição.


Referências
Delgado-Bordonau, J. L., & Mendez-Villanueva, A. (2012). Tactical periodization: Mourinho’s best-kept secret? Soccer NSCAA Journal, 3, 28-34.
Memmert, D. (2014). Tactical creativity in team sports. Research in Physical Education, Sport and Health, 13(1), 13-18.

12/01/2015

Cristiano Ronaldo: o português Tri Bola d’Ouro

Se o ano passado ainda houve celeuma quanto ao eventual vencedor da FIFA Ballon d’Or, este ano penso que poucas dúvidas restavam. Aliás, segundo os dados apurados através da votação, a diferença para o segundo classificado (Lionel Messi) aumentou de 3,27% para 21,9%; falamos de uma diferença de 18,63 pontos percentuais. Esclarecedor!

Imagem: Cristiano Ronaldo, FIFA Ballon d'Or 2014 (fonte: www.facebook.com).

De facto, Cristiano Ronaldo teve um ano 2014 fantástico, individual (61 golos em 60 jogos) e coletivamente (UEFA Champions League, Supertaça Europeia, Taça do Rei e Mundial de Clubes), apenas pecando por não conquistar o título espanhol e não ter chegado mais longe, com a seleção portuguesa, no Mundial 2014 do Brasil.  

De entre os imensos golos que apontou, houve um em particular que ainda ressoa na minha memória:


O modo como acelera para o defensor, a velocidade com que realiza o drible para o desequilibrar e a qualidade do remate com o seu pé não dominante traduzem na íntegra o talento, o potencial atlético e a capacidade volitiva que, cumulativamente, fazem de Cristiano Ronaldo um jogador absolutamente soberbo.

O ano passado, por esta altura, questionei para quando teríamos outro jogador português a vencer duas vezes a Bola d’ Ouro da FIFA. Desta feita, não incorro no risco de assumir cenários utópicos. O melhor jogador português de sempre já é Cristiano Ronaldo e não acredito que surja outro capaz de o superar.

O tempo assim o justificará.

02/01/2015

Alex Ferguson – A minha autobiografia (2014)

Sir Alex Ferguson dispensa apresentações. O manager mais bem-sucedido da história do Manchester United FC publicou a sua autobiografia, no Reino Unido, corria o ano de 2013. Em março de 2014 foi lançada a versão portuguesa, pela editora Casa das Letras.

Imagem: Capa de «Alex Fergunson - A minha autobiografia.»

Gosto de ler autobiografias, nomeadamente, porque posso sempre aprender alguma coisa com as experiências/vivências que nelas surgem retratadas. Por exemplo, Sir Alex alega que:

As origens nunca podem ser uma barreira ao sucesso. Um modesto início de vida pode ser mais uma ajuda do que estorvo. Se examinarem com atenção alguém bem-sucedido, estudarem os seus pais, aquilo que eles faziam, debrucem-se sobre energia e motivação. Terem vindo de classes trabalhadoras nunca foi entrave para muitos dos meus melhores jogadores. Pelo contrário, foi muitas vezes a razão da sua excelência.
(p. 28)

Acerca do português Carlos Queiroz, que foi seu adjunto no clube, Sir Alex tece rasgados elogios:

Carlos Queiroz, outro dos meus números dois, era brilhante. Simplesmente brilhante. Excecional! Um homem inteligente e meticuloso.(…) Foi o mais perto que esteve de ser treinador do Manchester United sem verdadeiramente exercer o cargo. Tomou a responsabilidade por uma série de assuntos sem que fosse obrigado a isso por via das suas funções.
(p. 53-54)

Qual foi a chave do sucesso de Ferguson e do clube?

O que fizemos sempre, tanto no sucesso como na adversidade, foi assegurar-nos que o campo de treinos era sagrado. O trabalho, a concentração e os níveis de qualidade que aí mantivemos nunca foram atraiçoados.
(p. 64-65)

A propósito da superestrela David Beckham, uma outra grande lição para qualquer treinador, de qualquer nível, em qualquer clube:

Costumava dizer: «No momento em que o treinador perder a sua autoridade, deixa de ter um clube. Os jogadores passam a dirigi-lo e estás metido em sarilhos.»
(p. 76)

Um outro português que marcou imenso Sir Alex foi Cristiano Ronaldo. Confiram um brevíssimo testemunho:

Cristiano Ronaldo foi o jogador mais dotado que treinei. Ultrapassou todos os outros grandes jogadores com os quais trabalhei no United. E foram muitos.
(p. 115)

Numa legenda de uma imagem em que Cristiano Ronaldo aparece a trabalhar pontapés livres, com Carlos Queiroz por perto, Sir Alex confessa ainda que:

Ronaldo era um aluno exemplar. Carlos Queiroz teve um papel importante no seu crescimento.
(p. 160-161)

Curiosamente, há um capítulo dedicado a José Mourinho: o rival «especial». Quando José Mourinho chega a Inglaterra, proveniente do FC Porto, Sir Alex não ficou indiferente:

Uma voz interior avisou-me: há um rapaz novo no bairro. Jovem. Nem pensar em discutir com ele. Nem pensar em combatê-lo. Tem a inteligência e a confiança para lidar com o cargo de treinador do Chelsea.
(p. 166)

Por vezes, quando perdemos, dizemos e/ou fazemos coisas estúpidas. A raiva, a desilusão, levam-nos por caminhos pouco humanos, por assim dizer. Ao longo dos anos, Ferguson foi desenvolvendo uma estratégia para lidar com a amargura da derrota:

No final, eu tinha um remédio para as derrotas. Depois de dizer o que era preciso no balneário, antes de sair para enfrentar a imprensa, a televisão, para falar com os outros treinadores, murmurava para comigo: «O jogo acabou. Esquece.» Fazia sempre isso.
(p. 187)

Um fator que considero ser essencial na relação treinador-jogador é a comunicação. É preciso dialogar com os jogadores e saber incluí-los no processo, estabelecer consensos, alcançar soluções válidas e práticas para ambas as partes. Sir Alex Ferguson trata o tema como «psicologia»:

Em primeiro lugar, devemos dizer-lhes a verdade. Não há nada de mal em confrontarmos um jogador com a sua baixa de forma. E o que transmitia a alguém cuja confiança se revelasse abalada era que estávamos no Manchester United e não podíamos permitir-nos descer ao nível das outras equipas. (…) Criticar, sim, mas contrabalançar com um encorajamento. «Que andas a fazer? És melhor do que isso!»
(p. 247)

Qual foi o melhor adversário do Manchester United de Sir Alex Ferguson?

O Barcelona foi a melhor equipa que jamais defrontou qualquer das minhas formações do Manchester United. De longe a melhor. Trouxeram para o futebol a mentalidade certa. (…) No Barcelona tinham esses maravilhosos gnomos, de 1,65 metros de altura, com coragem de leão, que não largavam a bola e nunca se deixavam intimidar. A forma como Lionel Messi, Xavi e Andrés Iniesta se entendiam fascinava-me.
(p. 254)

Que conselho deixa para quem almeja ser treinador de futebol?

O meu conselho para todos os jovens técnicos é o de se prepararem a fundo. Comecem cedo. Não esperem pelos 40 anos para ganhar os galões de treinador. Oponho-me totalmente aos técnicos-relâmpago. É uma vergonha!
(p. 307)

Acima de tudo, um relato honesto e autêntico sobre uma história de sucesso num grande clube inglês. A longevidade de Alex Ferguson no cargo não pode ser desvalorizada, nem tão pouco a mentalidade que esteve subjacente a tantos títulos. À medida que vamos folheando o livro, vão-se revelando inúmeros pormenores interessantíssimos, nem sempre versando mares de rosas. Para quem, como eu, é um apaixonado do mundo do futebol, é quase de leitura obrigatória.


PS. – Um bom ano de 2015 para todos vós!