11/08/2018

Monchique: Um diário de uma semana negra (3 a 10 de agosto de 2018)

A todos quantos desvendo o véu da minha intimidade manifesto o orgulho em ser natural de Monchique e residir na minha terra natal. Gabo o ar puro, a água cristalina, o sossego e a predominância do verde que cobre esta magnífica serra algarvia. Nos dias que agora passam a predominância deixou de ser o verde e passou a ser o negro. A imponente serra de Monchique ardeu, consumida por labaredas que se propagaram como não há memória, segundo os dizeres das gentes mais antigas da terra. O Município de Monchique reporta cerca de 16700 hectares de floresta e mato queimados, o que corresponde a 42,3% da área total do concelho, para não referir os imóveis e/ou outros bens materiais perdidos por muitos cidadãos.

Em seguida tentarei, sucintamente, relatar os dias que vivi por Monchique nesta semana que será de má memória para todos nós e cujas repercussões perdurarão por muitos dias, meses e até anos. Não é mais do que a minha versão dos acontecimentos, o meu testemunho, e estou certo de que muitos dos meus conterrâneos terão mais e melhores histórias para contar e que ficarão, pela negativa, para a posterioridade.

Sexta-feira, 3 de agosto de 2018. Deflagrou o fogo na Perna da Negra, na região norte do concelho de Monchique, pelas 13h32. Eu estava a almoçar em casa, na vila de Monchique, mas apenas soube do sucedido à tarde quando estava a trabalhar nas piscinas municipais. Infelizmente, os fogos não são eventos estranhos por cá, mas o facto de ter sido decretado “risco extremo de incêndio” pela Proteção Civil para o distrito de Faro não augurava coisa boa. Lembro-me de comentarem comigo que a área em chamas era um autêntico “barril de pólvora”, uma vez que havia cerros repletos de mato denso, seco e pouca acessibilidade. Ainda nessa sexta-feira à noite foram evacuadas pessoas nas Taipas e na Foz do Carvalhoso, a aproximadamente 20 km da vila.

Sábado, 4 de agosto de 2018. No sábado o cenário mudou e as chamas propagaram em direção à Altura das Corchas e Portela do Vento. O calor e o vento forte dificultaram imenso o trabalho dos efetivos no terreno. À tarde, pelas 17h, aquando das atividades das Jornadas Exercício e Saúde 2018 do Município de Monchique, o fumo cobriu o céu sobre a vila (imagem 1), o que indiciava uma progressão da frente de fogo para a sede de concelho, precisamente a área de maior densidade populacional. Nos povoados acima mencionados as pessoas começaram a ser evacuadas das suas casas. Em Monchique, a preocupação era cada vez mais evidente, sendo já estabelecidos termos de comparação com o incêndio que lavrou o concelho em 2003.
  
Imagem 1. Fumo sobre a vila de Monchique (4-ago-2018).

Domingo, 5 de agosto de 2018. As condições climáticas agravaram e o avanço do incêndio, ao invés de abrandar, acelerou rumo às vertentes Sul e Nascente da vila. Pelo meio, foi varrendo tudo a uma velocidade temente. Pouco após as 16h, a piscina municipal foi evacuada e a Proteção Civil ligou-me para cancelar a última semana das Férias Desportivas 2018. Demorei duas horas a ligar para todos os encarregados de educação e, quando terminei essa tarefa, já o fogo estava às portas da vila (Bica Boa, Relva de Trás, Cruz dos Madeiros). Quando olhei pela varanda da minha casa, apesar do denso fumo que invadiu Monchique, deu para perceber que a situação estava totalmente descontrolada. A decisão de levar a minha esposa e o bebé para Portimão foi imediata, mas organizar a mala com os bens necessários levou o seu tempo. Consegui regressar a Monchique pelas 22h, já as chamas desciam a encosta Sul da Picota, sendo visíveis a partir da zona de Vale de Boi (Parque da Mina) e das Caldas de Monchique. Volvidos 30-40 minutos a estrada N266 Monchique – Portimão foi cortada pela GNR. Na vila, a paisagem da minha casa era desoladora com o incêndio ainda a lavrar na Cruz dos Madeiros, Cerca da Rita, Malhada Quente, Carolo, Bemposta, São Roque, Caminho do Vale e a “subir” a encosta Norte da Picota. Entretanto, uma outra frente progrediu em direção a Alferce, barbeando tudo em redor da aldeia, incluindo algumas casas. O término do dia não chegou sem que as labaredas surgissem no Cerro do Touro. Da Rua do Viador observei diversas casas ameaçadas no dito cerro, no sítio da Mata Porcas e projeções a atingirem a rua onde me situava e a Rua do Bemparece. O Cerro de São Pedro foi, também, atingido por projeções e só não ateou devido à rápida atuação de populares e bombeiros já prontos para a contenção. O sentimento de impotência no momento foi indescritível e o número de moradias que estiveram em perigo em plena vila e arredores foi impressionante (imagem 2).
  
Imagem 2. Fogo às portas da Vila de Monchique (Cerro do Touro e Caminho da Foia; fonte: bombeiros24.pt).

Segunda-feira, 6 de agosto de 2018. A madrugada foi longa e só quando o fogo começou a recuar no Cerro do Touro, por meio da alteração do vento e da intervenção dos bombeiros, me permiti descansar algumas horas. Acordei sem água canalizada e com rede muito instável no telemóvel. Os serviços de televisão e internet já tinham ido abaixo na véspera. Este foi o dia em que o impensável aconteceu: jamais julguei possível sentir a minha casa em risco dentro do perímetro da vila. De manhã fui para o quartel dos bombeiros para ajudar no que fosse preciso e juntei-me a um grupo de malta conhecida na logística. Por volta da hora do almoço andava a distribuir refeições na Altura das Corchas aos operacionais no terreno com um elemento da Proteção Civil de Castro Marim. A vista do veículo era constrangedora (imagem 3).

Imagem 3. Casa dos Cantoneiros (Altura das Corchas, 6-ago-2018).

Na rádio o locutor afirmava que a Proteção Civil anunciava ter 95% do fogo controlado até ao final da tarde. Comentei com o senhor da Proteção Civil que achava a situação demasiado otimista e, ao passar a segunda vez pela Portela da Sernada, avistei uma frente de fogo na zona da Alcaria do Peso e do Barranco dos Pisões a consumir mato com uma força incrível. Disse-lhe que o vento estava de quadrante Norte e que, provavelmente, chegaria à Portela das Eiras e, no pior dos cenários, ao Cerro do Convento; daí até entrar na vila pela vertente Poente seria um ápice. A resposta que obtive foi um leve encolher de ombros e... silêncio. Entretanto, ardia noutros pontos do concelho como, por exemplo, no Semedeiro e nas Caldas de Monchique. Retornado ao quartel, a recolha e a distribuição de alimentos, águas e outras bebidas foi uma constante. Às 19h, num período de atividade mais calmo, vislumbrei um céu mais escuro sobre a vila e o que temia aconteceu mesmo. O fogo estava a lavrar a Portela das Eiras e o vento aumentou de intensidade: ia chegar ao Convento. Despedi-me e fui para casa, no sentido de tentar perceber a gravidade do contexto. Estar sem água canalizada e com pouca rede agravavam as circunstâncias. Por volta das 20h40 – nem sei bem precisar – vimos as primeiras labaredas a se aproximarem, felizmente pudemos contar com a preciosa colaboração de mais 7/8 amigos na proteção das casas e do espaço aberto do antigo Colégio de Santa Catarina, isto com o singelo recurso a baldes e água de um tanque aí situado. Ouvimos o guinchar grotesco de dois cabritos a serem queimados vivos, embora o pastor do Convento tivesse conseguido salvar quase na totalidade os dois rebanhos, um de ovelhas e outro de cabras. Aparte disso, o zumbido das chamas a avançar no cerro e as árvores a estalar eram qualquer coisa de muito intimidante. Num par de vezes faúlhas afoguearam o pasto seco do antigo Colégio de Santa Catarina, a porta do fogo para o centro da vila, mas a rápida intervenção da malta jovem no local com os tais baldes de água evitou males maiores. A chegada algo tardia da Força Especial de Bombeiros e de um carro da Associação de Bombeiros Voluntários de Monchique, entretanto desviado para debelar uma projeção no sítio do Pomar Velho, permitiram controlar a situação na zona Poente da vila (imagem 4). Na hora e meia de maior aflição fomos abordados por quatro militares da GNR para abandonarmos a nossa casa e o espaço aberto do Colégio de Santa Catarina, porém, perceberam que estávamos ali para ajudar e não houve detenções ou evacuações forçadas.
  
Imagem 4. Vista da minha casa sobre o Cerro do Convento, o pior já tinha passado (6-ago-2018).

Após o episódio anterior a vila ficou às escuras com o corte de energia da EDP. Permaneci na zona da minha casa para me assegurar que não havia reacendimentos ou mudança de direção do vento e a maior parte do nosso grupo foi para o Bairro da Ceiceira para colaborar com os populares e as autoridades no que fosse necessário, pois o fogo encaminhou-se para lá. Já madrugada adentro fui buscar os carros para a minha rua e ainda regressei ao quartel para perceber como estava a situação no terreno. Inúmeros focos continuavam ativos no concelho e os bombeiros não tinham mãos a medir.

Terça-feira, 7 de agosto de 2018. Outro dia sem água e agora sem rede de telemóvel; todas as vias de acesso a Portimão estiveram parte do dia cortadas ao trânsito. As frentes de fogo ativas lavraram na Fóia, nas Caldas de Monchique e na Arqueta, em direção à Nave. Múltiplos reacendimentos foram resolvidos pelos meios aéreos ou terrestres em áreas que já tinham ardido parcialmente. Neste dia fiquei, essencialmente, pelo quartel na ajuda ao setor da logística e, ao que me foi possível acompanhar, a vila de Monchique passou ao lado dos sobressaltos vividos nos dois dias anteriores. O mesmo não podemos referir em relação à generalidade do concelho.

Quarta-feira, 8 de agosto de 2018. Com a situação aparentemente mais calma na vila e com o regresso de um ar mais suscetível para respirar, desloquei-me a Portimão para ir buscar a família. O caminho no sentido de Alferce – Laranjeira – Rasmalho foi percorrido de coração apertado (imagem 5). Enquanto fui e vim, o incêndio não deu descanso aos bombeiros nas zonas da Foia, Caldas de Monchique, Barranco do Banho e Nave. Mais a Sul, as chamas dirigiam-se a Silves, ameaçando a povoação de Enxerim. A tarde foi passada em limpezas. A quantidade de cinza, folhas queimadas e cascas de diferentes tipos de árvore retirada do quintal foi considerável. No interior da habitação, a cinza penetrou em todas as divisões com janelas.

Imagem 5. Panorama do miradouro da Pedra Branca, Alferce (8-ago-2018).

Quinta-feira, 9 de agosto de 2018. A manhã foi passada no quartel, período com atividade mais moderada relativamente ao início da semana. O horário do almoço acarretou um serviço mais intensivo, fruto da distribuição de muitas refeições ao mesmo tempo, mas como tive de me ausentar para ir a Portimão, não experienciei essas dificuldades. O dia foi de resolução, embora se tivessem verificado reacendimentos na zona da Palmeira, Foia e Nave, ocorrências estas prontamente solucionadas pelos bombeiros e GIPS.

Sexta-feira, 10 de agosto de 2018. O dia mais calmo da semana, com ações de resolução por parte dos bombeiros e forças militares em reposta a alguns reacendimentos. A frente de Silves concentrou as principais preocupações do posto de comando. No quartel dos bombeiros foi dos dias mais tranquilos que vivemos durante a semana. Alguns operacionais dos bombeiros, GIPS, GNR, exército e forças especiais do exército começaram a desmobilizar e a regressar a casa. O teatro de operações perdeu fulgor e a vila retomou algumas das suas atividades quotidianas, não todas.

Longe de pretender apontar o dedo a quem quer que seja, caberá às autoridades competentes apurar responsabilidades. À semelhança de muitos populares senti-me desprotegido, em risco e sem o apoio que seria de esperar no interior do perímetro da vila (i. e., bombeiros e carros de combate). Fui convidado a deixar a casa por mais do que uma vez mas, no nosso caso, reinou o bom senso dos agentes da autoridade. Apesar de toda a tristeza e revolta que acumulámos, é tempo de nos reerguermos e lutarmos por um concelho renovado e com mais vitalidade. Decerto que não será fácil para aqueles que perderam tudo, ainda para mais quando não vão para novos, mas nunca os tempos foram tão urgentes para que a comunidade monchiquense se envolva em prol de um bem comum. Sarar as feridas e renascer Monchique não é um trabalho para um ou para outro, é um trabalho de todos e para todos (imagem 6).

Imagem 6. As "cicatrizes" da Picota como consequência do incêndio que lavrou Monchique.

Aproveito o ensejo para agradecer a todos os operacionais que colaboraram para que esta semana fosse o menos trágica possível. Aos bombeiros, forças especiais, GIPS, GNR, exército e todos os populares e técnicos que se voluntariaram e abnegadamente deram um pouco de si a esta missão, o meu sincero OBRIGADO!

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